arcanjo gabriel

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Uma cultura, para ser justa, digna e demonstrar na prática o que muitas vezes prega em teorias e afixa em documentos constitucionais e fundadores, deverá instituir uma pedagogia à altura das suas aspirações. De acordo com o melhor conhecimento, até hoje disponível, essa pedagogia necessitaria ser sóbria e repleta de bom senso; diferenciar o mítico, hipotético e interpretativo, o opinativo, a doxa, do real e sensato. Isto é embasar todo o ensino em critérios filosóficos, apresentando sempre os argumentos e os contra-argumentos, esclarecendo os pontos fortes e fracos dos discursos, deixando aos alunos o direito de escolher seus caminhos cognitivos, impregnando as psiques de um sentido construído e firme, algo resultante de uma gradual e lúcida tomada de consciência. Quando, nesse laboratório escolar de aprendizagem, algum projeto de ação for escolhido, as estratégias de consecuções seriam estudadas, examinadas buscando na experiência e no sentido crítico os melhores caminhos. Deverá se ensinar a começar tudo com sensatez, a monitorizar o andamento dos projetos cuidadosamente, utilizando os diversos pontos de observação conhecidos, possíveis, imaginários, com a máxima criatividade. Aliás, treinar a criatividade em todos os sentidos deveria ser a  preocupação essencial de um bom ensino.

Como o que mais pesa no destino psíquico de um indivíduo, no seu tônus emocional e posturas fundamentais é, indubitavelmente, a forma como ele é considerado e recebido na cultura, formalmente e essencialmente, como ele imagina a sua presença e função no ambiente e mundo onde vive: nada mais natural de que examinar cuidadosamente esse ponto. Uma autoestima depressiva é construída embasada em desrespeitos que se somatizam, ampliados até abafar a alegria e capacidade de amar. É muito fácil solicitar: “sejam amorosos, respeitadores, alegres e confiantes”, mais difícil enxergar onde se enraízam tais virtudes para que possam crescer espontaneamente – ninguém se torna amoroso e respeitador de si e dos demais num piscar de olhos, mudando a tintura dos cabelos. Querer é uma longa viagem que começa com inteligência e criatividade suficientes para distinguir os bons caminhos em perspectivas amplas: é o que deve ser ensinado a priori.

Nessa escola, os estudantes seriam, desde cedo, convidados a examinar diversas narrativas culturais originais, míticas, à luz do espírito científico, filosófico, na famosa posição de ‘observador’, sujeito dissociado do seu ‘objeto’, utilizando o método ipsis litteris: um instrumento para testar, experimentar e examinar os usos e costumes sem se envolver nas diversas narrativas, reconhecer suas decorrências lógicas – até provar em contrário – de acordo com as melhores teorias psicológicas e pedagógicas. O que poderia existir de mais fundamental nesse mundo globalizado e mutante de que apoderar-se plenamente do imaginário? Auxiliar o aluno a sentir os sentimentos evocados pelas diversas narrativas ditas fundadoras de culturas e cultos? Graças a esses jogos virtuais de civilização, os probantes e alunos seriam colocados na situação imaginária de ‘nascer’ em diversos lugares e âmbitos culturais vindo da hipótese metodológica neutral – poderiam escolher  momentos e lugares de diversas tradições, de acordo com a sua vontade.

Os alunos aprenderiam a testar, como se fossem vestimentas culturais, as principais narrativas fundadoras de cultos, seus critérios comportamentais, discursando sobre o sentido da existência e posição do sujeito nos ritos de cada lugar. Não seria necessário começar seguindo uma determinada ordem evolutiva: testando primeiro os ritos desaparecidos, recolhidos em buscas arqueológicas e depois os mais antigos. Entrar-se-ia nesse ‘carrossel existencial’ de diversas maneiras, por sorteio, escolhendo alguma ordem aleatória ou autodesenhada. Interessante seria que o próprio aluno e visitante virtual, fundamentado nas suas escolhas e experiências, discutisse com os seus companheiros de viagem os diversos sentimentos, ideias, estratégias de funcionamentos, posturas frente aos outros e ao ecossistema, evocando esses mitos, cultos, obediências e decursos culturais; que fossem discutidas as relações desse mitos e ritos com outras doutrinas, políticas, pedagogias e teorias.

Caso o aluno fosse nativo de um lugar e cultura de forte e rígida tradição, correspondente a um rito e mito fundador bem definido, poderia ser indagado a respeito de querer ou não experimentar dissociar-se das impressões batismais originais para testar outras plataformas culturais, veracidades e cultos, de acordo com outros povos e nações. Recusar seria possível:  nada nessa escola seria obrigatório! Claro, esse aluno não receberia o ‘Grau Om’ – Grau Real e Arquetípico Universal da Ordem Metafísica – o grau dos grandes conselheiros e maior significado existencial, receberia o grau relativo às ontologias enquadradas na ordem da sua cultura nativa.

Exemplificando: no imaginário, dessa posição crítica denominada nos nossos cursos ‘posição alom’ (de alfa e ômega), típica do observador científico, o aluno poderia ser batizado idealizando ser superior a todos, absoluto, escolhido pelo oculto para dirigir os demais em diversas direções: obter o controle do mundo, instituir uma ordem definida, uma estrutura societária classista. Em outro experimento, poderia ser recebido e batizado imaginando ser ‘escolhido’ por diversas razões, como ser do gênero F ou M, da cor de pele N, B, P, A ou outra, da nacionalidade de A a Z, ou o que bem quisesse supor, até mesmo optar por uma escolha sincrônica com a situação existencial correspondente à sua realidade: uma vez desenhado o enquadramento, poderia escolher imaginar e pensar entrar numa cultura onde essa forma fosse considerada suprema, de valor máximo, ou, o inverso, que fosse taxada de desprezível, sentir as consequências dessas várias disposições, cultos e visões metafísicas.

Numa vertente mais prospectiva e generosa, o aluno poderia escolher conhecer outros ritos, como os que decretam ser o nascido uma realização do cosmos, um ser universal dotado de conectividade com toda a natureza, de uma vasta ancestralidade, oriundo do infinito e das origens misteriosas que a ciência ainda desconhece! Seria dito filho do Sol, da Terra, junto com todos os demais seres, os minerais, a flora e a fauna. Revestidos desses atributos existenciais, desse eixo metafisico, entraria em um mundo onde seria recebido dessa forma por outros seres de igual para igual.

Bom seria se algumas igrejas instituídas, antes de batizar e promover campanhas de conversão, quiçá, messianismos truculentos, oferecessem igualmente cursos mostrando as diversas opções filosóficas disponíveis, deixando as pessoas escolherem os seus caminhos. Isso seria demonstrar respeito e relacionamento digno, igualitário. Mas por enquanto, ainda, por mais bem intencionados que sejam os diversos líderes e religiosos, as igrejas gostam de condenar os que consideram heréticos, mas não gostam de ser trazidas na arena da vida e dos diálogos sinceros e francos, descer dos encastelamentos e pedestais para enfrentar críticas.

Chegará o momento por a natureza ser justa e esférica; dizer, pensar e fazer tem consequências – mesmos distantes, se manifestam. Nesse caminho, todos aprendem e se aperfeiçoam. Quanto mais liberdade de opções para o bem pensar iniciático, mais ricos e plenos os resultados. No momento, para nós nessa escola panteísta, o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial tem sido eleito mais sensato e promissor, quando se busca uma vida boa na vida que se tem: viva, digna, feliz, fecunda e sensata.

Pantheist Metaphysic Exercise

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

A culture, to be fair, worthy and demonstrate in practice what many times is proclaimed on theories and affixed on constitutional and founding documents, ought to establish a higher pedagogy to cope with its yearnings. According to the best knowledge, so far available, this pedagogy would need to be serious and filled up with good sense; to differentiate the mythic, hypothetical and interpretative, the opinionative, the ‘doxa’, from the real and judicious. This is to base the entire teaching upon philosophic criteria, always presenting the arguments and counter arguments, clarifying the weak points of the discourses, leaving to the students the right to choose their cognitive ways, filling their psyches with a built and firm sense, something resulting from a gradual and lucid awareness. When, at this scholar apprenticeship laboratory, some action project is chosen, the achievements strategies would be analyzed, examined, searching on the experience and on the critical sense the best courses. It should be taught how to judiciously commence everything, how to carefully monitor the ongoing of the projects making use, on the most creative way, of the several known, possible, imaginary observation points. Besides, to train the creativity in every sense should be the essential concern of a good teaching.

As what weighs more on an individual´s psychic destiny, on his emotional tonus and fundamental postures is, undoubtedly, the way how he is considered and received in the culture, formally and essentially, how he imagines his or her presence and function in the environment and world where he is living: nothing more natural than to carefully examine this point. A depressive self esteem is built based on disrespects that are amplified until choking one´s happiness and loving capacity. It is extremely easy to ask: ‘be loving, respectful, cheerful and confident’, but it is difficult to see where such virtues are rooted in order to spontaneously grow – no one becomes loving and respectful of him and of those others in a twinkle of the eye, changing the color of the hairs. Wishing virtuousness is a long trip starting with sufficient intelligence and creativity to distinguish the good ways on extensive perspectives: this is what a priori should be taught.

At this school, the students, early, would be invited to examine several original, mythic cultural narrations, at the light of the scientific, philosophic spirit, on the ‘observer´s’ famous position, subject dissociated from its ‘object’, making use of the method ‘ipsis  litteris’: an instrument to test, experience and examine the uses and costumes without getting involved on the several narratives, recognizing its logic consequences – till it´s proven to the contrary – in accordance with the best psychological and pedagogical theories. What could be of most fundamental in this globalized and mutant world than fully seize the imaginary?  Help the student how to feel the sentiments evoked by the several narrations said to be founders of cultures and cults? Thanks to these virtual games of civilization, the students would be placed in the imaginary situation of ‘being born’ in several cultural places and spheres from the neutral methodological hypothesis – could choose moments and places of several traditions, according to their will.

The students would learn how to test, as if they were cultural vestments, the main founding narrations of cults, their environmental criteria, discoursing on the meaning of the subject´s existence and situation in the rites of each place. It wouldn´t be necessary to start following a certain evolutionary order: first testing the disappeared rites, those gathered in archeological searches and then the older ones. One would enter into this ‘existential carrousel’ through different ways, by choosing some random or self-designed order. It would be interesting if this student virtual visitor, based on his choices and experiences, could discuss with fellow travelers the several feelings, ideas, functioning strategies and postures before the others and the ecosystem, evoking these rites, cults, obedience and cultural trends; and that the relationships amongst these myths and rites were discussed and matched with other doctrines, policies, pedagogies and theories.

Should the student be native from a strong and rigid tradition place, corresponding to a well defined founding rite and myth, he could be asked if he would or wouldn´t wish to try to undergo dissociation from the original baptismal impressions to test other cultural platforms, truthfulnesses and cults, according to other people and nations. To refuse would be possible: nothing at this school would be mandatory! Certainly, this student wouldn´t be granted with the ‘Om Degree’ – the Metaphysic Archetypical Order- the great counselor degree and greatest existential meaning, he would receive the degree relative to the ontologies fitting in the order of hi native culture.

Exemplifying: in the imaginary, of this critical position named in our courses as ‘alom position’ (from alpha to omega), typical of the scientific observer, the student could be baptized, imagining being superior to everyone, absolute, chosen by the concealed to guide the others in several directions: to gain the control of the world, establishing a defined order, a classist societarian structure. In another experiment, he could be received and baptized, imagining being ‘chosen’ for several reasons, by being from gender F or M, by the color of the skin: B, W, Y or other, by nationality from A thru Z, or by what he could suppose, even opting for a synchronic choice with the existential situation corresponding to his reality: once the fitting is designed, he could choose how to imagine and think being introduced into a culture where this condition were considered supreme, of the highest value or, inversely, being estimated as worthless, feeling the consequences of these several metaphysical dispositions, cults and visions.

On a more forward-looking and generous point of view, the student could choose to know other rites, as those decreeing being the new born a realization from the cosmos, a universal being endowed of connectivity with the entire nature, from a huge and very old epoch, originating from the infinite and from the mysterious origins still unknown to science! He would be considered son of the Sun, of the Earth, together with all other beings; mineral, flora and fauna. Covered with these existential attributes, with this metaphysical axis, he would enter into a world where he would be equally received this way by other beings.

It would be good if some established churches, prior to baptizing and promoting conversion campaigns, perhaps, truculent messianisms, could equally offer courses showing the several philosophic options available, letting the people choose their ways. This would be to demonstrate respect and worthy and equalitarian relationship. But, for the mean time, yet, for the most well intentioned the several leaders and religious persons might be, the churches appreciate to condemn those considered heretic, but do not like to be brought to life´s arena and to sincere and open-hearted dialogs, to descend from castles and pedestals to face criticisms.

The moment will come, because nature is just and spherical; when to say, thinking and doing have their consequences – even if at a distance, they manifest themselves. On this way, everyone learns and improves him/herself. The more liberty of opinions to the initiative well thinking, the richer and the more complete are the results. Presently, at this pantheist school, the cosmos-existential metaphysical perspective axis has been elected as more judicious and promising, when one seeks a good life in the life being lived: alive, worthy, cheerful, prolific and sensible.