rosabelle

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Ser panteísta é apreciar a existência como fenômeno essencial; trabalhar para que assim seja.

A estruturação da realidade explicita um ordenamento onde se enlaçam, em junção unitária e misteriosa, as coisas do mundo, as sensações e consciência reflexiva, num sistema criativo e estruturações complexas, cosmo-existenciais, sem começo e sem fim detectável. A união dialógica entre o que nomeamos ‘consciência’ e ‘mundo’ parece inelutável à luz da sobriedade da razão; nesse fundamento, na fresta desse mistério, reside a essência do real, mistério perene e estrutural; o confronto com essa essência, além de quaisquer denominações e distinções, é a graça dos que vivem em busca de lucidez, a honra dos artistas e poetas.

Os indivíduos de todos os reinos e espécies surgem na espessura do cosmos; o infante nasce expressando processos de transformações continuados onde coexistem os contextos, pais, irmãos e onde se festejam os ancestrais. Tudo o que se conhece e experiencia do mundo comprova-se na vitalidade de indivíduos imanentes, oriundos da estrutura biofísica, nascidos entranhados na criatividade cosmo-existencial, em encontros conjuntivos em que o mundo e o sujeito se revelam, atualizando potenciais. O mundo com a sua arquitetura de paisagens, a flora e a fauna, revela ser um único corpo em que brotam indivíduos que extrapolam o perdurante momento original, imediato e consciente, em extensões criativas e imaginárias de passado e futuro subjetivos; um movimento em que a força vital adapta as estruturas desse corpo infindo e mutante, e a intuição filosófica reformula a cultura que se reencarna e renova. Tudo o que foi dito, pensado, imaginado, suposto, escrito, representado, foi expresso e afirmado por indivíduos nascidos das estruturas do cosmos em que tudo se cria e eternamente se reformula.

A capacidade distintiva da consciência nasce e evolve com o mundo, é o que existe de mais original e imediato, de mais admirável; permite reconhecer o que se é em fronteiras criativas onde se delineiam aquele que se individualiza e o que se faz outro. Existe-se como estado-de-ser ou consciência situada no mundo; existir só acontece na intersecção do mundo e da consciência, onde o mundo é da consciência e a consciência é do mundo, em crescente complexidade. Existir manifesta a intersecção do mundo e da consciência e não parece ter limites, começos ou fins, nem no sucedimento genealógico das criaturas, tampouco no fluxo da matéria-energia ou da imaginação; trata-se de um fenômeno unitário e transmutante de ordem cosmo-existencial. Nesse ordenamento continuado, de acordo com os pontos de vista, criatividade e recursos dos que pensam, aprecia-se o fluxo do pensamento que não finda, igualmente, a ordem da matéria-energia que se transmuta e se manifesta na infinita sequência das formas. Nas conjunções desses infinitos fluxos de sentimentos, pensamentos e de partículas, nos confins mais extremos dessa junção, ou no centro mais íntimo, onde se existe tocando, pensando e sentindo, surpreende e espanta essa interação , união criativa e paradoxal, do mundo e da consciência.

Viver bem, no lugar em que se existe, demanda aceitar e reconhecer a sua integração no contexto; existir à luz da razão natural é ser consciência integrada ao mundo e mundo integrado à consciência numa grande conjunção e reciprocidade estrutural e fundamental em que a existência se reconhece como agregação de corpos, sentimentos e pensamentos entremeados, uma trindade conjuntiva que perfaz o estado-de-ser. O estado-de-ser – a circunstância existencial ou dado-a-ser – afirma igualmente o Logos-inteligência e Ethos-arquitetura da natureza, é a pauta onde se delimita a medida de todas as coisas, das que existiam, existem e existirão; sendo o Myhtos que se cultua o regente da harmonia ou desarmonia que impera nas sociedades. Um bom mito deve afirmar essa natureza integrada do estado-de-ser, gerar uma cultura sincrônica e harmoniosa; um mito que renega as evidências naturais para relativizar sentidos existenciais em representações de anseios culturais, trai e deturpa a humanidade verdadeira cuja vocação é ser razoável de acordo com a sua natureza. Tentar viver no contexto desconsiderando as fundamentações e ontogenias mais evidentes, imediatas e originais, a favor de ensejos fantasiosos e recusas, é aventura destinada ao fracasso; é abandonar a ordem diretora da justa e sóbria conduta, o bom senso empírico, a favor de crenças, encenações culturais e dogmas. Até provar em contrário, comportar-se como se a consciência fosse dissociada da existência e do pensamento, das sensações das ideias, dos objetos dos sujeitos que são lados impreteríveis de um mesmo fenômeno vital, é insano: no plano da realidade cosmo-existencial não se permanece inteiro e lúcido almejando rupturas e louvando dicotomias.

Construções teológicas ou religiosas fundamentadas na hipótese de existir distinções radiais e rupturas objetivas nas fronteiras interativas e dialógicas entre os corpos, os sentimentos e os pensamentos, elucubrando a ideia de um pensamento e de uma consciência puros, de um espírito separado do mundo, ou sobrenatural, não reportam à realidade que se experiencia e comprova, mas a desejos e fantasias que não se conformam com o dado-a-ser. Os que acreditam em rupturas profundas e polarizações que não pertencem à experiência possível, mas ao reino do desejo, não realizam os objetos das suas fantasias, a não ser nas suas imaginações; anjos não descem, a não ser como boas ideias aladas, messias não vêm, a não ser como reconhecimentos construtivos.

Frente ao dado-a-ser, duas apreciações existenciais são possíveis: empatia ou antipatia. A resposta empática é natural e harmoniosa; somos o que somos, não há razão para contestar ou discordar; sendo continuada, a realidade carrega em si o mistério da essência, da vitalidade e dos potenciais nas suas expressões. A reação antipática pode resultar de motivos acidentais, de confrontos existenciais mais duro, gelados e secos; mas fugir do confronto com o real esperando um outro mundo além dos portais da vida manifesta, viver em função disso, renegando as evidências sensíveis e as glórias de ser natureza, apostando nas narrativas dessa ou daquela tradição, é viver em função do que outros supuseram, concordar com dogmas escapistas e renegar, em totum, a si mesmo e o real em todas as dimensões. Aceitar com simpatia, harmonia e sincronia o estado-de-ser é viver na atualidade e pôr-se no centro da vida como ela é; buscar um sentido vigoroso, entusiasta e glorioso para esse processo infindo e vital, cosmo-existencial, em que nascemos entranhados em imanência absoluta, é obra espiritual de máxima grandeza.

Usufruir da capacidade de se surpreender frente ao mistério que se revela em todos os encontros – admirando a beleza das flores, o brilho do orvalho, o sorriso dos amigos e dos que se amam, é fácil e natural como respirar fundo o ar da manhã. Ajuntar a visão do belo a imensos sentimentos e à capacidade de abstrair formas e pensamentos, em direções poéticas, revela geometrias visionárias que não cessam de florir, expandir e crescer como árvores que rebrotam das suas próprias flores. Sentir-se pleno e fecundo, confortável, vivendo nesse centro criativo e infinito que transmuta sem cessar, fiel depositário de mistérios cuja essência reside no intervalo onde se flexionam e recriam todas as formas e ideias, é natural como o gorjear dos pássaros ou o perfume das flores. Ser espiritual é vislumbrar e louvar esse processo de eterna glória, ajuntando a morte e a vida, a juventude e a maturidade num único círculo espiral que transforma o estado-de-ser na origem e identidade mais perfeita nas circunstâncias dadas.

O valor profundo atribuído à existência é o fundamento onde enraíza a criatividade humana; qualificação onde o que se pensa do mundo revela ser o que se pensa de si. Somos um evento cosmo-existencial de sublime grandeza que pode e deve ser celebrado como natividade cósmica! Nascemos aninhados e alimentados no seio da natureza, marcados e selados pelo amor dos pais e dos ancestrais. Sentir a beleza, o belo, consagra o reconhecimento pleno, agradecido e jubiloso da unidade e do amor que nos gera, da paz que nos nutre. O sofrimento só existe ao lado do prazer, não há sofrimento absoluto que invalide a grandeza e beleza imediata de ser como se é, mergulhado na vida e sua impreterível imanência.

Como demonstra a história dos povos e nações – para quem se der ao trabalho de examinar – achar-se nascido como fenômeno natural e expressão digna da essência universal, totalmente integrado, é melhor e mais produtivo de que achar-se banido e refutado, desprivado de intuição e dependente das escrituras, dos ditos, tradições e pareceres dos hermeneutas. Para os que visionam o ser humano sem as suas dimensões naturais e cósmicas, como mero agente subserviente de alguma cultura, com o pensamento modulado, tipificado e estruturado de acordo com os rumos da academia, incapaz de ver as coisas como são eternamente, na luz da consciência imediata, restam os consolos oferecidos pelas seitas, partidos e as glórias da cidade.

O conhecimento e sentido possíveis não se locam no passado ou futuro, mas no coração de quem sabe sentir o presente com empatia amorosa. Esse é o sentimento dos que vivem além das muralhas da poderosa Roma, dos indígenas, dos artistas e dos poetas, das crianças, dos que praticam a arte da filosofia, da sabedoria e da estética, das virtudes cardeais; de todos para quem amar não é apenas caridade, mas sim um talento real e efetivo com luz e paz suficientes para afirmar felicidade aqui e agora, na origem e identidade viva do estado-de-ser.

The glory of Pantheism                                                                                                 

To be a pantheist is to appreciate existence as an essential phenomenon.

The structuring of reality makes explicit an ordainment where, in a unitarian and mysterious junction, the things of the world, sensations and reflexive conscience entangle themselves in a creative system and complex structuring, as an existential-cosmos, without a detectable outset nor end. The dialogic union between what we name ‘conscience’ and ‘world’ seems ineluctable at the light of the reason´s sobriety; based on this ground, resides the essence of the real, perennial and structural mystery; the confrontation with this essence is the glory of those who live searching for brightness, the honor of artists and poets.

The individuals from every kingdom and species emerge in the denseness of the cosmos; the infant is born expressing continued transformation processes where the contexts coexist, fathers, brothers and where the ancestors are celebrated. Everything one knows and experiences from the world is evidenced in the vital force of immanent individuals, deriving from the biophysical structure, born firmly imbedded into the cosmos-existential creativity, in conjunctive encounters where the world and the subject are revealed, actualizing potentials. The world with its landscape architecture, the flora and fauna, reveals itself being the only body where individuals emerge extrapolating the enduring original, immediate and conscious moment, in creative and imaginary extensions, subjective past and future; a movement where the vital force adapt the structures of this endless and mutant body, and the philosophical intuition reformulates the culture that renews itself. All that has been said, thought, imagined, supposed, written, represented and asserted by individuals is born from the cosmos structures where everything is created and eternally reformulated.

The conscience distinctive capacity comes to light and evolves with the world, this is what exists of most original and immediate, of most admirable; it allows to acknowledge what one is in creative frontiers where he who individualizes himself and he who becomes another one are delineated. One exists as a state-of-being or conscience situated in the world; existing only takes place in the intersection of the world and of conscience, where the world belongs to conscience and conscience belongs to the world, in increasing complexity. Existing is manifested in the intersection of the world and  of conscience and does not seem to have limits, beginnings and ends, neither in the genealogical succession of the creatures, nor in the flow of the matter-energy or of imagination; It is a cosmos-existential unitarian and transmuting phenomenon. On this continued ordainment, according to the view points, creativity and resources of those who think, the endless thinking flow is appreciated, and, equally, the order of the matter-energy that transmutes and manifests itself in the endless sequence of forms.  On the conjunction of these endless flows of feelings, thoughts and particles, in the most extreme frontiers of this junction, or in the most intimate center, where one exists touching, thinking and feeling, this interaction, creative and paradoxical union of the world and of conscience, astonishes and frightens.

To live well, in the place where one exists, demands accepting and acknowledging its integration in the context; to exist at the light of the natural reason is to be conscience integrated to the world and the world integrated to conscience in a great conjunction and structural and fundamental reciprocity on which existence is acknowledge as an aggregation of intermingled bodies, feelings and thoughts, a conjunctive trinity that completes the state-of-being. The state-of-being – existential or given-to-be circumstance – equally confirms nature´s Logos-intelligence and Ethos-architecture, are the ruled lines delimiting all that has existed, exist and will exist; being Myhtos worshipped as the ruler of harmony or disharmony who reigns on the societies. A good myth must assert this state-of-being integrated nature, produce a synchronic and harmonious culture; a myth that disowns the natural evidences to cause existential feelings to become relative longing representations, betrays and warps the true humanity whose inclination is to be reasonable in accordance with its nature. Trying to live within the context, not taking into consideration the most evident, immediate and original  fundamentals and ontogenies, in favor of fantastic opportunities and refusals, is an adventure meant to fail; is to abandon the directing rule of the just and grave behavior, the empirical good-sense, in favor of beliefs, cultural shows and dogmas. Until it´s proven to the contrary, to behave as if the conscience were dissociated from the existence and thought, from the sensations of ideas, from the individuals´ objects who are the unsurpassable sides of a same vital phenomenon, is insane: on the plane of the cosmos-existential reality one can no longer remains entire and lucid, longing for ruptures and worshipping dichotomies.

Theological or religious constructions based on the hypotheses of radical distinctions and objective ruptures in the interactive and dialogic frontiers among the bodies, feelings and thoughts, meditating the idea of a pure thought and conscience, of a spirit separated from the world, or super-natural, do not report to the reality experienced and evidenced, but to desires and fantasies not complying with the given-to-be. Those who believe in deep ruptures and polarizations not belonging to the possible experience, but to the desire kingdom, to not accomplish the objects of their fantasies, except on their imagination; angels do not descend except as good winged ideas, Messiahs do not come, except as constructive acknowledgements.

Before the given-to-be, two existential appreciations are possible: empathy or antipathy. The empathic answer is natural and harmonious; we are what we are, there´s no reason to contest or disagree with this; being continuous, reality carries in itself the mystery of essence, of vitality and of the potentials in its expressions. The antipathetic reaction can result from accidental reasons, from harder, frozen and dry existential confrontations; but running away from confrontation with the real, expecting another world beyond the frontispieces of plain life, living as if depending on it, disown the sensible evidences and the glories of being nature, betting on the narrations of this or that tradition, is living depending on what others have supposed, agreeing with escapist dogmas and disowning, in totum, itself and the real in every dimension. Accepting the state-of-being with sympathy, harmony and synchrony is living the present and put yourself  in the center of life just like it is; searching for a vigorous, enthusiastic and glorious meaning to this endless and vital, cosmos-existential process where we were born, deeply rooted in absolute immanence, is a spiritual task of maximum grandeur.

To usufruct from the capacity of being taken by surprise before the mystery which is revealed in every encounter – admiring the beauty of the flowers, the shining of dew, the smile of friends and of those who love each other, is easy and natural as deeply breathing the morning breeze. To fit and join together the vision of the beautiful to huge feelings and to the capacity of abstracting forms and thoughts in poetic directions, reveals visionary geometries which do not stop blooming, expanding and growing such as trees sprouting again from their own flowers. To feel yourself full, conceptive and comfortable, living in this creative and endless, and continuously transmuting center, faithful depositary of mysteries the essence of which resides in the interval where every forms and ideas are inflected and recreated, is natural as the birds warbling or the flowers perfume. Being spiritual is to shimmer and worship this eternal glory process, gathering death and life, youth and maturity in a single spiral circle transforming the state-of-being in the most perfect origin and identity in the given circumstances.

The deep value inputted to existence is the basis where human creativeness takes roots; qualification where what one thinks of the world, reveals being what he thinks of himself. We are a cosmos-existential event of sublime grandeur that can and must be celebrated as cosmic nativity! We are born nestled and fed in the midst of nature, marked and sealed by the parents and ancestors love. Feeling the beauty, the beautiful, consecrates the full acknowledgement, thankful and exultant of the oneness and of the love generating us and of the peace feeding us. Suffering only exists aside of the pleasure, there´s no absolute suffering rendering invalid the immediate grandeur and beauty of being the way you are, immersed into life and its unfailing immanence.

As the history of peoples and nations demonstrates – to those who wish to examine –  feeling himself born as natural phenomenon and worthy expression of the universal essence, fully integrated, is preferable and more productive than feeling himself banished and rejected, deprived of intuition and depending on the hermeneutic scriptures, sayings, traditions and concepts. To those who imagine the human being without his natural and cosmic dimensions, as mere subservient agent of some culture, with the modulated, typified and structured way of thinking, according to the courses of the academy, unable of seeing things as they eternally are, at the light of the immediate conscience, the comforts offered by sects, parties and the city´s glories, remain.

Possible acknowledgement and sense are not located in the past or in the future, but in the heart of who knows how to feel the present with amorous sympathy. This is the feeling of those living beyond the walls of the powerful Rome, native, artists and poets, children, and of those practicing the art of philosophy, of the wisdom and ethics, and of the cardinal virtues; of those to whom loving is not only charity, but yes a real and effective talent with sufficient light and peace to affirm happiness here and now, in the origin and living identity of the state-of-being.