atitude filosofica

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Às filhas de Zeus e Mnemósine…

Existe em filosofia, fronteirando entre a estética e a metafísica, uma noção onde se conjugam coisas maximamente apreciadas, sem saber por que, com coisas que se procura entender sem poder, por impossibilidade absoluta. Essa noção é ‘espanto’; espanto filosófico onde se descobre tudo o que se pode apreender de imediato e nada que se possa compreender refletindo. Uma situação insólita, certamente, similar a esses olhares infantis que, por vezes, ressurgem nos adultos; lembro-me de uma flor, olhei-a, perdido no tempo, como se fosse um sol num céu azul; brinquei num prado que era uma pintura animada onde as margaridas falavam com os cogumelos, questionando o que achava, respondia rindo e pulando.

Alguns filósofos e artistas foram longe nessa arte de confrontar o mistério totalmente desarmado, sem silogismo algum; ninguém mais que Sócrates, cuja sacerdotisa do Templo do Sol, dizia que ele era o homem mais sábio de Atenas porque ‘sabia que nada sabia’. Para os artistas que perscrutam os seus objetos de estudo com amor, é mais fácil saber o que Sócrates não sabia do que muitos eruditos que compreendem bem o jogo das abscissas e das ordenadas complexas em todos os pontos do espaço analisável. Para se conhecer como um artista, basta se aproximar dos objetos de estudo muito atento e amigo, depois chegar mais perto com os recursos das máquinas da descoberta que excelem em precisão, gerando imagens que suportam magnas ampliações, até outdoors se for preciso. Na sequência, no laboratório da consciência estética e técnica, ainda é possível adentrar mais na imagem que se transforma em abstrações e pixels, pontos e vazios monocromáticos.

Ocasionalmente, o fenômeno acontece in natura, quando duas consciências ou circunstâncias se aproximam e se contemplam, talvez sem querer; a visão de um se aproxima da beleza do outro, tanto que se suspeita que vista bela assenta, igualmente, no sujeito visionado e no fascínio ou virtude do olho que observa, ao menos, possuindo o mérito de bem saber apreciar o belo. Nesse processo, feito de aproximações, tentativas e esperas, o mergulho pode acontecer e se completar até chegar ao portentoso advento desse espanto. É quando se descobre que o visionário faz parte integrante da visão, o outro lado de uma unidade.

É como se a metade dos pixels, os pontos claros de uma foto em preto e branco, tivesse deslizado na textura da retina do observador, ficando os pontilhados pretos nos seu lugar para serem vistos normalmente. Basta um leve movimento do globo ocular, um frêmito da retina, do ar, um suspiro, e a monocromia se inverte, ou báscula, é a vez dos pontos brancos se esconderem na retina e dos pretos reaparecerem. De Deus, dizem os místicos, só se vê uma face, a outra face pertence a quem sabe observar a primeira; como então compreender os segredos da natureza nessas experiências apertadas como abraços coloridos que ajuntam amarelos e azuis, criando verdes?

Nesse estado espantoso, incompreensível, porém pleno e extático, não se conseguem decodificar as frases a contento, a filosofia reduz-se a poética, ou eleva-se ao nada, não sei. Como afirmar-se ‘materialista’ ou ‘idealista’, dizer que um deus absoluto e transcendente criou o universo, que a consciência que observa e cogita é um ‘epifenômeno’? Fica-se elucubrando conceitos que parecem falar de “uma ignorância subjuntiva e suprema que não deveria acontecer”, logo, sendo… Com os olhos fatigados e desfocados, vislumbrei outros significados parecendo elucidar mistérios, um trecho de poesia rabiscada num caderno:

(…)

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar.
Presságio – Fernando Pessoa

Sabemos que não sabemos, o que é muito, muito mesmo, um espanto!

A portrait of astonishment 

                                                                                                             Régis Alain Barbier

To the daughters of Zeus and Mnemosyne …

There is a philosophy, bordering between esthetics and metaphysics, a notion where extremely appreciated things are simultaneously united without knowing why, with things one tries to understand, without being able to, because of absolute impossibility. This notion is ‘astonishment’; philosophical astonishment where one discovers everything one can immediately understand and nothing that one might perceive just by pondering about. An uncommon situation, certainly, similar to these infantile glances that, sometimes, emerge in the adults; I remember a flower, I looked at it, lost into time, as if I were a sun in a blue sky; I played on a prairie which was a live painting where daisies talked with mushrooms, questioning on what was I thinking about, I answered laughing and jumping.

 Some philosophers and artists went far away in this art of confronting the mystery fully disarmed, without any syllogism; no one but Socrates, whose priestess of the Sun Temple used to say that he was Athens´ wisest man because ‘he knew that he knew nothing’.  For the artists who investigate their study objects with love, it´s easier to understand what Socrates did not know more than many learned individuals who well understand the game of the complex abscissas and ordinates in every point of the analyzable space.

In order to know as an artist know spontaneously, it will be necessary to get closer to the studied objects in a very considerate and friendly way, then getting nearer with the resources of the discovery machines that excel in precision, generating images and representations supporting maximum amplifications, even outdoors, if necessary. Sequentially, in the laboratory of the esthetic and technical conscience, it is still possible to enter even more into the image that start transforming itself into abstractions and pixels, monochromatic points and, finally, void spaces.

Occasionally, this astonishing phenomenon happens ‘in natura’, when two consciences or circumstances get closer and contemplate each other, maybe unwillingly; the vision of one gets close to the other´s beauty, in such way that one may suspect that a beautiful view shows up, equally, on the viewed subject and on the fascination or virtue of the eye that observes, at least, owning the merit of knowing how to appreciate the beautiful. On this process, formed by approximations, trials and expectations, the dive in nothingness may happen and complete itself until reaching the powerful advent of this astonishment. It is when one may discover that the visionary is an integrating part of the vision, the other side of a unit.

It´s how half of the pixels, the clear points of a black and white photo, had glided on the observer´s retina texture, the black dots remaining on their place in order to be normally seen. A single light movement of the ocular globe, a fremitus of the retina, of the air, a sigh, and monochromy is inverted, or bascule, it´s the time to the white points to hide on the retina and the black ones reappear. From God, says the mystic, one can see only one face, the other face belongs to who knows how to observe the first one; how then could one understand nature´s secrets in these experiences as tight as colorful hugs, joining yellows and blues, creating greens?

On this, incomprehensible, dreadful state, but absolute and ecstatic, one is not satisfactorily able to decode the phrases, philosophy is reduced to poetry, or raised to nothing, I do not know. How can one affirm him/herself ‘materialist’ or ‘idealist’, saying that an absolute and transcendent God has created the universe, or that the observing conscience is an ‘epiphenomenon’? One can then closely meditate concepts that seem to speak of “a subjunctive and supreme ignorance that should never come to light”, then, being… With tired and unfocused eyes, I indistinctively discerned other meanings, seeming to elucidate mysteries, a poetry section scribbled on a notebook:

(…) But if this can tell you
What I don´t dare telling you,
I won´t  have to tell you
Why I´m talking to you.
‘Premonition’ by:  – Fernando Pessoa

We know that we don´t know anything, what´s much, too much, an astonishment!