Categoria: literatura/poesia

Credo Panteísta

 

Creio que a Natureza, harmoniosa e bela, cósmica,
É a infinita totalidade, criadora absoluta;
Creio que a Natureza é a verdadeira Deusa adorada
Pelas criaturas da terra desde o começo dos tempos;
Creio que todas as criaturas vivem  no seio da força
Virgem, original e vital da Santa Mãe Natureza.

Creio que a Natureza, na sua essência, não é gerada,
Que é a mãe de todos os séculos, de todas as deusas
E deuses cultuados por todas as nações,  luz da luz,
Da totalidade das coisas criadas visíveis e invisíveis,
Dos céus, das estrelas às partículas menores;
Dos planetas e das luas, de todos os mundos.

Creio que todas as criaturas manam desses céus
E horizontes infindos,  simbolicamente, descidas
Dos céus, encarnando o ânimo vital e  supremo
Da santa e bela mãe natureza; creio que a Deusa
Não existe sem suas crias, que ela se faz criatura de si
Em cada um dos que nascem, que cada um dos seres criados
Compõe um dos pontos da trama infinita, pontos de encontro
E despertar dela mesma em nós e dela em todos nós.

Creio que, junto a nós e em nós, a grande mãe
Existe, eternamente, numa sublime esfericidade
Em que os diâmetros verticais e horizontais,
Como os madeiros de uma cruz de braços iguais
Inscritos no círculo central de uma imensa espiral,
Simbolizam o processo constante de transmutação
Do mesmo e único corpo, da ancestralidade às formas
Atuais e por vir, assim como a polaridade das expressões
Opositivas e complementárias, dia, e noite, sol e lua,
Compondo em harmonia a realização presente,
Bela como uma flora encantadora e misteriosa.

Creio que cada vez que pessoas sábias e vanguardeiras,
Artistas, buscadores, se redescobrem como expressões puras
Da Natureza no mundo da manifestação, regenera
A vida na força da eternidade, dissolvendo a ignorância,
Marcando saúde e salvação nas dimensões mais nobres
Do estado-de-ser que reafirma sua eternidade.

Creio na substância própria da vida que se manifesta,
Nas montanhas nas florestas, nas campinas e nos rios,
Lagos e mares, afirmando processos constantes
E gloriosos de renascimentos e dissoluções;
Creio no culto panteísta, santo, universal e sábio,
Admiro a abóbada estrelejada da igreja natural,
Reconheço o santo tabernáculo dos mistérios
Presente e aberto no coração dos que
Se amam e amam a Natureza e todos os seres.

Creio na intuição e gênio que vive em todos nós,
Sopre e fonte de vida que procede da santa mãe natureza
E assenta nas criaturas configurando um único estado-de-ser,
Que fala aos que despertaram para o que são,
Guiando-os em busca de uma vida sempre mais amorosa e bela;
Creio na pureza nascida e presente nas criaturas,
No centro do que sinto jorrar uma fonte rica e preciosa
Que derrama sabedorias oriundo de minha pura intimidade,
Permito que a fonte guie as águas vitais em qualquer espaço,
Aprofunde em qualquer caminho ansiando ser preenchido.

Creio na vida sempre nova do estado-de-ser transmutante,
Que todos juntos, despertos na nossa lucidez natural avivamos
Nos equinócios, em específico nas primaveras;
Creio que seremos capaz de reinstalar nesse planeta azul
O grande panteão em que somos todos filhos do sol e da terra,
Crias diletas da grande e bela mãe Natureza.

Ser Panteísta é Ser Agora – Na idade que bem se quer

multiflorafernandopolis, natureza abstrata 18

Atento, observando a natureza, num átimo, enxergo decálogos e princípios.

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Ser panteísta não é coisa para se perder ou se distrair nos capítulos das histórias dos outros; é segredo para se guardar no coração. ‘Deus é natureza’, a definição clássica de panteísmo, é precisa, porém basilar, prosaica. Assim como um santo visionário poderá descrever a sua experiência do divino de mil e uma maneiras, no estilo das mil e uma igrejas, um panteísta, igualmente, poderá faze-lo, sendo o templo vasto como a natureza, o globo-um colorido, verde e azul e a abóbada da catedral, o céu do dia e da noite. Trata-se de uma relação imediata com o todo, sem sacerdotice alguma. Para o panteísta o templo é a natureza e o ar do tempo o sacramento.

Não é que a ‘causalidade’, o inato que a nós correlaciona e refere em termos de corpo, forma, gênero e humor, igualmente, arquitetado em nosso entorno,  incluído nas circunstâncias e nas redes das histórias e das geografias, em mil lugares e direções, não esteja. de alguma forma, determinando o que fazemos e laboramos. Ter nascido em Paris, Texas ou France; em Recife, Brasil, ou Cuzco, Peru, existe como algo dado e já posto na mesa dos trabalhos, sim, claro! Mas, para nós, as formas não se analisam estruturadas e calculadas para significar um mais ou menos, sejam benções ou fatalidades resultantes de processos ajuizadores e distribuidores de ‘merecimentos’, em modelos judiciários que só podem ser reduções, antropocentrismos, ‘projeções bancárias’, como diria o pedagogo Paulo Freire – um entendimento a posteriori! É que para nós, fiéis dessa Igreja Pan, a geografia, história e cultura, seja dessa ou daquela cidade, neste tempo ou noutro, vem depois do impacto fundador. A base existencial, batismal, do panteísta, é natureza, antes de ser história ou cultura.

Antes disso, primeiro, há sempre a atuante e central força e impacto da vida que explode dos mistérios e do ignoto, incessante. Entendemos isso, como o toque do coração batendo o ritmo. O fundamento em termos ontológicos, o sacramento em termos metafísicos: é um fenômeno psicofísico que suplanta na sua originalidade o que se pode pensar e ajuizar a respeito do fenômeno viver, existir! Antes de pensar-se a respeito, existe-se essencialmente, de graça e sem razão conhecível, esse mistério central confrontado a cada passo no jardim, onde se olha uma rosa, que é uma rosa, simplesmente, é espantoso. A surpresa inexaurível frente ao improvável da vida é referência do ânimo panteísta.

Essa marca nativa é nossa! É a saga dos poetas! Como não sentir? Antes de ser contador de histórias, o panteísta é um poeta, aquele que desfoca o olho e entreabre a boca num sorriso apenas esbouçado, antes de se expressar: é autor das suas falas e pensamentos cujas origens não se sub-rogam a nenhuma história, por mais tradicional que seja. Panteísta é algo selvagem que não suporta cabresto. Mas não é ‘selvagem’ por que referente às histórias indígenas e de pessoas que viveram antes e nas margens da cultura dos consumidores globais, devorando o planeta como gafanhotos enlouquecidos: isso seria algo recontado por um civilizado a respeito dos ‘selvagens’ e indígenas. Os salmos panteísticos são matérias primas que se burilam na boca de quem fala. As referências culturais são anedóticas.

As histórias que se fazem, lembram, reportam e narram, assentam num terreno de força viva que as acolhe e fertiliza desde o começo. Esse terreno de força plena é o ânimo do poeta, que não sendo destemperado e condicionado por história alguma, não se rende, não se inverte, é sempre autoral, de improviso. Mas o que diz então esse poeta, esse Ser Panteísta? Ele chama o que se vê, o que aparece, o que vem, evoca o mais singelo de tudo, aquele que o outro confere e já sabe sendo o que é, vivendo o que vive. Ele brinda um vinho que igualmente existe na taça do outro e que por isso faz sentido e tem sabor imediato. Tudo é claro porque evidente e sentido com gosto e sabor.

Possivelmente, recebemos o dado-a-ser que natura em torno de nós e dentro, reunindo os corpos em um sistema orgânico universal, numa trama, com a singeleza de crianças, sempre acordados nesse processo, recebendo a vida e suas formas de chofre, como existem, transmutantes desde o começo: acolhendo sem julgar, comparar ou se deixar impressionar por valores contados e pesados em termos de haveres, conjugados nos acordos do ter e nos posterioris da memória e contabilidade.

Para começar, sentimos, talvez como crentes destituídos de pudores, ter sido engendrados por amor, bem na massa, na essência, verdade perene, fato inelutável, transitivo em quaisquer circunstâncias! Sabemos nascer, de certa forma sem parar ainda, em glória, marca e fundamento do real por onde tudo brota, até mesmo o ‘surreal’ se houver – quem sabe? É o ponto original que não se consegue esquecer, como um sorriso ou o brilho de um olhar! Lógico, os sofistas poderão afirmar tratar-se de mera ‘opinião’, poética talvez, mas sem praticidade – nascer eternal!? Pouco importa o que pensam! Não se trata de algo que colocamos no mercado e no campo das dúvidas, é uma marca panteística sentir esse nascer que se renova glorioso, evanescendo e colapsando todos os dias – lembrando, esquecendo, aprimorando tudo o que se pode pensar. Integrantes dessa igreja estamos em lua de mel com a vida, sentados no centro do destino, sentindo as rédeas nas mãos, a carruagem em ordem e a viagem sempre no começo, a voz exclamando como um aboio: êi, oh, avante!

Não somos messiânicos, por isso pouco importa se alguém imagina ser desprovido dessa marca naturalista e ter sido criado por acidente, ou até mesmo sentir esse nascer como algo sombrio: desde as profundezas, ter sido lançado nas escuridões esfincterianas como uma ventosidade! Que seja! Opinião! Talvez, opinião mesmo, insensata! Silenciosamente, além dessas catequeses medonhas que querem fazer as crianças acreditar ser concretudes ínferas, nós, senhoras e senhores, temos certeza que deve existir algum grau de ‘apoesia’, uma pitada de ingratidão, de cegueira até, uma forma de embotamento nesses julgamentos!

Afinal, até um raio de luz percutindo uma gota de orvalho pousada numa flor, uma pedrinha de cor pastel realçada no toque da umidade da manhã, pode ser o início de uma maravilhosa aventura estética, um levantar do ânimo num voo belíssimo, um gesto, sendo feliz, ampliando, fermentando até desenhar esse Belo e explodir num riso e abraço alquímico como um jorro criativo: uma expressão, um modo gratuito de existir que pode fazer uma diferença essencial, logo nos primórdios, levando esse ‘fluxo vital e psicofísico’ a rolar nas campinas, numa correnteza que deságua das montanhas até uma praia bela e muito digna, que, talvez, não se revelaria não fosse esse ‘saber ver’ amante e nativo, encantador e glorioso.

Mas por que esse gozo embutido na visão, essa felicidade do olho e do toque? Será um gênero, um traço, uma espécie de ser, um tipo de ancestralidade, a floração de uma semeadura de algum tipo mais raro, mas libidinosa? Algo nascido vindo de alhures, herança viva dos maias, dos incas, dos indígenas, do antes-mítico? No mito que crio, misturando tudo, talvez sejamos anjos alados com Isis, visitando terras, corrigindo mil e um reinados? Olá, olé fantasia! Fantasia que ri e que dança! Não, não e não! São histórias! O real é bem mais simples, mas, não menos Belo! Somos resultados da junção unitária de duas coisas primárias e acolhidas numa forma única que gesta e fermenta, somos vinho, néctar – como logo aprendemos, de alguma forma, reconhecendo essa praxe universal como a grande coordenada original dos demais princípios: alquimia!

Sabemos, porque vemos o copo receber a água; sentimos o garfo entrar na boca e nos alimentando! Vemos o pássaro entrar no ninho, pondo ovos de onde nascem novos pássaros que logo voarão, entoando cantos belíssimos! Testemunhamos a chuva do regador cair na terra se abrindo em flores! Até coisas mais difícil de se ver: o casco de um cavalo bater nos seixos dos caminhos saltando faíscas! Vimos flores virar frutas, sementes transformar-se em flores frutificando as mesmas frutas! Por isso, conhecedores desses grandes mistérios e maravilhas, sabemos desde sempre que vida é força, fogo e luz, é canto vivo e Belo: ah! Oh! é o nosso grito, a nossa chamada primordial: o início de tudo o que é, para sempre e sempre início de tudo.

Por isso é impossível romper esse núcleo onde tudo colapsa esférico e redondo no momento que é, onde se nasce a toda hora, onde se concentra e agrega toda a vida que martela a força e a luz original, a toda hora. Será que somos débeis? Sujeitos incapazes de transcender nas curvas das sofistarias, das somas e das divisões, das aritméticas e gramáticas, esse limbo indefinido, essa massa psicofísica nuclear, essas fronteiras equívocas onde as coisas já são, mas ainda sem definições, inacabadas, em criação, naturando ainda, eternamente vindo-a-ser? Será que somos como crianças ainda grudadas perto da fonte, reinando nos braços da grande mãe, imaginando estar no centro do mundo, coordenando o cosmos? Malucos validando os ditos de certos filósofos, insanos que imaginam o cosmos como um volume, uma bolha infinita de margens diáfanas e inalcançáveis cujo centro esteja, justamente, no nosso próprio coração, motor batendo o ritmo da vida desde sempre.

Como entronado dessa forma – sendo ingênuos, que seja – e nessa posição entender as coisas de fora? Como se tivéssemos postos sapatos de couro, saídos do que é primo, sensível e original, para entrar numa ideia matemática e posição gramatical, lugar sem toque, ideal, e, fascinado nessas beiradas hipotéticas, exorbitando, mirando as coisas como fora de nós e separadas das nossas consciências que abrigam o mundo, alinhadas como soldadinhos, focando e distorcendo o espaço e o tempo, até não ver mais a curva da esfera mostrando que tudo se une e reúne: imaginando tudo separado por estar imaginando ser separado, efetivamente, narcotizado em ideias, mitificando a praxe de engavetar pedregulhos como a arte das artes, a maior de todas?

Como enxergar sem glória, deixando de ver nas gotas de orvalho e nas lágrimas das despedidas, o brilho do arco-íris, para retraído nas gramáticas e calculadoras, da beirada da arena sempiterna da vida, ver ali uma idade de ferro, lá uma de bronze, prata ou ouro, imaginar estar transitando por lugares tracejados a partir de coordenadas hipotéticas e sem sabor, descortinadas nas escolas laicas e esotéricas, bem depois de ter nascido? A vida é o nascer perene dessa fonte de tudo quanto há, até mesmo dos delírios dos que temem desertar da sua pátria, o lugar nativo de tudo, o presente em torno do qual gravita todas as hipóteses, de onde irradia todos os raios, de onde se pode, à vontade, como se quer, ser agora mesmo, ferro, bronze, prata ou ouro, maia, inca, indígena, condor, águia e cabra montanhesa, o que for!

Como deixar de ser original, o que de fato se é nesse sempiterno atual, para ficar encostado e posto nas beiradas, do lado de fora, rodando em torno do pote e da fonte, levado nas lendas dos que não vivem com medo de se reconhecer como coisas fenomenais, transmutando e forjando vida com sopro, sangue, corpo e fogo, no vasto cadinho central, imenso e sem tempo.

Aqui, nesse templo, não se enfumaça o que é em algo que ‘vai ser’ de acordo com lendas que só se contam sentados de fora, perdidos em ideias e hipóteses onde só se é o que determinam os postulados dos que vivem antes ou depois, dormindo a contratempo: tempo valente e bravo que estamos cavalgando neste momento, traçando aventuras nas quais somos aqueles que determinam a idade em que se vive, sabendo que não existe idade a não ser a que bem se quer, ama e deseja. Isto, leitores, é um pouco do que é ser panteísta.

 

 

 

 

Isis Alada, A Deusa Natureza

isis Alada

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Se existisse um deus surreal, um ser criador personificado, seria uma Deusa como Pachamama, Deméter ou Isis Alada; embaixo de cada asa uma princesa, uma branca e outra preta, o dia e a noite, alfa e ômega: as polaridades reunidas numa única envergadura e voo. Afinal, todos nascem de mães, lugares onde acontecem as fertilizações, nidificações, gestações e parturições: in totum, as obras da mãe-natureza, original e arquetípica! É que tudo o que se sabe do mundo se revela através de pessoas que nasceram de mulheres, em primeiro lugar, nós mesmos. Um existencialismo presencial e necessário que fez mais de um filósofo sugerir: “conhece-te a ti mesmo…” – outros, sondando os mistérios, eternas hipóteses, indagaram em vão: “existiria uma ‘consciência pura’, sem formas?”. Claro, na ordem biológica, um dos enlaces fundamentais da causação, a figura materna, formal, não fecunda sozinha: mas a natureza de todas as criaturas, a natureza-mãe, nasce de si, abrange o alfa e o ômega. Portanto, de alguma forma, somos essa estrutura metafísica criadora e alada: trata-se da cosmovisão e do sentimento de muitos nascidos, seres humanos pequeninos experienciando o Cosmos por um segundo e para sempre.

O estado-de-ser integra o ‘um’ e o ‘dois’, abriga todas as polarizações e potências, certamente: mas os saberes que podemos desenvolver dependem de como adentramos a existência para naturar nessas dimensões detectáveis por GPS: quem poderá negar que existem ambientes mais eudemonísticos e férteis de que outros onde ‘pausar no concreto’, vindo desses voos metafísicos que se vislumbram nas visões e ideias? As diferenças, do ponto de vista das coisas da cultura, dos aspectos societários, estão estruturadas em eventos: como se é recebido e abraçado na comunidade familiar, as condições da parturição, a educação, como se é considerado ao longo da aprendizagem, laica e religiosa. Esse leque de ‘receptividades’ permite significar e configurar induções referenciais: a identidade profunda dos indivíduos, a autoestima existencial, os valores e edificações ideológicas, as problematizações, dependem do significado sistêmico atribuído a esse movimento oriundo do plano mais universal até equacionar num lugar especifico, com endereço e nome próprios.

É fácil imaginar que, na significação desse processo, a mãe, a parturiente e nutridora, a mulher, poderá ser de soberana importância: de acordo com seus carinhos, ou descuidos, sua genitura será sadia, ou não – o que não é verdadeiro. A mãe formal é, certamente, importante, mas não ‘apenas’, talvez não ‘mais’; a mulher existe junto com os demais partilhantes da cultura, inscrita na ordem societária: até o momento, ordenamentos instituídos em fenômenos debatidos e ideologicamente burilados por pensadores, na sua maioria filósofos e teólogos da tradição. Logo, como as mulheres se dedicam às suas crianças não dependem apenas delas, mas das inscrições societárias da família e dos gêneros, de acordo com os usos e costumes que vigoram, nas metrificações e enquadramentos psicossociais nos quais estamos imersos como peixes enfrentando correntezas.

Na lista dos eventos que interferem nas ideias e visões que alimentamos sobre nós, o que mais rigorosamente poderia determinar a autoestima, valores e os embasamentos das edificações ideológicas, de que essas impressões que recebemos ao nascer? O que mais poderia influir os nossos potenciais de que a recepção que nos é reservada, consagrada por uma autoridade sacerdotal, num rito fundador onde é afirmado o que somos? O que mais determina a nossa autoestima e identidade central é o que se afirma a respeito da nossa relação com o processo criador e existencial como um todo. São os sentimentos e sentidos afirmados nos ritos batismais e as imagens evocadas pela catequese inicial que induzem a se reconhecer de alguma forma, positiva ou negativa, mitificando a relação fundamental consciência-existência: aqui está o selo que determina os esquemas, os grandes ‘papeis’, posições e funções que estruturam a cultura!

De fato, somos o que acreditamos ser e vivemos de acordo: acreditando-nos banidos do céu, autores de pecados originais, metidos em corpos facultativos para purgar pecados, enredados num mundo que não é nosso, gerará as incongruências que vêm se comprovando há séculos; sentindo-nos integrados, em harmonia com o todo, pertencentes ao ecossistema e ao Cosmos em perfeitas relações e como processos perdurantes, veiculando inteligência e intuição universal, facilitará a obtenção de outros efeitos e resultados, quiçá instituindo uma nova-era, descortinado novos rumos que já estão aqui e foram trilhados por muitos que se salvaram e encontraram a terra sem mal, o eldorado original.

Eu decido a qualidade da minha relação cosmo-existencial, o que sou; eu consagro, por direito universal, a metafísica que me une ao todo e me batizo criatura do Sol e da Terra, ser do universo, luz natural da razão, vivificação sempiterna dos elementos e alquimia universal. Assim, em poucas linhas, leitores, faço mais um giro em torno do Sol dos potenciais! Experimentem alguns batismos, comparem, testem, ousem imaginar, a liberdade começa ai!

Nous sommes la lumière du monde

Nous sommes la lumière du monde, une vérité bien reconnue par de nombreux païens et indigènes et, certainement, par tous les enfants chaque fois qu’ils ravissent à la reconnaissance de la magnificence suprême d’une simple fleur, comme le petit Jésus des poètes, celui que ne peut qu’exister que comme un sentiment dans nos cœurs éclaircis à la juste lumière de la philosophie.

L’athée nie l’autoritarisme des théologiens et conjointement le mythe de la chute et du bannissement lié à un péché originel exigeant une rédemption conformément aux dogmes des prophètes et des envoyés. Ce que ce n’est pas difficile pour quelqu’un  suffisamment congruent et équanime.

Les agnostiques nient ces mêmes devoirs mais ne se prononcent pas sur l’existence, ou la non-existence, d’une énergie ou force divine réellement transcendante.

En ce qui concerne les panthéistes, ils récupèrent la pleine conscience d’eux-mêmes et s’emparent de la lucidité antique, autrefois interdite par les théologiens et les métaphysiciens dualistes, pour éprouver, sans intermédiation, la splendide conscience unitaire de la coexistence dans le monde. Les véritables panthéistes, de la tradition des payaien, des pré-socratics et de nombreux indigènes, modernament redite et recommencé par Spinoza en therme phylosphiques, reconnaissent par expérience propre, que l’existence peut seulement se produire dans la conscience, que rien n’existe en dehors de l’arc de la conscience à qui nous appartenons et qui nous appartient ! Nous sommes la lumière du monde, une vérité bien reconnue par de nombreux païens et indigènes et, certainement, par tous les enfants chaque fois qu’ils ravissent à la reconnaissance de la magnificence suprême d’une simple fleur, comme le petit Jésus des poètes, celui que ne peut qu’exis ter que comme un noble sentiment dans nos cœurs éclaircis à la juste lumière de la philosophie.

Régis Alain Barbier

Nos somos a luz do mundo

O ateísta renega o autoritarismo dos teólogos junto com o mito da queda e do banimento ligado à um pecado original exigindo uma redenção de acordo com os ditados de seletos profetas e enviados. O que não é difícil para alguém suficientemente  congruente e equânime. Os agnósticos renegam esses mesmos deveres mas não opinam sobre a existência, ou não existência, de alguma energia ou força divinal realmente transcendente.

Quanto aos panteístas eles recuperam a plena consciência, apoderando-se da lucidez antiga banida pelos teólogos e metafísicos teístas e dualistas, para conhecer, sem intermediação alguma, a esplêndida coexistência unitária da consciência e do mundo.

Os verdadeiros panteístas, da tradição dos pagãos  dos pré-socráticos e de numerosos indígenas, modernamente recomeçada por Spinoza em termos filosóficos, reconhecem que nada existe fora do arco da consciência à quem pertencemos e que nos pertence! Somos a luz do mundo, uma verdade reconhecida por numerosos pagãos e indígenas e, certamente, todas as crianças sempre que se deleitam ao reconhecer a magnificência suprema de uma simples flor, como o pequeno Jesus dos poetas, que apenas pode existir como um sentimento nobre nos nossos corações esclarecidos à justa luz da filosofia.

            A Criança Eterna acompanha-me sempre.

 

            A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
            O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

 

          São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas…
            (…)
              Ele dorme dentro da minha alma

     

              E às vezes acorda de noite

     

              E brinca com os meus sonhos.

     

              Vira uns de pernas para o ar,

     

              Põe uns em cima dos outros

     

              E bate palmas sozinho

     

              Sorrindo para o meu sono.

    O Poema do Menino Jesus Alberto Caeiro

     We are the light of the world

    Atheists deny the authoritarianism of theologians along with the myth of the fall and ban linked to that ‘original sin’ requiring redemption, according to the sayings of the prophets and chosen – a rather easy understanding for someone consistent and fair.

    Agnostics reject those same duties, but not opine about the existence, or non-existence, of some divine force or energy really transcendent.

    As for pantheists, they recover full awareness, seizing the antic lucidity once banned by theologians and dualistic metaphysicians, to experience without intermediation a splendid unitary consciousness and coexistence in the world.
    Real pantheism, from the tradition of pagans, pre-Socratics and numerous indigenes, modernly reinitiated by Spinoza in philosophical terms, recognize from experience that existence can only happen in consciousness, that nothing exists outside of the arc of consciousness from we belong together with totality! We are the light of the world, a truth well recognized by many pagans and indigenous and, certainly, by all children whenever they delight to the recognition of the supreme magnificence of a simple flower, like the baby Jesus of the poets, who can only exit as a lovely feeling in ours hearts illuminated in the fair light of philosophy.

    Quando o poeta surgiu inteiramente amadurecido

    Quando o poeta surgiu inteiramente amadurecido

    Pronunciou-se a satisfeita Natureza (o globo impassível e redondo,

    com todos os seus espetáculos do dia e da noite), dizendo:

    Ele é meu;

    Mas também falou a alma do homem, orgulhosa, ciumenta e
    Desarmonizada:

    Não, ele é exclusivamente meu;

     

    Então o poeta inteiramente amadurecido colocou-se entre ambas, e
    levou-as pelas mãos;

    E hoje e sempre assim ele se encontra, misturando-as, fundindo-as,
    segurando-as pelas mãos, firmemente,

    Mãos que ele jamais largará até ser capaz de reconciliá-las,
    E de fundi-las, inteira e alegremente.

    Walt Whitman

    As palavras estão em nosso caminho!

    PENSE NISSO!

    As palavras estão em nosso caminho! Onde os (…) homens colocaram uma palavra, acreditavam ter feito uma descoberta. Como era diferente, na verdade! Eles haviam tocado num problema e, supondo tê-lo resolvido, haviam criado um obstáculo para a solução. Agora, a cada conhecimento tropeçamos em palavras eternizadas, duras como pedras, e é mais fácil quebrarmos uma perna do que uma palavra. (Nietsche, Aurora, I, § 47 – citado em FAPEMIG – Estudos Filosóficos nº 08 – 2012: Física quântica, linguagem e critica à metafísica – Prof. Ms. Rafael Paes Henriques – UFRJ).

    Deus é cosmos, ou natureza; não está além, ou longe. Entranhado no cosmo, a consciência é una com o mundo; tu és a consciência do mundo, és mundo Consciente! DEUS É NATUREZA. Pense nisso!

    Poesia para despertar Sophia

    Poesia para despertar Sophia

    Poemas inspirados em vivências filosóficas

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    Libertação – Rabindranath Tagore

    Libertação

    Para mim, libertação não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade em milhares de enlaces do deleite.

    Você sempre me serve a dose fresca do Teu vinho encorpado e aromático, enchendo esta taça terrena até a borda.

    Com Sua chama, meu mundo acenderá centenas de velas diferentes e as depositará no altar de Seu templo.

    Não, jamais fecharei as portas dos meus sentidos – os deleites da visão, do tato e da audição revelarão Seu deleite.

    Sim, minhas ilusões arderão no regozijo iluminado e a maturidade de meus desejos dará os frutos do amor.

    R. Tagore

    O Que Acontece Quando Morremos?

    O Que Acontece Quando Morremos?
    THICH NHAT HANH

    Transcrição de uma palestra de Dharma dada por Thây em Hong Kong, em 15 de Maio de 2007 – Tradução: Samuel Cavalcante

    Para responder ao que acontece conosco quando morremos, precisamos responder a uma outra questão: o que acontece quando estamos vivos? O que está acontecendo agora mesmo conosco? Em inglês costumamos dizer ‘nós somos’, mas é mais adequado dizer ‘nós nos tornamos’, porque as coisas estão sempre se tornando algo. Não somos a mesma pessoa em dois minutos consecutivos. Uma foto de quando você era bebê é diferente de você agora. De fato, você não é exatamente a mesma pessoa quando bebê e nem uma pessoa totalmente diferente. Em uma foto sua com cinco anos, você não é exatamente o mesmo e nem outra pessoa – a forma, os sentimentos e as formações mentais são diferentes.

    No caminho do meio não existe nem a condição do que é o mesmo e nem a condição do que é diferente. Você pode pensar que ainda está vivo; mas, de fato, você tem morrido todos os dias, a cada minuto células morrem e nascem – e nem por isso realizamos funerais ou aniversários (risos). A morte é a principal condição para o nascimento. Sem morte, não há nascimento. Eles intersões* e acontecem a todo momento para o praticante experiente. Por exemplo, uma nuvem deve ter morrido muitas vezes, sob a forma de chuvas, rios, água. A nuvem deve querer cair rumo a si mesma na terra. A chuva é a continuação da nuvem. Praticando-se a meditação, nada fica escondido. Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.

    Quando somos pais, morremos e renascemos como nossos filhos. “Vocês são minha continuação. Amo vocês”. O Buda nos disse como assegurar uma linda continuação – um pensamento solidário**, um pensamento belo. Perdão é nossa continuação. Se raiva, separação e ódio surgem, então conseguiremos assegurar uma bela continuação. Ao pronunciarmos uma palavra que é solidária**, boa e bela, assim também será nossa continuação.

    Quando uma nuvem é poluída, a chuva é poluída. Assim, ao purificarmos nossos pensamentos, palavras e ações, criaremos uma bela continuação. Podemos ver os efeitos de nossa fala em nossas crianças. Meus discípulos são minha continuação – tanto os monásticos, quanto os leigos. Desejo transmitir a fala, a ação e o pensamento amáveis. Isto é chamado karma no budismo.

    O meu corpo se desintegrará, mas meu karma irá continuar – karma significa ação. Meu karma já está no mundo. Minha continuação está em toda parte. Quando você observar um dos meus discípulos caminhando de maneira solidária**, saberá que ele é minha continuação. Não quero transmitir minhas emoções negativas, quero transformá-las antes de transmiti-las. A dissolução deste corpo não é o meu fim. Com certeza, eu continuarei após essa dissolução. Portanto não se preocupem com a minha morte, eu não morrerei.

    Vamos meditar acerca do nascimento de uma nuvem. Ela tem uma certidão de nascimento? (Thay ri). Examine a noção de nascimento – a noção de que algo pode vir do nada, de ninguém, tornar-se alguém. É possível alguma coisa coisa vir do nada? Do ponto de vista da ciência, isto não é possível. A nuvem era água no oceano, nos lagos, rios e o calor do sol deu origem a ela – o momento de continuação da água. Por exemplo, nascimento – antes de você nascer você estava no ventre de sua mãe. O momento do nascimento é um momento de continuação. O momento da concepção é o começo? Metade de você provém do seu pai e metade da sua mãe, também isso faz parte do momento de continuação. Ao praticar a meditação, você poderá ver coisas como essas.

    É impossível a nuvem morrer. Ela pode se tornar água, neve – ela não poderá se tornar nada. É impossível nós morrermos. A nossa fala, ação e pensamento irão continuar no futuro. A pessoa que morre ainda continua, se não vemos isso é por que não somos capazes de usar nossa meditação para ver. Ela continua em nós e em torno de nós. Todos os ancestrais estão vivos em nós. Nossos ancestrais estão em nossos cromossomos. Há um tempo, escrevi um livro chamado “Sem morte e nem medo” (No Death , No Fear publicado pela Parallax Press). Quando as condições são suficientes, eu me manifesto e quando não são, não. Não existe vir ou ir. Antes de algo se manifestar, costumamos dizer que era algo não existente. Mas antes de sua manifestação, você não podia chamá-lo de não-ser. Ser e não-ser são pares de opostos.

    Meditar sobre a natureza da criação e do ser é a melhor maneira de entender Deus. O teólogo Paul König descreve Deus como sendo a “Base do Ser”. Quem então seria a base do não-Ser? Isto diminui Deus. No budismo, ambas as noçoes de ser e não-ser não podem descrever a realidade. De maneira similar, acima e abaixo, Europa e aqui. Nirvana é a ausência de todas as noções, nascimento e morte, ir e vir, mesmo e diferente. De acordo com o Budismo, ‘ser ou não-ser’ não é realmente uma questão. A meditação nos leva para além, para um lugar onde não há medo. Somos demasiado ocupados, assim nos tornamos vítimas da raiva e do medo. Se conseguirmos tocar nossa natureza sem nascimento/morte, saberemos que morrer é uma das condições para nos tornarmos reais.

    Temos que aprender a morrer em cada momento, para estarmos verdadeiramento vivos. Este ensinamento do caminho do meio é o melhor do ensinamento do Buda. Muitos dos nossos ancestrais realizaram isso e não tinham medo da morte. Devemos ser capazes de relaxar nossas tensões. Nós somos o karma que produzimos no nosso dia a dia (…) Tenho um discípulo que quer construir uma estupa para guardar as minhas cinzas. Ele quer pôr uma placa com os dizeres ” Aqui jaz o meu amado professor”. Mas eu escreveria “Aqui não existe nada!” (muitos risos). Porque se você observar em profundidade existe uma continuação. Eu guardo o tempo que me resta principalmente para a minha prática. Quero gerar energia de amor, solidariedade e compreensão, para que assim eu continue de uma maneira bela.

    Gostaria que vocês fizessem o mesmo. Usem o seu tempo de maneira sábia. A cada momento, produzam belos pensamentos, bondade amorosa, perdão. Digam coisas bonitas, inspirem, perdoem, ajam no sentido de proteger e ajudar. Sabemos que somos capazes de produzir um belo karma para uma boa continuação e para a felicidade de outras pessoas.

    Quando chegar a hora da dissolução do corpo, você poderá soltá-lo facilmente. Não desejará se agarrar a ele – liberando tanto o corpo quanto a percepção. Lembre-se da imagem da nuvem no céu vendo sua continuação no arroz ou no sorvete. Você já pode ver sua continuação. A arte de viver é uma continuação. Para mim e para todos os seres.

    * intersão – verbo (inter+ser) criado por Thây para definir uma existência interdependente.
    ** solidário = compassivo.

    Aos que não foram forjados para viver amarrados

    Aos que não foram forjados para viver amarrados em clausuras, tampouco enquadrados em histórias.  

     A CABRA DO SENHOR SÉGUIN
    Ao Sr. Pierre Gringoire, poeta lírico em Paris.

    LA CHEVRE DE M.SÉGUIN
    À M. Pierre Gringoire, poète lyrique à Paris

    Alphonse Daudet
- les Letres de mon Moulin

    Tu serás sempre o mesmo, meu pobre Gringoire! Como! Oferecem-te um lugar de cronista em um bom jornal de Paris, e tu tens a petulância de recusar… Mas, olha-te, infortunado rapaz! Olha essa blusa esburacada, esses calções esfarrapados, essa face magra que apregoa a fome. Eis aí, portanto, aonde te conduziu a paixão das belas rimas! Eis o que te valeram dez anos de leais serviços nas páginas do senhor Apolo… Enfim, não tens vergonha?

    Tu seras bien toujours le même, mon pauvre Gringoire ! Comment ! on t’offre une place de chroniqueur dans un bon journal de Paris, et tu as l’aplomb de refuser… Mais regarde-toi, malheureux garçon ! Regarde ce pourpoint troué, ces chausses en déroute, cette face maigre qui crie la faim. Voilà pourtant où t’a conduit la passion des belles rimes ! Voilà ce que t’ont valu dix ans de loyaux services dans les pages du sire Apollo… Est-ce que tu n’as pas honte, à la fin ?

    Faze-te então cronista, imbecil! Faze-te cronista! Ganharás facilmente belos escudos, terás teu talher no Brébant e poderás exibir-te, nos dias de estréia, com uma pluma nova no barrete. Não? Não queres? Pretendes permanecer livre à tua maneira, até o fim… Pois bem, escuta um pouco a história da cabra do Sr. Séguin. Verás o que se ganha em querer viver livre.

    Fais-toi donc chroniqueur, imbécile ! Fais-toi chroniqueur ! Tu gagneras de beaux écus à la rose, tu auras ton couvert chez Brébant, et tu pourras te montrer les jours de première avec une plume neuve à ta barrette… Non ? Tu ne veux pas ?… Tu prétends rester libre à ta guise jusqu’au bout… Eh bien, écoute un peu l’histoire de la chèvre de M. Séguin. Tu verras ce que l’on gagne à vouloir vivre libre.

    O Sr. Séguin nunca tivera sorte com suas cabras; elas arrebentavam a corda, fugiam para a montanha, e lá no alto o lobo as comia. Nem os carinhos do dono, nem o medo do lobo, nada as retinha. Eram, parece, cabras independentes, querendo a qualquer preço a amplidão e a liberdade. O estimável Sr. Séguin, que nada compreendia do caráter dos seus animais, estava consternado e dizia:

    —    É o fim. As cabras se aborrecem em minha casa. Não conservarei nenhuma delas.

    M. Séguin n’avait jamais eu de bonheur avec ses chèvres. Il les perdait toutes de la même façon : un beau matin, elles cassaient leur corde, s’en allaient dans la montagne, et là-haut le loup les mangeait. Ni les caresses de leur maître, ni la peur du loup, rien ne les retenait. C’était, paraît-il, des chèvres indépendantes, voulant à tout prix le grand air et la liberté. Le brave M. Séguin, qui ne comprenait rien au caractère de ses bêtes, était consterné. Il disait :

    – C’est fini ; les chèvres s’ennuient chez moi, je n’en garderai pas une.

    Entretanto ele não se desencorajava, e depois de perder seis cabras do mesmo modo, comprou uma sétima; somente, desta vez, teve o cuidado de a prender enquanto muito nova, para que ela se habituasse melhor a permanecer em sua casa.

    Cependant, il ne se découragea pas, et, après avoir perdu six chèvres de la même manière, il en acheta une septième ; seulement, cette fois, il eut soin de la prendre toute jeune, pour qu’elle s’habituat à demeurer chez lui.

    Ah! Gringoire, como era bonita a cabrinha do Sr. Séguin! Como era linda, com seus olhos doces, sua barbicha de sub-oficial, seus cascos negros e luzentes, seus cornos zebrados e seus longos pelos brancos, que a cobriam como uma sobrepeliz! Era quase tão encantadora quanto o cabritinho de Esmeralda — lembras-te, Gringoire? E, ademais, dócil, carinhosa, deixando-se ordenhar sem se agitar, sem meter os pés no balde. Um amor de cabrinha…

    Ah ! Gringoire, qu’elle était,jolie la petite chèvre de M. Séguin ! qu’elle était,jolie avec ses yeux doux, sa barbiche de sous-officier, ses sabots noirs et luisants, ses cornes zébrées et ses longs poils blancs qui lui faisaient une houppelande ! C’était presque aussi charmant que le cabri d’Esméralda, tu te rappelles, Gringoire ? – et puis, docile, caressante, se laissant traire sans bouger, sans mettre son pied dans l’écuelle. Un amour de petite chèvre…

    O Sr. Séguin tinha atrás de casa um curral cercado de plantas espinhentas. Foi lá que ele pôs a nova pensionista. Ligou-a com uma canga de madeira ao mais belo sítio do prado, tendo o cuidado de lhe deixar bastante corda. De vez em quando ia ver se ela se encontrava bem. A cabra se achava muito feliz, e pastava a erva de tão boa vontade, que o Sr. Séguin estava encantado.

    — Enfim — pensava o pobre homem — eis aí uma que não se aborrecerá em minha casa!

    M. Séguin avait derrière sa maison un clos entouré d’aubépines. C’est là qu’il mit la nouvelle pensionnaire. Il l’attacha à un pieu, au plus bel endroit du pré, en ayant soin de lui laisser beaucoup de corde, et de temps en temps, il venait voir si elle était bien. La chèvre se trouvait très heureuse et broutait l’herbe de si bon coeur que M. Séguin était ravi.

    – Enfin, pensait le pauvre homme, en voilà une qui ne s’ennuiera pas chez moi !

    O Sr. Séguin se enganava; a cabra aborreceu-se. Um dia ela disse para si mesma, contemplando a montanha:

    — Como se deve estar bem lá em cima! Que prazer saltar entre a vegetação, sem esta maldita corda que esfola o pescoço da gente!… É bom para o burro ou para o boi, pastar num cercado!… As cabras necessitam de largueza.

    A partir desse momento a erva do cercado lhe pareceu insípida. Sobreveio-lhe o tédio. Emagreceu. O leite diminuiu. Dava dó vê-la arrastar a corda o dia inteiro, a cabeça voltada para o lado da montanha, a venta aberta, fazendo “mé”… tristemente.

    M. Séguin se trompait, sa chèvre s’ennuya. Un jour, elle se dit en regardant la montagne :

    – Comme on doit être bien là-haut ! Quel plaisir de gambader dans la bruyère, sans cette maudite longe qui vous écorche le cou !… C’est bon pour l’âne ou pour le boeuf de brouter dans un clos !… Les chèvres, il leur faut du large. .

    À partir de ce moment, l’herbe du clos lui parut fade. l’ennui lui vint. Elle maigrit, son lait se fit rare. C’était pitié de la voir tirer tout le jour sur sa longe, la tête tournée du côté de la montagne, la narine ouverte, en faisant Mê. !… tristement.

    O Sr. Séguin notou logo que a cabra tinha qualquer coisa, mas não sabia o que era. Uma manhã, quando acabava de a ordenhar, a cabra voltou-se e lhe disse no seu patoá:

    — Escute, Sr. Séguin, eu enlangueço em sua casa, deixe-me ir à montanha.

    —    Ah! Meu Deus!… Ela também! — gritou o sr. Séguin estupefato.

    E com o susto deixou tombar o balde. Depois, sentando-se na relva ao lado de sua cabra:

    — Como, Branquinha, queres deixar-me!

    — Sim, Sr. Séguin.

    M. Séguin s’apercevait bien que sa chèvre avait quelque chose, mais il ne savait pas ce que c’était… Un matin, comme il achevait de la traire, la chèvre se retourna et lui dit dans son patois :

    – Écoutez, monsieur Séguin, je me languis chez vous, laissez-moi aller dans la montagne.

    – Ah ! mon Dieu !… Elle aussi ! cria M. Séguin stupéfait, et du coup il laissa tomber son écuelle ; puis, s’asseyant dans l’herbe à côté de sa chèvre :

    – Comment, Blanquette, tu veux me quitter !

    Et Blanquette répondit :

    – Oui, monsieur Séguin.

    — É pasto que te falta aqui?

    — Oh! não, Sr. Séguin.

    — Talvez estejas amarrada a distância curta demais. Queres que te alongue a corda?

    — Não vale a pena, Sr. Séguin.

    — Então, que é que te falta? Que queres?

    — Quero ir para a montanha, Sr. Séguin.

    —    Mas, desgraçada, tu não sabes que há o lobo na montanha? Que farás quando ele vier?

    – Oh ! non ! monsieur Séguin.

    – Tu es peut-être attachée de trop court, veux-tu que j’allonge la corde ?

    – Ce n’est pas la peine, monsieur Séguin.

    – Alors, qu’est-ce qu’il te faut ? qu’est-ce que tu veux ?

    – Je veux aller dans la montagne, monsieur Séguin.

    – Mais, malheureuse, tu ne sais pas qu’il y a le loup dans la montagne… Que feras-tu quand il viendra ?…

    — Dar-lhe-ei chifradas, Sr. Séguin.

    — O lobo pouco se importa com teus chifres. Ele comeu cabritas muito mais chifrudas do que tu… Sabes da pobre velha Renaude, que estava aqui no ano passado, uma senhora cabra forte e malvada como um bode? Ela lutou com o lobo a noite inteira… depois, pela manhã, o lobo a comeu.

    — Ai dela! Pobre Renaude!… Isso não importa, Sr. Séguin, deixe-me ir à montanha.

    Divina Providência!… — disse o Sr. Séguin. — Que acontece às minhas cabras? Outra mais que o lobo vai comer… Pois bem, não… Eu te salvarei, a teu pesar, velhaca! E, porque receio que rompas a corda, vou fechar-te no estábulo, e ali ficarás sempre.

    – Je lui donnerai des coups de cornes, monsieur Séguin.

    – Le loup se moque bien de tes cornes. Il m’a mangé des biques autrement encornées que toi… Tu sais bien, la pauvre vieille Renaude qui était ici l’an dernier ? une maîtresse chèvre, forte et méchante comme un bouc. Elle s’est battue avec le loup toute la nuit… puis, le matin, le loup l’a mangée.

    – Pécaïre ! Pauvre Renaude !… Ça ne fait rien, monsieur Séguin, laissez-moi aller dans la montagne.

    – Bonté divine !… dit M. Séguin ; mais qu’est-ce qu’on leur fait donc à mes chèvres ? Encore une que le loup va me manger… Eh bien, non… je te sauverai malgré toi, coquine ! et de peur que tu ne rompes ta corde, je vais t’enfermer dans l’étable et tu y resteras toujours.

    Em seguida o Sr. Séguin levou a cabra para um estábulo todo escuro, cuja porta fechou com duas voltas da chave. Infelizmente, esquecera-se da janela; e, mal virou as costas, a pequena se foi…
Tu ris, Gringoire? Santo Deus! Acredito; tu és do partido das cabras, e estás contra o bom Sr. Séguin… Vamos ver se rirás todo o tempo.

    Là-dessus, M. Séguin emporta la chèvre dans une étable toute noire, dont il ferma la porte à double tour. Malheureusement, il avait oublié la fenêtre et à peine eut tourné, que la petite s’en alla…Tu ris, Gringoire ? Parbleu ! je crois bien ; tu es du parti des chèvres, toi, contre ce bon M. Séguin… Nous allons voir si tu riras tout à l’heure.

    Quando a cabra branca chegou à montanha, foi um encantamento geral. Jamais os velhos pinheiros tinham visto nada assim tão lindo. Receberam-na como a uma pequena rainha. Os castanheiros se curvavam até o chão, para acariciá-la com a ponta de seus ramos. As giestas douradas se abriam à sua passagem e a cheiravam quanto podiam. A montanha inteira fez-lhe festa. Imagina, Gringoire, como nossa cabra era feliz!

    Quand la chèvre blanche arriva dans la montagne, ce fut un ravissement général. Jamais les vieux sapins n’avaient rien vu d’aussi joli. On la reçut comme une petite reine. Les châtaigniers se baissaient jusqu’à terre pour la caresser du bout de leurs branches. Les genêts d’or s’ouvraient sur son passage, et sentaient bon tant qu’ils pouvaient. Toute la montagne lui fit fête.

    Tu penses, Gringoire, si notre chèvre était heureuse !

    Nada de corda, nada de canga… nada que a impedisse de pular, de pastar à sua maneira… E quanta erva havia lá! Até lhe ultrapassava os chifres, meu caro!… E que erva! Saborosa, fina, recortada, feita de mil plantas… Era muito diferente do capim do cercado. E as flores, então!… Grandes campânulas azuis, digitalis de púrpura, com longos cálices, toda uma floresta de flores selvagens, transbordando sucos capitosos.

    Plus de corde, plus de pieu… rien qui l’empêchât de gambader, de brouter à sa guise… C’est là qu’il y en avait de l’herbe ! jusque par-dessus les cornes, mon cher !… Et quelle herbe ! Savoureuse, fine, dentelée, faite de mille plantes… C’était bien autre chose que le gazon du clos. Et les fleurs donc !… De grandes campanules bleues, des digitales de pourpre à longs calices, toute une forêt de fleurs sauvages débordant de sucs capiteux !…

    A cabra branca, meio farta, espojava-se lá dentro com as pernas para o ar e rolava ao longo das encostas, de cambulhada com as folhas caídas e as castanhas. Em seguida saltava repentinamente e endireitava-se sobre as patas. Upa! Ei-la que partia, cabeça para a frente, através de cerrados e capoeiras, ora sobre um pico, ora no fundo de uma ravina, no alto, embaixo, por toda parte. Dir-se-ia haver dez cabras do Sr. Séguin na montanha.

    É que a Branquinha não tinha medo de nada.

    La chèvre blanche, à moitié soûle, se vautrait là-dedans les jambes en l’air et roulait le long des talus, pêle-mêle avec les feuilles tombées et les châtaignes… Puis, tout à coup elle se redressait d’un bond sur ses pattes. Hop ! la voilà partie, la tête en avant, à travers les maquis et les buissières, tantôt sur un pic, tantôt au fond d’un ravin, là haut, en bas, partout… On aurait dit qu’il y avait dix chèvres de M. Séguin dans la montagne.

    C’est qu’elle n’avait peur de rien la Blanquette.

    Ela franqueava de um salto grandes torrentes, que lhe atiravam à passagem poeira úmida de espuma. Então, toda gotejante, ia estender-se em alguma rocha plana e se fazia secar ao sol. Uma vez, avançando à beira de um planalto, com uma flor de citisa entre os dentes, vislumbrou lá embaixo, bem lá embaixo, na planície, a casa do Sr. Séguin com o cercado atrás. Isso a fez rir até as lágrimas.

    — Como é pequeno! — disse ela. — Como pude permanecer lá dentro?

    Elle franchissait d’un saut de grands torrents qui l’éclaboussaient au passage de poussière humide et d’écume.

    Alors, toute ruisselante, elle allait s’étendre sur quelque roche plate et se faisait sécher par le soleil… Une fois, s’avançant au bord d’un plateau, une fleur de cytise aux dents, elle aperçut en bas, tout en bas dans la plaine, la maison de M. Séguin avec le clos derrière. Cela la fit rire aux larmes.

    – Que c’est petit ! dit-elle ; comment ai-je pu tenir là dedans ?

    Pobrezinha! Ao ver-se empoleirada tão alto, acreditava-se pelo menos tão grande quanto o mundo.
Em resumo, foi uma linda jornada para a cabra do Sr. Séguin. Pelo meio do dia, correndo à direita e à esquerda, ela caiu no meio de um bando de gamos que despedaçavam, para comer, uma vinha selvagem. Nossa pequena corredora, de roupa branca, causou sensação. Deram-lhe o melhor lugar na vinha, e todos esses senhores foram muito galantes… Parece mesmo — isto deve ficar entre nós, Gringoire — que um jovem gamo de pelagem negra teve a sorte de agradar a Branquinha. Os dois namorados se perderam entre o bosque, durante uma ou duas horas; e se quiseres saber o que disseram, vai perguntar às fontes tagarelas que correm invisíveis sob o musgo.

    Pauvrette ! de se voir si haut perchée, elle se croyait au moins aussi grande que le monde… 
    En somme, ce fut une bonne journée pour la chèvre de M. Séguin. Vers le milieu du jour, en courant de droite et de gauche, elle tomba dans une troupe de chamois en train de croquer une lambrusque à belles dents. Notre petite coureuse en robe blanche fit sensation. On lui donna la meilleure place à la lambrusque, et tous ces messieurs furent très galants… Il paraît même, – ceci doit rester entre nous, Gringoire, – qu’un jeune chamois à pelage noir, eut la bonne fortune de plaire à Blanquette. Les deux amoureux s’égarèrent parmi le bois une heure ou deux, et si tu veux savoir ce qu’ils se dirent, va le demander aux sources bavardes qui courent invisibles dans la mousse.

    De repente o vento esfriou. A montanha se tornou violeta. Era a noite…

    — Já! — disse a cabrinha, e se deteve muito espantada.

    Embaixo, os campos estavam inundados de bruma. O cercado do Sr. Séguin desaparecia na penumbra, e da casinhola só se via o teto com um pouco de fumaça. Ela ouviu as campainhas de um rebanho que se recolhia, e sentiu a alma muito triste. Um corujão que voltava ao ninho a esfrolou com as asas, ao passar. Ela estremeceu… depois foi um brado na montanha:

    —    Uuuuu! Uuuuu!

    Tout à coup le vent fraîchit. La montagne devint violette ; c’était le soir.

    – Déjà ! dit la petite chèvre ; et elle s’arrêta fort étonnée.

    En bas, les champs étaient noyés de brume. Le clos de

    M. Séguin disparaissait dans le brouillard, et de la maisonnette on ne voyait plus que le toit avec un peu de fumée. Elle écouta les clochettes d’un troupeau qu’on ramenait, et se sentit l’âme toute triste… Un gerfaut, qui rentrait, la frôla de ses ailes en passant. Elle tressaillit…

    puis ce fut un hurlement dans la montagne :

    – Hou ! hou 

    Ela pensou no lobo; o dia inteiro a louca não tinha pensado nisso… No mesmo instante, uma trompa soou bem longe, no vale. Era esse bom Sr. Séguin, que tentava um último esforço.

    — Uuuu! Uuuu! Uuuu! — fazia o lobo.

    — Volta! Volta! — gritava a trompa.

    Branquinha teve vontade de voltar, mas lembrando-se da canga, da corda, da cerca do curral, pensou que já agora não mais se podia afazer àquela vida, e que era melhor ficar.

    A trompa não soou mais…

    Elle pensa au loup ; de tout le jour la folle n’y avait pas pensé… Au même moment une trompe sonna bien loin dans la vallée. C’était ce bon M. Séguin qui tentait un dernier effort.

    – Hou ! hou !… faisait le loup.

    – Reviens ! reviens !… criait la trompe.

    Blanquette eut envie de revenir ; mais en se rappelant le pieu, la corde, la haie du clos, elle pensa que maintenant elle ne pouvait plus se faire à cette vie, et qu’il valait mieux rester.

    La trompe ne sonnait plus…

    A cabra ouviu atrás de si um rumor de folhas. Voltou-se, e viu na sombra duas orelhas curtas, muito direitas, com dois olhos que reluziam… Era o lobo.

    Enorme, imóvel, sentado sobre os quartos traseiros, estava ali, olhando para a cabrinha branca e saboreando-a por antecipação. Como sabia que a comeria, o lobo não se apressava; somente, quando ela se voltou, ele se pôs a rir maldosamente.

    — Ah! Ah! A cabrinha do Sr. Séguin! — e passou a grossa língua vermelha sobre as beiçolas de cogumelo.

    La chèvre entendit derrière elle un bruit de feuilles. Elle se retourna et vit dans l’ombre deux oreilles courtes, toutes droites, avec deux yeux qui reluisaient…

    C’était le loup.

    Énorme, immobile, assis sur son train de derrière, il était là regardant la petite chèvre blanche et la dégustant par avance. Comme il savait bien qu’il la mangerait, le loup ne se pressait pas ; seulement, quand elle se retourna, il se mit à rire méchamment.

    – Ah ! ha ! la petite chèvre de M. Séguin ! et il passa sa grosse langue rouge sur ses babines d’amadou.

    Branquinha sentiu-se perdida… Por instantes, lembrando-se da história da velha Renaude, que se tinha batido a noite toda para ser devorada pela manhã, disse para si mesma que talvez fosse melhor deixar-se comer imediatamente. Depois, tendo mudado de idéia, caiu em guarda, a cabeça baixa e o chifre para a frente, como corajosa cabra do Sr. Séguin que era. Não que tivesse esperança de matar o lobo — as cabras não matam o lobo — mas unicamente para ver se poderia resistir tanto tempo quanto a Renaude…

    Então o monstro avançou, e os pequenos chifres começaram a dança.

    Ah! a valente cabrinha, como lutava com todas as forças! Mais de dez vezes (eu não minto, Gringoire) ela forçou o lobo a recuar para retomar alento. Durante essas tréguas de um minuto, a gulosa colhia às pressas um brotinho da erva querida, depois retornava ao combate, com a boca cheia. Isso durou toda a noite. De quando em quando a cabra do Sr. Séguin olhava as estrelas dançarem no céu claro, e dizia consigo mesma:

    — Oh! tomara que eu resista até a madrugada…

    Alors le monstre s’avança, et les petites cornes entrèrent en danse.

    Ah ! la brave chevrette, comme elle y allait de bon coeur ! Plus de dix fois, je ne mens pas, Gringoire, elle força le loup à reculer pour reprendre haleine. Pendant ces trêves d’une minute, la gourmande cueillait en hâte encore un brin de sa chère herbe ; puis elle retournait au combat, la bouche pleine… Cela dura toute la nuit. De temps en temps la chèvre de M. Séguin regardait les étoiles danser dans le ciel clair et elle se disait :

    – Oh ! pourvu que je tienne jusqu’à l’aube…

    Uma após outra, as estrelas se extinguiram. Branquinha redobrou as chifradas, o lobo as dentadas… Um pálido clarão apareceu no horizonte… O canto enrouquecido do galo subiu de uma fazenda.

    — Enfim! — disse o pobre animal, que não esperava senão pelo dia para morrer.

    E ela estendeu-se por terra em sua bela pelagem branca, toda malhada de sangue… Aí o lobo se atirou sobre a cabrinha e a devorou.

    L’une après l’autre, les étoiles s’éteignirent. Blanquette redoubla de coups de cornes, le loup de coups de dents…

    Une lueur pâle parut dans l’horizon… Le chant du coq enroué monta d’une métairie.

    – Enfin ! dit la pauvre bête, qui n’attendait plus que le jour pour mourir ; et elle s’allongea par terre dans sa belle fourrure blanche toute tachée de sang…

    Alors le loup se jeta sur la petite chèvre et la mangea.

    Adeus, Gringoire!

    A história que ouviste não é um conto de minha invenção. Se algum dia vieres à Provença, nossos caseiros te falarão freqüentemente da cabro de moussu Séguin, que se battègue touto la neui emé loup, e piei, lou loup la mangé — A cabra do Sr. Séguin, que se bateu toda a noite com o lobo, e depois, pela manhã, o lobo a devorou.

    Ouves-me bem, Gringoire?

    E piei, lou loup la mangé.

    Adieu, Gringoire !

    l’histoire que tu as entendue n’est pas un conte de mon invention. Si jamais tu viens en Provence, nos ménagers te parleront souvent de la cabro de moussu Séguin, que se battégue tonto la neui erré lou loup, e piei lou matin lou loup la mange.

    Tu m’entends bien, Gringoire.

    Alphonse Daudet


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