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Das nobres verdades, colcha de retalhos ~ The Noble Truths, a Patchwork

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Regis Alain Barbier

No experienciar da vida algumas coisas são dignas de consideração, certas opções são básicas, por exemplo, agir com prudência.

Capital é reconhecer a vida é como ela é, não como gostaríamos que fosse, ou pensamos que deveria ser; existimos de uma certa forma e não de outra, um ponto extensivamente enfatizado pelos pensadores estoicos. Igualmente capital é reconhecer, como Heráclito e os pensadores taoístas, que estamos dentro de um fluxo ou processo em constante reconstrução, portanto algo dado-a-ser e para-fazer; nesses termos, evidencia-se que a vida é complexa e abrangente o suficiente para, certamente, justificar qualquer apreciação de valor.

*      A vida é surpreendente e complexa, passível de infinitas apreciações, sejam elas positivas ou não;

*      A existência é um processo mutante, de certa forma único para cada um, ímpar, um dado-a-ser e fazer onde tudo se transforma e se reconstrói de modo continuado;

*      Optando por uma vida proativa, é possível através de buscas e decisões, expressões e ações, operar mudanças no processo existencial; por isso, é sensato achar a vida potencialmente feliz, boa;

*      Construir uma vida amável e feliz é possível, caminhos existem.

Optando por apoiar e dar suporte à experiência vital, melhor será achar bom viver, isso, porque bom é bom, ruim é ruim e que, no fim, só vale a pena viver achando bom.

É importante enfatizar e compreender que o processo existencial é o momento atual, lugar onde colapsa a nossa própria identidade e origem; antes de identificar-se com narrativas culturais, afirmações ou sinais elaborados por outras pessoas e impressões batismais, somos atualizações do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

*      A nossa origem e identidade afirmam-se como atualização do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

Reconhecer a existência como um fenômeno radical, acontecendo no arco criativo da natureza cósmica, entre o mundo e a consciência, permite operar modos existenciais mais construtivos e ricos, caminhando em busca da otimização da vida e da felicidade. Nesse processo, é sábio compreender e realizar que, apesar do fluxo e processo constante de transmutação, a realidade das formas perdura suficientemente constante para possibilitar experiências válidas, significativas e dignas. As árvores vivem décadas, assim como os humanos; a beleza da natureza, o relevo das costas, vales e montanhas, a constância geral dos climas permanecem e duram mais tempo de que o sucedimento de muitas gerações de criaturas da fauna e da flora. Além de preparados para as mutações precisamos estar preparados para a duração dos fenômenos, aproveitar bem as duas coisas de acordo com uma justa medida.

Nessas circunstâncias onde a vida pode manifestar-se com todos seus potenciais de beleza e prodigalidade, onde se equilibram duração e mutação de modo bastante adequado em relação à nossa longevidade, beneficiando-se de criatividade e saúde, de educação e virtudes morais, igualmente, de uma construção societária ecológica, humanista e dialógica, com tecnologias e saberes suficientes, é possível acolher  e construir a vida como  um processo agradável, ocasionalmente excelente. Diversos cadernos de antropologia apontam etnias vivendo felizes e bem sucedidas em condições naturais; o que não é de se surpreender: se a vida existe é porque  encontra meios e recursos para bem existir.

Até mesmo uma pessoa nascida sem planejamento, logo, não necessariamente bem recebida, poderá lembrar experiências naturais de intensidades magníficas, extasiantes até; fazer dessas recordações sinais apontando para essa possibilidade de felicidade, prodigalidade e plenitude. Se não estamos no momento no lugar de poder avaliar o processo existencial dessa forma mais feliz, não é porque não possa ser; não estamos conseguindo encontrar a maneira de evidenciar e provar esse sossego, beleza e grandeza nas configurações em que vivemos.

É notório que diversas religiões e filosofias partem de princípios aparentemente contrários aos que aqui se enunciam, como certas interpretações e ênfases do budismo onde se exaltam o sofrimento; mas, observando melhor, o enquadramento existencial onde tal parecer se justifica não pode ser considerado natural, mas induzido culturalmente: Sidarta foi criado num castelo ilusório, artificioso e falsificado. A vida pode tornar-se difícil, exponencialmente, motivando pareceres excepcionais, quando grosseiramente deturpada por intermédio de arranjos societários inferiores ao mais sábios e mais representativos da especificidade e dignidade típica do homo-sapiente quando vivendo em condições de liberdade, com acesso irrestrito ao conhecimento e aos recursos que a vida e os intercâmbios honestos e sinceros possibilitam.

As dificuldades e desencontros entre os desejos e a vontade; o corpo, os sentimentos e as ideias; as ofertas e as demandas, com reflexos incômodos que resultam em desarmonias, morar e trabalhar em lugares julgados inadequados, fazer o que deveria ser a atividade principal como um simples hobby e passatempo domingueiro, outros desvios, até mesmo demandas de sacrifícios, são, principalmente, instituídos em disfunções precoces e desrespeitos originados em processos impositivos resultantes de culturas artificiosas fundamentadas numa falsa percepção e compreensão da vida, da natureza e da existência.

Mesmo vivendo rupturas culturais tensionadas entre o que se imagina dever ser uma sociedade tribal natural e o que, intuitivamente, se sabe possível na vigência do respeito sábio ao outro e à natureza considerada igualmente importante ao mundo das ideias, ainda assim, habitando em contextos fracionados, em colchas de retalhos, podemos encontrar períodos de felicidade e um grau significativo de plenitude vivendo eventos e momentos integrativos em tempos e lugares distintos, como interrupção, mas assim mesmo apreciando a unidade subjacente. Persistindo na busca, escolhendo bem, desenfatizando as demandas culturais insensatas, entrando em contato com a própria intuição, respeitando cada vez mais o sentimento próprio, ordenando com prudência e harmonia as peças soltas do mosaico, poderemos viver uma grande vida pacífica e rica – tempo não falta.

 

The Noble Truths, a Patchwork

During life´s experiencing, a number of things are worth considering, certain options are basic, such as prudently acting, for instance.

Of special importance is to acknowledge life as it is, not as we would like it to be, or think how it should be; we exist in a certain way and not in another way, a point excessively stressed out by the stoic thinkers. Equally important is to recognize, as Heraclitus and the Taoistic philosophers, that we are within a constant rebuilding flow or process, therefore, something given-to-be and to-be-done; under these terms, it´s evidenced that life´s sufficiently complex and comprehensive to, certainly, justify any value appreciation.

*      Life is amazing and complex, subject to endless appreciations, either positive or not;

*      Existence is a mutant process, in a certain way unique to each one, an unpaired given-to-be and do where everything is continuously transformed and rebuilt.

*      When one chooses a proactive life, it´s possible, through searches and decisions, expressions and actions, to operate changes in the existential process; thus, it´s reasonable to think about life as potentially happy, good;

*      To build a lovable and happy life is possible, ways exist.

Choosing to support and give support to life, it will be much better to find out it´s good to live, because good is good, bad is bad, and that, at the end, it´s only worth living when you think it´s good.

It´s important to emphasize and understand that the existential process is the present moment, place where our own identity and origin collapse; prior to identify itself with cultural narrations, assertions or signs worked out by other people and baptismal impressions, we are an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

*      Our origin and identity affirm themselves as an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

To acknowledge existence as a radical phenomenon, happening in the cosmic nature´s creative arc, between the world and consciousness, allows more constructive and richer existential ways to be operated, following in search of life´s and happiness´ optimization. In this process, it´s wise to understand that, despite the constant transmuting flow and process, the reality of the shapes endures sufficiently constant in order to make possible valid, meaningful and worthy experiences. The trees live for decades, such as the human beings; nature´s beauty, the coasts´, valleys´ and mountains´ reliefs, the climates´ general constancy remain and last more time than the succession of many generations of living beings, fauna and flora. Besides being ready to these changes we ought to be prepared to the phenomena´s endurance, to make good use of both things in accordance with a righteous measure.

On these circumstances where life may manifest itself with all its beauty and prodigality potentials, where duration and mutation counterbalance themselves in an extremely adequate manner in relation to our longevity, taking advantage of creativity and health, moral education and virtues, and equally of an ecologic, humanistic and dialogic social construction, with sufficient technologies and learning, it´s possible to welcome and build life as an occasionally excellent pleasant process. Several anthropology books indicate ethnic groups living happily and well-off, under natural conditions; what´s not surprising: if life exists it´s because it finds ways and resources to exist well.

Even to a person who was born without being planned, consequently, not necessarily affectionately welcome, it might be able to remind natural experiences of magnificent intensities, even ravishing; to transform these memories into signs pointing to this happiness prodigality and plenitude possibility. If we presently aren´t in the place of being able to evaluate the existential process this happier way, it´s not because it can´t be; we aren´t able to encounter the way to evidence and prove this peacefulness, beauty and grandeur in the configurations we live in.

It´s widely known that several religions and philosophies start from principles apparently contrary to those uttered here, as certain Buddhism´s interpretations where suffering is strongly emphasized; but, better observing, the existential framing where such opinion is justified can´t be considered natural, but culturally induced. Siddhartha was raised in an illusory and falsified castle.

Life can become difficult, exponentially, motivating exceptional opinions, when roughly distorted through lower social arrangements far away to the wisest and most representatives specificity and dignity typical of the ‘homo sapiens’ when living in freedom conditions, with unrestricted access to knowledge and resources that life and the honest and sincere interchanges make possible.

The difficulties and divergences between the wishes and the will; the body, feelings and ideas; offers and demands, with troublesome reflexes resulting into disharmonies, to live and work in places judged inadequate, to do what should be the main activity as a simple Sunday hobby and amusement, other deviations, even sacrifice demands, are, chiefly, established in precocious dysfunctions and disrespects originated in a fake perception and comprehension of life, nature and existence.

Even living cultural disruptions tensioned between what one imagines a natural tribal society should be, and, what is intuitively known to be possible living under wiser society’s circumstances where our equals and nature, both, would deserve the same respect, equally considered important as the world of ideas; even so, inhabiting disrupted contexts, as a patchwork, we can encounter happy moments and meaningful degrees of plenitude, living several integrative events in different frameworks, times and places, interruptedly, but even so, evocating and appreciating the underling unity. Persisting with the search, choosing well, not stressing out the unreasonable cultural demands, entering into contact with the intuition itself, respecting even more the self feeling, prudently and harmoniously ordaining the loose pieces of the mosaic, we will be able to live a great, peaceful and rich life – time we have enough.

 

O Budismo dos Himalaias ~ The Buddhism of the Himalayas

 Religiosidade celebrante ou salvatéria?

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Régis Alain Barbier

As diversas religiões são exercitadas para curar desencontros igualmente estruturados; falta de ajuste e sincronia entre os elementos fundamentais do estado-de-ser; o corpo não coincide com a ideia, o sentimento não afina com a beleza, a vida não é o que poderia ser, desfocada ao ponto de se perguntar, “estarei acordado ou dormindo; o que é realidade; de onde venho, onde estou, onde vou?”. O contexto do desencontro, seus fundamentos políticos, determinam o estilo do remédio religioso. Por isso, todas as religiões carregam em si algo de universal que perdura, mas não podem servir em totum o tempo todo e para todos e quaisquer momentos do espaço-tempo societário; os contextos mudam, as coisas se transformam.

Para que fosse universal, uma religião teria de ser a própria cura e não o remédio; teria de ser uma prática como um serviço cuidadoso, uma decoração bem posta, uma obra de arte, cujo sentido seria sublinhar a verdade, o real, o melhor do dado-a-ser e viver nas circunstâncias dadas; não seria mais uma religião, mas uma consagração. Para se ter ideia do que deveria ser uma religião universal, seria necessário estar livre, desatrelado de compromissos e determinismos étnicos, de alinhamentos históricos e tradicionais; coisas que correlatam a eventos peculiares, menos que universais. Teria de se reconhecer que não seria mais uma religião, mas uma filosofia – um culto ao que é de verdade, belo e pertinente, virtuoso e necessário nas circunstâncias dadas.

Para se ter essa ideia clara, teria de ser humilde, reconhecendo não ser a medida de todas as coisas assentadas nas ideias; teria de enxergar a natureza do estado-de-ser humano; algo bem mais fundamental de que pontos de vista vantajosos, narrativas, historicidades ou perspectivas batismais. Seria necessário reconhecer que a natureza do estado-de-ser humano é antes de tudo a natureza da natureza, portadora evidente de um Logos-inteligência e Ethos-arquitetura intrínsecos e cósmicos, abrangendo tudo o que pode ser pensado no arco da consciência que é do mundo, e do mundo que é da consciência, como dois lados de uma esfera infinita.

Para que essa atividade fosse explicitada e demonstrada como forma espiritualista  essencial, igualmente, uma celebração para quem a praticasse, teria de acontecer em um lugar original como uma civilização primordial, naturalmente enraizada e assentada no meio onde surgiu, ou se fosse o caso, uma civilização antes relativamente esquecida, re-imaginada graças a uma inteligência profunda, capaz de admirar a beleza e grandeza da natureza, a perene essencialidade do respeito e da justa conformação. Indubitável seria uma celebração, coroada de um núcleo de razão natural, de união, paz e amor, que é união bem sentida e apreciada. Antes de tudo um reconhecimento do ser sublime e uno que é a natureza como é; o momentum ideal não seria outro de que o real, não existiria dicotomia entre o intelecto que pensa e sente; esse lado da psique para quem pensar é sentir, para quem o saber pleno é possível porque idêntico a sentir tudo.

Onde tal prática celebrante existiria? Na casa de fantasmas que acreditam seus pensamentos como augures ou coisas sobrenaturais ficados na não existência da morte? Na casa dos que pensam estar pensando separados dos objetos em que pensam, que o pensamento possa ser estrutura independente, algo como um espírito destituído de carne? Certamente não. Esses fantasmas existem venerando os sacerdotes das suas religiões como se fossem seres vindo do além, enviados à natureza em visitas diplomáticas, ou vistos como um time escasso composto dos mesmos raros iluminados; existem, igualmente, esses para quem os sacerdotes são manipuladores de tecnologia e fabricantes de robôs; mas não sabem reconhecer esse plano natural onde ser religioso é celebrar o que é, onde pensar é igualmente sentir, onde rezar é agir, onde viver junto em meio ao dado-a-ser natural é ser salvo.

Essa espiritualidade celebrante só poderia advir e existir em lugares originais, destituídos de desvios, traumas e vícios. Onde existem hoje tais lugares? Existiam nas tribos antes das conquistas superestratificadoras, existem como lugares peculiares aos que se libertaram das suas impressões tradicionais e batismais, dos que morreram para o mundo das suas culturas nativas e similares e que renasceram em si mesmos, no arco do Logos e do Ethos da natureza, encontro onde o mito ou imagem inaugural revelada na fresta virtual da união da consciência e do mundo não é um dedo em riste acusando e banindo, uma pena grafando história, mas um abraço que une e recolhe. Os ditos primitivos, simplórios, as crianças, os poetas os banidos das escolas, cátedras e posições citadinas têm mais chance de compreender e viver essa forma plena de celebração de que quaisquer fiéis do ranking dos que buscam além ou em entrelinhas turvas um lugar para bem ser.

Esses cultos celebrantes correspondem às práticas que se configuraram na Jônia, antes de Sócrates, talvez na China do taoísmo natural e ancestral de Lao-Tsé, nas sociedades agrarias dos primórdios, seria algo como as práticas naturalistas, a arte da dança e do círculo dialógico como existia em certas tribos; seria de um panteísmo pleno e radical, mais talvez do que o de Espinosa, onde à essência não se atribuiria mais potenciais que os demonstrados e cuja primordialidade não fosse extemporânea, de alguma forma transbordante ao que é manifesto, mas o ponto central e mais interno da totalidade dos movimentos possíveis.

As demais formas religiosas de espiritualidade são remédios porque se originam em circunstâncias artificiosas afastadas da ordem e harmonia implícita e explícita resultante da coexistência da estrutura natural com a inteligência plena da criatura; uma ordem que naturalmente se revela a partir do momento onde surge o homo-sapiente que, quando individualmente desperto, se reconhece e se intui presente desde os primórdios, mesmo que não se mencionem, suprimidos das histórias oficiais.

O budismo, mais lúcido e realista que as formas cristãs estratificadas em igrejas de massa, traz elementos similares aos do panteísmo; advoga com clareza a inseparabilidade da consciência e do mundo, colocando nas buscas individuais o poder de ser pleno. Mas, por originar em lugares conquistados, ele é um remédio mais que uma celebração. A universalidade dessa religiosidade é mascarada por pontos de vista e desvios que não assentam nos primórdios da cultura natural e original, mas encontram-se nas culturas grosseiramente superestratificadas, única justificativa a essa grave ênfase no sofrimento.

Poderia algo como o budismo surgir numa tribo da Américas do Sul, no seio da etnia Guarani, como viviam antes da conquista? Não faltariam cultura e complexidade para isso; viver bem na floresta, discretamente, com sobriedade e sem nada destruir é prova inegável de elevada grandeza cultural. Faltariam a esse meio primitivo e original as dores e cicatrizes de conquistas rústicas, a escravidão, o domínio de uma elite grosseira vivendo em castelos cercados, com uma população excluída além das suas muralhas e sugada até a morte. Esse é o lugar em que existe um sofrimento fundamental e onde é possível e justificado tentar firmar um equilíbrio estóico, desapegando a mente das dores e dos prazeres simples da vida, sempre recaindo tendo de refazer tudo como passatempo; isso por duas razões: não há como sair da existência que gira em ciclos e onde a consciência é necessariamente vital e situada, experienciada; não há como permanecer na periferia da roda da vida sem cair no meio, é questão de tempo – por isso o Buda sempre retorna menino, precisando ser reconhecido e carente de educação.

O que gera a ‘roda do sofrimento’ são as condições subumanas de desrespeito inicial. Não há como sanar a estrutura que se quer remediar com recursos gnosiológicos exclusivos. O Pai de Sidarta, rei Suddhodana, líder do clã Shakya, era uma pessoa cruel, o filho poderia ter voltado ao palácio e ter dito: “Pai, como pode ser menos de que sapiente? Abre as portas desse castelo, divide o que acumulou com obras de guerras… Poderemos voltar a viver na sociedade original onde não existia sofrimentos fundamentais, merecendo tanto ênfase e empenho religiosos compensatórios e remediativos”.

Nas tribos, existe o processo existencial que se desdobra, o humor não é de dor, o parto ocorre simplesmente, o primeiro impacto não é o da grandeza artificiosa do interior decorado de um castelo e, nas margens, a resultante ignomínia; existe a visão imediada da beleza e grandeza da natureza e a afirmação inicial é “há gloria, há alegria, há êxtase”. Viver em sociedades conquistadas sem combater o desrespeito inicial, não apresentar uma teopolítica corretora claramente explicitada resulta na reprodução das iniquidades iniciais e, eventualmente,  os teólogos ocupam os espaços dos destronados. Por isso, mais universais de que as abordagens remediativas são as espiritualidades que celebram a grandiosidade do saber não saber dos filósofos.

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The Buddhism of the Himalayas

A praising or a salvationist religion?

The various religions are designed to focus on curing wants and needs that have the same basic components: a lack of adjustment and harmony between the basic elements of the state-of-being: the body does not match up to the idea, feelings are not in harmony with beauty; life is not what it could be, so lacking in focus that one asks: “Am I waking or sleeping; what is reality; where do I come from, where am I going?” The context of these wants and needs, their political foundations, determine the style of the religious remedy. Therefore, all religions carry within themselves something universal which lasts, but they cannot serve in totum the whole time for all and every moment of social space-time – contexts change, and things are transformed.

In order to be universal, a religion would have to be a real cure and not just a remedy; it would have to be a practice, a careful service, a well-placed decoration, a work of art, whose sense would be to underline the truth, the real, the best of the real-as-given. And it would have to live in the circumstances given – thus it would not be just another religion, just another sacrament. In order to have an idea of what a universal religion should be, it would be necessary to be free, liberated from ethnic commitments and determinisms, from historical and traditional alignments, things which relate to specific events, less than universal ones. It would have to be acknowledged as not just another religion, just another philosophy – a ritual which was true, beautiful and relevant, virtuous and necessary in the given circumstances.

In order to have this clear idea, it would have to be humble, recognising that it was not the measure of all things rooted in ideas; it would have to see the nature of the human state-of-being, something a lot more fundamental than serviceable points-of-view, narratives, historicisms or baptismal perspectives. It would be necessary to acknowledge that the nature of the human state-of-being is above all else the nature of nature, manifestly a bearer of a Logos-intelligence and an Ethos-architecture that are intrinsic and cosmic, taking in everything that can be thought in the arc of consciousness that is of the world, and in the world that is of consciousness, like two sides of an infinite sphere.

So that this activity could be made manifest and demonstrated as an essential spiritual form, and equally a celebration for whoever practised it, it would have to happen in a place that was as original as a primordial civilisation, naturally rooted in the environment where it arose, or perhaps in a previously relatively forgotten civilisation, re-imagined thanks to a profound intelligence, capable of admiring the beauty and grandeur of nature, the eternal essence of respect and of just acceptance.It would undoubtedly be a celebration, crowned with a core of natural reason, of union, peace and love, which is a well-felt and appreciated union. Above all a recognition of the sublime and unique being which is nature as it is, the ideal momentum would not be anything other than the real one, there would be no dichotomy between the intellect that thinks and feels – that side of the psyche for which to think is to feel, and for which full knowledge is possible because it is the same as feeling everything.

Where would such a celebratory practice exist? In the house of ghosts that believe in their thoughts as auguries or supernatural things that lie in the non-existence of death? In the house of those who think that they are thinking separately from the objects they think about, that thought can be structured independently, something like a spirit divested of flesh? Certainly not. These ghosts exist to venerate the priests of their religions as if they were beings that have come from the beyond, sent to nature on diplomatic visits, or a sparse team composed of the same rare enlightened beings. There also exist those whose priests are manipulators of technology and makers of robots, but they don’t know how to acknowledge the natural plane where to be religious is to celebrate what is, where to think is equally to feel, where to pray is to act, where to live together in the middle of the natural real-as-given is to be saved.

This celebratory spirituality could only come to be and to exist in original places, without diversions, traumas and vices. Where do such places exist today? They existed in the tribes before the superstratifying conquests, they exist as places peculiar to those who have liberated themselves from their traditional and baptismal impressions, of those who have died for the world of their native cultures and others such and who have been reborn in themselves, in the arc of the Logos and the Ethos of nature. This is a meeting where the original myth or image revealed in the virtual gap of the union of consciousness and the world is not a pointing finger accusing and banishing, a punishment spelling out history, but en embrace which unites and gathers in. Those who are called primitive, children, poets, those who have been banished from schools, professorships and urban positions have more chance of understanding and living this full form of celebration than any of the faithful who seek a place to be well in the beyond, or in clouded spaces between the lines.

These celebratory rituals correspond to the practices which came into being in Ionia, before Socrates, perhaps in the China of the natural and ancestral Taoism of Lao-Tse, in the agrarian societies of the primordial peoples. They would be something like naturalistic practices, the art of the dance and the dialogic circle as it existed in certain tribes; this would be a full and radical pantheism – more perhaps than that of Spinoza, where no more potential was ascribed to the essence than that which was demonstrated and whose primordial quality was not extemporaneous – it would in some ways overflow the boundaries of that which is manifest, but would be the central and most internal point of the totality of possible movements.

Other religious forms are remedies because they originate in artificial circumstances at one remove from the implicit and explicit order and harmony that result from the co-existence of the natural structure with the full intelligence of the creature – an order which reveals itself naturally from the very moment when homo sapiens arises who, when individually awakened, recognises and intuits that he has been present since primordial times, even if these are not mentioned or are excluded from official histories.

Buddhism, more lucid and realistic than the Christian forms stratified in mass churches, brings with it similar elements to pantheism: it argues clearly for the inseparability of consciousness and the world, giving individual searches the power of full being. But, because it originated in conquered places, it is a remedy rather than a celebration. The universality of this religiosity is masked by points of view and diversions which are not rooted in the primordial things of natural and original culture, but are located in grossly superstratified cultures, the only justification for this grave emphasis on suffering.

Could something like Buddhism arise in one of the tribes of South America, in the heart of the Guarani ethnicity, as they used to live before the conquest? The necessary culture and complexity for this would not be lacking: to live well in the forest, discreetly, with sobriety and without destroying anything is irrefutable proof of elevated culture greatness. This original and primitive milieu would not have the sufferings and scars of rural conquests, slavery, the domination of a boorish elite living in castles surrounded by an excluded population beyond their walls and exploited to death. This is the place where there is a basic suffering and where it is possible and justified to try to build a Stoic equilibrium, detaching the mind from the sufferings and simple pleasures of life, always falling back and having to rebuild everything again as a pastime. This is for two reasons: there is no way of getting out of existence, which goes in cycles and where consciousness is necessarily vital and located, experienced; there is no way of staying on the edge of the wheel without falling into the middle, it is only a question of time – that is why the Buddha always comes back as a boy, needing to be recognised and needing education.

What generates the “wheel of suffering” are the subhuman conditions of initial disrespect. There is no way of restoring to health the structure which one is trying to remedy with exclusionary gnoseological resources. Siddharta’s father, King Suddhodana, leader of the Shakya clan, was a cruel person; the son could have gone back to the palace and said: “Father, how can you be less than wise? Open the gates of this castle, divide what you have accumulated with warfare… We can go back to living in the original society where there were no fundamental sufferings deserving so much compensatory and remedial religious emphasis and commitment.”

In tribes, there exists an existential process which takes its course; the mood is not one of suffering; childbirth simply happens; the first impact is not that of the artificial grandeur of the decorated interior of a castle, with at the margins the resulting ignominy; there exists the immediate vision of nature’s beauty and grandeur, and the initial affirmation, which is: “there is glory, there is joy, there is ecstasy”. To live in conquered societies without fighting the initial disrespect, without presenting a clearly explained theo-political corrective, results in the reproduction of the initial iniquities, and eventually theologians occupy the spaces of those who have been dethroned. Thus, those spiritualities which celebrate the grandeur of the not-knowing knowledge of the philosophers are more universal than the remedial approaches.

 

 

 

A glória do Panteísmo ~ The glory of Pantheism

rosabelle

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Ser panteísta é apreciar a existência como fenômeno essencial; trabalhar para que assim seja.

A estruturação da realidade explicita um ordenamento onde se enlaçam, em junção unitária e misteriosa, as coisas do mundo, as sensações e consciência reflexiva, num sistema criativo e estruturações complexas, cosmo-existenciais, sem começo e sem fim detectável. A união dialógica entre o que nomeamos ‘consciência’ e ‘mundo’ parece inelutável à luz da sobriedade da razão; nesse fundamento, na fresta desse mistério, reside a essência do real, mistério perene e estrutural; o confronto com essa essência, além de quaisquer denominações e distinções, é a graça dos que vivem em busca de lucidez, a honra dos artistas e poetas.

Os indivíduos de todos os reinos e espécies surgem na espessura do cosmos; o infante nasce expressando processos de transformações continuados onde coexistem os contextos, pais, irmãos e onde se festejam os ancestrais. Tudo o que se conhece e experiencia do mundo comprova-se na vitalidade de indivíduos imanentes, oriundos da estrutura biofísica, nascidos entranhados na criatividade cosmo-existencial, em encontros conjuntivos em que o mundo e o sujeito se revelam, atualizando potenciais. O mundo com a sua arquitetura de paisagens, a flora e a fauna, revela ser um único corpo em que brotam indivíduos que extrapolam o perdurante momento original, imediato e consciente, em extensões criativas e imaginárias de passado e futuro subjetivos; um movimento em que a força vital adapta as estruturas desse corpo infindo e mutante, e a intuição filosófica reformula a cultura que se reencarna e renova. Tudo o que foi dito, pensado, imaginado, suposto, escrito, representado, foi expresso e afirmado por indivíduos nascidos das estruturas do cosmos em que tudo se cria e eternamente se reformula.

A capacidade distintiva da consciência nasce e evolve com o mundo, é o que existe de mais original e imediato, de mais admirável; permite reconhecer o que se é em fronteiras criativas onde se delineiam aquele que se individualiza e o que se faz outro. Existe-se como estado-de-ser ou consciência situada no mundo; existir só acontece na intersecção do mundo e da consciência, onde o mundo é da consciência e a consciência é do mundo, em crescente complexidade. Existir manifesta a intersecção do mundo e da consciência e não parece ter limites, começos ou fins, nem no sucedimento genealógico das criaturas, tampouco no fluxo da matéria-energia ou da imaginação; trata-se de um fenômeno unitário e transmutante de ordem cosmo-existencial. Nesse ordenamento continuado, de acordo com os pontos de vista, criatividade e recursos dos que pensam, aprecia-se o fluxo do pensamento que não finda, igualmente, a ordem da matéria-energia que se transmuta e se manifesta na infinita sequência das formas. Nas conjunções desses infinitos fluxos de sentimentos, pensamentos e de partículas, nos confins mais extremos dessa junção, ou no centro mais íntimo, onde se existe tocando, pensando e sentindo, surpreende e espanta essa interação , união criativa e paradoxal, do mundo e da consciência.

Viver bem, no lugar em que se existe, demanda aceitar e reconhecer a sua integração no contexto; existir à luz da razão natural é ser consciência integrada ao mundo e mundo integrado à consciência numa grande conjunção e reciprocidade estrutural e fundamental em que a existência se reconhece como agregação de corpos, sentimentos e pensamentos entremeados, uma trindade conjuntiva que perfaz o estado-de-ser. O estado-de-ser – a circunstância existencial ou dado-a-ser – afirma igualmente o Logos-inteligência e Ethos-arquitetura da natureza, é a pauta onde se delimita a medida de todas as coisas, das que existiam, existem e existirão; sendo o Myhtos que se cultua o regente da harmonia ou desarmonia que impera nas sociedades. Um bom mito deve afirmar essa natureza integrada do estado-de-ser, gerar uma cultura sincrônica e harmoniosa; um mito que renega as evidências naturais para relativizar sentidos existenciais em representações de anseios culturais, trai e deturpa a humanidade verdadeira cuja vocação é ser razoável de acordo com a sua natureza. Tentar viver no contexto desconsiderando as fundamentações e ontogenias mais evidentes, imediatas e originais, a favor de ensejos fantasiosos e recusas, é aventura destinada ao fracasso; é abandonar a ordem diretora da justa e sóbria conduta, o bom senso empírico, a favor de crenças, encenações culturais e dogmas. Até provar em contrário, comportar-se como se a consciência fosse dissociada da existência e do pensamento, das sensações das ideias, dos objetos dos sujeitos que são lados impreteríveis de um mesmo fenômeno vital, é insano: no plano da realidade cosmo-existencial não se permanece inteiro e lúcido almejando rupturas e louvando dicotomias.

Construções teológicas ou religiosas fundamentadas na hipótese de existir distinções radiais e rupturas objetivas nas fronteiras interativas e dialógicas entre os corpos, os sentimentos e os pensamentos, elucubrando a ideia de um pensamento e de uma consciência puros, de um espírito separado do mundo, ou sobrenatural, não reportam à realidade que se experiencia e comprova, mas a desejos e fantasias que não se conformam com o dado-a-ser. Os que acreditam em rupturas profundas e polarizações que não pertencem à experiência possível, mas ao reino do desejo, não realizam os objetos das suas fantasias, a não ser nas suas imaginações; anjos não descem, a não ser como boas ideias aladas, messias não vêm, a não ser como reconhecimentos construtivos.

Frente ao dado-a-ser, duas apreciações existenciais são possíveis: empatia ou antipatia. A resposta empática é natural e harmoniosa; somos o que somos, não há razão para contestar ou discordar; sendo continuada, a realidade carrega em si o mistério da essência, da vitalidade e dos potenciais nas suas expressões. A reação antipática pode resultar de motivos acidentais, de confrontos existenciais mais duro, gelados e secos; mas fugir do confronto com o real esperando um outro mundo além dos portais da vida manifesta, viver em função disso, renegando as evidências sensíveis e as glórias de ser natureza, apostando nas narrativas dessa ou daquela tradição, é viver em função do que outros supuseram, concordar com dogmas escapistas e renegar, em totum, a si mesmo e o real em todas as dimensões. Aceitar com simpatia, harmonia e sincronia o estado-de-ser é viver na atualidade e pôr-se no centro da vida como ela é; buscar um sentido vigoroso, entusiasta e glorioso para esse processo infindo e vital, cosmo-existencial, em que nascemos entranhados em imanência absoluta, é obra espiritual de máxima grandeza.

Usufruir da capacidade de se surpreender frente ao mistério que se revela em todos os encontros – admirando a beleza das flores, o brilho do orvalho, o sorriso dos amigos e dos que se amam, é fácil e natural como respirar fundo o ar da manhã. Ajuntar a visão do belo a imensos sentimentos e à capacidade de abstrair formas e pensamentos, em direções poéticas, revela geometrias visionárias que não cessam de florir, expandir e crescer como árvores que rebrotam das suas próprias flores. Sentir-se pleno e fecundo, confortável, vivendo nesse centro criativo e infinito que transmuta sem cessar, fiel depositário de mistérios cuja essência reside no intervalo onde se flexionam e recriam todas as formas e ideias, é natural como o gorjear dos pássaros ou o perfume das flores. Ser espiritual é vislumbrar e louvar esse processo de eterna glória, ajuntando a morte e a vida, a juventude e a maturidade num único círculo espiral que transforma o estado-de-ser na origem e identidade mais perfeita nas circunstâncias dadas.

O valor profundo atribuído à existência é o fundamento onde enraíza a criatividade humana; qualificação onde o que se pensa do mundo revela ser o que se pensa de si. Somos um evento cosmo-existencial de sublime grandeza que pode e deve ser celebrado como natividade cósmica! Nascemos aninhados e alimentados no seio da natureza, marcados e selados pelo amor dos pais e dos ancestrais. Sentir a beleza, o belo, consagra o reconhecimento pleno, agradecido e jubiloso da unidade e do amor que nos gera, da paz que nos nutre. O sofrimento só existe ao lado do prazer, não há sofrimento absoluto que invalide a grandeza e beleza imediata de ser como se é, mergulhado na vida e sua impreterível imanência.

Como demonstra a história dos povos e nações – para quem se der ao trabalho de examinar – achar-se nascido como fenômeno natural e expressão digna da essência universal, totalmente integrado, é melhor e mais produtivo de que achar-se banido e refutado, desprivado de intuição e dependente das escrituras, dos ditos, tradições e pareceres dos hermeneutas. Para os que visionam o ser humano sem as suas dimensões naturais e cósmicas, como mero agente subserviente de alguma cultura, com o pensamento modulado, tipificado e estruturado de acordo com os rumos da academia, incapaz de ver as coisas como são eternamente, na luz da consciência imediata, restam os consolos oferecidos pelas seitas, partidos e as glórias da cidade.

O conhecimento e sentido possíveis não se locam no passado ou futuro, mas no coração de quem sabe sentir o presente com empatia amorosa. Esse é o sentimento dos que vivem além das muralhas da poderosa Roma, dos indígenas, dos artistas e dos poetas, das crianças, dos que praticam a arte da filosofia, da sabedoria e da estética, das virtudes cardeais; de todos para quem amar não é apenas caridade, mas sim um talento real e efetivo com luz e paz suficientes para afirmar felicidade aqui e agora, na origem e identidade viva do estado-de-ser.

The glory of Pantheism                                                                                                 

To be a pantheist is to appreciate existence as an essential phenomenon.

The structuring of reality makes explicit an ordainment where, in a unitarian and mysterious junction, the things of the world, sensations and reflexive conscience entangle themselves in a creative system and complex structuring, as an existential-cosmos, without a detectable outset nor end. The dialogic union between what we name ‘conscience’ and ‘world’ seems ineluctable at the light of the reason´s sobriety; based on this ground, resides the essence of the real, perennial and structural mystery; the confrontation with this essence is the glory of those who live searching for brightness, the honor of artists and poets.

The individuals from every kingdom and species emerge in the denseness of the cosmos; the infant is born expressing continued transformation processes where the contexts coexist, fathers, brothers and where the ancestors are celebrated. Everything one knows and experiences from the world is evidenced in the vital force of immanent individuals, deriving from the biophysical structure, born firmly imbedded into the cosmos-existential creativity, in conjunctive encounters where the world and the subject are revealed, actualizing potentials. The world with its landscape architecture, the flora and fauna, reveals itself being the only body where individuals emerge extrapolating the enduring original, immediate and conscious moment, in creative and imaginary extensions, subjective past and future; a movement where the vital force adapt the structures of this endless and mutant body, and the philosophical intuition reformulates the culture that renews itself. All that has been said, thought, imagined, supposed, written, represented and asserted by individuals is born from the cosmos structures where everything is created and eternally reformulated.

The conscience distinctive capacity comes to light and evolves with the world, this is what exists of most original and immediate, of most admirable; it allows to acknowledge what one is in creative frontiers where he who individualizes himself and he who becomes another one are delineated. One exists as a state-of-being or conscience situated in the world; existing only takes place in the intersection of the world and of conscience, where the world belongs to conscience and conscience belongs to the world, in increasing complexity. Existing is manifested in the intersection of the world and  of conscience and does not seem to have limits, beginnings and ends, neither in the genealogical succession of the creatures, nor in the flow of the matter-energy or of imagination; It is a cosmos-existential unitarian and transmuting phenomenon. On this continued ordainment, according to the view points, creativity and resources of those who think, the endless thinking flow is appreciated, and, equally, the order of the matter-energy that transmutes and manifests itself in the endless sequence of forms.  On the conjunction of these endless flows of feelings, thoughts and particles, in the most extreme frontiers of this junction, or in the most intimate center, where one exists touching, thinking and feeling, this interaction, creative and paradoxical union of the world and of conscience, astonishes and frightens.

To live well, in the place where one exists, demands accepting and acknowledging its integration in the context; to exist at the light of the natural reason is to be conscience integrated to the world and the world integrated to conscience in a great conjunction and structural and fundamental reciprocity on which existence is acknowledge as an aggregation of intermingled bodies, feelings and thoughts, a conjunctive trinity that completes the state-of-being. The state-of-being – existential or given-to-be circumstance – equally confirms nature´s Logos-intelligence and Ethos-architecture, are the ruled lines delimiting all that has existed, exist and will exist; being Myhtos worshipped as the ruler of harmony or disharmony who reigns on the societies. A good myth must assert this state-of-being integrated nature, produce a synchronic and harmonious culture; a myth that disowns the natural evidences to cause existential feelings to become relative longing representations, betrays and warps the true humanity whose inclination is to be reasonable in accordance with its nature. Trying to live within the context, not taking into consideration the most evident, immediate and original  fundamentals and ontogenies, in favor of fantastic opportunities and refusals, is an adventure meant to fail; is to abandon the directing rule of the just and grave behavior, the empirical good-sense, in favor of beliefs, cultural shows and dogmas. Until it´s proven to the contrary, to behave as if the conscience were dissociated from the existence and thought, from the sensations of ideas, from the individuals´ objects who are the unsurpassable sides of a same vital phenomenon, is insane: on the plane of the cosmos-existential reality one can no longer remains entire and lucid, longing for ruptures and worshipping dichotomies.

Theological or religious constructions based on the hypotheses of radical distinctions and objective ruptures in the interactive and dialogic frontiers among the bodies, feelings and thoughts, meditating the idea of a pure thought and conscience, of a spirit separated from the world, or super-natural, do not report to the reality experienced and evidenced, but to desires and fantasies not complying with the given-to-be. Those who believe in deep ruptures and polarizations not belonging to the possible experience, but to the desire kingdom, to not accomplish the objects of their fantasies, except on their imagination; angels do not descend except as good winged ideas, Messiahs do not come, except as constructive acknowledgements.

Before the given-to-be, two existential appreciations are possible: empathy or antipathy. The empathic answer is natural and harmonious; we are what we are, there´s no reason to contest or disagree with this; being continuous, reality carries in itself the mystery of essence, of vitality and of the potentials in its expressions. The antipathetic reaction can result from accidental reasons, from harder, frozen and dry existential confrontations; but running away from confrontation with the real, expecting another world beyond the frontispieces of plain life, living as if depending on it, disown the sensible evidences and the glories of being nature, betting on the narrations of this or that tradition, is living depending on what others have supposed, agreeing with escapist dogmas and disowning, in totum, itself and the real in every dimension. Accepting the state-of-being with sympathy, harmony and synchrony is living the present and put yourself  in the center of life just like it is; searching for a vigorous, enthusiastic and glorious meaning to this endless and vital, cosmos-existential process where we were born, deeply rooted in absolute immanence, is a spiritual task of maximum grandeur.

To usufruct from the capacity of being taken by surprise before the mystery which is revealed in every encounter – admiring the beauty of the flowers, the shining of dew, the smile of friends and of those who love each other, is easy and natural as deeply breathing the morning breeze. To fit and join together the vision of the beautiful to huge feelings and to the capacity of abstracting forms and thoughts in poetic directions, reveals visionary geometries which do not stop blooming, expanding and growing such as trees sprouting again from their own flowers. To feel yourself full, conceptive and comfortable, living in this creative and endless, and continuously transmuting center, faithful depositary of mysteries the essence of which resides in the interval where every forms and ideas are inflected and recreated, is natural as the birds warbling or the flowers perfume. Being spiritual is to shimmer and worship this eternal glory process, gathering death and life, youth and maturity in a single spiral circle transforming the state-of-being in the most perfect origin and identity in the given circumstances.

The deep value inputted to existence is the basis where human creativeness takes roots; qualification where what one thinks of the world, reveals being what he thinks of himself. We are a cosmos-existential event of sublime grandeur that can and must be celebrated as cosmic nativity! We are born nestled and fed in the midst of nature, marked and sealed by the parents and ancestors love. Feeling the beauty, the beautiful, consecrates the full acknowledgement, thankful and exultant of the oneness and of the love generating us and of the peace feeding us. Suffering only exists aside of the pleasure, there´s no absolute suffering rendering invalid the immediate grandeur and beauty of being the way you are, immersed into life and its unfailing immanence.

As the history of peoples and nations demonstrates – to those who wish to examine –  feeling himself born as natural phenomenon and worthy expression of the universal essence, fully integrated, is preferable and more productive than feeling himself banished and rejected, deprived of intuition and depending on the hermeneutic scriptures, sayings, traditions and concepts. To those who imagine the human being without his natural and cosmic dimensions, as mere subservient agent of some culture, with the modulated, typified and structured way of thinking, according to the courses of the academy, unable of seeing things as they eternally are, at the light of the immediate conscience, the comforts offered by sects, parties and the city´s glories, remain.

Possible acknowledgement and sense are not located in the past or in the future, but in the heart of who knows how to feel the present with amorous sympathy. This is the feeling of those living beyond the walls of the powerful Rome, native, artists and poets, children, and of those practicing the art of philosophy, of the wisdom and ethics, and of the cardinal virtues; of those to whom loving is not only charity, but yes a real and effective talent with sufficient light and peace to affirm happiness here and now, in the origin and living identity of the state-of-being.

Tese e antítese; uma antiga lenda ~ Thesis and antithesis; an old legend

2696461171_ecd8245b2fWith english translation below the text in Portuguese

Regis Alain Barbier

Reconhecer a Via Régia pode não ser fácil nesses lugares em que se elevam à categoria de professores simples fazedores de discursos, doxógrafos que deliram sem rumo porque mitificam os humanos como anjos caídos separados do Logos (inteligência) e do Ethos (arquitetura) da natureza, a humanidade como uma cria cultural imperando absoluta!

Da antiguidade até a modernidade, as denominações utilizadas para apontar os ordenamentos do psiquismo variaram de acordo com as escolas, era comum falar-se de intelecto sensível e intelecto racional; pouco importa os nomes que se usam, o essencial só é apreciado e valorizado passando pelo crivo do sentimento virtuoso. Quem conhece um pouco de si sabe que o psiquismo não é apenas composto pelos modos produtivos e rentáveis típicos da modernidade: calcular, normatizar e equacionar como valores magnos; a realização do saber e da felicidade reporta a outros talentos como o amor próprio e ao próximo, carinho e respeito; assim sendo, os modos mais intuitivos e sensíveis da cognição são vitais, essenciais, para garantir um bem-estar.

A razão, que se realiza em busca de ciência e exatidão, se nutre de reflexões matemáticas, gramática, lógica, postulados e dogmas, organizando-se em sistemas; a razão sensível, que se alimenta de impressões, intuições poéticas, narrativas e estímulos diversos, perfumes, cores, sons, toques e sabores, se realiza em busca de plenitude e felicidade. O psiquismo específico dos humanos é formado dessas justaposições funcionais fundamentais; de um lado o intelecto racional, instrumento reflexivo criador e operador de ciências, técnicas e padrões, por outro lado, uma natureza vital e experiencial, imediatamente significante e que não se padroniza, psiques várias e singulares, sejam de crianças, homens e mulheres, compósitos dessas categorias, mas todas aptas à felicidade. Logo, além das quantificações da razão, a intensidade, frequência, diversidade e qualidade das emoções são fundamentais para a realização da plenitude e harmonia  da psique.

As imagens-pensamentos, as intuições poéticas, os arquétipos e os mitos são os estímulos e narrativas que mais influem na determinação dos significados, valores, instituindo liberdades e aberturas, ou tabus, problematizações, barreiras, bloqueios e modos de existir diversos. Portanto, como se sentir e estar bem vivendo em sociedades que cultivam uma psique assombrada em mitos que desprezam a vida, destituem a existência da sua nobreza, reprimem o cultivo das emoções mais intensas e extáticas, desencorajam a apreciação imediata do momento, lugar real onde se pode viver e existir, restringem a criatividade prendendo o pensamento e a imaginação em noções pecaminosas, evocando ameaças? Como bem estar em lugares destituídos de criatividade onde se repetem gostos e sabores triviais, midiatizados, contabilizando lucros, perdas e dissabores, assistindo brutalidades, cultivando medos e ansiedades?

Nessa cultura, remanescente das truculências históricas acontecidas desde o primeiro século até o vigésimo, a psique encontra-se num estado geral similar ao das crianças da África, do Brasil, das antigas colônias do terceiro mundo como apresentadas nos cartazes e nas teses dos Teóricos da Libertação dos anos setenta: merecedora de caridades e esmolas, desnutrida senão morbidamente esquálida. Hoje a situação da psique está ainda pior, assemelha-se aos habitantes das cidades do primeiro mundo, depressivos, agitados, desfocados, bulímicos, ansiosos, apavorados e drogados.

Uma psique saudável deve ser alimentada de imagens e boas narrativas míticas, além das exatidões e das boas epistemes do intelecto racional. Encontrando bons alimentos e quem os compartilhem, a psique se integra à vida em comunhão feliz e gloriosa, a cognição flora, permitindo que se aprenda, antes de tudo e de imediato, o único significado cuja exatidão filosófica cura todos os conflitos e sana todas a dúvidas, fazendo da experiência um ato de virtude e amor.

Porque quem ama
Nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama,
Nem o que é amar
Amar é a eterna inocência…

Fernando Pessoa

O convidado, recém chegado a esse lugar junto com a sua companheira, contava uma estranha aventura:

“Antes da história registrada, todos viviam na terra sem mal. Nesse lugar, pouco se usava a razão para calcular, normatizar ou equacionar, a vida era simples, não faltava nada, sempre havia sido dessa forma. A psique que imperava nessa terra excelia na arte de sentir, escutar e sintonizar; amar e se extasiar era a única forma de orar. Tudo era ordenado e construído no sentido de facilitar o surgimento do gosto estético que elevava ao Belo; profusos eram os contextos e momentos onde os elementos, a abertura sensível, a força da inspiração, a graça, reuniam-se em um encontro cosmo-existencial pondo-se em boa ordem as conjunturas favoráveis à maior apreciação da beleza de amar mais e melhor; o Belo e o Amor conviviam diariamente, com forças especiais nos rituais da primavera“.

“Todos se amavam e operavam na renovação harmoniosa e atualização do amor que consagrava e celebrava a vida. O grande símbolo da vida bela e amorosa era a mulher que gera, cuida, alimenta, acolhe, encanta e compraz. Nas representações, festas e na intimidade das casas, cultuavam-se imagens de Deusas e Musas que confundiam-se  com as imagens das mulheres que viviam nos lares e arredores. A vida era comunitária; menos o que era de uso íntimo, tudo pertencia a todos, compartilhado”.

“A ideia ou representação da Deusa Mãe Natureza e das musas não tinha modo definido: é a beleza das formas construídas na diversidade, na sustância dos contextos, na harmonia da visão de quem fosse capaz de ver. A Estética, arte filosófica maior, era surpreendente, sem normas culturais, além das tradições e até mesmo do trabalho dos artistas conhecedores das musas, da Beleza e do Belo. Tudo era admirado, cultivado e posto no sentido de favorecer o surgimento e manutenção do amor: o romper do mar na areia sussurrando histórias de renovação, ciclos e recomeços; o passar das estações; seres como flores e conchas que serviram como adornos de colares; artes e objetos que resgatavam a beleza evocando presença do Belo; coisas mais simples, uma fruta que se tira da árvore, uma pedrinha rica como um universo infindo. Todos sabiam apontar os espaços do Belo no silêncio dos olhares, nos gestos e na linha dos horizontes distantes, em sorriso surpreso e ingênuo, de infante, apreendiam a ver entre as linhas os segredos e mistérios do cosmos; saber admirar a beleza e grandeza da natureza era a arte maior, estética e civítica, celebrada em danças e poesias”.

“Existiam as festas da primavera, cultos de renascimento e fertilidade muito refinados, musicais e dançantes; a partir de certa intensidade, a inteligência estética desabrochava totalmente adentrando lugares em que a sensação sublime de amar e de morrer se dissolvia e se perdia, para voltar trazendo ao amante iniciado o conhecimento e sabor da essência; compreendia-se tudo o que pode ser compreendido em qualquer época passada e futura. A união era tanta e real que todos se dissolviam uns nos outros e na natureza para ser totalidade e voltar à individuo, morrendo e renascendo do zênite ao centro do coração”.

O forasteiro permaneceu um tempo em silêncio e continuou:

“Nesse tempo, corria uma lenda antiga, mas com sabor de novidade; contava-se que na força do êxtase primaveril, no apogeu da oração, era possível, em circunstâncias especiais, adentrar ainda mais nos mistérios do amor e, lúcido, conhecer a fonte, nela se banhar por inteiro recebendo a eterna beleza, inteligência e força”.

Falando de si pela primeira vez, o recém chegado contou ter se sentido irresistivelmente atraído pela lenda, iniciando um processo de busca e descoberta.

“O enigma era grande, rondava mascarado em ditos mil, alguns afirmavam que haveria portas abrindo para esse Belo Maior, lugares mais secretos, tradicionais e venerados onde se organizavam romarias sigilosas, outros afirmavam que as portas seriam tão numerosas quanto as pessoas vivas, que não haveria porta alguma; o Belo Maior seria evidente, claro, mas poucos seriam, hoje, capazes de percebê-lo, por causa dessa saciedade e satisfação que não motivam a busca de uma mais plena atenção e esforço”.

“Encontrar ou atrair uma exímia sacerdotisa do amor, uma musa experiente, exigia talento, ânimo e muita sorte; precisava ser genuinamente criativo, independente, não ser tutelado por ninguém; cultivar e zelar com cuidado seus dons amorosos, inspirar-se em artistas, filósofos e místicos, explorar as glórias e ápices vanguardistas da arte, da descoberta e do conhecimento. Tudo isso transgredia um pouco as normas da cultura por exigir mais metrificações, uma seleção maior e armazenamento dos recursos que pareciam necessários em busca desse estado de ânimo definido, lugares e pessoas especiais. Existia a necessidade de se ter certeza de que a inteligência estética saberia equilibrar os processos, levar a esse Belo Maior nos clarões do luar, nas brechas dos sentimentos, toques e imensas sensações”.

“Certo dia de chuva e sol, avistei uma musa. Era a filha de uma família muito querida que vivia nas colinas ao pé de uma montanha alta e formosa onde se avistava um lago azul grande como um mar. O lugar parecia propício a uma grande transformação, denotava-se uma sensibilidade mais percutânea nesse ar mais puro carregando o perfume das plantas silvestres; avistada entre as fruteiras, a donzela era bela, com certeza uma musa de grande poder; o nome dela era Tese”.

“Tratava-se de favorecer um encontro, primeiro um sorriso furtivo, depois, mais atenção até francos risos, de repente, um olhar fatal; a verdade da musa é o amor, aspirando com intensidade entendê-la, aprender seus ensinos, pensando nela com carinho e respeito, recebe-se tudo de bom: asas na imaginação, ideias novas, o frescor do mar, da brisa dos vales e montanhas, reconhece-se seus rastros nos reflexos de luzes dos riachos, nas taças de cristal, na harmonia das estrelas e profundidade do céu, na beleza das flores, lírios e papoulas, no orvalho coroando a grama”.

“Com atenção, Tese ouviu e aceitou minhas aspirações; um namoro começou e um ritual foi marcado para acontecer num mês de maio, no dia da lua cheia. Chegado o dia, três auxiliares do templo me levaram até o altar escondido no tálamo das mulheres. Na força de certas poções e mistérios cujos segredos não deram e do ritmo da dança, entrei num estado extático muito prolongado, em crescendo, como uma escada formosa e sem fim, até um ponto de não retorno; uma porta se abriu, uma ponte desmoronou. Encontrei-me no topo glorioso da montanha do ser, num promontório elevado; de um lado, uma rocha dourada e impenetrável; nos demais, abismos misteriosos e insondáveis. Senti que devia confiar nas asas da leveza e na força da imaginação. O que deve ter acontecido…”

…dizia o convidado,

“…por que despertei caído numa vala seca e sem vida, num deserto mais árido de que os da África, deitado entre ossadas brancas e muito antigas; tudo era muito feio e sem viço, coberto de pó”.

“Mas sentia que a força estava em mim, que estava inteiro. Levantei; quando uma gota de suor caía da minha fronte, crescia uma haste de capim; por onde andava aparecia nas minhas pegadas uma sombra de umidade prenunciando o leito de um riacho; onde repousava surgia uma fonte; onde urinava nascia uma arvore; quando à noite ou à tarde dormia em busca de repouso, espontânea, uma alegre expansão fertilizava a terra surgindo miríades de flores. Em pouco dias, tudo reviveu. Cansado, de tanto amar a terra, desfaleci, quase sem vida. Sonhei que a deusa – que, de si, poderia criar tudo como bem quisesse – tirava um pedaço de mim de que foi feito um corpo para Tese. Eu e ela vivemos felizes por muitos anos, povoando o mundo de alegria, seres e sabores. Quando morremos, fomos habitar no céu: eu no Sol, ela na Lua, de onde iluminamos essa criação, observando sua evolução”.

“Constata-se que a experiência dessa secura e escassez modifica o humor dos viventes; as musas que conseguem nascer são reprimidas, transformadas em produtos, vendidas, compradas, empregadas. Como sofrem e se confundem as musas que vivem nessa terra ainda longe da fartura poética necessária a um bom redimensionamento eco-humanista! Encontram-se algumas, desapontadas, depressivas, carregando o fardo de não poder ofertar o que não se quer, não encontrar lugares onde plantar e cultivar o amor ao Belo”.

“A Beleza ainda não se acha com facilidade nesse mundo societário tensionado em busca de metas futuristas e hipotéticas. Os habitantes passam ao lado de tesouros de beleza sem enxergar; sonham, planeando encontros futuros com um divino mirabolante, a inteligência obnubilada, tropeçam enredados; confunde-se Beleza com objetos cobiçados, utilidades marginais, na tentativa de consolar a tristeza de viver apartado do Belo, fonte absoluta de sentido, harmonia e júbilo! O sentido de beleza tornou-se conjugado em critérios relativos; sentimento marcado de ajuizamentos oficiais, normas: belezarias estacadas em predomínios conservadores e sectários, salientando modos e objetos prediletos”.

“Como sofrem as guerreiras da nova Atena, do novo Tawantinsuyo; não conseguem mover os seus heróis na direção da vida viva e verdadeira, apesar dos seus choros, apelos, pedidos amorosos, continuam cumprindo metas produtivas, esquecendo  de fabricar o mel da vida que fenece, prolongando o inverno. A pior situação ocorre quando, anestesiadas, distraídas e tensas, multidões negam, recusam o que se apresenta como é, querendo um ‘depois’ mais perfeito como jamais se viu. Acham que o mar, os bosques, as campinas, os lugares onde vivem as musas, jardineiras da Beleza, não passam de glórias mortais; para eles, a bela natureza seria apenas utilidade marginal, instrumento para elevar as almas ao seu destino essencial: o reino total da grande coordenada indefinida e necessidade zero, nula”.

“Hoje, na alvorada desses novos tempos, eu e Tese descemos novamente para clarear a escuridão, ensinar nosso saber, reerguer os templos destruídos, preparando a renovação do ar para uma nova geração mais apta a ascender ao domínio da terra sem mal”.

Depois de um longo silêncio, o forasteiro tirou da sua bolsa um símbolo:

“Para marcares as coordenadas fundamentais desses mistérios, deixo essa nova cruz inscrita num círculo, encontrarás nela uma imagem da sua natureza essencial. No braço vertical, no polo inferior, podes imaginar uma serpente mítica aos teus pés, te acariciando; no polo vertical, nos teus cabelos transformados em árvores, existem flores e pássaros fazendo ninhos. Se olhares na direção sul, na tua mão esquerda fica o sol, na direita a lua; olhando o norte, o sol ficará na mão direita e a lua na esquerda. Trata-se da simbologia dos ciclos e dos polos, o nascer e o morrer, a manhã e a noite. Na tuas vestes, moram todos os seres da natureza, estás com os pés na água, primeiro os peixes, depois os que rastejam, mais em cima  os demais animais. No centro dessa cruz cósmica, uma rosa que abre no teu peito, a flor do momento e dessa idade: tu és a deusa natureza, cheia de força e poder, eu te reverencio”.

Cópia de image

Dito isso, o casal se despediu, e fiquei observando o medalhão, o símbolo da cruz que, diz ele, igualmente me espelhava. Trata-se do ressurgimento da inteligência original: uma inteligência sóbria, exata, evidente, com abertura luminosa ao sentir, ao silêncio, à espontaneidade, ao improviso e recolhimento reverente frente à ignorância essencial. Alvorece o inevitável, inegável: a aceitação serena, ponderada, sem extrapolações exaltadas, da unicidade dos fenômenos e a sua inefabilidade essencial. Trata-se de um movimento existencial e filosófico, fadado a ser fortemente antitético às vias pedagógico-educativas e dogmáticas, às catequeses oficiais de todas as igrejas e políticas coligadas dessa terra ainda seca e carente; ou talvez, em alguma medida, antitético e complementário, numa concepção compassiva, concedendo conjeturar com tolerância e equilíbrio. Existe, nesse novo e antigo eixo cultural buscando atualização, firmando seus impulsos decisórios, um caminho aberto à intuição sensível, de contato empático, mais do que uma via intelectual, algébrica ou abstrata. Um intento que parece apropriado: no esforço de reaproximar-me dos mistérios existenciais coligados à arte mitológica presencial, no sentido antigo, testemunho que a lógica devastadora começa a ceder lugar a um renunciamento do excesso de domínio e hierarquismo. É inegável, já desponta uma busca mais libertante, independente, natural, praticando e documentando uma conectividade palpável, como uma união mística ativa, pródiga, gloriosa e imediata.

A estética, via da Beleza em busca do Belo, encontra-se pelo cultivo da arte-filosófica e do estado-de-ser amoroso: é uma dança de ritmo e compasso definidos, mas de evolução e conteúdo espontâneos, em concordâncias não coordenáveis por antecipação. Buscar esse processo parece necessário quando os filhos e filhas da Santa Mãe Natureza erram em sertões, sedentos, fadigados em busca de paz e água, de um oásis de sentido imediato e lucidez.

Thesis and antithesis
An old legend

Translation by Stephen Cviic 

Recognizing the Royal Road may not be easy in those places where people idolize teachers who are simple speech-makers, collectors of ancient philosophers’ thoughts, and who get caught up in endless flights of fancy because they mythologize humans as fallen angels separated from the Logos (intelligence) and the Ethos (architecture) of nature. They see humanity as a cultural offspring that rules absolutely!

From antiquity to modernity, the terms used to denote the foundations of the psyche have varied according to the different schools: it used to be common to talk about the sensitive intellect and the rational intellect. The names that are used do not matter much; the essence is only appreciated and valued when it passes through the filter of virtuous feeling. Whoever knows a bit about himself knows that the psyche is not made up only of the productive and profitable modes that are typical of modernity, with calculating, regulating and equating as the main values. Achieving knowledge and happiness depends on other talents such as love of oneself and of one’s nearest and dearest, affection and respect. This being the case, the more intuitive and sensitive modes of cognition are vital, essential, to ensure well-being.

Reason, which fulfils itself in the search for science and exactitude, feeds on mathematical ideas, grammar, logic, theories and dogmas, organizing itself in systems; while the sensitive intellect, which feeds on impressions, poetic intuitions, diverse narratives and stimuli, scents, colors, sounds, touches and tastes, fulfils itself in a search for fullness and happiness. The particular psyche of humans is formed of these fundamental functional juxtapositions: on the one hand the rational intellect, a reflective instrument which creates and uses sciences, techniques and patterns; on the other hand, a vital and experiential nature – which is immediately significant and which cannot be put in a box – manifesting itself in various and singular psyches, whether of children, men or women, but all with a propensity for happiness. Therefore, as well as the quantifications of reason, the intensity, frequency, diversity and quality of the emotions are fundamental for the achievement of the psyche’s plenitude and harmony.

Thought-images, poetic intuitions, archetypes and myths are the stimuli and narratives which most influence our meanings and values, establishing freedoms and openness, or taboos, problems, barriers, blocks and various ways of being. Therefore, how can one feel well and be well living in societies which cultivate a psyche amazed by myths that look down on life, deprive existence of its nobility, repress the nurturing of the most intense and ecstatic emotions, discourage the immediate appreciation of the moment, the real place where one can live and exist, restrict creativity by trapping thought and imagination in notions of sin, invoking threats? How can one be well in places divested of creativity, where trivial, media-generated tastes are repeated over and over again, while people calculate profits, losses and sorrows, watch brutalities, and nurture fears and anxieties?

In this culture – a remnant of the historical cruelties which took place from the first century A.D. to the twentieth – the psyche finds itself in a general state similar to that of the children of Africa, of Brazil, of the old colonies of the Third World as portrayed in the posters and theses of the Liberation Theologians of the 1970s: deserving of charity and alms, malnourished if not morbidly squalid. Today the state of the psyche is even worse – it is like the inhabitants of First World cities: depressive, agitated, unfocused, bulimic, anxious, frightened and drugged.

A healthy psyche should feed on images and good mythical narratives, as well as the exactitudes and good epistemes of the rational intellect. By finding good material to feed on and people to share it with, the psyche integrates itself into the happy and glorious life in communion; cognition flourishes, allowing one to learn – immediately and before everything else – the only meaning whose philosophical exactitude heals all conflicts and calms all fears, making of experience an act of virtue and love.

Because whoever loves
Never knows what he loves
Nor knows why he loves,
Nor what it is to love
Loving is eternal innocence…

Fernando Pessoa

A guest, recently arrived at this place together with his female companion, told a story of a strange adventure:

“In the ancient culture, before recorded history, everyone lived in a land without evil. In this place, one did not use reason much to calculate, to regulate or to equate; life was simple, nothing was lacking, it had always been that way. The psyche that ruled in this land excelled in the art of feeling, listening and tuning in; loving and exulting were the only forms of prayer. Everything was ordered and built with the aim of facilitating the rise of the aesthetic taste which elevated the Beautiful; there were a profusion of contexts and moments where the elements, the sensitive opening, the force of inspiration, grace, came together in a cosmo-existential meeting that created the circumstances most favourable to a greater appreciation of the beauty of loving more and better. The Beautiful and Love lived side by side every day, with special strength in the rituals of spring.”

“Everyone loved everyone else and worked towards the harmonious renewal and bringing-up-to-date of the love which consecrated and celebrated life. The great symbol of the beautiful and loving life was the woman who generates, cares, feeds, welcomes, enchants and takes pleasure. In plays, feasts and in the intimacy of homes, images of Goddesses and Muses were worshipped; these became intertwined with images of the women who lived in people’s homes and in the surrounding area. Life was communitarian; apart from what was for intimate personal use, everything belonged to everyone, shared.”

 “The idea or representation of the Goddess Mother Nature and of the muses had no defined shape: it was the beauty of the forms built in diversity, in the substance of contexts, in the harmony of the vision of anyone able to see. Aesthetics, the greatest philosophical art, was surprising, without cultural norms, apart from the traditions and even the work of the artists who knew the muses and the Beautiful. Everything was admired, cultivated, and placed there with the aim of favoring the rise and maintenance of love: the breaking of the sea on the sand whispering stories of renewal, cycles and new beginnings; the passing of the seasons; beings likes flowers and shells which served as adornments for necklaces; arts and objects which rescued beauty by evoking the presence of the Beautiful; simpler things, a fruit which falls from a tree, a stone as rich as an infinite universe. Everyone knew how to point to the spaces of the Beautiful in the silence of their looks, their gestures and on the line of distant horizons, with a surprised and naïve smile, like that of a child; they learnt to see between the lines the secrets and mysteries of the cosmos. Knowing how to admire the beauty and grandeur of nature was the greatest art, aesthetic and civic, celebrated in dances and poems.”

“There existed spring festivals, very refined, musical, dancing ceremonies of renewal and fertility. Beyond a certain point of intensity, the aesthetic intelligence blossomed totally, entering places where the sublime sensation of loving and dying dissolved and was lost, to return bringing the initiated lover the knowledge and taste of the essence; everything that could be understood in any past or future epoch was understood. The union was such and so real that all people were dissolved into one other and into nature to become a totality and to return to the individual, dying and being reborn from the zenith to the center of the heart.”

The stranger remained in silence for a while and then continued:

 “At that time, there ran an old legend, but which had the flavor of something new: it was said that under the strength of the primal ecstasy, at the height of prayer, it was possible – in special circumstances – to go even further into the mysteries of love and, lucidly, get to know the source, to bathe in it wholly, receiving eternal beauty, intelligence and strength.”

Talking about himself for the first time, the new arrival recounted how he he had felt irresistibly attracted by the legend, beginning a process of search and discovery.

“It was a great enigma, it went around masked by a thousand sayings: some said that there would be gates opening on to this Greater Beauty – more secret, traditional and venerated places where secret pilgrimages were organized; others said that the gates would be as numerous as there were living beings, that there would be no gate; the Greater Beauty would be evident, of course, but few today would be capable of perceiving it, because of the satiety and satisfaction that take away the motivation for a search for a fuller attention and effort.”

“Finding or attracting a distinguished priest of love, an experienced muse, required talent, spirit and a lot of luck; one had to be genuinely creative, independent, not to be tutored by anyone; one had to cultivate and nurture one’s loving gifts carefully, take inspiration from artists, philosophers and mystics, explore the forward-looking glories and peaks of art, of discovery and of knowledge. All this went a bit beyond the norms of culture because it demanded more care, a greater selection and husbanding of resources that seemed necessary in the search for this particular state of spirit, special places and people. There was a need to be certain that the aesthetic intelligence would know how to balance the processes, take this Greater Beauty into the moonlit spaces, into the gaps in feelings, touches and immense sensations.”

“One day of rain and sunshine, I noticed a muse. She was the daughter of a much loved family that lived in the hills at the foot of a high and beautiful mountain from where one could see a blue lake as big as a sea. The place seemed fitting for a great transformation, one felt a sensibility that penetrated beneath the skin in this purer air that carried the perfume of forest plants. Glimpsed among the fruit-trees, the lady was beautiful, definitely a muse of great power; her name was Thesis.”

“She was trying to create the conditions for a meeting, first a furtive smile, then more dedication until we reached the stage of open laughter, and suddenly a look of destiny. The truth of the muse is love. If you try intensely to understand her, learn her teachings, if you think about her with affection and respect, you receive all that is good: wings of the imagination, new ideas, the freshness of the sea, of the breeze of the valleys and the mountains. You recognize its traces in the reflections of light in the streams, in crystal glasses, in the harmony of the stars and the depth of the sky, in the beauty of the flowers, the lilies and the poppies, in the dew that crowns the grass.”

“Thesis heard and accepted my longings attentively. A loving relationship began, and the ritual was due to take place in the month of May, on the day of a full moon. When the day arrived, three auxiliaries of the temple took me to the altar hidden in the women’s chamber. Under the strength of certain potions and mysteries whose secrets they did not reveal and under the rhythm of the dance, I went into a very prolonged ecstatic state, which grew, like a beautiful, endless ladder, to a point of no return; a door opened, a bridge collapsed. I found myself at the glorious top of the mountain of being, on an elevated promontory: on the one side, a golden and impenetrable rock; on the other sides, mysterious and bottomless chasms. I felt that I should trust in the wings of lightness and in the force of the imagination. Which must have happened…”

…said the guest

“… because when I awoke I had fallen into a dry and lifeless valley, into a desert more arid than those of Africa, lying among ancient, white bones; everything was very ugly and without vigor, covered in dust.”

“But I felt that the force was within me, that I was whole. I got up: whenever a drop of sweat fell from my forehead, there grew a stem of grass; wherever I walked there appeared in my footprints a shadow of dampness that foretold the bed of a stream; wherever I rested there sprang up a fountain; wherever I urinated a tree grew; when at night or in the evening I slept in search of repose, a spontaneous and joyful expansive feeling fertilized the earth, and a myriad flowers arose. In a few days, everything revived. Tired, with so much loving of the earth, I fainted, almost without life. I dreamt that the goddess – who, by herself, could create everything just as she wanted – was removing a piece of me from which a body was made for Thesis. She and I lived happily for many years, filling the world with joy, beings and flavors. When we died, we went to live in the sky: I in the sun, she in the moon, from where we illuminated that creation, observing how it evolved.”

“It is evident that the experience of this dryness and lack changes the mood of living beings; the muses who manage to be born are repressed, transformed into products, sold, bought, employed. How they suffer and are confused, these muses who live in this earth still far from the poetic plenitude necessary for an effective change in an eco-humanist direction! One finds a few of them, disappointed, depressive, bearing the weight of not being able to offer what is not wanted, not finding places where they can plant and cultivate the love of the Beautiful.”

“Beauty is still not easily found in this social world, tensed up in pursuit of futuristic and hypothetical goals. Its inhabitants pass by beautiful treasures without seeing them; they dream, planning future meetings with an amazing god, their intelligence obscured, entangled, they fall over. Beauty is confused with coveted objects, marginal utilities, in an attempt at consolation for the sadness of living apart from the Beautiful, the absolute source of sense, harmony and joy! The sense of beauty has become caught up in relative criteria; a feeling branded with official judgements and norms, beauties propped up in conservative and sectarian modes, with certain favored fashions and objects standing out.”

“How they suffer, the warriors of the new Athens, the new Tawantinsuyo; they cannot move their heroes in the direction of the true life. Despite their cries, appeals and loving requests, they continue to fulfil productive targets, forgetting to manufacture the honey of life that dies, prolonging the winter. The worst situation happens when, anaesthetized and tense, multitudes deny, refuse the thing that presents itself as it is, wanting an “afterwards” that is more perfect than has ever been seen. They think that the sea, the woods, the prairies, the places where the muses – the gardeners of the Beautiful – live, are no more than mortal glories. For them, natural beauty is only of marginal use, an instrument to lift souls towards their essential destiny: the kingdom of the suernaturalistic after-life, or nothingness.”

“Today, in the dawn of these new times, Thesis and I descended again to shed light on the darkness, to teach our knowledge, to rebuild the destroyed temples, preparing the renewal of the air for a new generation fitter to ascend to the realm of an earth without evil.”

After a long silence, the stranger took a symbol out of his bag:

“So that you can map out the basic coordinates of these mysteries, I leave you this new cross inscribed within a circle. Within it, you will find an image of its essential nature. On the vertical arm, at the bottom end, you can imagine a mythical serpent at your feet, stroking you; at the top end, in your hair that has been transformed into trees, there are flowers and birds making nests. If you look towards the south, in your left hand is the sun, in your right the moon; looking north, the sun will be in your right hand and the moon in your left. We are talking about the symbology of cycles and poles, being born and dying, morning and night. In your garments, all the beings of nature live; you have your feet in water, first the fish and then things that crawl, then the other animals above. At the center of this cosmic cross is a rose that opens in your breast, the flower of the moment and of this age. You are the goddess nature, full of strength and power, I pay homage to you.”

Having said this, the couple said farewell, and I carried on looking at the medallion, the symbol of the cross that he said was also my mirror-image. It represented the resurgence of the original intelligence: a sober, exact, manifest intelligence, with a luminous opening to feeling, to silence, to reverent spontaneity and withdrawal when faced with essential ignorance. The inevitable, the undeniable, is dawning: a serene, considered acceptance, without over-excited exaggerations, of the unicity of phenomena and their essential ineffability. It is an existential and philosophical movement, destined to be strongly opposed to pedagogical and dogmatic methods, to official catecheses and all the churches and policies linked together on this still dry and needy earth; or perhaps, in some way, opposite and complementary, in a wide-ranging conception, allowing one to make conjectures with tolerance and balance. There exists, on this new and old cultural axis that searches to renew itself and is firming up its decisive impulses, an open road to sensitive intuition, which consists of empathetic contact, rather than a way that is intellectual, algebraic or abstract. It is an aim that seems appropriate: in an effort to reapproach the existential mysteries linked to the mythological art that is present in the ancient sense, I bear witness that devastating logic is beginning to give way to a renunciation of domination and hierarchy. It cannot be denied that a new search is emerging that is freer, more independent and natural, which practises and documents a palpable connectivity, like an active, lavish, glorious and immediate mystical union.

One finds the aesthetic – the way of Beauty in search of the Beautiful – through the cultiviation of art-philosophy and the loving state-of-being. It is a dance with a defined rhythm and beat, but with a spontaneous content and development, in harmonies that cannot be set in advance. Searching for this process seems necessary when the sons and daughters of Holy Mother Nature wander in arid backlands, thirsty, exhausted in search of peace and water, an oasis of immediate sense and lucidity.

Of the idea of God

Do you understand it, know about it, ignore it, or just believe in it?

união mística

Régis Alain Barbier

The quality of consciousness, both in itself and towards the world and society, is the essential virtue which governs existence and determines the place where one lives: hell or heaven.

The coordinates which map the idea of the divine

It’s necessary to clarify fundamental and universal terms and concepts, adjust their meanings by considering the traditions in which they were thought up and promoted, the contexts in which they are usually invoked. Accepting them, reformulating them or rejecting them allows us to ensure clarity in narratives and discourses. In this process, the intensity of the debates is proportional to the existential meaning and universality of the concepts under discussion; a fundamental evaluation is one which values and locates people and things in the places where they exist.

Debates which inquire whether pantheism (pan-theism) is mono-theistic, poly-theistic or a-theistic, are examples of some of the cognitive difficulties which crop up when terms and concepts referring to diverse perspectives, histories and cultures come into conflict, thus obscuring more philosophical kinds of discernment. In the examples cited above, the problems are the result of imperfect intuitions and ideas relating to possible meanings of the term “god” or “divinity”. It’s essential to recognize that the term “god” can never be sufficiently elucidated merely by cultural criteria. This idea can only be properly understood in the context of the three factors which influence it: (a) individual, personal feelings, aesthetic appreciation and abstract ideas; (b) Nature, as an expression of the Logos; (c) culture, traditions and related norms. It is evident that the role of culture is not fundamental, but it adds to the data which come from intuition and one’s immediate relationship with nature – if one broadens one’s understanding of the term nature in the light of philosophical meditation, as Cosmos; a unitary and phenomenological relationship between the individual and the world.

God: is the virtue, the quality and the idea of a consciousness that is active as a phenomenon both in itself and in relation to its natural and cultural existential contexts.

Gnoseological evaluations of this three-dimensional existential equation and virtue that justifies the term god (or divine) can be clarified, or obscured, through religious practices.

Religion: a doctrinal system established according to a conception of divinity and its relationship with what exists, and which motivates practices and activities described as religious.

In the apprehension of the “divine” concept, contradictions between what culture and tradition tell us and what feelings, reason and nature tell us lead to discord and incredulity, impoverishing human lucidity, and encouraging an atheistic lack of interest. From the point of view of ontogenesis, the individual tends to believe in and confirm the religious values built into the rituals that predominate in his environment; this being the case, ideology tends to confirm the value of the living being in relation to itself and the world, leading to actions and reactions that are decisive from the existential point of view, creating destinies, cultural and social structures, and subsequent problems. A lack of philosophical perception, gregarious urban life, credulity and sloth favor the historic predominance of normative theological structures and cultural prescriptions.

Baptismal imprints: basic existential values and related debates, doubts and expressions of faith which correspond to understandings and practices as they are defined in people’s early religious doctrines.

Truly to appreciate the concepts “divine” and “god” demands a careful revision and overcoming of baptismal imprints. Examining and criticizing universal terms and concepts is essential to clarifying narratives and discourses. 

Political theologies and baptismal identity

The formation and maintenance of social classes, reserves of power and subjection, corresponding economic assets, functions and positions, titles and labels, boundaries of what is legal and illegal, therapies, are processes which reflect the cultural ideology which is necessarily built into mythical configurations and theological structures. For the majority, the fundamental virtue and value of the individual corresponds to their baptismal identity.

Baptismal identity leads to a relationship of adhesion to the taught and dominant idea of god in the civilization in which one grows up.

Once the virtue, quality and idea of god has been established through a mythical narrative implanted in us about a mythical messiah, a prophet, a founding hero or a divine emperor, the social consquences happen as a result of our psyco-physical settings and original perspectives in a historical and cultural sense. It is not necessary to be a historian to perceive and understand that our initial “idea of god”, our initial theologies (“vertical” or “horizontal”, radically transcendent or not) and our early religious forms and attitudes underly geo-political processes.

In the existential, historical and dominant circumstances of the West, the political structures resulting from the archaic, original social frameworks of the imperial Roman church are maintained, because the political order depends on the original, basic virtue believed in or acknowledged by humanity: the quality of consciousness in relation to itself and what is “other”, the city and the world. The Western world and its former colonies continue to exist according to the rites said to be universal (katholikós), established and consolidated throughout the formation of the Roman empire. This being the case, in these places, people continue to reason and act within the scope of the “walls of powerful Rome”, subject to the credo of the imperial church, where a god is venerated who is powerful and hidden, with a will that is incomprehensible in the light of reason, represented by chosen people, favorites and translators, the supernatural creator of all things with the objective of saving fallen and sinning men. Only a change in religiosity and ritual will permit an evolutionary change from a civilizational point of view. The idea of god does not demand that one be impervious and insensitive in the light of natural reason, as those who take advantage of ignorance would have us believe.

In the dominant social structures within the psycho-physical, historical and current frontiers of the imperial church, the typical, dominant religious forms can be characterized as dualistic from the metaphysical point of view, manifesting themselves as religious rites and expressions that are monotheistic, exclusive, supernaturalist, salvationist, elitist, Catechist and messianic.

Monotheism: one single god, a virtue which is not exclusive to Roman and Muslim theology: Akinato, the pharaoh, worshipped Aton, the sun, as the only god. In the Roman form of monotheism, “single” evokes unity and exclusivity. Unity where one understands god as a single thing; exclusive because he does not belong to the kingdom of our material origins, to the things linked to sensuality, including of the sexual kind, and to substantial matter as we live it and know it in the world in which we exist.

Supernaturalism: god is not understood as making up the totality of the Cosmos of matter-energy; he is imagined as transcendent, supernatural. This is not the case in the Egyptian monotheism of Akinato, or with other peoples and syncretic churches where god is understood as being the sun and, sometimes, the world of the stars, therefore belonging to the natural sphere, which one could imagine being made of a more subtle kind of matter.

Salvationism: it is postulated that our origin and our destiny is not to continue transmuting consciousness and matter-energy in the ambit of the Cosmos, as we experience it in our existence, but to reascend or to return to an original supernatural plane to which it is imagined that we belong, even though we were banished by a divine decision, according to the mythical narratives.

Elitism: the human being cannot naturally get to know his true origin and destiny, since this news comes from a special revelation given to a beloved representative from a celestial orb, or from an elected one who is established as a prophet that founds equally elitist rituals and cultures where representative authorities are conspicuous – their function is to hand down the ethical, religious and political orders and prescriptions necessary for the reintegration of these beings or their salvation.

Messianism: the presumed ignorance of the living being in relation to his spiritual situation demands catechesis: this work requires a revelation – in other words, direct and special contact between the higher plane and the lower plane, demanding the coming of a messiah, which has either already happened or is expected.

In the evolution of the civilizational process, laicism, when it happens, reformulates important positions from the point of view of the exercise of immediate political power, but it does not necessarily reformulate the basic psycho-physical structure, or the “baptismal identity” of nations, with the structural positiions remaining unaltered. This is because these original societal settings are built into the cultivation of the deep quality of consciousness of individuals in relation to themselves and what belongs to the city and the world, in a deep awareness and idea or acknowledgement of who they are (who am I?) The answer is unchanging because it transcends alterations of power and depends on baptismal imprints and identities, on rituals, religious ceremonies and deep affiliations which last, and do not originate in the pages of constitutions.

Laicism: substitution of the priestly classes by lay people in the exercise of political power, without a radical reform of the “theo-political” structures.

Since the human being is a symbolic structure, a unitary aggregation of subjective (cogitans) and objective (extens) attributes, psycho-physical and metaphysical questions – which evoke ideas and values built into influential religions – are inevitable, and characterize humanity and structure the societies in which we currently live at all levels. Therefore, a secular social structure where atheism (a-theism) predominates is not exempt from theo-political foundations and frameworks – it is only possible to declare oneself an “a-theist”, if one exists in a theist civilization, reacting negatively to the general cognitive climate.

Atheism – a reactive position which takes place in cultures that are structured on theo-political frameworks that pay homage to the idea of god and an irrational baptismal identity. In “a-theism”, one denies the existence of a divine, supreme and supernatural being, affirming the inconsistency of religious doctrines relating to this “un-reasonable” concept of god, and by extension, denying – contradictorily – the possibility and utility of a positive and sensible idea relating to this metaphysical virtue of the consciousness that has itself induced this “a-theist” reaction.

Atheism, typically established as a political framework in nations which are said to be “communist,” is like any other form of theism, an event with historical and teleological processes, where there is a tendency to deify the dominant political structure or party and its founders: historical heroes. Political movements and parties occupy the deep cognitive or psycho-physical spaces of gods, prophets, kings and emperors, without abandoning the much-coveted hierarchical positions which were previously rooted in myths and theological schemes. In any case, there is a continuing neglect of the Cosmos, Ethos, Logos and Mythos, as envisioned by wise people, leaving humanity in a state which falls short of the universal philosophical harmony required for its full realization. People’s cognitive attitudes are not broadened by reacting negatively to a given political structure: the evolution of the fundamental theo-political structures which are the necessary foundation for nations only happens in the light of greater knowledge about the idea of god rooted in the metaphysical attitude of consciousness towards the “other”.

A reform of the imperial structures which are latent and lasting in secularism (monotheism as presidentialism, exclusionism as sinecurism, supernaturalism as scientificism, salvationism as futurism, elitism as class stratification, messianism as partisanship and populism) would imply different psychological and “theo-political” attitudes, as sketched out in Ancient Ionia, in the Athens of Socrates, in places outside the ambit of Roman jurisprudence, in ancient Europe and other continents, in other “non-Euclidian” scientific approaches. The philosophical understanding and acknowledgement of this numinous relationship, whether in itself or in relation to the “other”, allows the advent of other rituals relating to more integrative psycho-physical textures, without drastic divisions between what is considered the subject and the object.

These structures are defined as “pantheistic”, a concept that illustrates an understanding of god as a totality, equally the sum of all that exists and the integration of that totality as Nature in the broadest sense, revealing an order which is cosmic. The term also highlights how those who acknowledge themselves as pantheist have a deep virtue of consciousness: the basic value which one accepts and recognizes in oneself is unity in the most integrative sense possible. One perceives an ineluctable union between the body and consciousness, between consciousness and the world, between feelings and ideas: intuition is equally abstract and sensitive; there is no radical and substantial dichotomy between the various forms and the manifestation of the state-of-being. What is “one” in pantheism is the metaphysical perspective, which is monist. There are no two entities equally powerful and separate, or one “spiritual” entity destined to reapsorb the “material” entitites or matter. There is no game of rigorous opposition in this systemic understanding; there is no dichotomy in the deep structure. This “divine whole” is real, composed of cognitive and extensive attributes, like a coin, a single event formed of one side with a face and another with a crown. We are talking about a phenomenon or structure that is radically symbolic: the signs, ideas and feelings which consciousness is aware of in the “subjective function”, together with the meanings which are revealed and manifested in “objective function” together make up a unity. In this unity, consciousness is of the world and the world is of consciousness. Consciousness is, of its nature, consciousness of something, and “something” – in order to be – needs consciousness; everything exists in the intentionality of consciousness, this phenomenological and absolute relationship is essentially mysterious, divine.

The religious forms which are established around this perception of union and fusion of the individual with the whole, attainable by the flight of intuition in the natural light of reason, include the harmonious and unified operation of the abstract and sensitive intellect, and of the emotional center; they are characterized as monist from the metaphysical point of view, manifesting themselves as religious expressions that are pantheist, naturalist, congruent and resplendent, reasonable and qualified, philosophical and victorious. A natural feeling of integration and harmony, a profound meaning and an immediate sense of plenitude and union, of peace and serenity, permeate the person who lives in such communities.

Pantheism: the sense of the divine is part of the totality of natural things; everything is a single god, a virtue which does not exclude any cosmic expression, including the terrestrial world, the planets, the stars, all things that are known or unknown according to the pantheist creed. In this case, “pan” evokes a unity which – without separating anything from the substantial – includes: a single Cosmos in which we exist and to which we belong, identified and rooted in the current and original processes of transmutation.

Naturalism: is the unitary virtue naturally associated with the term divine; it is understood as including the whole Cosmos made of matter-energy which is constantly transmuting, possibly without beginning and without end.

Perfect congruence: our origin and destiny is to transmute infinite consciousness and matter-energy in the ambit of an unlimited Cosmos, experiencing life in the plane of our origin and identity, a place where we can acknowledge ourselves as equally infinite and perennially integrated in the light of a vibrant natural intuition, most emphatically in moments of ecstasy which happen frequently and abundantly, even when admiring a lily or another flower by the wayside.

Reasonable and qualified: even when educated in a disagreeable culture, the human being can appreciate his destiny, his true nature and origin, in the luminosity of the mornings, a consecration where the splendor of his own birthright is revealed, pouring out the lively liberty of the cosmic force. Humanity is the legitimate bearer of the grandeur and beauty of earthly and heavenly nature, a realization where each person can choose to be the prophet who establishes his own rituals, the creative participant in his own vision. Each person manifests in himself the essential ethical frameworks and processes of those who belong to the Cosmos, which is the body and mind of the divine, the Logos of the ancients, together with ethos, the generator of myths which — when they are legitimate — can only honor nature and the state-of-being.

Philosophical and victorious by structural necessity: the potential for reason and knowledge that characterize human nature, the awareness of being a transmutational process equally and paradoxically ephemeral and immortal, demands of the wise person the elaboration of doctrines and meanings which honor and represent the human being positively. These doctrines are spiritual realizations par excellence, — in which being spiritual means positively valuing the existential experience, so that one lives a full and gratifying life at all moments.

We are slowly bringing into being a human state-of-being who is spiritual in the true sense, in which the apotheosis will be to build a dwelling here on earth in which the harmony that one sees by visiting woods and appreciating nature, can equally reign in cities, where everyone will be respected and wisely baptized, acknowledged as children of the sun and the earth, princes and princesses of the Cosmos, worthy of the most profound respect just like all animals and creatures. A worthy place, where politics will be fully participative, education will be dialogic, the economy free, the currency real; a place where the forerunners, the philosphers, the providers, the wise people, the visionaries and the artists, the happiest ones, will be heard with attention and carefully considered whenever a decision is taken – a horizontal city, occupying the spaces, respecting nature which will be acknowledged as holy and sacred.

Divine as a full integration of the whole

When I say ‘namastê’, ‘I greet or see the divine spark in you’, I am not affirming that: a) you are a god, or goddess, delineated by your form; b) nor that you are a manifestation, or a symbolic representation or archetype or a god or goddess; I am simply acknowledging and affirming that you belong to the Whole; therefore that you are divine by being a full part in all senses, in the present moment, of the Nature which is divine.

In pantheism, to be “awake”, enlightened is to know how to expand and radiate the light of natural consciousness in the sense of filling the Cosmos. The movement of expanding consciousness, which at the beginning can hardly differentiate one’s own foot from a rattle hanging from the cradle, is progressive and continuous until, eventually, if it is not frozen and tangled in prohibitive concepts, results in a mystical crowning moment where the state-of-being acknowledges himself as a universal and eternal reality, without beginning and without end, a universal being, an eternal avatar, a holy trinity, Ehos, Logos and Mythos.

The movement of the psyche in search of this “knowing that one knows nothing” – because one knows oneself to be absolute, gracious, without any reason and without servitude – is at the same time abstract, aesthetic and affective. Abstract thought reveals the geometry which connects the particular points, things, creatures and events to the whole; aesthetics appreciates the ramifications of relationships which give evidence of beauty and harmony; the affect throbs in growing, loving empathy. This tripartite movement of the psyche exults in a mystical ecstasy which ends up fertilizing our intelligence, awakening the individual to his universality. Whether they are spontaneous or planned, the sacramental paths which lead to this lucidity vary, the fruit of searches and experiences: a walk in the forest, an event, a relationship, a ritual, a potion, the course of life.

Any discussion about “polytheism” and “monotheism” of various types, whether they are symbolic or idealistic, realistic etc, in a debate structured along the lines of: 1) ‘x’ and ‘y’ are real gods (realism); or 2) ‘x’ and ‘y’ are representations of gods – whether they are linked with a ‘fundamental’ god or goddess, as happens in some mythologies, which are in turn part of a pantheon of gods, commanded by or representative of an “absolute and omnipresent” divinity of an archetypal nature (idealism) implies the rule – whether from a historical point of view, a manifestation of something primitive or a residual superstratification of the psyche – of a latent separation, dichotomies evoked in the structure of the debates. These are sectarian categories that do not exist unless as distortions resulting from baptismal imprints which make up the civilizational structure. Here, the state-of-being is compelled to act mentally within the range of influence of a psychological position handed down historically in which he imagines or sees himself as a “spirit”, or a “consciousness” placed in a “body” or in “matter”.

Indeed, in the pantheist’s vision of the cosmos, everything is related; the origin is the course of the totality where everything connects, interacting, being born, living and dying, transmuting in the present, with unity and diversity eternally present. The pantheon is symbolic, an abstract idea, equally imaginative and sensitive, aesthetically beautiful, psycho-physical.

The pantheist can be considered an atheist, along with all the pagans who want to affirm themselves as real or archetypical gods or goddesses, in the face of those who are faithful to that exclusive monotheism described above. Certainly, many of those who declare and describe themselves sto be “atheists” in order to distance and differentiate themselves from imperialistic monotheism, from Protestant dissident movements and colonial syncretic religions, but who do not feel themselves to be accidental happenings in anevolutionary process  without unity, stuck in state and secular structures which are the residues of old theo-political frameworks, could basically regard themselves as pantheists – one only needs to appreciate the amazing essence of the state-of-being.

Two stars and two destinies – who are you?

What is the virtue of your consciousness and your deep psychical disposition? What fundamental value do you affirm and identify yourself with, in relation to yourself and the “other”, in your relationship with culture, your forms of religiosity and what you reject? The question is a radical one; it concerns your relationship with yourself and with the totality of what exists: it reflects the culture in which you were born and what you do with it; your nature as a state-of-being placed in the world and the Cosmos. Therefore to ask: “What is the virtue of your consciousness and your deep psychical disposition? What fundamental value do you affirm and identify yourself with in relation to yourself and the “other” is the same thing as asking: “What is your identity and origin?” There are only two real answers, based on ideas, feelings, aesthetic appreciation and types of abstract ideas, expressed in two metaphors with roots that are either more urbi ou orbi. The two attitudes can properly be labelled as monist or dualist from a metaphysical point of view.

1. The dualistic metaphysical attitude is: a) an archaic theological idea: I am a spirit-and-soul banished into matter to pay for my sins, banished from the divine sphere because of an original fault, hoping to be saved and to enter the real world which is not natural, but supernatural, according to the revelations of spiritual guides; b) a post-modern theological scheme: I am a citizen-of-the-state, deprived of intuition and will, alienated and subordinated to the leaders of parties, circumscribed by my duties, following the norms and opinions dictated by those who have been elected.

2. The monist metaphysical attitude is: a) a universal theological idea: I am a natural and essential state-of-being, granted a body and a universal conscience, integrated with the Cosmos, practising the cardinal virtues of the philosophers, satisfied and happy by being nature that is in an eternal state of transmutation; b) a naturalistic scheme: I am a citizen of the world, sharing in a dialogic citizenship, alive within the limits of the universal ethic that is revealed in the light of natural reason.

The dualist idea reflects a deep lack of autonomy, it points to an internal disintegration from oneself and the whole, an isolation; an existential disgust and lack of appreciation emphasizes what is unpleasant, what is ugly, what is unworthy, what humiliates, discredits and lowers. The dualist theological perspective, divorced from natural harmony, stimulates a normative and sectarian culture, stripped of intuition, built into impositions that dishonour and break the natural state-of-being in hypocritical pleasantries, encouraging an egoistic consciousness. In its classical theological form, the subject finds himself locked in alienating schemes where he imagines himself to be living accidentally, stuck in a body that is unworthy and the source of sin. In these broken circumstances, the beauty that is exalted is often confined to the arts that are said to be classical or official, whether they are exhibited in mausoleums, hanging in museums, referring to an idea of the sublime that is strictly delimited, invoking leaders and gods that are separate and distant. There is a disharmony that erupts in contrasts that are expressed in the architecture of cities where urban islands sit side by side with select, imposing areas of power. Such a perspective points to a separatist way of drawing shapes that are defined, considering their boundaries, volumes, masses and weights. The feelings that predominate are those of essential lack of self-esteem, mistrust, insecurity and conflicts; a repressed libido draws back to within the limits of a sexuality that tends to degenerate into sublimations,  sado-masochism and pornography.

The monist idea reflects an active and elevated mood, strong vitality and health, an enthusiastic self-esteem, it points to empathetic integration, good-humored and kind towards oneself and the whole; a way of seeing the shapes which manifest themselves considering equally their relationships with what they are not. It is characterized by an aesthetic appreciation which stresses the beauty that manifests itself equally in the hamony of contrasts and semi-tones, a feeling of joyful well-being, open to ecstatic inspiration, leading to a libido which transcends the strict limits of sexuality to broaden out and shine on all levels. And it encourages a culture which reveals the sense of the whole, universalizes consciousness, roots and naturalizes ethics in an essential well-being, invokes metaphors and mythical meanings which dignify the state-of-being beyond his subjective settings.

So, in the end, who are you? Inevitable metaphysical questions, deep existential attitudes, baptismal values and fundamental theologies determine the vocations and duties of individuals, isolated or organized in churches, parties or sects, and by extension in international movements and missions of these institutions, and even of countries when certain churches, parties or sects dominate and influence them. You are the holder of knowledge either according to what you have been told, or according to what you yourself primarily signify, affirm in your feelings, your aesthetic attitudes and abstract ideas. You  – the purest, most essential and powerful state-of-being – take control and decide!

Translated by Stephen Cviic 

De onde vem a ‘minusvalia’? ~ Where does low self-esteem come from?

Rosa02

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Sublime é a natureza; uma simples flor à beira de um caminho, posta em destaque no verde intenso da folhagem, brilha como uma pedra preciosa, colorindo e elevando o ânimo. A natureza-flor aponta na direção de bons sentimentos e humores, de fato, um milagre de esplendor. Um pássaro, um rosto, um gesto, uma nuvem, a relação da flor com a folhagem adjacente induz e faz ressoar um ânimo tendente na direção dessa mesma perfeição; ao contemplar a harmonia da Natureza, por contágio e mimetismo, jorra um movimento em busca de equilíbrio, ponderação, alegria e justiça: virtudes reunidas no amor. Panteísmo, a religiosidade do presente – Barbier, R. A, 2009.

Baixa autoestima, ‘minusvalia’ como dizem os hispânicos, não acreditar em si; carências: de onde vem isso? Como dar uma resposta que não seja por demais abstrata ou teórica, dizer com o coração? Estamos quase todos atolados nessas crenças de que não somos belos nem criativos. Na nossa formação cultural, cujo baixo valor e ineficácia é amplamente demonstrado escutando o noticiário e observando a história, a crença geral é que não somos dignos o suficiente para veicular essas virtudes e outras afins, como sublime, espirituoso, inspirador, iluminador. Isso nos é negado, não pertence aos nossos possíveis potenciais. Porque o mito fundador dessa cultura da indignidade diz que somos essencialmente inadequados, que qualquer virtude maior vem do além, que é lá que fica o lugar onde esses talentos e graças habitam, num plano que não estamos merecendo. Assim mitificados, para nós, em geral, esses talentos não existem, pertencem ao além, não somos dignos, verdadeiramente belos ou criativos. Pensar diferente é tabu, vaidade!

E por outro lado, na escola, se apreende que a consciência é facultativa, agregada ao corpo como se fosse um apêndice, um chapéu, em vez de ser essencial, mesclada ao mundo e às células desde o começo dos tempos e da história. É necessário lembrar que a consciência é consciência do mundo que se conhece através da consciência! Logo, é evidente que a consciência acompanha a criação desde o começo, que ela cresce junto com o mundo, com o corpo, e isso é para mim, para ti, para todos os nossos ancestrais. Ao longo da totalidade do processo evolutivo, as aferências do toque, fluindo desde o começo da vida sensível, veiculam maior sentido, pondo em contato todas as criaturas e espécies ao longo da linha evolutiva e crescimento dos indivíduos até, eventualmente, florir em sabedoria. O que se pode conhecer de efetivo, significativo e real, só pode ser conhecido por nós mesmos ou transmitido por alguém existindo no nosso meio, junto a nós, na mesma especificidade e sintonia, logo, sujeito aos mesmos princípios conectivos e universais.

Esses dois abusos interpretativos, a ideia do afastamento do Belo e da consciência como função facultativa, são errôneos, hipotéticos e abusivos, pertencem à esfera das elucubrações, negam o evidente, o que se comprova apenas por existir como dado-a-ser. Não posso conhecer e atestar nada de sensato, testemunhável, a respeito do que não pertence ao plano existencial real e sensorial, tampouco dizer ou postular nada sobre o que não pode ser conscientizado. Assim sendo, é absurdo  negar o que existe e se sabe apostando em algo impossível de se conhecer ou saber; nos coloca num mundo em que o que é essencial, o valor e a lucidez, são deportados e banidos! A consequência dessas crenças fundadoras, instituidoras dessa ‘civilização’ infeliz, é alimentar uma cultura afastada do que é descrito como ‘divino’ e apartada de uma comunhão empática com a totalidade das coisas, eventos e fenômenos.

Uma vez vencidas essas distorções ilusórias, superadas essas crenças que diminuem a nossa autoestima e sabotam as profundezas da nossa realidade existencial, seremos capazes de reconhecer o Belo e o Bom, sensatos e empáticos como graças presentes entre nós e que a nós pertençam. O que é consciência, o que é divino? Não será consciência uma empatia plena, intuitiva, florindo no sentimento estético, na apreciação do Belo, ampliada nas pautas das abstrações formais e líricas, geométricas, instalando-se mandalas de significado como rosas abertas no coração? Não será divino o amor que transborda as suas fronteiras eminentemente reprodutivas para repicar em todas as escalas e se festejar em cantos de alegria e louvor? Sabemos, por experiência própria e inegável, que calcular, examinar com razão laboratorial destituída de empatia e apreciação estética, achando isso irrealístico ou impossível por decreto batismal, pode ser produtivo, gerar instrumentos de consumo e domínio, vantagens, instrumentalizar as pessoas, mas não satisfaz plenamente o existente cuja conquista e glória verdadeira é festejar o amor que é uma comunhão de consciência, de gestos, de toques na medida do possível, de momentos e ideias.

Quem tem vida firme e forte no coração sabe que se sente feliz gratuitamente, como as codornizes. As flores das campinas crescem à luz do sol, acumulando energia sem prender os raios. Alegria, alegria se acha sempre, transgressivamente, reconhecendo em si as virtudes negadas, o Belo e a consciência, mesmo se for necessário procurar além das estrelas, ainda assim, a alegria será para sempre posta no vaso onde se faz alegre, o coração do ser humano que aprendeu a amar sem nada querer além.

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu…

Uma estrofe da Ode à Alegria de Friedrich von Schiller para a 9.ª Sinfonia de Beethoven.

Where does low self-esteem come from?

Translation by Stephen Cviic

Nature is sublime: a simple wayside flower, standing out among the intense green of the foliage, shines like a precious stone, coloring and elevating the spirit. This flower-nature points towards good feelings and moods – it is in fact a miracle of splendor. A bird, a face, a gesture, a cloud, the relationship of the flower with the surrounding greenery finds an echo in any soul that tends in the direction of this same perfection. When one contemplates the harmony of Nature, there gushes out a contagious and mimetic movement in search of balance, reflection, joy and justice: virtues that meet in love. Pantheism, the religiosity of the present – Barbier, R. A, 2009.

Low self-esteem, not believing in oneself; a feeling of something lacking: where does this come from? How can one give an answer that is not too abstract or theoretical, that comes from the heart? Almost all of us are stuck in these beliefs that we are not beautiful or creative. In our cultural formation, whose low value and inefficiency is amply demonstrated by listening to the news and observing history, the general belief is that we are not sufficiently worthy to carry these virtues and other related attributes, such as being sublime, spiritual, inspiring, enlightening. This is denied to us; it doesn’t belong to our possible potentials. Because the founding myth of this unworthy culture says that we are essentially inadequate, that any greater virtue comes from beyond, that that’s the place where these talents and graces reside, in a plane that we do not deserve. Thus mythologized, for us in general, these talents do not exist, they belong to the beyond; we are not worthy, truly beautiful or creative. To think differently is taboo, vanity!

And on the other hand, we learn at school that consciousness is facultative, bolted on to the body as if it were an appendix, a hat, instead of being essential, mixed together with the world and our cells since the beginning of time and history. It’s necessary to remember that consciousness is consciousness of the world that we know through consciousness! Therefore, it is evident that consciousness has accompanied creation since the beginning, that it grows with the world, with the body, and this is true for me, for you, for all our ancestors. During the whole evolutionary process, the sensory nerves – which pour from the very beginning of life — acquire progressively more complex ramifications and interactions, putting all creatures and species in touch with one another, until they eventually flower in wisdom. What one can actually know that is significant and real can only be known by ourselves or transmitted by someone who exists in our milieu, together with us, belonging to the same species and in harmony with us, therefore, subject to the same connective and universal principles.

These two interpretative abuses – the idea of being distant from the Beautiful, and considering consciousness as a facultative function, are erroneous, hypothetical and abusive. They belong to the sphere of theoretical musings; they deny what is evident, that which is proved merely by existing as a state-of-being. I cannot know or bear witness to anything reasonable which does not belong to the real and sensory plane of existence. Nor can I say or postulate anything about that which cannot be brought into consciousness. This being the case, it is absurd to deny that which exists and which one knows, by gambling on something which is impossible for us to know; it puts us in a world in which that which is essential, value and lucidity, are deported and banished! The consequence of these founding beliefs, which established this unhappy “civilization”, is to nurture a culture that is at arm’s length from what is described as “divine” and separated from an empathetic communion with the totality of things, events and phenomena.

Once these illusory distortions have been overcome, along with those beliefs that diminish our self-esteem and sabotage the depths of our existential reality, we will be capable of recognizing the Beautiful and the Good, sensible and empathetic like graces that are present among us and which belong to us. What is consciousness, what is divine? Is consciousness not full, intuitive empathy, flowering into aesthetic feeling, into an appreciation of the Beautiful, broadened out into patterns of lyrical and geometrical abstract forms, with mandalas of meaning establishing themselves like open roses in our hearts? Is the love not divine that overflows its reproductive boundaries to ring out on all levels and to be celebrated with hymns of joy and praise? We know, by our own undeniable experience, that calculating, examining things with a laboratory type of reasoning bereft of empathy and aesthetic appreciation, believing this to be unrealistic or impossible by baptismal decree, can be productive, can generate instruments of consumption and domination, can instrumentalize people, but it does not fully satisfy the human being whose true achievement and glory is to celebrate the love which is a communion of consciousness, of gestures, of as much contact as possible, of moments and ideas.

Whoever has firm and strong life in his heart knows that he feels happy freely, as quails do. The flowers of the prairies grow in the light of the sun, accumulating energy without stopping the rays. Joy, one always finds joy, transgressively, recognizing in oneself the denied virtues, beauty and consciousness, even if it is necessary to search beyond the stars. Even so, joy will be forever placed in the cup where the heart of the human being who has learnt to love without wanting anything beyond that is made joyful.

Oh friends, not these tones! Let us raise our voices in more pleasing and more joyful sounds! Joy, fair spark of the gods, daughter of Elysium, drunk with fiery rapture, goddess, we enter your shrine! Your magic reunites those whom stern custom had divided….

A verse from the Ode to Joy by Friedrich von Schiller for Beethoven’s Symphony Number 9.

Ethos compreendido, ética verdadeira ~ Ethos understood, true ethics

Da terceira condição

filha da natureza

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Antes de ser cultural, a ética é natural e individual, por isso existe uma ética justa e verdadeira; não existiria em apenas uma única condição: se o ser humano fosse radicalmente acidental, aparecesse aleatoriamente, extemporâneo, sem causas imediatas ou gerais, destituído de enraizamentos empíricos, desprovido de Logos, fosse lançado ao acaso para habitar mundos erráticos e diversamente contingentes. Não é o que acontece; a mesma interrogação serve para descobrir o que ainda não se sabe e o que foi esquecido, dançamos em união vital e existencial com o cosmos em que, conjuntamente, com todas as demais criaturas, evolvemos e surgimos.

O acaso é o que foge das garras prepotentes da razão; o ‘acidental’ dos positivistas é hipótese referente a cogitos teleológicos, à ontologia da consciência e algumas circunstâncias iniciais que não se metrificam: não se duvida das infinitas e ordenadas correlações que se expressam nas ramificações da árvore evolutiva. Desde a formação das nebulosas, sóis e planetas, até os reinos onde habitam as criaturas, elementos e forças em perfeitos ajustes desdobram as regiões do universo e as entidades que o habitam em entrelaces e processos complexos e ininterruptos onde nada é estranho ou deixado de fora; uma correlação unitária e sem fim confere congruência existencial máxima ao estado-de-ser, por isso o poeta exclama:

Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.

Sou uma só… Sou um ser (…) – Clarice Lispector.

Onde estão as separações e estranhezas radicais? Nas curvas da evolução, não existem olhos que não se explicitam em visões; nos horizontes existenciais em que vivemos, não há visão sem observação ou admiração, admiração sem sentimentos e sentimentos sem expressões, não tão só dos olhos: nada existe sem corpos e sem sistemas nervosos cujos terminais reagem aos elementos e estímulos desde os primórdios, estabelecendo trocas e mesclas; um continuum indefinido jamais cede às interrogações sempre criativas e férteis de novas fronteiras e mistérios.

Existindo nessas circunstâncias cósmicas, que na nossa escala são evolutivas, com essa inteligência florida, sensível e racional típica dos humanos, plenamente humanos, é possível apreciar e operar a existência em profundidade, num crescendo que transforme a causalidade, onde melhor se explicitam as condutas nas congruências do Ethos, em liberdade cuja lucidez e complexas integrações brotam em realizações, artes, civilidades e culturas tendentes a se deixar impregnar de saberes e matizes filosóficos. Nesse elã vital, sem jamais divorciar, as exatidões e sensatezes das correlações ecológicas cedem largas fronteiras de atuações às luzes da razão cujos ditames impulsionam numa variedade de direcionamentos culturais e históricos.

Nesse processo, frente ao estado-e-ato-de-ser referido na consciência viva instituída em matéria-energia, evolvendo das reações bioquímicas, respostas reflexas, instintos e sentimentos típicos dos animais até os anseios pensativos e sábios dos humanos, dois sentidos são possíveis: satisfação ou insatisfação. É a aceitação harmônica do estado-de-ser anuente frente ao dado-a-ser, contemplado à luz dos ditames da inteligência natural mais sagaz (anuência e sabedoria emparelhadas como dois corcéis puxando uma carruagem), que pode garantir o melhor modo de existir nos contextos, a ética mais lúcida e verdadeira.

Portanto, a qualidade dos usos e costumes, sedimentados em função das condições naturais forjadas nas pautas do Logos universal que rege o contexto, o corpo, as visões e as ideias, instituídos em rotinas históricas consagradas e moduladas com inteligência, sabedoria e flexibilidade variáveis, dependem, igualmente, de uma terceira condição fundamental: uma escolha sensível e estética, que se apresenta ambivalente, dual, como luz e sombra, anuir ou discordar, comme il te plaira de choisir.

Talhado na obra evolutiva como um diamante burilado do cascalho, existindo nesse processo que transmuta em escalas insondáveis na ordem do Logos universal e à luz da razão e sabedoria natural, sempre o mesmo e sempre outro como convém a um grande ser: o atávico medo de morrer, gerador de fantasmas e fantasias, se remedia pelo medo de viver sempre; a arcaica angústia de existir nas coordenadas exatas e limitadas dos corpos que individualizam e isolam, se equilibra pela angústia de se sentir informe, roteando no vazio, volitando sem espaço-tempo onde pousar. Sentir-se agradecido e satisfeito, bem humorado, anuindo com o dado-a-ser, permite regular o sentimento como e quando convém, extasiado, sereno ou ataráxico, achando-se o sossego e a inteligência necessários ao bom uso das virtudes cardeais; encontrando-se tempo, ou passatempo, para contemplar o horizonte, desfrutar o cenário, tentando parar a chuva ou fazer nascer as flores; até mesmo, confiante, esperar mais amor a cada dia.

Anuir com respeito e harmonia com o estado-de-ser aponta uma maneira melhor de existir e viver no momento e nas circunstâncias dadas, porque se reconhecem com mais clareza as formas naturais que se estendem do mais focado e peculiar ao mais geral e abstrato. Nessas abrangências lúcidas, o que é da esfera das visões amplas demanda um Ethos, uma conduta e honra correspondentes, facilmente intuída pelos mais sábios, e, quando enunciada, compreendida por todos; somos um estado-de-ser integrado em que tudo, a composição da água e do ar, a flora e fauna, radicalmente interoriginam e interdependem; logo: vive-se melhor como se deve, de acordo e anuindo com o que se é. Quanto às coisas menores (o que fazer quando não chove ou chove demais?), reúne-se o grupo a conversar, burilando as escolhas mais sensatas, imitando a natureza que burila a si mesma, igualmente dialogando nas extensões do grande elã.

No outro encaminhamento e escolha, a insatisfação assombra o bom humor e a lucidez, revelando-se o dado-a-ser como castigo, motivando almejar um além que possa salvar de existir dessa forma, metade cogitans metade extans em agregado inelutável. A sina do insatisfeito, que nega o estado-de-ser e desdenha a natureza projetando nela as suas próprias limitações, dependerá das interpretações e suposições dos mentores dominantes e tradicionais. Destituídos de tino filosófico que inexiste sem razão sensata como inexistem flores sem luzes, os que não anuem com o dado-a-ser natural sem razão maior de que um desgosto assombrado, forçosamente, imaginarão histórias em que morrer seja louvado como via régia, direcionando para um sobrenatural e grandioso além. A abnegação, resignação, sacrifício, esperança e a fé servirão para suportar o viver; nessa recusa, na tentativa de equacionar sentidos e ordenamentos que incluem as escalas existenciais mais extremas, consultar-se-ia os eleitos e enviados representantes do divino, reclusos, que, certamente, na ausência de balizas evidentes e naturais, emitirão uma variedade de opiniões e pareceres dogmáticos, de acordo com os seus desejos, vislumbres, infundadas esperanças, ou baseados nas tradições, nas lendas, na sorte ou veracidades dos áugures.

No primeiro caso, a ética será amável e cuidadosa, porque aquiescente com o dado-a-ser que naturalmente renasce na união amorosa e abraços dos que se complementam e amam; igualmente, prudente, empírica, experiencial, naturalista e universal, descrita e vivida por filósofos pioneiros e vanguardistas, explicitada, ajustada e compreendida nas medidas do bom senso, dos compartilhamentos e ponderações dos discursos. Embalada nas hipóteses dos teólogos e hermeneutas, a ética será normativa e sem razão, dogmática, ditada de acordo com as exclusivas revelações de profetas atinentes a cada canto e lugar, perpetuada em gestos, usos e costumes na repetição insensata dos mesmos rituais, credos e cultos. No primeiro caso, na vigência de uma anuência plena com o estado-de-ser, a religiosidade será operante como uma festa, resultando de um estado atento e gozoso de ser, sutil e belo, de acordo com as boas disposições e as graciosidades iniciais; no segundo, o religar implicará uma súplica, um pedido, um lamento, quiçá, exemplarmente, sacrifícios, abstinências e anacoretismos.

Aos satisfeitos, o divino aparece vivo como uma esfera sublime e gozosa que alimenta e prolonga os sentimentos e visões; a natureza, admirada à luz da inteligência mais sensível, aparece como um fenômeno divinal, uma deusa, os humores e esteticismos mais intensos encontram vias expressivas em diversas artes e inspirações sublimes como as musas. Aos que anuem com o dado-a-ser, o Ethos valente onde nasce a ética vital, a pátria se revela plena de sentido e de glória, trazendo nas suas formas citadinas e campestres as marcas do bom mito e do Logos mais justo, lugar onde com firmeza e saber equaciona a ética mais naturalmente humana; advém a verdadeira pátria em que a vida habita e flora à luz de uma teopolítica amiga e agradecida, louvada em cada fenômeno, das raízes que chamejam no centro da terra, até os símbolos e visões mais sutis e solares, arqueando um edifício de saberes e glórias, uma casa panteísta com certeza.

Num mundo dominado por insatisfeitos querendo se salvar da existência, ascender em esferas despojadas de mundo, vive-se como hoje se vive, espantados em ilusões virtuais, titubeando nas sombras do império da Roma agonizante. Escutem as notícias, leiam os jornais uma hora ou duas; se forem intuitivos, bastarão subir em uma colina adjacente à cidade, revelar-se-ão as arquiteturas babilônicas típicas das sociedades assentadas em nuvens e areias movediças.

Esquecido de que são pessoas de carne e osso e não espíritos etéreos, os que já não sabem sentir tanto quanto pensar por desuso das coisas do sensório e castidade excessiva, imaginam que o significado original existe traduzido em palavras, que se referem a palavras, que assentam em velhos livros escritos por enviados evocando visões oriundas de outros orbes! Outros, sem espessura e acuidade suficiente na visão, só observam a metade do real, confundem os abstracionismo da razão lógica com a realidade, deixando de ver as demais abstrações, líricas e formais, que dançam com as coisas da estética, desprezando, igualmente, a geometria unitária desenhada por Espinosa, como se suas zelosas regras de cálculos e silogismos estreitos servissem apenas para metrificar coisas. Esses, que ao lado dos soberbos, pretendem ditar as regras do bom viver, não encontram as raízes do dado-a-ser que assentam nos fundamentos mais estéticos e intensos dos fenômenos: permanecem nas camadas superficiais da existência, sem encontrar os grandes significados; ou ainda, temerosos de se desviarem das órbitas citadinas de onde tiram o seu sustento, negam a realidade evidente do Logos para clamar que é na história dos homens, etiquetas e hábitos que não se atualizam à luz do bom senso, mas sim da prepotência que se assenta a fonte mais exata de uma ética sem Ethos, destituída das suas origens e natureza.

Se você imagina existir um plano ideal, separado do seu alcance intuitivo e visionário, impossível de ser penetrado sendo o que você é, ou que esse planos visionários nada significam de tão fundamental, você estará desprivado da sua visão e força poética, prejudicado, sem poder interagir para, conjuntamente, renovar e criar as configurações essenciais da verdadeira pátria universal; viverá suportando as estruturas normativas desenhadas pelos que profetizam nesses modos airados, realizando os infernos que evocam do acordo com o processo de veracidade sagital onde, na esfera cultural e nas interfaces da natureza desrespeitada, é dado a se viver o que de si mesmo e do mundo se cogita e cultiva!

Assim caminha a humanidade, seja movida no comando dos filósofos de raízes, filhos da natureza, os que sentem, tocam e são, ou no comando dos teólogos da tradição e seus fiéis arautos; mas, um dia, que pode não ser distante, de tanto despertar em pesadelos aterrorizantes e insanos, o tempo de um novo panteão há de brilhar despertando Apolo, Inti ou Aton no horizonte – tempo não falta.

Ethos understood, true ethics

Of the third condition

Régis Alain Barbier

Prior to being cultural, ethics is natural and individual, and this is why there is a just and truthful ethics; it wouldn´t exist in only one condition: were the human being radically accidental, appeared just randomly, extemporaneously, without immediate or general causes, deprived of empiric rooting, lacking Logos, launched by chance to inhabit erratic and diversely contingent worlds. This is not what happens; the same questioning is applied to discover what one does not know yet and what has been forgotten, we dance in vital and existential union with the cosmos where, together with all other creatures, we emerge and develop.

Chance is what escapes from reason´s claws; the positivists ‘accidentally’ is a hypothesis which refers to theological reflections, to the conscience´s ontology and to some initial circumstances which can´t be measured: one can´t doubt about the endless and ordained correlations which are expressed in the branches of the evolutionary tree. From the formation of nebulae, suns and planets, to the reigns where creatures, elements and forces live in perfect harmony, the regions of the universe and the creatures inhabiting them unfold themselves in complex and uninterrupted processes where nothing is strange or left outside; a oneness and endless correlation bestows maximum existential congruence to the state-of-being, and this is why the poet utters:

I´m a daughter of nature: I want to catch, feel, touch, be. And all this is already part of an entirety, of a mystery. I  am  just  one…  I am a  being (…) – Clarice Lispector.

Where are the separations and radical strangenesses? On the curves of evolution, there are no eyes which do not explicit themselves in visions;  on the existential horizons where we live, there´s no vision without observation or admiration, admiration without feelings and feelings without expressions, not just only from the eyes: nothing exists without bodies and nervous systems whose extremities react to the elements and stimuli since primordial times, establishing exchanges and mixtures; an undefined continuum never yields to always creative and fertile questionings of new frontiers and mysteries.

Existing on these cosmic circumstances, which are evolutionary in our scale, with this flowering, sensitive and rational intelligence typical of the human beings, fully human, it is possible to appreciate and operate existence in depth, in a gradual increase transforming causality in a freedom whose brightness and complex integrations are brought forth into realizations, arts, civilities and cultures tending to let themselves impregnate with  philosophical wisdoms and nuances.  In this vital, never divorced ‘union’, the accuracies and wisdoms of ecological correlations yield to broad boundaries of actions at the light of reason, whose principles drive a variety of cultural and historical directions.

In this process, before the state-and-act-of-being referred to an alive consciousness established in matter-energy, developing from biochemical reactions, the animals´ typical reflected answers, instincts and feelings, till the humans´ wistful and wise yearnings, two feelings are possible: satisfaction or dissatisfaction.  It is the harmonious acceptance of the state-of-being before the given-to-be, contemplated at the light of the natural and more sharp-witted intelligence principles (approval and wisdom coupled as two coursers pulling a carriage), capable of guaranteeing the best way to  the most lucid and truthful ethics to exist on the contexts.

Therefore, the quality of uses and costumes, sedimented as a result of the natural conditions forged in the guidelines of the universal Logos ruling the context, the body, the visions and ideas, formed in historical routines, consecrated and modulated with variable intelligence, wisdom and flexibility, equally depend on a third fundamental condition: a sensible and aesthetical choice, presenting itself ambivalent, equal, such as light and shadow, agree or disagree, ‘comme il te plaira de choisir’.

Engraved in the evolutionary work as a diamond carved from the gravel, existing in this process transmuting unfathomable scales in the universal Logos order at the light of reason and natural wisdom, always the same and always other as suitable to a great being: the atavistic fear of dying, ghosts and fantasies producer, is healed by the fear of living for ever; the archaic pang of existing on the bodies´ individualizing and isolating  exact and limited coordinates, is well balanced by the pang of feeling itself shapeless, revolving in the vacuum, flying without a space-time where to land. To feel thankful and satisfied, good-tempered, agreeing with the given-to-be, allows one to control the feeling how and when it is convenient, delighted, serene or supremely happy, feeling him/herself the necessary quietness and intelligence to the good use of the cardinal virtues; finding time, or pastime, to admire the horizon, enjoy the scenario, trying to stop the rain or cause the flowers to bloom; even yet, trustful, waiting more love every day.

To agree, with respect and harmony with the state-of-being, indicates a better way to existing and living at the present moment and on the given circumstances, because the natural forms extending from the most focused and peculiar to the most general and abstract are more clearly recognized. On these lucid reaches, what belongs to the wide visions sphere requires an Ethos, a conduct and corresponding honor, easily intuited by the wisest, and, when uttered, understood by everyone; we are an integrated state-of-being in which everything, the water and air composition, flora and fauna, radically inter-originate from and inter-depend on themselves; thus: one can live better, as it should be, in accordance with and agreeing upon with what one is. As to the minor things (what can one do when it does not rain or when it rains too much?) the group meets to talk, polishing the most judicious choices, imitating the nature that polishes itself, identically dialoguing on the great clan´s extensions.

On another direction and choice, dissatisfaction astonishes the good mood and brightness, when then the given-to-be is revealed as punishment, causing one to long for the other world that may exempt from existing this way, half ‘cogitans’ half ‘extans’ in an unavoidable aggregate. The unsatisfied fate, that denies the state-of-being and disdains nature projecting into its own limitations, will depend on the dominating and traditional mentors´ interpretations and suppositions. Deprived of philosophical discernment that does not exist without a judicious reason as lightless flowers do not exist, those who do not agree with the natural given-to-be without a reason greater than a haunted grief, will forcefully imagine histories saying that dyeing is praised as a royal path bounding for a supernatural and grandiose world. Abnegation, resignation, sacrifice, hope and faith will help to stand living; in this refusal, trying to equate meanings and ordainments, including the most extreme existential scales, the divine´s sent and elected, secluded representatives would be consulted, who, certainly, with the lack of evident and natural delimitations, shall utter a number of dogmatic opinions and view points, in accordance with their will, conjectures, baseless hopes, or based on traditions, legends, destiny or fortune tellers´ truthfulness.

In the first case, ethics will be kind and careful, because it is acquiescent with the given-to-be which naturally revives in the loving union and hugs of those complementing and loving themselves; equally, prudent, empiric, experimental, naturalist and universal, described and lived by pioneering and avant-gardist philosophers, explained, adjusted and understood in the good-sense measures, on the discourses´ partaking and considerations. Conducted by the theologians and hermeneutists´ hypotheses, ethics will be normative and reasonless, dogmatic, dictated in accordance with the exclusive revelations of prophets relative to each corner and place, perpetuated in gestures, uses and costumes in the foolish repetition of the same rituals, beliefs and cults. In the first case, during the validity term of a full agreement with the state-of-being, religiosity will be operating as a party, resulting from a thoughtful and joyful, subtle and beautiful state of being, according to the good dispositions and initial gracefulness; in the second case, the re-connection will imply a supplication, a petition, a weeping, perhaps, exemplarily, sacrifices, abstinences and anchoretisms.

To those showing satisfaction, the divine appears alive as a sublime and joyful sphere feeling and prolonging feelings and visions; nature, admired at the light of the most sensitive intelligence, appears as a divine phenomenon, a goddess, the most intense humors and aestheticisms encounter expressive ways in several arts and sublime inspirations as the muses. To those who agree with the given-to-be, the valiant Ethos where the vital ethics is born, the home land reveals itself plentiful of meaning and glory, bringing in its urban and country forms the marks of the good myth and of the most virtuous Logos, a place where with firmness and wisdom the most naturally human ethics is equated; the true home land happens where life inhabits and emerges at the light of a friendly and thankful theopolitics, praised in every phenomenon, from the roots flaring in the center of the earth, to the most subtle and solar symbols and visions, vaulting a building of awarenesses and glories, a panentheist house, certainly.

In a world dominated by dissatisfied beings willing to save themselves from existence, ascend into world divested spheres, living is just like one uses to live today, frightened by virtual illusions, hesitating on the shadows of the agonizing Roman empire. Listen to the news, read the newspapers for one or two hours; if they were intuitive, it´s enough to climb a hill adjacent to the town, and Babylonian architectures typical of the societies seated on clouds and quick sands will be disclosed.     .

Oblivious of being flesh and bones individuals and not ethereal spirits, they who do not know how to feel as much as they think due to the lack of use of the sensorium and excessive chastity, they imagine that the original meaning exists translated into words, referring to words, put into old books written by envoys evoking visions from other orbs! Others, deprived of sufficient vision thickness and sharpness, who only observe half of the real, confounding the logic reason´s abstractionism with reality, not being able to see the other lyric and formal abstractions, dancing with the things of aesthetics, equally despising Spinoza´s drawn Unitarian geometry, as if their zealous rules of calculation and narrow syllogisms would only be useful to measure things.

These, who aside the prideful, intend to impose the good living rules, don´t find the roots of the given-to-be which are seated on the phenomena´s most aesthetic and intense foundations: they remain on the existence´s superficial layers, without encountering the great meanings; or yet, fearful of deviating from the urban orbits from where their sustenance come from, deny Logos´ evident reality to cry out that it´s in men´s history, etiquettes and habits, that they aren´t brought up to date at the light of good sense, but yes in the predominance where the most exact source of an ethics without Ethos is seated, deprived of its origins and nature.

If you imagine that an ideal plane exists, apart from its intuitive and visionary reach, impossible to be reached being what you are, or that these visionary planes mean nothing of so fundamental, you will be deprived of your vision and poetic force, impaired, with no condition to jointly interact, renew and create the essential configurations of the truthful universal home land; you will be living supporting the normative structures drawn by those who foretell on these sluggish procedures, performing the perditions which are evoked in accordance with the sagittal truthfulness process where, on the cultural sphere and on the disrespected nature´s interfaces, one is allowed to live what´s taken into consideration from him/herself and from the world.

This is how mankind walks, be it moved under the command of root philosophers, nature´s sons, those who feel, touch and are either under the command of tradition theologists and their faithful heralds; but, one day, which might not be so distant, because of awakening due to terrifying and insane nightmares, the time of new pantheon shall shine waking up Apolo, Inti or Aton at the horizon – time is not missing.

Tu és Panteísta, podes reconhecer-te dessa forma?

Janeiro 22, 2013 – Régis Alain Barbier

Sol_lua_RosaTu és panteísta? Tu podes te reconhecer como panteísta? Perguntas estranhas, até mesmo complexas. Três palavras compactando noções difíceis. ‘Eu’, ‘ser’ (deveria escrever com maiúscula? ‘Ser’), ‘o todo’, e, por fim, ‘Divino’. Uma pergunta que corresponde a indagar se ‘esses alguéns’ evocados pelos pronomes (eu, tu, você…) guardam relação de identidade, ou união, com aquilo que corresponde à noção explicitada através dos termos deus, deusa ou ‘divino’, entendidos como totalidade – isto é Panteísmo. É possível afirmar-se conectado, identificado com o divino, entendido como totalidade?

Claro, não é necessário sentir-se obrigado a reagir tão ‘modernamente’ a uma simples pergunta – reação rebuscada, exemplificando a aplicação da ordem das ideias embutidas na postura metodológica neutral, analítica e dissociada, do regard cientificista. Essa reformatação gnosiológica da pergunta subentende, desde já, certo laicismo, marcando um estranho e apriorístico distanciamento do questionamento que versa sobre a relação integrante do indivíduo com o ‘divino-todo’, uma apreciação, um valor, implicando um fenômeno que, essencialmente, não se (re)conhece analisando – elemento de resposta negativo frente ao questionamento? Mas, por sua vez, essa forma de reestruturar a pergunta pressupõe um distanciamento dos doutrinamentos teológicos que dispensam a razão e desaprovam os pareceres próprios – prenunciando-se uma anuência à nossa pergunta?

Na vigência do conhecimento do termo ‘panteísta’, mas na falta de uma elaboração filosófica e linguística frente ao questionamento, poderá surgir uma resposta impregnada de culturalismos introjetados e carregados de emoções, cogitos populares: “Como um sujeito comum ousa imaginar-se equivalente a uma ‘entidade divinal, oriundo de algum ‘céu’, quiçá trazendo uma mensagem redentora?!”. Provavelmente, outros cogitos e sensações ecoam dessa caverna de preconceitos: sentimentos pouco formulados, alarmes sinalizando a aproximação de tabus, ironias, escudos para tamponar desafios e ideias que inquietam porque confrontam com arranjos batismais gravados e assimilados por catequese: “Um enviado do céu! Só se for um ‘avatar’ adormecido, um simples albatroz batendo as asas nos pontais, isso sim!”.

Não tendo sofrido significativas impressões teológicas batismais, criado como recurso humano (RH), em pátios produtivos e apoéticos de algum estado grosseiramente sociocrático, o indagado poderá cogitar: “Questionamento de poetas e desocupados – vamos trabalhar pra pagar as nossas dívidas e juros!”.

Indubitável, praxes e dimensões cognitivas singulares e diversas suportam ou desmerecem o questionamento. Em referência a essas ‘esferas divinais’, muitos acompanham normas condicionadas com gestos repetitivos, coisas similares a cacoetes e trejeitos: quem não viu esses sujeitos que se persignam a fronte, a boca e o peito, olham para cima ou beijam os dedos cada vez que passam na frente de alguma igreja, templo ou símbolo, evocando o divino de acordo com suas culturas e cultos batismais? Elevam os olhos, murmuram sons e rezas sem elevar ideias algumas, tampouco sentimentos específicos – ganhos, gols, gratificações diversas e proveitos se acompanham dos mesmos gestos! Cogitar relações de elevada grandeza, de alguma forma significativas e examináveis, estéticas, com esse ‘Todo’ divinizado, sublime, exige uma compleição cognitiva ampla, disposta a considerar e apreciar esses ‘universais’: um ânimo filosófico e sensível, liberdade, isto é ser artista ponderado e poético. Obedecer a cultos tradicionais e dominantes, a mitos midiatizados introjetados antes da idade da razão, não exemplifica afiliações examinadas e confirmadas, sequer a capacidade de escolher algum rumo ou identificação nessas alturas vertiginosas. Para muitos, embora homo sapiens, a pergunta nada significa.

Portanto, para significar o questionamento proposto é necessário superar ritos, medos, condicionamentos e deslocamentos irônicos, dispor de categorias cognitivas adequadas, acrescidas de autoridade criativa e gosto; poder responder, significativamente, a tal questionamento exige sensibilidade, intuição mística e abstrata para optar e apreciar decursos que não se decidem repetindo opiniões ou equacionando conceitos, mas sentir de primeira mão a virtude dessa relação intuída e cogitada como coexistência unitária entre a divina totalidade (Deus) e si mesmo, em si mesmo.

É que ‘si mesmo’ e suas relações não se equacionam com as coordenadas lógicas que delimitam objetos considerados nas suas formas sincrônicas – os limites que instrumentam e condicionam concretudes, como a mesa e o monitor na sua frente, o teclado, a página, desconsiderando os procedimentos fabris e as causalidades correspondentes acontecendo ao longo de infindas cronologias – a extração e reunião dos componentes, os projetos e processos de transformações… É que ‘si mesmo’ é si mesmo desde o começo, desde os confins da lucidez e formação primordial, não é coisa que se matematiza ou delimita com ‘outra coisa’. A amplidão que se desvela ao olhar perspicaz exige evocar um ‘valor próprio’ que não se equaciona com limites, um valor que se sente e se ressente em si mesmo, por si, a partir desse interior-em-si: evocando uma trama fenomênica que não pode ser coisa, tampouco outra coisa, a não ser como metáfora.

Do amor e desejo, modos do atributo ‘cogitans, ou mente’, como sentimento e vontade compartilhados entre genitores, que são, igualmente, pessoas físicas e atuantes, ou seja, modos do atributo ‘extans, ou corpo’, proliferam descendentes que são expressões dos mesmos atributos, em muitas gerações, infindos modos e configurações infinitamente graduados. Infinita é essa realidade existencial que evolve, e, em tudo o que relata a todos nós revela ser dessa forma, testemunha necessária da totalidade dos mundos imagináveis; não há corpos, objetos ou mundos pensáveis, sem infinitos sujeitos, senhores da imaginação.

Logo, a magnitude criadora assim explicitada para todos e tudo é o Todo que é Um, seja Cosmos ou Deus – em todo caso, absoluto ou divino. Para admirar e contemplar esse grande estado-de-ser, igualmente absoluto e singular, autopoiético e infinito (até prova em contrário) não necessito imaginar ou argumentar uma ou outras entidades substanciais geradoras potenciais desse Todo – mono ou politeísmo – e, caso o faço por vias de doxas e gostos infundados, não posso, em consciência e lucidez, afirmar uma ruptura substancial entre essa(s) suposta(s) entidade(s) e a realidade: o que confirmaria a abusividade da imaginação e pretendidas conclusões. Ensinar absurdezes dogmáticas e desnecessárias leva a realizações culturais absurdas e desnecessárias, potenciais pesadelos que se dissolvem à luz do bom senso natural.

Para bem opinar, com autoridade, sobre a totalidade, o Todo, não se pode jamais desmerecer esse cogito intrínseco que é aquilo que justamente não se delimita, mas se esgota e dilui em ‘não saber’ nos confins e potenciais das formas e da lucidez, do estado-de-ser. O Todo permanece conhecível como uma trajetória intuída nos compassos das apreciações e abstrações até aos confins do possível e do Cosmos, mas infindo e indelimitável. Elevar uma fronteira aparente, um limite reduzido e objetificado – como acontece entre a linha do horizonte e o céu – como símbolo para o estabelecimento de uma metáfora mitificada em narrativa, e cantar: “um Deus celestial e sobrenatural criou o mundo onde, e, por ele, fui lançado para vida”, configura uma produção ideológica. Uma elucubração teorética que subordina rusticamente a apreciação autoral, com razão qualificada e infinda de si mesmo no contexto da lucidez natural, a um conceito limitador, logo, limitante e limitado, que objetifica o estado-de-ser imenso e unitário em, de um lado, um estado reduzido às suas aparências, e, do outro, um ‘ser’ radicalmente utópico, rompendo com a apreciação sábia continuada da totalidade infinda, a mercê de um Grande Sujeito dissociado; isto é um ‘Deus’ em oposição a um pequeno sujeito, ambos interagindo, banindo-se mutuamente.

A mitificação substitui e rompe o Todo em dois eventos: o Deus do teísmo hierarquista que aparece e surge nesse momento, nesse espaço mítico, como Grande Sujeito, e, o pequeno sujeito, objeto nas suas santas mãos, ou seja: o ‘espírito do homem’ versus o ‘espírito de Deus’. Mas, nas adjacências dessa igreja globalizada o Grande Espírito dos indígenas, gentílicos e pagãos continua apontando o Todo que se aprecia do interior-em-si, sem dicotomias – a mão humana é sagrada.

Aceitar a objetificação mítica do estado-de-ser natural e lúcido por intermédio dessa narrativa e enquadramento ideológico dualista, advogando, de um lado, esse deus sobrenatural que criou o mundo para pôr o homem num castigo redentor, é ser teísta, é romper a consciência vivaz e natural do Todo; recusar essa narrativa sustentando essa lucidez natural e ilimitada é ser panteísta.

Mas, tu, amigo, hoje mergulhado nessas cidades e nações superestratificadas por ditadores de normas abençoados por ‘elites sacerdotais’ – que afirmam conhecer, por revelações históricas e peculiares, um domínio que reside além do que o pequeno espírito do homem pode saber – corruptela mítica desse Todo que se conhece e reconhece até os confins do ‘nada sei’ de Sócrates e dos pagãos . Tu, apesar de te sentires imerso nesse mundo brumoso, dize-me: ocasionalmente, não terias, ao menos na juventude, sido visitado por um gênio, um artista sublime e desobediente, inconformista, como certos renascentistas ou ‘iluministas’?

Não terás sido visitado por uma onda repentina de imaginação e intuição venturosas, associada a um humor forte, erótico ou extático, similar ao desses antigos heróis como se descrevem na literatura e nas artes? Isto é, tocado pelo mesmo ‘daimónion’ ou gênio que animava os Sócrates e demais pagãos que viviam além das fronteiras dessa muito ‘estranha’ civilização. Estranha diversas vezes porque teísticamente dissociada do Todo por decreto mítico; estranha porque refugiada num laicismo cientificista que pretende cogitar tudo racionalmente, colocar o mundo que só pode ser humano antes de ser ecológico, nas pautas da observação objetiva – hipótese das hipóteses; estranha por obrigar muitos cidadãos – bem no fundo, amedrontados tanto pelos anátemas batismais quanto pelas vertigens correspondentes a intuir-se surfando numa onda de mistério – a fugir em figuras irônicas, críticas irresponsáveis e descasos, exclamando: “esse Todo é um Nada, vamos nos embebedar…”; finalmente, talvez, um mundo ‘estranho’ por razões verdadeiras… de fato ‘espanto verdadeiro’: o avesso sagrado e místico da estranheza cultural!

Não terás admirado, espantado, pedaços rasgados de céu, mares ou campinas, descortinados depois de escalar dunas e taludes? Não terás vivenciado essa sublime expensão do ânimo como brisa ou vendaval ampliando até a linha do horizonte, meteoro rompendo em ‘ah!’, ‘ah!’ intensos como eurecas! Ou esses encontros selvagens e subversivos, pré-predicativos ou pré-batismais, teriam acontecido catando coisas miúdas como conchas na areia, pedrinhas, flores campestres, esparsas na grama das ribanceiras, respingos coloridos de fadas! Quiçá, algum perfume proustiano, insinuando-se de repente, como o cheiro do pão dourado, perfume ideal, certamente, mas, igualmente, quente e apetitoso, imanando da cozinha do vento? Talvez um simples estribilho de rouxinol; ou um jogo de sombras e luzes pipocantes, amarelas, verdes e violetas, respingando da copa dessa árvore ancestral. Cochilando na relva, talvez, sentiste esse deslize suave subindo pelas pernas, enlaçando o corpo, para, num súbito abrir de asas, cabelos eriçados, teres sido lançado no espaço sideral, cavalgando um dragão cósmico! Ou então sonhou receber a solene incumbência de descortinar a alvorada e acordar o mundo, ainda procurando o cordão da cortina celestial nas nuvens azul e branca da alvorada do seu próprio despertar? Coisas ainda mais estranhas aconteceram? Pode ser sinal de que és um dos integrantes dessa bandeira cor de Sol e de Lua.

Nesses termos selvagens, elaborados antes das mitificações sectárias, ideias sensíveis dos indígenas, artistas, pagãos e gentílicos cujas escrituras são feitas de contato e relações nativas, de elãs verdadeiramente humanos, de vontades que superam essas vulgares e midiáticas sedes de poder, de conexões abalizadas por si mesmo, em si mesmo: o que é ser deus-Natureza, divino com toda a lucidez?

É ser plenitude, infinito, absoluto, Belo e sublime! É o Cosmos admirado pelos artistas e poetas, por aqueles para quem esse conceito de ‘deus’ como coisa sobrenatural é uma simples pomba desgarrada volitando acima dos telhados. Deus não é coisa acima pendurada, banido, derrotado numa cruz: é sentimento vivo e divino, é o sublime em que vivem os que conhecem o ilimitado como processo infindo que começa nas brumas originais, nascimento de si mesmo junto com o universo, até um fim que jamais se contempla e por isso, efetivamente, não existe, como avisava o sábio Epicuro. Deus é o Belo, é o divino que comove e que se reconhece nas linhas que se denotam, conotam e ocultam, onde for quer se esteja, como dizia o poeta e dizem os artistas. É o universo, um-e-diverso, sem começo e sem fim, junto com as nobres virtudes que condizem, expressando o Belo que se pode admirar na natureza e apreender numa boa educação, sensata e libertária. Uma Paideia formadora de indivíduos sensíveis, pensantes e criativos, que sabem diferenciar o real dos mitos fabulosos e reconhecem a realidade dos mitos sensatos no que se pode cantar e louvar por si mesmo e em si, como profetas e salvadores de si, salvos da ignorância atávica dos que queimam bibliotecas e bibliotecárias, que matam e mutilam mulheres e crianças.

A que expressão poética-filosófica, a que doutrina ou cosmovisão corresponde esse divino verdadeiro? Às revelações tétricas dos teísmos elitistas, evocando esses deuses tão rogados, mas que não descem e depreciam as suas próprias criações, ordenam seu mandamentos eternamente desobedecidos, colocam os seus filhinhos em infernos; divindades escassas e lacônicas, apartadas, privativas de nações e etnias, cercadas de servidores prepotentes, figuras de teatros empoleirados em pirâmides hierarquistas e ruínas de impérios, repartindo o divino em fatias fiduciárias e contadas?

Ou divino é a deusa-Natureza, plena e infinda, bela e sublime, correspondente a uma doutrina aberta que desvela um divino imanente e farto, democrático, presente como o pardal que um dia decorou o ombro do poeta cavalgando para cidade, o mesmo pardal que pousava nas mãos de Francisco de Assis, meio santo e meio sábio, imprensado entre as visões da natureza própria e das garras da cultura despótica do medievo, ao ponto de loucura; uma deusa clara como a luz da Lua refletindo o Sol, como esses deuses gregos das primeiras colunas, as divindades das crianças, dos jônicos, pagãos, indígenas, gentílicos, filósofos, artistas e poetas?

Divina, indubitável e comprovada, batendo no peito: é a consciência que celebra a unicidade nos momentos extáticos e serenos, como o perfume do jasmim que incensa nos intervalos dos dias e das noites; divina é a seiva do corpo natureza que segue repicando junto com os sentimentos, pensamentos até poemas, desde o início dos tempos, numa corrente única e infinda de causas e efeitos. Natural é a consciência que percebe que o ato criador se move em tudo e atua no presente, no tempo da força que perdura cercada do halo das conjugações subalternas que não são jamais efetivamente pretéritas, tampouco futuras, mas que se presenteiam e se precipitam no abismo do momento que não cessa de zunir esse ‘OM’ cristalino dos que meditam e contemplam por si só, longe das basílicas góticas e suas abóbadas de dogmas. Fiéis são os que reconhecem que a força unitária resplandece e jorra de todos os poros e frestas de tudo quanto há: para cantar, graciosa e sem dever, uma alegria amorosa e pacífica no coração dos existentes entusiastas.

Ateus simples, simplesmente, ateus, são os que se imaginam indivíduos isolados, apartados do Todo, acontecendo na terra por acaso, embora celebrando os afluxos que advêm entre as portas do sensório e as impressões do sujeito, não conseguem saborear a graça essencial do mistério que se coleta e sintetiza, como abelhas fazendo mel, no diálogo responsável e verdadeiro da consciência e da existência.

Ateus mórbidos, são os que se imaginam lançados num ‘mundo material’, caídos de outros planos, por acidente ou para purgar pecados: desprovidos de intuição cósmica e bom senso, atrelados a normas e escrituras, elucubram deuses caprichosos e sisudos, computando pontos, distribuindo castigos e merecimentos, sofrimentos educativos, penitências e recompensas post-mortem! Esses fazem da divina alegria e bom-humor uma coisa consignada. São ateus mórbidos porque não reconhecem que Deus é o princípio vital e atuante que permeia todas as formas e manifestações, pensam num deus como potência nominal, lugar e campo reservado para escolhidos e privilegiados: com efeito, são sisudos e sectários, lutando entre si.

Se tu consegues perceber e sentir que divino é o elã vital que atua em tudo quanto há, presente nas borboletas e nas flores, no gorjear do passaredo, no fluxo infinito das formas em união com os sentimentos e ideias próprias, no ritmo da beleza e da leveza; que divina é tua existência percutindo o mundo, teu sentimento e pensamento tocando e abraçando, conhecendo, então: tu, com certeza, não és hierarquista elitista, ‘eliteísta’, não é ateu simples, tampouco mórbido: é terráqueo mesmo, cidadão de todos os azimutes, indígena irmanado à fauna e à flora, estado-de-ser infinito, feito de carne e consciência transbordante de Théos e Kósmos: é fonte de vida cristalina e clara. Indubitavelmente, tu és panteísta, com certeza, é casa panteísta!

Deus não é algo apartado e alhures – alhures não existe; o divino, isto é Deus, é estado-de-ser absoluto; é a união firme e inseparável da totalidade da consciência e das formas; é o balanço do mar e da areia burilando os litorais; é a onda da consciência e existência desenhando suas formas, rompendo em espantos cristalinos, destilando virtudes como vinhos rutilantes em taças de cristal; é o clarim dos cristais chamando: “desperta, desperta, canarinho, tu és o canto da alvorada!”

Em todo caso, não vieste ao mundo oriundo dessa genealogia carimbada em ofícios, referentes a cidadanias, fronteiras, burgos e pias batismais. Tua origem é categórica sim: criatura infinda, oriunda das nebulosas! Há bilhões de anos a alquimia ou arquitetura cósmica condensou energia sideral terraplanando inúmeras moradias celestiais. Hoje, vives rodopiando no céu, assentado numa esfera azulada e gigantesca, junto com boa parte dos demais seres que antes de ti forjaram o teu corpo; organismo comprido e largo como dias e ciclos sem fim, cujos extremos já vividos fragmentam e desprendem de ti, sedimentados na história, como a poeira das estradas. Tu não és aquele que passa e que se desprende; tu és o que perdura como o centro de Parmênides; mas, igualmente, se renova como o fluxo de Heráclito; o teu sentido transcende os instantâneos existenciais. Tu és a dança sagrada da luz e da poeira que cria sem cessar, jorrando mundos, fonte eternal: sim tu és a luz e todas as formas, as substâncias formadoras, as ideias e as mãos, criando mundos teus. Tu és o centro do fluxo e a periferia, a consciência que vibra nos intervalos destas linhas, a atmosfera viva, azul e amarela, as fronteiras verdes e vermelhas de todas as tribos, uma vaga de cores riscando o infinito, gerando sentidos: tu és o senhor dos significados, aquele que acontece junto aos enquadramentos da natureza, saboreando experiências variadas, de acordo com que pensa de ti mesmo, até um ponto a ser bem acordado entre deixar fluir a natureza e reger tuas ideias, cultura e civítica. Então: quem és tu? Tu o dizes!

Fedro de Platão – Um Pronunciamento Político

O posicionamento de Sócrates frente aos indecisos

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Régis Alain Brabier – Dezembro 30, 2012

1 Introdução

O Fedro é um discurso ímpar. É longo e acontece fora da cidade de Atenas, às margens de um riacho, em um lugar campestre. Trata-se de um diálogo entre Sócrates e um entusiasta e jovem ateniense, Fedro, por sua vez, amigo de Lísias, um famoso doxógrafo, um sofista e fazedor de discursos (escrevendo ‘para’ em ‘função de…’: escritor de aluguel!). O jovem Fedro, encantado com o discurso do amigo Lísias, resolve lê-lo para Sócrates, querendo compartilhar com o mestre um texto que ele achou interessantíssimo, igualmente, em busca de uma opinião. Neste texto, lido por Fedro, Lísias elogia e favorece uma necessidade de bem gerenciar e calcular o amor, como fonte proveitosa de prazeres, evitando compromissos, enlaces e os excessos da paixão. Sócrates responde no sentido de mostrar que antes de falar de coisas óbvias, no caso, evitar os distúrbios incontidos da paixão, uma definição do assunto em pauta seria fundamental para não arriscar deixar de lado coisas essenciais, introduzindo dessa forma um longo parecer sobre a ‘arte de bem dizer’: a retórica. No decurso da caminhada ao longo de Rio Ilissos, uma lembrança, aparentemente casual, motiva um parecer sobre os mitos. Portanto, esses três assuntos bem definidos, amor, mito e retórica, fundamentam o diálogo, deixando leitores, comentadores e editores incertos, imprecisos a propósito da unidade ou do ‘fio discursivo’. Afinal, qual seria o justo subtítulo desse discurso: ‘do amor’, ‘da retórica’ ou ‘da mitologia’?

2 Da adequação do diálogo

Afirmado por estudiosos, esse discurso de Platão traz assuntos diversos que não parecem se relacionar, conferindo ao texto um aspecto coloquial e aleatório; o que causa certa surpresa, não sendo Sócrates, tampouco Platão, dados a conversas corriqueiras. A busca do fio diretor desse discurso, empreendida por diversos autores, gera uma plêiade de propostas criativas.

Perguntei-me se honraria o tempo dedicado, se valeria o empenho, estudar o Fedro em busca da inteireza do sentido. Não sendo tão prudente como gostaria de ser, não me passou pela mente a possibilidade de não encontrar o fio do discurso. Credito aos tradutores, portadores de talento e seriedade suficiente, bem servir os textos que traduzem, assim como aos leitores; apesar de algumas dúvidas relativas à tradução de algumas palavras e expressões, referências e significados, entendo-os dotados do gênio de bem transmitir o justo significado das frases. Ademais, credito aos antigos, pioneiros dessa venturosa epopeia filosófica, de diligência suficiente para não deixar o significado dos seus textos depender da interpretação de um ou outro vocábulo, garantir o reconhecimento do sentido nas grandes linhas discursivas, na trama geral e circunstâncias, um pouco como nesses afrescos em que a falta de alguns traços não detrata a completude das imagens e a visão da beleza.

Veio-me à ideia que na autoridade de um diálogo milenar versando sobre a clareza retórica e a perfeição da união amorosa, se a coordenação harmônica das partes não se denotava de imediato, é, certamente, porque havia sido ofuscada, por prudência, ou, quiçá, exigiria para se evidenciar um pressuposto inerente à cultura de outrora, uma ideia geral, antes presente no arco dialético, hoje subsumida em outros entendimentos, encoberta ou desaparecida. Discursar para louvar e exemplificar a retórica como forma inteligível, instrumento necessário da palavra que almeja chegar ao essencial, outrossim, como outro motivo do discurso, apontar o amor como élan em direção à unidade divinal, mística juntura visionada como reciprocidade perene da alma e do corpo, correlaciona em harmonia, essencialidade e excelência o “verbum” (retórica) e o “moto” (amor) um fio discursivo que, sendo congruente, não pode se romper e deve conotar a sincronia e a sabedoria, justificando o dialogo.

Portanto, ciente das possíveis dúvidas referentes ao pleno sentido do discurso, após supervisar o texto e conferir os três temas evocados na narrativa: o amor – nas suas várias dimensões e facetas; o mito – como algo que se aceita com piedade, ou de que se duvida buscando interpretações prosaicas, ou, ainda, que se coloca entre parênteses em busca de conhecer a si mesmo; a retórica – a oratória nas suas diretrizes e ordenamentos profundos: nada mais simples de que me perguntar na forma de uma charada: em que possível universo tais assuntos – o amor, o mito e a retórica – configuram, em conjunto, os fundamentos necessários das narrativas? Em que prática cultural encontrar, enlaçados, esses temas: o amor, as imagens sagradas e o verbum? Ademais, a peculiaridade desse discurso, que acontece fora das muralhas da cidade, num cenário campestre descrito por Sócrates como belíssimo e acolhedor – com um plátano, símbolo de renovação, cuja copa recobre os visitantes de um temperado sombreado; um agnocasto florido e perfumado, símbolo da castidade; as margens refrescantes do riacho e uma fonte de águas claras – me faz rememorar as cantigas dos poetas que, em tantas odes, louvam a natureza como uma catedral: o riacho, emoldurado por margens de relva, vem ser a nave que leva a esse recanto sagrado como um altar, e, à luz do zênite, a sinfonia das cigarras verte a glória celestial nesse coro verdejante.

Na imaginação surge a imagem de um templo; nesse transporte, quase um delírio, de imediato, Sócrates aparece como sacerdote universal advogando a causa do amor nobre, da virtude e da conduta reta; um hierofante centrado na abóbada do mundo, embora vivendo no interior das muralhas dessa cidade onde cidadão acusado de subverter a ordem instituída deverá ser condenado a beber cicuta.

Desde o início, o discurso é destinado a transmutar os passos cotidianos, os passeios citadinos, em epopeias e pegadas de gigantes: – “Meu caro Fedro! Para onde vais e de onde vens?” 227a. A essa abertura vertiginosa corresponde um fim encurvado e recolhido no altar do próprio coração, onde, numa prece final, evoca-se uma comunhão espiritual:

SÓCRATES: – Divino Pã – e vós deuses outros destas paragens! Dai-me a beleza da alma, a beleza interior e fazei com que o meu exterior se harmonize com essa beleza espiritual. Que o sábio me pareça sempre rico; que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato possa suportar e empregar! Teremos mais alguma coisa a desejar? Creio que pedi o suficiente. 279c

Fedro, como se fosse um fiel frente a um sacerdote intercessor, responde a Sócrates:

FEDRO: – Pede para mim a mesma coisa, pois os amigos tudo devem ter em comum.

Sócrates, quem sabe, talvez resignado com a atitude delegante do jovem, fecha o diálogo com um “vamos, então!” que ressoa no bosque como um “que assim seja!”.

Quem poderá negar que esse diálogo possui uma eloquência religiosa, como uma homilia, uma missa paisana, pagã? Não há dúvida: trata-se de um pronunciamento devocional, um oratório engastado num diálogo arejado e crítico, evocando uma conduta e uma convicção, um manifesto com graves repercussões individuais e sociais, um apelo a favor de uma purificação e renovação, uma profissão de fé! Fedro de Platão é uma exortação, um oratório, que por necessidade deve evocar o amor e a poesia mítica dentro de uma retidão discursiva, ou doutrina, incluindo perspectivas metafísicas e mitologias agregadas – nisto configura-se a unidade teológico-política do diálogo.

3 Da polêmica

Sócrates, aprendendo-ensinando aos que ousam pensar por si mesmos, demonstra um projeto existencial e advoga uma política cuja meta não harmoniza com o apego e a sede de possuir e imitar que impera na cidade democrática. Mas Sócrates não pode falar das tribunas onde será condenado; às medianias oportunas, exortadas e obedecidas sem exame, ele prefere a dialética do provável e orienta e estimula os aspirantes a bem dirigir seus próprios pensamentos e passos. Divertido, ele escuta e fala com Fedro como se escuta e fala a um jovem incauto por não saber estar evoluindo entre os grandes atratores que condicionam uma aventura delicada. Uma epopeia onde se é chamado a fazer seus votos, seja a favor de uma vida sub-rogada, apegado a coisas efêmeras e mutantes, poderes ilusórios, ou, diversamente, em prol de uma liberdade plena por reconhecer que as raízes do ser mergulham no ilimitado e perene, além da morte e do nascimento, espaço sagrado onde as antinomias se reúnem num todo misterioso que reabsorve as rupturas do intelecto dogmático no grande círculo luminoso e dialógico do saber.

Como, nesses atos-de-ser antagônicos não acontecer dois ordenamentos, duas maneiras de trilhar as rotas, metas míticas, atrações, desejos e eloquências distintas? Como não acontecer diálogos acirrados onde se conotam o compromisso dos oradores, apontando e batalhando direções opositivas? Intrínseco à natureza variegada dos ânimos, pontos de partida similares demarcam direções e lugares de chegada diversos, polêmicas que se explicitam nessa trina de assuntos definidos no Fedro. Não será típico das democracias o advento de um discurso dominante e de uma massa correspondente de partidários apoiando os demagogos, e, ilhados, uns poucos excêntricos, visionando luzes além das brumas? Interpolado, um grupo menor de indecisos que não discriminam, um povo seduzido que repete frases que não compreende, encantado pelos sons e rimas das orações, indefinidos que não se orientam, girando, presos no interior dos muros da cidade como peixes enredados.

Em meio a essa multidão, prudente e irônico, dialogando e examinando sem exortações frontais, Sócrates constrói novas relações, discrimina, separa e ajunta conceitos em diretrizes que ele sinaliza e que bifurcam, insuflando no ar da cidade um renovado ânimo deliberativo, um vento que norteia. Por ser o amor ao Belo seu assunto predileto, como se fosse um estrangeiro nessa cidade prosaica, Sócrates parece falar desse lugar paralelo, à margem das estradas, dessa beira-rio esplendorosa cuja geografia conhece como a nascente conhece a criatividade transmutativa do riacho.

FEDRO: – Tu, porém ó homem excêntrico, és o homem mais extraordinário que já se viu. Com tuas palavras, dás a impressão de ser um estrangeiro que necessita de um guia, e não um cidadão da capital. Pouco saís da cidade e parece que nunca vais para fora dos muros. 230d

Imenso, mas irônico, o homem mais sábio de Atena, simplesmente responde:

SÓCRATES: – Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Regiões e árvores, entretanto, nada desejam me ensinar, somente os homens da capital ensinam-me.

4 Definição metafísica e dialética decorrente

Nesse diálogo, Sócrates leva a intuir e reconhecer que um conceito filosófico profundo, essencial, conhecido ou ignorado, delimita potenciais fundamentais, vitais, e induz uma praxe, um modo de viver correspondente; que seja introjetado sem exame, deturpado por contágio como âmbitos societários cuja multiplicidade demográfica, cultural, ritos dominantes, convenções, intensidades políticas e urbanísticas compelem, ou, bem examinado, escolhido com autonomia e responsabilidade, resultante em atitudes e posicionamentos aparentando inconformistas, excêntricos e transgressivos em relação ao que é desfocado e vulgar.

Tal eixo de perspectiva – seja aburguesado, acompanhando as expressividades e entendimentos histórico-culturais dominantes e populares, simbolizados pela polis democrática, murada e protegida; seja outro, seguindo em direção ao que é essencial, poético e inspirador, acompanhando as águas puras de um riacho em busca de margens bucólicas e da inspiração das musas – encontram-se esquadrinhados no Fedro, onde se teoriza e se exemplifica esses dois programas existenciais divergentes na tentativa de delimitar e responder ao questionamento subjacente a toda busca filosófica: – “como viver, justamente, em harmonia com o Cosmos e em meio aos seus pares?” – logo, evocando as argumentações necessárias e posicionamentos que deverão considerar as coisas da razão, do saber e da visão – retóricas, amores e mitos.

Um triplo ato e apreço da razão: o entendimento justo, a visão clara e a definição precisa do que é aspirar, ou amar, conjuntamente, configuram o conteúdo e o moto fundamental desse diálogo. O que se discute e demonstra é que um posicionamento existencial é centrado ao redor de um entendimento, de uma visão e reconhecimento do que se é, explicitados no que se vê, no que se ama e no que se fala[1]: o que resulta em modos de ser e viver, de fazer e ter, de existir, urbi et orbi, que poderão examinar-se e reconhecer-se como sábios ou ilusórios.

O ‘grau de memória’, abertura às inspirações vindo das musas, filhas de Memosina, o reconhecimento intuitivo, sensível e qualificado, inspirado e visionário, referente à relação amorosa, entre a alma e o mundo, ou, nos nossos termos atuais; o reconhecimento da reciprocidade testemunhada e vivida do mistério consciência-existência, exige e comprova uma direção clara e precisa do entendimento, isto é uma retórica enraizada em perspectiva filosófica e poética profunda, que se adequa a um modo, postura e conduta apropriadas.

Talvez, uma das razões da sabedoria de Sócrates resulte em evocar a natureza humana como totalidade criativa onde se coordenam corpo e ânimo numa reciprocidade que não se delimita. Dessa forma, ele amplia o verbum diretor do estado-de-ser agregando as noções de mistério e de fenômeno num círculo infinito cujo centro é o momento; no caso, o aprumo zenital desse lugar bucólico marcado por esse grande plátano. Em poucas frases, o extraordinário ateniense engloba o Cosmos no arco do discurso, do começo ao fim, dos azimutes da natureza-ser, fresta mais misteriosa e genésica, ao termo mais atual e responsável da homo-sapiência.

Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se, e é, para as demais coisas movidas, fonte e início de movimento. O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa, não seria princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza de que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade. 246d

Entende-se que a existência, seus caminhos, como um ser vivo que se locomove, uma narrativa, um discurso, bom ou ruim, criticável e corrigível, acontece respeitando ou desrespeitando o Mythos, contidos numa visão, numa ordem, num Logos e humor amoroso que justificam um Ethos, bem ou mal. Bem viver exemplifica uma relação orgânica, sistêmica, uma manifestação em que as reciprocidades, justamente ponderadas, apontam uma unidade essencial, uma dialética cosmo-existencial que transcende os assuntos corriqueiros e prosaicos da cidade, onde amar ou não amar o outro, qualquer que seja a forma, é amar ou não amar a si mesmo, entender e respeitar ou não a experiência existencial no que oferece de essencial.

5 Da necessidade e do valor dos mitos

Como poderia num discurso onde se destaca a justa conduta do indivíduo virtuoso, desprezar a importância do mito, espaço poético e espantoso onde se diluem e se unem imaginação própria e coisas celestiais? Não se faz uma retórica, justamente apontada, sem sinais míticos que são postos avançados, bandeiras dos que trilham os caminhos do Olimpo.

Ao longo do riacho que percorrem em busca de um sítio para conversar, surge uma observação sobre a veracidade de um mito lembrado em referência a um lugar ao longo dessas margens – o mito de Bóreas que evoca o espírito do vento, simbolizando o sopro da força criadora. Sócrates responde que se ele fosse, como alguns doutos, destituído de respeito relativo aos mitos, tentaria interpretar essas histórias em termos concretos, associá-las a coisas racionais e lógicas, a eventos históricos; o que seria, talvez, interessante; mas, como os mitos se conectam à totalidade da mitologia, exigiria um esforço impossível, improdutivo. Procurar dar verossimilhança a esses eventos usando as logicidades corriqueiras denota uma sabedoria um tanto obtusa, anacrônica, que não auxilia a apreciar a vida como convém. Ainda caminhando ao longo do riacho, Sócrates demarca em poucas frases os grandes mitos vertiginosos, de apreço universal, dessas fábulas de campanário que referem a uma plêiade de deuses – reis e rainhas ancestrais ligados a comunidades e tradições regionais – que devem ser respeitados, mas que não demandam uma inútil aplicação da inteligência dedicando-se a eles mais de que a si.

Sócrates pondera a relação do mito e da razão de uma forma sutil, demonstrando considerar a veracidade dos mitos, não sendo incréu, estando ciente de que os relatos da tradição serão certamente ofuscados em fábulas, e, que investigar a si mesmo a ponto de conhecer-se, como essência, isto é, como possível participante de um misterioso destino, é tarefa, certamente, mais importante. Os conceitos ‘apreciar’ e ‘lazer’ aprecem no discurso, evocando opções existenciais que valorizam a liberdade, a atividade desinteressada, criativa e livre de metas prosaicas. Epitomando a visão mais condigna, no lugar e tempo em que vive, de imediato, ele mira o mistério perenal e agrega o mito a si mesmo, abrindo o domínio interior e privado à mais alta intuição. Diz ele:

Ainda não cheguei a ser capaz, como recomenda a inscrição délfica, de conhecer a mim próprio. Parece-me ridículo, pois não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito. Não me interessam essas fábulas e conformo-me, nesse sentido, com a tradição. Não são as fábulas, que investigo: é a mim mesmo. Talvez eu seja um animal muito mais extravagante e cheio de orgulho de que Tífon; ou, porventura, um animal mais pacífico e menos complicado, cuja natureza talvez participe de um misterioso e divino destino, mas que não se enche com os fumos do orgulho… 230a

O sábio não desdenha as intuições e histórias mais notórias que sombreiam e enriquecem as aporias rigorosas de uma orla utópica, como franges híbridas, musgos nascidos das relações poéticas entre as clarezas da razão e as sombras do incógnito: lugares onde se podem projetar esses lances hipotéticos da alma nas profundezas dos potenciais.

Sócrates se envolve em diálogos surpreendentes e enriquecedores ao apropriar-se dos não saberes dos seus interlocutórios – “ainda não sei”, “ainda não cheguei” – expressando-os na primeira voz em contiguidade e sintonia com o seu conhecimento terminativo da insuperabilidade do mistério essencial; um ensino e saber singular referido pela pitonisa como: – “ele sabe que nada sabe”.

6 Retidão e retórica

No Fedro de Platão, examinam-se as qualidades do amor, dos mitos e a arte da retórica, discute-se o ato diretor do bem querer; a conduta que convém frente ao exercício do desejo; a arte de bem se conduzir frente à necessidade de agir em busca de satisfação. Sendo anseio geral a busca da felicidade, configura-se uma praxe de magnitude fundamental, tanto no que refere a um indivíduo quanto a todos os que pertencem à comunidade, à polis. A felicidade de um indivíduo não pode ser a infelicidade de outro, por ser a amizade e o respeito, a paz e a harmonia, componentes necessários do estado feliz; o almejo, sendo geral, determina um destino de consequência societária, ou seja, um programa, uma política em busca do bem comum.

Tanto quanto não se separa a inteligência dos seus agregados intrínsecos, a razão, a capacidade de apreciar o belo e a visão, nada se compreende (e empreende) sem motivações e desejos. Élans diversos abrem um leque de opções, de simples gostares voláteis a amores intensos cuja natureza apega ou liberta na dependência dos discursos que se configuram examinando e dialogando. Como avaliar a conduta de um indivíduo, ou de um povo, com retidão, sem contemplar, ao menos, essa trina de aspectos fundamentais: as apreciações e gostos que se cultivam; a racionalidade e congruência das buscas e discursos; junto à visão que norteia o destino e os fins – isso é aquele que legisla, ajuíza e guia? Nestes termos, seria possível examinar uma conduta fundamental sem falar, conjuntamente: da expressão do desejo, do amor; da razão que existe dita nas prosas bem ordenadas, e, das imagens e paradigmas que norteiam, dos mitos e das visões, símbolos e significados que conectam o efêmero à trama que perdura?

Não será essa metáfora da carruagem (a vida como uma viagem empreendida numa carruagem puxada por um cavalo dirigido por um cocheiro)uma imagem concisa desse condutor que dirige o discurso de acordo com as visões, razões e apreciações, tentando equilibrar o veículo entre dois atratores opositivos? Não será essa imagem da retórica como um animal ou corcel de boa constituição, com cabeça, tronco e membros, uma excelente representação da vivacidade do orador quando opera na primeira voz, enuncia construções e definições bem norteadas, apontando e marcando o rumo do amor?

Animado de vida e luz intensa, imbuído de entusiasmo e de grandes virtudes, Sócrates não lança ao ar uma palavra, sequer, um signo, que não seja uma seta apontando a meta. Uma supervisão desse diálogo, como se contextualiza e acontece nas beiras do Rio Ilisso, ilustra e conota o posicionamento político exemplificado e justificado por Sócrates e reportado por Platão. Os amigos se dirigem para fora de Atenas, cidade cerceada de muros, conquistada por plutocratas servidos por demagogos que reduzem a arte de amar a uma praxe econômica e prosaica em busca de máximo benefício e mínimo desgaste, exaltando o amor aos bens, ao conforto, fama e poder, ao detrimento do amor ao que é Belo e verdadeiro. O riacho que Sócrates e Fedro margeiam contorna a cidade em direção a um prado inspirador, lugar dedicado a Achelous, rio-deus da abundância, simbolizando um processo purificatório em busca da riqueza dos sábios. Mas Fedro traz escondido embaixo do braço esquerdo um discurso leviano que ele imagina digno de nota, edificante. Inicialmente, prudente, às vezes irônico e ambíguo, conhecedor dos embates e da corrupção reinante, mas vivendo na comunidade, Sócrates, atendendo a vontade do amigo empenhado em memorizar essa peça de oratória que ele julga magnífica, não desconstrói o escrito de imediato, mas clareia com luz baixa, velada, aquele que pode merecer alguns comentários, sem criticar com rigor o soberano demo citadino manifesto no texto de Lísias. Logo, no cenário, uma via conectando a cidade murada e o campo, no enredo, discutindo o bom senso e significado do desejo, aparecem, fortemente esboçados, dois argumentos: um discurso elevado e profundo, exigindo sabedoria, e uma vereda inferior e vulgar, rabiscada num discurso insensato. Sócrates, o dialético, encarna o sábio, e Lísias, o logógrafo demagogo, o arauto defensor de uma política de posses e poderes, mas destituída de amor. As condutas, princípios e consequências , das duas vias, são elencados no diálogo, deixando a cada um a responsabilidade de escolher e seguir um ou outro posicionamento.

Na resposta inicial, envergonhado, a cabeça coberta simbolizando estar proferindo um parecer a meio mastro, de pouca inspiração, atendendo o pedido insistente do amigo, Sócrates, acompanha os arrazoamentos de Lísias, resgata o senso comum contido neste discurso que se limita a criticar a paixão insensata e elogiar as praxes da razão, pretendendo abordar a temática do amor, de Eros.

SÓCRATES: – Como? Será preciso que o discurso seja elogiado por mim e por ti? Temos de afirmar também que seu autor disse tudo que era necessário, que cada expressão é clara, bem elaborada e compreensível? Seja, farei isso por amizade para contigo, se bem que eu, na minha incompetência, não tenha notado tal coisa. 235a

Uma vez satisfeito o desafio de Fedro, tendo respondido e enfatizado os conceitos sobre o amor, ou Eros, ditos e conotados no discurso de Lísias:

“(…) Quando o desejo, que não é dirigido pela razão, esmaga em nossa alma o desejo do bem e se dirige exclusivamente para o prazer que a beleza promete, e quando ele se lança, com toda a força que os desejos intemperantes possuem, o seu poder é irresistível. Esta força todo-poderosa, irresistível, chama-se Eros ou Amor”. 238c

Irônico, Sócrates se levanta com a intenção de fazer o caminho de volta para a cidade. Fedro o interpela sentindo que não havia dito tudo sobre o tema; como se caindo em si, recebendo de repente a intuição do seu daimónion, Sócrates esclarece que, com efeito, como havia falado, apenas elogiando a prudência, condenando o erotismo apaixonado, não esgotava de fato a temática evocada por Eros, ou Amor:

SÓCRATES: – Trouxeste-me um discurso horrível, (…) em certo sentido, ímpio. Pode haver coisa mais horrível? (…) Já não crês que Eros é filho de Afrodite, e como tal é deus? 242d

FEDRO: – Sem dúvida. É o que diz a tradição.

SÓCRATES: – Mas tal fato não foi mencionado (…). Ora, se Eros é, como de fato é, um deus ou um ser divino, não poderá ser mau. (…) Esses discursos pecaram contra Eros. Além disso, a sua tolice é cômica (…) enchem-se de importância porque conseguiram iludir alguns ingênuos e ganhar os seus aplausos. (…) Antes que venha a sofrer pela ofensa feita a Eros, tentarei fazer a minha palinódia, mas com a cabeça nua e não, como antes, embuçada. (…) não foi verídico este discurso ao dizer que, apesar de se ter um amante, é prudente conceder mais favores ao não apaixonado, porque aquele é louco, enquanto que este possui discernimento. Isto seria verdade se a loucura fosse apenas um mal; mas, na verdade, porém, obtemos grandes bens de uma loucura inspirada pelos deuses. 243a – 244a

É quando o sábio desenvolve a contento seu argumento: o amor verdadeiro, entusiasta, deve ser orientado pela filosofia. O que justifica uma vida lúcida é a prática do amor, que se exercita plenamente quando o estado-de-ser se orienta através do uso atento da palavra, ou retórica, que deve auxiliar a discernir e definir os objetos enunciados nos diálogos, diferenciar o justo e virtuoso do que não é, ser instrumento e veículo dessa busca. Sócrates encarna o filósofo exercitando um dever: critica e corrige a temática, esclarece os conceitos, as palavras diretoras e os pensamentos, para que os que queiram escutar e apreender possam se orientar em direção ao justo e verdadeiro, reconquistando um nobre destino, individual e comunitário, em prol de uma renovada dimensão política, ou civítica, que introduz e aponta os caminhos da harmonia e do Belo.

7 Conotações decorrentes

Quem sabe discursar é responsável, dotado de uma inteligência suficiente para compreender e reconhecer o que diz, orientar o seu discurso, reconhecer a que causa está servindo, se é verdadeira e virtuosa, ou não. Quem dita um discurso sobre o amor e não encaminha o ouvinte ao Belo e sublime, mas a um rateio de bens efêmeros, poderes e prazeres imprudentes, sabe em prol de quem trabalha e por quais razões; logo, não se compara em virtude, tampouco em poética e retórica, a quem exercita um diálogo, ou faz um discurso, inversamente direcionado e tenta guiar seus ouvintes na busca das grandes realidades existenciais, da verdade e da boa vida, bem examinadas.

Os que na cidade discursam em favor de apoio e aclamação, não admiram e/ou abominam os discursos por sua capacidade de veicular a verdade ou a mentira, mas por reconhecerem o grande valor da oratória soberbosa em aumentar, quiçá diminuir o poder de quem fala; poder consagrado na aprovação populista que se aduba e exacerba em lisonjas, elogios e críticas bem distribuídos.

Se os estadistas receiam fazer discursos não é por temerem o veredicto da posteridade, serem considerados sofistas, demagogos ou logógrafos a serviços de interesses vulgares e prosaicos; mas, sim, por recearem discursar sem a astúcia e demagogia suficientes para garantir a aprovação das massas, votos para aumentar seus poderes e haveres. Receiam não serem capazes de encher o povo de esperança para que seus gritos de aprovação alicercem a sua sede de conquistar mais medíocres poderes: em breve, receiam não serem dotados da astúcia necessária para produzir discursos sedutores e vistosos, parecendo virtuosos e profundos, mas avolumando o mercado da vulgaridade e mediocridade política, ofuscando a verdade e o essencial.

Quando os oradores envolvidos nesses afazeres e lutas se criticam, acusando-se de meros repetidores de discursos sem substância, não apontam os abusos e as deturpações corriqueiras das palavras midiatizadas afastadas da verdade e alugadas a favor de causas escusas; mas, através dessas detratações e elogios públicos negociam alianças e ataques de acordo com uma praxe competitiva e sovina cuja meta é vencer e conquistar, ganhar aprovação e poder: fama. Cercados de aliados eloquentes e populistas, como ovelhas em torno de uma mina de sal, os governantes mais soberbos amam proferir discursos, sabem que as massas adoram os que demonstram ascendência e poder, bajulados por um séquito de seguidores satisfeitos, catalisam promessas de prosperidade para a maioria dos votantes.

Será que nesses enredos típicos das cidades dirigidas por plutocratas e tiranos carentes de filosofia, será necessário examinar cada um dos discursos para decidir se é bom ou mau? Ou, simplesmente, perceber o contexto em que são ditos: com que intenções e propósitos são elaborados e para quem servem? Sócrates ensina a Fedro e o exorta a reconhecer que não é necessário examinar cada frase e estilo de cada discurso para saber o que valem, basta não se deixar levar pelo “canto das sereias”, reconhecer a fonte inspiradora das falas, para onde se dirigem e a favor de que ou de quem – a retórica. O mito das cigarras exorta que não se deve esmorecer ao meio do dia, deixar de aproveitar a hora e o saber disponíveis, permitir o fastio e necessidades prosaicas impedirem ou atrasarem o exame lúcido dos assuntos dignos de nota à luz da filosofia mais inspirada e mais alta. Desprezar e não entender o sentido dos mitos, confundi-los com fatos históricos distorcidos, arranca a sabedoria do mundo, cega. Evidente, bem sabem os artistas, poetas e filósofos dignos: o sentido profundo da existência só pode ser assimilado na contemplação intuitiva das formas profundas, ilustradas e adaptadas ao entendimento dos homens e das suas culturas – os mitos. Na retórica vulgar, de vocação demagoga, se escreve e se fala pactuando em conformidade com a força política das opiniões, não de acordo com o saber genuíno e autêntico.

As escrituras e falas que se condenam são as que mistificam os leitores e ouvintes, elevando à esfera mítica os feitos dos demagogos e tiranos entronados; é a oratória que se usa para desacreditar a graciosidade suprema do entusiasmo amoroso, galgar poder e recursos para jogar lama e areia nas causas essenciais e ofuscar os que sabem, fazer as demagogias parecerem argumentos necessários. Acusa-se a escrita sem inspiração, que encobre as verdades que se reconhecem ao conversar com crianças, intuindo e admirando a beleza do dia e das flores, simplesmente, sabendo escutar o canto das cigarras – o Mythos leva Eros na retórica do sábio.

8 Deixando as margens do Rio Ilisso

Sócrates versus Lísias: duas vias, duas perspectivas, modos e intensidade de viver contrastantes, o Fedro define uma encruzilhada, discute duas orientações, cujos assentamentos na comunidade demonstram as políticas que acontecem e levam a uma forma existencial reta, verdadeira, de acordo com o fluxo vital, ou a uma outra que é falsa ou contrária.

O diálogo socrático, filosófico, é um ato e uma via, um movimento efetivo que amplia e purifica a lucidez dos dialogantes atentos até à realização do estado-de-ser como verdade, amor e união. Assim sendo, nas circunstâncias políticas que levariam o orador mestre à condenação e morte, sentenciado por desviar os jovens das obediências e cultos da cidade, o diálogo se caracteriza com um ato político por afirmar ser o poder de exercer a virtude e bom governo assentado no coração do sábio e não do tirano: ser rico é ser sábio. O significado unitário do discurso se caracteriza e se afirma como um ato político em defesa do governo dos sábios; um diálogo prudente; mas, nessas circunstâncias democráticas, transgressor.

A virtude fundamental atribuída ao mistério de existir, manifesta uma intuição metafísica, um eixo de perspectiva e coordenadas decorrentes, configurando um posicionamento existencial – e civilizatório – fundamental; logo, uma política instituidora de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida digna. À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural, previsto na bondade e no valor que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e potenciais do estado-de-ser.

9 Considerações teológicas e políticas

O fenômeno existencial não se contextualiza como ‘Ser’ soberbo, dominador, existe como estado-de-ser, igualmente, ser-e-estado e ser-em-estado, identidade unitária e paradoxal que busca realizar e afirmar sem desvios sua forma original; e, por imanar da essência, quando possível, supera o debate determinístico em iniciações vanguardistas, intuições estéticas e éticas. A configuração existencial condiciona um dever sem impor, uma conduta sem obrigar: um ordenamento consagrado na apreciação benevolente e sábia do dado-a-ser, consequente e virtuosa expressão ética e civítica. É ilusório e vão, levado por idealidades ou enquadramentos culturais, procurar a essência em arquiteturas subjetivistas que negam a natureza do estado-de-ser, ou que desviam da coexistência. Projetar o motivo, enredo e eticidade da própria história em campo alheio e sobre-humano, imaginar resoluções contidas em teorias que não sintonizam com o estado-vital que se experiencia, caracteriza um desvio excêntrico. Neste deslocamento metafísico-existencial, enraíza a quase totalidade da patologia. Uma resolução, que não seja apenas uma relaxação compensadora, implica numa intuição filosófica, inspiração decantada em generalizações sóbrias e precisas, abstrações e conexões estéticas que reconciliam a harmonia ser-e-estado desvelando uma unicidade poética e paradoxal.

Frente a uma intuição desfocada relativa à identidade e origem do estado-de-ser, pretender compensar um possível sentimento ambíguo, talvez amedrontado, por um escapismo consolador inscrito em afirmações opinativas, políticas e educações dominadoras, avilta mais ainda a razão e a liberdade. A história e historicidade dos indivíduos demonstram a patologia e amplidão dos sofrimentos decorrentes desses desvarios. Não reconhecer a sua afiliação ao Belo, não aceitar o que se é, como se manifesta, força vital cocriadora, vontade codeterminante do destino, infirma e desresponsabiliza do ponto de vista estético e ético, transformando potenciais proativos de veracidade e adequação em desinteligência, minusvalia e padecimentos.

Uma nobre realização ética e civítica exige o reconhecimento da integração cosmo-existencial: isto é, a) um fundamento visionário virtuoso, um bom mito; b) a afirmação proativa e dessa unicidade, amor fiel ; c) uma retidão teórica, uma retórica justa. Uma integração que preza e valoriza a adequação do estado-de-ser se elabora e amadurece no cultivo da harmonia. Nesse fenômeno, os potenciais de realização, como processos progressivos e evolutivos, gravitam em torno das relações que se estabelecem e discriminam entre si e o que é outro. Relações sintônicas facilitam esse processo e entendimento conjuntivos, relações opositivas o dificultam, evocando desvios educacionais e políticos.

Pertence aos potenciais do estado-de-ser adquirir uma ciência progressiva e bem situada de si, Ethos: o que implica o judicioso cultivo da razão, circunstância que leva a reconhecer o dado-a-ser como evento onde colapsam identidade e a origem no fenômeno autopoiético em si – Logos e Mythos. Generalizando maximamente: a impossibilidade de estabelecer uma distinção ontológica clara entre o que é ‘si-mesmo/interior-em-si’, e o que é ‘outro/coisa-em-si’, implica uma situação cognitivo-existencial paradoxal, um fenômeno e aporia que tendem a se agigantar e universalizar em inspirações sensíveis e vanguardistas, intuições estéticas, configurando-se uma relação/realização mítica.

Uma intuição mítico-metafísica, de alguma forma, consagra e regimenta essa tensão existencial em duas possíveis orientações: a) uma conjunção integradora e essencial, mística, cujo significado e valorização operam ao alcance do estado-de-ser, no interior-em-si ou b) uma ruptura que degrada essa relação convergente, projeta a essência num ignoto hipotético, deixando o estado-de-ser em posição de exclusão e menoridade em referência ao significado, dignidade, ou mérito da sua natureza profunda. A intuição metafísica fundamental decorre de uma dupla evidenciação: a) da absorção mimética e irrefletida do padrão cultural, formalizado e inscrito em sentimentos, mitos, retórica, ritos e etiquetas, urbanidades, em teologia-política e b): da revisão filosófica, tributária de uma busca, de uma educação – assim sendo, uma pedagogia, e política educacional, revela ser decisória para uma edificação consciente e elevada apreensão do estado-de-ser que se experiencia.A intuição metafísica fundamental decorre de uma dupla evidenciação: a) passiva: da absorção mimética e irrefletida do padrão cultural, formalizado e inscrito em sentimentos, mitos, retórica, ritos e etiquetas, urbanidades  e teologia-política  e b): ativa: da revisão filosófica, tributária de uma busca, de uma educação ; uma pedagogia e política educacional revelando ser decisórias para uma edificação consciente e elevada apreensão do estado-de-ser que se experiencia.

Vigemos como atualidade radical, desvelando uma presença criativa, fundamento de todas as noções, abraçando o conceito de absoluto e aquele a que se refere; imersos em estruturas psicofísicas, inefabilidade universal, intuições, perspectivas e coordenadas metafísicas, mitologias e sistemas teóricos, evoluímos como estado-de-ser numa cumplicidade cosmo-existencial gerundial. A metafísica e mitologia unitária fomentam uma comunhão proativa e responsável em todos os níveis, permitindo reconhecer a integração fundamental da essência à esfera existencial. Desperto nestes mistérios, o indivíduo vanguardista reconhece e elabora narrativas que elevam a manifestação existencial a uma expressão imediata de princípios sempiternos: intuições arquetípicas, alegorias universais, visões, concentrando o poder de saudar e celebrar no cotidiano o que mais nobremente significa, a culminância metafísica destilada e espiritualizada à luz da razão natural.

Intui-se a possibilidade de uma realização, reforçando as boas providências essenciais num círculo proativo de lucidezes, conectando em ressonância todas as facetas do estado-de-ser: coordenadas que dignificam a existência, celebrando o eixo de perspectiva metafísica de maior anuência e respeito, mais genuíno e sóbrio. Um projeto-de-ser que irradia como um sol, uma mandala, cujo centro enraíza lá onde imagens e metáforas fascinam e comovem, contemplando e experienciando o real sem deixar hipóteses, receios, preconceitos ou tradições que sub-rogam o oratório ou a retórica a interesses outros turvarem a beleza das evidências que se delimitam nos intercâmbios da natureza respeitada, da cultura desafiada e do melhor convívio: uma dinâmica integrada, burilando sensório e imaginação nos apuros mais construtivos da percepção e semântica.

A inspiração resultante da vivência dessa unicidade paradoxal gera um espanto e admiração jubilosa, que, por glorificar e potencializar o estado-de-ser, reforça a intuição metafísica diretora, fornecendo uma confirmação vital da adequação e retidão do entendimento filosófico. Estabelece-se um âmbito de certeza que, embora não assentado em experimentações empíricas, tampouco em dedução lógicas rigorosas, predicativas, afirma, com uma razão plena e qualificada, intuitiva, uma infinita inteligibilidade universal ou consciência cósmica.

Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. 245d-e (…) Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade. 246d

A dedicação amorosa do guia, focando a sua atenção no indivíduo, evocando a intuição metafísica e retórica que condizem, explicitando e exemplificando as atitudes decorrentes, realiza um posicionamento metafísico em conjunção com um ato pedagógico: o que exemplifica uma teologia-política que ao integrar seus métodos aos seus objetivos e propósitos, engrandece a humanidade, consagrando autonomia e liberdade em prol de um exercício existencial visionário, belo e razoável. Tal abordagem, desprovida de ordenamentos normativos constrangedores, só poderá operar do singular ao universal, numa atuação personalizada que se reconstrói e reformula, continuadamente, nas expressões sábias e multíplices dos que participam da sempiterna reatualização cultural e afirmação do momento, kairós.

Um esclarecimento eficiente se realiza e se atualiza em cada indivíduo, não encontra as suas justificativas circunscritas e quantificadas em apreciações locadas em parâmetros histórico-cronológicos, mas afirma-se na perduração e nos ecos dos ensinos sábios, especificamente referenciados, ou não. Entender a dimensão filosófica profunda e política de Sócrates e outros mestres de sabedoria, exige alguns reconhecimentos consequentes e positivos: a) a realização mística é uma consagração individual; b) que se burila e se afirma por intermédio de uma educação singular e particularizada; c) que o ato político-pedagógico que condiz com essa busca e realização deve aspirar uma reforma contínua e atualizada do entendimento; d) ser exercitado ao longo de um eixo metodológico variável, pontuado entre os polos conservador e renovador dos posicionamentos e decursos políticos; e) de acordo com as necessidades dialógicas e contextualizações manifestas nesse momento vivaz que eternamente perdura; f) transmutando e renovando a fluidez e inteligibilidade do estado-de-ser: aquele que é eternamente vivaz e em fluxo não se acha em rastros, não se loca em época.

Portanto, o programa político-teológico socrático se exercita: a) através de uma transmissão cultural criativa, diáspora continuada e transpessoal; b) incorporada pela natureza humana que se renova em atos procriativos, nascimentos e mortes. Comprova-se a elevada efetividade do programa constatando que 2400 anos após a sua instalação, coordenados nestes termos, os desafios lançados continuam exercitando os seus efeitos, ressurgindo como uma fênix, envolvendo milhões de indivíduos ao redor do globo.

10 Da alegoria

O Fedro, além de diálogo é alegoria: estamos todos caminhando ao longo de um rio com duas margens e duas direções. Uma leva a esse lugar natural e campestre onde existe uma fonte e se escuta o canto das cigarras; outro leva a essa cidade sitiada, tomada por plutocratas, onde os discursos são negociados. Na dependência do que se sente, vê, escuta e diz – Eros, Mythos e Logos – o estado-de-ser dirige-se para uma ou outra direção – via socrática ou via lisiástica. Terá essa viagem um fim? Boa caminhada!

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[1] Algo bem expresso por Patrick Hochart na sua aula do dia 16 de maio 2012 – Cours de philosophie : conférances version áudio by Bibliotheque national de France. http://itunes.apple.com/us/itunes-u/cours-philosophie-conferences/id509994363 – “As operações da dialética valem em função do amor que as motivam e sustentam; Se Sócrates é ‘amoroso dos discursos’ é porque só há Logos em função do Eros que o anima e sustenta”.

Conhece-te a ti mesmo ~ Know yourself

espelho

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

“Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum” – Frase atribuída a Tales de Mileto (624 a.C – 558 a.C) considerado o primeiro de todos os filósofos.

Poucos entendem o significado evocado pelos termos religião e culto. Impregnado dos conceitos arcaicos da escolástica, revividos cada vez que um sacerdote instalado numa edificação gótica eleva a hóstia sagrada dizendo “isso é corpo e sangue do senhor”, o comum dos mortais – todos que não praticam a filosofia, a arte mais difícil de todas, nos ditos de Álvaro Ribeiro e muitos outros – desentende a função mais criativa e regente da psique, confundindo interpretações intelectuais e idealísticas, desprovidas de intuição, com realidades: a realidade dos universais – a ilusão dos que imaginam que ideias gerais são coisas-em-si, representando realidades separadas do mundo sensível, volitando num além povoado de demônios ou anjos pensativos.

A interpretação e produção mítica, simbólica, são as funções mais basilares  e impreteríveis da psique, atuam estruturando, ou formatando, os enquadramentos metafísicos secundários internos e externos, isto é: a esfera gnosiológica onde se define a capacidade de alcance da visão e da intuição, e  a esfera fenomenológica  onde se demarcam os ordenamentos políticos das cidades e sociedades.

Se você imagina que existe um plano ideal separado do seu alcance intuitivo e visionário, impossível de ser penetrado sendo o que você é naturalmente, você está em situação difícil, deslumbrado, eventualmente, destinado a padecer nas garras dos fundamentalistas! Se você acha que essa ideia é absurda, que esse plano e conceitos não existem, você esta igualmente prejudicado, despojado da sua força poética, sem compreender, tampouco interagir efetivamente com as configurações políticas  da pátria, deixando para outros o poder de agir, sendo destinado a padecer em ditaduras.

Intuitivo, senão ideal, esse plano existe fortemente atuante, negado ou não; a sua integridade funcional define o homo sapiens verdadeiro e são. Esse plano existe, você sabe disso rememorando um pouco da sua vida pré-escolar ou pré-predicativa, o que acontecia no mundo das sincronias, quando a sua visão se diluía nas coisas visionadas e seu ser penetrava as paisagens em união, do zênite ao horizonte, revelando o que de fato é: um estado-de-ser fenomênico e universal, hoje desconhecido e perdido.

Se você acredita que existe uma esfera divinal e regente acima da sua cabeça, invisível, operando como um céu de constelações mandatórias, a partir de um espaço que lhe é desconhecido por ser o que você é; mas, reservadamente, visitado por outras criaturas parecidas com você, humanas igualmente, mas especiais, escolhidas, prediletas das forças supremas, você é um crédulo, escravizado, dominado e superestratificado pelas ideias, pelos conceitos, pelas imagens e pelos mitos. Lançou fora a sua intuição profunda e visionária, desistiu de ser poeta e filósofo, saiu da linha vanguardeira da evolução antes destinada a revelar a verdadeira humanidade na sua forma mais autonômica e poética, criativa. Se você combate essa  crença, jogando fora a criança e o berço, eliminando a visão-intuição, junto com o entendimento do significado dessa função visionária, você, igualmente, se torna menos do que deve, um escravo dos objetos, um produto, um amante do ter, da técnica, preso na mecânica do mundo e a ela agregado como um simples recurso, um pião na engrenagem, auxiliando a destronar a arte da filosofia genuína a favor da arte da arrumação.

Esse desentendimento dos assim chamados ‘universais ’ reflete uma ignorância existencial e basilar: o desconhecimento de que todas as categorias, da matéria densa até as visões e intuições mais abstratas e sutis, fenómenos e ‘revelações’, pertencem ao estado-de-ser que somos, integrando, com magna totalidade e funcionalidade, a esfera existencial. O materialismo e idealismo são duas pragas cognitivas, pilares da disfunção societária em que estamos metidos, afastados  da pátria verdadeira, local sublime onde dormem  os ancestrais e entre nós  vivem os deuses.

Acreditar nesses mundos  das ideias inalcançáveis visitados  por elites, ou reagir apostando num mundo de objeto, denigra e reifica a inteligência lúcida  e poética em um sistema de automatização sofisticado, uma elaboração cultural que se afasta da linha evolutiva para entrar numa vereda destinada a erradicar o homo sapiente, hoje raça em perigo de extinção iminente.

Apenas reconhecendo, como qualquer criança saudável, que somos o que se apresenta a nós, fará ressurgir os arquitetos de que carecemos  para reconstruir a cidade perdida, o império da paz, a pátria verdadeira onde todos são criaturas diletas do sagrado. Reconhecendo que a consciência coabita com o cosmos em união, faz compreender que as nossas visões, sonhos e mitos decorrentes  são os instrumentos que definem o nosso valor e sentido, os potenciais a que fazemos jus: o que se revela a cada um reflete o que deve ser posto e examinado no anfiteatro dos diálogos, é a fonte de lucidez e saber que deve motivar os nossos movimentos e atos conjuntos como grupos sociais.

A compreensão dessa união cósmica e fenomênica, entre a consciência do mundo e o mundo da consciência, faz compreender o que se sabe naturalmente por sermos  filhos e filhas do universo: que tudo o que nos cerca é sagrado, devendo ser preservado e cuidado como cuidamos de cada um dos nossos cabelos; que ninguém e nada deve ser grosseiramente usado ou desrespeitado, porque somos um só organismo e ser. É esse o entendimento que hoje amadurece,  a frutificação da inteligência que poderá fazer uma diferença significativa nos destinos da humanidade.

Know yourself

Translation by Stephen Cviic

“Know yourself and you will know the entire universe and every God, because if what you´re looking for you firstly don´t find inside yourself, you won´t find nowhere” – Phrase supposedly asserted by ‘Thales de Mileto’ (624 b.C – 558 b.C, considered to be the first of all philosophers.

Very few understand the meaning evoked by the terms religion and cult. Impregnated with the scholastics archaic concepts, revived every time a priest installed in a Ghotic building raises the sacred Eucharistical bread saying ‘this is Lord´s body and blood”, the common of the mortal beings  – everyone not practicing philosophy, the most difficult art of all, as said by Álvaro Ribeiro and many others – misunderstand the psyche´s most creative and ruling function, entangling intellectual and idealistic interpretations, deprived of intuition, with realities: the reality of the universals – the illusion of those imagining that general ideas are things-in-itself, representing realities separated from the sensible world, flying beyond a settlement of musing devils or angels.

The interpretation and mystic, symbolic production, are the psyche´s most fundamental and unsurpassable functions which act structuring or formatting the inner and outer secondary metaphysical framings, that is: the gnosiologic sphere where one can define the vision and intuition reach capacity, and the phenomenologic sphere where the political ordainments of cities and societies are demarcated.

If you imagine that there is an ideal plan separate from your intuitive and visionary reach, impossible to be penetrated, being what you naturally are, you undergo a difficult situation, eventually fascinated, destined to suffer in the fundamentalists´ claws! If you think this idea is absurd, that this plan and concepts do not exist, you are equally impaired, deprived from your poetic strength, without neither understanding nor effectively interacting with the  country´s political configurations, leaving to others the power to act, being destined to suffer under dictatorships.

Intuitive, but ideal, this plan exists strongly active, negated or not; its functional integrity defines the true and sound ‘homo sapiens’. This plan exists, you know that shortly remembering about your pre-scholar or pre-predicative life, what happened in the synchronies world, at the time your vision became thinner when viewing things and your being penetrated landscapes in union, from zenith to the horizon, revealing what in fact it is: a phenomenic and universal state-of-being, now unknown and lost.

If you believe that a divine and ruling sphere exists above your head, invisible, operating as a sky of mandatory constellations, from a space unknown to you for it is what you are; but, reservedly, visited by other creatures, looking like you, equally human, but special, chosen, favorite of the supreme forces, you are a credulous person, enslaved, dominated and super-stratified by the ideas, concepts, images and myths. You threw away your deep and visionary intuition, gave up being a poet and philosopher,   abdicated from the pioneering line of evolution, formerly destined to reveal the true humanity in its most autonomic, poetic and creative form. If you fight this belief, throwing away the child and the cradle, eliminating the vision-intuition, together with the understanding of the meaning of this visionary function, you, equally, become less than you ought to, a slave of objects, a product, a lover of having, of technique, captive in the world mechanics and aggregated to it as a simple resource, a dent in the gear, helping to dethrone the art of genuine philosophy in favor of the art of arrangement.

This misunderstanding of the so called ‘universals’ reflects  an existential and basic ignorance: not knowing that all categories, from the dense matter to the most abstract and subtle visions and intuitions, phenomena and ‘revelations’, belong to the state-of-being that we are, integrating, with great entirety and functionality, the existential sphere. Materialism and idealism are two cognitive plagues, pillars of the societarian  dysfunction where we are engaged, separated from the true motherland, sublime place where the ancestors sleep and the gods live among us.

To believe in these worlds of unreachable ideas visited by elites, or to react, betting in a world of objects, denigrates and reifies the lucid and poetic intelligence in a sophisticated automatism system, a cultural elaboration that deviates from the evolutive line to enter into a path destined to eradicate the wise ‘homo’, now a race in danger of imminent extinction.

Only acknowledging, as any healthy child, that we are what appears to us, will cause to emerge again the architects lacking in us to rebuild the lost city, the empire of peace, the true motherland where everyone are beloved creatures of the sacred. Recognizing that the conscience cohabits with the cosmos in union, makes one understand that our elapsing visions, dreams and myths are the instruments defining our value and sense, the potentials we are entitled to: what reveals itself to each one, reflecting what must be displayed and examined in the dialogs amphitheater, is the source of lucidity and knowledge that must motivate our joint movements and acts as social groups.

The understanding of this cosmic and phenomenic union, between the world conscience and the conscience world, makes one understand what is naturally known why we are sons and daughters of the universe: that everything around us is sacred, and should be preserved and taken care of as we take care of each one of our hairs; that no one and nothing should be rudely used or disrespected, because we are a single organism and being. This is the understanding that matures today the fruits of intelligence which might make a meaningful difference on the destinies of humanity.

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