isis Alada

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Se existisse um deus surreal, um ser criador personificado, seria uma Deusa como Pachamama, Deméter ou Isis Alada; embaixo de cada asa uma princesa, uma branca e outra preta, o dia e a noite, alfa e ômega: as polaridades reunidas numa única envergadura e voo. Afinal, todos nascem de mães, lugares onde acontecem as fertilizações, nidificações, gestações e parturições: in totum, as obras da mãe-natureza, original e arquetípica! É que tudo o que se sabe do mundo se revela através de pessoas que nasceram de mulheres, em primeiro lugar, nós mesmos. Um existencialismo presencial e necessário que fez mais de um filósofo sugerir: “conhece-te a ti mesmo…” – outros, sondando os mistérios, eternas hipóteses, indagaram em vão: “existiria uma ‘consciência pura’, sem formas?”. Claro, na ordem biológica, um dos enlaces fundamentais da causação, a figura materna, formal, não fecunda sozinha: mas a natureza de todas as criaturas, a natureza-mãe, nasce de si, abrange o alfa e o ômega. Portanto, de alguma forma, somos essa estrutura metafísica criadora e alada: trata-se da cosmovisão e do sentimento de muitos nascidos, seres humanos pequeninos experienciando o Cosmos por um segundo e para sempre.

O estado-de-ser integra o ‘um’ e o ‘dois’, abriga todas as polarizações e potências, certamente: mas os saberes que podemos desenvolver dependem de como adentramos a existência para naturar nessas dimensões detectáveis por GPS: quem poderá negar que existem ambientes mais eudemonísticos e férteis de que outros onde ‘pausar no concreto’, vindo desses voos metafísicos que se vislumbram nas visões e ideias? As diferenças, do ponto de vista das coisas da cultura, dos aspectos societários, estão estruturadas em eventos: como se é recebido e abraçado na comunidade familiar, as condições da parturição, a educação, como se é considerado ao longo da aprendizagem, laica e religiosa. Esse leque de ‘receptividades’ permite significar e configurar induções referenciais: a identidade profunda dos indivíduos, a autoestima existencial, os valores e edificações ideológicas, as problematizações, dependem do significado sistêmico atribuído a esse movimento oriundo do plano mais universal até equacionar num lugar especifico, com endereço e nome próprios.

É fácil imaginar que, na significação desse processo, a mãe, a parturiente e nutridora, a mulher, poderá ser de soberana importância: de acordo com seus carinhos, ou descuidos, sua genitura será sadia, ou não – o que não é verdadeiro. A mãe formal é, certamente, importante, mas não ‘apenas’, talvez não ‘mais’; a mulher existe junto com os demais partilhantes da cultura, inscrita na ordem societária: até o momento, ordenamentos instituídos em fenômenos debatidos e ideologicamente burilados por pensadores, na sua maioria filósofos e teólogos da tradição. Logo, como as mulheres se dedicam às suas crianças não dependem apenas delas, mas das inscrições societárias da família e dos gêneros, de acordo com os usos e costumes que vigoram, nas metrificações e enquadramentos psicossociais nos quais estamos imersos como peixes enfrentando correntezas.

Na lista dos eventos que interferem nas ideias e visões que alimentamos sobre nós, o que mais rigorosamente poderia determinar a autoestima, valores e os embasamentos das edificações ideológicas, de que essas impressões que recebemos ao nascer? O que mais poderia influir os nossos potenciais de que a recepção que nos é reservada, consagrada por uma autoridade sacerdotal, num rito fundador onde é afirmado o que somos? O que mais determina a nossa autoestima e identidade central é o que se afirma a respeito da nossa relação com o processo criador e existencial como um todo. São os sentimentos e sentidos afirmados nos ritos batismais e as imagens evocadas pela catequese inicial que induzem a se reconhecer de alguma forma, positiva ou negativa, mitificando a relação fundamental consciência-existência: aqui está o selo que determina os esquemas, os grandes ‘papeis’, posições e funções que estruturam a cultura!

De fato, somos o que acreditamos ser e vivemos de acordo: acreditando-nos banidos do céu, autores de pecados originais, metidos em corpos facultativos para purgar pecados, enredados num mundo que não é nosso, gerará as incongruências que vêm se comprovando há séculos; sentindo-nos integrados, em harmonia com o todo, pertencentes ao ecossistema e ao Cosmos em perfeitas relações e como processos perdurantes, veiculando inteligência e intuição universal, facilitará a obtenção de outros efeitos e resultados, quiçá instituindo uma nova-era, descortinado novos rumos que já estão aqui e foram trilhados por muitos que se salvaram e encontraram a terra sem mal, o eldorado original.

Eu decido a qualidade da minha relação cosmo-existencial, o que sou; eu consagro, por direito universal, a metafísica que me une ao todo e me batizo criatura do Sol e da Terra, ser do universo, luz natural da razão, vivificação sempiterna dos elementos e alquimia universal. Assim, em poucas linhas, leitores, faço mais um giro em torno do Sol dos potenciais! Experimentem alguns batismos, comparem, testem, ousem imaginar, a liberdade começa ai!