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Da harmonia como categoria metafísica primordial ~ Harmony as primordial metaphysical category

pequens  passarinhos

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômio consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas desmoronam; o espaço-tempo passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes, construídos dos signos da natureza e dos significados dos observadores. Essa é a perspectiva cosmo-existencial onde a consciência e o mundo se entrelaçam com reciprocidade unitária; a consciência é do mundo que é da consciência, estruturando uma intenção radical e transpessoal. O Ethos, a moradia fundamental da humanidade, é um “rebis” alquímico, junção opositiva e complementária dos dois atributos ou substâncias da filosofia moderna; saber explicitado por Descartes-Espinosa, mas reconhecido por xamãs desde a alvorada do homo sapiente.

Nessa esfera cosmo-existencialista, o verbo “ser” opera e rege sem tempo passado nem futuro a não ser nas hipóteses das academias, cúrias, histórias e culturas; o único tempo desse verbo é o presente; ele também possui um modo típico que é o real, mais um complemento integrado, um estado, ou uma intenção necessária. Trata-se de um acontecimento onde se declina e se flexiona a existência num enlace radical onde ser e estado, como consciência e natureza, se conjugam impreterivelmente; ser é um estado presente e real, naturando. Genuínos, poetas, artistas e filósofos, antes de serem sujeitos enquadrados em culturas, reconhecem e vivem o mistério cosmo-existencial como categoria filosófica prima mais apriorística e essencial, trazendo a noção de completude e de unidade, evidenciando a participação sincrética e necessária do indivíduo e do mundo. A esfera cosmo-existencial assim experienciada é plena e completa, conjugando o indivíduo à totalidade. A essência, ancorada no ponto de junção desse mistério unitário, fecunda a totalidade do ser e seus estados num grande e supremo magnificat onde se compõe a vida num gerúndio infinito, declamando e cantando união; revelando-se que “todas as coisas estão cheias de deuses!” – Tales de Mileto.

Essa apreciação justa do paradoxo unitário, a consciência de ser cosmos, bem reconhecida e aceita, explicita uma comunhão existencial radical que evoca um sentimento de união e consagra o reconhecimento do Belo; uma realização sincrônica a um Ethos convivial, harmonioso e estético. Honrar essa união nas circunstâncias onde se vive permite inscrever felicidade na experiência vital; um bem-estar circunstanciado que resulta da capacidade de se pôr em sintonia com o real, celebrar no momento e estado atual as dimensões essenciais, além dos processos, fluxos e oscilações; um sentimento profundo onde enraízam os potenciais infinitos do amor. Essa consagração e celebração conjunta do Belo e do Ethos afirmam a estrutura cosmo-existencial, fenomênica e harmônica.

Mais basilar de que as metrificações do espaço-tempo e demais delimitações discriminadoras do pensamento, a harmonia pertence à estrutura psicofísica integrando o fenômeno como categoria cosmo-existencial prima. Como magno fundamento categórico, a harmonia traz as noções de completude e inteireza, ou plenitude, presentes por necessidade, brilhando na apreciação estética mais intensa e nos mistérios do espanto filosófico; mesmo intuída ao avesso, como um vazio, a plenitude, pungente e soberana, se manifesta no céu estrelejado, na beleza das flores, nos vibratos do violino, na intensidade dos olhares e abraços quando acontecem, preenchendo todos os espaços e lugares, integrando as flores do campo aos céus.

Habitar em culturas insanas, afundadas na dicotomia kantiana onde se nega a patente comunhão essencial do estado-de-ser, agremiações sociocratas regidas por humanos que desconhecem o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, significa viver em baldios descuidados, sofrer em manifestações políticas e teológicas espúrias que mascaram a unidade, fundamento verdadeiro da  existência e do amor. Habitar nesses contextos culturais despedaçados, mas querendo sustentar níveis de vitalidade suficiente, demanda a aproximação dos lugares onde se vive com intensidade, comunicando e recebendo sinais de harmonia; as criaturas que transmitem esses sentimentos e saberes, afirmam a verdade do estado-de-ser intuídas pelas musas, vivem nos arredores do grande portal que separa o mundo panteísta e suas sincronias harmoniosas do reino dos banimentos, das dissintonias, introversões e extrapolações teocráticas.

Mesmo vivendo em dimensões socioculturais e teopolíticas imperiais onde se renega a realidade unitária, ainda é possível sentir o estado-de-ser na sua completude, abraçar-se com a existência, conhecer o belo e o real. Sentimentos pacificados, permeados de momentos extasiantes, eternamente aguardam os que transgridam as impressões batismais anatemáticas e as maldições da ortodoxia para se reconhecerem harmoniosamente integrados ao divino que é a nossa mesma natureza. O encontro supremo com a essência sustenta a integração do estado-de-ser e manifesta a natureza extasiante do Ethos onde originamos e onde somos destinados a viver como um único povo; os que sabem comungar esse valor lembrando a fonte, uma fração sempre crescente dos existentes, já estão construindo a nova cidade.

Harmony as primordial metaphysical category

By: Régis Alain Barbier

To whom acknowledges the consciousness-cosmos binomial as an absolute phenomenon, declaiming in a radical monism the paradoxical unity of the substances and philosophic attributes, the Kantian categories collapse; space-time comes to be a wide momentum in which past and future are present, built by nature´s signs and the observers´ meanings. This is the cosmos-existential perspective where consciousness and the world interlace themselves with unitary reciprocity; consciousness belongs to the world that in turn belongs to consciousness, structuring a radical and transpersonal intent. Ethos, humanity´s fundamental dwelling, is an alchemical ‘rebis’, opposite and complementary junction of the two attributes or substances of modern philosophy; a knowledge explained by Descartes-Spinoza, but recognized by ‘xamãs’ since the homo sapiens’ daybreak.

On this cosmos-existentialistic sphere, the verb ‘to be’ works without past time nor future except in the academies´, curia´s, histories´ and cultural´ hypoteses; the only time of this verb is the present; it also possesses a typical mode which is the real one, an additional integrated complement, a state, or a needed intent.  It is a happening where existence declines and inflects in a radical union where being and state, as consciousness and nature, unfailing inflecting themselves; being is a present and real naturating time. Genuines, poets, artists and philosophers, prior to becoming subjects fitting into cultures, acknowledge and live the cosmos-existential mystery as more aprioristic and essential prime philosophical category, bringing the completeness and  oneness notion, evidencing the individual´s and the world´s syncretic and necessary participation.  The cosmos-existential sphere thus experienced is entire and complete, uniting the individual to the entirety. Essence, firmly secured to this unitary mystery junction point, fosters the entirety of the being and its states into a great and supreme ‘magnificat’ where life is composed in an endless gerund, declaiming and singing union; revealing that “everything is full of gods” – Tales from Miletus.

This just appreciation of the unitary paradox, the consciousness of being cosmos, well recognized and accepted, explains a radical existential communion evoking a union feeling and consecrating the acknowledgement of the Beautiful; a synchronic realization to a convivial, harmonious and aesthetic Ethos. To honor this union on the circumstances where one lives, allows to inscribe happiness in the vital experience; a detailed well-being resulting from the capacity of putting itself tuned with the real, celebrating at the present moment and state the essential dimensions, besides the processes, flows and oscillations; a deep feeling where love´s endless potentials are rooted. This Beautifulness´ and Ethos´ joint consecration and celebration affirm the cosmos-existential, phenomenal and harmonic structure.

More fundamental than the space-time metrifications and other thought discriminating delimitations, harmony belongs to the psychophysical structure integrating the phenomenon as prime cosmos-existential category. As great categorical principle, harmony owns the completeness and entirety, or plenitude, present because of need, shining on the most intense aesthetic appreciation and on the philosophic astonishment mysteries; even when reversely uttered, as an emptiness, plenitude, pungent and sovereign, manifests itself on a starry sky, on the flowers´ beauty, on the violin´s vibratos, on the embraces and eyes expressions when they occur, filling every space and place, integrating the field flowers to the skies.

To inhabit in insane cultures, submerged into the Kantian dichotomy where the evident state-of-being essential communion is denied, sociocratic associations ruled by humans who ignore the cosmos-existential metaphysical perspective, mean to live in neglectful barren plots of land, to suffer with political manifestations and spurious theologies that disguise the oneness, truthful foundation of existence and love. To inhabit in these shattered cultural contexts, but willing to support sufficient vitality levels, requires to come close to the places where one can intensively live, communicating and receiving harmony signs; the creatures who transmit these feelings and knowledge, affirm the state-of-being truthfulness uttered by the muses, and live around the large portal separating the pantheistic world and its harmonious synchronies from the reign of the banishments, dis-syntonies, introversions and theoretical extrapolations.

Even living in socio-cultural dimensions and imperial theo-politics where the unitary reality is denied, it´s still possible to completely feel the state-of-being, embrace the existence, know the beautiful and the real. Peaceful feelings, permeated of ravishing moments eternally awaiting those who infringe the anathematic baptismal impressions and the ortodoxy´s curses to harmoniously acknowledge themselves integrated to the divine which is our nature itself. The supreme encounter with the essence sustains the state-of-being integration and manifests Ethos´ ravishing nature where we originate from and where we are meant to live as a single people; those who know how to communicate this value remembering the source, an always increasing fraction of the existing beings, are already building a new city.

Metafísica: psicogeografia e teopolítica ao redor das muralhas românicas

bring back the throne

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômino consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas caem e revolucionam! Desmorona o espaço-tempo que passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes feitos de signos da natureza e significados dos observadores; tudo é esférico, consequente e decorrente; assim sendo, é possível, na mesma narrativa e poucos parágrafos, pincelar e agregar, em significados plenos, eventos distantes e seculares;  evocar o “nada sei” de Sócrates, as vitórias e derrotas dos césares, falar do divino como um todo, tantra e salvação, da modernidade e das utopias, abraços e esperanças dos poetas: tudo se conjuga, faz sentido e se explicita na trama evolutiva.

A poderosa Roma, agregando pedaços de territórios, riquezas e culturas das terras e povos conquistados, lentamente, se agigantou e, como tudo que cresce, se desagregou. No século IV, o Imperador Constantino, senhor da metade do Império, encomendou aos sacerdotes em desacordos uma única visão, tentando atrelar a aventura imperial decadente a um mito forte e consensual, procurando manter o curso da carruagem teopolítica. O império chegou ao fim nas ondas iradas e vingativas dos visigodos, mas ainda não caiu o papado que continua laureando os novos césares, dando coroas aos vassalos dos plutocratas, como antes dava aos invasores germanos, mantendo a sua pompa palaciana.  Hoje a igreja imperial continua regendo das ruínas dos césares, onde sacerdotes mansos vestidos de branco e escarlate assentam em tronos de outrora, infundindo a doutrina imperial talhada para bem servir os poderosos, abençoando as massas banidas do céu, ajoelhadas e vencidas nos percalços da história e dos mitos, esperando com fé uma vida plena além dos umbrais da morte.

Mas como todos os povos de antes da conquista e de sempre, ao longo da totalidade dos séculos, Incas, Tupis, Guaranis, Ianomâmis, Carajás, Jurunas e tantos outros, celtas, gaulês, jônicos e outras mil tribos de pagãos do além-mar e das quatro direções; somos todos da terra, temos origem caipira e indígena; os humanos atuais e toda a linha dos mamíferos  antecedentes não nascem em repolhos, ninhos de cegonhas ou pias batismais, tampouco em frascos de laboratórios: nascemos em úteros de mulheres, somos frutos originais e produtos do sistema solar, resultantes de muitas miscigenações e repiques, de uniões e atrações bioquímicas, biofísicas e amores carnais; todos enredados numa incomensurável e única teia de eventos. Entranhada nos decursos progressivos da lucidez e autonomia cosmo-existencial, a natureza, continuado e universal processo de individuação, manifesta um fragmento da imensidão no momento em que nasce humana.

Essa cosmologia feita humana não merece e não deve receber o grave e estranho anátema, a impressão batismal enunciada pelos sacerdotes do Império: afirmando os nascidos como banidos da esfera celestial; concebendo os corpos e o Ethos como veículos facultativos da vida; indivíduos não originais dessa terra e florestas, almas e espíritos zumbis provindo de um radical além-mundo, do sobrenatural das hipóteses! Tal anátema abala e destrói o bom senso, recolhe a inteligência natural do estado-de-ser e embrutece o Homo sapiens. Espantado, o psiquismo sensível e indígena, significativo e real, que deveria acompanhar e reger a vida como um gênio inato, desconecta do estado-de-ser gerando um sentimento intenso de perdição, mergulha num nimbo ignaro e carente onde parece destituído de rumos e paradeiros, algo acidental, pronto a submeter-se a vaporosas psicanálises e rigorosas catequeses.

Desenvolver-se como se deve, de acordo com a natureza, exige um saber cuja lucidez e fonte não se acham nas cúrias e academias sustentadas e sustentadoras do sistema que desonra a luz natural da razão. O o amadurecimento e a ressurgência do homo sapiente exige uma compreensão e reconhecimento radical, negações firmes e escolhas decisórias, transculturais e metafísicas. A humanidade é adequadamente civilizável, mas apenas em culturas amáveis, livres e igualitárias, fazendo jus à natureza original e unitária do estado-de-ser: o homo sapiente necessita e merece uma educação ponderada, transmissora de mitos que honram e enobrecem a natureza intuída na esfericidade cosmo-existencial, assentada no seu Ethos refletindo o Logos à luz da razão natural. A espúria piramidografia e triangulação educacional, psicanalítica-terapêutica degenera a criatura humana e sustenta um sistema escalar de representantes e representados, Superego, ego e Id  que não são capazes de promover um mundo dialógico e não permitem que se revelem arranjos circulares, esféricos e horizontais dignos de uma grande fraternidade onde possam conviver todas as criaturas em harmonia; o tríptico da prepotência e superestratificação sustenta e confirma a vigência de impérios culturais, econômicos e políticos truculentos e insanos.

Iludida por mitos e impressões batismais que renegam as evidências unitárias a favor de hipóteses escapistas afirmadas com arrogância, desprivada da sua visão nativa e capacidade de sentir a congruência e a totalidade, a criatura é induzida a imaginar uma ruptura substancial entre a sua percepção (mundo transcendental do sujeito) e o dado-a-ser que naturalmente se percebe, rompendo dessa forma a unidade fenomênica do processo existencial; uma ruptura que permite iludir a absurda existência de uma “coisa-em-si” que jamais se conhece, domínio da esfera transcendente, arranjo hipotético e reservado das coisas do além, palanque do deus teísta sobrenatural e mitologia associada. O eixo de perspectiva metafísica que sustenta a vigência da edificação românica pode ser adequadamente definido como transcendente-transcendental. Uma equação metafísica ilusória e dualista que transforma o dado-a-ser denotado à luz da razão natural em nulidades e representações artificiosas de algo cuja realidade não pode ser comprovada a não ser deixando de reconhecer o que se é para acreditar nas perspectivas advogadas, ou seja,  um esquema cogitado e ensimesmado no interior  de muralhas para melhor servir os interesses de um domínio cuja intenção profunda renega a filosofia e prudência a favor das constrições do divinizado status quo imperial.

Teria existido na antiguidade, orla externa ao círculo das muralhas de Roma, uma perspectiva metafísica hoje dificilmente imaginada nas obnubiladas ontologias e representações da atualidade românica?

Do lado externo das muralhas, lugares descritos pelos primeiros historiadores que viviam no começo da nossa era calendário, no mundo dos pré-socráticos, de Tales de Miletos e Heráclito, dos Taoistas amantes e conhecedores das coisas naturais, incubava uma visão profunda e diversa, um dragão apto a ser descrito em termos compreensíveis aos românicos. Essa perspectiva metafísica existia pressuposta e evidente, por isso dispensando descrições, mas hoje precisando serem ditas e afirmadas. No mundo antigo, o processo existencial metafisicamente contrastado com o românico, a perspectiva central em torno da qual se dialogava, negociando ideias e pontos de vista, era um eixo de perspectiva metafísica denominável cosmo-existencial. Lugar em que a estrutura e inteligência da natureza se interpenetram e realizam  a humanidade, junção existencial fenomênica onde se vive a forma unitária da consciência e do mundo, do ser e do seu estado; lugar onde a cosmo-existência se consagra numa fresta mística que existe entre a estrutura do mundo e da consciência; monismo onde se reconhece que, em quaisquer pontos da história e do porvir, cosmos e existência não se dissociam jamais, a não ser em pasmas e reflexões hipotéticas! No humanismo antigo, a medida de todas as coisas tendia a se equacionar e naturar na lucidez desse cosmo-existencialismo; a apreciação sensível, qualitativa e filosófica desse fenômeno é determinante na configuração de uma estrutura societária mais sábia, onde se possam orientar bons destinos, éticas e praxes.

Uma vez desenhados e reconhecidos, os dois eixos de perspectivas metafísicas – da coisa-em-si de lá e de cá – denota-se com clareza o que diferencia o mundo antigo, com grau de sapiência eclodido e amadurecido, do mundo românico imperial: de um lado a ordem societária é mantido e regida à custa de decreto de decisões elitistas; do outro, tende-se administrar as coisas da cidade em diálogos e debates que acontecem ao redor de círculos dialógicos e conselhos de anciãos e sábios. A visão do divino e sagrado dos antigos e pagãos, dos que margeiam as muralhas, tende ser dialógica, central; se o divino, belo e sagrado, os deuses e deusas, vivem entre nós, podem ser contatados e serem conhecidos por todos, não existe ninguém com espaço reservado. Na perspectiva natural, a consciência esclarece o cosmos que se conscientiza numa iluminação absoluta; uma realidade inabalável até provar em contrário, um fundamento essencial, monístico, paradoxal talvez, que só se renega toscamente, recorrendo a hipóteses imprudentes evocando sobrenaturalismos milagreiros e orfismos radicais, reinos de eurídices que jamais se contemplam; ou dito em prosa seca e franca, hipóteses e imaginações que não passam no crivo do bom senso. Algo tão perfeito, perene e fatal, universalmente reconhecido como a junção paradoxal dos atributos de Espinosa e das “res” de Descartes numa forma unitária, algo alquímico quando a consciência e o mundo se entendem como Tao, só pode gerar paz nos momentos civíticos e citadinos da existência, expressar oitavas de harmonias claras.

O sistema civilizatório que se elaborou e amadureceu no seio da evolução política imperialista, universalizou-se ao redor do mito abraâmico  que na esfera geopolítica do Império Romano melhor sintonizou e magnificou esse impulso dominador e imperioso junto com essa noção teocrática que, juntos, geram esse absolutismo intolerante e messiânico, na órbita do qual se entranham o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, que advogam esse orfismo radical e sobrenaturalista onde se ancora o hierarquismo imperial cuja legitimidade e bom senso desmoronam ao afirmar o eixo mais antigo de perspectiva  metafísica aqui apontado e denominado cosmo-existencial.

Essa aspiração ou utopia filosófica e científica de harmonia universal e panteística, visão ancorada ao que é justo e sensato nas pautas e rimas de um processo evolutivo imaginado bem sucedido, não pode ser apenas o sonho reservado de alguns pensadores, elaboração reativa e neurótica frente ao padrão românico, lugar em que o impera o eixo de perspectiva metafísico teísta piramidal e hierarquista. Previnem-se apressadas impressões alienistas deixando claro que como um movimento oscilante, em gangorra, a expressão progressiva de adequação evolutiva de uma espécie vicejando em busca do seu loci verdadeiro e ponderado não se observa plenamente nas durações curtas das nossas vidas e das histórias que se contam.

Os dois pareceres, o eixo de perspectiva transcendente-transcendental, piramidal, representativo, fiduciário, opositivo, retraído e escapista frente à apreciação  mais gozosa e extática da vida, versus o eixo de perceptiva cosmo-existencial, aberto a formas filosóficas e teológicas extáticas, celebrando a trama universal, dialógica, circular, esférica, lastrada em coisas telúricas; ambas as tendências e humores, ou modos de existir, coexistem como as máscaras da Commedia dell’arte, entranhados e alternantes, concomitantes, esboçados nos dois lados dos conflitos, mesmo quando rigorosos e dramáticos como se articulam na história como a invasão românica da santa terra das tartarugas, todas as batalhas, até mesmo na grande batalha mítica de Kurukshetra que findava rigorosamente ao pôr-do-sol, pois à noite havia confraternizações entre os soldados de ambos os lados.

Existe no cristianismo, no sufismo, no cristianismo esotérico, em certos aspetos pitagóricos da tradição hebraica, movimentos e aberturas em busca do sublime que tendem a ponderar, desmascarar ou negar o  radicalismo do eixo dualístico onde as tradições e praxes históricas atrelam delimitando a trama existencial em divisões rigorosas; essas buscas tênues e desordenadas de unidade amorosa e aproximações ponderam e amenizam a natureza fortemente antitética das veracidades em confronto. Ademais das expressividades monistas e exemplares dos pré-socráticos jônicos, taoistas, algumas formas de zen, tradições xamânicas onde se usam plantas de poderes como sacramentos onde se ajuntam as coisas da consciência e do mundo em enlaces unitários, nos momentos onde tribos se reúnem em confederações pacíficas circulando o bastão da fala ou cachimbo da paz, existem igualmente, no mundo dito pagão, longe das influências românicas, pelejanças, rituais e bruxarias onde se lançam feitiços contra forças estranhas, consideradas malígnas, embora não sobrenaturais, evocando fortes dualismos.

Sintonias e dissintonias, simpatia e antipatia, harmonias e desarmonias, unidade e dualidade  acontecem na textura do mundo, onde as perfeições sistêmicas da natureza cósmica convivem com as expressões afetivas e éticas dos humanos, gerando episódios e momentos exóticos e atípicos, onde os eixos antagônicos de perspectiva metafísica se entranham de maneira complexa, mas no ritmo aparentemente insano dos eventos, momentos se organizam balanceados, deixando aparecer e revelando com clareza a direção dessas polarizações onde se confrontam as dimensões da insensatez e da credulidade com as dimensões da justa razão e ponderação, equacionando eventos dramáticos resultando  em mudanças intensas de paradigmas e epistemes. Nesses processos, compreende-se que um destino próspero e feliz exige que os sonhadores idealísticos imaginando viver em espaços etéreos desprovidos de matéria, de acordo com visões arcaicas onde se confundem metáforas com a realidade tangível, devem se render à realidade que a medida das coisas que acontecem entre o sol e a terra ajunta em união às coisas do mundo e da consciência sensível e racional em formações civíticas onde se valem a totalidade das partes e níveis existenciais, círculos dialógicos, participações plenas e igualitárias com todos os que vivem irmanados no mesmo arco cósmico de existência.

No fluxo desses eventos vitais, uma civilização regida através de eixo de perspectiva como-existencial, ou panteísta, desponta como um advento imprescindível, uma  realidade necessária, para que possamos acontecer em harmonia, extraindo do Ethos e Logos a ética universal que deve ser atrelada ao bom mito do eterno retorno e da esfericidade onde se reconhece que vivemos em realidades políticas de acordo com que achamos ser: infernos, imaginando-se  banidos; paraísos, imaginando-se no lugar adequado celebrando um panteão de lucidez onde a consciência e a imaginação se ilustram em narrativas onde se apreciam o belo e divino, povoando o mundo de deuses e deusas em harmonia com o dado-a-ser, absoluto detentor do grande mistério existencial que é como é, sem que jamais se possa saber por quê.

Habitar no mundo, éticas e percursos afetivos ~ To inhabit in the world, affective ethics and courses

mascaras

Régis Alain Barbier

A estrutura e inteligência da natureza se interpenetram em junção fenomênica, trata-se da forma unitária da consciência e do mundo, do ser e do seu estado, do estado-de-ser; o cosmos se consagra numa fresta mística que existe entre a estrutura do mundo e da consciência; em quaisquer pontos da história e do porvir, cosmos e existência não se dissociam jamais a não ser em reflexões hipotéticas! A medida de todas as coisas se equaciona na lucidez desse cosmo-existencialismo, realidade que integra em harmonia gerundial, naturando, o Logos e o Ethos; a apreciação sensível, qualitativa e filosófica, sábia, desse fenômeno é determinante na configuração dos eixos de perspectiva metafísica que orientam os nossos destinos, éticas e praxes.

Renegar a insuperável e evidente integração fenomenológica cosmo-existencial, almejar superar o real em reflexões tuteladas em cogitações insensíveis e ideais de academias e cúrias obriga a imaginar uma ruptura radical, um fundamente dualístico que afunila numa forma teleológica em que se supõe uma junção acidental, ou de alguma forma opositiva, infeliz, da consciência e do mundo, evocando-se uma “consciência pura caída na matéria”, assim sendo, um Ethos sobrenatural, atolado no mundo material e atrelado a um Logos visitante celestial, alado, como revelado nas escrituras! A natureza, como natureza, antes divina e soberana no mundo dito pagão, regida pelo sol e a lua, pelos ciclos do dia e da noite, passa a ser servente e objeto dos iluminados do além  mundo!

Mas aceitar com gosto e espanto criativo e curioso essa agregação fenomenológica da existência e da consciência como uma unidade paradoxal onde o mistério se guarda e celebra com amor no coração de cada uma das criaturas leva a vislumbrar uma junção perenal sem cogitos teleológicos infundados; um monismo integrado e paradoxal, supralógico, onde existir em consciência se revela como facticidade absoluta.

Uma vez que se compreende que o pensador enfronhado em reflexões escapistas não é a medida de todas as coisas, a não ser no castelo enclausurado das suas próprias ciências e ideias; que o pensamento silogístico não toca a natureza,  mas as interpretações; que a medida de tudo quanto existe é melhor ponderada através da psique natural para quem pensar é sentir; arte cognitiva onde se conhece e sabe o essencial de imediato apreciando e saboreando os valores burilados pela natureza; reconhecido que a meditação e contemplação, à luz da razão natural, levam a uma apreensão mais verdadeira das justas correlações e evolução do estado-de-ser: denota-se nesses confrontos, tensões e descobertas, que enraízam em dois caminhos ou fundamentos, duas formas de habitar a existência.

O dualismo facciona e rompe o estado-de-ser, cria e desloca um hipotético “Ser” sem estado algum em ideais sobrenaturalistas, ventila sentidos finalistas e terminativos, condicionando o adepto a procurar o grande sentido nas catequeses e impressões batismais impostas pela cultura, ou, sendo mais curioso, debater outras formas, mas sempre ouvindo os prelados e iniciados como se fossem indígenas do além. Nesse caso a ética passa a ser como uma arquitetura barroca tendendo deslocar o sitio existencial, horizontal e natural, considerado acidental, infeliz, em direção ao azul do céu, um reino do além, estimulando a projetar futuros, cultuar caminhos de sacrifícios, abnegações e penitências. Normatizada como acontece na cultura dominante, a ideia implica que ser monge ou evangelista é a opção mais fiel, justa e congruente; doutrina onde a prática mais digna e santa, obra de herói, será muitas vezes imaginada como jejuar, de alguma forma sacrificar-se, esperando a morte chegar junto com a salvação. Vivendo em castelos, envolto em sede e ouro, pregando do alto dos balcões de antigos impérios e de senhores destronados, ou ajoelhados cabisbaixos, contritos por existir nessa carne pecadora, assombrados com medo de castigos, os catequizados, eleitos, adeptos e fiéis, não têm humor nem tempo para ver, sentir, apreciar e admirar a beleza e o Belo, as flores do campo.

Longe dessas elucubrações estranhas, idealistas, quiçá escapistas, fora das muralhas da poderosa Roma, a vida se consagra diversamente: a natureza, depois do grande vazio, permanece no seu lugar régio, as suas formas e formosuras se apresentam como fonte primária de ensinos, o mistério nela contida é depositado no coração de cada uma das criaturas; nessa terra não dominada ou liberta, o Ethos, a arquitetura da natureza, permanece central e real; o Logos, a perspicácia do dado-a-ser, admirável aberto ao sensório; a estética é a grande fonte de glória e a apreciação do Belo é o sacramento mais certeiro, o coração do saber. Cada uma das criaturas representa uma mandala de força e consciência universal, em si uma totalidade singular, um elo necessário da trama unitária. Cada nascido festeja em si mesmo união, amor e o saber cósmico; a morada apropriada é justamente o lugar onde se nasce, vive e morre, a identidade eternal do momento e origem absoluta: vive-se no divino, numa atmosfera panteística e alegre, configurando outra forma de ética, onde se escutam e consideram os que vivem, admirando a natureza, festejando o momento ciente do fluxo e das leis naturais.

Cada um vive a sua ética de acordo com uma apreciação de valor prístina e fundamental, mais ou menos cogitada; impressão pertencente ao próprio grupo cultural ou revisitada, singular. Como tudo num mundo polar, dois sentimentos ou valorizações imperam, determinando dois pareceres; uma resposta ou relação basicamente antipática e dessintônica, infeliz, frente ao dado-a-ser, imaginando frações, fronteiras rigorosas entre si mesmo e o que é outro, com a simbologia e os mitos que correspondem, buscando-se negociações, acordos, um outro mundo no orfismo radical ou até mesmo um além sobrenaturalista no teísmo; seja uma resposta simpática e feliz, evocando afinidades, resultando numa impressiva e abaladora harmonia e empatia, imaginando-se uma união, ocasionalmente exigindo paciência para ser denotada, mas sempre querendo chegar mais perto do dado-a-ser. Em todo caso, somos o caminho, a verdade e a vida  – a verdade com processo conectando o sentimento, a palavra e os gestos; a veracidade no domínio da cidade, onde tende a ser dado para se ver  (verdade) aquele que se sente e aprecia com força e convicção. Nessa via humana no âmbito da cidade, da política, acontece o que as circunstâncias naturais sistêmicas, cósmicas ou universais, permitem, agregado ao que as circunstâncias humanas, escolhas sensíveis e cultos onde enraízam a ética, autorizam.

Qual o melhor sentimento, sentido, mito e caminho a seguir? A que Mito atrelar o Logos e o Ethos que somos capazes de reconhecer e administrar? À esperança hipotética de um dia morrer para viver em cristal, ou ao reconhecimento e plena aceitação da vida, comemorando, sentindo, orando e agindo com toda a força do estado-de-ser; afinal, se existem paraísos ou infernos significativos e dialógicos no além, eles terão  de sintonizar de alguma forma com o aqui e agora.

Porvir, existindo um além;
Seguirá decorrente do criado:
Inferno querendo o paraíso;
Paraíso nada querendo além.

To inhabit in the world, affective ethics and courses

By: Régis Alain Barbier

Nature´s structure and intelligence are interpreted in a phenomenal junction, it´s the consciousness´ and the world´s unitarian form, of the being and of its state, of the state-of-being; cosmos consecrates itself in a mystic breach that exists between the structure of the world and that of the consciousness; in any point of history and of the time to come, cosmos and existence never dissociate from one another except in hypothetical reflections! The measure of all things is equated in the brightness of this cosmos-existentialism, reality where Logos and Ethos are integrated, in gerundial harmony, with naturalism; the sensible, qualitative and philosophic, wise appreciation of this phenomenon is determinant in configuring the metaphysical perspective axes orienting our destinies, ethics and practices.

To deny the insuperable and evident cosmos-existential phenomenological integration, longing to overcome the real in reflections tutored in insensible and ideal cogitations of academies and Curias, forces one to imagine a radical rupture, a dualistic foundation that narrows itself in a theological form where an accidental junction is supposed to exist, or in any opposable, unhappy form, of the consciousness and of the world, evoking a “pure consciousness fallen into the matter”, thus being, a super-natural Ethos, stuck in the material world and stick to a celestial, winged, visiting Logos, as revealed in the scriptures! Nature, as nature, early divine and sovereign in the world said pagan, ruled by the sun and moon, by the day´s and night´s cycles, becomes servant and object of the illuminated from beyond the world!

But accepting with creative and curious pleasure and astonishment this existence´s and consciousness´ phenomenological aggregation as a paradoxical unit where mystery is protected and celebrated with love in the heart of each creature allows one to shimmer a perennial connection without unfounded theological cogitations; an integrated and paradoxical, supra-logical monism, where existing in consciousness reveals itself as an absolute facticity.

Since one understands that the thinker acquainted with escapist thoughts isn´t the measure of everything, except in the cloistered castle of his own sciences and ideas; that the syllogistic thought doesn´t touch nature, but the interpretations; that the measure of everything existing is better weighted through the natural psyche to who to think is to feel and exist; cognitive art where one immediately knows and understands the essential, appreciating and savoring the nature engraved values; acknowledged that meditation and contemplation, at the light of the natural reasoning, lead to a more truthful understanding of the just correlations and evolution of the state-of-being: tensions and discoveries are denoted in these confrontations, which root into two paths or foundations, two ways of inhabiting consciousness.

Dualism divides and breaks the state-of-being, creates and displaces the hypothetical “Being” without any state in super-naturalistic ideas, imagines finalist and terminative meanings, conditioning the follower to look for the great meaning in the culture imposed catecheses and baptismal impressions, or, being more curious, debates other forms, but always listening to the prelates and initiates, as if they were natives from the other world. In this case, ethics comes to be a baroque architecture tending to displace the horizontal and natural, accidentally considered, unhappy, existential site, in the direction of heaven´s blue, a reign from the other world, inciting to project futures ways, worship sacrifice, self-denials and self-punishments. Normalized as happening in the domineering culture, the idea implies that being a monk or an evangelist is the most faithful, just and congruent option; a doctrine where the most worthy and saint practice, a hero´s work, will many times be imagined as to fast, to immolate somehow, waiting death to come together with salvation. Dressed with silk and gold, preaching from the top of balconies of ancient empires, uncrowned or downcast humiliated masters, sorrowful to exist in the sinful flesh, astonished, fearing punishments, catechized, adept and faithful, live in castles without mood to see, feel, appreciate and admire the flowers in the field, the beauty and the Beautiful.

Far from these strange, idealistic, perhaps escapist lucubration, outside the walls of the powerful Rome, life is diversely consecrated: nature, after the great emptiness, remains in its royal place, its forms and beautifulness present themselves as primary source of teaching, the mystery it contains is deposited in the heart of each one of the creatures; in this not dominated or free earth, Ethos, nature´s architecture, remains central and real; Logos, the perspicacity of the given-to-be, wonderfully open to the ‘sensorium’; aesthetics is glory´s great source and the appreciation of the Beautiful is the most convenient sacrament, knowledge´s heart. Each one of the creatures represents a ‘mandala’ and universal consciousness, a singular totality in itself, a necessary link of the Unitarian woof. Each born being celebrates in itself union, love and the cosmic wisdom; the appropriate residence is just the place where one is born, lives and dies, the moment´s eternal identity and absolute origin: one lives in the divine, in a pantheistic and happy atmosphere, configuring another form of ethics, where the living beings are listened and considered, admiring nature, celebrating the moment aware of the natural flows and laws.

Each one lives its ethics in accordance with an appreciation of pristine and fundamental value, more or less taken into consideration; impression belonging to its own cultural or revisited, singular group. As everything in a polar world, two feelings or valorizations reign, determining two opinions; a basically antipathetic dissyntonic, unhappy answer or relationship, before the given-to-be, imagining fractions, rigorous frontiers between itself and what´s another, with the symbology and the corresponding myths, in search of negotiations, agreements, another world in the radical orphism or even a super-naturalist other world in the theism; be it a captivating and happy answer, evoking relationships, resulting in an impressive and touching harmony and empathy, imagining itself a union, occasionally requiring patience to be denoted, but always willing to get closer to the given-to-be. In every case, we are the way, the truth and life – the truth with a process connecting the feeling, the word and gestures; veracity in the city´s domain, where it tends to be given to be seen (truth) that we strongly feels and appreciates about ourselves with strength and certitude. In this human way in the city´s, and politics´ range, it happens what the natural systemic, cosmic or universal circumstances allow, aggregated to what the human circumstances, sensible choices and cults where ethics is rooted, allow.

Which is the best feeling, sense, myth and way to be followed?  To which Myth, Logos and Ethos, that we are able to recognize and manage, should be linked? The hypothetical hope of dying one day to live in crystal, or the acknowledgement and full acceptance of life, celebrating, feeling, praying and acting with the full strength of the state-of-being; after all, should meaningful and dialogic paradises or hells exist in the other world, they´ll have, some way, to tune with the here and now.

 

Time to come, another world existing;
Will follow, resulting from what has been created:
Hell wishing the paradise;
Paradise wishing nothing beyond. 

Perfeição sistêmica e Perfeição Ética ~ Systemic Perfection and Ethical Perfection

mão de barro

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier  

Deus não é algo separado e acima da realidade; pensando em deuses e deusas somos deuses e deusas enquanto pensamos. Por isso usamos essa palavra para exemplificar coisas sublimes, virtudes, modo de ser, atitudes,  relação com mitos e arquétipos, encontros com o desconhecido, o absoluto, lugar que se pode visitar rendendo a razão lógica ao altar da essência e do mistério.

Quando se critica as religiosidades em relação a sua notória ausência de agenda teopolítica, “dando a César  o que é de César e a Deus o que é de Deus”, é frequente receber respostas evocando uma esotérica perfeição transcendente, parecendo querer afirmar uma ordem suprema que a razão desconhece. Quando se critica as religiões confrontando seus discursos e o que se pratica, como no caso do catolicismo, onde um papa regiamente assentado nas ruínas ainda valentes e ricas do Império Romano, prega humildade e simplicidade, mas guardando-se de exemplificar os votos de pobreza de um São Francisco; de certos desdobramentos do budismo, onde desde o início se pregam equanimidade e ponderação, mas vicejando durante séculos em arquiteturas societárias teocráticas motivadoras de sangrentos conflitos; outros fundamentalismos enraizados na perda do contato com o que pode ser denominado virtuoso e divino a favor de formas de idolatrias onde se deificam escrituras, objetos e pessoas, é frequente  darem essas mesmas respostas evasivas e justificadoras, tentando evocar uma ignota perfeição; um status quo divinal, perene, perfeito e transcendente, acima do entendimento humano,  do bem e do mal.

Sugere-se que todo estaria como deve ser , de acordo com a vontade de Deus, do karma, do destino, da natureza profunda; que as exterioridades, inclusive políticas, por mais truculentas que sejam, estariam  fundamentadas numa absoluta e adequada facticidade, tudo de acordo com a natureza e esquisitos e poderosos ordenamentos do criador.  Até onde pode ir esse conformismo irracional? Possivelmente longe demais quando lembrando a passividade das igrejas frente aos ditadores, exemplarmente do papa Pio XII frente ao nazismo.

Não se deixando ofuscar em imobilismos teóricos, denota-se que, nas expressividades culturais e políticas contidas na trama da natureza, algo impede o surgimento de uma sociedade ponderada, livre, amorosa e pacífica; será porque algum deus soberano quer que seja dessa forma? Que os percalços da história sejam necessários, desenhando uma trilha de eventos fadados a acontecer? Ou, simplesmente, porque o ser humano ainda não é senhor das virtudes necessárias à explicitação e demonstração de um grau suficiente de lucidez e sabedoria, de acordo com o que poderia ser,  se quisesse, à luz de ponderações filosóficas mais exatas e verdadeiras?

Tanto a deturpação e degeneração da sabedoria original  deslocada em revelações excepcionais trazidas por seres especiais quanto as posturas régias e pomposas dos líderes das tradições religiosas, ostentações em que a nobreza espiritual se transforma em ouro, as virtudes em pedras preciosas e que atraem a uma coorte súditos dedicados e féis que se ajoelham e prosternam explicitando uma devoção focados em personagens históricos, exemplificam abusos e incongruências em que símbolos e representações destronam o sagrado universal nessas deturpações e pompas. Iniquidades que, eventualmente,  se amplificam e amadurecem em fundamentalismos onde líderes religiosos se transformam em presidente de estados, em teocratas vivendo em fortalezas ou castelos, sábios em salvadores, ou objeto de sacrifícios, profetas em guerreiros cruéis.

Os que sabem que o divino, naturalmente encontrável por cada um na fenda mística fenomenológico-existencial inserida entre a consciência do mundo e o mundo da consciência, assenta em quem reconhece essa qualidade em si mesmo tanto quanto no dado-a-ser natural; que uma face do divino pertence ao observador e a outra à natureza e seus processos ultimamente ignotos de originação, possuem o dever de não se deixar idolatrar e não idolatrar, não se deixar tratar excepcionalmente e não tratar ninguém excepcionalmente, não iludindo a si mesmo nem a ninguém, nem sustentando ilusões e lendas históricas, ainda mais quando os seus potenciais para atrair violências e desentendimentos, repetidamente se comprovam.

Como reconheciam, em todos os azimutes, os antigos pagãos e pajés, os filósofos pré-socráticos até Sócrates inclusive, o divino existe atuante no coração e na consciência de cada um querendo se reconhecer como criatura universal, elevar-se dignamente à natureza possível para nós: o grau de homo-sapiente. Sendo o que se é, um estado-de-ser atual e presente, acontecendo desde sempre nos processos e na trama das interações cosmológicas, sem começo e fins delineáveis; os melhores ordenamentos societários e ideias mais criativas só podem surgir em contextos eminentemente dialógicos, onde os recém-nascidos, os infantes, todos os viventes, sejam reconhecidos e batizados, desde do começo, como portadores legítimos do Logos e veículos naturais do Ethos que atinente ao que somos como humanos, criaturas contextualizadas numa relação eco-humanista; lugares onde a ética deveria naturalmente decorrer e fluir desse reconhecimento, onde o conhecedor deveria ser reconhecido como fonte potencial e inerente de saber, através do cultivo de metáforas e simbologias que dignificam, de mitos que enobreçam a natureza e natureza humana. Onde estão os grandes ritos e consagrações capazes de nos curar das religiões mesquinhas que no começo das suas conversas nos denigrem junto com toda a natureza, oferecendo contadas e desonrosas caridades que não nos honram nem justificam.

Não seria melhor honrar a natureza mais nobremente, com magna veracidade, explicitar com clareza o potencial cocriador do estado-de-ser? Mostrar que entre viver mitos impostos por domínios culturais e convenções, melhor e mais sensato seria examinar os mitos fundantes possíveis e adequados às circunstâncias existenciais? Não seria acertado e sensato reconhecer o que é evidente: que a estrutura e configuração psíquica do estado-de-ser afunila em dois sentimentos opostos que sedimentam dois eixos de perspectivas metafísicas, configurando dois grandes mitos: o mito do eterno retorno e o mito salvacionista?

É evidente que os sofrimentos societários gerados nos decursos de processos culturais inadequados, com recursos espirituais aquém dos que existiam no tempo de Tales de Mileto, ultrapassam em intensidades e crueldades as dores naturais, hoje mitigadas pelas artes médicas. As dores e os piores sofrimentos que a humanidade suporta são causados pelos próprios humanos, pelos que se desconhecem, pensando ser menos ou mais de que são, instituidores de políticas opressivas e ditatoriais; perturbações que assentam em duas fontes: num primitivismo instintivo e residual, que pode ser burilado, e no desconhecimento ou desprezo dos potenciais humanos, coautores possíveis dos seus próprios destinos.

Nesses mitos que apontam seres enviados e especiais, diletos e tradicionais portadores de saberes transcendentes, veículos singulares e exclusivos da verdade salvatéria, onde, de uma forma ou de outra, com uma variedade de narrativas e nuances, se imagina uma humanidade pecadora, sofredora, essencialmente inadequada em seu meio, potencializam-se e demonstram-se dois graves retrocessos: um bruto primitivismo pedagógico e político, junto com uma profunda ignorância e falta de sensibilidade para justamente apreciar o belo. A ideia mais justa, o projeto mais necessário, a conduta mais prudente se revelam naturalmente quando os que dialogam no círculo dos debates se reconhecem como de fato são; compreendem que o dado-a-ser implica uma inteligência e uma arquitetura, um Logos e Ethos, logo, uma ética, porque a medida de todas as coisas não está na vontade aleatória, nos desejos e incapacidades dos que pensam e refletem, mas na fusão essencial e paradoxal da consciência e existência, fundamento contido em cada um e em todos igualmente, por serem o que são, realização cosmo-existencial diacrônica e sincrônica, assentada no infinito e ilimitado, portadora de unidade e identicidade como marca essencial; realidade absoluta cuja justa consciência se revela na arte da meditação e contemplação, sentimentos e simbologias atinentes, que amadurecem em metáforas, alegorias e conceitos dignificantes quando elaborados no cultivo prudente da filosofia. Nessa unidade, harmonia e universalidade reconhecidas, como poderiam existir seres diletos, essencialmente diversos dos outros, ligados a uma essência pura , sendo os demais banidos, afastados? Como pode uma mensagem autoral afirmando essas disfunção e dualidade pretender curá-la?

Uma assembleia carente de saber não pode apresentar uma configuração política digna, apenas ansiar pela saciedade dessas carências existenciais fundamentais que não se pacificam a não ser reconhecendo a si mesmo e ao outro com adequação profunda, veracidade e respeito, à luz de uma filosofia desimpedida e livre de formatos culturais abusivos. Quando o ser humano exemplifica um comportamento inferior ao que deveria caso conseguisse se elevar à altura do que é, expressando as especificidades a que faz jus, incluindo o poder de se esclarecer através do exercício da sabedoria, até se responsabilizar pelo seu destino de cocriador e afirmar-se humano, plenamente humano, merecedor dessa especificidade, ele se revelaria em construção continuada, com o dever de fazer o possível para auxiliar a si mesmo e ao outro a realizar essa grandeza e unicidade.

As possíveis perfeições que se podem evocar em condições de penúria de saber, paupérrimos  métodos pedagógicas e políticos, ditaduras instituídas em relações errôneas e primitivas, carentes de lucidez e virtude, como se cultivam entre os que integram a atual vida societária, são perfeições de categoria sistêmicas, cósmicas, que se manifestam por necessidade em quaisquer realidades, inclusive nos desdobramentos etológicas de quaisquer espécies, onde: as coisas acontecem perfeitamente de acordo com as circunstâncias, de qualidades variáveis, naturais e culturais que as relacionam e arquitetam.

Nas realizações culturais e políticas que ocorrem sem direcionamento filosófico, tudo acontece de acordo com as capacidades pródigas ou incapacidades carentes em construir e instalar um lugar digno e justamente correspondente ao locus a que faz jus o homo sapiente; uma situação denegrida, onde um grupo martiriza um outro,  onde dominantes manifestam uma brutalidade e avareza indigna de um saber possível, quiçá evidente, não representa a via de chegada adequada ao destino que se visiona e imagina como deve ser, de acordo com o que se é, sendo o que naturalmente se é: homo sapiente razoável.

Portanto, está claro, existem duas perfeições: primeira, uma perfeição sistêmica operando nas conjunturas de forças ligadas ao estado-de-ser como estrutura biofísica e dinâmica, onde se adequam a vida e os recursos como se manifestam nesse sistema solar, onde tudo acontece de acordo com as leis da natureza, conjunturas somadas a esse elã solar típico dos indivíduos saudáveis com pulsão existencial dirigida em busca da floração, de acordo com o grau de lucidez permitido nas orientações e carências que operam no âmbito da cidade e cultura; segunda, uma perfeição ética que se realiza quando o que acontece na vida social, a pedagogia, a política, reportam justamente à humanidade, maximizando seus potenciais de acordo com a especificidade dada pela natureza: a capacidade de ser razoável e acolher uma autodisciplina, ou autopoiética filosófica.

É evidente, quando condicionado em arquiteturas urbanas insensatas, vivendo em coordenadas políticas geradoras de desrespeitos, instituídas em diferenciações germinadas e cultuadas em âmbitos de dominação e violência, a humanidade não está no caminho da perfeição ética, nem exemplificando perfeição filosófica algumas, as coisas não são como deveriam e poderiam ser caso se respeitasse o potencial sapiente do ser humano, através de mitos, receptividade e educação adequadas.

Se, como dizem monges e fiéis, não se deve entravar de forma alguma à realização da compreensão de que na vertente cultural do arco cosmo-existencial, tudo está de acordo com o que se conscientiza, pensa, sente, deseja e atua, facilitando a realização  dessa sabedoria; logo, as situações nas quais se vive em lugares dissintônicos em relação ao destino mais adequados e positivos ao estado-de-ser humano, os empecilhos bloqueando a realização desse saber e vontade devem ser rejeitados. Existem estruturas societárias mais adequadas ao que deve ser e, efetivamente, é o homo sapiente, um ser razoável; não se manifestando essas estruturas por conta da submissão abusiva da esfera societária ao primitivismo e à ignorância; sendo o dever dos que vislumbram essas cidades nas suas imaginações nutridas de razões e saberes adequados, operar dentro de coordenadas que facilitam a instalação da paz e do respeito, ensinando a compreensão fundamental, que somos um só ser.

Se líderes religiosos, desafiados, afirmam, como se fossem filósofos e naturalistas, sábios panteístas, a universalidade da consciência sensível e aberta a esse sentimento numinoso, que todos podem acessar, eventualmente, desfrutar de uma paz profunda e da lucidez correspondente, imergir em eventuais elãs extáticos, aportar na ataraxia dos sábios, simplesmente, querendo conhecer de acordo com as mais justas ponderações; mas, ao mesmo tempo, pronunciando esses discursos genéricos e universalistas instituídos em lugares de elevado destaque, como se fossem autoridades políticas, recebendo honras e saudações excepcionais, como enviados e profetas em missão, efetivamente, ocupando espaços de antigos príncipes ausentes há muito tempo, algo deve estar impróprio.

Se líderes religiosos ostentam destaques dignos de reis e conquistadores de terras e impérios, evocando incorporar e representar personagens históricos por eles mesmos divinizados, integrantes de etnias e pertencentes a nações que se elevam nas proporções das deificações dos seus diletos filhos apresentados como encarnações ou representações específicas e especiosas do divino; mas por outro lado, evocando, quando possa convir, um deus impessoal, natural, cósmico, sintonizável por ato de vontade e lucidez, por inteligência simples, tentando justificar essas espetaculares individualizações como formas pedagógicas intermediárias, meios para educar e orientar os mais ingênuos e carentes de autonomia e inteligência abstrata, ainda necessitando de líderes históricos e culturais para se orientarem, algo deve estar incôngruo.

Afinal, ô iluminados, onde estariam locadas essas carências? Nas circunstâncias externas, afastada desse centro de saber monástico? No momento histórico, como um clima cultural? No alunato ou discipulado ignaro, incapaz de apreciar a real natureza das coisas sem toscas representações e imagens? Entranhadas em esoterismos cujas complexidades nulificariam a eficiência dos discursos que locam o divino na relação que cada vivente pode confirmar em si mesmo por existir consciente? Como poderia essa alegada universalidade apaziguante, sustentáculo da bem-aventurança, só poder ser transmitida através de recursos pedagógicos sintônicos com autoritarismos inscientes, geradores primários de discórdias políticas, conflitos e fundamentalismos consequentes e potencialmente perigosos? Seria então o essencial disfuncional, a bem-aventurança idêntica à desgraça?

Ou essas carências estariam locadas no corpo docente e nas formas pedagógicas atinente a esse diálogo entre fiéis e reverenciados? Essas carências são entranhadas em vícios e dependências que se alimentam da ignorância dos fiéis que se desobrigam das suas responsabilidades; fiéis cujo destino verdadeiro é viver de acordo com os mitos que imaginam, aceitam e reconhecem, ou, recusando esse estatuto criador, deixando a outros a incumbência de escolher.

Systemic Perfection and Ethical Perfection 

Régis Alain Barbier  

Translation by Stephen Cviic

God is not something separated from and above reality: thinking about gods and goddesses, we are gods and goddesses while we think. That is why we use this word to exemplify sublime things, virtues, ways of being, attitudes… relationships with myths and archetypes, meetings with the unknown, the absolute – a place which one can visit by surrendering logical reason on the altar of essence and mystery.

When one criticises religiosities over their notorious lack of a theo-political agenda, “giving to Caesar that which is Caesar’s and to God that which is God’s”, one often receives responses that invoke a transcendental esoteric perfection, apparently wanting to affirm a supreme order that reason is not familiar with. This kind of response is often an answer to the kind of criticism that compares religious discourses with what these religions actually practice, as in the case of Catholicism, where a Pope royally seated on the still brave and rich ruins of the Roman Empire preaches humility and simplicity, while protecting himself from having to exemplify the vows of poverty of Saint Francis; or in the case of Buddhism, where since the beginning they have preached equanimity and consideration, but have flourished for centuries in theocratic social structures that lead to bloody conflicts; or in the case of other kinds of fundamentalism rooted in the loss of contact with what can be called the virtuous and divine, in favour of forms of idolatry where scriptures, objects and people are deified. In these cases one frequently still receives the same evasive and justificatory responses, which try to invoke an unknown perfection, a divine status quo, perennial, perfect and transcendent, above human understanding, and above good and evil.

It is suggested that everything is as it should be, in accordance with the will of God, with karma, with destiny, with deep nature; that the externals, including the political ones, however brutal they are, are somehow based on an absolute and appropriate “facticity”, everything in accordance with nature and with strange and powerful structures ordained by the creator. How far can one go with this irrational acceptance? Possibly too far when one remembers the passivity of the churches when faced with dictators, a classic example being Pope Pius XII in relation to Nazism.

If one does not allow oneself to be blinded by theoretical immobilism, it is evident that, in the cultural and political expressions contained in nature, something prevents a considered, free, loving and peaceful society from arising – is it because some sovereign god wants it to be this way? Are the pitfalls of history necessary, mapping out a path of events fated to happen? Or is it simply that the human being is not master of the virtues necessary to achieve a sufficient degree of lucidity and wisdom to match what he could be, if he wanted, in the light of more precise and truthful philosophical considerations?

Here are two examples of abuses and inconsistencies where symbols and representations dethrone what is universal and sacred with corruption and pomp. One example is the corruption and degeneration of original wisdom, which is diverted into exceptional revelations brought by special beings. Others include the regal and pompous positions of the leaders of religious traditions, displays where spiritual nobility is transformed into gold, virtues into precious stones, and which attract dedicated and faithful subjects to a court where they kneel and prostrate themselves, showing a devotion that is focused on historical people. These iniquities sometimes grow and mature into fundamentalisms where religious leaders become presidents of states or theocrats living in forts or castles, and where wise men become saviours or the objects of sacrifices, and where prophets become cruel warriors.

Those who know that the divine – naturally findable by everyone in the mystical gap between consciousness of the world and the world of consciousness – can take root in anyone who recognises this quality in themselves just as much as in the natural human being; and who know that one face of the divine belongs to the observer and the other one to nature and its ultimately unknowable processes of origination, have a duty neither to allow themselves to be idolised nor to idolise, not to allow themselves to be treated exceptionally nor to treat anyone else exceptionally, not to delude themselves nor anyone else, nor to give credence to historical illusions and legends, especially when their potential to attract violence and misunderstandings has been repeatedly proven.

As was recognised by all ancient pagans and medicine men all over the world, and by the pre-Socratic philosophers up until Socrates himself, the divine exists and acts in the heart and in the consciousness of everyone who wants to acknowledge himself as a universal creature, and to raise himself worthily to the nature that is possible for us: the level of homo-sapiente or “wise man”. Being what one is, a current, present state-of-being, who has been there since the beginning in the processes of cosmological interactions, without a definable beginning and end – the best social structures and the most creative ideas can only arise in contexts that are eminently dialogic. Here, the new-born, children, all living beings, are acknowledged and baptised, from the beginning, as legitimate bearers of the Logos and natural vehicles of the Ethos that relates to what we are as humans, creatures that find their context in an eco-humanist relationship, where the knower needs to be recognised as a potential and inherent source of knowledge, through the fostering of metaphors and symbols which dignify the myths that ennoble nature and human nature. Where are the great rituals capable of curing us of those mean religions that right from the beginning of their discourses denigrate us along with the whole of nature by offering dishonourable charity that does not honor us?

Would it not be better to honor nature more nobly, with greater truthfulness, and make clearly manifest the state-of-being’s potential as a co-creator? To show that rather than living out myths imposed by cultural hierarchies and conventions, it would be better and more sensible to examine possible and suitable founding myths for our existential circumstances? Would it not be right and sensible to acknowledge what is evident: that the psyche’s structure and settings channel themselves into two opposing feelings that are the basis of two metaphysical axes of perspective, forming two great myths: the myth of eternal return and the myth of salvation?

In these myths which highlight sent or special beings, the preferred and traditional bearers of transcendental knowledge, singular and exclusive vehicles of the salvationist truth where, in one way or another, with a variety of narratives and nuances, humanity is imagined as sinful, suffering, essentially inadequate in its own milieu – here, two serious retrograde ideas manifest themselves: a brutal pedagogical and political primitivism, together with a profound ignorance and lack of sensitivity to justly appreciate the beautiful. The best idea, the most necessary project, the most prudent conduct, show themselves naturally when those who engage in dialogue in the debating circle recognise themselves for what they actually are, when they understand that the human being implies an intelligence and an architecture, a Logos and Ethos, and therefore an ethic. The measure of all things is not in random will, in the desires and inabilities of those who think and reflect, but in the essential and paradoxical fusion of consciousness and existence, a foundation contained in each person and in everyone egually, because they are what they are: a diachronic and synchronic cosmo-existential realisation, rooted in the infinite and the unlimited, the bearer of unity and identity as an essential feature. It is an absolute reality whose true consciousness is revealed in the art of meditation and contemplation, linked feelings and symbols which flower into worthy metaphors, allegories and concepts when they are created alongside a prudent study of philosophy. In this acknowledged unity, harmony and universality, how could there exist specially beloved beings, essentially different from others, linked to a pure essence, with the rest being banished and sent away? How can a message that affirms this dysfunction and duality aim to cure it?

An assembly lacking in wisdom cannot achieve a worthy political structure; it can merely yearn to satisfy those fundamental existential needs that are not soothed unless one acknowledges oneself and the other with suitable depth, truthfulness and respect, in the light of a philosophy that is unhindered and free from abusive cultural structures. When a human being displays behaviour that is beneath what he should display if he were able to raise himself to the level of what he actually is, expressing what is specific and legitimate according to his nature, including the power to enlighten himself through the exercise of wisdom, until he takes responsibility for his destiny as co-creator and affirms himself as fully human, worthy of this specificity, he reveals himself to be under continuing construction, with the obligation to do all that is possible to help himself and others to achieve this greatness and unicity.

The possible perfections that can be invoked in conditions of scarcity of knowledge, bankrupt pedagogical and political methods built into wrong and primitive relationships, lacking in lucidity and virtue, such as those which are encouraged among those who make up the current life of society, are systemic, cosmic perfections, which manifest themselves by necessity in all situations, including in the ethological processes of any species, where things happen in perfect accord with the natural and cultural circumstances which relate and govern them. In cultural and political achievements which happen without any philosophical guidance, everything happens according to one’s remarkable abilities or grievous inabilities to build and set up a place that is worthy of and corresponds to the place to which homo sapiens is suited; a degenerate situation, where one group massacres another, where dominant people show a brutality and greed that is unworthy of their possible or even evident knowledge. This does not represent the correct path to the destiny that one envisions and imagines according to what one is, being naturally what one is: a reasonable human being.

Therefore, it is clear, there exist two perfections: first, a systemic perfection that operates within the remit of the forces linked to the state-of-being as a bio-physical and dynamic structure, where life and resources adapt themselves to conditions that are manifested in this solar system where everything happens in accordance with the laws of nature. To this are added the circumstances and attitudes typical of healthy individuals with an existential spirit who seek to blossom, according to the degree of lucidity permitted by the guidelines and failings that hold sway in the ambit of the city and of culture. And secondly, an ethical perfection that is realized when what happens in the life of society, pedagogy, politics, justly reflects humanity, maximizing its potentials in accordance with the specificity given by nature: the ability to be reasonable and to welcome self-discipline or philosophical autopoesis.

It is evident that when it is conditioned by senseless urban architecture, living in political settings that generate disrespect and are built on differentiations hatched and nurtured in circumstances of domination and violence, humanity is not on the road to perfection, nor is it exemplifying any kind of philosophical or ethical perfection; things are not as they should or could be if the wise potential of the human being was being respected, through myths, and suitable receptivity and education.

If, as monks and religious people say, one should not in any way obstruct the enlightened understanding that, on the cultural side of the cosmo-existential arc, everything is in accordance with what one is aware of, thinks, feels, desires and the way one acts, making it possible to achieve this knowledge; therefore, one should reject situations where people live in places that are in disharmony with the state-of-being’s most suitable and positive destinies, and the obstacles that stand in the way of achieving this knowledge and will. There exist more appropriate social structures for what homo sapiens should be and – indeed – is, a reasonable being. But these structures are not seen because of the abusive submissiveness which the social sphere displays towards primitivism and ignorance. The duty of those who glimpse such cities in their imaginations nourished with suitable reason and knowledge is to operate within coordinates that make peace and respect possible, teaching the basic understanding that we are one sole being.

If religious leaders, when challenged, affirm – as if they were philosophers and naturalists, pantheist wise men – the universality of the consciousness that is sensitive and open to this numinous sentiment, which everyone can access, enjoying a corresponding profound peace and lucidity, immersing themselves in ecstatic enthusiasms, finding themselves in harmony with the imperturbability of the wise men, simply wanting to achieve the worthiest kind of knowledge – but at the same time, when they make these generic and universalist speeches  from positions of high acclaim, as if they were political authorities, receiving exceptional honors and tributes, like prophets on a mission, in fact, occupying the spaces of long-dead princes, something must be wrong.

Something is wrong if religious leaders show off ornaments worthy of kings and conquerors of lands and empires, suggesting that they represent historical personalities idolized by them themselves, belonging to races and nations that elevate themselves on the deified scale of their preferred children presented as incarnations or special representatives of the divine; but at the same time they invoke, when possible, an impersonal, natural, cosmic god, to whom it is possible to tune in through an act of will or lucidity, through simple intelligence, trying to justify these spectacular individualizations as intermediate pedagogical forms, means to educate and guide those who are most naïve and lacking in autonomy and abstract intelligence, still needing historical and cultural leaders to be guided by.

In the end, o enlightened ones, where does the source of these needs lie? In external circumstances, removed from this center of monastic wisdom? In the historical moment, like a cultural climate? In ignorant discipleship, incapable of appreciating the real nature of things without crude representations and images? Involved in esoteric ideas whose complexities nullify the efficacy of those discourses which locate the divine in the relationship which each living-being can confirm in themselves simply by existing as a conscious being? How can this supposedly peace-bringing universality only be transmitted through pedagogical resources in harmony with authoritarianism methods, the primary generators of discord, policies, conflicts and fundamentalisms that have consequences and are potentially dangerous? Can the essential, then, be dysfunctional, blessedness the same as misfortune?

Or are these needs located in the corpus of teachers and in the pedagogical forms which relate to this dialogue between faithful people and those who are reverenced? Do they live in vices and dependencies which feed on the ignorance of those religious people who relieve themselves of their responsibilities, people whose true destiny is to live in accord with myths that they imagine, accept and recognize, or – refusing this creative nature, leave to others the burden of choosing.

Who are you? What is your primeval feeling?

 
 
 

Do mito de Eros e Psiquê ~ Eros´and Psyche´s Myth

Ciências do panteão ou religiosidade panteísta 

eros_e_psique

Régis Alain Barbier 

Saber harmonizar Psiquê e Eros, criar um prazer elevado e sublime, é prática espiritual digna de semideuses e imortais.

O mito de Eros e Psiquê, como todas as coisas que se referem aos deuses que habitam espaços estendidos entre lugares surreais e pensamentos, é certamente sutil, por isso mal compreendido. A beleza de Psiquê é de perspectivas mais profundas e duradouras que a das formas, não pode ser descrita em palavras, diversamente da beleza das irmãs. Tampouco pode ser descrita a majestade dessa criatura, seu jeito gracioso de ser: as palavras, os reflexos, não mostram o essencial. A cidade dedicava a ela uma indescritível adoração; era cultuada como uma deusa, ou quiçá como imagem sagrada de altar; um símbolo rompido, com uma parte desconexa e distante; um fundamento que o olhar comum não alcançava.

A beleza de Psiquê era louvada, todos a admiravam, mas não a queriam,  como não se quer habitar em aposentos de cristais; encantava os abstratos e utópicos, os visionários, alguns artistas talvez, mas não empolgava os homens de praxes, ela era bela como se não fosse. Será que a perfeição dela existia escondida além das formas medíocres por todos aclamadas? A beleza das irmãs era evidente, eram muito desejadas, empolgavam reis e príncipes; mas, conhecendo a textura do mito, sabe-se que, de alguma forma, elas alcançavam o mundo secreto de Psiquê com se dela fossem sombras; em que poderia ser a irmã Psiquê radicalmente diversa?

O pai enviou um mensageiro para perguntar ao oráculo do Templo de Apolo como proceder com essa filha cuja graça todos reconheciam, mas que não empolgava reis ou príncipes. O oráculo respondeu: “Vista-a de preto e leve-a à noite ao topo de mais alta montanha; o par dela não é desse mundo, é um deus poderoso”. Assim foi feito e Psiquê ficou isolada no alto, suspensa entre os mundos, numa montanha embrumada onde se acredita que os humanos e os deuses se encontram nos sonhos e revelações da noite. Suave, uma brisa transportou-a pelos ares celestiais até um lindo vale; num bosque de belas flores e fontes, descortinou-se um Palácio precioso sem guardas, de portas abertas, com recintos ornados de mosaicos representando as criaturas da natureza, da flora e da fauna. Psiquê adentrou esse lugar encantado e deslumbrada escutou uma voz: “Toda essa riqueza é tua… Eu sou a tua voz, as tuas criadas interiores, basta tu pedires”: dormir, restaurar-te, repousar ou banhar? O que queres,  minha ama?”.

O mistério aprofundou, e a noite chegou aproximando do destino pelo oráculo anunciado: conhecer um enamorado advindo do oculto; o medo crescia,  mas as vozes consolavam. Das camadas do estranho e escuro, dos não lugares, ele veio, deitou-se ao seu lado e deu-lhe o prazer que ela permitia; assim acontecia e antes da alvorada ele partia; ela ficava solitária durante o dia, ele voltava à noite; acalmada a ansiedade, aumentava a confiança, sempre mais. O além dos picos montanhosos instalava-se como lugar habitável; Psiquê encontrava felicidade profunda e real; mas os parentes, sem notícias ou acessos a esses eventos e mistérios divinais, lamuriavam-se mais de que nunca.

Evidente, Eros-Psiquê e sua família vivem de um lado e outro de algo que não é dois, mas um só, por isso existem nesses encontros plenos de incompletudes, momentos que não se descrevem e acontecem tanto nos toques e chegadas quanto nos vazios e ausências; hoje de um lado, amanhã do outro, sempre a metade das coisas que colapsam entre a lembrança e o acordar, sinalizando uma realidade além do que se possa descrever, tanto em termos de beleza quanto dos mistérios; um jeito estranho de ser e viver entre o real e a imagem, onde o que é existe de uma forma que não se pode compreender; mas, querendo, bem se sabe e reconhece.

Nessa mesma noite, o divino e misterioso amante de Psiquê alertou: “Cuidado, uma trama pode colocar-te em perigo; romper nosso mundo. Tuas irmãs imaginam que não vives, por isso, virão até às margens desse nosso lugar para pensar e gritar clamando por ti. Não responde, não dês escuta, meu amor, para não trazeres sofrimentos e derrotas, romper o mistério que nos unem”. Emotiva, ouvindo as vozes lamurientas dos parentes, sem atender o chamado, Psiquê, filha insólita, começou a duvidar: estaria limitada, vivendo numa prisão, ou esse lugar seria verdadeiro e sublime, obra do tempo que mais significa? Foi dormir em crise aguda, existencial, como hoje se diria.

Eros a repreendeu: “Como podes duvidar da minha orientação e lucidez, não sentes e não vês o prazer sublime que se forma tecido nas malhas do nosso secreto e transgressivo amor?”. Compassivo, cedeu, permitiu que Psiquê recebesse as irmãs; aconselhou a ofertar a elas todos os valores que pudessem levar, mas que nunca tentasse defini-lo e ver-lhe o rosto, que não se deixasse confundir sobre a sua identidade erótica. Invejosas, as irmãs confabularam uma maneira de interferir no destino celestial. Pela terceira vez, Eros alertou: “Toma cuidado com as tuas irmãs e ideias perversas, por inveja preparam um grande mal. Não lhes dês escuta, não interajas com elas”. Sentindo a incerteza e desorientação de Psiquê, o deus Eros rogou: – “Eu te imploro! Tem piedade de nós e dos frutos secretos do nosso amor”.

Confusa e sem rumo, Psiquê sucumbe a essas tramoias discriminadoras e de razões mesquinhas incitando a identificar e delimitar essa vida elevada, separar os lugares inspirados em que se divagam coisas divinas das coisas práticas e físicas; que degolasse esse amante sem rosto real! Dúbia, imperita, brandindo a espada criticamente afiada pelas irmãs sovinas, Psiquê tropeçou no arco sagrado e picou-se com uma das flechas de Eros; de imediato, o efeito da divina seta a despertou e curou-a de todas as dúvidas, confirmando e repondo nas dimensões mais preciosas do real o grande amor e a paz que antes já nutriam.

Sabe-se que Eros, como todos os deuses que compactuam com os humanos, antes de ser uma criatura, é um grande arco de fogo e luz, onde, entre os extremos do possível, se tenciona o amor verdadeiro; um dos lados do arco acontece suspenso em coisas que não se veem mas, se sentem, o outro, como o bastão plantado em Cusco, finca nos lugares mais intensos e naturais aos humanos; a seta da ponta dourada é o segredo que unifica os vetores existenciais, elevando os humanos ao todo, ao estatuto de semideuses.

Nesses movimentos inquietos e imperitos, um jato de óleo quente da lâmpada flamejante aspergiu, e Eros acordou confuso e desacreditado: “Por ti, Psiquê, superei os ditados e mandos desse poder vaidoso do reino dos mortais onde se regem haveres e posses, para construir e sustentar esse amor mais secreto e sublime. Duvidaste desse destino e, imprudente, abriste as fronteiras entre os mundos!”.

Decepcionado, Eros deixou Psiquê profundamente arrependida, querendo reafirmar no seu abandono e solidão uma consciência corrigida, mais lúcida e uma mais intensa vontade amorosa.  Justamente concentrada, desperta, inspirada e fortalecia pela dor da separação, caminhou firme na direção do seu mais justo, certeiro e intenso destino,  procurando Vênus, mãe poderosa de Eros, criatura das fronteiras entre a terra e o mar, capaz de andar por igual no mar e na areia, nos lugares das conchas e das espumas, rogando para que a auxiliasse a reconquistar o filho habitante do azul. Irada, enciumada pela beleza diversa mais profunda e divina da moça, Vênus quis castigá-la – para outros, apenas preparar e fortalecer essa  criatura ainda muito humana a penetrar os mistérios dos que, igualmente, habitem o céu e a terra.

Primeiro, ordenou que, em algum lugar do celeiro, separasse diversos tipos de grãos grosseiramente misturados, terminando a tarefa antes do fim do dia. Um trabalho justo e preciso de formigas que ensinava a diferenciar as coisas efêmeras, que se semeiam, colhem e consumem, das coisas que perduram, revelando as dimensões e qualidades mais fundamentais do viver.

Numa segunda prova, igualmente árdua, Vênus, a rainha dos portais, moradora dos lugares em que o mar beija areia e a areia, o mar, exigiu que margeasse e atravessasse o grande rio selvagem, e, na outra margem, encontrasse os carneiros mais valentes e montanheses, com lã de fios de ouro e sol, trazendo flocos dessa lã dourada antes do cair do dia. A fluidez dos juncos do rio aconselharam prudência, aguardar a hora mais propícia, nada operar antes do meio-dia; as coisas acontecem a contento, no tempo maduro e adequado. E assim Psiquê trouxe os fios de ouro e sol junto com o destemor e a prudência da busca e da colheita, que somados aos ordenamentos certeiros, justos e precisos das coisas do celeiro já apontavam na direção das virtudes da juba perfumada e soberana do amor.

Mas Vênus demandou mais ainda: traga uma água sutil, destilada no meio da correnteza montanhosa, desse riacho valente que desce do ponto mais alto das cordilheiras e mergulha até às profundezas mais ocultas do mundo! Apesar das dúvidas atiçando a desistência, Psiquê, corajosa, confirmou o seu avanço expressando espantosa entrega e destemor; foi quando, atenta e observadora, a águia dos céus foi colher para ela esse humor aquoso bem do meio das correntezas.

Pela quarta vez, Vênus exigiu: “Agora desce com essa caixa preciosa até à morada dos mortos, pede à rainha da passagem entre a vida e a morte para lhe dar um pouco dos seus mistérios, uma medida para durar um dia”. Da Torre mais alta da cidade onde Psiquê se concentrou decidindo se iria ou não tentar cumprir essa tarefa terminativa ou mergulhar no vazio, uma voz aconselhou: “Não te mata, vai com firmeza, levas os recursos necessários e não pares; caminha absoluta em busca dessa fonte das profundezas sem desviar-se da rota e da intenção original para atender caridades contadas, coisas de pedintes, fraquezas e gravetos; mas atenção, Psiquê, não é tudo: seja temperada e humilde, não queira sentar em tronos, comer banquetes de reis: contenta-te satisfeita com as causas mais singelas e simples; recebe o que te foi pedido e volta sem delongas!”. Psiquê já se levantava em busca das suas escolhas, mas a Torre voltou a falar sugerindo: “Não olhes para o conteúdo da caixa… Não olhes!”.

Bem sucedida, carregando consigo os mistérios da gruta da morte, voltando em direção ao plano dos humanos, movida por uma curiosidade intensa, vontade atuante e liberta até um ponto transgressivo, autonomia radical e criativa típica dos chefes a quem se obedecem, Psiquê abriu a caixa dos mistérios esperando se apoderar de algo capaz de resgatar as atenções do amante; mas, inadvertida, inalou o conteúdo vaporoso do estojo e caiu pálida, tragicamente desfalecida. Enquanto isso, Eros, saudoso, curado das queimaduras, desobedecendo aos ordenamentos da mãe distraída numa festa, já estava procurando a amada; encontrando-a desfalecida na senda estreita que conecta os mundos, picou-a com a flecha da vitalidade, virtude e harmonia original, pedindo para que se levantasse e mostrasse o seu talento, equilíbrio e valor.

A consciência e as vibrações criadoras da deusa natureza, grande rainha mais bela e perene de que as flores e criaturas que nascem e fenecem, abençoou a jovem transformada pela busca acontecida nas fronteiras das possibilidades e a acolheu no reino dos semideuses e dos imortais para quem envelhecer e gastar corpos não significa morrer, mas perdurar renascendo como fênix – o dia da morte sendo um só, mas os da vida totalidade, do sem começo ao sem fim de ciclos opositores e transmutativos. Unidos, Eros e Psiquê, existem em lugares que ninguém delimita, afirmando um real mais completo de que um ideal ou qualquer reinado, um mistério e plenitude que não se entregam, essência que não se nega nem se diz, patamar de verdade talhado além do perto e aquém do longe, do real e do ilusório.

Eros e Psiquê, cuidando bem de uma cria chamada Prazer, vivem secretamente no mundo dos mortais e dos imortais, igualmente. Orientados nas pontuações da Rosa dos Ventos, pela luz do Grande Cruzeiro cardeal, coroados de virtudes e vontades destemidas e desafiantes, plenos de vitalidade renovada, encontram o Belo e o prazer em todas as formas e mais além, nas dimensões perdurantes e circunvoluções mais extensas e profundas, conhecendo as esferas infinitas. Eros e Psiquê cultivam e inteiram o prazer, reconstruindo tudo sem jamais pôr um termo, por amor ao belo, ao saber, das perspectivas mais singelas e cotidianas aos mais ocultos e profundos mistérios.

É a trama da vida, acontece expandida do possível ao impossível, como deve ser quando os mitos configuram a textura profunda do real, acima do tempo, do poder e não poder. Eros e Psiquê jamais serão realmente desvendados, vivem e acontecem numa dimensão que existe e não passa, bela e secreta, inconclusa, reservada, ponto de junção e evolução que se busca, se perde e reencontra sempre, mas não se arrazoa. Mas isso, leitor, tu já sabias, de acordo com as ponderações, descritíveis ou não, dos teus próprios talentos e aspirações.

 

Eros´and Psyche´s Myth

Pantheon´s Science or Pantheistic Religiosity

To know how to harmonize Psyche and Eros, creating a high and sublime pleasure, is a spiritual practice worth of demigods and immortal beings.

Eros´ and Psyche´s myth, as everything referring to the gods inhabiting spaces extended among surrealistic places and thoughts, is certainly subtle, thus not well understood. Psyche´s beauty owns deeper and more enduring perspectives than those of the forms, and can´t be described with words, unlike the sisters´ beauty. Neither can´t be described the majesty of this creature, its graceful way of being: the words, the reflexes, do not show the essential. The city used to dedicate to it an extraordinary veneration; it was worshipped as a goddess, or perhaps as an altar sacred image; a dilacerated symbol, with a disconnected and distant part; a foundation the common look couldn´t reach.

Psyche´s beauty was worshipped, everyone admired it, but didn´t want it, as one doesn´t want to inhabit in crystal dwellings; it used to enchant the abstracts and utopians, the visionaries, maybe some artists, but didn´t overwhelm the customary men, it was beautiful as if it weren´t. Will it be possible that its perfection existed hidden beyond the mediocre forms acclaimed by everyone? The sisters´ beauty was evident, they were extremely desired, they thrilled kings and princes; but, knowing the myth´s texture, one understands that, somehow, they could reach Psyche´s secret world as if they were its shadows; how could the daughter Psyche be radically different?

The father sent a Messenger to the Oracle of Apollo´s Temple in order to ask how to behave with this daughter whose gracefulness was acknowledged by everyone, but who wasn’t able to thrill kings or princes. The oracle answered: “Put on her a black garment and take her to the top of the highest mountain; her peer doesn´t belong to this world, he´s a powerful god”. As stated it was done and Psyche stayed isolate on the top, hanging among the worlds, in a misty mountain where one believes the humans and gods meet in the night´s dreams and revelations. Gently, a breeze transported her through the heavenly winds till a beautiful valley; in a forest of pretty flowers and fountains, a precious unguarded Palace was seen from afar, with its doors wide open, and mosaic adorned premises representing nature´s, flora´s and fauna´s creatures. Psyche entered into this enchanted place, and dazzled a voice was listened: “All this richness is yours…I´m your voice, your inner servants, you may order”: to sleep, restore or bathe yourself? What do you want, mistress ?”.

The mystery deepened, and the night arrived coming close to the destiny announced by the Oracle: to know the enamored coming from the occult; fear grew up, but the voices comforted. From the layers of the strange and dark, from nowhere, he came, laid aside her and gave her the pleasure she allowed; so it happened and before dawn he left; she was left alone during the day, he returned at night; with the anxiety eased, trust increased, more and more. The other world beyond the mountain peaks was installed as a habitable place; Psyche encountered the deep and real happiness; but her relatives, without receiving any news or having access to these events and divine mysteries, used to whine more than ever.

Evidently, Eros-Psyche and her family live in one side and the other of something that isn´t two, but just one, and this is why they exist in these encounters full of incompleteness, moments that aren´t described and that happen both on the touches and arrivals and on the emptiness and absences; today in one side, tomorrow in the other, always half of the things that collapse between remembrance and awaking, signalizing a reality beyond what can be described, both in terms of beautifulness and of the mysteries; a strange way of being and living between the real and the image, where what it is exists in a way that can´t be understood, but, when willing, one can know and acknowledge well.

At this very night, Psyche´s divine and mysterious lover warned: “Take care, a plot can put you in risk; to break our world. Your daughters imagine you don´t live, thus, they´ll come to the borders of this our place to think and shout crying out for you. Don’t answer, don´t lend them an ear, dear, not to bring suffering and defeats, to break the mystery that binds us”. Emotive, listening to the relatives´ whimpering voices, without answering the call, Psyche, remarkable daughter, started to doubt: would she be limited, living  in a prison, or would this place be truthful and sublime, work of the time that means everything? She went to bed under existential, acute crises, as one would say today.

Eros answered: “How can you doubt about my guidance and brightness, don´t you feel and see the sublime pleasure that is shaped in the meshes of our secret and transgressive love?” Compassionately, he yielded, and allowed Psyche to receive her daughters; he advised her to give them all values they were able to carry, but never willing to define him and see his face, never allowing them to become mixed up about his erotic identity. Envy, they discussed about a way to interfere in the heavenly destiny.  For the third time, Eros alerted: “Take care with your daughters and their wicked ideas, for enviously they plot a great evil. Don´t listen to them, don´t interact with them”. Feeling Psyche´s uncertainty and bewilderment, Eros god pleaded: – I implore you! For mercy´s sake! For us, and for the secret fruits of our Love”.

Confused and adrift, Psyche surrendered to these discriminating and stingy reasoned chicanes, inciting to identify and delimit this elevated life, separating the inspired places where divine things are deviated from practical and physical things; to behead this lover without a real face! Hesitant, unskilled, brandishing the sword critically sharpened by his miser daughters, Psyche stumbled in the sacred arch and pricked himself with one of Ero´s arrows; immediately, the effect of the divine arrow awakened her and cured her from all doubts, confirming and replacing on the real´s most precious dimensions the great love and the peace long cherished by them.

It´s known that Eros, alike all gods that collude with the humans, before being a creature, is a huge fire and light arc, where, between the extremes of the possible, the true love is intended; one of the arc´s sides remains suspended in things that one can´t  see, but feel, the other, as the stick planted in Cuzco, settle in the most intense and natural places to the humans; the arrow with a golden point is the secret that unifies the existential vectors, rising the humans to the entirety, to the demigods´ statutes.

On these unquiet and unskilled movements, a hot oil gush from the flaming lamp sprinkled, and Eros awakened bewildered and discredited: “For you, Psyche, I have overcome the sayings and orders of this conceited power from the mortals´ reign where wealth and properties (riches) are ruled, to build and sustain this more secret and sublime love. You have doubted and, imprudently, opened the frontiers between the worlds!”.

Disappointed, Eros left Psyche deeply regretful, willing to reaffirm in her abandonment and solitude a more lucid, amended consciousness, and a more intense affectionate will.   Rightfully concentrated, awakened, inspired and strengthened by the separation pain, she firmly walked towards her more just, correct and intense destiny, looking for Venus, Eros powerful mother, creature from the frontiers between the earth and the sea, capable of equally walking over the water and on the sand, on the shells´ and froths´ places, imploring someone to help her reconquer the blue inhabiting son. Angry, jealous because of the girl´s deeper and divine diverse beauty, Venus wanted to punish her – to others, only prepare and strengthen this still very human creature to enter into the mysteries of those who, equally, inhabit heaven and earth.

First of all, she ordered that, in some place of the barn, she separated several types of grains coarsely mixed up, finishing the task before the end of the day. An ants´ fair and precise work that could teach one to differentiate the ephemeral things, which can be sowed, harvested and consumed, from those that last forever, revealing the most fundamental dimensions and qualities of living.

In a second equally difficult test, Venus, the portals´ queen, dweller of the places where the sea kisses the sand and the sand, the sea, required her to border and cross the big wild river, and, on the other margin, meet the most valiant and mountain sheep, whose wool threads were of gold and sun, bringing flakes of this golden wool before sun set. The fluidity of the river rushes advised judiciousness, in order to wait for the most appropriate hour, and do nothing before midday; things happen in a satisfactory way, within mature and adequate time. So, Psyche brought the golden and sunny threads together with the fearlessness and prudence of the search and harvest, which added to the reasonable, just and precise ordainments of the things from the barn that were already pointing in the direction of the virtues of love´s odorous and sovereign mane.

But Venus demanded much more: bringing a delicate water, distilled in the middle of the mountain current, from this valiant creek that descends from the highest point of the cordillera and dives till the world´s most hidden deepness! Despite all doubts instigating the desistance, Psyche, courageously, confirmed the advance expressing astonishing surrender and fearlessness; it was when attentive and watchful, the heavens´ eagle went to collect for her this aqueous fluid from the middle of the currents.

For the fourth time, Venus demanded: “Now go down with this precious box until the deads´ residence, ask the life and death passage queen to give you a little bit of her mysteries, an amount enough for a day”. From the city´s highest tower where Psyche concentrated herself deciding whether or not she would try to comply with this terminative task or to plunge into the emptiness, a voice advised: “Don´t kill yourself, go firmly, take with you the necessary resources and don´t stop; walk absolute in search of this source of the deepness without missing the way and the original intent to attend counted charities, beggars affairs, weaknesses and small sticks; but attention, Psyche, this is not all: be moderate and humble, don´t want to seat in thrones, eat kings´ banquets: be content and satisfied with the most plain and simple causes; receive what you have been asked for and return immediately”. Psyche was already rising in search of her choices, but the Tower insisted to talk, suggesting: “Don’t look into the content of the box…Don´t look!”.

Successful, carrying with her the death cave´s mysteries, returning towards the humans´ plane, moved by an intense curiosity, acting will and free till a transgressive point, radical and creative autonomy typical of the chiefs who are used to be obeyed, Psyche opened the mysteries box waiting to catch hold of something liable to ransom her lover´s attention; but, carelessly, inhaled the case´s vaporous content and fell down pale, tragically faint. Whereas, Eros, yearning, cured from the burns, disobeying his mother´s orders inattentive in a party, was already looking for his lover; finding her faint in the narrow path that connects the worlds, picked her with the vitality Arrow, original virtue and harmony, asking her to rise and show her talent, equilibrium and value.

Nature´s goddess consciousness and creative vibrations, the great queen more beautiful and perennial than the flowers and creatures that are born and die out, blessed the girl transformed by the search that took place in the frontiers of the possibilities and received her in the demigods´ and immortals´ reign to whom to grow old and wear out bodies doesn´t mean to die, but last forever being born again like Phoenix – the death day being only one, but those of life the entirety, from the beginless to the endless of opposing and transmutative cycles. United, Eros and Psyche, exist in places nobody can delimit, affirming a more complete real than an ideal or any other reign, a mystery and plenitude that don´t surrender, essence that isn´t denied or asserted, platform of truth carved beyond the near and beneath the far, the real and the illusive.

Eros and Psyche, taking good care of a daughter named Pleasure, equally live secretly in the world of the mortals and immortals. Oriented in the points of the mariner´s compass card, by the light of the Great Cardinal Cross, crowned with fearless and challenging virtues and wills, full of renewed vitality, encounter the Beautiful and the pleasure in every form and beyond, in the enduring dimensions and most extensive and deepest circumvolutions, knowing the endless spheres. Eros and Psyche cultivate and complete the pleasure, rebuilding everything without ever putting an end, for Love to the beautiful, to the knowledge, from the most simple and daily perspectives to the most hidden and profound mysteries.

This is life´s plot, that happens expanded from the possible to the impossible, as it might be when the myths configure the deep texture of the real, above time, power and no power. Eros and Psyche will never really be unveiled, they live and take place in a dimension that exists and doesn´t go by, beautiful and secret, incomplete, reserved, junction and evolution point which is searched, gets lost and is always reencountered, but that´s not reasoned. But this, dear reader, you already knew, according to the ponderings, describable or not, of your own talents and yearnings.

 
 
 
 
 
 

Religiosidade Natural: Panteísmo e Práxis Vital ~ Natural Religiosity: Pantheism and Vital Praxis

“Todas as coisas estão cheias de deuses” – Tales

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Thiago André Moura de Aquino

– I –

Os momentos definidores de toda tradição religiosa são a mitologia de base ou perspectiva profunda, uma ética e uma ritualística. A vida religiosa, propriamente dita, é configurada, antes de tudo, pelo conjunto de concepções e convicções que afirma verdadeiramente, porque é através dessa perspectiva profunda que os rituais e a ética ganham substância e consistência. Esta centralidade pode ser verificada também no panteísmo, uma forma antiga e nova de religiosidade natural. Uma religião pode ser entendida ou concebida como natural caso não situe o sagrado em nenhuma esfera à parte ou secreta, oculta ou sobrenatural, caso dispense intermediações e revelações sobrenaturais. A religiosidade natural acontece pela experiência do sagrado na natureza e a partir dos recursos naturais presentes em todo ser humano, de modo espontâneo, aberto, experimental.

Se está certo o ditado que diz que “ações têm consequências”, é correto dizer das ideias e compreensões que elaboramos que elas também têm consequência s importantes para quem as abraça e carrega. É evidente que as convicções mais profundas têm influência direta na configuração da vida, especialmente aquelas relativas ao sagrado. Assumindo esse entendimento, podemos olhar para as religiões tentando entender como a vida se constitui a partir delas. É o que pretendo fazer neste texto com o panteísmo, investigando como essa religiosidade natural é traduzida em vida, como se torna existência concreta. O que forma a prática de vida, a práxis vital diária não é apenas a ação, mas também a postura e a atitude básica. Ao descrever essa concretização , acrescento um pequeno parágrafo ao importante capítulo de fenomenologia da vida religiosa dedicado ao panteísmo.

O principal pressuposto e ponto de partida natural da fenomenologia da existência é a conjunção essencial entre autocompreensão e existência. Entre o conceito e a vida , existe uma correlação dinâmica que se realiza num movimento circular que atravessa sem repouso duas direções. De um lado, o pensamento provém das experiências vitais, sendo a vida a fonte mais rica do pensar ; de outro, o pensamento clarifica e orienta o processo existencial de cada um. É com base nesta correlação entre pensamento e vida que coloco a questão: o que significa ser panteísta? Como vive, convive, existe um(a) panteísta? É importante ressaltar que a tematização desta forma de viver, aqui apresentada, não é prescritiva, não intenciona elaborar uma receita, nem instituir uma regra, mas descrever uma prática de vida experimentada concretamente e compartilhada numa comunidade. É a partir dessa experiência que falo, pois me encontro também no interior do círculo de sentido que existe entre o conceito e a vida, articulando significados e dialogando. Antes de descrever alguns elementos dessa práxis vital panteísta, apresento uma breve definição do cerne dessa forma de religiosidade.

– II –

O eixo nuclear do panteísmo é o encontro da natureza divina na divina natureza. Esta é a intuição fundamental: a natureza de Deus consiste na divindade da Natureza. Deus não está dentro do mundo, o mundo não está dentro de Deus, Deus é a própria Natureza. Em última instância , não há aqui uma relação entre dois polos que possa ser concebida como uma relação de continente e conteúdo; o sagrado e o universo são dois nomes para o mesmo fenômeno, são sinônimos unitários. O sagrado somente pode ser experimentado numa ambiência de manifestação, na qual suas características e qualidades mais específicas aparecem e transparecem. Percebo três elementos essenciais do sagrado que a natureza expressa com a devida clareza: i. caráter absoluto: não há sinais de que o universo, o conjunto de tudo quanto há, dependa de qualquer instância prévia ou anterior. A natureza é pura emergência e surgimento, um movimento que tem em si mesmo seu princípio de implementação, é por si. É absoluta, ou seja, é solta (solutus) de (ab) toda relação de dependência exterior; ii. potência, a ausência de exterioridade implica que a natureza é autossuficiente , tem poder para ser fonte e origem de si mesma e de todas as coisas naturais que nascem no fluxo de transformação e que perduram de acordo com sua capacidade; iii. eternidade, pois sendo absoluta e realizando uma potência de afirmação radical, a natureza não tem começo, nem fim, nem propósito exterior. Essas são, em síntese, as qualidades da natureza que o/a panteísta reconhece como expressões da sua sacralidade: absolutidade, potência infinita, eternidade. É a partir daqui que é configurada a experiência vital, a partir da beleza e grandeza da divina natureza.

– III –

Ao reconhecer o sagrado no universo, o/a panteísta reafirma a antiga divisa que diz “tudo é um”. Unidade e totalidade estão entrelaçadas, permitindo ao panteísta perceber e valorizar as conexões, ligações, relações e visualizar, até onde for possível, a composição do mundo. Em outras palavras, a/o panteísta nunca se dissocia de suas relações, não se separa das coisas e do contexto, não olha de fora, não se vê no isolamento. O panteísmo é a dissolução de qualquer tipo de solidão metafísica possível. A partir da experiência contínua da unidade, sabemos ser parte integrante do todo. Esta é a primeira concretização existencial do panteísmo, o sentimento de união com todas as coisas naturais.

A partir da constatação da unidade, o/a panteísta pode situar-se e encontrar-se mais fortemente com base nas coordenadas do espaço e do tempo. Do ponto de vista do espaço, o/a panteísta experimenta um sentimento de pertencimento, de pertencer à natureza. O estar-aí no mundo é vivido como um habitar o mundo, um encontrar no mundo uma casa, um habitat. Do ponto de vista do tempo, o/a panteísta encontra na vivência do agora o núcleo mais concreto da transformação e realização. O futuro não é ainda, o passado não é mais, apenas o presente se presentifica. Dessa maneira é atingida uma excelente orientação vital: sempre estive no mesmo lugar, aqui, sempre vivi o mesmo instante, agora. A proveniência e o destino não são transposições, nem deslocamentos, mas traduções de uma existência estável que somente encontra-se a si mesma no aqui e agora, no hic et nunc. Quem pensa assim resolve as velhas questões existenciais: quem sou? De onde vim? Para onde vou? A primeira delas é a mais simples, porque sou um ser vivo, ente natural, parte integrante da ordem natural. Sendo assim, não vim de nenhum lugar, pois sempre estive aqui, bem como não irei para nenhum lugar porque sempre estarei aqui. Esta é a segunda concretização existencial do panteísmo, a realização de uma vida profundamente encontrada consigo mesmo por encontrar-se a si mesma enquanto natural, nativa, universal.

Dessa forma bastante concreta de situar-se, decorre para o/a panteísta uma alteração da qualidade da práxis vital. É fácil perceber que somos parte da natureza com elementos que configuram o próprio processo natural. Ser parte integrante implica ser participante da dinâmica da natureza. Um dos fenômenos mais admiráveis da natureza é justamente o fato de que ela concede a tudo o que produz uma dignidade própria. Em toda coisa natural expressa-se um poder específico, correlativo a sua singularidade. Cada ente natural recebe seus dons, talentos, capacidades, em suma, sua potência própria. Uma potência de ser o que é e de existir de acordo com sua natureza particular. Isto vale também para nós, porque possuímos o poder de ser humano e estamos abertos a trilhar a via da autorrealização . Temos o direito e a capacidade de realizar nossa natureza humana de maneira afirmativa, positiva, criativa e bela. Exercitando a maestria de ser o que somos em consonância com o universo, correspondendo a essa plenitude primordial. A integração criativa é tal radical que se encaramos a natureza como um espetáculo, por causa de sua beleza e exuberância, temos que compreender que não somos meros contempladores, espectadores, somos parte do elenco desse espetáculo, somos atuantes. A natureza não é paisagem, pois o olho que vê e o que é visto são um só. Esta é a terceira concretização existencial do panteísmo, o aproveitamento consciente dos seus dons para o engrandecimento da vida cotidiana.

Dentre os talentos que possuímos, há um que se destaca, que é a inteligência. A inteligência não é, evidentemente, exclusiva do ser humano, pois ainda que a diferença de grau seja significativa, diversos seres vivos demonstram percepção e entendimento do ambiente. O diferencial do ser humano consiste em perceber a si mesmo como sapiente e sabedor das coisas e por ser capaz de traduzir sua autocompreensão pelo discurso. No ser humano , a inteligência é razão e linguagem simultaneamente. A razão é uma luz natural, um poder de pensar, conceituar, discriminar, avaliar e entender, que forma o eixo da autonomia e autorrealização . É inevitável que o/a panteísta honre esse dom da natureza e afirme a compreensão, unificada com a afetividade, como o centro da existência concreta, como núcleo do processo vital. Isto significa essencialmente que somos aprendizes natos, pois viver é apreender, exercitando a percepção e a intuição que nos permitem apreciar e valorizar a exuberância e beleza das coisas. Esta é a quarta concretização existencial do panteísmo, favorecer o poder de pensar, ativando a lucidez no seu existir, concretizando uma harmonia com a ordem universal, porque a inteligência humana não deve ser pensada em dissociação com a razão universal.

Ser panteísta é uma maneira possível de ser humano que mantém viva e intensa a conexão com a naturalidade que está em nós. Ser panteísta é celebrar a unidade com o todo, atingir a serenidade por saber qual seu lugar e qual seu instante, ser criativo ao configurar a existência através dos dons naturais que lhe são próprios, cultivando a sapiência, a compreensão e o entendimento. A partir daqui são desenvolvidos os contornos da prática ética de exercício das virtudes, as diferentes formas artísticas e cerimoniais de celebração e ritualística, assim como as regras de uma convivência franca, cooperativa e dialógica.

O/A panteísta é a natureza que se encontra consigo mesma e que se alegra.

 
 

Natural Religiosity: Pantheism and Vital Praxis 

“All things are full of gods” – Thales

                                                                                 

By: Thiago André Moura de Aquino

– I –

The defining moments of every religious tradition are the basic mythology or profound perspective, an ethics and a ritualistic. The religious life, as properly said, is configured, first of all, by the set of truly affirmed conceptions and convictions, because it´s through this profound perspective that the rituals and the ethics gain substance and consistency. This centrality can also be verified in the pantheism, an ancient and novel way of natural religiosity. A religion can be understood or conceived as natural should the sacred not be situated in any separate or secret, hidden or super-natural sphere, in case it dispenses supernatural intermediations and revelations. The natural religiosity takes place by the sacred experience in nature and from the natural resources present in every human being, in a spontaneous, open and experimental way.

If the saying “actions have consequences” is right, it is correct to say that the ideas and comprehensions we create also have important consequences to whom adopt and carry them. It´s evident that the deepest convictions have direct influence on life´s configuration, specially those relating to the sacred. By assuming this understanding, we are able to view the religions trying to understand how life is formed as of them. This is what I intend to do with pantheism in this text, investigating how this natural religiosity is translated into life, how it becomes a concrete existence. What forms life´s practice, the daily vital praxis isn´t only the action in itself, but also the posture and the basic attitude. When describing this accomplishment, I add a small paragraph to the important chapter on phenomenology of the religious life dedicated to pantheism.

The main presupposition and natural starting point of the phenomenology of existence is the essential conjunction between self-understanding and existence. Between the concept and life, there is a dynamic correlation that takes place in a circular movement that crosses over two directions without rest. On one side, the thought derives from vital experiences, being life the richest source of thinking; on the other, the thinking clarifies and orients each one´s existential process. It´s based on this correlation between thinking and life that I raise the question: what means to be pantheist? How does a pantheist live, cohabit, exist? It´s important to emphasize that this way of living, here indicated, isn´t prescriptible, does not require a prescription, nor establish a rule, but describe a life practice concretely experienced and shared into a community. It is from this kind of experience that I express myself, for I am exactly in the middle of the sense circle existing between the concept and life, articulating meanings and dialoging. Prior to describe some elements of this pantheist vital praxis, I present a brief definition of the core of this form of religiosity.

                                                                     

                                                                   – II –

The nuclear axis of pantheism is the encounter of the divine nature in the nature divine. This is the fundamental intuition: God´s nature consists in Nature´s divinity. God is not inside the world, the world isn´t inside God, God is Nature itself. Without further appeal, there isn´t here a relationship between two poles that can be conceived as a continent and content relationship; the sacred and the universe are two names for the same phenomenon, they are unitarian synonymous. The sacred can only be experienced in a manifestation environment, where its most specific features and qualities appear and become manifest. I notice three essential elements of the sacred that nature duly clearly expresses: (i). absolute character: there are no signs that the universe, the set of everything that exists, depends on any previous or former instance. Nature is pure emerging and appearing, a movement that has in itself its implementation principle, it´s itself. It´s absolute, that is, it´s free (solutus) from (ab) every external relationship dependence; (ii), power, the absence of outwardness implies that nature is self-sufficient, it has power to be source and origin of itself and of all natural things that come in the transformation flow and endure according to their own capacity; (iii), eternity, as it is absolute and performs a radical affirmation power, nature has no beginning nor end, and neither an external purpose. These are, in synthesis, nature´s qualities that the pantheist acknowledges as expressions of its sacralization: absoluteness, endless power, eternity. It is from this point that the vital experience is configured, from the beauty and grandeur of the divine nature.

– III –

When recognizing the sacred in the universe, the pantheist reasserts the ancient motto that says: “everything is one”. Oneness and entirety are interlaced, allowing the pantheist to perceive and appraise the connections, unions and visualize, until the possible is reached, the world´s composition. In other words, the pantheist never dissociates him/herself of his/her relationships, does not separate him/herself from the things that belong to the context, does look outward, does not see him/herself isolated. Pantheism is the dissolution of any kind of metaphysical solitude possible. As of the oneness´ continuous experience, we know we are an integrating part of the entirety. This is the first existential concretization of pantheism, the feeling of union with every natural things.

From the confirmation of the oneness, the pantheist can find and feel him/herself stronger based on the space and time coordinates. From the space stand point, the pantheist experiences a belonging feeling, that of belonging to nature. The being-there in the world is lived as living in the world, as finding a dwelling, a habitat, in the world. From the time stand point, the pantheist encounters in today´s experience the most concrete nucleus of transformation and realization. The future isn´t yet, the past isn´t anymore, only the present is considered present. This way an excellent vital orientation is reached: I have always been in the same place, here, I have always lived the same moment, now. Provenience and destiny are not transpositions, nor displacements, but translations of a stable existence that only finds itself here and now, at the ‘hic at nunc’. He/she who thinks this way solves the old existential subject matters: who am I? Where have I come from? Where am I bound to? The first of them is simpler, because I am a live being, a natural being, an integrating part of the natural order. Being this way, I have come from nowhere, for I have always been here, as I won´t go anywhere because I´ll always be here. This is the second existential concretization of pantheism, the realization of a life deeply encountered with itself even when it´s found in itself while natural, native, universal.

From this extremely concrete way of situating him/herself, to the pantheist a change in the quality of the vital praxis results. It´s easy to observe that we are part of the nature with elements configuring the natural process itself. Being an integrating part implies being a participant of nature´s dynamics. One of nature´s most admirable phenomena is exactly the fact that it grants to everything what produces a self dignity. In every natural thing a specific power is expressed, which is correlative to its singularity. Each natural being receives its gifts, talents, capacities, summing up, a self power. Power of being what we are and of existing in accordance with our individual nature. This is also valid to us, because we own the power of being human and we are open to follow the route of self-realization. We have the right and the capacity to performing our human nature in an affirmative, positive, creative and beautiful way. Exercising the mastery of being what we are in consonance with the universe, corresponding to this primordial plenitude. The creative integration is so radical that if we face nature as a show, because of its beauty and exuberance, we have to understand that we are not mere contemplators, spectators, we are part of the cast of this show, we act. Nature isn´t a scenario, for the eye that sees and that which is seen are only one. This is the third existential concretization of pantheism, the conscious utilization of its gifts to daily life´s enlargement.

Among the talents we own, one outstands, which is the intelligence. The intelligence, evidently, isn´t exclusive of the human being, for even when the difference of degree seems to be meaningful, several living beings evidence owning perception and understanding of the environment. The differential in the human being consists in the capacity to perceive him/herself as wise and aware of things and with the capacity to translate his/her self-understanding through the discourse. In the human being, the intelligence is reason and language simultaneously. Reason is a natural light, a power of thinking, concepting, discriminating and understanding, which form the axes of autonomy and self-realization. It´s inevitable the pantheist should honor this gift of nature and affirm the understanding, united with affectivity, as the center of the concrete existence, as nucleus of the vital process. This, essentially, means that we are innate learners, for living is learning, exercising the perception and intuition which allow us to appreciate and appraise the exuberance and beauty of the things. This is the pantheism fourth existential concretization, to favor the power of thinking, activating the lucidity in its existing, accomplishing a harmony with the universal order, because human intelligence should not be thought of dissociated from the universal reason.

Being a pantheist is a possible way of being human that keeps alive and intense the connection with the simplicity that exists in us. Being a pantheist is to celebrate the oneness with the entirety, reaching the serenity because we know our place and our moment, being creative when configuring existence through the natural gifts which belong to us, cultivating the wisdom, the comprehension and the understanding. From now on, the contours of the ethical practice in the exercise of the virtues, the different artistic and ceremonial ways of celebration and ritualistcs, as well as the rules of a franc, cooperative and dialogical acquaintanceship.

The pantheist is nature that comes together with him/herself and becomes happy.

 
 

Quem é você? Qual o seu sentimento primevo? ~ What it is to be a pantheist, scientificist, atheist or supernaturalist theist

O que é ser panteísta, cientificista, ateu e teísta sobrenaturalista?

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With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier  

O cientificismo, ou fisicalismo, é um estado de perturbação cognitivo crônico, típico dos que não entendem que o ser humano, digno da denominação, não é uma razão lógica, mas complexa. Ser humano é ser um símbolo vivo, fabricante de mitos e perspectivas profundas ou cósmicas. O estado-de-ser-humano ajunta em união impreterível a totalidade dos sentidos com a totalidade das formas; tudo o que ajunta em união, sentido e forma é símbolo: por isso o ser humano é simbólico. Ele não pode deixar de se identificar com uma narrativa simbólica, ou mito, que serve de enquadramento fundamental, ou batismal, a partir do qual a vida societária, cultural e histórica se desenha. A ordem da cidade, o prazer e sofrimento de viver em natureza e cultura, dependem do mito original, fincado na qualidade da relação entre o significante e o significado. Se eu mesmo, significante consciente, dou a mim mesmo, significado e valores pejorativos, depreciativos, estarei convertendo o meu mundo, potencialmente prazeroso, em um inferno, o meu símbolo poderá ser um homem crucificado, ou similar; se dou um valor apreciativo e nobre, abrirei as portas de um paraíso, de uma vida amorosa, e o meu símbolo poderá ser o de uma criança recém-nascida nos braços de uma mãe sublime, de uma natureza bela e criadora. Qual a sua apreciação senciente, fundamental e nativa de si mesmo, como modo de viver, existir e de estar no mundo? Qual a qualidade da sua consciência intuitiva frente ao seu estado nativo? Simpática, amorosa, unitária e sublime? Caso a sua resposta seja sim, você é, de alguma forma, um panteísta, consagrando a vida ao Belo, à natureza e ao cosmos que se honram e louvam com amor e prazer, nasceu no lugar mais digno, está em união divina consigo mesmo e seu mundo. Caso a sua resposta seja antipática, opositiva e negativa, sem graça, você terá dificuldade em se reconhecer panteísta, poderá ser cientificista, fiscalista, ou teísta salvacionista buscando no reino das coisas, do ter, do possuir, da morte, a glória de viver. Poderá, igualmente, ser ateu, negar ser símbolo, enxergando-se como um objeto cultural e histórico, acontecido aleatoriamente na formação das coisas. Quem é você? Qual o seu sentimento primevo?

What it is to be a pantheist, scientificist, atheist or supernaturalist theist.

Translation by Stephen Cviic

Régis Alain Barbier  

Scientism, or materialism, is a chronic state of cognitive disturbance, typical of those who do not understand that the human being worthy of the name is not a logical but a complex reason. To be human is to be a living symbol, a maker of profound or cosmic myths and perspectives. The human state-of-being brings together in essential union the totality of senses with the totality of forms; everything that he brings together in union, sense or form is a symbol: therefore being human is symbolic. He cannot fail to identify himself with a symbolic narrative, or myth, which serves as a basic or baptismal foundation from which social, cultural and historical life is shaped. The orderof the city, the pleasure or suffering of living in nature or culture, depend on the original myth, rooted in the quality or the relationship between the signifier and the signified. If I myself, a conscious signifier, give myself a pejorative or negative meaning or values, I will be converting my potentially pleasurable world into a hell, my symbol could be a crucified man, or such-like. If I give myself an appreciative and noble value, I will open the gates of heaven, of a loving life, and my symbol may be that of a new-born child in the arms of a sublime mother, of a beautiful and creative nature.  What is your basic, fundamental appreciation of yourself, what is your way of living, or existing and being in the world? What is the quality of your intuitive consciousnesss faced with your native state? Sympathetic, amorous, unitary and sublime?  If your answer is yes, you are – in some way – a pantheist, devoting your life to the Beautiful, to nature and the cosmos which are honored and praised with love and pleasure, you were born in the worthiest place, you are in divine union with yourself and your world. If your answer is antipathetic, oppositive and negative, without grace, you will have difficulty in acknowledging yourself as a pantheist, you may be a materialist, or a Salvationist theist searching for the glory of living in the kingdom of things, of having, of possessing, of death. You may, equally, be an atheist, denying that you are a symbol, seeing yourself as a cultural and historical object, happening randomly in the formation of things. Who are you? What is your primal feeling?

Dos delineamentos de uma boa terapia filosófica ~ Outlines of a good philosophical therapy

GREEN PEACE+

Régis Alain Barbier

O homem criador de discurso não é a medida de todas as coisas; a medida justa de todas as coisas assenta na junção fenomênica que enraíza entre a consciência que pensa e a natureza que estrutura os corpos, organizando a existência; considerar plenamente a realidade da natureza desrespeitada na cultura é imprescindível à reinstalação de justas medidas na prática existencial. A causa maior de sofrimento dos que vivem nessas cidades congestionadas e poluídas como tumores, perigosas como as florestas que circundavam os burgos dos séculos passados, não origina da natureza, mas da cultura; o homem sem ciência e saber, vendido e acomodado às estruturas do poder, é o pior inimigo do homem verdadeiro, do homo sapiens propriamente dito.

Sidarta, o Buda, educado do modo artificioso e fraudulento na casa de um pai chefe de clã, promotor de dores e desequilíbrios, de acordo com as circunstâncias ilusórias em que vivia, entendeu o sofrimento como um destino necessário e central e o trabalho do Buda foi reencontrar um modo natural e filosófico de viver nessas circunstâncias existenciais nocivas, fortemente deturpadas e desentendidas. Como outras religiões, destituído de enunciados teopolíticos claros e precisos, o budismo apresenta um modo pessoal de suportar e transcender o sofrimento cultural artificioso, desenhando um posicionamento virtuoso inspirado no taoísmo e na ioga, acrescido de coordenadas teleológicas compensadores. Partes dos ingredientes fundamentais do budismo e outras religiões mais tardias são potencialmente encontráveis nas tradições anteriores das culturas hindus e do Ganges, e, igualmente, presentes nas práticas dos estoicos e epicurianos, nesses casos, justamente depuradas das aspirações teleológicas que não condizem com a sobriedade filosófica e o respeito ao não saber.

Na filosofia, qua filosofia, pré-socrática até Sócrates inclusive, as virtudes intelectivas e físicas do homem natural e saudável, dotado dos dons que lhe são específicos, são louvadas e comprovadas suficientes para compreender o que se necessita para constituir um viver harmonioso, condizente com as exigências de respeito ao meio onde a vida acontece; o homem natural encontra as medidas que justificam e honram a vida na própria estrutura da existência como aparece dado-a-ser à luz da razão qualificada e do bom senso imediato, do sentimento estético apurado no leque mais amplo das abstrações geométricas, líricas, formais e míticas.

O estado-de-ser reúne a inteligência dos princípios e a estrutura do cosmos configurando um estado de lucidez formal como junção necessária e paradoxal das qualidades e das quantidades. Realizada progressivamente, a plena consciência de si coopta e unifica a totalidade da consciência possível no espaço-tempo, consagrando uma união latente onde a consciência revela ser a consciência do cosmos e onde o cosmos é cosmos para a consciência em que se manifesta, confirmando e estabelecendo uma relação unitária impreterível, com expressividades paradoxais, revelando-se um biônimo criativo e vital cuja essencialidade e abrangências escapam a mensuras que aspiram delimitações objetivas e históricas – à luz da razão natural, a história e a objetividade colapsam na identidade original do sujeito.

Existindo essa corrente vital reunindo recursos, intercâmbios e valores desde o início dos tempos, ampliando o leque das concentrações unitárias iniciais em variegados floreios de diversidades e harmonia, manifesta-se um estado-de-ser proativo e eventualmente ciente de si, uma boa manifestação existencial, igualmente dada-a-ser e fazer, trazendo em si as virtudes espontâneas e autopoiética da criatividade. Essa plena consciência e realização operada naturalmente no fluxo evolutivo acontece em ignições cada vez mais frequentes e numerosas, suportadas pela atuação dos princípios onde maiores cotas de lucidez dinamizam o sistema no sentido da sua realização mais plena e efetiva nas circunstâncias dadas. O advento de uma sociedade cosmo-sinérgica e responsável, maximamente dialógica e lúcida, é previsível por necessidade intrínseca da ordem evolutiva. É o dever dos homens de boa vontade participar desse processo provativamente, encurtando e facilitando as vias destinadas a reformular a ordem da cidade, tornando a política condizente à aspiração de harmonia e felicidade do homo-sapiente.

A história intelectiva desse lento processo de maturação não se encontra adequadamente explicitada nas pautas idealísticas da Academia, condicionadas à sombra dos seus mentores, regentes e plutocratas instalados e ordenados em perspectivas elitistas e hierarquizantes que negam o igualitarismo circunstancial e o sinergismo estrutural e sensível da ordem natural como repositório e embasamento necessário ao porvir feliz e magna realização da natureza humana. Por isso a história das ideias, o elenco dos modos de imaginar e pensar a vida, a história das ideias de acordo com as pautas da Academia, não fornece as balizas necessárias ao desenho de uma terapia significativa e eficaz, permitindo sentir e pensar o fenômeno humano nas suas circunstâncias plenas e naturais. Faltam os aportes fundamentais da estética, a história necessária e significante dos encontros do estado-de-ser com a sua verdadeira natureza prístina, falta inscrever nesses processos de busca e hermenêuticas a história da lucidez e das suas evoluções nas medidas dos encontros dinamizadores extasiantes da psique com Eros; falta reconhecer plenamente os aportes dos povos indígenas, introduzir nos cogitos a compreensão clara dos usos e costumes dos povos e culturas antes grosseiramente superestratificadas, os aportes da literatura, da poética, dos processos psicológicos de libertação, do romantismo e da arte em geral: todos elementos fundamentais devendo integrar os processos de transformações que hoje se concretizam em passos redobrados, de acordo com a emergência da crise existencial.

Para (re)viver um modo de ser feliz e natural, é necessário rememorar e maximizar o valor dos diálogos gravados nas curvas da memória e acontecidos entre a psique sensível e o intelecto racional, confirmar a rendição da razão lógica aos argumentos estéticos e paradoxais mais vitais e mulitssensórios. A chave de arco da existência, seus potenciais de felicidade ou infelicidade se delimitam de acordo com o que se pode apreciar a respeito da qualidade e valor da relação consciência-existência como assenta no psiquismo mais sensível e genuíno; em primeiro lugar, na capacidade de apreciar o Belo na harmonia das coisas e eventos imediatos, em segundo, através das impressões batismais que se recebem ao ouvir os mitos e contemplar os símbolos que rondam as igrejas e lugares de cultos, que, nessas sociedades padronizadas, são herdeiros das mesmas conveniências que arregimentam sacerdotes e acadêmicos em edificações irmãs.

É necessário explicitar com clareza que o ser humano é, igualmente, cósmico e mítico como esses semideuses do antigo panteão: a natureza humana é movida a mitos! Os que não se pronunciam sobre os potenciais de escolhas assentados nas perspectivas míticas talhadas nas fronteiras da ontologia e da metafísica endossam acriticamente os enquadramentos societários da estrutura instalada, não propondo aos seus alunos muito mais de que um relaxamento descomprometido, uma adaptação sublimada e relativística da vida aos determinismos do status quo.

A necessidade de reequilibrar e ponderar a situação histórica e cultural geradora de sofrimentos, seus fundamentalismos e consequências reativas, exige uma crítica da cultura e dos seus mitos: a eficácia e contundência dessa crítica é o sinal necessário que permite pautar o vigor evolutivo de uma proposta filosófica; apenas uma reestruturação metafísica monista e integrada dos sistemas filosóficos, ajuntando nas mesmas pautas as coisas de César e de Deus, ensinando e estimulando cada um dos nascidos a encontrar esses césares e deuses em si mesmos pode atestar a atualidade dialógica e novidade beneficente de uma proposta terapêutica.

Outlines of a good philosophical therapy

The man who creates discourses is not the measure of all things; the true measure of all things is rooted in the phenomenological junction between the consciousness that thinks and the nature that structures bodies, organizing existence. In order to re-establish the right coordinates in existential practice, it is essential to consider fully the reality of the nature that is disrespected by our culture. The main cause of the suffering of people who live in these cities that are crowded and polluted like tumours, dangerous as the forests that encircled the settlements of past centuries, does not originate in nature, but in culture: the man without science and knowledge, who has sold out to and compromised with the structures of power, is the worst enemy of the true man, of the real homo sapiens.

Siddharta, the Buddha was educated in an artificial and fraudulent way in the house of a father who was head of a clan and who promoted suffering and imbalances that matched the illusory circumstances in which he lived. So Siddharta understood suffering as a necessary and central destiny, and the Buddha’s work was to find once again a natural and philosophical way of living in these damaging existential circumstances, strongly falsified and misunderstood. Like other religions, when stripped of its clear and precise theo-political statements, Buddhism represents a personal way of bearing and transcending an artificial and culturally-rooted suffering, outlining a virtuous position inspired by Taoism and Yoga, with the addition of compensatory teleological ideas. Parts of the basic ingredients of Buddhism and other, later religions can potentially be found in the earlier traditions of Hindu cultures and those of the Ganges, and are equally present in the practices of the Stoics and the Epicureans – but in these philosophical approaches the therapies are suitably purified of all teleological aspirations which are not aligned with rational sobriety and respect for Socratic not-knowing.

In philosophy qua philosophy, in the pre-Socratic era up until Socrates himself, the intellectual and physical virtues of the natural and healthy man, endowed with gifts that are specific to him, are praised and regarded as sufficient to understand what is necessary for a harmonious life, one that meets the demands of respecting the environment where life happens. The natural man finds the means by which he can justify and honour life in the very structure of existence, as it appears to be in the light of qualified reason and of immediate good sense – the aesthetic sense that is refined in the broadest range of geometrical, lyrical, formal and mythical abstractions.

The state-of-being brings together the intelligence of principlesand the structure of the cosmos, and constitutes a state of formal lucidity as a necessary and paradoxical junction of qualities and quantities. Achieved gradually, full consciousness of oneself brings together the totality of the consciousness possible in space-time, establishing a latent union where consciousness is revealed as being the consciousness of the cosmos and where the cosmos is cosmos for the consciousness in which it manifests itself. This confirms an essential unitary relationship, with paradoxical expressions, and it reveals itself as a vital and creative organism whose essence and ramifications escape the measurements that objective and historical delineations attempt. In the light of natural reason, history and objectivity collapse into the original identity of the subject.

With the existence of this vital current that has been bringing together resources, exchanges and values since the beginning of time, broadening the range of initial unitary concentrations in variegated flowerings of diversity and harmony, a state-of-being manifests itself that is pro-active and sometimes self-aware, a good existential manifestation, equally given to being and doing, containing in itself the spontaneous and autopoietic virtues of creativity. This full consciousness, operating naturally in the evolutionary flux, sparks into life ever more frequently, supported by the action of principles whose greater degrees of lucidity make the system dynamic, in the sense of making it achieve its fullest and most effective potential in the given circumstances. The advent of a cosmo-synergical and responsible society, extremely lucid and dialogic, can be predicted through the intrinsic necessity of the evolutionary order. It is the duty of men of goodwill to take part in this process pro-actively, shortening and enabling the paths that are destined to reform the order of the city, bringing politics into line with homo-sapiens’ aspiration for harmony and happiness.

The intellectual history of this slow process of maturing is not made sufficiently clear in the idealistic schemes of Academia, which is conditioned by the shadows of its mentors, regents and plutocrats. Their thought-processes are rooted in elitist and hierarchical perspectives that deny the circumstantial egalitarianism and the structural and sensitive synergism of the natural order as a necessary repository and foundation for a happy future and the great realisation of human nature. That is why the history of ideas, the roll-call of ways of imagining and thinking about life, the history of ideas according to the schemes of Academia, does not provide the right guide-posts for the design of a significant and efficacious therapy, allowing the human phenomenon to feel and think in his full, natural circumstances. The fundamental contributions of aesthetics are lacking, as is the necessary, significant story of the state-of-being’s meetings with his true, pristine nature. These accounts omit the need to include the story of lucidity and its evolution through the dynamic, ecstatic meeting of the psyche with Eros in these processes of search and hermeneutics. They omit the need fully to acknowledge the contributions of the indigenous peoples, and to introduce into thought systems a clear understanding of the habits and customs of peoples and cultures previously grossly superstratified, and the contributions of literature, of poetry, of the psychological processes of liberation, of romanticism, and of art in general. All these fundamental elements should be part of the processes of transformation which are today manifesting themselves more intensely, along with the emergence of the existential crisis.

In order to recover a natural and happy way of living, it is necessary to recall and maximise the value of the dialogues – recorded in the memory – which took place between the sensitive psyche and the rational intellect, to confirm the surrender of logical reason to the most vital and multi-sensory aesthetic and paradoxical arguments. The key to the arc of existence, its potentials for happiness or unhappiness are bounded by the limits of what a person can appreciate of the quality and value of the consciousness-existence relationship as it takes root in the most sensitive and genuine psyche. In the first place, this lies in the ability to appreciate the Beautiful in the harmony of immediate things and events; in the second place, through the baptismal impressions that are received when we hear the myths and contemplate the symbols which surround churches and other places of worship, which – in these standardised societies – are inheritors of the same convenient arrangements which bring priests and academics together in sister institutions.

It is necessary to explain clearly what the human being is, as cosmic and mythic as those semi-gods of the ancient pantheon: human nature is moved by myths! Those who do not speak out about the potentials for choice rooted in the mythic perspectives carved out on the frontiers of ontology and metaphysics uncritically endorse the social foundations of the established structure, not proposing to their students much more than uncommitted relaxation, a sublimated and relativistic adaptation of life to the determinisms of the status quo.

The need to re-balance and consider the historical and cultural situation that has generated suffering, its fundamentalisms and reactive consequences, demands criticism of the culture and its myths. The efficacy and robustness of this criticism is the necessary signal that makes it possible to put the evolutionary vigour of a philosophical proposal on the agenda. Only a monist and integrated metaphysical restructuring of philosophical systems, bringing the things of Caesar and of God together on the same plane, teaching and stimulating every creature that is born to find these caesars and gods in themselves, can give evidence of the dialogic up-to-date-ness and the beneficial novelty of a therapeutic proposal.

 
 
 

Das nobres verdades, colcha de retalhos ~ The Noble Truths, a Patchwork

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Regis Alain Barbier

No experienciar da vida algumas coisas são dignas de consideração, certas opções são básicas, por exemplo, agir com prudência.

Capital é reconhecer a vida é como ela é, não como gostaríamos que fosse, ou pensamos que deveria ser; existimos de uma certa forma e não de outra, um ponto extensivamente enfatizado pelos pensadores estoicos. Igualmente capital é reconhecer, como Heráclito e os pensadores taoístas, que estamos dentro de um fluxo ou processo em constante reconstrução, portanto algo dado-a-ser e para-fazer; nesses termos, evidencia-se que a vida é complexa e abrangente o suficiente para, certamente, justificar qualquer apreciação de valor.

*      A vida é surpreendente e complexa, passível de infinitas apreciações, sejam elas positivas ou não;

*      A existência é um processo mutante, de certa forma único para cada um, ímpar, um dado-a-ser e fazer onde tudo se transforma e se reconstrói de modo continuado;

*      Optando por uma vida proativa, é possível através de buscas e decisões, expressões e ações, operar mudanças no processo existencial; por isso, é sensato achar a vida potencialmente feliz, boa;

*      Construir uma vida amável e feliz é possível, caminhos existem.

Optando por apoiar e dar suporte à experiência vital, melhor será achar bom viver, isso, porque bom é bom, ruim é ruim e que, no fim, só vale a pena viver achando bom.

É importante enfatizar e compreender que o processo existencial é o momento atual, lugar onde colapsa a nossa própria identidade e origem; antes de identificar-se com narrativas culturais, afirmações ou sinais elaborados por outras pessoas e impressões batismais, somos atualizações do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

*      A nossa origem e identidade afirmam-se como atualização do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

Reconhecer a existência como um fenômeno radical, acontecendo no arco criativo da natureza cósmica, entre o mundo e a consciência, permite operar modos existenciais mais construtivos e ricos, caminhando em busca da otimização da vida e da felicidade. Nesse processo, é sábio compreender e realizar que, apesar do fluxo e processo constante de transmutação, a realidade das formas perdura suficientemente constante para possibilitar experiências válidas, significativas e dignas. As árvores vivem décadas, assim como os humanos; a beleza da natureza, o relevo das costas, vales e montanhas, a constância geral dos climas permanecem e duram mais tempo de que o sucedimento de muitas gerações de criaturas da fauna e da flora. Além de preparados para as mutações precisamos estar preparados para a duração dos fenômenos, aproveitar bem as duas coisas de acordo com uma justa medida.

Nessas circunstâncias onde a vida pode manifestar-se com todos seus potenciais de beleza e prodigalidade, onde se equilibram duração e mutação de modo bastante adequado em relação à nossa longevidade, beneficiando-se de criatividade e saúde, de educação e virtudes morais, igualmente, de uma construção societária ecológica, humanista e dialógica, com tecnologias e saberes suficientes, é possível acolher  e construir a vida como  um processo agradável, ocasionalmente excelente. Diversos cadernos de antropologia apontam etnias vivendo felizes e bem sucedidas em condições naturais; o que não é de se surpreender: se a vida existe é porque  encontra meios e recursos para bem existir.

Até mesmo uma pessoa nascida sem planejamento, logo, não necessariamente bem recebida, poderá lembrar experiências naturais de intensidades magníficas, extasiantes até; fazer dessas recordações sinais apontando para essa possibilidade de felicidade, prodigalidade e plenitude. Se não estamos no momento no lugar de poder avaliar o processo existencial dessa forma mais feliz, não é porque não possa ser; não estamos conseguindo encontrar a maneira de evidenciar e provar esse sossego, beleza e grandeza nas configurações em que vivemos.

É notório que diversas religiões e filosofias partem de princípios aparentemente contrários aos que aqui se enunciam, como certas interpretações e ênfases do budismo onde se exaltam o sofrimento; mas, observando melhor, o enquadramento existencial onde tal parecer se justifica não pode ser considerado natural, mas induzido culturalmente: Sidarta foi criado num castelo ilusório, artificioso e falsificado. A vida pode tornar-se difícil, exponencialmente, motivando pareceres excepcionais, quando grosseiramente deturpada por intermédio de arranjos societários inferiores ao mais sábios e mais representativos da especificidade e dignidade típica do homo-sapiente quando vivendo em condições de liberdade, com acesso irrestrito ao conhecimento e aos recursos que a vida e os intercâmbios honestos e sinceros possibilitam.

As dificuldades e desencontros entre os desejos e a vontade; o corpo, os sentimentos e as ideias; as ofertas e as demandas, com reflexos incômodos que resultam em desarmonias, morar e trabalhar em lugares julgados inadequados, fazer o que deveria ser a atividade principal como um simples hobby e passatempo domingueiro, outros desvios, até mesmo demandas de sacrifícios, são, principalmente, instituídos em disfunções precoces e desrespeitos originados em processos impositivos resultantes de culturas artificiosas fundamentadas numa falsa percepção e compreensão da vida, da natureza e da existência.

Mesmo vivendo rupturas culturais tensionadas entre o que se imagina dever ser uma sociedade tribal natural e o que, intuitivamente, se sabe possível na vigência do respeito sábio ao outro e à natureza considerada igualmente importante ao mundo das ideias, ainda assim, habitando em contextos fracionados, em colchas de retalhos, podemos encontrar períodos de felicidade e um grau significativo de plenitude vivendo eventos e momentos integrativos em tempos e lugares distintos, como interrupção, mas assim mesmo apreciando a unidade subjacente. Persistindo na busca, escolhendo bem, desenfatizando as demandas culturais insensatas, entrando em contato com a própria intuição, respeitando cada vez mais o sentimento próprio, ordenando com prudência e harmonia as peças soltas do mosaico, poderemos viver uma grande vida pacífica e rica – tempo não falta.

 

The Noble Truths, a Patchwork

During life´s experiencing, a number of things are worth considering, certain options are basic, such as prudently acting, for instance.

Of special importance is to acknowledge life as it is, not as we would like it to be, or think how it should be; we exist in a certain way and not in another way, a point excessively stressed out by the stoic thinkers. Equally important is to recognize, as Heraclitus and the Taoistic philosophers, that we are within a constant rebuilding flow or process, therefore, something given-to-be and to-be-done; under these terms, it´s evidenced that life´s sufficiently complex and comprehensive to, certainly, justify any value appreciation.

*      Life is amazing and complex, subject to endless appreciations, either positive or not;

*      Existence is a mutant process, in a certain way unique to each one, an unpaired given-to-be and do where everything is continuously transformed and rebuilt.

*      When one chooses a proactive life, it´s possible, through searches and decisions, expressions and actions, to operate changes in the existential process; thus, it´s reasonable to think about life as potentially happy, good;

*      To build a lovable and happy life is possible, ways exist.

Choosing to support and give support to life, it will be much better to find out it´s good to live, because good is good, bad is bad, and that, at the end, it´s only worth living when you think it´s good.

It´s important to emphasize and understand that the existential process is the present moment, place where our own identity and origin collapse; prior to identify itself with cultural narrations, assertions or signs worked out by other people and baptismal impressions, we are an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

*      Our origin and identity affirm themselves as an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

To acknowledge existence as a radical phenomenon, happening in the cosmic nature´s creative arc, between the world and consciousness, allows more constructive and richer existential ways to be operated, following in search of life´s and happiness´ optimization. In this process, it´s wise to understand that, despite the constant transmuting flow and process, the reality of the shapes endures sufficiently constant in order to make possible valid, meaningful and worthy experiences. The trees live for decades, such as the human beings; nature´s beauty, the coasts´, valleys´ and mountains´ reliefs, the climates´ general constancy remain and last more time than the succession of many generations of living beings, fauna and flora. Besides being ready to these changes we ought to be prepared to the phenomena´s endurance, to make good use of both things in accordance with a righteous measure.

On these circumstances where life may manifest itself with all its beauty and prodigality potentials, where duration and mutation counterbalance themselves in an extremely adequate manner in relation to our longevity, taking advantage of creativity and health, moral education and virtues, and equally of an ecologic, humanistic and dialogic social construction, with sufficient technologies and learning, it´s possible to welcome and build life as an occasionally excellent pleasant process. Several anthropology books indicate ethnic groups living happily and well-off, under natural conditions; what´s not surprising: if life exists it´s because it finds ways and resources to exist well.

Even to a person who was born without being planned, consequently, not necessarily affectionately welcome, it might be able to remind natural experiences of magnificent intensities, even ravishing; to transform these memories into signs pointing to this happiness prodigality and plenitude possibility. If we presently aren´t in the place of being able to evaluate the existential process this happier way, it´s not because it can´t be; we aren´t able to encounter the way to evidence and prove this peacefulness, beauty and grandeur in the configurations we live in.

It´s widely known that several religions and philosophies start from principles apparently contrary to those uttered here, as certain Buddhism´s interpretations where suffering is strongly emphasized; but, better observing, the existential framing where such opinion is justified can´t be considered natural, but culturally induced. Siddhartha was raised in an illusory and falsified castle.

Life can become difficult, exponentially, motivating exceptional opinions, when roughly distorted through lower social arrangements far away to the wisest and most representatives specificity and dignity typical of the ‘homo sapiens’ when living in freedom conditions, with unrestricted access to knowledge and resources that life and the honest and sincere interchanges make possible.

The difficulties and divergences between the wishes and the will; the body, feelings and ideas; offers and demands, with troublesome reflexes resulting into disharmonies, to live and work in places judged inadequate, to do what should be the main activity as a simple Sunday hobby and amusement, other deviations, even sacrifice demands, are, chiefly, established in precocious dysfunctions and disrespects originated in a fake perception and comprehension of life, nature and existence.

Even living cultural disruptions tensioned between what one imagines a natural tribal society should be, and, what is intuitively known to be possible living under wiser society’s circumstances where our equals and nature, both, would deserve the same respect, equally considered important as the world of ideas; even so, inhabiting disrupted contexts, as a patchwork, we can encounter happy moments and meaningful degrees of plenitude, living several integrative events in different frameworks, times and places, interruptedly, but even so, evocating and appreciating the underling unity. Persisting with the search, choosing well, not stressing out the unreasonable cultural demands, entering into contact with the intuition itself, respecting even more the self feeling, prudently and harmoniously ordaining the loose pieces of the mosaic, we will be able to live a great, peaceful and rich life – time we have enough.

 

O Budismo dos Himalaias ~ The Buddhism of the Himalayas

 Religiosidade celebrante ou salvatéria?

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Régis Alain Barbier

As diversas religiões são exercitadas para curar desencontros igualmente estruturados; falta de ajuste e sincronia entre os elementos fundamentais do estado-de-ser; o corpo não coincide com a ideia, o sentimento não afina com a beleza, a vida não é o que poderia ser, desfocada ao ponto de se perguntar, “estarei acordado ou dormindo; o que é realidade; de onde venho, onde estou, onde vou?”. O contexto do desencontro, seus fundamentos políticos, determinam o estilo do remédio religioso. Por isso, todas as religiões carregam em si algo de universal que perdura, mas não podem servir em totum o tempo todo e para todos e quaisquer momentos do espaço-tempo societário; os contextos mudam, as coisas se transformam.

Para que fosse universal, uma religião teria de ser a própria cura e não o remédio; teria de ser uma prática como um serviço cuidadoso, uma decoração bem posta, uma obra de arte, cujo sentido seria sublinhar a verdade, o real, o melhor do dado-a-ser e viver nas circunstâncias dadas; não seria mais uma religião, mas uma consagração. Para se ter ideia do que deveria ser uma religião universal, seria necessário estar livre, desatrelado de compromissos e determinismos étnicos, de alinhamentos históricos e tradicionais; coisas que correlatam a eventos peculiares, menos que universais. Teria de se reconhecer que não seria mais uma religião, mas uma filosofia – um culto ao que é de verdade, belo e pertinente, virtuoso e necessário nas circunstâncias dadas.

Para se ter essa ideia clara, teria de ser humilde, reconhecendo não ser a medida de todas as coisas assentadas nas ideias; teria de enxergar a natureza do estado-de-ser humano; algo bem mais fundamental de que pontos de vista vantajosos, narrativas, historicidades ou perspectivas batismais. Seria necessário reconhecer que a natureza do estado-de-ser humano é antes de tudo a natureza da natureza, portadora evidente de um Logos-inteligência e Ethos-arquitetura intrínsecos e cósmicos, abrangendo tudo o que pode ser pensado no arco da consciência que é do mundo, e do mundo que é da consciência, como dois lados de uma esfera infinita.

Para que essa atividade fosse explicitada e demonstrada como forma espiritualista  essencial, igualmente, uma celebração para quem a praticasse, teria de acontecer em um lugar original como uma civilização primordial, naturalmente enraizada e assentada no meio onde surgiu, ou se fosse o caso, uma civilização antes relativamente esquecida, re-imaginada graças a uma inteligência profunda, capaz de admirar a beleza e grandeza da natureza, a perene essencialidade do respeito e da justa conformação. Indubitável seria uma celebração, coroada de um núcleo de razão natural, de união, paz e amor, que é união bem sentida e apreciada. Antes de tudo um reconhecimento do ser sublime e uno que é a natureza como é; o momentum ideal não seria outro de que o real, não existiria dicotomia entre o intelecto que pensa e sente; esse lado da psique para quem pensar é sentir, para quem o saber pleno é possível porque idêntico a sentir tudo.

Onde tal prática celebrante existiria? Na casa de fantasmas que acreditam seus pensamentos como augures ou coisas sobrenaturais ficados na não existência da morte? Na casa dos que pensam estar pensando separados dos objetos em que pensam, que o pensamento possa ser estrutura independente, algo como um espírito destituído de carne? Certamente não. Esses fantasmas existem venerando os sacerdotes das suas religiões como se fossem seres vindo do além, enviados à natureza em visitas diplomáticas, ou vistos como um time escasso composto dos mesmos raros iluminados; existem, igualmente, esses para quem os sacerdotes são manipuladores de tecnologia e fabricantes de robôs; mas não sabem reconhecer esse plano natural onde ser religioso é celebrar o que é, onde pensar é igualmente sentir, onde rezar é agir, onde viver junto em meio ao dado-a-ser natural é ser salvo.

Essa espiritualidade celebrante só poderia advir e existir em lugares originais, destituídos de desvios, traumas e vícios. Onde existem hoje tais lugares? Existiam nas tribos antes das conquistas superestratificadoras, existem como lugares peculiares aos que se libertaram das suas impressões tradicionais e batismais, dos que morreram para o mundo das suas culturas nativas e similares e que renasceram em si mesmos, no arco do Logos e do Ethos da natureza, encontro onde o mito ou imagem inaugural revelada na fresta virtual da união da consciência e do mundo não é um dedo em riste acusando e banindo, uma pena grafando história, mas um abraço que une e recolhe. Os ditos primitivos, simplórios, as crianças, os poetas os banidos das escolas, cátedras e posições citadinas têm mais chance de compreender e viver essa forma plena de celebração de que quaisquer fiéis do ranking dos que buscam além ou em entrelinhas turvas um lugar para bem ser.

Esses cultos celebrantes correspondem às práticas que se configuraram na Jônia, antes de Sócrates, talvez na China do taoísmo natural e ancestral de Lao-Tsé, nas sociedades agrarias dos primórdios, seria algo como as práticas naturalistas, a arte da dança e do círculo dialógico como existia em certas tribos; seria de um panteísmo pleno e radical, mais talvez do que o de Espinosa, onde à essência não se atribuiria mais potenciais que os demonstrados e cuja primordialidade não fosse extemporânea, de alguma forma transbordante ao que é manifesto, mas o ponto central e mais interno da totalidade dos movimentos possíveis.

As demais formas religiosas de espiritualidade são remédios porque se originam em circunstâncias artificiosas afastadas da ordem e harmonia implícita e explícita resultante da coexistência da estrutura natural com a inteligência plena da criatura; uma ordem que naturalmente se revela a partir do momento onde surge o homo-sapiente que, quando individualmente desperto, se reconhece e se intui presente desde os primórdios, mesmo que não se mencionem, suprimidos das histórias oficiais.

O budismo, mais lúcido e realista que as formas cristãs estratificadas em igrejas de massa, traz elementos similares aos do panteísmo; advoga com clareza a inseparabilidade da consciência e do mundo, colocando nas buscas individuais o poder de ser pleno. Mas, por originar em lugares conquistados, ele é um remédio mais que uma celebração. A universalidade dessa religiosidade é mascarada por pontos de vista e desvios que não assentam nos primórdios da cultura natural e original, mas encontram-se nas culturas grosseiramente superestratificadas, única justificativa a essa grave ênfase no sofrimento.

Poderia algo como o budismo surgir numa tribo da Américas do Sul, no seio da etnia Guarani, como viviam antes da conquista? Não faltariam cultura e complexidade para isso; viver bem na floresta, discretamente, com sobriedade e sem nada destruir é prova inegável de elevada grandeza cultural. Faltariam a esse meio primitivo e original as dores e cicatrizes de conquistas rústicas, a escravidão, o domínio de uma elite grosseira vivendo em castelos cercados, com uma população excluída além das suas muralhas e sugada até a morte. Esse é o lugar em que existe um sofrimento fundamental e onde é possível e justificado tentar firmar um equilíbrio estóico, desapegando a mente das dores e dos prazeres simples da vida, sempre recaindo tendo de refazer tudo como passatempo; isso por duas razões: não há como sair da existência que gira em ciclos e onde a consciência é necessariamente vital e situada, experienciada; não há como permanecer na periferia da roda da vida sem cair no meio, é questão de tempo – por isso o Buda sempre retorna menino, precisando ser reconhecido e carente de educação.

O que gera a ‘roda do sofrimento’ são as condições subumanas de desrespeito inicial. Não há como sanar a estrutura que se quer remediar com recursos gnosiológicos exclusivos. O Pai de Sidarta, rei Suddhodana, líder do clã Shakya, era uma pessoa cruel, o filho poderia ter voltado ao palácio e ter dito: “Pai, como pode ser menos de que sapiente? Abre as portas desse castelo, divide o que acumulou com obras de guerras… Poderemos voltar a viver na sociedade original onde não existia sofrimentos fundamentais, merecendo tanto ênfase e empenho religiosos compensatórios e remediativos”.

Nas tribos, existe o processo existencial que se desdobra, o humor não é de dor, o parto ocorre simplesmente, o primeiro impacto não é o da grandeza artificiosa do interior decorado de um castelo e, nas margens, a resultante ignomínia; existe a visão imediada da beleza e grandeza da natureza e a afirmação inicial é “há gloria, há alegria, há êxtase”. Viver em sociedades conquistadas sem combater o desrespeito inicial, não apresentar uma teopolítica corretora claramente explicitada resulta na reprodução das iniquidades iniciais e, eventualmente,  os teólogos ocupam os espaços dos destronados. Por isso, mais universais de que as abordagens remediativas são as espiritualidades que celebram a grandiosidade do saber não saber dos filósofos.

Dalai Lama roda (1)

 
 

The Buddhism of the Himalayas

A praising or a salvationist religion?

The various religions are designed to focus on curing wants and needs that have the same basic components: a lack of adjustment and harmony between the basic elements of the state-of-being: the body does not match up to the idea, feelings are not in harmony with beauty; life is not what it could be, so lacking in focus that one asks: “Am I waking or sleeping; what is reality; where do I come from, where am I going?” The context of these wants and needs, their political foundations, determine the style of the religious remedy. Therefore, all religions carry within themselves something universal which lasts, but they cannot serve in totum the whole time for all and every moment of social space-time – contexts change, and things are transformed.

In order to be universal, a religion would have to be a real cure and not just a remedy; it would have to be a practice, a careful service, a well-placed decoration, a work of art, whose sense would be to underline the truth, the real, the best of the real-as-given. And it would have to live in the circumstances given – thus it would not be just another religion, just another sacrament. In order to have an idea of what a universal religion should be, it would be necessary to be free, liberated from ethnic commitments and determinisms, from historical and traditional alignments, things which relate to specific events, less than universal ones. It would have to be acknowledged as not just another religion, just another philosophy – a ritual which was true, beautiful and relevant, virtuous and necessary in the given circumstances.

In order to have this clear idea, it would have to be humble, recognising that it was not the measure of all things rooted in ideas; it would have to see the nature of the human state-of-being, something a lot more fundamental than serviceable points-of-view, narratives, historicisms or baptismal perspectives. It would be necessary to acknowledge that the nature of the human state-of-being is above all else the nature of nature, manifestly a bearer of a Logos-intelligence and an Ethos-architecture that are intrinsic and cosmic, taking in everything that can be thought in the arc of consciousness that is of the world, and in the world that is of consciousness, like two sides of an infinite sphere.

So that this activity could be made manifest and demonstrated as an essential spiritual form, and equally a celebration for whoever practised it, it would have to happen in a place that was as original as a primordial civilisation, naturally rooted in the environment where it arose, or perhaps in a previously relatively forgotten civilisation, re-imagined thanks to a profound intelligence, capable of admiring the beauty and grandeur of nature, the eternal essence of respect and of just acceptance.It would undoubtedly be a celebration, crowned with a core of natural reason, of union, peace and love, which is a well-felt and appreciated union. Above all a recognition of the sublime and unique being which is nature as it is, the ideal momentum would not be anything other than the real one, there would be no dichotomy between the intellect that thinks and feels – that side of the psyche for which to think is to feel, and for which full knowledge is possible because it is the same as feeling everything.

Where would such a celebratory practice exist? In the house of ghosts that believe in their thoughts as auguries or supernatural things that lie in the non-existence of death? In the house of those who think that they are thinking separately from the objects they think about, that thought can be structured independently, something like a spirit divested of flesh? Certainly not. These ghosts exist to venerate the priests of their religions as if they were beings that have come from the beyond, sent to nature on diplomatic visits, or a sparse team composed of the same rare enlightened beings. There also exist those whose priests are manipulators of technology and makers of robots, but they don’t know how to acknowledge the natural plane where to be religious is to celebrate what is, where to think is equally to feel, where to pray is to act, where to live together in the middle of the natural real-as-given is to be saved.

This celebratory spirituality could only come to be and to exist in original places, without diversions, traumas and vices. Where do such places exist today? They existed in the tribes before the superstratifying conquests, they exist as places peculiar to those who have liberated themselves from their traditional and baptismal impressions, of those who have died for the world of their native cultures and others such and who have been reborn in themselves, in the arc of the Logos and the Ethos of nature. This is a meeting where the original myth or image revealed in the virtual gap of the union of consciousness and the world is not a pointing finger accusing and banishing, a punishment spelling out history, but en embrace which unites and gathers in. Those who are called primitive, children, poets, those who have been banished from schools, professorships and urban positions have more chance of understanding and living this full form of celebration than any of the faithful who seek a place to be well in the beyond, or in clouded spaces between the lines.

These celebratory rituals correspond to the practices which came into being in Ionia, before Socrates, perhaps in the China of the natural and ancestral Taoism of Lao-Tse, in the agrarian societies of the primordial peoples. They would be something like naturalistic practices, the art of the dance and the dialogic circle as it existed in certain tribes; this would be a full and radical pantheism – more perhaps than that of Spinoza, where no more potential was ascribed to the essence than that which was demonstrated and whose primordial quality was not extemporaneous – it would in some ways overflow the boundaries of that which is manifest, but would be the central and most internal point of the totality of possible movements.

Other religious forms are remedies because they originate in artificial circumstances at one remove from the implicit and explicit order and harmony that result from the co-existence of the natural structure with the full intelligence of the creature – an order which reveals itself naturally from the very moment when homo sapiens arises who, when individually awakened, recognises and intuits that he has been present since primordial times, even if these are not mentioned or are excluded from official histories.

Buddhism, more lucid and realistic than the Christian forms stratified in mass churches, brings with it similar elements to pantheism: it argues clearly for the inseparability of consciousness and the world, giving individual searches the power of full being. But, because it originated in conquered places, it is a remedy rather than a celebration. The universality of this religiosity is masked by points of view and diversions which are not rooted in the primordial things of natural and original culture, but are located in grossly superstratified cultures, the only justification for this grave emphasis on suffering.

Could something like Buddhism arise in one of the tribes of South America, in the heart of the Guarani ethnicity, as they used to live before the conquest? The necessary culture and complexity for this would not be lacking: to live well in the forest, discreetly, with sobriety and without destroying anything is irrefutable proof of elevated culture greatness. This original and primitive milieu would not have the sufferings and scars of rural conquests, slavery, the domination of a boorish elite living in castles surrounded by an excluded population beyond their walls and exploited to death. This is the place where there is a basic suffering and where it is possible and justified to try to build a Stoic equilibrium, detaching the mind from the sufferings and simple pleasures of life, always falling back and having to rebuild everything again as a pastime. This is for two reasons: there is no way of getting out of existence, which goes in cycles and where consciousness is necessarily vital and located, experienced; there is no way of staying on the edge of the wheel without falling into the middle, it is only a question of time – that is why the Buddha always comes back as a boy, needing to be recognised and needing education.

What generates the “wheel of suffering” are the subhuman conditions of initial disrespect. There is no way of restoring to health the structure which one is trying to remedy with exclusionary gnoseological resources. Siddharta’s father, King Suddhodana, leader of the Shakya clan, was a cruel person; the son could have gone back to the palace and said: “Father, how can you be less than wise? Open the gates of this castle, divide what you have accumulated with warfare… We can go back to living in the original society where there were no fundamental sufferings deserving so much compensatory and remedial religious emphasis and commitment.”

In tribes, there exists an existential process which takes its course; the mood is not one of suffering; childbirth simply happens; the first impact is not that of the artificial grandeur of the decorated interior of a castle, with at the margins the resulting ignominy; there exists the immediate vision of nature’s beauty and grandeur, and the initial affirmation, which is: “there is glory, there is joy, there is ecstasy”. To live in conquered societies without fighting the initial disrespect, without presenting a clearly explained theo-political corrective, results in the reproduction of the initial iniquities, and eventually theologians occupy the spaces of those who have been dethroned. Thus, those spiritualities which celebrate the grandeur of the not-knowing knowledge of the philosophers are more universal than the remedial approaches.

 
 
 

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