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Ethos compreendido, ética verdadeira ~ Ethos understood, true ethics

Da terceira condição

filha da natureza

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Antes de ser cultural, a ética é natural e individual, por isso existe uma ética justa e verdadeira; não existiria em apenas uma única condição: se o ser humano fosse radicalmente acidental, aparecesse aleatoriamente, extemporâneo, sem causas imediatas ou gerais, destituído de enraizamentos empíricos, desprovido de Logos, fosse lançado ao acaso para habitar mundos erráticos e diversamente contingentes. Não é o que acontece; a mesma interrogação serve para descobrir o que ainda não se sabe e o que foi esquecido, dançamos em união vital e existencial com o cosmos em que, conjuntamente, com todas as demais criaturas, evolvemos e surgimos.

O acaso é o que foge das garras prepotentes da razão; o ‘acidental’ dos positivistas é hipótese referente a cogitos teleológicos, à ontologia da consciência e algumas circunstâncias iniciais que não se metrificam: não se duvida das infinitas e ordenadas correlações que se expressam nas ramificações da árvore evolutiva. Desde a formação das nebulosas, sóis e planetas, até os reinos onde habitam as criaturas, elementos e forças em perfeitos ajustes desdobram as regiões do universo e as entidades que o habitam em entrelaces e processos complexos e ininterruptos onde nada é estranho ou deixado de fora; uma correlação unitária e sem fim confere congruência existencial máxima ao estado-de-ser, por isso o poeta exclama:

Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.

Sou uma só… Sou um ser (…) – Clarice Lispector.

Onde estão as separações e estranhezas radicais? Nas curvas da evolução, não existem olhos que não se explicitam em visões; nos horizontes existenciais em que vivemos, não há visão sem observação ou admiração, admiração sem sentimentos e sentimentos sem expressões, não tão só dos olhos: nada existe sem corpos e sem sistemas nervosos cujos terminais reagem aos elementos e estímulos desde os primórdios, estabelecendo trocas e mesclas; um continuum indefinido jamais cede às interrogações sempre criativas e férteis de novas fronteiras e mistérios.

Existindo nessas circunstâncias cósmicas, que na nossa escala são evolutivas, com essa inteligência florida, sensível e racional típica dos humanos, plenamente humanos, é possível apreciar e operar a existência em profundidade, num crescendo que transforme a causalidade, onde melhor se explicitam as condutas nas congruências do Ethos, em liberdade cuja lucidez e complexas integrações brotam em realizações, artes, civilidades e culturas tendentes a se deixar impregnar de saberes e matizes filosóficos. Nesse elã vital, sem jamais divorciar, as exatidões e sensatezes das correlações ecológicas cedem largas fronteiras de atuações às luzes da razão cujos ditames impulsionam numa variedade de direcionamentos culturais e históricos.

Nesse processo, frente ao estado-e-ato-de-ser referido na consciência viva instituída em matéria-energia, evolvendo das reações bioquímicas, respostas reflexas, instintos e sentimentos típicos dos animais até os anseios pensativos e sábios dos humanos, dois sentidos são possíveis: satisfação ou insatisfação. É a aceitação harmônica do estado-de-ser anuente frente ao dado-a-ser, contemplado à luz dos ditames da inteligência natural mais sagaz (anuência e sabedoria emparelhadas como dois corcéis puxando uma carruagem), que pode garantir o melhor modo de existir nos contextos, a ética mais lúcida e verdadeira.

Portanto, a qualidade dos usos e costumes, sedimentados em função das condições naturais forjadas nas pautas do Logos universal que rege o contexto, o corpo, as visões e as ideias, instituídos em rotinas históricas consagradas e moduladas com inteligência, sabedoria e flexibilidade variáveis, dependem, igualmente, de uma terceira condição fundamental: uma escolha sensível e estética, que se apresenta ambivalente, dual, como luz e sombra, anuir ou discordar, comme il te plaira de choisir.

Talhado na obra evolutiva como um diamante burilado do cascalho, existindo nesse processo que transmuta em escalas insondáveis na ordem do Logos universal e à luz da razão e sabedoria natural, sempre o mesmo e sempre outro como convém a um grande ser: o atávico medo de morrer, gerador de fantasmas e fantasias, se remedia pelo medo de viver sempre; a arcaica angústia de existir nas coordenadas exatas e limitadas dos corpos que individualizam e isolam, se equilibra pela angústia de se sentir informe, roteando no vazio, volitando sem espaço-tempo onde pousar. Sentir-se agradecido e satisfeito, bem humorado, anuindo com o dado-a-ser, permite regular o sentimento como e quando convém, extasiado, sereno ou ataráxico, achando-se o sossego e a inteligência necessários ao bom uso das virtudes cardeais; encontrando-se tempo, ou passatempo, para contemplar o horizonte, desfrutar o cenário, tentando parar a chuva ou fazer nascer as flores; até mesmo, confiante, esperar mais amor a cada dia.

Anuir com respeito e harmonia com o estado-de-ser aponta uma maneira melhor de existir e viver no momento e nas circunstâncias dadas, porque se reconhecem com mais clareza as formas naturais que se estendem do mais focado e peculiar ao mais geral e abstrato. Nessas abrangências lúcidas, o que é da esfera das visões amplas demanda um Ethos, uma conduta e honra correspondentes, facilmente intuída pelos mais sábios, e, quando enunciada, compreendida por todos; somos um estado-de-ser integrado em que tudo, a composição da água e do ar, a flora e fauna, radicalmente interoriginam e interdependem; logo: vive-se melhor como se deve, de acordo e anuindo com o que se é. Quanto às coisas menores (o que fazer quando não chove ou chove demais?), reúne-se o grupo a conversar, burilando as escolhas mais sensatas, imitando a natureza que burila a si mesma, igualmente dialogando nas extensões do grande elã.

No outro encaminhamento e escolha, a insatisfação assombra o bom humor e a lucidez, revelando-se o dado-a-ser como castigo, motivando almejar um além que possa salvar de existir dessa forma, metade cogitans metade extans em agregado inelutável. A sina do insatisfeito, que nega o estado-de-ser e desdenha a natureza projetando nela as suas próprias limitações, dependerá das interpretações e suposições dos mentores dominantes e tradicionais. Destituídos de tino filosófico que inexiste sem razão sensata como inexistem flores sem luzes, os que não anuem com o dado-a-ser natural sem razão maior de que um desgosto assombrado, forçosamente, imaginarão histórias em que morrer seja louvado como via régia, direcionando para um sobrenatural e grandioso além. A abnegação, resignação, sacrifício, esperança e a fé servirão para suportar o viver; nessa recusa, na tentativa de equacionar sentidos e ordenamentos que incluem as escalas existenciais mais extremas, consultar-se-ia os eleitos e enviados representantes do divino, reclusos, que, certamente, na ausência de balizas evidentes e naturais, emitirão uma variedade de opiniões e pareceres dogmáticos, de acordo com os seus desejos, vislumbres, infundadas esperanças, ou baseados nas tradições, nas lendas, na sorte ou veracidades dos áugures.

No primeiro caso, a ética será amável e cuidadosa, porque aquiescente com o dado-a-ser que naturalmente renasce na união amorosa e abraços dos que se complementam e amam; igualmente, prudente, empírica, experiencial, naturalista e universal, descrita e vivida por filósofos pioneiros e vanguardistas, explicitada, ajustada e compreendida nas medidas do bom senso, dos compartilhamentos e ponderações dos discursos. Embalada nas hipóteses dos teólogos e hermeneutas, a ética será normativa e sem razão, dogmática, ditada de acordo com as exclusivas revelações de profetas atinentes a cada canto e lugar, perpetuada em gestos, usos e costumes na repetição insensata dos mesmos rituais, credos e cultos. No primeiro caso, na vigência de uma anuência plena com o estado-de-ser, a religiosidade será operante como uma festa, resultando de um estado atento e gozoso de ser, sutil e belo, de acordo com as boas disposições e as graciosidades iniciais; no segundo, o religar implicará uma súplica, um pedido, um lamento, quiçá, exemplarmente, sacrifícios, abstinências e anacoretismos.

Aos satisfeitos, o divino aparece vivo como uma esfera sublime e gozosa que alimenta e prolonga os sentimentos e visões; a natureza, admirada à luz da inteligência mais sensível, aparece como um fenômeno divinal, uma deusa, os humores e esteticismos mais intensos encontram vias expressivas em diversas artes e inspirações sublimes como as musas. Aos que anuem com o dado-a-ser, o Ethos valente onde nasce a ética vital, a pátria se revela plena de sentido e de glória, trazendo nas suas formas citadinas e campestres as marcas do bom mito e do Logos mais justo, lugar onde com firmeza e saber equaciona a ética mais naturalmente humana; advém a verdadeira pátria em que a vida habita e flora à luz de uma teopolítica amiga e agradecida, louvada em cada fenômeno, das raízes que chamejam no centro da terra, até os símbolos e visões mais sutis e solares, arqueando um edifício de saberes e glórias, uma casa panteísta com certeza.

Num mundo dominado por insatisfeitos querendo se salvar da existência, ascender em esferas despojadas de mundo, vive-se como hoje se vive, espantados em ilusões virtuais, titubeando nas sombras do império da Roma agonizante. Escutem as notícias, leiam os jornais uma hora ou duas; se forem intuitivos, bastarão subir em uma colina adjacente à cidade, revelar-se-ão as arquiteturas babilônicas típicas das sociedades assentadas em nuvens e areias movediças.

Esquecido de que são pessoas de carne e osso e não espíritos etéreos, os que já não sabem sentir tanto quanto pensar por desuso das coisas do sensório e castidade excessiva, imaginam que o significado original existe traduzido em palavras, que se referem a palavras, que assentam em velhos livros escritos por enviados evocando visões oriundas de outros orbes! Outros, sem espessura e acuidade suficiente na visão, só observam a metade do real, confundem os abstracionismo da razão lógica com a realidade, deixando de ver as demais abstrações, líricas e formais, que dançam com as coisas da estética, desprezando, igualmente, a geometria unitária desenhada por Espinosa, como se suas zelosas regras de cálculos e silogismos estreitos servissem apenas para metrificar coisas. Esses, que ao lado dos soberbos, pretendem ditar as regras do bom viver, não encontram as raízes do dado-a-ser que assentam nos fundamentos mais estéticos e intensos dos fenômenos: permanecem nas camadas superficiais da existência, sem encontrar os grandes significados; ou ainda, temerosos de se desviarem das órbitas citadinas de onde tiram o seu sustento, negam a realidade evidente do Logos para clamar que é na história dos homens, etiquetas e hábitos que não se atualizam à luz do bom senso, mas sim da prepotência que se assenta a fonte mais exata de uma ética sem Ethos, destituída das suas origens e natureza.

Se você imagina existir um plano ideal, separado do seu alcance intuitivo e visionário, impossível de ser penetrado sendo o que você é, ou que esse planos visionários nada significam de tão fundamental, você estará desprivado da sua visão e força poética, prejudicado, sem poder interagir para, conjuntamente, renovar e criar as configurações essenciais da verdadeira pátria universal; viverá suportando as estruturas normativas desenhadas pelos que profetizam nesses modos airados, realizando os infernos que evocam do acordo com o processo de veracidade sagital onde, na esfera cultural e nas interfaces da natureza desrespeitada, é dado a se viver o que de si mesmo e do mundo se cogita e cultiva!

Assim caminha a humanidade, seja movida no comando dos filósofos de raízes, filhos da natureza, os que sentem, tocam e são, ou no comando dos teólogos da tradição e seus fiéis arautos; mas, um dia, que pode não ser distante, de tanto despertar em pesadelos aterrorizantes e insanos, o tempo de um novo panteão há de brilhar despertando Apolo, Inti ou Aton no horizonte – tempo não falta.

Ethos understood, true ethics

Of the third condition

Régis Alain Barbier

Prior to being cultural, ethics is natural and individual, and this is why there is a just and truthful ethics; it wouldn´t exist in only one condition: were the human being radically accidental, appeared just randomly, extemporaneously, without immediate or general causes, deprived of empiric rooting, lacking Logos, launched by chance to inhabit erratic and diversely contingent worlds. This is not what happens; the same questioning is applied to discover what one does not know yet and what has been forgotten, we dance in vital and existential union with the cosmos where, together with all other creatures, we emerge and develop.

Chance is what escapes from reason´s claws; the positivists ‘accidentally’ is a hypothesis which refers to theological reflections, to the conscience´s ontology and to some initial circumstances which can´t be measured: one can´t doubt about the endless and ordained correlations which are expressed in the branches of the evolutionary tree. From the formation of nebulae, suns and planets, to the reigns where creatures, elements and forces live in perfect harmony, the regions of the universe and the creatures inhabiting them unfold themselves in complex and uninterrupted processes where nothing is strange or left outside; a oneness and endless correlation bestows maximum existential congruence to the state-of-being, and this is why the poet utters:

I´m a daughter of nature: I want to catch, feel, touch, be. And all this is already part of an entirety, of a mystery. I  am  just  one…  I am a  being (…) – Clarice Lispector.

Where are the separations and radical strangenesses? On the curves of evolution, there are no eyes which do not explicit themselves in visions;  on the existential horizons where we live, there´s no vision without observation or admiration, admiration without feelings and feelings without expressions, not just only from the eyes: nothing exists without bodies and nervous systems whose extremities react to the elements and stimuli since primordial times, establishing exchanges and mixtures; an undefined continuum never yields to always creative and fertile questionings of new frontiers and mysteries.

Existing on these cosmic circumstances, which are evolutionary in our scale, with this flowering, sensitive and rational intelligence typical of the human beings, fully human, it is possible to appreciate and operate existence in depth, in a gradual increase transforming causality in a freedom whose brightness and complex integrations are brought forth into realizations, arts, civilities and cultures tending to let themselves impregnate with  philosophical wisdoms and nuances.  In this vital, never divorced ‘union’, the accuracies and wisdoms of ecological correlations yield to broad boundaries of actions at the light of reason, whose principles drive a variety of cultural and historical directions.

In this process, before the state-and-act-of-being referred to an alive consciousness established in matter-energy, developing from biochemical reactions, the animals´ typical reflected answers, instincts and feelings, till the humans´ wistful and wise yearnings, two feelings are possible: satisfaction or dissatisfaction.  It is the harmonious acceptance of the state-of-being before the given-to-be, contemplated at the light of the natural and more sharp-witted intelligence principles (approval and wisdom coupled as two coursers pulling a carriage), capable of guaranteeing the best way to  the most lucid and truthful ethics to exist on the contexts.

Therefore, the quality of uses and costumes, sedimented as a result of the natural conditions forged in the guidelines of the universal Logos ruling the context, the body, the visions and ideas, formed in historical routines, consecrated and modulated with variable intelligence, wisdom and flexibility, equally depend on a third fundamental condition: a sensible and aesthetical choice, presenting itself ambivalent, equal, such as light and shadow, agree or disagree, ‘comme il te plaira de choisir’.

Engraved in the evolutionary work as a diamond carved from the gravel, existing in this process transmuting unfathomable scales in the universal Logos order at the light of reason and natural wisdom, always the same and always other as suitable to a great being: the atavistic fear of dying, ghosts and fantasies producer, is healed by the fear of living for ever; the archaic pang of existing on the bodies´ individualizing and isolating  exact and limited coordinates, is well balanced by the pang of feeling itself shapeless, revolving in the vacuum, flying without a space-time where to land. To feel thankful and satisfied, good-tempered, agreeing with the given-to-be, allows one to control the feeling how and when it is convenient, delighted, serene or supremely happy, feeling him/herself the necessary quietness and intelligence to the good use of the cardinal virtues; finding time, or pastime, to admire the horizon, enjoy the scenario, trying to stop the rain or cause the flowers to bloom; even yet, trustful, waiting more love every day.

To agree, with respect and harmony with the state-of-being, indicates a better way to existing and living at the present moment and on the given circumstances, because the natural forms extending from the most focused and peculiar to the most general and abstract are more clearly recognized. On these lucid reaches, what belongs to the wide visions sphere requires an Ethos, a conduct and corresponding honor, easily intuited by the wisest, and, when uttered, understood by everyone; we are an integrated state-of-being in which everything, the water and air composition, flora and fauna, radically inter-originate from and inter-depend on themselves; thus: one can live better, as it should be, in accordance with and agreeing upon with what one is. As to the minor things (what can one do when it does not rain or when it rains too much?) the group meets to talk, polishing the most judicious choices, imitating the nature that polishes itself, identically dialoguing on the great clan´s extensions.

On another direction and choice, dissatisfaction astonishes the good mood and brightness, when then the given-to-be is revealed as punishment, causing one to long for the other world that may exempt from existing this way, half ‘cogitans’ half ‘extans’ in an unavoidable aggregate. The unsatisfied fate, that denies the state-of-being and disdains nature projecting into its own limitations, will depend on the dominating and traditional mentors´ interpretations and suppositions. Deprived of philosophical discernment that does not exist without a judicious reason as lightless flowers do not exist, those who do not agree with the natural given-to-be without a reason greater than a haunted grief, will forcefully imagine histories saying that dyeing is praised as a royal path bounding for a supernatural and grandiose world. Abnegation, resignation, sacrifice, hope and faith will help to stand living; in this refusal, trying to equate meanings and ordainments, including the most extreme existential scales, the divine´s sent and elected, secluded representatives would be consulted, who, certainly, with the lack of evident and natural delimitations, shall utter a number of dogmatic opinions and view points, in accordance with their will, conjectures, baseless hopes, or based on traditions, legends, destiny or fortune tellers´ truthfulness.

In the first case, ethics will be kind and careful, because it is acquiescent with the given-to-be which naturally revives in the loving union and hugs of those complementing and loving themselves; equally, prudent, empiric, experimental, naturalist and universal, described and lived by pioneering and avant-gardist philosophers, explained, adjusted and understood in the good-sense measures, on the discourses´ partaking and considerations. Conducted by the theologians and hermeneutists´ hypotheses, ethics will be normative and reasonless, dogmatic, dictated in accordance with the exclusive revelations of prophets relative to each corner and place, perpetuated in gestures, uses and costumes in the foolish repetition of the same rituals, beliefs and cults. In the first case, during the validity term of a full agreement with the state-of-being, religiosity will be operating as a party, resulting from a thoughtful and joyful, subtle and beautiful state of being, according to the good dispositions and initial gracefulness; in the second case, the re-connection will imply a supplication, a petition, a weeping, perhaps, exemplarily, sacrifices, abstinences and anchoretisms.

To those showing satisfaction, the divine appears alive as a sublime and joyful sphere feeling and prolonging feelings and visions; nature, admired at the light of the most sensitive intelligence, appears as a divine phenomenon, a goddess, the most intense humors and aestheticisms encounter expressive ways in several arts and sublime inspirations as the muses. To those who agree with the given-to-be, the valiant Ethos where the vital ethics is born, the home land reveals itself plentiful of meaning and glory, bringing in its urban and country forms the marks of the good myth and of the most virtuous Logos, a place where with firmness and wisdom the most naturally human ethics is equated; the true home land happens where life inhabits and emerges at the light of a friendly and thankful theopolitics, praised in every phenomenon, from the roots flaring in the center of the earth, to the most subtle and solar symbols and visions, vaulting a building of awarenesses and glories, a panentheist house, certainly.

In a world dominated by dissatisfied beings willing to save themselves from existence, ascend into world divested spheres, living is just like one uses to live today, frightened by virtual illusions, hesitating on the shadows of the agonizing Roman empire. Listen to the news, read the newspapers for one or two hours; if they were intuitive, it´s enough to climb a hill adjacent to the town, and Babylonian architectures typical of the societies seated on clouds and quick sands will be disclosed.     .

Oblivious of being flesh and bones individuals and not ethereal spirits, they who do not know how to feel as much as they think due to the lack of use of the sensorium and excessive chastity, they imagine that the original meaning exists translated into words, referring to words, put into old books written by envoys evoking visions from other orbs! Others, deprived of sufficient vision thickness and sharpness, who only observe half of the real, confounding the logic reason´s abstractionism with reality, not being able to see the other lyric and formal abstractions, dancing with the things of aesthetics, equally despising Spinoza´s drawn Unitarian geometry, as if their zealous rules of calculation and narrow syllogisms would only be useful to measure things.

These, who aside the prideful, intend to impose the good living rules, don´t find the roots of the given-to-be which are seated on the phenomena´s most aesthetic and intense foundations: they remain on the existence´s superficial layers, without encountering the great meanings; or yet, fearful of deviating from the urban orbits from where their sustenance come from, deny Logos´ evident reality to cry out that it´s in men´s history, etiquettes and habits, that they aren´t brought up to date at the light of good sense, but yes in the predominance where the most exact source of an ethics without Ethos is seated, deprived of its origins and nature.

If you imagine that an ideal plane exists, apart from its intuitive and visionary reach, impossible to be reached being what you are, or that these visionary planes mean nothing of so fundamental, you will be deprived of your vision and poetic force, impaired, with no condition to jointly interact, renew and create the essential configurations of the truthful universal home land; you will be living supporting the normative structures drawn by those who foretell on these sluggish procedures, performing the perditions which are evoked in accordance with the sagittal truthfulness process where, on the cultural sphere and on the disrespected nature´s interfaces, one is allowed to live what´s taken into consideration from him/herself and from the world.

This is how mankind walks, be it moved under the command of root philosophers, nature´s sons, those who feel, touch and are either under the command of tradition theologists and their faithful heralds; but, one day, which might not be so distant, because of awakening due to terrifying and insane nightmares, the time of new pantheon shall shine waking up Apolo, Inti or Aton at the horizon – time is not missing.

O que é Consciência Política? ~ What´s Political Conscience?


jardim-de-flores

O vento leva as folhas secas, vêm as flores

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Por conta de sermos, como cultura, abarrotados de razões históricas, tradicionais, prezadas, aclamadas, comparadas e relativas, são poucos, até mesmo nas fileiras dos mestres em filosofia, os que pensam profundamente e desembaraçados, os que meditam. Não são raros os que apenas lembram das suas intuições e visões, demais aportes cognitivos da contemplação, imagens e significados que aparecem no repouso, apenas acidentalmente, indo dormir com estômago cheio ou outros desconfortos. Os sonhos, as visões e intuições, próprios e verdadeiros, profundos, transcendem as rotas habituais da cognição e a logicidade dos enunciados onde se quer distinguir tudo através de proposições cuja não contraditoriedade, bem no fundo, enraíza na vã tentativa de sempre querer afirmar e diferenciar, categoricamente, um sujeito imaginado autonômico, observando e percebendo objetos e utilidades ilusoriamente imaginados outros, ‘coisas em-si’. Uma incômoda carência de saber assentada na ideia prepotente de que o que existe para se sentir, tocar e abraçar, é menor, inferior ao que se pode cogitar em gabinete; nessa cultura em que vivemos, desconhece-se a essência que ajunta e coliga o estado sociopolítico de ser ao ser natural, as coisas da visão, do sentimento, da razão, dos gestos às realizações privadas e públicas, a junção do estado-de-ser e do ser-do-estado, cuja harmonia se revela na verdadeira intuição.

Parodiando e retificando o que escreve Voltaire em Le philosophe ignorant XXIV: “(…) les hommes se conduisent par la coutume et non par la métaphysique (os homens se conduzem pelo hábito e não pela metafísica), digo: uma vez marcado e batizado, adentrado numa cultura e ritos correspondentes, os homens que não costumam contemplar e meditar, os que mal pensam por renegarem a sua intuição juvenil e essencial, ou pré-predicativa, são conduzidos pelos hábitos, através de tabuadas e cartelas, sem compreender e dominar a metafísica que os ordena e condiciona.

Bem examinado ou não, as relações profundas que se constituem entre a consciência e a natureza fundamentam a qualidade política do processo existencial. A definição e apreciação dessas relações engendram perspectivas filosóficas fundamentais, que determinam a conduta dos humanos, logo, a política das nações, a distribuição e usufruto dos bens e valores. Essas perspectivas equacionam as dificuldades e problematizações existenciais, regimentam as vocações, dedicações, ordenamentos societários, tempos de paz e tempos de guerra. Não passa desapercebido, por ninguém dotado de sensibilidade e bom-senso suficiente, ciente de alguns vislumbres históricos, que as extrapolações e projeções idealistas e futuristas, típicas das teologias onde se imagina e advoga uma consciência acidentalmente metida na natureza, incentivam doutrinas onde, nas mesmas referências, se conjugam ideologias, políticas e justiças acidentais, insensíveis e autoritárias.

Na infância própria, na época das primeiras aventuras, conquistas e grandes descobertas marítimas; nos fragmentos da filosofia primordial dos pré-socráticos e antigos mestres de saber; nesses lugares onde trocas sinceras, sorrisos e olhares esperançosos aconteciam; nos confins embrumados dessa bolha idealística, antes dos descaminhos, bifurcações e encruzilhadas, na origem, nos lumes e portais introdutórios, erguiam-se, em diversas dimensões, promissórios projetos de verdade, circulavam moedas lastradas em coisas úteis e sólidas, usufruíam-se valores em que o ouro e as pedras preciosas, ostentados em objetos de arte, decoravam casas e jardins. Valia o momento em que se apreciava e saboreava contemplando a magnificência das flores, das fontes e pomares. Era o tempo da sua infância onde tudo fazia sentido, porque tudo comungava e se conhecia de imediato, fusionando a consciência amorosa e lúcida, estética e abstrata, com as formas das coisas, cujas linhas, cores, sabores, perfumes e sons deslizavam em harmonia nas ondas vibrantes do próprio pensamento.

Deixar de encontrar e celebrar, espontaneamente, em si mesmo e por si mesmo, o valor da vida nas suas dimensões mais amplas e universais, embrutecido pelos impactos das doutrinas que renegam o que é óbvio três vezes – afirmando não ser o nascido parte da totalidade entendida como suprema e divina; invocando um espírito alheio e separado do corpo infinito da realidade; advogando uma origem e enraizamento locados além do mundo que se pode conhecer e saber – leva a uma vereda de estranhamento e perdição, a uma inércia desatenta, a um torpor que estamos sofrendo e amargurando, na proporção em que escolhemos deixar de sondar as nossas intuições e visões, desistindo de meditar e contemplar, de pensar profundamente, por omissão, carência de resiliência, desinteligência ou simples insensibilidade.

Sabemos, do fundo dos nossos corações, na seiva das nossas raízes, nos vislumbres das visões que ainda podemos ter no halo desses sonhos embrumados, que poderia ser diferente. Uma suspeita inquietante, proporcional ao desassossego que acontece por ter que viver o que não se é, exige uma profunda discussão para desvendar e deixar claro que, para todos os viventes, seria bem melhor que não fosse assim.

Envolvido nessa relação rompida, o ser humano se encontra artificiosamente afastado da relação unitária e comunhão psicofísica natural e espontânea, para vislumbrar projetos e criar objetos a partir de um distanciamento cultista da sensibilidade e exacerbação da razão exercitada em coordenadas lógicas, investindo força vital em efemeridades e utilidades, construindo estruturas que consomem e objetivam, reforçando a fragmentação da consciência, enfraquecendo a vitalidade.

Pensando bem, artificial é observar tudo como se fosse um visitante do além mundo, um ser sem raízes cósmicas, um alienígena destituído de respeito. A ação natural e precípua do ser humano só pode ser embasada em manipulações cientes, gestos e toques pensados e sensoriais, as atividades mais belas e acertadas frutificam quando as coisas utilizadas, preparadas, aparelhadas, são tratadas com plena atenção e consideradas como prolongamentos do próprio corpo – nesse caso, cuidar-se-ia das plantas, grama, árvores e construções, como as mulheres cuidam dos cabelos. Sentir-se vivo e presente, significante, impregnado de realidade, aconteceria com uma força similar à das águas de rocha que se lançam nos vales, fertilizando a vida. Atento, ligado, respeitando a fonte que alimenta e cria, o estado-de-ser sustentaria a sua original lucidez, lembraria os saberes imediatos e pré-predicativos que originam da comunhão experiencial, da imersão psicofísica natural. É esse o caminho vital, a via que empreendida com a totalidade da inteligência, cinestésica, sensível e razoável, permitirá uma retomada de consciência, uma percepção de raiz engajada com o ato de ser em contexto.

Conhecer prezando a união firme e inelidível da consciência e do mundo, não negando essa junção impermeável aos silogismos, por isso paradoxal, faz uma diferença monumental, civilizatória. É a diferença que há entre conhecer o mar de um monte elevado e distante, descrevendo as cores, o movimento, e conhecer o mar nadando com os peixes, imerso nele. Um conhecimento de contato imediato, que desliza na textura do real, vencendo o desencaixo artificioso e cult equacionado nas articulações subjetivistas, para conhecer o grande momento onde a duração e dimensão absoluta revelam-se em todas as suas sensíveis e sensatas espessuras. Trata-se de um saber talentoso, de uma arte de conhecer típica dos animais, das crianças, dos artistas mais sensíveis, dos poetas inspirados, algo genuíno: mas, notoriamente ausente em muitos pensadores, atrofiado por desuso e desprezo. Admirar tudo em dimensões amplas onde se agregam à totalidade da experiência, as apreciação estéticas e a capacidade de abstrair, sem nada desconsiderar e desprezar de significativo, antes de pensar a respeito do que se vive e do que se é, tem sido acusado e denunciado de ‘psicologismo’, ‘antropologismo’ – como se sentir,  intuir, imaginar e visionar fossem especialidades avessas à técnica filosófica, como se um ser humano, lúcido e natural, não pudesse ser um filósofo.

Quando se quer peneirar a ‘pureza das ideias’ renegando as comunhões do sentir profundo, o que já é puro por ser inteiro e natural, se torna artificioso e fragmentado, insensível e altaneiro, afastado do que é real, falso, o contrário do que se prega. A pureza que se necessita é a que foi banida: é a verdade e alegria das crianças e dos povos primitivos; uma pureza verdadeira e real que agrega em união firme e indissociável o pensamento e o sentimento numa lucidez que existe sem razão necessária, sem meta objetiva e sem querer viver além; apenas nessa ordem essencial o verbo maior e regente poderá ser amar.

Na perspectiva filosófica monista, no sentido dessa comunhão panteística que reconhece a convergência unitária da consciência e do mundo, é no momento presente, assentado na totalidade da criação, universal e cósmica, enraizado em dimensões infinitas e princípios unificadores que, numa graça plena e perfeita, nada deixando de fora, se colocam todas as pretensões existenciais, do centro mais original, gonadal, até os confins, igualmente, estéticos e abstratos: revelações da razão sensível e manifesta ao longo de todo o eixo existencial que se equaciona das raízes ancestrais até as dimensões visionárias, em que se desenvolvem, em processos criativos e infindos, todas as energias cósmicas. A natureza que se manifesta pertence ao vivente e carrega em si os potenciais da vida. Trata-se de uma natureza lastrada numa atualidade e presença que se contempla e se aprecia a partir de si.

Mesmo se esfacelada, desmembrada, a grandiosidade se manifesta: pequenas frações do belo jardim da verdadeira cidade, como deveriam existir à luz da razão natural, ainda podem ser encontrados nas curvas de alguns rios, onde o fluxo das águas teima em desenhar melhor o justo perfil das margens apesar dos diques. Nessa perspectiva metafísica cosmo-existencial, os valores se usufruem no presente que é real e grandioso, apesar das desfigurações políticas e citadinas instituídas pelos que extrapolam e mutilam a vida da sua seiva e substância vital, substituindo as simplicidades e o bom-senso dos povos ancestrais em deslocamentos e estereotipias teocráticas e sociocráticas.

Acomodados em edifícios remanescentes de impérios, catedrais projetadas em arquiteturas visionárias, assentados em púlpitos, os arautos do teísmo, desprezam, desnaturam e desintegram, a relação unitária da consciência e do cosmos, em prol de uma vida imaginada extracorpórea e um mundo extrafísico; substancializam o absoluto e espiritualizam os sujeitos para apontar um caminho sobrenatural onde no além, em esferas destituídas de mensuras sensíveis, se encontraria a paz e a felicidade; os representantes desse projeto sobrenaturalista, anunciado por escolhidos e referente a seres essencialmente diversos, demandam uma dupla rendição: do bom-senso a favor de uma fé em visões desentendidas, da razão a favor da crença em narrativas dogmáticas.

Efetivamente, a desunião teísta descarta e pune a apreensão imediata e contemplação da estrutura unitária do real, para motivar dois desentendimentos e desvios potencialmente fatais à vida no planeta: uma objetificação da realidade, mercado globalizado, monoculturas e megalópoles, reduzindo seres humanos a recursos e números; um deslocamento da esperança em direção ao além: instaurando-se uma relação vital desnaturada e fantasmagórica, semeadora de depressão, geradora de anomalias urbanísticas e políticas, processos de desertificações e aridificações. Nessas equações existenciais duvidosas e incertas, cada vivente é levado a decidir: posicionar-se como nasceu, rebento da grande estrela e terra, ou como foi batizado nas culturas que crucificam a rosa dos ventos e renegam a realidade da vida a favor da morte.

A esperança existe em cada um dos viventes, posicionado numa legitimidade e ordem explicitadas nos átomos constituintes, reside um gênio natural, acordado ou adormecido, em alguma posição intermediária, mas apto a se manifestar de imediato: uma presença portentosa que comove por conter a mesma e idêntica força e beleza da natureza.

Tornou-se emergencial reaprender a conhecer, reencontrar o saber e verbo perdido, reconhecer o que é real para fundamentar uma nova visão e boa política onde a riqueza e glória de viver possam assentar no lugar adequado, no momento em que se vive: a eterna duração do presente que se demonstra e revela nas ideias ampliadas, igualmente estéticas e abstratas, aos que sabem conhecer de imediato, antes de pensar a respeito, e aos que sabem pensar de acordo com o que se denota bem, sendo o que se é de verdade: uma realização cósmica onde se manifesta a grandeza da Santa e Sagrada Natureza que somos, cada um trazendo em si uma cota desses mistérios que se comungam e que nos vitalizam.

What´s Political Conscience?


Dry leaves are taken away by the wind, then flowers bloom

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Because we are, as culture, overfilled with historical, traditional, appraised, acclaimed, compared and relative reasons, few are, even on the lines of philosophy masters, those who, deeply and freely think, those who meditate. They are not rare those who only  remember their intuitions and visions, other contemplation cognitive contributions,  images and meanings appearing during rest, only by accident, when one goes to sleep with the stomach full, or with other discomforts. The dreams, visions and intuitions, proper and truthful, profound, transcend the usual routes of cognition and the logical structure of statements, where one wants to distinguish everything through propositions whose non-contradictoriness, deeply establishes itself in a vain attempt of always willing to categorically assert and differentiate an imagined and autonomic subject, observing and perceiving objects and utilities illusively conceived as others, ‘things-in- itself’. An uncomfortable needfulness of knowing settled on the all-powerful idea of what exists to be felt, touched and embraced, is smaller, less important than what can be imagined in an office; on this culture we live in, one does not know the essence that joins and colligates the sociopolitical state-of-being to the natural living being, the things of vision, of feeling, of reason, from the gestures to the private and public accomplishments, the junction of the state-of-being and of the being-of-the-state whose  harmony reveals itself on the actual intuition.

Parodying and rectifying what Voltaire wrote in ‘Le philosophe ignorant XXIV:´ “(…) les hommes se conduisent par la coutume et non par la métaphysique ‘(The Ignorant Phylosopher XXIV’: “(…) (men behave themselves by the habits, not by metaphysics)”, I assert: once marked and baptized, entered into corresponding culture and rites, men who aren’t used to contemplate and meditate, those who hardly think for they deny their juvenile and essential or pre-predicative intuition, are directed by habits, through multiplication tables and tickets, without understanding and dominating the metaphysics that ordains and regulates them.

Well examined or not, the deep relationships which are developed between conscience and nature, establish the political quality of the existential process. The definition and appreciation of these relationships cause to imagine fundamental philosophical perspectives, determining the human being´s behavior, and immediately, the nations´ policy, the distribution and usufruct of goods and values. These perspectives equate the existential difficulties and problematic situations, regulating vocations, dedications, societarian ordainments, times of peace and war. It´s evident to anyone endowed with sufficient  sensitiveness and good-sense, aware of some historical glimpses, that the idealistic and futuristic extrapolations and projections, typical of the theologists where one can imagine and support  a consciousness accidentally embedded in nature, estimulate doctrines where, on the same references, political ideologies and accidental, ruthless and authoritarian justices are simultaneously joined.

In tender age itself, at the time of the first adventures, conquers and great maritime discoveries; on the pre-Socratic and ancient masters of knowledge primordial philosophy fragments; in these places where sincere exchanges, smiles and hopeful looks used to happen; in the hazed boundaries of this idealistic bubble, prior to the misleadings, bifurcations and crossways, at the origin, in the introductory lights and façades, promising truthful projects used to emerge in several dimensions, coins, ballasted on useful and solid things used to circulate, gold and precious stones, displayed on art objects decorated houses  and gardens. The moment when one could appreciate and flavor, contemplating the splendor of the flowers, fountains and orchards was worthwhile. It was the time of your childhood when everything used to make sense, because everything communed and was immediately acknowledged, fusing the amorous and lucid, aesthetic and abstract conscience, with the forms of the things, whose lines, colors, flavors, aromas and sounds used to harmoniously slide on the vibrating waves of thinking itself.

To avoid spontaneously encounter and celebrate in itself and by itself, the value of life on its widest and universal dimensions, brutalized by the doctrines´ impacts three times denying what´s obvious – asserting that he/she who has been born is not part of the entirety understood as supreme and divine; invoking a strange spirit separated from the reality´s endless body; defending an origin and rooting placed beyond the world one might acknowledge and understand – leads to an unfamiliarity and perdition trail, to an absentminded inertia, to a numbness we´re suffering and grieving, as we choose not to appraise our intuitions and visions, quitting to meditate, contemplate and deeply think, neglectfully, due to lack of resiliency, misunderstanding or simple unfeelingness.

We acknowledge, from the bottom of our hearts, in the sap of our roots, in the shimmers  of the visions we still can have on the halo of these misty dreams, that it could be different. An annoying suspicion, proportional to the restlessness occurring just by having to live what one isn´t, requires a profound discussion to unveil and leave it clear that, to all living beings, it would be much better if it weren’t so.

Involved on this broken off relationship, the human being finds him/herself deceptively separated from the unitarian relationship and natural and spontaneous psychophysical communion, to shimmer projects and create objects from a cultist withdrawal of sensitivity and exacerbation of logical reason, investing vital force on ephemeralities and utilities, building consuming and objectifying structures, reinforcing conscience´s fragmentation, and weakening vitality.

Further considering, artificial is to observe everything as if you were a visitor from the other world, a being without cosmic roots, an alien deprived of respect. The human being´s natural and foremost action can only be based on conscious manipulations, thoughtful and sensorial gestures and touches; the most beautiful and wise activities fructify when all used, prepared and equipped things are treated with full attention and considered as extensions of his/her own body – in this case, one would take care of plants, grass, trees and constructions, as the women take care of their hair. Feeling alive and present, meaningful, impregnated with reality, would occur with a force similar to that of the rock waters sprouting from the valleys, fertilizing life. Thoughtful, connected, respecting the fountain that feeds and creates, the state-of-being would sustain its original brightness, would remember the immediate and pre-predicative wisdoms originating from the experimental communion, from the natural psychophysical immersion. This is the vital way, the route which, if kinesthetically, sensibly, and reasonably accomplished with full intelligence, will allow a conscience´s   retrieval, a root perception engaged with the act of being in context.

Knowing, esteeming the conscience´s and the world´s firm and unreadable union, not denying this syllogisms impermeable junction, paradoxical for this reason, makes a civilizing magnificent difference. It is the difference that exists between knowing the sea from a high and distant mountain, describing the colors, the movement, and know the sea swimming with the fish, immersed into it. An immediate contact knowledge that slides into the texture of the real, triumphing over the skillful and cult dislocation equated on the subjectivist articulations, in order to know the great moment where the duration and absolute dimension reveal themselves in all their sensitive and sensible thicknesses.  It deals with a talented knowledge, of an art of knowing typical of the animals, children, most sensitive artists, inspired poets, something genuine: but, notoriously absent in many thinkers, atrophic due to disuse and disdain. To admire everything on huge dimensions where the entire experience, the aesthetic appreciations and the capacity to abstract are aggregated,  without taking into consideration and despising what´s meaningful, prior to thinking about what one lives and is, has been accused and denounced as ‘psychologism’, ‘anthropologism’ – as if feeling, intuitively thinking, imagining and visioning were specialties contrary to the philosophic technique, as if a lucid and natural human being couldn´t be a philosopher.

When one wants to sieve the ‘purity of ideas’ denying the communions of the deep feeling, what is already pure because it´s entire and natural, it becomes skillful and fragmented, insensible and soaring, distant from what´s real, false, just the contrary of what one preaches. The purity needed is that one which was banished: it´s the children´s and primitive people´s truth and joyfulness; a truthful and real purity aggregating into a firm and unsociable union the thinking and the feeling in a brightness existing without needful reason, without objective aim and without willing to live far beyond; only on this essential order the major and ruling verb might be ‘to love’.

On the monist philosophic perspective, in the sense of this panentheist communion recognizing conscience´s and the world´s unitarian convergence it is, at the present moment, seated upon the entirety of the universal and cosmic creation, rooted into endless dimensions and unifying principles that, in a full and perfect gracefulness, nothing is left outside, from the most original, gonadal center, till the equally aesthetic and abstract boundaries: revelations from the sensible and evident reasoning along the entire existential axis that equates itself from the ancestral roots to the visionary dimensions, on which, in creative and endless processes, all cosmic energies are developed. The manifesting nature belongs to the living being and carries in itself all life´s potentials. It is nothing but a nature ballasted on a  present time and presence which is contemplated and appreciated as of  yourself.

Even if broken up in pieces, dismembered, grandiosity manifests itself: small fractions of the true city beautiful garden, as should exist at the light of natural reason, can still be encountered on the curves of some rivers, where the water streams insist in better designing the just profile of the banks despite the existing dams. Based on this metaphysical cosmos-existential perspective, values usufruct themselves in the present moment which is real and grandeur, notwithstanding the political and unban disfigurements established by those who extrapolate and cripple the life of their vital sap and substance, replacing the simplicities and good-sense of the ancestral people in theocratic and socio-cratic displacements and stereotypies.

Being comfortably installed in empire remaining buildings, cathedrals designed in visionary architectures, seated in pulpits, the theism heralds despise, denature and disintegrate conscience´s and cosmos´ unitarian relationship, in favor of an extra-corporeally imagined life and an extra-physical world; they substantialize the absolute and spiritualize the subjects in order to indicate a supernatural way where, in the other world, in spheres deprived of sensible measures, peace and happiness would be encountered; representatives of this super-naturalist project, announced by the chosen ones and regarding essentially diverse beings, call for a double surrender: of the good-sense in favor of a faith in misconceived visions, and of reason in favor of the belief in dogmatic narrations.

Effectively, the theist disunion discards and punishes the immediate apprehension and contemplation of the real unitarian structure, in order to motivate two potentially fatal misunderstandings and deviations to the planet´s life: an objectification of the reality, of the globalized world, monocultures and megalopoles, reducing human beings to resources and figures; a displacement of hope towards the other world: establishing an unnatural and phantasmagoric, depression sowing, urbanistic and political anomalies producing, desertification and aridness causing vital relationship. On these doubtful and uncertain existential equations, each living being is compelled to decide: to position him/herself as born, sprout of the great star and earth, or as baptized on the cultures that crucify the mariner´s compass card and denies life´s reality in favor of death.

Hope exists in each one of the living beings, positioned in a legitimacy and order made explicit in the constituting atoms, resides a natural genius, awaken or asleep, at any intermediate position, but apt to immediately manifest him/herself: a touching wonderful presence for it contains the same and identical nature´s strength and beauty.

It became emergent to re-study how to know again, reencounter the knowledge and the lost verb, acknowledge what´s real to establish a new vision and good politics, where living richness and glory can take a seat on an adequate place, at the time one lives: the present moment eternal length of time demonstrated and revealed on enlarged ideas, equally aesthetic and abstract, to those who know how to immediately perceive, prior to thinking about, and to those who know how to think in accordance with what is well denoted, being what truly is: a cosmic realization where the Saint and Sacred Nature´s grandeur is manifested on what we are, each one bringing in itself a portion of these mysteries which commune themselves and vitalize us.      

Metafísica, a Ciência Interdita – o que você julga saber, mas não sabe

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Regis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Não esqueçamos (…) que a palavra «liceu» pertence à tradição aristotélica, porque está associada ao culto de Apolo, príncipe das nove musas e à vitória da humanidade sobre a animalidade. Não é a técnica nem a ciência o que humaniza o homem, e se (…) o liceu não deve ser mais do que um colégio das artes, temos de concluir (…) pela afirmação de que o liceu nada será se não cultivar a mais alta e difícil das artes, que é a de filosofar”. Álvaro Ribeiro (1905-1981) – Liceu Aristotélico.

Metafísica não é a “divisão da filosofia que se ocupa do que transcende o mundo físico ou natural”, mas a profundidade filosófica em que se constata e se aceita a veracidade do estado-de-ser que não se reconhece através das operações do raciocínio silogístico, reduções materialistas e idealistas, mas na contemplação intelectiva e sensível, onde o entendimento resulta da conjugação plena e complementária dos abstracionismos e esteticismos, fonte geradora de conexões simbólicas onde a existência se significa essencialmente… Trata-se da ciência metafísica, um modo mais seminal e geral de conhecer, anterior à ontologia como evolução racional secundária à apreensão metafísica primordial, realidade onde se reconhece e compreende que a experiência existencial onde assenta a totalidade do conhecimento possível é compósito de apreensões inaugurais e aglutinações psicofísicas com irradiações numinosas. Metafísica é ciência fundamental, eco-humanística, essencial a uma elaboração lúcida, bem sentida e examinada, das ciências políticas, por superar os poderes reduzidos e redutores da metodologia científica positivista (e suas aplicações ontológicas), cuja episteme categórica é a neutralidade e distinção radical do sujeito frente ao objeto: lugar onde, por decorrência, os sujeitos se objetificam  uns aos outros.

SUMÁRIO

METAFÍSICA, A CIÊNCIA INTERDITA
O que você julga saber, mas não sabe

1 – Da experiência metafísica que você julga conhecer:

Metafísica como ciência e apreensão empírica;
Da estruturação metafísica do intelecto como necessidade pré-predicativa;
Das expressividades variegadas das apreensões metafísicas;
Da estrutura bivalente das apreensões e perspectivas metafísicas;
Da primazia da apreensão metafísica monista;
Do dinamismo societário das apreensões metafísicas;
Do xadrez metafísico essencial – veículo quadrangular e dois eixos.

2 – Metafísica como experiência íntima e de natureza religiosa:

Da intimidade da apreensão metafísica;
Da natureza religiosa da apreensão metafísica.

3 – Metafísica e pareceres ontológicos:

Da ontologia como problematização secundária da apreensão metafísica;
Do fundamento dualístico da ontologia;
Metafísica e ontologia: duas ciências distintas.

4 – Da ambiguidade das ciências destituídas de embasamentos metafísicos.

5 – Decursos políticos, utópicos, mas científicos.

METAFÍSICA, A CIÊNCIA INTERDITA
O que você julga saber, mas não sabe

Regis Alain Barbier, Aldeia, 2013   

 “Advirto-te, sejas quem fores…! Tu, que desejas sondar os arcanos da Natureza, se não encontras dentro de ti aquilo que procuras, tampouco o poderás encontrar fora. Se ignoras as excelências da tua própria casa, como poderás encontrar outras excelências? Em ti se encontra oculto o tesouro dos tesouros! Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”. Mensagem atribuída a Tales de Mileto, inscrita no santuário ‘Oráculo de Delfos’, imortalizada como lema de Sócrates.

1 – Da experiência metafísica que você julga conhecer

 Metafísica como ciência e apreensão empírica.

Embora velada como um domínio reservado, divulgada como inocente e improdutiva, a metafísica é ciência arquetípica, primeira e colossal. A informação banal: ‘a metafísica é a divisão da filosofia que se ocupa de tudo o que transcende o mundo físico ou natural’ reflete essa ocultação e reserva, afirmar que algo transcende o mundo natural é uma doxa, uma opinião relativa a uma apreensão metafísica possível, vulgarizada, mas exorbitante e típica da teologia dominante, sobrenaturalista ou dualista. Um dos possíveis decursos metafísicos e elaborações hipotéticas são declarados definitórios e categóricos, dificultando o reconhecimento espontâneo da metafísica como ciência empírica.

Metafísica é a qualidade irredutível da apreensão fundamental do estado-de-ser, embasamento necessário à construção da identidade, ideologia e valor dos indivíduos e nações. A apreensão metafísica é causal na estruturação da realidade sociocultural. A quase totalidade do que acontece nas culturas, expressões sociopolíticas e pedagógicas, cultos, ritos, etiquetas, relações econômicas, realizações arquitetônicas, estruturações familiares e sociais, vocações, projetos e metodologias, resultam ordenados na psicodinâmica das perspectivas profundas, numa relação sistêmica.

Num primeiro momento, o embasamento metafísico se substantifica como apreensão referente a impressões existenciais pré-predicativas  e estruturadas na ontogênese, antes do advento e amadurecimento natural da razoabilidade – impressões do tipo: ‘identificação-estranheidade’, ‘empatia-repulsão’, espanto – alegria e vitória ou terror etc.). Trata-se de um embasamento emotivo fundamental, uma configuração psicofísica vinculada a uma intuição numinosa ou  experiência do sagrado, onde predomina a atuação perdurante da intuição e do ‘intelecto sensível’ coexistindo (em sinergia ou oposição) à subsequente e natural consolidação racional do cogito. A superestratificação escolar do cogito pelas racionalizações acompanha a redução cultural da apreensão metafísica genuína na direção do positivismo e idealismo apurado em teísmo sobrenaturalista e cultos referentes.

A apreensão metafísica inaugural serve de substrato qualificador às intuições que orientam e vivificam os grandes significados que reportam à ideia e ao sentimento de existir. Metafísica reporta igualmente às impressões afetivas e impactos conscienciais reativados e conferidos continuadamente pelo estado-de-ser, ao sabor dos eventos, simbologias e sincronias que evocam e modulam as impressões primordiais e decursos escolares, agregando sentimentos, como  piedosos ou jubilosos, que vinculam conotações éticas.

Num segundo momento, a ciência metafísica, de um modo mais fundamental e geral, anterior à ontologia como evolução racional da apreensão metafísica primeira, investiga e categoriza formalmente as simbologias, mitologias e significados apostos às apreensões inaugurais. Portanto, o termo é igualmente adjetival e nominal: 1) qualificativo da apreensão primordial; 2) denominativo da ciência que significa essas impressões em narrativas míticas, poéticas e prosas filosóficas.

Da estruturação metafísica do intelecto como necessidade pré-predicativa.

Nascer, conscientizar o universo natural e cultural em que se vive, operando como respondente dinâmico e atuante com grau significativo de inteligibilidade, significa apreender uma configuração metafísica e introjetar uma estruturação ontológica, base fundamental das sociedades organizadas e problematizações decorrentes, não podendo apreciar-se plenamente esses fenômenos existenciais espontâneos, necessários e decorrentes, com uma neutralidade dissociada similar à do método científico ou por intermédio das elaborações idealísticas típicas da escolástica e avessas à imagética e subjetividade. Enquanto raros filósofos percebem e apreciam a adequação, sobriedade, a ética, os significados, valores e potenciais relativos às perspectivas metafísicas, o homem comum vive e age de acordo com as apreensões tradicionalmente cultivadas e reforçadas no meio onde nasce e recebe educação.

Das expressividades variegadas das apreensões metafísicas.

A disposição cognitiva, inspiração e autonomia necessárias ao exame e investigação criativa e motivada das perspectivas filosóficas profundas, permitindo transcender as impressões batismais e teleologias instituídas, possibilitando a fundamentação de escolhas frente a essas apreensões psicofísicas e numinosas, configura um talento semelhante a outros – musical, arquitetônico, cênico, artístico em geral, específicos da tecnologia, manufatura artesanal  etc. Os múltiplos pendores e estilos cognitivos cultuados nas diversas nações e contextualizados nos vários continentes ao longo do processo histórico, possibilitam uma expressão variegada das perspectivas fundamentais. Filósofos, sacerdotes, sábios ou pajés podem significar perspectivas sintônicas – monista ou dualista – em diversas simbioses e expressividades, mitologias, rituais, simbologias, artes e estilos de narrativas, estruturando amplas praxes e cultos que, em conjunto, formalizam e balizam essas culturas – problematizando e solucionando temáticas existenciais de sucessos e fracassos, prazeres e sofrimentos, formas específicas de buscas, descobertas e destinos.

Da estrutura bivalente das apreensões e perspectivas metafísicas.

Nascer, reconhecendo-se humano, experienciando a natureza e cultura, compele ao reconhecimento progressivo de impressões existenciais resultantes de equacionamentos multifatoriais. Às impressões fundamentais, imediatas e de primeiro grau, relativas ao próprio corpo, à  família e ao meio, agregam-se ritos e cultos batismais, narrativas consagradas, afirmações verbalizadas e explícitas, construindo-se meta-significados de amplitudes culturais. É no somatório dessas impressões naturais e culturais, em níveis máximos de abstração e grau, que se ajuíza a relação do indivíduo com a totalidade, por fim, instituindo-se uma ou outra apreciação metafísica, de maior ou menor congruência e lucidez frente à totalidade do processo existencial. Mas, tardiamente, nos pareceres filosóficos, essas apreciações metafísicas complexas e bivalentes elaboram-se como perspectivas ‘monista’ ou ‘dualista’.

No primeiro momento da fundamentação metafísica, as receptividades biológica, afetiva, cultural e ritual sedimentam a identidade e valor dos nascidos, posteriores edificações ideológicas. As condições de parturição, como se é abraçado na comunidade familiar; considerado e epitetado ao longo da aprendizagem, educação e aquisição da linguagem; a recepção ritualística, consagração batismal e religiosa: em conjunto, consolidam a magna identidade do individuo, instituindo-se qualidades e cientificações metafísicas nos diversos níveis existenciais, num alinhamento congruente ou não. Essa apreciação consciencial repercute e significa como rejeição ou aceitação; sentimentos correspondentes, unívocos ou equívocos, elaboram-se em relação a si mesmo, o contexto e o outro, resultando em integrações concordantes ou desintegrações discordantes, de maior ou menor intensidade, comportamentos decorrentes frente ao próprio corpo e situação existencial ampliada, lugar vital que passa a se desejar ou renegar.

Num segundo momento metafísico, intelectivamente mais abrangente, intui-se um domínio ampliado do estado-de-ser, psicofísico e noético com extensões numinosas, em abstraimentos e esteticismos progressivos, configurando duas tendências: uma eventual integração universal, monística, onde se visiona uma vitória gloriosa e extática, ou, inversamente, uma rejeição dualística, ideando-se uma aspiração libertária e salvatéria, como um sopro, um bom vento,  um espírito invisível e inalcançável, esperançosamente abrigado da dor e do mal.

Assentada na atualidade do momento, a expressividade metafísica monista produz resultados efetivos, vitalizantes, com intensidades exuberantes e veracidades evidentes que dispensam a prática exaustiva das virtudes individuais e passivas, como o cultivo esperançoso da fé. As estruturações naturais e configurações culturais da existência e circunstâncias, necessárias ou eventuais, atuantes ao longo dos processos históricos e nas sincronias dos momentos, as impressões e sentimentos emergentes e pareados, são as pautas vitais onde se revelam e se significam as simbologias, enredam as narrativas míticas em busca de roteiros conferindo sentidos transcendentes ao que se experiencia, buscando veracidades atuais e glorificantes ou teleologias salvadoras.

Da primazia da apreensão metafísica monista. 

Consagrada na reunião intensa dos gametas e nidificação uterina nutridora e acolhedora, selando uma marca unitária na origem da existência, a impressão metafísica unitária, ou monista, enraíza primeira na ontologia do indivíduo e, do ponto de vista histórico, nas comunidades ancestrais; desponta tão naturalmente como o surgimento da puberdade na experiência de quem foi recebido e batizado com honra, de viva voz afirmado depositário titular e nativo dos potenciais intuitivos mais sensatos, belos e profundos, por existir simplesmente, como estado-de-ser cósmico, lugar legítimo, espantoso e magnífico, onde se consagra a existência em encontros com o numinoso. A força e grandeza estética das formas que se desdobram em causalidades e correspondências infinitas, das espiras das águas que rugem nas correntezas até os vapores e nuvens que turbilhonam no vento e temperam os giros brilhantes do sol e da lua, que marcam, da juventude à velhice, a grande jornada das criaturas nos espaços circulares das aldeias, não deixam dúvidas: a exuberância gloriosa da vida e da renovação supera e dilui as dores do viver.

‘Monismo’ refere a essa perspectiva metafísica unitária, confirmada no imediato reconhecimento que a realidade do cogito acontece em sincronia necessária com a realidade formal ou extensiva, configurando a existência uma unidade que se afirma, reproduz e desdobra como um rebis – utilizando as ilustrações e vocábulos de Descartes e Spinoza, brotando da superação moderna do dualismo mediévico: existência como reunião de ‘dois atributos’ infinitos, necessariamente pareados e oriundos da mesma substância. A intensidade dessa apreensão e realização metafísica primordial, indígena, que acontece selada na gênese e reunião dos gametas, reforça-se nas integrações familiares nutridoras e felizes, livres de maus tratos e ameaças, celebrando a intensidade de existir no presente, pacificamente, em contato com a magnificência ímpar da natureza, consagrando a glória de existir – transcendência horizontal.

Mais comumente, viver em urbanizações verticais, longe das inspirações pródigas da natureza, afastado dos valores existenciais e qualidades vitais típicas das comunidades familiares, arregimentado em internatos semelhantes aos da república platônica, exposto a dogmas e disciplinas que desonram a natureza humana, sentimentos defensivos e opositivos tendem a velar a conexão intuitiva entre o indivíduo e a totalidade, reforçando as rupturas, oposições e antagonismos, estruturando a apreensão metafísica dualista. Nos ambientes desnaturados por estresses continuados, pressões produtivas, pragmatismos exacerbados e carência de contemplação, a ‘razão qualificada’, terreno cognitivo original e propício à realização da unidade por agregar os bons sentimentos nativos às capacidades de intuir e abstrair, se adultera e denigre na ‘idade da razão’. O predomínio da razão tecnológica e idealismos intelectivos lógico-gramaticais, destituídos de afetos , ofusca a evidência que a plenitude e satisfação se consagram no espanto e entusiasmo das apreensões metafísicas positivas e unitárias típicas das crianças, dos indígenas e pré-socráticos.

A serenidade, característica e fundadora da apreensão monista, jamais se encontrará peneirando e calculando coisas, buscando utilidades relativas a novas buscas, em ordenamentos progressivos alimentados pelo motor do desconhecimento, onde não se compreende que o valor existencial só pode residir em si, não em algum lugar além dos átomos ou dos astros, em paraísos hipotéticos locados no reino de Hades. Mas, garantidas sensibilidade e intuição nativas suficientes, até mesmo para quem nasce desrespeitado em processos educativos autoritários e instrumentadores, vicejando nas agremiações classistas, hierarquistas e dominadoras das sociocracias instituídas nas superestratificações históricas e violentas das culturas primevas, a realização da unidade consagrada na impressão metafísica monista é sempre possível: essa sublime visitação poderá ser refreada, mas acontecerá, quiçá tardiamente, pontualmente, surgindo em sinalizações fugazes ao encontrar-se com uma flor, um pássaro, um reflexo brilhante como o ouro, um texto filosófico, uma poesia rememorativa dos enraizamentos originais.

 Do dinamismo societário das apreensões metafísicas. 

Diversamente do que se imagina e se propaga,  as perspectivas metafísicas se configuram em três momentos necessários, mas diversamente proporcionados e férteis, de acordo com as circunstâncias geográficas, culturais e históricas. Dito de uma forma geral, os posicionamentos metafísicos e ontológicos resultam das circunstâncias vitais e especificidades cognitivas do estado-de-ser, coadunando e corroborando cosmovisões historicamente consagradas,  que, por sua vez, plurais, tendem a se confrontar em debates culturais e civilizacionais.

Num primeiro momento, em condições existenciais naturais e satisfatórias, a impressão metafísica tende a ser integradora, espontânea, realização fenomênica primordial, enraizada numa apreciação estética fascinante que se abstrai em crescendo, de acordo com a afetuosidade nativa e capacidade cognitiva de cada um, revelando a harmonia da arquitetura cósmica, naturalmente brotando da reunião do inteligível e do sensível, com o potencial de ampliar uma realização intelectiva unitária e abrangente, das flores dos caminhos até o infinito mais sublime e glorioso.

Num segundo momento, o formato metafísico, fonte da identidade e valores profundos, se configura na sincronia das disposições públicas e políticas, em apercepções cognitivas multifatoriais, tais como: impressões batismais e formatações ‘ortolocutórias’ (ideias que se estruturam e reforçam-se apenas por se viver nas arquiteturas e ordenamentos das cidades), racionalizações e elaborações ideológicas mais tardias.

Num terceiro momento, pensadores elaboram as impressões batismais com argumentos e visões que atualizam e vivificam os potenciais e fundamentos, por concordância ou discordância, reforçando os decursos da tradição, ou, raramente, facilitando o surgimento de novas inspirações que ampliam o exercício da responsabilidade e probabilidades de escolhas.

Decorre dessas estruturações complexas e  metacognitivas que as perspectivas metafísicas fundamentais ou nucleares  enraízam e entranham em impressões naturais e batismais, induções culturais, ideologias, elaborações intelectivas e processos dialéticos que energizam os processos civilizatórios e movimentos culturais, inclusive marginais, cujas produtividades socioculturais, problematizações e vias resolutivas retroalimentam as perspectivas e pareceres fundadores, realizando arcos autopoiéticos que explicitam as suas autenticidades e veracidades nessas esfericidades:  um fenômeno que, em outros escritos, denomino de verdade por correspondência sagital.

Do xadrez metafísico essencial – veículo quadrangular e dois eixos. 

Portanto, estreitando os termos existenciais que triangulam as coisas da consciência, da realidade tangível e dos sentimentos-significados inaugurais que reportam a essas relações basilares, evidencia-se um quadrado de posições configurando dois eixos fundamentais e correlatos de perspectivas metafisicas; utilizando termos kantianos, aqui denominados de: eixo de perspectiva transcendente-transcendental, dualístico, fundamentado no idealismo platônico, extrapolações radicalizadas na Idade Média, e apogístico da ideologia cultural globalizante da época contemporânea; até então ignorado e banido pela mesma cultura, o eixo de perspectiva cosmo-existencial, monístico, sóbrio, com suas afiliações tipicamente pré-socráticas e indígenas, espaço filosófico onde se (re)elaboram as relações unitárias entre partes-e-totalidade, em momentos que, constantemente, despontam nas incongruências e crises éticas da perspectiva dualista.

2 – Metafísica como experiência íntima e de natureza religiosa

Da intimidade da apreensão metafísica.

É no inevitável e espantoso impacto emocional do fenômeno consciência-existência que se revela a dimensão metafísica, lugar existencial em que o estado-de-ser aprecia a natureza e qualidade das correlações essenciais e criativas entre a consciência e a existência em si. Metafísica refere a um saber prístino e ingênuo, absorvendo, igualmente, a atenção das crianças quando correlacionam o domínio do ‘Eu’ à própria identidade e valor, ao corpo, família, bens e propriedades e dos sábios investigando as mesmas linhas fronteiriças, mas universalizando o exame para confrontar esse ‘Eu’ ao que é outro e à totalidade. A potencial amplidão dialética e dialógica dessa busca costura as fronteiras pessoais às universais em acuidades apertadas que esgotam as possibilidades do discernimento num arco de saber esticado até um não saber essencial, deslizando no eidos, entre as abstrações e esteticidades que se desdobram,  desde a relação pensamento-sentimento até a relação cosmo-existencial, perscrutando lugares essenciais onde os sujeitos e objetos primordiais compartilham e impactam as suas naturezas em relações simpáticas e integradoras, ou antipáticas e antagônicas.

Nesse processo alquímico, na relativização circular e vaporização dos termos e conceitos em infindas sinonímias e enlaces metafóricos, a argumentação silogística, de elaboração mais tardia, se desarticula, desvelando-se símbolos e imagens que reportam às narrativas batismais. Os mitos se vivificam, impondo as perspectivas da tradição, subjugando o pensamento sem delongas ou à luz do bom senso e da intuição (quando não se rendem renegando o valor próprio) e na presença sinérgica de imagéticas plurais e narrativas transculturais, permitindo a elaboração de apreciações escolhidas onde a existência se consagra em encontros misteriosos cujas qualidades acordam com o amor próprio destilado ao longo da vivência e guardado no tabernáculo do coração.

Da natureza religiosa da apreensão metafísica.

Frente a esse fenômeno radical, manifestam-se e esclarecem-se as dimensões religiosas. Essas investigações filosófico-existenciais e decorrentes perspectivas, relativas à consciência, ideia e sentimento de existir em si, na coletividade e na tradição cultural, reportam ao grandioso e fascinante mistério da correlação fundamental consciência-existência evocando a experiência do sagrado, do Belo ou ‘divino’: denominação universal dessa apercepção espantosa e enigmática que envolve a floração magna do processo existencial e amor próprio. A intuição empática e sinérgica da correlação consciência-existência tende ao panteísmo; a intuição antagônica e adversa ao teísmo. Nesse estudo da existência que acontece dada-a-ser e provar no ato de viver, a metafísica dualista, típica do teísmo sobrenaturalista e salvacionista, advoga uma irrevogável descontinuidade, uma correlação consciencial-existencial contingente, necessariamente problemática, mas a metafísica panteísta afirma uma correlação essencial inelutável, unitária e paradoxal, monista, potencialmente harmoniosa e serena.

É típico da motivação teísta elaborar o sofrimento, a morte e a impermanência em busca de uma esperançosa e sobrenatural vida eterna; é típico da motivação panteísta celebrar os momentos de entusiasmo e êxtase cultivando potenciais de harmonia e serenidade. A emoção primária, associada à elaboração teísta frente à existência, se articula no eixo da rejeição-reconciliação: intui-se a vida como situação temerosa e acidental, pena obrigatória cuja redenção reside na oferta de uma salvação post-mortem, uma paz espiritual terminativa, que se imagina aniquilar todas as necessidades, carências e desconfortos; uma vitória radical e hipotética sobre a existência dada-a-ser, esperança condicionada à aceitação das obediências e dogmas relativos a essa perspectiva. A motivação panteísta elabora a aceitação imediata do estado-de-ser  buscando um contentamento mais singelo, centrado, procurando conquistar uma serenidade perdurante, intuída como riqueza naturalmente cultivável; viver a gratuidade presencial, a concordância sincrônica e magnífica que exulta entre todas as coisas: flores, clima, insetos multicoloridos e pássaros; no entardecer, as harmonias ignotas sugeridas pelos reflexos das luzes do céu nos lagos tranquilos.

Frente à existência, os motivos associados à elaboração panteísta se articulam no eixo da sintonia e da união genésica; o conceito primo é a justa, feliz e gloriosa valorização do bom, do belo e do bem, a  consagração da existência prezada no ato existencial compreendido como continuado processo de renovação, pautado entre nascimentos, vidas e mortes – transcendência horizontal. Dito de maneiras diversas, o posicionamento metafísico monista assenta: na experiência e apreciação imediata, primeira ou própria, da espantosa e transbordante realização consciencial da existencialidade enquanto tal; na intuição criativa e necessária da existência em consciência.

3 –  Metafísica e pareceres ontológicos

Da ontologia como problematização secundária da apreensão metafísica.

Nas margens das intuições metafísicas, na periferia dos espantos primordiais em que se gerencia o indiferenciado, criando tradições, a ontologia se preocupa em distinguir, caracterizar e classificar os existentes, o que existe do ponto de vista formal, à luz das perspectivas metafísicas historicamente convencionadas e compactuadas nos domínios culturais. A metafísica possui feitio transcultural, reportando o existente à natureza de imediato; a ontologia reporta à existência como se compreende ou problematiza num modo cultural; os interlocutores principais do discurso metafísico são os que integram e constroem o discurso, os poetas; os interlocutórios pressupostos da ontologia são os pontos de vista das tradições, os autores significativos, quiçá os profetas, os cânones em que estabelecem as perspectivas que enquadram as buscas.

O estudo ontológico poderá ser geral, evocando-se relações inconclusivas entre um ‘ser’ e um ‘ente’, esmiuçar as eventuais angústias e horrores historicamente decorrentes dos choques ontológicos congêneres a essa ‘metafisica’ do estranhamento, refletidos na política e sociologia; ou uma busca aplicada, como acontece na física quântica, no equacionamento epistemológico das relações entre sujeitos que se pensam separados e objetos subatômicos conferidos numa sucessão de sinais indiretos e equívocos.

Um estudioso da ontologia pode imaginar que quando Parmênides sustentava que ‘pensar’ e ‘ser’ eram a mesma coisa, “porque não encontrarás o pensar fora do ente no qual se expressa” ele, de alguma forma, antecipava Descartes. O conhecedor da dimensão metafísica reconhece que não é assim: Parmênides sabia e conhecia que existir era necessariamente ‘ser consciente do que há’, que consciência imediata e existência se relacionam como os dois lados de uma única moeda, realidade que se ofusca no ponto de vista lógico-racional na ‘degradação’ transcendental (expressividade kantiana) dessa experiência prima ou impacto intuitivo cosmo-existencial. Não encontrarás consciência fora da existência, arco necessário no qual o todo se expressa.

Do fundamento dualístico da ontologia

As conjunturas em que surgem a necessidade de categorizar ontologias referentes a distinções são necessariamente, de uma forma mais ou menos fundamental, dualísticas. Nas hermenêuticas acadêmicas, típicas das culturas dominantes, alguma distinção centrada entre o que é inferido como uma ‘consciência-cota’ reduzida ao domínio cognitivo do sujeito, o espírito do ‘ente’, serve de premissa menor frente a uma ideia de totalidade radicalmente transcendente, o grande e transcendente espírito do ‘Ser’, a hipótese magna onde radica a premissa maior: uma logicidade ordenadora de infindas, inconcludentes e apaixonadas aventuras silogísticas, fundamentalistas e hipotéticas.

Nas conjunturas culturais em que as metáforas referentes ao essencial repousam nas forças e valores constitucionais da existência e vitalidade, como ‘a luz do sol’, virtude em que o individuo é reconhecido como desdobramento natural e legítimo da grandeza universal, ‘um ser solar’, as hipotéticas distinções ontológicas rapidamente desmoronam, rompendo as discriminações lógicas nos abraços unitários e paradoxais, espantosos e sempiternos da metafísica.

A ontologia, reflexo intelectivo de um processo gerador de resoluções problemáticas, construtor e desconstrutor continuado de originações  provisionalmente efetivas e hipoteticamente originais, não se examina criticamente por não reconhecer a contradição intrínseca de uma busca onde se ambiciona descobrir logicamente uma originação ou começo absoluto, logo alógico. As buscas ontológicas são congêneres à perspectiva metafisica dualista, com maior exatidão, denominável de perspectiva ontológica ou dualista; sendo a perspectiva monista, paradoxal e alógica, metafisica, propriamente dita.

A experiência metafísica, apoiada no intelecto integrado, naturalmente ordenado, opera sem condicionamentos formalmente educados e equacionados, fundamentando seu saber na alimentação criativa da inteligência abstrata com apreciações intuitivas, refletindo um fenômeno aceito e apreciado com estética, como processo continuadamente recriado, potencialmente infindo.

Metafísica e ontologia: duas ciências distintas.

Evidencia-se com clareza: a metafísica não é a divisão da filosofia que se ocupa do que transcende o mundo físico ou natural, mas a profundidade filosófica em que se constata e se aceita a veracidade do estado-de-ser que não se reconhece através das operações do raciocínio silogístico, reduções materialistas e idealistas, mas na contemplação intelectiva e sensível, onde o entendimento resulta da conjugação plena e complementária dos abstracionismos e esteticismos, fonte geradora de conexões simbólicas onde a existência se significa essencialmente e os significados se preservam reconhecendo essa fonte. A ciência metafísica reporta a um modo mais seminal e geral de conhecer, anterior à ontologia como evolução racional secundária à apreensão metafísica primordial, realidade onde se reconhece e compreende que a experiência existencial onde assenta a totalidade do conhecimento possível é compósito  de apreensões inaugurais e aglutinações psicofísicas – como evidenciado no empirocriticismo de Avenarius e Mach – com irradiações numinosas. Metafísica é ciência fundamental, eco-humanística, essencial a uma elaboração lúcida, bem sentida e examinada, das ciências políticas, por superar os poderes reduzidos e redutores da metodologia científica positivista (e aplicações ontológicas), cuja episteme categórica é a neutralidade e distinção radical do sujeito frente ao objeto: lugar onde, por decorrência, os sujeitos se objetificam uns aos outros.

A ciência metafísica diferencia-se, claramente, das aplicações isoladas e seletivas do intelecto racional, modo idealístico e positivista de pensar sincrônico e combinante à apreensão dualista do fenômeno existencial, fundamentado em postulados, dogmas, normas e regulações progressivas que regimentam a vida em apreciações quantitativas metrificadas, em abstrações lógicas e matemáticas; racionalismos onde o ouro vale como metal raro, valor calculado na proporção do seu poder de troca operado em mercados onde se adquiram objetos para se ter; diferente das aplicações gerais e fundamentais do intelecto integrado, eminentemente sensível às apreciações qualitativas e amplitudes estéticas, lugares cognitivos onde o valor do ouro simboliza a virtude e o brilho do sol, grandeza existencial universalizada nas dimensões do saber ser e viver.

4 – Do ambiguidade das ciências destituídas de embasamentos metafísicos

O positivismo, que se quer soberano, é mero instrumental tecnológico, arte de produzir coisas relativamente úteis em contextos específicos, ou entender as inter-relações lógicas e matematizáveis dos objetos utilizáveis e pensáveis como realidades causais – cisão ontológica fundamental. Trata-se de um instrumento produtivo, gerenciador de relações proveitosas, metrificadas de acordo com princípios físicos; não é da sua natureza e orçadela compreender e avaliar os fundamentos existenciais que relatam à ciência filosófica do estado-de-ser enquanto categoria primeira, lugar vital onde se apreende a existência e seus significados no ‘interior em si’. Os que se confundem, querendo ampliar a serventia do método científico na investigação profunda da existência, no mapeamento e valorização da origem, erram duplamente; degradam a excelência da ciência clássica em cientificismo espúrio e ofuscam as possibilidades e realizações próprias da ciência do estado-de-ser: a ciência metafísica.

Deslocando um método ordenador de eventos relativo à produção de bens, distribuição e organização societária de esforços produtivos para o estudo das relações fundamentais onde se compartilham e enlaçam os atributos dos sujeitos e das coisas, degenera e deturpa a atividade cientifica em cientificismo, corruptela política do método das ciências naturais. O cientificismo avilta a humanidade e ação humana, em sinergia, certamente ‘produtiva’, com o poder eclesial, rompendo o estado-de-ser natural em ‘ser’ e ‘estado’ hipotéticos; por acréscimo, reforça a ilusória alienação da autonomia intrínseca ao ser humano, assentada na reunião fundamental e indissociável da vontade, da consciência e da existência  dada-a-ser. O cientificismo mina a capacidade de bem pensar, desorienta e  desrespeita o indiscernível; com razão quantificadora e insensata, desonra e destitui o ser humano da responsabilidade de bem significar a si mesmo e a totalidade – de ser espiritual de verdade. Conota-se um evidente alinhamento subordinado aos pareceres teológicos dualistas e autoritarismos políticos  que em conjunto aviltam o ânimo existencial, o ‘conato’ significador e orientador do ser humano para manter uma ilusão de controle e dominação – sem neutralidade alguma!

Uma abordagem cujo paradigma  postula a “neutralidade e distinção radical do sujeito frente aos objetos” confessa-se incapaz de equacionar e solucionar o que é mais importante para quem experimenta o fenômeno existencial, sentimentos intangíveis, mas maximamente efetivos na manutenção da felicidade e satisfação de poder viver em paz; não pode gerar conhecimentos e saberes úteis à instalação do bom convívio, da justa civítica; não possui serventia para a fundação e inauguração de cidades onde se possa viver em harmonia, desfrutar da existência com sossego. Isso é função de outra ciência de paradigma inverso: “sujeito e objeto são parte de um grande e sempiterno conjunto unitário”. Para adequar e graduar a ‘compreensibilidade’ de tamanha inversão epistêmica, didaticamente, reduzo o alcance da afirmação a aplicações mais evidentes, considerando ‘objetos’ como: a ordem social, política, econômica e religiosa, entre outros.

Enquanto a busca cientificista faz parecer a existência que se vive destituída de sentido fundamental, deixando à teologia sectária o ‘sobrenatural’ encargo de encontrar um significado; a ciência do estado-de-ser reconhece que o sentido assenta na espantosa conexão, necessária e primária, da consciência e do mundo: uma fusão unitária e paradoxal, um estatuto metafisico, onde o mundo é o mundo da consciência e a consciência do mundo em quaisquer circunstâncias – uma distinção relativa, indutora de sentimentos fundamentais, contida numa indistinção psicofísica radical, espiralando infinita, como melhor se evidencia nas fronteiras micro ou macroscópicas da esfera existencial.

A busca cientificista, carente absoluta do espanto que, naturalmente, esclarece o essencial sem recorrer a equações silogísticas aprendidas e treinadas em exercícios escolares, leva o vivente a se pensar como função sujeito-cogitativo neural e absoluta (um estatuto similar e sinérgico com o profetismo divinal), esquadrinhando as coisas, células, moléculas, átomos e partículas do estado-de-ser como se fosse matéria alienígena, logo alienando e dissociando o vivente (espiritualizando-o?) do contexto existencial e bom-senso intuitivo e estético que desde o início revela o grande segredo subatômico, conhecido dos alquimistas: ‘matéria-energia’ e ‘consciência’ são dois lados necessários e interativos da substância una e fundadora. Já, a teologia profetiza ser depositária exclusiva de uma revelação que o homem comum não pode experienciar naturalmente por decreto superior, induzindo o vivente a se salvar da lucidez natural a favor da ignorância, aceitar com fé, influído em impressões batismais e catequeses, a mesma cisão radical, renegando uma existência efetiva a favor de uma prometida imortalidade sobrenatural, ou inexistencial. As similaridades complementárias das teorias cientificistas e teológicas – objetificando, em degraus, o corpo e contexto a favor do sujeito e o sujeito a favor das ideias – explica as estreitas comunhões acadêmicas, platônicas, dessas buscas, obrigando a considerar o cientificismo típico da sociocracia como uma ‘pseudociência eclesial’. A sustentação absurda da distinção radical sujeito-objeto na investigação dos planos profundos onde estas dicotomias não enraízam, como nas buscas subatômicas, transforma essa ciência num exercício teológico.

A veracidade metafísica se comprova de imediato, sabendo apreciar a arte ensinada pelos filósofos e sábios de todos os tempo, jamais pelos sofistas e deslumbrados que buscam a verdade dissecando o estado-de-ser à procura de uma verdade locada além das visões e dimensões próprias da existência: cegueira radical, mas igualmente veracidade necessária e apogística do estado-de-ser consciente que opera conectando o que se crê e admira com o que se vive.

Se a crença teológica, fundamentada nas impressões relativas à estruturação cultural, batismal, onde se generaliza as elaborações vigentes e tradicionais, propaga que depois da vida existe uma outra mais sutil, numa dialética esotérica: trata-se de uma hipótese, relativamente benigna, em relação à qual será mais sensato e proativo ser agnóstico – não se pode viver bem e produtivamente, do ponto de vista de todas as ciências, aguardando a chegada da morte! Mas, se essa mesma crença, evocando dissabores societários prosaicos e resultantes de superestratificações políticas, históricas e acidentais, acrescenta veemente: “o ser humano é impuro, vivendo banido nesse lugar terráqueo e ínfero, desterrado para purgar pecados originais, taras existenciais inatas e aguardando a reintegração ao reino original”: cuidado! A esfericidade autopoiética , ou processo de veracidade por correspondência sagital, como o gênio da lâmpada, informa: seja feita a sua vontade meu senhor! – reforçando a estruturação dos infernos, numa sinergia e realização metafísica maximamente exemplificada no Medievo – a cada um e a cada época e lugares as suas crenças! Esse é o triste e amargo desencontro fundamental em que, perigosamente, ainda vive a maioria, messianicamente enquadrada.

Não seria mais prudente, do ponto de vista da arte da pedagogia, da cibernética e do bom senso, dizer: vivemos aqui, no melhor mundo possível, nas circunstâncias dadas? Bela é a natureza;sábia ,a filosofia; e, sabendo viver com arte e respeito, boa e gloriosa, a vida! Se outro destino houver, terá de vir na orça do rumo que já se segue, porque é o caminho que justifica os fins: mirando e corrigindo infernos, leva ao inferno; mirando e corrigindo paraísos, leva ao paraíso de ‘corpo e alma’: por isso a viagem é o caminho, a verdade e a vida, que é o lugar onde se vive, potencialmente um paraíso! Ainda não sendo, por razões arcaicas e construções políticas infelizes e inscientes, reconstrói começando pelas perspectivas, com virtude e equanimidade; tu és capitão dessa nau, a viagem é tua. Portanto, a ciência apta a fomentar o exercício de uma vida virtuosa e digna, não é o cientificismo tampouco a teologia sobrenaturalista, mas a ciência filosófica, especificamente, onde se aprende a escolher e cultivar as melhores apreensões e impressões existenciais à luz natural da boa ciência metafísica!

 5 – Decursos políticos, utópicos, mas científicos

Tanto: 1) esse cientificismo sociocrático que, em nome da democracia, explora os recursos produtivos e a capacidade de trabalho em busca das configurações ideais da República de Platão; 2) essa ciência positiva que quer descobrir a ‘verdadeira’ estrutura subatômica e cósmica que se postula existir ‘objetivamente’, além dos processos de conscientizações do sujeito que pesquisa (!); 3) quanto a teologia teísta e salvacionista que advoga ser o destino do estado-de-ser apenas encontrável em órbitas sobrenaturais, sonhadas e escrituradas além dos alcances naturais dos viventes; todas, em cooperação sinérgica, alimentam o mesmo desentendimento secular que assola o planeta; renegam a plenitude e legitimidade do sujeito intuitivo e sensível; renegam o estado-de-ser como dado-a-ser e existir, lugar evidente e único, onde se concentra e dedica, desde sempre, o conhecimento e verdade que se experienciam; renegam o bom-senso natural, soma harmoniosa e ponderada de todas as funções cognitivas, base fundamental onde assentar a mais bela praxe existencial. As negações existenciais envolvidas nesses paradigmas, os desvios da atenção e dedicação dos recursos e capacidades laborais em buscas carentes de intuição e esteticismos, teologicamente irracionais e cientificamente insensíveis, perdulárias, impedem o advento e progresso da ciência maior: aprender a saber viver – em si, entre si e entre as nações – com gratidão por ser o que se é, de acordo com a natureza.

É reconhecendo que o sujeito não deve, efetivamente, nem pode separar-se dos contextos e afastar-se das coisas onde vive, reconhecendo que não se pode residir em castelos ilusórios, fora da realidade que existe para se ver, tocar, saber e provar e reconhecendo que o divino, o sublime, o magnífico não é orbe sobrenatural, tampouco realização privilegiada de um punhado de ideólogos conluiados em igrejas, que não pertence aos modos do sectarismo que divide e aparte, mas é o apanágio evidente e natural de todos os viventes como justamente apontado pelas metáforas onde as flores são divinas: reconhecendo-se dessa forma, a humanidade poderá realizar e viver a paz e harmonia que não se encontrarão jamais no futuro e que não se realiza a não ser como presente.

A grande ciência eco-humanista que pode florescer e levar a humanidade a níveis de bem estar nunca experimentados não pode acontecer fundamentada no eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental, que reporta a experiência de existir a um processo ilusório, como bem se comprova e lastima, mas apenas instituída no, excessivamente banido, eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial no qual o estado-de-ser, que cada vivente exemplifica, se confirma e consagra tabernáculo da essência e do grande valor existencial: depositante soberano da verdade e da existência, senhor dos seus caminhos.

Quando as crianças forem recebidas e batizadas com honra confirmada em ritos e afirmado de viva voz depositárias potenciais e nativas dos conhecimentos mais sensatos e profundos, os demais exercícios e buscas serão naturalmente postos nos seus lugares, a serviço do planeta, da fauna, da flora e do ser humano. A política não será mais partidária, será dialógica, civítica; a economia não será mais monopólio fiduciário de um punhado de banqueiros associados a políticos, mas lastrada e popular de alguma forma, naturalmente atuante e humana, de mercado verdadeiramente. A ciência não desperdiçará recursos procurando o que não se acha em lugar improvável, mas saberá se motivar para fazer melhor o que se faz, não procurando validar e qualificar o que não pode ter realidade na ausência da lucidez natural do sujeito.

Nessa época, que deve logo alvorecer se o ser humano deseja perdurar mais alguns milênios como espécie, os projetos de pesquisas implicando recursos maiores de que um punhado de associados possam bancar privativamente (não existirão mais essas ‘infinitas subvenções fiduciárias’) deverão ter suas necessidades, éticas e valores, discutidos em praças publicas, assim, com certeza, não se construirão jamais bombas e engenhos de guerra para manter no poder os que se acham senhores privilegiados dos mistérios e justos paradigmas existenciais. A ilusão será vista como ilusão, a verdade como verdade, não se confundindo com retóricas sem efeitos, como essas frases vistosas, gravadas em pórticos e moedas de cobre e metal vil: vigorarão com efeito os grandes conceitos de iluminismo: liberdade, igualdade e fraternidade.

O mundo em que “todo ente recebe uma quantidade de ser proporcional à perfeição maior ou menor da sua essência” (Aubenque, Pierre; Desconstruir a metafísica? Pag. 36; São Paulo, Ed. Loyola, 2012) será substituído por um mundo mais generoso, dialógico e desembaçado, onde todos refletirão a perfeição do estado-de-ser; isso, porque nada viceja fora do ser, porque tudo é necessariamente circunstanciado, logo, perfeito nas circunstâncias dadas, sendo as perfeições naturais admiráveis, mas as teológicas e culturais arcaicas, ainda ínferas e exigindo reformas.

A dissociação improvável e grosseira do estado-de-ser unitário em alma e corpo, sujeito e objeto, ‘id’, ‘ego’ e ‘superego’, etc., além de ser carente de veracidade e saber, vela e ofusca a glória de viver, alimentando buscas que desviam a humanidade dos seus caminhos naturais, destituindo a experiência como fonte única e soberana de saber original, projetando o poder de dizer, fazer e decidir num punhado de cientificistas, sociocratas e funcionários, associados em conluio com seus mentores, corruptos e corruptores que dão ‘ser’ como bem se denota, e, caso não sejam contrariados com firmeza, paz e profunda compaixão, vão com certeza conseguir o que parecem aspirar: realizar um perfeito inferno nessa terra,  evocando um paraíso hipotético.

Apenas a convergência da realidade genésica unitária, com uma apreensão metafísica e intuição inaugural profundamente estética, elevando até o Belo, alinhando as elaborações filosóficas, religiosas e políticas condizentes e congruentes com o que é dado-a-ser e apreciar com gratidão e sobriedade, à luz do bom-senso, da razão sabiamente delimitada e consciência respeitada, poderá levar a um sentimento de integração pleno e sensível, a uma dedicação ecológica e societária digna de nota, onde não será comum, estranho até, o surgimento de neuroses, pânicos, angústias, depressão, estresse e todas as manifestações ordenadas e progressivas de loucuras como se evidenciam nas culturas onde o estado-de-ser é iludido, rompido numa estruturação esquisita, renegando a vida e a realidade a favor de modelos ultimamente nefastos como bem se denota querendo ver, pensar e tirar conclusões.

 

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