multiflorafernandopolis, natureza abstrata 18

Atento, observando a natureza, num átimo, enxergo decálogos e princípios.

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Ser panteísta não é coisa para se perder ou se distrair nos capítulos das histórias dos outros; é segredo para se guardar no coração. ‘Deus é natureza’, a definição clássica de panteísmo, é precisa, porém basilar, prosaica. Assim como um santo visionário poderá descrever a sua experiência do divino de mil e uma maneiras, no estilo das mil e uma igrejas, um panteísta, igualmente, poderá faze-lo, sendo o templo vasto como a natureza, o globo-um colorido, verde e azul e a abóbada da catedral, o céu do dia e da noite. Trata-se de uma relação imediata com o todo, sem sacerdotice alguma. Para o panteísta o templo é a natureza e o ar do tempo o sacramento.

Não é que a ‘causalidade’, o inato que a nós correlaciona e refere em termos de corpo, forma, gênero e humor, igualmente, arquitetado em nosso entorno,  incluído nas circunstâncias e nas redes das histórias e das geografias, em mil lugares e direções, não esteja. de alguma forma, determinando o que fazemos e laboramos. Ter nascido em Paris, Texas ou France; em Recife, Brasil, ou Cuzco, Peru, existe como algo dado e já posto na mesa dos trabalhos, sim, claro! Mas, para nós, as formas não se analisam estruturadas e calculadas para significar um mais ou menos, sejam benções ou fatalidades resultantes de processos ajuizadores e distribuidores de ‘merecimentos’, em modelos judiciários que só podem ser reduções, antropocentrismos, ‘projeções bancárias’, como diria o pedagogo Paulo Freire – um entendimento a posteriori! É que para nós, fiéis dessa Igreja Pan, a geografia, história e cultura, seja dessa ou daquela cidade, neste tempo ou noutro, vem depois do impacto fundador. A base existencial, batismal, do panteísta, é natureza, antes de ser história ou cultura.

Antes disso, primeiro, há sempre a atuante e central força e impacto da vida que explode dos mistérios e do ignoto, incessante. Entendemos isso, como o toque do coração batendo o ritmo. O fundamento em termos ontológicos, o sacramento em termos metafísicos: é um fenômeno psicofísico que suplanta na sua originalidade o que se pode pensar e ajuizar a respeito do fenômeno viver, existir! Antes de pensar-se a respeito, existe-se essencialmente, de graça e sem razão conhecível, esse mistério central confrontado a cada passo no jardim, onde se olha uma rosa, que é uma rosa, simplesmente, é espantoso. A surpresa inexaurível frente ao improvável da vida é referência do ânimo panteísta.

Essa marca nativa é nossa! É a saga dos poetas! Como não sentir? Antes de ser contador de histórias, o panteísta é um poeta, aquele que desfoca o olho e entreabre a boca num sorriso apenas esbouçado, antes de se expressar: é autor das suas falas e pensamentos cujas origens não se sub-rogam a nenhuma história, por mais tradicional que seja. Panteísta é algo selvagem que não suporta cabresto. Mas não é ‘selvagem’ por que referente às histórias indígenas e de pessoas que viveram antes e nas margens da cultura dos consumidores globais, devorando o planeta como gafanhotos enlouquecidos: isso seria algo recontado por um civilizado a respeito dos ‘selvagens’ e indígenas. Os salmos panteísticos são matérias primas que se burilam na boca de quem fala. As referências culturais são anedóticas.

As histórias que se fazem, lembram, reportam e narram, assentam num terreno de força viva que as acolhe e fertiliza desde o começo. Esse terreno de força plena é o ânimo do poeta, que não sendo destemperado e condicionado por história alguma, não se rende, não se inverte, é sempre autoral, de improviso. Mas o que diz então esse poeta, esse Ser Panteísta? Ele chama o que se vê, o que aparece, o que vem, evoca o mais singelo de tudo, aquele que o outro confere e já sabe sendo o que é, vivendo o que vive. Ele brinda um vinho que igualmente existe na taça do outro e que por isso faz sentido e tem sabor imediato. Tudo é claro porque evidente e sentido com gosto e sabor.

Possivelmente, recebemos o dado-a-ser que natura em torno de nós e dentro, reunindo os corpos em um sistema orgânico universal, numa trama, com a singeleza de crianças, sempre acordados nesse processo, recebendo a vida e suas formas de chofre, como existem, transmutantes desde o começo: acolhendo sem julgar, comparar ou se deixar impressionar por valores contados e pesados em termos de haveres, conjugados nos acordos do ter e nos posterioris da memória e contabilidade.

Para começar, sentimos, talvez como crentes destituídos de pudores, ter sido engendrados por amor, bem na massa, na essência, verdade perene, fato inelutável, transitivo em quaisquer circunstâncias! Sabemos nascer, de certa forma sem parar ainda, em glória, marca e fundamento do real por onde tudo brota, até mesmo o ‘surreal’ se houver – quem sabe? É o ponto original que não se consegue esquecer, como um sorriso ou o brilho de um olhar! Lógico, os sofistas poderão afirmar tratar-se de mera ‘opinião’, poética talvez, mas sem praticidade – nascer eternal!? Pouco importa o que pensam! Não se trata de algo que colocamos no mercado e no campo das dúvidas, é uma marca panteística sentir esse nascer que se renova glorioso, evanescendo e colapsando todos os dias – lembrando, esquecendo, aprimorando tudo o que se pode pensar. Integrantes dessa igreja estamos em lua de mel com a vida, sentados no centro do destino, sentindo as rédeas nas mãos, a carruagem em ordem e a viagem sempre no começo, a voz exclamando como um aboio: êi, oh, avante!

Não somos messiânicos, por isso pouco importa se alguém imagina ser desprovido dessa marca naturalista e ter sido criado por acidente, ou até mesmo sentir esse nascer como algo sombrio: desde as profundezas, ter sido lançado nas escuridões esfincterianas como uma ventosidade! Que seja! Opinião! Talvez, opinião mesmo, insensata! Silenciosamente, além dessas catequeses medonhas que querem fazer as crianças acreditar ser concretudes ínferas, nós, senhoras e senhores, temos certeza que deve existir algum grau de ‘apoesia’, uma pitada de ingratidão, de cegueira até, uma forma de embotamento nesses julgamentos!

Afinal, até um raio de luz percutindo uma gota de orvalho pousada numa flor, uma pedrinha de cor pastel realçada no toque da umidade da manhã, pode ser o início de uma maravilhosa aventura estética, um levantar do ânimo num voo belíssimo, um gesto, sendo feliz, ampliando, fermentando até desenhar esse Belo e explodir num riso e abraço alquímico como um jorro criativo: uma expressão, um modo gratuito de existir que pode fazer uma diferença essencial, logo nos primórdios, levando esse ‘fluxo vital e psicofísico’ a rolar nas campinas, numa correnteza que deságua das montanhas até uma praia bela e muito digna, que, talvez, não se revelaria não fosse esse ‘saber ver’ amante e nativo, encantador e glorioso.

Mas por que esse gozo embutido na visão, essa felicidade do olho e do toque? Será um gênero, um traço, uma espécie de ser, um tipo de ancestralidade, a floração de uma semeadura de algum tipo mais raro, mas libidinosa? Algo nascido vindo de alhures, herança viva dos maias, dos incas, dos indígenas, do antes-mítico? No mito que crio, misturando tudo, talvez sejamos anjos alados com Isis, visitando terras, corrigindo mil e um reinados? Olá, olé fantasia! Fantasia que ri e que dança! Não, não e não! São histórias! O real é bem mais simples, mas, não menos Belo! Somos resultados da junção unitária de duas coisas primárias e acolhidas numa forma única que gesta e fermenta, somos vinho, néctar – como logo aprendemos, de alguma forma, reconhecendo essa praxe universal como a grande coordenada original dos demais princípios: alquimia!

Sabemos, porque vemos o copo receber a água; sentimos o garfo entrar na boca e nos alimentando! Vemos o pássaro entrar no ninho, pondo ovos de onde nascem novos pássaros que logo voarão, entoando cantos belíssimos! Testemunhamos a chuva do regador cair na terra se abrindo em flores! Até coisas mais difícil de se ver: o casco de um cavalo bater nos seixos dos caminhos saltando faíscas! Vimos flores virar frutas, sementes transformar-se em flores frutificando as mesmas frutas! Por isso, conhecedores desses grandes mistérios e maravilhas, sabemos desde sempre que vida é força, fogo e luz, é canto vivo e Belo: ah! Oh! é o nosso grito, a nossa chamada primordial: o início de tudo o que é, para sempre e sempre início de tudo.

Por isso é impossível romper esse núcleo onde tudo colapsa esférico e redondo no momento que é, onde se nasce a toda hora, onde se concentra e agrega toda a vida que martela a força e a luz original, a toda hora. Será que somos débeis? Sujeitos incapazes de transcender nas curvas das sofistarias, das somas e das divisões, das aritméticas e gramáticas, esse limbo indefinido, essa massa psicofísica nuclear, essas fronteiras equívocas onde as coisas já são, mas ainda sem definições, inacabadas, em criação, naturando ainda, eternamente vindo-a-ser? Será que somos como crianças ainda grudadas perto da fonte, reinando nos braços da grande mãe, imaginando estar no centro do mundo, coordenando o cosmos? Malucos validando os ditos de certos filósofos, insanos que imaginam o cosmos como um volume, uma bolha infinita de margens diáfanas e inalcançáveis cujo centro esteja, justamente, no nosso próprio coração, motor batendo o ritmo da vida desde sempre.

Como entronado dessa forma – sendo ingênuos, que seja – e nessa posição entender as coisas de fora? Como se tivéssemos postos sapatos de couro, saídos do que é primo, sensível e original, para entrar numa ideia matemática e posição gramatical, lugar sem toque, ideal, e, fascinado nessas beiradas hipotéticas, exorbitando, mirando as coisas como fora de nós e separadas das nossas consciências que abrigam o mundo, alinhadas como soldadinhos, focando e distorcendo o espaço e o tempo, até não ver mais a curva da esfera mostrando que tudo se une e reúne: imaginando tudo separado por estar imaginando ser separado, efetivamente, narcotizado em ideias, mitificando a praxe de engavetar pedregulhos como a arte das artes, a maior de todas?

Como enxergar sem glória, deixando de ver nas gotas de orvalho e nas lágrimas das despedidas, o brilho do arco-íris, para retraído nas gramáticas e calculadoras, da beirada da arena sempiterna da vida, ver ali uma idade de ferro, lá uma de bronze, prata ou ouro, imaginar estar transitando por lugares tracejados a partir de coordenadas hipotéticas e sem sabor, descortinadas nas escolas laicas e esotéricas, bem depois de ter nascido? A vida é o nascer perene dessa fonte de tudo quanto há, até mesmo dos delírios dos que temem desertar da sua pátria, o lugar nativo de tudo, o presente em torno do qual gravita todas as hipóteses, de onde irradia todos os raios, de onde se pode, à vontade, como se quer, ser agora mesmo, ferro, bronze, prata ou ouro, maia, inca, indígena, condor, águia e cabra montanhesa, o que for!

Como deixar de ser original, o que de fato se é nesse sempiterno atual, para ficar encostado e posto nas beiradas, do lado de fora, rodando em torno do pote e da fonte, levado nas lendas dos que não vivem com medo de se reconhecer como coisas fenomenais, transmutando e forjando vida com sopro, sangue, corpo e fogo, no vasto cadinho central, imenso e sem tempo.

Aqui, nesse templo, não se enfumaça o que é em algo que ‘vai ser’ de acordo com lendas que só se contam sentados de fora, perdidos em ideias e hipóteses onde só se é o que determinam os postulados dos que vivem antes ou depois, dormindo a contratempo: tempo valente e bravo que estamos cavalgando neste momento, traçando aventuras nas quais somos aqueles que determinam a idade em que se vive, sabendo que não existe idade a não ser a que bem se quer, ama e deseja. Isto, leitores, é um pouco do que é ser panteísta.