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A BALANÇA DO JUÍZO: financiar igrejas, mesquitas, sinagogas, ou escolas de filosofia?

Régis Alain Barbier

amulheta

Honrando os nossos potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva.

A humanidade é dotada de intelecto sensível e racional, caraterística definidora. Respeitar a natureza humana é antes de tudo honrar esses talentos. Trair a razão é trair a humanidade. Mas o que demonstra o intelecto racional e sensível no que se refere à nossa identidade?

Que somos natureza ajuntando na nossa anatomia e fisiologia os vetores da evolução fisioquímica e biológica dos estados antecessores que, em conjunto, se conectam à totalidade da trama cósmica. Essa identicidade universal é o fundamento de todas as afinidades e harmonias. Não sendo demasiadamente rústico para se deixar prender a padrões culturais que cerceiam a liberdade e capacidade de escolher, é natural do ser humano exercitar a sua imaginação criativa até ampliar a inteligência em níveis sempre mais abrangentes de consciência, até a realização do ‘grande espírito’.

O significado do termo ‘grande espírito’ não se inteira nem capacita delimitado em logicismos, tampouco reportando a narrativas surreais creditadas como fatos, não é objeto nem fábula. Entende-se que a intuição teológica não reporta a disputas hipotéticas e exorbitantes referentes à existência objetiva ou não de entidades divinas ou espíritos entendidos como substâncias. Nos alcances e focos terminativos do intelecto, lugar onde a consciência intersecta com seus objetos, o que se refere à teologia e seus conceitos não se explicita por intermédio de perspectivas fideístas ou positivistas, mas metafísicas. As rixas inconcludentes onde se opõem as diversas formas de teísmos, ateísmos e cientificismo, passam ao largo do saber por acontecer, como ação e reação, na gravitação da perspectiva dualista historicamente encampada, prevalecente e não radicalmente desafiada. O que é divino só pode assentar em virtudes que não se conhecem por intermédio de sacerdotes, ritos e histórias tradicionais, mas sim pelo exercício criativo e sábio do intelecto razoável e sensível.

Quando não barrada ou insultada nas catequeses, envenenada em preconceitos, coagida a se renegar e decair crendo no absurdo, a inteligência, como um pássaro pedindo ar, exige satisfação, isto é liberdade. Em algum momento, em uma das portas da percepção, a harmonia tilinta ao celebrar concórdia e selar comunhão entre as coisas e o cogito, um encontro fecundo acontece catalisando uma reação inteligente e extática em que a totalidade do universo se reintegra no arco do saber pleno.

Apenas na jubilosa admiração dessas reconhecenças pode resplandecer a glória que extasia e agigante o espírito. Como é falso e triste afirmar ser a paixão um sentimento, gosto ou amor intenso que ofusca a razão! É precisamente a lucidez e intensidade culminativas do intelecto racional e sensível que permitem reconhecer com inteligência e gosto a unidade complementar da infinita diversidade, condição fundamental para a ressonância da harmonia, o surgimento da satisfação e quietude. É através desses encontros extáticos que a razão qualificada se justifica e se reinstala no arco dos seus limites, no cume do saber. Quando se reconhecem e cultivam esses potenciais, floresce o grande espírito onde, naturalmente, assente uma forma teológica monista, panteística, indutora de harmonia, plenitude e paz. Uma convicção positiva confirma a identidade e qualidade igualmente universal de todos os seres e eu. Apenas desta forma pode imperar o respeito e a lucidez, virtudes necessárias à instalação de uma sociedade livre, fraterna, igualitária e de governança apropriada, ou civítica. Estamos tratando das implicações da justa reconhecença da nossa natureza universal, ou da sua negação, nas dimensões societárias, efeitos esses bem reais e eficazes no sentido de projetar bonanças ou tragédias ao longo da nossa história. Neste texto, o que reporte a assuntos teológicos se explicita e se ilustra em evidências imediatas, apontam-se condutas e comportamentos, dedicações, devoções e suas decorrências nas relações e realizações humanas.

É da natureza do intelecto afunilar as suas buscas em dois eixos de perspectivas metafísicas, apontando duas possíveis relações entre os atributos conscienciais e objetivos (cogitans e extans). Uma perspectiva concebe esses atributos desintegrados, sendo a consciência entendida como algo sobrenatural e independente dos seus objetos, a outra enlaça esses dois atributos numa unidade, a consciência é consciência ‘de’ por necessidade; nas suas elaborações culturais um desses conceitos se cristaliza em metáforas e narrativas adquirindo contexturas, estabilizando e regulando condutas e práticas filosóficas ou doutrinas religiosas aptas a serem transmitidas e representadas.

São nessas definições e decorrências societárias, sejam apreciadas nas evidências e nas mensuras da inteligência satisfeita e alada, ou nas pautas dos ordenamentos que superestratificam a luz natural da razão a favor de sobrenaturais notícias registradas por predestinadas, que se determinam o surgimento das civilizações, o destino das sociedades e nações.

Em sociedades organizadas e de maior densidade populacionais, as manifestações espirituais tendem a adquirir envergaduras que se reafirmam encenadas em cerimônias e tradições implicando simbologias específicas e construtos que, na propagação dos ritos e na dependência das perspectivas fundadoras, podem evolver até catedráticas e faustuosas realizações; na religiosidade dualista os cultos e as missas, eventualmente, comovem os fiéis como comoviam e motivavam as tragédias da antiga civilização. A perspectiva metafísica cosmo-existencialista, monista, se afirma no despertar da inteligência livre e curiosa ao realizar que a infinidade das criaturas e a diversidade dos contextos perfazem um grande corpo universal sendo igualmente saberes integrando um grande e único espírito; ao inverso, a teologia dualista avilta a inteligência e deixa os convertidos perdidos e destituído de sentidos, alienados, achando-se coisas desgarradas e desunidas.

Dias antes da publicação deste artigo, o Papa Francisco afirmou que não estaríamos experienciando conflitos religiosos, mas embates econômicos – uma opinião ingênua, a realidade não é tão simplesmente delimitável. A natureza dos grandes conflitos é teopolíticas; as estruturas e doutrinas religiosas estão coligadas a espaços geopolíticos e culturais nos quais se compartilham identidades e interesses resultantes. Além dos  embates históricos e contumazes (envolvendo países soberanos ou territórios) que as diversas tradições teístas, culturalmente implicadas, tentam abrandar, perdura um embate mais profundo e genérico. Estamos testemunhando o encontro de tensões arcaicas em que operam dois fundamentos: pelejas clânicas que se ensoberbecem em afiliações e ideologias de caráter religioso, em oposição a providências que intencionam aumentar a lucidez, harmonia e liberdade filosófica.

Manipulações monetárias, imposições e demais regulagens sociocráticas (exercitadas nos cenários e nas arquiteturas culturais do velho regime apesar da capa democrática) abençoadas por doutrinas teológicas que advogam uma incompetência humana essencial e impossível de ser sanada com motivação própria, mas com inspirações sobrenaturais transmitidas por representantes do divino, não configuram espaços socioculturais propícios a transformações. A máquina societária, gigantesca sociedade anônima de capital fiduciário dirigida por meios sociocráticos, combina e afina com a estrutura teológica dualista; nos doutrinamentos das igrejas, os homens comuns também são vistos como incapazes de guiar a si mesmo, precisando de pregações proferidas por especialistas em contato privilegiados com o ‘grande poder’. Cultiva-se a ideia que as condições para uma vida satisfatória são de difícil alcance, que estar bem nesse mundo é excepcional, que a paz existe além-túmulo.

Negar os ditames da razão que apontam ser a existência como se manifesta o tabernáculo universal da nossa identidade para extrapolar postulando uma causa prima sobrenatural e dogmatizar a existência de seres superiores conhecedores de coisas que o homem comum não pode alcançar, mas acreditar sem compreender, destrói a humanidade e aniquila os seus potenciais e dons além de reforçar a rusticidade típica dos primórdios com pseudojustificativas esotéricas para impor e exaltar sacrifícios na esperança de recompensas póstumas.

Induzidos e treinados para não cogitar nem analisar os conceitos fundamentais referentes às origens, identidade e natureza, mas para obedecer e crer cegamente nas doutrinas, alienados, os jovens derivam sem perspectivas existenciais próprias e profundas, constrangidos a restringir o foco dos seus cuidados a coisas menores – o que ter, o que fazer? Uma doutrina que remove as virtudes que enraízem no exercício do cuidado resultando da justa compreensão da identidade e natureza própria deixe a humanidade sem rumo e sem sentido. Os apelos à misericórdia, fé, caridade e esperança não reparam a perda do essencial. Os benéficos auferidos pelos manobristas do desmando são efêmeros e ilusórios. Sem reconhecer e praticar as virtudes que demandam o bioma para manter a sua coesão e saúde, a humanidade por inteira é destinada a um fracasso estrondoso e destruição radical.

A Compreensão de que não somos algo desconecto e estranho ao mundo, mas a união impreterível de um corpo e espírito universal, compele ao exercício do cuidado. Cuidar é a essência de todas as virtudes, é a virtude. Como a seiva que alimenta as árvores das raízes às flores, o sangue que nutre a totalidade dos tecidos, a virtude é a substância da vida boa e saudável. Apenas uma sociedade virtuosa pode existir na plenitude dos seus potenciais.

O que, essencialmente, faz desaparecer a virtude dos convívios deixando a sociedade humana profundamente carente e doente? É a crença de sermos adventícios num mundo facultativo, vivendo culposamente num meio hostil e punitivo com o desígnio final de se salvar dessas impropriedades para habitar um lugar póstumo onde se supõe residir a virtude. Enxergar-se como criaturas inadequadas, deslocadas e banidas num ambiente alheio, remove a virtude do âmbito existencial, fenece os potenciais da cooperação, da conectividade e dos convívios gratificantes passando a imperar a improbidade.

Considerando o habitat estável e propício, é a qualidade cultural que passa a ser o fator mais categórico na determinação do destino de uma população. Quais os preceitos culturais que mais decisivamente determinam essa ventura?

A consideração é um desses preceitos essenciais. Como os habitantes se consideram entre si? A igualdade fundamental dos indivíduos frente às diretrizes da providencia (origem e destino final, necessidades, susceptibilidades e fragilidades semelhantes) gera equidade e fraternidade? Ou eles se consideram de modo diferenciado em função de eventualidades e circunstâncias históricas, derivações efêmeras comparados à igualdade e fraternidade antrópica que repousa no arco do tempo?

Como se identificam? Consideram-se partes integrantes da natureza, produções universais, junto com as demais entidades que coexistem e compartilham o bioma em relações de interdependências? Reconhecem a sua natureza conjunta, especificamente humana, como um dos elos de uma imensa linha evolutiva entranhada na trama universal considerada como espaço criador e sagrado? Ou então se imaginam distintos, oriundos de outras esferas? Estabelecem entre si relações diferenciadas em funções de mitificações, colocando-se como enviados para cumprir missões esotéricas explicitados por demiurgos?

Como se relacionam na hora de resolver conflitos? A população se discrimina e se desconsidera em função da cor da pele, de eventuais ocupações territoriais ou afiliações políticas e religiosas? Nos mesmos grupos étnicos, a população se desconheça em função de possas, laços familiares, gêneros e idades, outros critérios similares?

Apenas honrando os nossos dons e potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva; esperar dois milênios com fé a caridade de uma força oculta para poder evoluir comprove não resolver problemas, tampouco implementar nossos deveres.

Aceitar a inexplicabilidade da existência e reconhecê-la fundamental ancora o ato de existir nos parâmetros da criatividade universal; a noção de identidade se afirme na mesma sintonia, assentando-se paradigmático o reconhecimento e saber que o conjunto dos seres criados conforma o cosmos.

Tal assentimento respeita plenamente os potenciais da razão e honra, sem exorbitância, a nossa natureza e seus limites. Resulta dessa lucidez filosófica consequências fundamentais. A identificação universal do grande e variegado conjunto dos seres criados, de todos os reinos e todas as espécies, estabelece a base da igualdade e da fraternidade. Sucedendo a existência no presente, é na atualidade, mas enraizada na eternidade, que acontece a grande trama geradora de vida; uma realização que induz a um respeito profundo, firmando-se a responsabilidade de zelar pela natureza que é nossa. A unidade dos existentes frente às grandezas, forças e substâncias que os determinam induz a uma forma de governança dialógica e igualitária, civítica.

Portanto, estamos vivendo embates titânicos. São as perspectivas metafísicas, indutoras de formas teológicas, que como a mítica balança do juízo final, determinam o destino da sociedade humana. Apenas a perspectiva filosófica que reconhece a nossa justa natureza e identidade como um grande corpo e espírito universal será capaz de induzir a prática do cuidado que, como um rio, permite a circulação da virtude que enaltece e engrandeça a vida, honrando a existência. A perspectiva fideísta que rejeita essa identidade, faz pouco da natureza destrói a comunidade, sacrifica e castiga a vida na esperança absurda de poder encontrar na morte a unidade e a paz antes renegadas.

É o entendimento é a pratica sensível do que é divino, a teologia, que essencialmente determina a evolução e destino da sociedade humana: sejam, iniquidades, guerras e destruições em massa na perduração e predomínio da perspectiva teísta e suas religiosidades coligadas, apesar de toda a fé, caridade e esperança, ou, o reencontro da perspectiva panteísta, o advento de uma sociedade de respeito, próspera, feliz, justa, corajosa, prudente e temperada. Leitor, você também decide, templos ou escolas de filosofia?

Da civítica como apreciação estética da vida

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Da civítica como apreciação estética da vida

Por Diogo Filipe Santos Moura
*A meu amigo Gabriel Kafure

Depois de muito fortuita e longamente termos discutido e bem definido a metafísica que rege a busca panteísta pela plena bem-aventurança, chega o momento de nós, panteístas, assumirmos a tarefa de adentrar num campo não menos desafiador do que a compreensão das poderosas visões que se anunciam a cada um de nós em nossas meditações: o desafiador campo de possibilidade de uma ética-estética de vida panteísta derivada da postura civítica. Durante essa década de encontros, palestras, seminários, cafés filosóficos, etc, muito conhecidos e bem explanados foram os termos e o eixo metafísico que rege a filosofia panteísta, liberdade filosófica que nos permite, agora, perspectivar uma ética panteísta que tem na civítica seu provisório  acontecimento.
Dois pilares foram firmados em nossa irmandade ao longo das discussões panteístas em geral, e também a partir dos escritos de Régis Barbier, que nos proporcionarão a base para o caminho misterioso e mágico da autorrealização: o primeiro pilar se erigiu a partir da possibilidade de um recomeço de pensamento e postura de vida a partir da decisão firme de encarar a visão panteísta de que pertencemos e somos a natureza em todos os seus aspectos, um micro e macrocosmo interdependente, conectado a infinitas redes que se perdem na infinidade do tempo. O outro pilar é o que sustenta a possibilidade de uma constante remodelagem de si a partir da liberdade dessa visão de existência, o que Regis Barbier apontou muito bem como sendo uma autopoíesis. A partir dessas bases de sustentação de sentido gostaria de propor pensarmos como força para essa autopoíesis o conceito de homeostase. Esse termo permite a conotação existencial de caráter natural, panteísta, e que será a saúde, o vigor e o entusiasmo que suportará a postura pós-civítica, a postura definitivamente estética de fruição da natureza em sua multiplicidade infinita de aspectos a cada momento do tempo instantâneo, seu aspecto esférico abrigador de todas os sentidos ou, a condição de fruição do belo.
O famoso livro Ética a Nicômaco do grande filósofo grego Aristóteles (séc. V A.C) propõe como finalidade de uma ética a busca por um equilíbrio perfeito [doutrina do justo meio (mesotés)], do qual emanaria uma postura magnânima (megalopsikós) que seria não o resultado, mas a própria eudaimonía, termo grego que comumente é traduzido por felicidade, autorrealização. O que proponho aqui é que se retome o pensamento teleológico acerca de uma ética para que se fundamente a busca panteísta pela autorrealização que uma civítica proporcionaria aos praticantes e meditadores panteístas centrados no foco eco-humanista, e que esta postura civítica é o estado de equilíbrio que pode vir a efetivar uma ética estética de pleno usufruto das capacidades realizadoras que cada ser possui.
Proponho que a partir de agora passemos a pensar a civítica como a postura que conduzirá ao equilíbrio dinâmico do estado-de-ser por meio de abertura à criatividade do cuidar de si, que estará acompanhada de uma homeostase. Esse equilíbrio, ligado à forma como cada um o busca e o constrói, deverá redundar num estado estético nascido da autocriação, levando à plenitude de experimentar cada pedaço da existência de forma vigorosa, sábia e bela por si mesmo.
Tratar da possibilidade de uma ética que sustente efetivamente um estado-de-ser belo e vigoroso já foi objeto de trabalho de filósofos tão gloriosos como Aristóteles, Schelling e Baruch Espinosa, o que deve nos ofertar a luz que nos guie nesse caminho obscuro e difícil. O recente debate e esclarecimento do termo civítica cunhado por Régis Barbier para definir os rumos de uma política eco-humanística- panteísta é muito pertinente na medida em que aprofunda e abrange o uso do termo, o que me permite cunhar tal termo composto acima. Pelo que se nos apresenta, no momento, a possibilidade de assumirmos tal ética nos está à vista, sim.
Ora, a partir da metafísica sabemos que tudo aponta para tal possibilidade que nos é oferecida por meio do cultivo de ações geradas e alimentadas por pensamentos e valores ponderados, senso de justiça aliados à força do amor pelo existir. Gostaria de retomar a discussão de um termo, como bem definiu Regís Barbier, e por sua definição – a partir da possibilidade desse eixo de congruência entre ser e estar com as mais profundas e efetivas forças da natureza – pode estar contida no  conceito de autopoiésis.
Numa referência e homenagem ao grande filósofo grego Aristóteles gostaria de propor pensarmos a autopoiesis em sua profunda relação com a homeostase visando reproduzir a doutrina do equilíbrio (mesotés), num movimento de homeostase autopoiética como via para o equilíbrio e harmonia entre ser e natureza por nós almejado (Télos). Vislumbrar a tarefa de pensar a ética panteísta a partir da civítica é a admissão de que tal reflexão pertence tanto às nossas relações intimistas como públicas. O que é e como se dá a possibilidade de apreensão da relação harmônica preestabelecida entre homem e natureza, entre estado-de-ser e ser (Natureza) que a filosofia panteísta oferece? O termo Homeostase autopoiética pode ser definido como uma vigorosa saúde criada a partir de si mesma (poiesis) que emana de um ser em congruência com seu ambiente e, logo, com a natureza.
Uma especial ênfase nesse termo serve para nos apontar o pensamento de que uma saúde bem estabelecida emana do foro intimista do estado de ser para o social e vice-versa, estabelecendo a dialética harmônica entre ser-si e ser-com-o-mundo, que forma uma unidade copertencente de uma postura coerente de força, fluidez, verdade e beleza diante do mundo que se assume como a vida plena. Em outras palavras, poderíamos falar de um vigor belo de existir, que emanaria de um equilíbrio saudável de si, inevitavelmente tornaria o ambiente ao redor da mesma forma, de forma que tal equilíbrio saudável reproduzido em escala social necessariamente deve levar ao estado de convivência civítica. Chegando-se ao pleno exercício da civítica poderemos pressupor o estado estético de autorrealização como busca panteísta pelo conhece-te a ti mesmo e ao cosmos.
O que está em jogo aqui é a difícil compreensão de um muito conhecido, complexo movimento perpetrado pelas forças cósmicas: a copertença de homem e Natureza, ou Deus e Natureza numa unidade de liberdade ética-estética. A estética deve emanar da Civítica e da Civítica deve emanar reciprocamente uma estética, um movimento de unidade que não pode ser pensado jamais sob a ótica do procedimentalismo, característico das propostas éticas modernas positivistas e judaico-cristãs. Chamo de procedimentalismo ético o esquema puramente racional que determina que alguns tipos de ações levarão a tais e tais resultados, ou ainda que de tal procedimento deverá brotar tal resultado. Isso é um inequívoca ilusão, só permitida ao pensamento binário da razão da metafísica calculadora, não à unidade do monismo panteísta relativístico. A dificuldade que aparentemente pode brotar durante a busca de se entender esse descentramento racionalizador do sujeito psicológico, deslocar a noção de “eu”, “mim”, se deve à formação societária que sofremos em nossa desnaturação social, uma desorientação que não permite pensarmos fora de esquematismos logísticos que visam um objetivo imediato, fardo do dia-a-dia na luta pela sobrevivência. Para podermos bem compreender como se dá a unidade ética estética do panteísmo podemos contar que ela acontece, dentre muitas, de duas formas que gostaria de destacar: pelo hábito, impulsionado por um coração sincero e por um “estalo” do espírito, um “salto mortal” do espírito, uma virada repentina que descortina a verdade (Göethe)! Um movimento está ligado ao outro também, indissociavelmente. O salto acontece e gera a busca, e a busca impulsiona até o momento repentino do salto.
Pensar autopoiesis e a homeostase como via possível para um ethos estético autorrealizador passa também pela tarefa de se pensar um modelo social onde se superam e se descentralizam as representações partidárias das melhores decisões a serem tomadas para o bom funcionamento do público, algo que tem causado um profundo mal-estar na civilizações herdeiras de modelos de superestratificação. Como nos sugere Barbier “as relações sociais aconteceriam em consonância com esse sistema solidário e harmonioso de princípios operantes, ou ethos. Ethos[êthos,ous].”
Retomando a definição grega original da palavra ήθος (éthos), ela nos vem à luz como lugar do abrigar humanos. Um abrigo é um lugar que necessariamente deve possuir um piso e um teto. Esse piso e o teto humanos podem ser justamente propostos como as balizas para a sustentabilidade da rede humana, que deveria inverter os valores e se tornar muito mais cooperativa do que competitiva. O que já nos mostra os organismos cooperativos, muito mais estáveis e duradouros do que os competitivos, é que esse tipo de relação de cooperação faz parte de uma forma de vida mais prática. Como baliza para a convivência harmoniosa gostaria de propor como o eixo cognitivo o que Regis Barbier tem tratando até aqui e que parecem compor o eixo ético de nossa doutrina: as quatro virtudes cardeais. Retomar o argumento da quaternidade, o de um eixo ético como baliza para um ethos panteísta é a missão e a sagrada busca dos viajantes ermos do cosmo misterioso. O equilíbrio homeostático referido nesse texto passa pela compreensão panteísta da copertença entre Civítica e estética, que será a mesma de homem e Deus, ou seja, a Natureza. Compreender os modos de ser do homem e, consequentemente, da Natureza, do ser si mesmo, poderá se apresentar como o caminho da liberdade para a ética panteísta civítica. O ethos esteticus panteísta surgido de uma postura civítica, entendido como piso e teto humanos de um abrigo cooperativo e copertencente se faz necessário diante das grandezas e mistérios abissais da natureza muito respeitados, amados e buscados pelos livres panteístas que amam beber da fonte que eternamente desce daquele monte, ainda que seja de noite.
Com o entusiasmo de retomarmos essa busca, tomemos como gloriosos guias os que vieram antes de nós, pois a quaternidade do ser, ou seja, da natureza, a terra, o céu, a vida e a morte, esse piso e teto do verdadeiro panteísta, sua casa, é almejado como essa ética-estética que já estava muito bem representada como ética cosmológica para os filósofos originários da antiga Grécia na gloriosa visão grega do éter, o palco dos astros, e pelas forças ctônicas, o ventre de gaia de onde é gerada a força criadora autopoiética da physis; Essas forças estavam também nos deuses olímpicos de divina beleza, força e sabedoria e também nos homens, criaturas criadoras sempre em face da abissal finitude, buscando a imortalidade – prerrogativa divina – por meio dos grandes atos e grandes pensamentos. Esse ser destinado à beleza, que de tantas possibilidades abertas a ele escolhe a de sempre se transmutar em serpente e águia como o fez o Zaratustra de Nietzsche, que entre todas as tentações do deserto escolheu a liberdade de viver belamente, esse viver que sente a potência ctônica das profundezas da terra e se enroscarem com Igdrasil, a serpente do mundo.  Como um rio que corre pro mar, esse homem, uma vez achado nas profundezas perdidas de si mesmo, aquela criança que tinha vigor alegre, uma vez redescoberta escolhe ondular ao ritmo da dança cósmica de Shiva e também de quetzacoalt, a serpente emplumada de penas coloridas como cauda de pavão, pois a fusão de todas as cores é a unidade do branco, a unidade multicor do coração dos Brancos cavaleiros trovadores de Provença e sua heráldica poética cavalheiresca, branco da paz, branco da clareza.
Uma força deve surgir do espírito do panteísta para que ele busque compreender a misteriosa relação de pertença das forças cósmicas antagônicas que regem do micro ao macrocosmo. Para que haja todas as cores, é necessária a não-cor, remetendo à copertença de ser e nada que equilibra o universo num compasso de dança tão bela que vai além de quaisquer palavras e, por isso, foram tão formidáveis os taoístas chineses que desenharam o yin-yang, o compasso cósmico de ser e não-ser, ser, entre criação e destruição, entre vida e morte, entre céu e terra. Dos mesmos chineses taoístas vem a nós a lembrança do poderoso dragão Yuan-shi tian-zong, que na lenda emerge das profundezas  da terra e sobe aos céus para resguardar os tesouros da alma, pois o sabem as potências ctônicas do infinito fechado da terra e o sabe também do infinito aberto do céu, onde brilham habitam as estrelas com seus incansáveis fulgores.

Plato’s Phaedrus – A Political Pronouncement

Régis Alain Barbier

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The position of Socrates towards undecided people

1 Introduction

“Phaedrus” is an unequalled dialogue. It is long and takes place outside the city of Athens, by the banks of a stream, in a rustic place. It is a dialogue between Socrates and a young Athenian enthusiast, Phaedrus, who is in turn a friend of Lysias, a famous doxographer, a sophist and a speech-maker (writing “in order to”, “because of…” a writer for hire!). The young Phaedrus, enchanted by his friend Lysias’s speech, decides to read it to Socrates, wanting to share with the master a text he found extremely interesting, and also looking for an opinion. In this text, read by Phaedrus, Lysias praises and argues for the need to properly manage and calculate love, as a worthwhile source of pleasure, avoiding commitments, ties and excesses of passion. Socrates answers by showing that before talking about obvious things, which in this case would be avoiding the unrestrained disturbances of passion, it is essential to reach a definition of the subject under discussion in order to avoid the risk of ignoring essential aspects, thus introducing a long opinion about “the art of speaking well”: rhetoric. In the course of their walk along the River Ilisus, a memory, apparently occurring by chance, leads to an opinion about myths. So, these three well-defined subjects – love, myth and rhetoric – are the basis of the dialogue, leaving readers, commentators and editors uncertain and unclear about the unity of the “thread of the argument”. What, ultimately, would be the right sub-title for this dialogue: “on love”, “on rhetoric” or “on mythology”?

2 The adequacy of the dialogue

This dialogue of Plato’s deals with various topics that don’t seem to be related, giving the text a colloquial and random feel; which is somewhat surprising, given that neither Socrates nor Plato were given to everyday conversations. The search for the connecting thread of this dialogue, undertaken by several authors, has generated a plethora of creative ideas.

I wondered if it would be worth the time and effort to study “Phaedrus” in search of the overall meaning. Not being as prudent as I would wish, it didn’t occur to me that I would not find the connecting thread of the argument. I believe that translators who are sufficiently talented and serious serve the texts that they translate well, just as I believe readers to be endowed with the ability to understand the true meaning of the sentences, despite some doubts about the translation of a few words and expressions, references and meanings. Besides, I credit the ancient pioneers of this happy philosophical epic with enough intelligence not to have allowed the meaning of their texts to depend on the interpretation of one or two words, and to ensure the understanding of the broad argument, in its general outline and circumstances, rather as in those frescos where a few missing lines do not detract from the completeness of the images and the vision of beauty.

It occurred to me that in a thousand-year-old dialogue dealing with rhetorical clarity and the perfection of loving union, if the harmonious coordination of the parts was not immediately clear, this was certainly because it had been rendered obscure for the sake of prudence, or perhaps because in order to be clear, it demanded the acceptance of a premise that was inherent to the culture of times past, a general idea, previously present in the dialectical arc, but today subsumed into other understandings, concealed or vanished. To speak in praise of rhetoric and giving examples of the latter as an intelligible form, or – like another of the dialogue’s themes – to point to love as an élan that leads to divine unity, a mystical connection viewed as an eternal reciprocity of the soul and the body, brings the word and the underlying meaning harmoniously together in a discursive thread that, if congruent, cannot be broken and must signify wisdom, justifying the dialogue.

Therefore, aware of possible doubts regarding the full meaning of the dialogue, after looking over the text and noticing the three themes evoked in the narrative: love – in its various dimensions and aspects; myth – as something which is either piously accepted, doubted in a search for prosaic interpretations, or else placed within parentheses in the search for oneself; and rhetoric – the deep order and rules of oratory – after noticing these, nothing was easier than to ask myself in the form of a puzzle: in what possible universe do these subjects – love, myth and rhetoric – make up the essential requirements of narratives? In which cultural practice does one find these themes – love, sacred images and the word – entwined? Besides, the peculiarity of this discourse, which takes place outside the walls of the city, in a rustic setting described by Socrates as extremely beautiful and welcoming – including: a Platanus tree, the symbol of renewal, whose foliage covers the visitors in temperate shade; a flowery and perfumed chasteberry, the symbol of chastity; the refreshing banks of a stream and a source of clear water – all this reminds me of the songs of the poets who, in so many odes, praise nature as a cathedral. The stream, framed by grassy banks, becomes the boat which leads to a bower as sacred as an altar and, in the light of the noonday sun, the green choir of cicadas pours out celestial glory.

In my imagination I see the image of a temple; in this transported, almost delirious state, Socrates immediately appears as a universal priest advocating the cause of noble love, of virtue and of right conduct – a hierophant centred in the vault of the world, even though living within the walls of that city where the citizen accused of subverting the established order must be condemned to drink hemlock.

From the very start, the dialogue is destined to transform everyday steps, the steps of the city, into epics and giants’ footsteps: — “My dear Phaedrus! Where are you going and where are you coming from?” 227a. This giddy opening is matched by an ending gathered up in the altar of the heart itself where, in a final prayer, spiritual communion is invoked.

SOCRATES: Divine Pan – and you other gods of these places! Give me beauty of soul, inner beauty and make my external appearance harmonious with this spiritual beauty. May the wise man always appear rich to me; may I have as much wealth as a sensible man may bear and use! Do we have anything else to wish for? I believe I have asked enough. 279c

Phaedrus, like a believer before an intercessory priest, answers Socrates thus:

PHAEDRUS: Ask the same thing for me, since friends must have everything in common.

Socrates, perhaps resigned to the submissive attitude of the young man, closes the dialogue with a “let’s go, then!” which echoes in the wood like an “amen!”

Who can deny that this dialogue possesses a religious eloquence like that of a homily, a civil, pagan mass? There is no doubt: this is a devotional pronouncement, an oratory framed within an airy and critical dialogue, calling for a type of conduct and conviction, a manifesto with serious individual and social repercussions, an appeal for purification and renewal, a profession of faith! Plato’s “Phaedrus” is an exhortation, an oration which must necessarily inspire love and mythic poetry using discursive rectitude or doctrine, with additional metaphysical and mythological perspectives. This is how the theological and political unity of the dialogue is created.

3 The argument

Socrates, learning/teaching those who dare to think for themselves, reveals an existential project and advocates a type of politics whose goal is not in keeping with the attachment to and thirst for possessing and imitating that rules in the democratic city. But Socrates may not talk about the courts where he will be condemned: instead of repeating opportunistic commonplaces that are unthinkingly urged and obeyed, he prefers the dialectic of the probable, and guides and encourages aspiring people properly to direct their own thoughts and steps. Amused, he listens and talks to Phaedrus as if he is listening and talking to a young man rashly unaware that he is growing up between the great magnetic forces that determine the course of a delicate adventure. An epic where one is called to make one’s choice, either in favour of a substitute life attached to ephemeral and transient things, illusory powers, or on the other hand, to affirm full liberty by recognising that the roots of being drive deep into the unlimited and the eternal, beyond death and birth, a sacred space where opposites meet in a mysterious whole, which reabsorbs the ruptures of the dogmatic intellect into the great, luminous and dialogic circle of knowledge.

How, within these antagonistic acts-of-being, could there not be two foundations, two different paths, mythical goals, attractions, desires and types of eloquence? How could there not be heated dialogues where the commitment of the orators becomes manifest, pointing to and arguing over opposing directions? Intrinsic to the variegated nature of our spirits, similar starting points lead to varied paths and destinations, controversies which are made explicit in the trinity of subjects defined in “Phaedrus”. Is it not typical of democracies that there should emerge a dominant discourse and a corresponding mass of fellow-travellers who support the demagogues – and another isolated group of a few eccentrics who see light beyond the mists? Between them is a smaller group of the undecided who cannot discriminate, a seduced people that repeat phrases they do not understand, enchanted by the sounds and rhymes of prayers, an undecided people who cannot find their way, spinning, trapped within the walls of the city like fish in a net.

In the middle of this multitude, prudent and ironic, engaging in dialogues and examining things without direct exhortation, Socrates constructs new relationships, discriminates, separates and joins ideas into rules that he identifies and which then diverge, allowing a new spirit of deliberation to drift into the city, a guiding breeze. Because love of the Beautiful is his favourite subject, as if he was a stranger in this prosaic city, Socrates seems to speak from a parallel place, at the side of the road, from a resplendent river-bank whose geography he knows just as the rising stream knows the transformational creativity of the stream.

PHAEDRUS: You, although an eccentric man, are the most extraordinary man that has ever been seen. With your words, you give the impression of being a foreigner who needs a guide, and not the citizen of the capital. You rarely leave the city and it seems that you never go beyond its walls. 230d

Great, but ironic, the wisest man in Athens simply answers:

SOCRATES – Forgive me, my dear friend! I wish to learn. Regions and trees, however, do not wish to teach me anything, only the men of the capital teach me. 

4 Metaphysical definition and resulting dialectic

In this dialogue, Socrates leads the reader to infer and recognise that deep, essential philosophical concepts – whether known or unknown – provide the outline of a basic, vital potential, and lead to corresponding practices or ways of living. These may be internalised without examination and corrupted by contact with populous and multi-cultural social milieus, with dominant rituals and conventions, intense in a political and urban sense, all of which leads to compulsion. Or on the other hand, one’s way of living may be well examined, chosen with autonomy and responsibility, resulting in attitudes and positions that are apparently non-conformist, eccentric and transgressive in relation to what is unfocused and vulgar.

This axis of perspective – whether it is bourgeois, following dominant and popular historico-cultural ways of expressing and understanding things, symbolised by the democratic polis, protected behind walls; or whether it is different, following the path to what is essential, poetic and inspiring, running alongside the pure waters of a stream in search of bucolic riverbanks and the inspiration of the muses – these two axes are placed side-by-side in “Phaedrus”, where the two divergent existential programmes are given in theory and in practice, in an attempt to outline and respond to the question that underlies all philosophical enquiry: “How to live, justly, in harmony with the Cosmos and among one’s peers?” This then elicits the necessary arguments and positions that must be considered by reason, knowledge and vision – rhetoric, love and myths.

A triple act and appreciation of reason – right understanding, a clear vision and a precise definition of what it is to aspire, or to love – together make up the content and basic meaning of this dialogue. What is discussed and demonstrated is that existential positions centre on an understanding, a vision and a recognition of what is, made explicit in what is seen, in what is loved, and in what is spoken [1]. These result in ways of being and living, of doing and having, in existing, urbi et orbi, which may be examined and recognised as wise or illusory.

The “degree of memory” open to inspiration coming from the muses, daughters of Mnemosyne, an intuitive recognition – sensitive and qualified, inspired or visionary – of a loving relationship between the soul and the world or, in our current terms, a recognition of the witnessed and lived relationship of the mystery that is consciousness-existence – all this demands a clear and precise direction of one’s understanding. This implies a rhetoric rooted in a profound philosophical and poetic perspective, adjusted to appropriate attitudes and behaviour.

Perhaps one of the reasons for Socrates’s wisdom emerges from the way he describes human nature as a creative whole where body and spirit are coordinated in boundless reciprocity. In this way, he broadens the state-of-being’s guiding verbum, adding the notions of mystery and of phenomenon in an infinite circle whose centre is the moment – in this case, the vertical apex of the bucolic place marked by that great Platanus tree. In a few sentences, the extraordinary Athenian encompasses the Cosmos in the arc of his dialogue, from the beginning to the end, from the horizons of nature-being, the mysterious and original gap, to the most current and responsible limit of homo sapiens.

Only that which moves itself, never leaving itself, will never cease moving, and is, for other moving things, the source and beginning of movement. The beginning is something which was not formed, it being evident that everything which is formed, is formed from a beginning. This beginning emerged out of nothing, since if it emerged from another thing, it would not be the beginning. Since the beginning is something which was not formed, it must also evidently be a thing which cannot be destroyed. (…) As for the description of something as immortal, that is something which we cannot express in a rational way. We conjecture about it without having any experience of it, nor sufficient clarity that an immortal being would be a combination of a soul and a body that are united for all eternity. 246d

It is understood that existence and its paths – from the point of view of a living being that moves inside a narrative, a discourse, good or bad, to be criticised and corrected – take place either respecting or disrespecting Mythos, within a vision, an order, a Logos and a loving mood, which justify an Ethos, good or bad. To live well is to be an example of an organic, systemic relationship, a manifestation in which reciprocities – justly considered – point to an essential unity, a cosmo-existential dialectic which transcends the prosaic, everyday subjects of the city, where loving or not loving another, in whatever way, is to love or not love oneself, to understand and respect or not the existential experience in what it offers that is essential. 

5 The necessity and value of myths

How could a dialogue that highlights the just conduct of the virtuous individual minimize the importance of myth, an amazing poetic space where imagination itself and celestial things are diluted and united? One cannot construct a properly directed rhetoric without mythical signs, advance posts, flags of those who tread the paths of Olympus.

During their walk beside the stream in search of a place to converse, there arises an observation about the truthfulness of a myth connected with a place that lies along these banks – the myth of Boreas which evokes the spirit of the wind, symbolizing the power of the creative force. Socrates answers that if, like some learned people, he had lost any respect for myths, he would try to interpret these stories in concrete terms, associate them with rational and logical things, and historical events; which would, perhaps, be interesting; but, since individual myths are connected with the whole of the rest of mythology, it would require an impossible and unproductive effort. To try to give verisimilitude to these events using everyday logic suggests a wisdom that is somewhat obtuse and anachronistic, which does not help in the appreciation of life as it should be. Still walking along the banks of the stream, Socrates outlines in a few sentences the great, awe-inspiring myths, which are universally known, of those fables which refer to a plethora of gods – ancestral kings and queens linked to regional communities and traditions. These must be respected, but they do not demand the useless application of intelligence, which would involve devoting more attention to myths than to oneself.

Socrates reflects on the relationship between myth and reason in a subtle way, showing that he is considering the true meaning of myths, not being an unbeliever, but also aware that traditional stories must certainly be obscured in fables, and that engaging in self-examination to the point where one knows oneself as an essence – in other words, as a possible participant in a mysterious destiny – is certainly a more important task. The ideas of “appreciation” and “leisure” appear in the dialogue, suggesting existential options that value liberty, the disinterested, creative and free pursuit of prosaic goals. Exemplifying a more fitting vision for his immediate place and time, he looks into the eternal mystery and adds the myth to himself, opening the inner and private realm to the highest form of intuition. He says:

I have not yet become capable, as the Delphic inscription recommends, of knowing myself. It seems ridiculous to me that – not yet possessing this knowledge – I should start examining things that have nothing to do with me. These fables do not interest me and, in this sense, I accept tradition. It is not the fables that I investigate; it is myself. Perhaps I am a much prouder and more extravagant animal than Typhon, or maybe a more peaceful and less complicated animal, whose nature is part of a mysterious and divine destiny, but which is not filled with the smoke of pride…230a

The wise man does not scorn the most famous intuitions and stories that shade and enrich the rigorous doubts of a Utopian shore, like mosses born out of the poetic relationships between the clarity of reason and the shadows of the unknown – places where these hypothetical musings of the soul can be projected towards the depths of its potential.

Socrates is involved in surprising and enriching dialogues when he appropriates the “don’t’ knows” of his interlocutors – “I don’t know yet”, “I haven’t arrived yet” – expressing them in the first person alongside and in harmony with his final knowledge of the insuperability of the essential mystery; a teaching and a knowledge referred to by the fortune-teller as: — “he knows that he knows nothing”. 

6 Rectitude and rhetoric

In Plato’s “Phaedrus”, there is an examination of the qualities of love, of myths and of the art of rhetoric; the fundamental expression and nature of love is discussed; the appropriate behaviour when exercising desire; the art of conducting oneself well when faced with the need to act in pursuit of satisfaction. Since the search for happiness is a general anxiety, a basic guideline appears, both for the individual and for everyone who belongs to the community, the polis. The happiness of an individual cannot be the unhappiness of another, since friendship and respect, peace and harmony, are necessary components of the happy state; the longing, since it is general, suggests a destiny with social consequences. In other words, this is a programme, a policy in the search for the common good.

Just as intelligence cannot be separated from its component parts – reason, the ability to appreciate beauty, and vision – nothing can be understood (or undertaken) without motivation and desire. Various élans open a range of options, from simple, fickle tastes to intense loves whose nature captures or liberates depending on the discourses that examine and dialogue with them. How can one correctly assess the behaviour of an individual, or of a people, without at least considering a trinity of fundamental aspects: the appreciations and tastes that are nurtured; the rationality and congruency of the searches and discourses; together with the vision that guides destiny and its ends – that which legislates, judges and guides? In these terms, is it possible to examine basic behaviour without speaking also of: the expression of desire, of love; of the reason that exists in well-ordered prose;and of the images and paradigms that guide, of the myths and visions, symbols and meanings that connect the ephemeral to the process that lasts?

Is not the metaphor of the carriage (of life as a journey undertaken in a wagon pulled by a horse driven by a coachman) not a concise image of the driver who directs the dialogue according to his visions, reasons and appreciations, trying to balance the vehicle between two opposing forces that attract? Is not the image of rhetoric as a strongly-built animal or steed, with head, trunk and limbs, an excellent representation of the liveliness of the orator when he operates at full strength, articulates well-formed constructions and definitions, showing and outlining the path of love?

Animated with life and an intense light, imbued with enthusiasm and great virtues, Socrates does not send even a word or a sign into the air unless it is an arrow heading towards its target. An overview of this dialogue, in its context on the banks of the River Ilisus, illustrates and denotes the political position exemplified and justified by Socrates and reported by Plato. The friends are heading out of Athens, a city surrounded by walls, conquered by plutocrats served by demagogues who reduce the art of loving to a prosaic economic practice in search of the maximum benefit and the minimum expense, exalting the love of goods, of comfort, fame and power, to the detriment of what is Beautiful and true. The stream along which Socrates and Phaedrus walk goes round the city towards an inspiring meadow, a place dedicated to Achelous, the river-god of abundance, symbolising a purifying process in search of the wealth of the wise. But underneath his left arm, Phaedrus carries a frivolous speech which he thinks is noteworthy, edifying. Initially prudent, sometimes ironic and ambiguous, well knowing the reigning corruption and clashes, but living in the community, Socrates – accepting his friend’s desire to memorise this piece of oratory that he regards as magnificent – does not immediately demolish the speech, but sheds a low, veiled light, one which may deserve a few comments without harshly criticising the commonplace urban opinions shown in Lysias’s text. Immediately, in this scene – a path connecting the walled city with the countryside – and in the argument – discussing the good sense and meaning of desire — there appear two strongly-outlined arguments: an elevated and profound discourse, demanding wisdom, and an inferior and a vulgar path, scribbled in a senseless speech. Socrates, the dialectician, embodies the wise man, and Lysias, the demagogic logographer, the herald who defends a politics of possession and power, but stripped of love. The behaviours, principles and consequences of the two paths, are acted out in the dialogue, leaving each person with the responsibility of choosing and following one or other position.

In his initial response, somewhat embarrassed, his covered head symbolising the fact that he is offering a half-hearted opinion, lacking in inspiration, answering the insistent request of his friend, Socrates follows Lysias’s arguments, and finds the general meaning contained in this speech that limits itself to criticising senseless passion and praising the ways of reason, attempting to broach the theme of love, of Eros.

SOCRATES: What? Does the speech have to be praised by me and by you? Do we also have to affirm that its author said everything that was necessary, that each expression is clear, well-written and understandable? All right, I will do this out of friendship for you, even though I, in my incompetence, haven’t noted anything of the sort. 235a

Once Phaedrus’s challenge has been satisfied, and having answered and stressed the ideas about love, or Eros, stated and put across in Lysias’s speech:

 “(…) When desire which is not directed by reason squashes in our soul the desire for the good and directs itself exclusively towards the pleasure that beauty promises, and when it throws itself forward, with all the strength that intemperate desires possess, its power is irresistible. This all-powerful, irresistible force is called Eros or Love”. 238c

Socrates, ironic, gets up with the intention of making the return journey to the city. Phaedrus intercepts him, sensing that he has not said everything about the subject; then, as if returning to himself, suddenly receiving the intuition of his daemon, Socrates makes clear that, indeed, as he had said, merely by praising prudence, condemning passionate eroticism, he had not actually exhausted the subject evoked by Eros, or Love.

SOCRATES: – You brought me a horrible speech, (….) in a way, an impious one. Can there be anything more horrible? (….) Don’t you believe that Eros is the son of Aphrodite, and therefore a god? 242d

PHAEDRUS: – Without doubt. It’s what tradition says.

SOCRATES: – But this fact was not mentioned (…) Now, if Eros is, as he in fact is, a god or a divine being, he cannot be bad (…) These speeches sinned against Eros. Besides, their foolishness is comical (…) they are full of importance because they managed to delude a few naïve people and win their applause. (…) Before you come to suffer because of the offence committed against Eros, I will try to make my palinode, but with my head uncovered and not, as before, disguised. (…) this speech was not truthful when it said that, despite one’s having a lover, it is prudent to grant more favours to the one who is not passionate, because the former is mad, while the latter possesses discernment. This would be true if madness was only a bad thing; but, in truth, however, we gain great benefits from a madness inspired by the gods. 243a — 244a

This is where the wise man develops his argument satisfactorily: true, enthusiastic love must be guided by philosophy. What justifies a lucid life is the practice of love, which exercises itself fully when the state-of-being is guided through the attentive use of the word, or rhetoric, which must help him to discern and define the objects spoken about in dialogues, to differentiate what is just and virtuous from what is not, to be the instrument and vehicle of this search. Socrates embodies the philosopher exercising a duty: he criticises and corrects the subject matter, clarifies concepts, authoritative words and thoughts, so that those who want to listen and learn may be guided in the direction of what is just and true, regaining a noble, individual and communitarian destiny for the sake of a renewed political or civic dimension, which introduces and points towards the paths of harmony and of Beauty. 

7 Resulting implications

If he is endowed with sufficient intelligence, anyone who knows how to make a speech is responsible for understanding and acknowledging what he says, for guiding his speech, for recognising which cause he is serving, whether true and virtuous or not. Anyone who makes a speech about love and does not guide the listener towards the Beautiful and the sublime, but to a sharing out of ephemeral goods, powers and imprudent pleasures, knows for whom he is working and for what reasons; therefore, he cannot be compared in virtue, poetics or rhetoric with the person who carries on a dialogue or makes a speech to the opposite effect and tries to guide his listeners in a search for great existential realities, for truth and the good life, all well examined.

Those who, in the city, speak in favour of acclamation do not admire and/or despise speeches for their ability to convey truth or lies, but because they recognise the great value of arrogant oratory in increasing or perhaps reducing the power of the person speaking – a power confirmed by populist approval which is fertilised and inflamed by well-distributed flattery, praise and criticism.

If statesmen are reluctant to make speeches, it is not because they fear the verdict of posterity, being considered sophists, demagogues or writers-for-hire in the service of vulgar and prosaic interests; but because they are afraid of speaking without sufficient cunning and demagogy to ensure the masses’ approval, or to win votes that will increase their power and possessions. They are afraid of not being able to fill the people with hope so their shouts of approval will reinforce their thirst to win more mediocre powers; in short, they are afraid of not being endowed with the necessary cunning to produce seductive and appealing speeches which appear virtuous and profound, but actually add to the market of vulgarity and political mediocrity, obscuring what is true and essential.

When the orators involved in these tasks and struggles criticise each other, accusing each other of merely repeating speeches without substance, they do not point out the routine abuse and corruption of words pumped through the media, divested of truth and hired out to obscure causes; but, through this public detraction and praise, they negotiate alliances and attacks in accordance with a base competitive praxis whose goal is to win and conquer, to gain approval and power: fame. Surrounded by eloquent and populist allies, like sheep around a salt mine, the most arrogant leaders love making speeches, they know that the masses adore those who show ascendancy and power; flattered by a circle of satisfied followers, they make promises of prosperity to the majority of voters.

In these surroundings typical of cities led by plutocrats and tyrants lacking in philosophy, is it really necessary to examine each of these speeches to decide if it is good or bad? Or simply to note the context in which they are made: with what intentions and proposals they are written, and whom they serve? Socrates shows Phaedrus and urges him to recognise that it is not necessary to examine every sentence and stylistic device of a speech in order to discover what it is worth; it is enough not to allow oneself to be lulled by the “siren song” to understand the source that inspires the words, to whom they are directed and in favour of what or whom. This is rhetoric. The myth of the grasshoppers suggests that one must not falter in the middle of the day, or fail to make the most of the time and knowledge available, to allow boredom and prosaic necessities to impede or delay a lucid examination of important subjects in the light of the highest and most inspired philosophy. To scorn and not understand the meaning of myths, or to mix them up with distorted historical facts, blinds one and deprives the world of wisdom. To worthy artists, poets and philosophers, it is clear: the deep meaning of existence can only be assimilated in the intuitive contemplation of deep forms, illustrated and adapted to the understanding of men and their cultures – in other words, myths. In vulgar, demagogic rhetoric, people write and speak according to the political strength of opinions, not according to genuine, authentic knowledge.

The writings and speeches which are to be condemned are those which mystify readers and listeners, elevating the deeds of enthroned demagogues and tyrants to the mythical plane; this is the oratory which is used to discredit the supreme grace of amorous enthusiasm, to pile up power and resources in order to throw mud and sand on essential causes and to obscure people who know things, to make demagogic arguments seem necessary. What is accused here is writing without inspiration, which covers up the truths that can be seen in conversations with children, who understand and admire the beauty of the day and the flowers, simply knowing how to listen to the grasshoppers’ song – Mythos takes Eros in the rhetoric of the wise. 

8 Leaving the banks of the River Ilisus

Socrates versus Lysias: two ways, two contrasting perspectives and modes of living, two types of intensity. “Phaedrus” marks out a crossroads, argues over two orientations whose foundations in the community make clear the policies that lead to a straight, true existential path, in accordance with the flow of life, or to another that is false or contrary.

The Socratic, philosophical dialogue is an act and a way, an effective movement that amplifies and purifies the lucidity of those participants who are focused on the realisation of the state-of-being as truth, love and union. This being the case, in the political circumstances that would lead the master orator to a sentence of death for leading young people away from obedience and the rituals of the city, the dialogue represents a political act because it affirms that the power to exercise virtue and good government lies in the heart of the wise man and not the tyrant: to be rich is to be wise. The unitary meaning of the discourse is affirmed as a political act in defence of the government of the wise: a prudent dialogue but, in these circumstances, a transgressive one.

The fundamental virtue attributed to the mystery of existence gives birth to a metaphysical intuition, an axis of perspective and coordinates which make up a basic existential and civilisational position. This is therefore a policy that initiates trajectories, experiences, feelings and narratives that correspond to the values that have been praised. Being aware of oneself requires the realisation of one’s own nature: a true appreciation must make explicit this reciprocal and harmonious relationship between the “being” and its “nature”, revealing potentials for harmony and a life that is worthy. In the light of simple and untrammelled reason, the encounter with the Beautiful is natural, made inevitable in the goodness and the values that the living being affirms: for the wise man, the exercise of virtue is not optional or a matter of chance, it is a necessity congruent with nature and the potentials of the state-of-being. 

9 Theological and political considerations

The existential phenomenon is not contextualised as haughty, dominating “Being”; it exists as a state-of-being, equally being-and-state and state-in-being, a unitary and paradoxical identity that seeks to realise and affirm its original form without diversions; and because it emanates from the essence, when possible, it overcomes the deterministic debate with forward-looking innovations, aesthetic and ethical intuitions. The existential phenomenon creates the conditions for duty without imposition, conduct without obligations: an order established in the benevolent and wise appreciation of the human being, and consequent expressions of ethical and civic virtue. It is illusory and vain to seek the essence in subjective architectures that deny the nature of the state-of-being or which depart from co-existence, just because one is carried away by cultural ideals or frameworks. To project motives, dramas or ethics from one’s own story on to another supernatural plane, to imagine resolutions contained in theories that are not in tune with the vital-state that one experiences, represents an eccentric diversion. Almost all pathology is rooted in this metaphysical-existential dislocation. A resolution that is not merely a compensatory relaxation implies philosophical intuition, inspiration that flows into sober and precise generalisations, aesthetic abstractions and connections that create a being-and-state harmony, revealing a poetic and paradoxical unicity.

Faced with an unfocused intuition about the identity and origin of the state-of-being, trying to make up for a possibly ambiguous or frightened feeling with a consoling escapism based on opinionated affirmations and dominant political and educational models, demeans reason and liberty even more. The history and historicity of individuals shows the pathology and amplitude of the suffering resulting from these follies. Not to recognise one’s affiliation to the Beautiful, not to accept what one is, as one manifests oneself, a co-creative vital force, a co-determining will of one’s destiny, creates infirmity and lack of responsibility from the aesthetic and ethical point of view, transforming the pro-active potential for truth and adaptation into a lack of intelligence, a lack of ability, and suffering.

Noble ethical and civil achievements demand an acknowledgement of cosmo-existential integration: that is, a) a virtuous, visionary, mythical foundation; b) a pro-active affirmation of this unicity, faithful love; c) theoretical rectitude, correct rhetoric. An integration that sets store by the adaptation of the state-of-being grows and matures in the nurturing of harmony. In this phenomenon, potentials for realisation, being gradual and evolutionary processes, gravitate around the relationships that are established and become apparent between oneself and what is other. Harmonious relationships facilitate this joint process and understanding; oppositional relationships inhibit it, leading to educational and political deviations.

One of the state-of-being’s potentials is to acquire a gradual and well-founded consciousness of himself, Ethos. This implies the judicious cultivation of reason, a condition which leads him to recognise the human being as an event where identity and origin are merged in the autopoietic phenomenon in himself – Logos and Mythos. To generalise greatly: the impossibility of establishing a clear ontological distinction between what is “oneself/interior-in-oneself”, and what is “other/thing-in-itself”, implies a paradoxical cognitive-existential situation, a phenomenon and aporia which tends to get bigger and more universal in sensitive and forward-looking moments of inspiration, aesthetic intuitions, making up a mythical relationship/realisation.

Mythical-metaphysical intuition in some way confirms and directs this existential tension into two possible orientations: a) an integrative and essential, mythical union, whose meaning and value operate within the reach of the state-of-being, in the interior-in-oneself or b) a rupture which degrades this convergent relationship, projects the essence on to a hypothetical unknown, leaving the state-of-being in a position of exclusion and minority regarding the meaning, dignity or merit of his deep nature. Metaphysical intuition results from a double manifestation: a) passive: the imitative and unreflecting absorption of cultural patterns, formalised and contained in feelings, myths, rhetoric, rituals and labels, civility, theology and politics; and b) active: a philosophical renewal which emerges out of a search, a type of education, a pedagogy and an educational policy, which are decisive for the edification of the state-of-being’s consciousness and its elevated ability to apprehend.

Let us flourish, radically in the present, revealing a creative presence, the basis of all ideas, embracing the concept of the absolute and that to which it refers, immersed in psycho-physical structures, universal ineffability, metaphysical intuitions, perceptions and coordinates, mythologies and theoretical systems. We evolve as a state-of-being in a cosmo-existential complicity that is always moving. Unitary metaphysics and mythology inspire a pro-active and responsible communion at all levels, making it possible to recognise the fundamental integration of the essence in the existential sphere. Awake to these mysteries, the forward-looking individual acknowledges and weaves narratives, which elevate the existential manifestation to an immediate expression of eternal principles: archetypal intuitions, universal allegories, visions, concentrating the power of greeting and celebrating daily that which signifies most nobly, the distilled, spiritualised, metaphysical culmination in the light of natural reason.

A possibility is sensed of a realisation, reinforcing essential good measures in a pro-active circle of lucidity, connecting all the facets of the state-of-being and creating resonance between them: coordinates which dignify existence, celebrating the more genuine and sober axis of metaphysical perspective that commands the greatest consent and respect. A project-of-being that radiates like a sun, a mandala, whose centre is rooted there where images and metaphors fascinate and move, contemplating and experiencing the real without allowing hypotheses, fears or prejudices, or traditions to let rhetoric be captured by other interests, or to cloud the beauty of the evidence that is marked out in the exchanges of respected nature, chiselling the senses and the imagination into the most constructive refinements of perception and language.

The inspiration that results from the experience of this paradoxical unicity generates wonder and jubilant admiration, because it glorifies and fills the state-of-being with potential; it reinforces the guiding metaphysical intuition, providing a vital confirmation of the adaptation and rectitude of philosophical understanding. An environment of certainty is established which, although not based on empirical experiments, nor on rigorous logical deductions, affirms with full reason, qualified and intuitive, an infinite universal intelligibility: our cosmic consciousness.

The beginning, being a thing that was not formed, must also evidently be a thing that cannot be destroyed. 245d-e (…) We conjecture, without having had any experience of this nor sufficient clarity, that an immortal being would be the combination of a soul and a body that are united for all eternity. 246d

The loving dedication of the guide, focusing his attention on the individual, eliciting the appropriate metaphysical intuition and rhetoric, explaining and exemplifying the attitudes that follow from this, achieves a metaphysical position and a pedagogical act. This is an example of a theo-politics that by integrating its methods with its objectives, makes humanity bigger, according autonomy and freedom their true status for the sake of a visionary existential exercise that is beautiful and reasonable. Such an approach, stripped of awkward normative structures, can only operate from the singular to the universal, in a personal act that is reconstructed and reformulated, continuously, in the wise and multiple expressions of those who take part in the eternal cultural updating and affirmation of the moment, kairos.

An effective clarification is achieved and updated in each individual; its justifications are not circumscribed and quantified by appreciations located within historical-chronological parameters, but are affirmed in the echoes of long-lasting wise teachings, whether these are specifically referenced or not. To understand the profound and political philosophical dimension of Socrates and other masters of wisdom demands some positive recognitions as a result: a) mystical realisation is an individual sacrament; b) one is chiselled into refinement and affirmed by means of a singular and particular education; c) the political and pedagogical act that goes together with this search and realisation must aspire to a continuing and updated renewal of understanding; d) to be exercised along a variable methodological axis, balanced between the conservative and renewing poles of political positions and courses; e) in accordance with the dialogic necessities and contextualisations manifested in this lively moment that lasts for ever; f) transmuting and renewing the fluidity and intelligibility of the state-of-being; that which is eternally lively and in flux cannot be found in traces, is not found in time.

Therefore, the theo-politic Socratic programme is carried out: a) through creative cultural transmission, a continuing trans-personal diaspora; b) incorporated by human nature that is renewed in procreative acts, births and deaths. The high effectiveness of this programme is shown by the fact that 2,400 years after its foundation, coordinated in these terms, the challenges laid down continue to show their effects, rising again like a phoenix, involving millions of individuals around the world.

10 Of allegory

“Phaedrus”, as well a dialogue, is an allegory: we are all walking beside a river with two banks and two directions. One leads to this natural rustic place where there is a source and one hears the song of the grasshoppers; the other leads to that besieged city, taken over by plutocrats, where speeches are traded. Depending on what one feels, sees, hears and says – Eros, Mythos and Logos – the state-of-being walks in one or other direction – the via socratica or the via lysiastica. Will this journey have an end? May yours be a good one!

[1] Something well expressed by Patrick Hochart in his lesson (of may 16, 2012 – Cours de philosophie : internet meeting by Bibliotheque national de France. http://itunes.apple.com/us/itunes-u/cours-philosophie-conferences/id509994363 ): “The operations of the dialectics are worth in function of love which motivate and sustain them; If Socrates is a “lover of speeches” it is because there is only Logos in function of Eros that animates and sustains this élan”.

Diálogos Panteístas – encontros e reflexões filosóficas: participe!!!

Diálogos Panteístas

Temos o prazer de anunciar que na primeira sexta-feira às 19h30 de cada mês o IUP Instituto Universo Panteísta realizara os “ Diálogos Panteístas” encontros de reflexões filosóficas sobre essa nova visão teológica e seus desdobramentos. A entrada e franca e aberta aos interessados.
LUGAR: KAI – Artes e Movimento – Local: Kai Artes e Movimento rua Afonso Batista, 103-Espinheiro informações: 99607-4123 – email: info@kai.net.br
Contatos: Benoit Le Hir

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RESUMO DESCRITIVO do 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios Filosóficos

Um Renascimento em Teologia Política – de 14 a 17 de novembro 2013, Olinda 

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Tivemos sucesso nesse 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios Filosóficos  – Um Renascimento em Teologia Política – de 14 a 17 de novembro de 2013, Olinda, dedicado ao estudo da perspectiva metafísica panteística e suas consequências, destacando o ordenamento gnosiológico ou acesso interior ao saber, e o ordenamento societário ou acesso político aos recursos; sendo a liberdade e criatividade, num sentido amplo a autonomia criativa, consideradas “bens existenciais” fundamentais.

No primeiro ordenamento,  investiga-se como a visão profunda de “si no mundo”, mitos correspondentes e formações teológicas correlacionam com decursos cognitivos, potenciais produtivos nas esferas emocionais, intelectivas, afetivas e estéticas, no acesso ao saber, às intuições reveladoras de sentidos finais entre outros, e, no segundo, destacando como os eixos de perspectivas metafísicas determinam diversas estruturações societárias, eventualmente desaguando na direção de regimes totalitários e sectários, repúblicas sociocratas, ou em direção a estruturas dialógicas e dialogais, espaços existenciais de compartilhamento.

Nesse primeiro encontro, trouxemos, na forma de mesas redondas, palestras e exposições de livros, os principais argumentos, discursos e tecnologias operando na investigação dessas conexões entre a filosofia considerada primordial e profunda e a modulação dos potenciais individuais e coletivos, vislumbrando os decursos políticos correlatos aos ordenamentos metafísicos, teológicos e míticos, assim como as utopias científicas cogitáveis nas diversas ordens; abrimos um espaço específico para percorrer as principais correlações.

O colóquio foi promovido pelo “Instituto Universo Panteísta”, o que significa pelos organizadores e fundadores desse instituto, aos quais, na qualidade de presidente, agradeço profundamente. O IUP é uma organização dedicada ao panteísmo que é a visão teológica da estrutura essencial e substancial da cosmo-existência como radicalmente imanente à criação e manifesta num ordenamento evolutivo autopoiético. Os subsídios e recursos laborais permitindo a realização desse colóquio foram doados pelos participantes e organizadores.

O IUP, como organismo criador dessa iniciativa pioneira, confere aos debates um posicionamento e orientação inerentes: de acordo com a tese do Instituto, duas vias, ou perspectivas, norteiam os destinos do ser humano como criatura natural e cultural. Uma via corresponde ao eixo de perspectiva tipicamente descrito pelos culturistas transcendenteístas, incluindo a barreira kantiana na discriminação dos campos do “sujeito” e “coisa-em-si”, confirmando e reestabelecendo o fundamento metafísico dualista enraizado na escolástica e que fortalece os processos de dominação brutais, históricos e culturais, âmbitos societários dominantes, superestratificações políticas que ainda perfazem a civilização, justificando e consagrando singularidades, sectarismos e hierarquizações de origens abraâmica, masdeísta e greco-romana. A outra via corresponde ao eixo de perspectiva metafísica descrita nos trabalhos do IUP como “cosmo-existencialista”, com enraizamentos amplos, notoriamente nas estruturas sociais agrárias ou silvícolas historicamente não superestratificadas, notoriamente na Jônia, berço primeiro da filosofia, ou Primeira Escola Eleática, e no mundo antigo epitomado como “universo de Lao tsé” e inúmeros outros âmbitos culturais locados “além e ao redor das muralhas da poderosa Roma” nos quais prevalecem relações mais eco-humanistas e cujos princípios filosóficos e científicos explicitados e inerentes se projetam como conceitos e recursos essenciais a um reordenamento ético e sapiente da ação e da pressão existencial humana cujos resultados contemporâneos são bem distantes de fazer jus ao epíteto “sapiente”.

Do ponto de vista da frequência, esse primeiro Colóquio foi um sucesso. Lembro a chamada  da prestigiosa “International Liberty Conference-ILC” promovida pela “International Society for Individual Liberty – ISIL” e acontecido em Lausanne, dia 25 Agosto, 2013; essa sociedade cujo libertarianismo enraíza nos conceitos de Bastiat, Molinari, passando pela Escola Austríaca de Economia com os seus expoentes como Ludwig Von Miss, Rothbard ou Hayek, entre outros, promoveu a sua quadragésima conferência com mais de 28 convidados internacionais, incluindo Shin Dong-hyuk – a única pessoa que consegui escapar de um campo de trabalho da Coreia do Norte – e Adedayo Thomas, um ativista da Nigéria, internacionalmente premiado: pasmem apenas 100 pessoas se inscreveram na ILC-2013, o que mostra como os assuntos vanguardistas e pioneiros costumam ser, se não boicotados, desconsiderados; os argumentos que magnificam a autonomia do ser humano intimidam os que usufruem das estruturações e benesses do sistema e status quo. Nesse primeiro colóquio internacional e vanguardeiro sobre as perspectivas profundas do panteísmo e consequências teopolíticas, acontecido em Olinda, no Hotel 7 Colinas, tivemos 68 pessoas oficialmente inscritas e dezenas de visitantes que compareceram por um dia ou para assistir a uma palestra ou mesa redonda específica. A foto considerada oficial do nosso evento e as demais retratam esse dinamismo.

A cerimônia de abertura e vinho de Honra aconteceu na quarta à noite, com a participação de Glória Lofti; Wilson Gonzaga; Maria Luisa R. Ferreira; Danielle Pitta; Régis A. Barbier; a Representante da Prefeitura; José Maria Tavares; Roberto Otsu e Thiago Aquino; apreciamos as apresentações musicais de Pierre Stocker e Paulo Jales. O colóquio foi bem estruturado com a possibilidade de confraternizar nos coffee breaks e refeições; promoveram-se 06 palestras e 04 mesas redondas, garantindo oportunidades para questionamentos; todas as atividades foram gravadas e filmadas; reportagens fotográficas e jornalísticas paralelas documentaram a totalidade do encontro, material agora pertencente ao IUP , integrando o seu patrimônio e acervo cultural que será brevemente disponibilizado aos associados em dia com suas anuidades. Está planejado para janeiro/fevereiro a colocação on line desse acervo e a edição dos Anais-2013 do colóquio. O “Tabloide Universo Panteísta – Tupan” teve a sua primeira edição lançada durante o evento; reportagem assinada por Igor Souto. Os materiais gráficos, pastas e programas, idealizados por Paulo Jales e produzidos graça à dedicação de Crisitane Machado foram justamente apreciados.

Na qualidade de presidente do instituto, proferi a primeira palestra da sexta-feira, dia 15, das 8h às 10h. Procurei definir a natureza, fundamentos e importância do panteísmo como conceituação civilizatória basilar, entre outros, evocando alguns dos argumentos detalhados no livro “Panteísmo a religiosidade do presente”. Numa abordagem sucinta enfatizei que tudo se manifesta e se inscreve numa estrutura primordial que se reconhece por intermédio de uma perspectiva metafísica entendida como fenômeno radical; um reconhecimento igualmente condicionado pela estrutura e pela consciência em apercepções complexas envolvendo os intelectos sensíveis e racionais do ponto de vista cognitivo e do ponto de vista cultural, a “marca batismal”, suas narrativas míticas junto com uma impressão que denomina “ortolocutória” e que se correlaciona com as formas arquitetônicas, etiquetas, usos e costumes vigentes no âmbito cultural e introjetados como estruturas comportamentais modeladoras. Os binômios fundamentais dessa formação cosmo-existencial se evidenciam ordenados em pares fundamentais e nucleados ao redor das substâncias ou atributos opositivos e complementários redefinidos por Descartes e Espinosa na alvorada da modernidade, uma união paradoxal das coisas da consciência e do mundo; nesse ordenamento, a totalidade manifesta e organiza uma síntese perenal que o olhar lógico pode categorizar como um xadrez configurando duplas integradas como teses e antíteses, consciência e matéria,  coisas do intelecto sensível e racional; divisões cujo olhar, ampliado em abstrações infinitas e poéticas, reconhece como polaridades hipotéticas colapsadas em unidade paradoxal no momento criativo e absolto de “Kairos”. Uma vez conceituado um ou outro eixo possível de perspectiva metafísica, seja o denominado transcendente-transcendental (TT) ou cosmo-existencial (CE), manifestam-se as epistemes civilizatórias fundantes com as suas constelações paradigmáticas coligadas que conferem formas às coisas da pedagogia, metodologia científica, economia, política, teologia e outras. Existindo dois eixos de perspectiva metafísica – TT e CE – é possível, com tecnologia, recurso e saber adequado, reverter a cosmovisão introjetada ao nascer em cultura; sendo o panteísmo, teologia correspondente à perspectiva cosmo-existencial (CE), uma expressão unificadora podendo ser dita, sensível, pagã, indígena, naturalista, eco-humanista, expressão filosófica de equilíbrio e redirecionamento radical, frente às consequências e ordenamentos históricos culturais dualistas, idealistas, opositivos, sectários, racionalistas, herarquistas e autoritários que reportam à cosmovisão dominadora (TT) ainda imperando e enraizada em atavismos e visões pobremente decodificadas.

Depois do coffee break, reiniciamos os trabalhos com uma mesa redonda dedicada ao estudo da “Dimensão do sagrado no panteísmo, o panteão, os arquétipos, a transcendência”. Participaram dessas mesa, Aurino Lima (Doutor em educação – UFPE; mestre em psicologia – UFPE; especialista em Psicologia Transpessoal – ABPT/Dharamsala, Índia; Biopsicologia – Instituto Visão Futuro; Professor do Programa de Pós-graduação em Educação e do Departamento de Psicologia e Orientação Educacionais da UFPE); Glória Lotfi (psicóloga e presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica Associada Rio de Janeiro) e Danielle Pitta (presidente fundadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário – UFPE; pesquisadora do Videlicet – Estudos em Intolerância, Diversidade e Imaginário – UFPB). Um dos pontos importantes foi locar o arquétipo; nesse processo demonstrou-se a busca de Jung na tentativa de conciliar os aspetos e estruturações universais e as manifestações necessariamente singulares dos arquétipos. Tentou demonstrar-se com o arquétipo, evocando um processo abstrato e universalização dos peculiares fornecia um meio de transcendência. Embora não sendo considerada uma produção do sujeito, mas um fenômeno possivelmente radical, o arquétipo manifestando-se através de imagéticas passa a dinamizar o imaginário, lugar a partir do qual ele se afirma na produção de atitudes e comportamentos. Dessa forma caminhou-se na direção de uma conexão entre a metafísica, o arquétipo e as narrativas míticas, com evidentes consequências teóricas, teológicas e societárias.

Depois de um almoço animado num dos restaurantes tradicionais de Olinda, reiniciaram-se os trabalhos com a palestra da Professora Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Professora Catedrática da Universidade de Lisboa; Investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e Coordenadora de Filosofia da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa): “Deus sive Natura” dedicada ao estudo da Ética de Baruch de Spinoza. Tratou-se de uma palestra clássica, muito bem estruturada, com slides e grande cuidados didáticos; a professora Maria Luísa apresentou a doutrina do filósofo de modo sucinta e precisa, enfatizando os aspetos metafísicos, explicitando os atributos e modos spinozistas de compreender “Deus, ou natureza”. Trata-se de uma introdução altamente recomendada, necessária e edificante, ao pensamento e filosofia matematizada de Baruch de Spinoza heremizado, afastado e amaldiçoado pelo Conselho da Sinagoga em 27 de Julho de 1656, em Amsterdam, “com o consentimento de Adonai” – anátema pronunciado contra Spinoza.

Depois do coffee break da tarde, o colóquio continuou com a palestra do Prof. José Maria Tavares (Researcher of the Institut de recherche interdisciplinaire sur les sciences et la technologie – Université de Strasbourg – France; Cordinator of the Etnomedicine Seminar): “Terapia Panteísta ou Religião da Natureza: expressão vanguardeira da religiosidade panteísta em Pernambuco”. Tratou-se de uma aula surpreendente, resultante das pesquisas do professor e parcialmente descritas no livro “Terapia Panteísta ou Religião da Natureza”. Explicita-se que um pedreiro de profissão, José Amaro Feliciano (Zé Amaro), fundou em 22 de Janeiro de 1922 uma nova religião denominada “Movimento Panteísta Círculo Deus Verdade”. Após a fundação, explicita o professor Tavares: “(…) o movimento começou a atrair a atenção de muitas pessoas (…), propondo aos recifenses um culto de adoração aos elementos da Natureza”. Segundo o professor, “o grupo seguia em procissões nas matas, rios e quedas d’água, numa cerimônia com elementos rituais que não apresentaram relação com a tradição local. Isso fez aumentar tanto a frequência,  a motivação do público. Em pouco tempo tornou-se motivo de interesse de políticos, jornalistas e pesquisadores”. Segundo a “Revista Noite Ilustrada” do Rio de Janeiro, a primeira a falar do fenômeno em 22/03/1933, a religião se baseava na adoração da Natureza com características “panteístas”. Ainda em 1933 Pedro Cavalcanti publicou um artigo intitulado “Investigações sobre Religiões no Recife – Uma seita Panteísta”. Gilberto Freyre também conhecia a nova forma religiosa e publicou e estudou as cerimônias dos “adoradores das águas” buscando traços e fazendo analogias com outras religiosidades. Nos estudos de Waldemar Valente publicados em 1966, “Panteísmo em Pernambuco”, o autor considera o grupo como um “Panteísmo sincrético, ameríndio, esotérico e uma mistura de diversas religiões oriundos de uma criação popular na miscigenação de vários elementos constitutivos. Ela se situa nas fronteiras estabelecidas, convencionalmente, por variáveis como urbana e rural, moderno e tradicional, o analfabético e o letrado, o moderno e o primitivo”. O “Movimento Panteísta Círculo Deus Verdade” durou até o falecimento do fundador, estendeu-se até o 22 de Novembro de 1964, e pode ter sido a primeira formação religiosa oficialmente reconhecida e largamente mencionada trazendo o nome “panteísta”  na sua denominação, fazendo de Pernambuco um lugar pioneiro, o berço do que Vicente de Lima, numa publicação no Jornal do Comercio em 1937, caracterizava como a “religião do futuro”.

O sábado 16 continuou bastante intenso, iniciando com a palestra do Prof. Thiago Aquino (mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco; doutorado em 2007 pela Ludwig-Maximilians Universität München – Alemanha; Professor da Universidade Federal de Pernambuco): “A Dimensão Teológica da Política”. O professor, numa aula pioneira explicitou de diversas maneira como a visão de um deus poderoso e distante, de acesso reservado a poucos escolhidos ou em circunstâncias especiais, colaciona com formas de governo reservadas ou oligarquias. O professor correlacionou como a visão antropomórfica de um deus poderoso reinando nos campos surrealistas do imaginário, castigando os homens com doenças, maldiçoes e sofrimentos expiatórios, recompensando-os com saúde, prestígio, sorte e sucesso, correlacionam, por transferência e projeção, com o poder humano, revestindo os dominantes, reis guerreiros, políticos e outras figuras imponentes, de uma auréola heroica e divinal, de alguma forma transferindo o poder de Deus à elite que passa a reinar como se fosse imbuída de um poder divinal, propendo à instalação de governos autoritários, normativos e sectários. Demonstrou-se como a ideia do poder divino, sua locação e reserva, determina os usos e costumes públicos e políticos.

A mesa redonda da parte da manhã foi dedicada ao estudo das formas religiosas brasileiras e sincréticas, pesquisando as suas doutrinas e como se correlacionam significativamente com as noções essenciais do panteísmo. Participaram dessa mesa Carlos Leandro (estudioso veterano da Ayahuasca e terapeuta), Wilson Gonzaga (médico psiquiatra; membro do Grupo Multidisciplinar de Trabalho instituído pelo Conselho Nacional Anti-Drogas – Conad – para definir as regras para o consumo da ayahuasca no Brasil) e Gabriel Kafure (mestre em filosofia) tendo sido facilitada por Paulo Jales (Designer gráfico e Webdesigner, artista e estudioso veterano da Ayahuasca); destacou-se como o sincretismo religioso aportou um forte naturalismo aos modos racionalistas e idealistas da forma religiosa judaico-cristã; nessas religiosidades nascidas de um encontro multicultural acontecido em cenário tropical, a visão do divino e a teleologia se inclinam para um plano mais sensível, capaz de evocar o numinoso através da estética e das percepções ampliadas com uso de substâncias naturais usadas como sacramentos. Nessas formas religiosas em que cultos extasiantes acontecem mediante danças e cantos evocadores de virtudes e poderes, o Sol é considerado o plano divinal, ou “astral superior”; as estrelas sinais de pureza espiritual; as flores e plantas se revestem de espíritos nobres e destacados; o conceito intenso de “natureza divina”, os decursos animistas, vitalistas e panenteísticos correlatos, conferem a essas formas religiosas nativas do Brasil, uma significativa aproximação teórica com o panteísmo filosófico ainda necessitando ser melhor delimitada.

Depois do almoço acontecido nos restaurantes típicos da cidade histórica, iniciou-se o trabalho da tarde com a mesa redonda “Sintonia entre Paganismo e Panteísmo”; aconteceu no jardim do hotel buscando estabelecer  paralelos entre as duas visões; participaram Luan Silva (Designer Gráfico; Neopagão desde 2002; Praticante de Bruxaria Tradicional; Coordenador do Espaço Neopagão, organização que traz eventos para neopagãos; Organizador do Encontro Pernambucano de Neopaganismo, evento anual, que abrange os estados de Pernambuco, Paraíba e Ceará); Saulo Gimenez (Graduando de Licenciatura em Ciências das Religiões pela UFPB; Sacerdote da Wica Tradicional; Praticante de Bruxaria Tradicional; Magister em Necromancia; Membro da Comissão de Igualdade Racial e Diversidade Religiosa da OAB-PB; Membro do Movimento Nacional de Direitos Humanos; Presidente da HEX – Associação de Covens Bruxos e Neófitos do Brasil (HEX-ACBNB), organização que traz eventos para Wiccans, BTs, Neopagãos e Simpatizantes; Organizador do Encontro Wica da Paraíba, evento anual) e Karina Oliveira (graduada em História, mestre em Ciências da Religião e professora de Filosofia e Sociologia da Faculdade Joaquim Nabuco). A mesa redonda foi coordenada por Marina Peruzzo, organizadora do colóquio, e foi extremamente produtiva. De maneira sucinta, os participantes descreveram a origem, história e diversidade do Movimento Neopagão. O que mais caracterizou os debates foi o reconhecimento de que o panteísmo não é um “monoteísmo” no sentido habitualmente temido pelos neopagões cujas formas religiosas plurais foram barbaramente suprimidas pela Igreja Católica e Romana e demais intolerâncias sectárias. Esse debate se encontra rigorosamente explicitado no artigo denominado “Da Ideia de Deus – você conhece, ignora ou acredita?”, encontrável no sítio oficial do IUP. O monoteísmo, justamente  temido e abominado pelos neopagões, é a forma teísta típica da teologia judaico-cristã (da igreja católica e romana e suas decorrências) e muçulmana, em que o antepositivo grego “mono” significa “único” no sentido de “só, solitário, isolado”, isto é uma parcialidade onde se entende deus como exclusivo por não pertencer ao reino das nossas origens materiais, às coisas ligadas à sensorialidade, inclusive sexual, e, à matéria substancializada como a vivemos e conhecemos no mundo em que existimos, ou, de alguma forma estabelecendo relações exclusivistas com um grupo ou nação, implicando formas de messianismo, elitismo, salvacionismo redentor e outros autoritarismos. Ficou claro e explicitado que,  no panteísmo,  o “pan” evoca uma unidade sistêmica, uma trama unitária e não uma exclusividade. Denotou-se que na teologia panteísta e neopagã os aportes culturais não excelem, mas complementam os dados oriundos da intuição e da relação imediata com a natureza, ampliando-se a compreensão do termo “natureza” à luz da meditação filosófica, como Cosmos: relação unitária e fenomênica entre o indivíduo e o mundo. O equivalente desse “um”, que no panteísmo é a perspectiva metafísica que é monista, expressa-se no neopaganismo como uma possibilidade universal de relação e conectividade: não há entidades “espirituais” exclusivas e reservadas de acordo com preferências de ordem nacionais ou tribais e destinadas a reabsorver as entidades “materiais” ou a matéria. Tanto no panteísmo quanto no paganismo não se articulam um jogo de oposições rigorosas ou metafísicas no entendimento sistêmico, não há dicotomias na estrutura profunda; o sentido de sagrado, numinoso, ou divino, integra a totalidade das coisas naturais, uma virtude que não exclui nenhuma expressão cósmica, incluindo o mundo terrestre, os planetas, as estrelas, a totalidade das coisas que se conhece e desconhece. No panteísmo, “pan” evoca uma “unidade” radicalmente inclusiva e não uma “exclusividade”, uma unidade que nada separa de substancial: um só Cosmos, uma única trama, em que existimos e a que pertencemos identificados e enraizados nos processos atuais e originais de transmutações. Embora diferenças existam – as ênfases esotéricas características do neopaganismo são, em geral, estranhas aos modos filosóficos do panteísmo – admirou-se igualmente a capacidade sintônica entre o neopaganismo e o panteísmo de desafiar o “exclusivismo monoteístico”, as reservas fideístas, em que uma igreja, uma nação, um povo acham-se predestinados a uma relação exclusiva com o divino: do ponto de vista da praxe os ritos e as “artes dos altares” não são apanágios de igrejas ou grupos mais podem ser individualmente realizados, evocados e construídos de acordo com o entendimento de cada um, por uma multidão de praticantes todos dotados do poder de mediar relações com o que se entende como divino.

A palestra seguinte, durante à tarde do dia 16, foi a explanação de Roberto Otsu – Professor de Taoismo na pós-graduação em Psicologia Transpessoal da Faculdade de Ciências da Saúde (Facis) em parceria com o IPPT, Instituto de Psicologia e Práticas Transpessoais em São Paulo – que explicitou o taoismo como sabedoria da natureza. O professor demonstrou como o Tao, como “caminho”, se revela como unidade indiferenciada de onde surge o conceito de “dois” (yin e yang), não como oposições ,  mas lados necessários da mesma unidade, produzindo por extensão, a totalidade do “mundo e do conhecimento” em harmonia. Não passou desapercebido que as raízes da filosofia taoista são as mesmas da filosofia profunda, o Yin e o Yang como atributos da unidade podem ser entendidos como configurando um “rebis” – duas substâncias ou dois atributos – estabelecendo um paralelo com as “res cogitans” e “extensa”. O que especificamente encanta no taoismo filosófico é consciência dinâmica da inter-relação de todas as coisas numa trama unitária assim como o conceito latente de perfeição resultante da adequação natural das circunstâncias ao conjunto e totalidade num processo universal; ao perceber que todas as entidades (inclusive nós mesmos) são interdependentes e constantemente redefinidas pela mudança das circunstâncias, passamos a ver todas as coisas como elas são e a nós mesmos como apenas uma parte do momento presente e transmutante. Essa compreensão da unidade nos leva a uma apreciação dos fatos da vida e do nosso lugar neles como momentos do estado-de-ser eternamente mutante, o que sintoniza com os aportes da sabedoria filosófica dos epicuristas, estoicos, pré-socráticos e do panteísmo como apreciação filosófica da natureza – a vida deve ser aceita e apreciada como ela é, não rejeitada ou deturpada para ser o que ela não é.

Na noite  do dia 16, os participantes se congratularam participando de um animado jantar festivo com apresentações musicais e a destacada participação de Pierre Stocker (França) e Paulo Jales (Ceará).

A palestra final, do dia 17 de novembro, foi proferida por Nara Correa – Especialista em Gestão Ambiental, Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Federal de Pernambuco; Docente do programa de pós-graduação em Gestão Ambiental e Sustentabilidade da Escola Superior de Relações Públicas, Pernambuco – com o titulo de “Panteísmo e Ecologia, uma relação profunda”. A intenção da palestra foi rediscutir a filosofia ambiental a partir da visão panteísta. A concepção da relação entre humanidade e natureza varia de acordo com as perspectivas metafísicas; a visão dualista da relação homem versus natureza, sua ancoragem numa metafísica transcendente, promove posicionamentos transitórios do agir no mundo; em contraponto a essa posição, a afirmação de uma metafísica imanente promove um comportamento integrativo em relação à natureza. A Professora Nara Correa demonstrou que as contradições relativas a uma visão que entende a natureza como casa transitória para a “vida verdadeira” no além-mundo impede um agir coerente com a vida; defendeu a necessidade de romper com a dicotomia e reconstruir a naturalidade humana, elaborando uma ecologia coerente com a vida, uma ecologia da imanência, ou panteística.

Depois do coffee break, o salão de conferência do evento foi transformado num anfiteatro – retirou-se a mesa dos palestrantes organizando os assentos em círculo, todos sendo convidados a participar desse diálogo em que a “mesa redonda” de encerramento, “A alvorada de uma nova cultura”, presidida por Victor Leão, se transformou. O convidado internacional Giancarlo de Aguiar – Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa; Mestre em Filosofia da Natureza e do Ambiente pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Especialização em Psicologia Transpessoal pelo Instituto Catarinense de Pós-Graduação ICPG – proferiu a sua exposição “O fim da Pólis e o Renascimento da Aldeia Pagã Transtropical” onde se enfatizou o momento emergente como um “divisor de águas entre o homo-techinologicos e o homo-elementum-naturalis”, precisando repensar a capacidade de criar, por um novo kairos, num outro sentido de criação e arte. A humanidade será “reintegrada na Natureza a partir do momento que suas funções psíquicas (o pensar, o sentir, o intuir e a sensação) estiverem ligadas aos elementos e aos reinos que o constituem”. O palestrante defendeu a tese de que seria impossível estabelecer uma filosofia da práxis pelo Panteísmo como bioética política “sem repor a ideia de paraíso no ecossistema, repensando os mitos de acordo com a filosofia, compreendendo o deus Pã como a força vital e grande mantenedor da vida no planeta“. “(…) Ainda  estaria simbolicamente morto o “deus Pã” nos porões da Academia, ou debaixo da Pólis, da metrópole e da megalópole, enterrado no bosque-jardim dedicado à deusa Atena, num túmulo juntamente com o Academo, dois seres na mito-narrativa de um mesmo fenômeno?”.

Muitos expressaram o seu entusiasmo e felicidade por participarem desse evento que foi considerado pioneiro, o renascimento de Pan, destinado a marcar um ponto de mutação na historicidade da “cidade” como conceito filosófico. O colóquio internacional terminou em ambiento festivo, com a distribuição dos “diplomas objetos” idealizados por Valdemir Cruz e com palavras de agradecimento e congratulação aos que participaram do evento como correalizadores, seja por integrarem a comissão organizadora, seja por contribuírem com a realização de palestras e pronunciamentos.

Esse primeiro colóquio é a pedra fundamental de uma história que se deseja longeva: pretendemos realizar esse encontro internacional a cada dois anos. Junto com o Dr. Wilson Gonzaga, sabemos que “reconhecer o divino em si, na natureza e no outro é o fundamento do respeito” [ http://www.youtube.com/watch?v=2AdsMw5Zxoo ]. Como presidente desse colóquio agradeço com elevado respeito  a todos os que contribuíram com o seu saber e sua presença, em especial aos que me auxiliaram mais diretamente, contribuindo de alguma forma na realização desse evento, notoriamente: Cristiane Ferraz, Marina Peruzzo, Victor Leão, Francis Lacerda, Carolina Seabra, Paulo Jales, Benoit Le Hir, Valdemir Cruz, Daniela Cunha, Thiago Aquino, Nara Correa e Juliana Engracia. Agradeço igualmente ao “Estúdio Isabel Sandrelly” pela excelência da cobertura fotográfica e  a Pedro Andrade do “Coletivo Jacaré” pelo zeloso registro das palestras e mesas redondas.

Junto à comissão diretora, acreditamos que o elenco de palestras, mesas redondas e apresentações que configuraram esse 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios filosóficos – um renascimento em teologia política demonstrou alguns dos princípios e fundamentos dessa renovada edificação cultural; esperamos contar novamente com as suas contribuições e atuantes participações e dedicações, seu interesse vanguardeiro, para o próximo colóquio, devendo ser agendado para o período de 13 a 15 de novembro de 2015.

Justificando René Descartes, corrigindo iniquidades

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Régis Alain Barbier  

René Descartes reinaugurou o diálogo que permitiu reiniciar a terapia do sujeito destinado a se enxergar como totalidade.

A Igreja imperial, para quem pensar com autonomia é potencialmente pecaminoso e expressar prazer sexual era sinal de bruxaria, dominava no Medievo mediante a mitologia judaico-cristã. Ainda majoritário, esse fundamento mítico elitista se projeta no intelecto como disfunção epistemológica e, no âmbito laico, se generaliza em paradigma científico por contágio pedagógico e metodológico, mas a dicotomia inaugural, naturalmente desafiada pelas crianças, filósofos e poetas criativos, decorre do sistema metafísico subjacente instituído em enraizamentos históricos abraâmicos, masdeístas e greco-romanos que não pertencem a René Descartes (1596-1650).

Evocando “substâncias” fundamentais como ordenamento metafísico do estado de ser, polos decorrentes ou complementários, a meditação cartesiana, como uma pedra filosofal, fomenta um exame preciso do “ato de ser” no mundo que patenteia o fundamento nuclear e alavanca teórica dualista da disfunção civilizatória; dessa forma instigado, um pensador hipotético e desimpedido, situado fora da jurisdição inquisitorial e isento, poderá intuir as implicações presumíveis.

Como demonstrada por Baruch de Spinoza (1632 – 1677), o parecer sub rosa da meditação cartesiana, permite intuir uma perspectiva metafísica de natureza panteística que enunciada e explicitada desbanca a teologia dualista criadora desse deus afastado representado por elites, episteme e mitologia inaugural por onde, nas inúmeras frestas paradigmáticas decorrentes e coligadas, se fragmenta e destrói a nossa civilização.

Quem não intenciona blindar a Igreja e preservar o embasamento metafísico da tradição ainda dominante, reconhece que o filósofo que deteve a irracionalidade do Medievo com a argúcia necessária para não subir um destino similar ao de Giordano Bruno (1548 – 1600), é um dos nossos mais dignos, honrados e magníficos terapeutas.

DA FORMULAÇÃO TEOLÓGICA DA CONSCIÊNCIA

Consequências Políticas

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Régis Alain Barbier, Aldeia, 03 novembro de 2013

O modo pedagógico catequista típico das sociedades superestratificadas não permite o desabrochar pleno da razão, nos termos e compassos justos, desafiando a realização filosófica do estado-de-ser; a aceitação de coisas improváveis e desonrosas, menosprezadoras, como fundamento da natureza e experiências  existenciais deságua  em irracionalidades, desesperos e malquereres.

 ESTRUTURA METAFÍSICA DA IGNORÂNCIA REDENTORA E SALVACIONISTA

ENUNCIADO

Ao longo do processo evolutivo, ontológico, quiçá filogenético, o sujeito conscientizador se descobre isolado, um estado-de-ser limitado entre nascimento e morte; eventualmente, tal descoberta motiva um questionamento onde se procura o significado do processo existencial, com fortes matizes afetivas; inaugura-se a busca filosófica, a teleologia dos mortais. O começo da filosofia assenta nos compassos e umbrais que circundam a vida e a morte, no berço dos afeitos, nesse intervalo metafísico, para se tornar, secundariamente, argumento do intelecto racional. Frente aos desafios existenciais, o parecer teológico, suas categorias metafísicas e míticas, transita e é inicialmente evocado através de um parecer estético que assenta numa resposta afetiva “simpática” ou “antipática”. A elaboração dessas possíveis valorações surge na apreciação imediata e sensível da relação fenomênica que opera nas tensões entre as coisas da consciência e as coisas da existência, no intervalo entre as “res cogitans” e “res extensa” de Descartes e os atributos de Espinosa; a raiz mais profunda da filosofia, como a arte, nasce no coração do intelecto sensível.
Típica das sociedades superestratificadas (nota 1) , a cultura dominante determina um parecer fundamental estipulando uma resposta metafísica deslocada, dogmática e insensível, evocando arquétipos, mitos, ritos, tradições e “ortolocuções” (nota 2)  referentes; do ponto de vista da ciência filosófica esse parecer inaugural típico, ou “impressão batismal”, elabora-se como perspectiva metafísica porque explicita a afirmação de um significado que transcende a situação ontológica e singular, as possibilidades cognitivas razoáveis do estado-de-ser, numa elucubração teleológica, no caso um “teísmo redentor e sobrenaturalista”, uma forma de explicitação ou racionalização assentada em dogmas e interpretações ingênuas das coisas da imaginação; terreno instável onde se pretende justificar uma ética normativa combinante com uma temática fundadora societária e civilizacional.
Racionalizado e instrumentado em argumentos catequistas, encenado em ritos, o parecer metafísico, inicialmente enraizado em sentimentos e respostas estéticas sensíveis frente ao processo existencial, transforma-se em uma ferramenta  psicopedagógica ofuscante, um atalho em direção a uma forma teológica predefinida, construindo explicitações a priori e que poupam os viventes das inquietudes existencialistas mais intensas, contornando as dores e aporias da conscientização a favor de esperanças vãs  e fatuidades. Como a luta da borboleta ainda no casulo é fundamental ao desenvolvimento e robusteza das asas, a consciência poupada das cogitações profundas que acontecem à luz da razão natural, não se expande até as constelações que se devem visitar para apreciar a si mesmo, à  natureza e  aos  deuses.
A estrutura narrativa, locutória, perlocutória e ortolocutória do mito batismal, ou fundador, sua subjacente perspectiva metafísica, os arranjos urbanos e políticos diacrônicos e sincrônicos referentes e sintônicos a essa tradição doutrinária, arraigam e condicionam uma concepção inaugural e determinante de origem e identidade, perfazendo a personalidade do indivíduo e modulando as qualidades das suas contextualizações, potenciais e expectativas, assim como estipulando propósitos sistêmicos e finalidades para o processo existencial – normatizando-se dessa forma o sentido das buscas, realizações e problematizações, o leque e a natureza geral dos deveres e direitos, dos tabus, sofrimentos e prazeres. Através da perspectiva metafísica, suas expressividades arquetípicas, míticas, doutrinárias, linguísticas, elaborações gnosiológicas e psicopedagógicas decorrentes e referentes, explicita-se a “episteme fundamental”, ou inaugural, das expressividades societárias, necessariamente condicionadas  na “polis ” seus enquadramentos nacionais e civilizatórios.
As grandes epistemes cultuadas das civilizações possuem embasamento metafísico e teleológico e encontram corroborações nos paradigmas societários correlatos, primários e secundários: as formas políticas e comportamentais mais imediatas; as modulações da sensibilidade, dos humores e afetos; as formas reflexivas, científicas e cientificistas, de cunhos metodológicos e epistemológicos. Os ordenamentos  políticos, arquiteturais, societários, os direitos e deveres, valores fundamentais, as etiquetas, são diretamente condicionados em pareceres metafísicos e elaborações míticas. A explicitação mítica referente à origem, à  natureza e à  identidade do estado-de-ser, determina a estrutura operante do psiquismo e modula os potenciais do existente nos seus aspectos afetivos, posturas e posicionamentos gnosiológicos e epistemológicos, assim como os valores fundamentais, respeitos e desrespeitos, atribuídos a si mesmo e aos seus pares; a ética e a política. Em outros termos a arquitetura política, societária e urbanística da cidade é sintônica, proporcional e paralela à natureza psíquica, afetiva e gnosiológica do estado-de-ser, por sua vez condicionada através de uma perspectiva metafísica e narrativa mítica tributária de uma apreciação de valor – que seja escolhida de primeira mão ao abraçar os mistérios existenciais como se abraça um ser amado, ou cultuada nos ideais e decursos da tradição. A episteme e os paradigmas secundários que estacam as sociedades se revelam e denotam nas expressividades ortolocutórias da polis.
Na cultura dominante, hoje globalizada, de enraizamentos históricos masdeístas e abraâmicos (nota 3), o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (nota 4)  é o núcleo metafísico do mito e dogma da salvação redentora querendo explicitar o surgimento do Cosmos, de todos os seres, como criações objetivadas, teologicamente operadas por um sujeito transcendente, um “Théo” radicalmente separado e incluso numa realidade sobrenatural; nesse mistério, a entrada em existência dos indivíduos criados é considerada intencional sendo o objetivo e propósito  da existência postulado como uma redenção e retorno a uma situação espiritual ou essencial antes desafiada. Não receber, frontalmente e antes da idade dita da razão, a marca batismal e ritual do mito fundador num sacramento individual não impede de sofrer os efeitos gerais e ortolocutórios dos processos societários superestratificadores, usos e costumes onde o conteúdo e a forma do mito assentam como cultos tradicionais e instituidores. Aceitar o dogma da salvação teísta, visionar-se e imaginar-se hipoteticamente apriorístico ao cosmos, objetificado e metido num corpo por acidente ou necessidade redentora – como purgar impurezas originais – sem um reconhecimento imediato e sensato dessas justificativas esdrúxulas, conota um status quo existencial desprivado da sensatez necessária ao reconhecimento da sua verdadeira natureza, isto é, ignorante de si mesmo, destituído de intuição espiritual.
Cogitar-se, de acordo com a mitificação introjetada sem exames, como indivíduo pecaminoso, criado em contexto radicalmente provisório por um deus ignoto, afastado e incompreensível, equaciona um psiquismo profundamente dissociado e adulterado, onde o pensamento abstrato mais criativo, simbolizado como a esfera mítica de um divino criador, se estrutura como uma extrapolação psíquica hipotética que desintegra a identidade mais sensata evocando-se, de um lado, espíritos sobrenaturais e, do outro, corpos e inteligências subalternas como produtos ou mercadorias sacrificiais – nesse desequilíbrio e insanidade, prevalecem as formas e hábitos estruturantes da episteme geral do “sujeito neutral”, dissociado e lançado num mundo e natureza objetificados.

DO TEÍSMO REDENTOR AO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR 

PROPOSIÇÕES DERIVADAS

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO TEÍSMO REDENTOR
Desgosto, Desequilíbrio, Ignorância, Desgraça , Prepotência

Desgosto

Um parecer existencial eventual que desqualifica o valor da existência ao enfatizar sofrimentos muitas vezes societários, logo, criados e desnecessários, induz, por generalização simples um desgosto reativo frente à totalidade, desafiando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Desequilíbrio

A existência dada a ser passa a ser compreendida como uma esfera ilusória, facultativa e desnecessária, sendo o reino das hipóteses elevado a uma valência realística absoluta. Submetido a essa introjeção inaugural através de ritos batismais ou por contágio  geral, num processo de sintonização cognitiva ou memético, o intelecto se categoriza por dicotomia nos modos kantianos e a existência deixa de ser reconhecida como aventura cocriativa  e graciosa como atualmente compreendida  à luz dos ensinos da escola cognitiva dita de Santiago, para se tornar um determinismo assentado em princípios teleológicos apriorísticos e hipotéticos; incorporado os ritos da religiosidade salvatéria, o sujeito imagina ter sido lançado ao mundo por acidente, como forma ou objeto eventualmente criado, numa relação, de alguma forma, dispensável ou, potencialmente, desnecessária. Nessa ideia teológica  teísta,  redentora e salvacionista, as imagens literárias e pareceres racionalistas enraizados na escolástica superam em veracidade a experiência  e visão imediata do real. A retração do saber e inteligência sensível em hipóteses racionalistas encobre o acesso à via estética de consecução e realização mística, promove  a predominância do eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e induz a instauração de uma configuração existencial idealística onde existir, de evento primário de ordem necessário e de fato, passa a ser imaginado acidental e procedente de servidões e objetificações reveladas por especialistas, sejam profetas ou seus escribas sacerdotes, e escrituras tradicionais.
O equacionamento mítico dualista referente ao mito teísta da salvação redentora, a introjeção da perspectiva metafísica correspondente e configuração consequente do intelecto frente à barreira kantiana, instala e confirma no psiquismo a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica ignorante e fracionada típica da psicanálise  freudiana, que, agregada à superestratificação teológica do intelecto, estrutura um modo de ser humano irresponsável e subconsciente, onde se destaca  uma “elite” dotada do poder de transmitir esses ritos, mitos e orientações, imolando-se a criatividade dos indivíduos subalternos a um poder que bane e constrange, exigindo obediência e sacrifício, originando o sectarismo religioso e o partidarismo estatal apesar das evoluções laicalísticas.

Ignorância

A substituição da busca filosófica por um dogma suprime, por abortamento religioso, a busca do significado da existência como exercitamento individual e necessário ao justo amadurecimento do homo sapiente,  desfavorecendo o afloramento da sabedoria. A catequese teísta, oprimindo o exercício da apreciação pessoal e do bom senso, afirma um plano improvável, sobrenaturalista, hierarquizando-se o poder criador que se imagina reservado a uma esfera inalcançável ao indivíduo comum existindo no status dado pela natureza.
Nesse contexto repressor, o parecer estético fundamental da primeira inteligência (o intelecto sensível)  é  desconsiderado; não se reconhece o gosto pleno da existência, inibindo o justo desabrochar da sabedoria, desconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”, não se reconhece que a existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso e dotado de bom gosto existencial, de saber  inato, ou conato. A parca investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto pleno da existência reduz o conhecimento das relações inatas e pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – desfocando-se a exercitação dos gostos e sabores aos  redores de utilidades marginais, caprichos.

Desgraça

O desconhecimento dos potenciais fundamentais da inteligência sensível reduz o justo exercício da busca filosófica a uma composição lógica de caráter sistêmico, mas hipotética.  O que deveria ser um conhecimento imediato com teor estético e indubitável, passa a ser uma elucubração racional, de cunho idealístico, induzido por educação normativa. As visões e ideias dos profetas tendem  a substituir o que deveria ser produto natural da razão sensível; a elevação da norma e da visão alheia no horizonte  do saber próprio se acompanha de uma grave  atrofia da faculdade estética, impedindo a descoberta e experiência de que os pareceres filosóficos enraízam em pareceres estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos, que perdem a sua primazia como fonte de saberes a favor das elucubrações dos iluminados, aumentando a credulidade e minusvalia  referente à “luz natural da razão” e ao fundamento essencial da inteligência sensível.
Uma grave ignorância filosófica agregada a uma credulidade fideísta , somada a uma desprivação  de intuição reveladora, instala uma profunda minusvalia existencial e carência de confiança no bom senso e razão imediata, uma escassez de saber. A ignorância da via filosófica impede de reconhecer e cultuar o respeito ao não saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são induzidas a serem reconhecidas como realidades, instalando diversos graus de distorções perceptivas e de  entendimentos, fomentando potenciais  psicopatológicos com graves repercussões societárias. Ao introjetar o mito teísta da salvação redentora  que coloca além dos potenciais da inteligência natural a realização mística da unidade e do numinoso, perde-se o contato e o  sentimento unitário, o saber místico da unidade, o saber existencial de totalidade.

Prepotência

Por decorrência, o dogmatismo religioso teísta e salvacionista impede a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, se comunicar e inter-relacionar  em referência a assuntos cruciais e íntimos, ligados à busca de razões fundamentais e ao exercício das escolhas fundamentais e de  poder.

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR
Amor, Harmonia, Sabedoria, Graça, Prudência

Amor

Um parecer existencial feliz qualifica o valor da existência ao enfatizar o belo, o bom e o bem; induzindo por generalização simples um reconhecimento e bem-estar frente à totalidade do dado-a-ser, afirmando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Harmonia

Na cosmovisão panteísta a existência dada a ser passa a ser compreendida como necessária,  valência absoluta e realista; a natureza fenomênica cosmo-existencial supera em veracidade o reino das hipóteses idealistas. A contemplação da experiência e da natureza serve de fonte inspiradora insubstituível. Num processo de sintonização cognitiva ou memética, o intelecto se categoriza autopoieticamente, a existência é  reconhecida como uma aventura cocriativa e graciosa. Perfeitamente integrado, o sujeito imagina ser cosmos, numa relação, de alguma forma, indispensável. O exercício do saber e inteligência sensível nas apreciações imediatas da realidade possibilita o acesso à via estética de consecução e realização mística, promovendo a predominância do eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, induzindo a uma configuração qualificada, sensível e razoável, onde existir consciente revela ser um evento primário de ordem, necessário e de fatos.
O equacionamento referente ao mito universal do eterno retorno é a forma inaugural da estruturação mítica monista; a introjeção da perspectiva metafísica correspondente, cosmo-existencial, instala e confirma a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica sapiente, que agrega à realização mística do intelecto um modo de ser humano maduro, onde se destaca  a tolerância, o respeito, a dialogicidade e a capacidade de encontrar em si mesmo os sentidos mais belos, profundos.

Sabedoria

O enaltecimento da via filosófica estimula o exercício existencial no sentido de favorecer o justo amadurecimento do homo sapiente,  o afloramento da sabedoria. A doutrina panteísta afirma um plano fenomênico, naturalista, onde o mito se revela nas próprias visões que superam as narrativas tradicionais e escrituras, consagrando a essência do fenômeno como realidade existindo no status quo dado pela natureza e acessível a todos os indivíduos dedicados. Nesse contexto libertário, o parecer estético fundamental da primeira inteligência passa a ser plenamente considerado; a intuição impera como forma diretiva e oriental, reconhece-se o gosto pleno da existência, estimulando o justo desabrochar da sabedoria, reconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”. A existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso de saber inato, ou conato e dotado de bom gosto existencial. A investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto e saber pleno da existência amplia o conhecimento inato das relações pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – a sabedoria impera.

Graça

O reconhecimento pleno dos potenciais fundamentais da inteligência sensível induz ao justo exercício da busca filosófica onde a intuição estética suporta uma visão unitária da realidade. O conhecimento imediato da realidade, com teor estético e indubitável, passa a ser a fonte que orienta em busca do saber. As visões e ideias atuais dos buscadores, produto natural da razão sensível elevam a inspiração própria aos horizontes do saber. Reconhece-se que a descoberta e  a  experiência dos pareceres filosóficos enraízam em pareceres  estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos; aumentando a sabedoria referente à luz natural da razão que é o fundamento essencial da inteligência sensível. O conhecimento filosófico fortalece à intuição, instalando um profundo valor existencial, uma confiança no bom senso e razão imediata. O respeito à via filosófica permite reconhecer e cultuar os limites do saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são reconhecidas como tais, sustentando uma magna lucidez e entendimento, fomentando potenciais esclarecedores, felizes e integradoras repercussões societárias.
Ao introjetar o mito panteísta do eterno  retorno e da celebração existencial coloca-se a realização mística da unidade e do numinoso ao alcanço dos potenciais da inteligência natural, sustentando o contato com o saber místico da unidade.

Prudência

O discurso panteísta e libertário promulga a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, comunicar-se e inter-relacionar-se em referência a assuntos cruciais, à busca de razões fundamentais, ao exercício das escolhas fundamentais e do poder.

REABILITANDO DESCARTES E DENUNCIANDO IMPOSTURAS

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René Descartes sabia o que fazia e o que dizer para não padecer o destino de Giordano Bruno; ele pensava no que dizia e não dizia tudo o que pensava, mas levava quem podia a pensar e dizer o que ele poderia ter dito em circunstâncias mais seguras e aprazíveis. De acordo com o cronista, escreveu a quem tinha plena confiança e mandou  lapidar na sua sepultura a frase do poeta Ovídio: “Bene vixit qui bene latuit” – Bem viveu quem bem se escondeu.

Na investigação dessa grande crise de valores fala-se muito em “paradigmas científicos inadequados”, evocando um erro dito “ocidental”, em referência  à cultura que produz cientistas. Certamente, o paradigma do sujeito dissociado e neutral predomina na formação dita “cultura ocidental” em função da atual locação do poder econômico e político, da sociocracia que se beneficia na sustentação dessa postura existencial onde os indivíduos se tratam mutuamente como recursos, como maior eficiência de acordo com o poder político e econômico que possuem. Mas a conotação “episteme mor da cultura ocidental” referente a esse modo epistemológico dicotômico de compreender, eixo onde se separam “sujeito” de “objeto”, não descreve o processo de dominação e os fatores antropológicos e metafísicos ultimamente responsáveis por esse status grave de crise e desacerto onde estamos mergulhados.
Um exame mais atento demonstra que as principais tendências epistêmicas apontando perspectivas antagônicas, holísticas ou sectárias, ocorrem em todos os azimutes, tanto no oriente quanto no ocidente, no hemisfério austral ou boreal. A humanidade experimenta seus destinos de forma variegada sem coligar formas culturais rígidas de acordo com longitudes e latitudes. Os filósofos da Jônia, os pré-socráticos, as formas mais antigas do taoísmo, diversas agremiações indígenas, o cacique de Seattle, poetas e ensaístas como John Burroughs, o naturalista transcendentalista Henry Thoreau, Goethe, William Black, figuras complexas como os místicos Francisco de Assis, Mestre Eckhart, filósofos e pensadores como Étienne de La Boétie, inúmeros outros exemplos, todos contribuem na construção dos grandes paradigmas. Os pré-socráticos são considerados filósofos basilares da cultura ocidental embora locados na Ásia Menor; a doutrina da Igreja Católica e Romana tem suas raízes mais profundas fincadas na atual Turquia, lugar onde foi pensada. O maniqueísmo pérsico que irrompe vindo do Oriente para desafiar a filosofia grega pré-socrática na invasão de Cirus II fundamenta, junto com o judaísmo abraâmico, a conceituação metafísica que ancora e ordena os paradigmas de uma cultura hoje globalizada: evidente, as locações geográficas onde enraízam as ideias, as geopolíticas, não apontam a origem da crise que não se coordena com latitudes ou longitudes, mas com intuições e decursos metafísicos que brotam no coração humano. Se não pode ser delimitada através do uso de GPS, tampouco a grande crise pode reduzir-se a um mero cientificismo, um problema epistemológico; trata-se de um abalo mais profundo, locado nas raízes da civilização.
Numa medida inversa, a crise é com frequência descrita como “carência de espiritualidade; materialismo excessivo”; tais descrições, imprecisas e periféricas, desfocam a realidade e escondem a natureza mais interior e humana dessa crise existencial. Autores renomados como F. Capra  em “A teia da vida”, Cultrix, 2006, não hesitam, erroneamente,  em  apontar R. Descartes como a chave do castelo da ilusão, junto com Newton! Eles seriam os vilões e criadores dos nossos problemas com seus modos experimentais de examinar a natureza como um mecanismo e de acordo com as regras da geometria e da matemática. F. Capra, ecoando outros autores e os adeptos da dita “teologia da libertação”, explicita que antes da alvorada da modernidade, clarinada por Descartes, o Cosmos era entendido como estrutura repleta  de “espírito”, que a visão do mundo era mais espiritualista, que precisamos  rever os nossos conceitos para reconhecer a relação da consciência, do mundo e do divino. Certamente, mas esse autor e outros muitos não percebem que não é, exatamente, precisamente, de “visão espiritual geral” que necessitamos para melhorar a nossa perspectiva existencial; religiões abundam aos milhares – mais de 50% da população se declara fiel às religiosidade abraâmicas e aproximadamente 20% a outras formas de cultos! Precisamos de mais lucidez e razão no campo da consciência, como justamente explicitado por Descartes, para compreender que é a “qualidade da espiritualidade”, ou do eixo de perspectiva metafísica que aceitamos como impressão batismal e descritor profundo da nossa natureza que define e determina a episteme bailar nas mensuras da qual somos fadados a conviver; que essa perceptiva é, necessariamente, de cunho teológico, espiritual – logo, vivemos impreterivelmente imersos em conceitos teológicos como peixes em água. O que precisa entender-se com mais clareza é que os paradigmas societários secundários, os epistemológicos vigentes inclusivos, são tributários de uma perspectiva metafísica antecedente e central que condiciona a forma de compreender-se e pensar-se; a episteme central é o modelo gnosiológico que explicita a nossa natureza, origem e destino existencial, as nossas buscas e devoções. Não há porque desviar a atenção do foco essencial: a epistemologia do sujeito neural não é o centro da crise como quer sugerir os dito “teólogos da libertação” e Fritjof Capra no seu livro “A teia da vida”, parecendo querer “blindar” ou poupar os teólogos e as tradições, o modus epistemológico é apenas um dos braços e paradigmas periféricos decorrentes de uma causa e perspectiva central que tampouco é uma “carência geral de espiritualidade”, ou religiosidade: como sabia Descartes, a crise refere a uma carência de justa e razoável perspectiva metafísica, carência inicialmente tributária de uma profunda ignorância de natureza eclesial, de desamor, sede de poder, ingratidão e escassez de virtude e harmonia. Tudo isso genialmente corrigido pelo mestre inspirador e direcionador de Bento de Espinosa, René Descartes, que com prudência e coragem reintroduziu o uso e acuidade da razão crítica necessária nos arcanos da filosofia, desta forma desmoronando a ignorância da igreja medieval e abalando a sua espiritualidade encastelada e hedionda levando o filósofo de Haia a afirmar deus como Natureza. Como explicita Descartes, é no centro da clivagem mais profunda, da meditação mais intensa, no mistério locado entre a natureza “cogitans” e “extensa” que vigora no centro do coração de cada humano qualificado e pensante, que reside o mistério que rege as substâncias ou os atributos fundadores: de acordo com suas escolhas e circunstâncias naturais e políticas, que se reformulam, a conexão mística que ajunta os atributos poderá ser compreendida como uma relação acidental e conflituosa, motivada  pelo erro, engano e ilusão, exigindo sacrifício e salvação, ou ser reconhecida como uma comunhão harmoniosa e alquímica repleta de mistérios profundos. Entender a relação entre a consciência e a matéria como eventual, acidental e facultativa, gera o modo dicotômico teísta, redentor, salvacionista e cientificista de ser que vivemos nesses tempos de indignidade, gera a crise dos que se enxergam como banidos, devendo obedecer aos que se iludem como veículos privilegiados, sejam sacerdotes ou cientistas da doutrina verdadeira; eis o foco da crise! A chave da cura – forjada por Descartes – e possuir um método que permite uma apreciação existencial fundamental e singular da relação cosmo-existenical no enraizamento mais profundo, metafísico, do estado-de-ser! Qual a sua relação com o divino em si, o divino do seu interior? A crise se cura reconhecendo-se legítimo portador do mistério, interface criativa e autopoiética, devendo aprender a pensar-se com dignidade, capaz de afirmar a virtude essencial, cuja primeira linha é amar a si mesmo e à vida, agradecer ao  destino, vendo no outro, com humildade e respeito, o lado complementário, igualmente valente e necessário de si mesmo. Compreende-se que o divino mistério reside entre as marcas do próprio coração, que não necessitamos de outra salvação além de salvar-se da ignorância dos que se imaginam apartados e neutrais; como pensar que ínfero e banido possa ser um fundamento psicopedagógico, ético e válido, de adequação e bondade? Esses novos modos e humores de se reconhecerem não são teístas redentores nem salvacionistas, são panteístas, alegres, virtuosos e celebrantes com certeza; o panteísmo é a forma espiritual dos que reconhecem que a liberdade e a honra não se esperam nem se pedem, se afirmam e conquistam: humanidade, sê o que bem quiser ser no mundo! Refina a tua mais justa razão: o xadrez metafísico foi revelado, a escolha é tua, faz a hora acontecer!

1) Os termos superestratificadores, superestratificação – a instalação hereditária da iniquidade – é muito bem definido em Rüstow Alexander; Freedom and domination; Princeton University Press; 1980 – Introduction. Referem-se a situações sociais hierárquicas e polarizadas típicas dos estados-nacionais; demonstradas entre grupos diferenciados quanto ao seu poder político, prestígio social e acervo econômico; originadas em procedimentos históricos de invasão e dominação, i.e., de posições vantajosas resultado de conquistas e subjugações ancestrais transformadas  em direitos adquiridos e hereditários. 

2) No caso da nossa sociedade, onde o senso comum indica imperar a injustiça, a guerra, a trapaça, onde os discursos políticos – desenhados nos “sigilos dos conclaves partidários”- não correspondem ao que se faz e realiza; onde reina a insatisfação, os problemas sociais, e onde a criminalidade abunda: é evidente que os discursos não acompanham as decorrências. Afinal se pudéssemos fazer o resumo das décadas mais recentes de discursos políticos e econômicos proferidos no planeta em todos os azimutes, é sensato imaginar que esse imenso “abstract” não informaria coisas concordantes com os fatos. Não, em hipótese alguma: o”grande abstract” diria tudo ao contrário – pregaria um forte aviso de paz, prosperidade, sinceridade, justiça igualdade, fraternidade, liberdade e amor – invocaria luz em nome de Deus! Seria a essência da melhor filosofia humanista junto com a maior pieguice! Ora, postulando – até prova contrária – não haver gênios malignos torcendo tudo ao avesso; tampouco ser a nossa ciência desastrada a ponto de jamais resultar em nada funcional; nem as nossas urnas e pleitos serem sistematicamente falsificados: resta supor que a sinceridade e simetria forçosamente pressupostas por Habermas não operam. Opera um Ato de Fala que denomino “ortolocutório” em que a verdade que subjaze aos atos de fala é a virtude que se cultiva no interior em si – abundância  feliz ou carência infeliz de Mythos, Logos e Ethos. 

3) As três principais religiões abraâmicas são, em ordem cronológica de fundação, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. No início do século XXI havia 3,8 bilhões de seguidores das três principais religiões abraâmicas e estima-se que 54% da população mundial se considere adepta a uma  dessas religiões, cerca  de 30%  de outras religiões e 16% é não religiosa.

4) As perspectivas metafísicas ditas transcendental e transcendente por culturistas como Reales e Paim não são diversas nem duas perspectivas metafísicas, mas apenas um eixo de perspectiva adequadamente denominado de “eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental”. Um outro eixo de perspectiva metafísica existe ao redor das muralhas da poderosa Roma que diria Virgílio, trata-se do “eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial” onde o vivente se associa ao cosmos a que pertence radicalmente.

Da prática teológica panteísta

Pan

Régis Alain Barbier 

Na perspectiva panteísta compreende-se que inspirador, ou numinoso (do latino Numen: deus ou divino) nos termos de Rudolf Otto (1869-1937), é a relação impreterível da consciência e da natureza, dado-a-ser radical, alfa e ômega. Apesar de ser desconsiderada no processo civilizatório hoje dominante, essa relação onde se afirmam mutualmente a relação da consciência e do mundo como fundamento cosmo-existencial, é um fenômeno sincrônico e imutável, uma realidade absoluta, o ordenamento primal de todos os sentidos e propósitos.

A realização desse “rebis” a sabor do exercício continuado de abstrações líricas, estéticas e racionais revela os antagonismos como pontos diametrais e integrados de uma mesma e idêntica natureza; como os lados aparentes de uma Fita de Möbius, as duas substâncias ou os dois atributos de Descartes e Espinosa, o extensivo domínio do metrificável e o cogitativo domínio do apreciável, respectivamente, demonstram-se coligados em um fenômeno unitário onde a dualidade colapsa num paradoxo que paralisa as discriminações da inteligibilidade, configurando-se um insight espantoso e ataráxico, levando o probante a um silêncio reverente e uma plena compreensão desse ambíguo e socrático “nada sei”, marcando o que se pode denominar de iluminação ou despertar filosófico.

Essa realização, como um afeto, afirma-se através do exercício prudente da inteligência razoável e sensível; atenuando-se a ponto de alienar-se nos afazeres societários onde delimitações hipotéticas, evocando teorizações com valores de historicidades, extrapolam-se em distorções cognitivas, mas eventualmente, em momentos intensivos de busca, exacerbando-se frente aos decursos existenciais, revelando-se a pungência mística dos momentos e dos arquétipos estruturais, origem e identidade eternal do real.

O negrume místico da ambiguidade cosmo-existencial resguarda um não-saber impenetrável, o mistério inquietante do estado-de-ser que, embora insondável, não gera sinais alheios aos limites e potenciais da consciência; nada acontece fora da esfericidade e espiral cosmo-existencialista  aniquilando quaisquer pretensões salvatérias arbitradas em teleologias reveladas! Como uma dimensão supratemporal incluindo tudo o é, foi e será, o mistério unitário alvorece nesse despertar filosófico que se equaciona em fronteiras perenais, radicalmente transcendentes, mas sem separações ou exclusividades radicais.

Trata-se do redespertar de uma perspectiva metafísica pouco explicitada, raramente compartilhada, banida na civilização e tradição vigente, com desdobramentos gnosiológicos e psíquicos, consequências sociológicas, antropológicas e culturais, geradoras de praxes diversamente produtivas das que resultam dos ordenamentos batismais que vigoram junto às perspectivas associadas, políticas, científicas, cosmológicas, teleológicas ou escatológicas.

Iniciado na perspectiva cosmo-existencial, lugar onde a consciência entranhada com a existência configura um evento absoluto, uma malha impreterível dialogando desde sempre, reconhece-se que o campo da atuação científica onde o agente se imagina isolado, imutável e instalado dissociado num domínio paralelo, afirma e reforça narrativas e ideologias que ofuscam a realidade existencial mais acurada e profunda, autopoiética, radicalmente sincrônica e criativa do estado-de-ser, autor das suas visões e métodos, responsável pelos ordenamentos societários e políticos.

O mito do sujeito independente e neutral permite a construção de praxes e discursos relativísticos, capazes de explicitar funções, afirmar projetos e empreendimentos, gerar produtos que atendam aspectos objetivos e instrumentais da realidade desconsiderando importantes relações; mas torna-se evidente que o abuso e deslocamento da episteme científica, o cientificismo que transborda a metodologia fabril da ciência na pretensão de compreender a estrutura do real, desvirtua o estado-de-ser e aprofunda a dicotomia aparente e ilusória entre as coisas do sujeito e do objeto; ofusca a realidade da unidade paradoxal: essa ciência moderna que advoga a neutralidade e independência do sujeito não serve para filosofar em termos cosmo-existencialistas, carece de veracidade imediata, reporta a um credo e ato de fé instituído em mitos batismais e apriorismos teológicos e sacerdotais de tradições regionais.

Na visão cientificista, fisicalista, onde a consciência se entende como epifenômeno tardio do processo evolutivo, misticamente dissociado do real, o sujeito, como elaborador de razão e pensamentos neutrais, coordena melhor com a cosmologia teísta e salvacionista onde um deus imaginado separado cria o universo e seus espíritos bons ou descaídos em função de vontades e descontroles inerentes, apriorismos e projetos ignotos. Compreende-se que o paradigma metodológico da atividade científica ofusca, desconsidera e entra em dissintonia com a realização mística do panteísmo, lugar existencial onde o sujeito e o objeto acoplam-se e fundem-se em unidade inseparável.

Que sejam a teoria do Big-Bang, que atende os determinismos físico-químicos e as epistemologias racionalistas, ou, a teologia venerada pela tradição, narrando a criação em sete dias para a melhor satisfação das demandas de espíritos originalmente maculados, as cosmologias e metáforas científicas e teístas são similares nas suas capacidades de desvirtuar a natureza do estado-de-ser e deslocar a perene atualidade do mistério existencial e dos seus potenciais em desvios que deturpam a radicalidade e fecundidade do momento em hipóteses destituídas de substâncias. As cosmovisões cientificistas e teístas se ajuntam e complementam para promover uma tétrica objetificação e desintegração do estado-de-ser, da sua natureza e responsabilidade frente a um destino truncado e domado em vontades, tempos e determinismos alheios e constringentes, onde a vida supõe-se reduzida a algo acidental, contingente.

O panteísta aceita a utilidade relativa das idealidades científicas, mas renega o valor universal da metodologia científica que se deturpa em cientificismo, positivismo e teologia teísta; o filósofo para quem divino é a natureza concentra-se no seu próprio ponto de vista e apreciação onde se evidencia que a consciência coabita o mundo, absolutamente: a origem e identidade do estado-de-ser,  como atualidade perene, aporta e se realiza nesse presente momento, no poderoso e cambiante domínio de kairós. Portanto, existe uma cosmologia e ciência panteísta: trata-se de uma esfera criativa cujo centro é a atualidade com as sombras do presente-futuro e presente-passado, onde, até um ponto a ser conhecido e infinitamente comprovado, a realidade demonstra ser uma construção fusional de consciência e de formas, que dentro de potenciais a investigar, entrelaçam-se criativamente, de alguma maneira, plasmando a manifestação.

No teísmo, um “ser”, potencialmente puro ou purificável, imagina-se lançado ao mundo, advindo de um lugar ideal, de acordo com necessidades e destinos geralmente desonrosos, teleologias reveladas a outros, para cumprir deveres previamente delimitados e processos de libertação; no panteísmo, o estado-de-ser é dado, assenta na sua essência que com a melhor lucidez e sobriedade se revela em encontros místicos e arquetípicos que elevam o existente ao estatuto de coautor, em parte, responsável e modulador da sua experiência; as elaborações criativas que se estabelecem e se afirmam delineando desejos e aspirações em forma de diálogos, narrativas e pedidos, acontecem de modos diversos nas duas perspectivas, elaborando-se duas modalidades fundamentais de cultos e ritos, panteístas e teístas. São notórias as formas, ritos e cultos do teísmo, não merecendo maiores descrições nesse artigo dedicado ao panteísmo.

Não existe uma tradição escrita capaz de superar a atitude necessariamente vanguardista e proativa de estado-de-ser assentado no centro perenal, no tabernáculo da sua natureza. Os desejos, aspirações e possíveis necessidades do estado-de-ser modulam-se e monitorizam-se no escopo da própria sensibilidade e consciência, no arco intelectivo que ronda o mistério que é central por abranger o estado-de-ser nas suas magnas profundezas e perspectivas. Quando concentrado em ocupações profundas, o panteísta não busca uma salvação como a que se descreve no teísmo, mas anseia pelas virtudes que sustentam as demandas existenciais  com honra e adequação.

Percebendo a existência como um fato inquestionável, último, o filósofo panteísta busca fazer da experiência algo pleno, significando ao máximo e positivamente o processo vital; a sua intenção primeira é fortalecer a sua capacidade de aceitar e responder dignamente ao ato existencial, honrando a sua autonomia e escolhas. Não existe uma luta nesse processo, mas um diálogo em busca de aberturas criativas e maior espaço e domínio na afirmação de um credo de paz, serenidade e amor, no entendimento de que a natureza bem considerada e trabalhada proporciona um adequado, vibrante e feliz suporte existencial, um campo de liberdade, bom humor e harmonia.

Nas suas buscas o panteísta não abomina ou renega a atualidade nas suas estruturas e funções; entende-se que um melhor porvir só possa decorrer do presente; a oração e diálogo que se estabelecem com o sublime e seus potenciais é um processo criativo que se elabora buscando maior plenitude e felicidade a serem usufruídas no estado atual, ou nas efluências e decorrências; o que existe o é pela necessidade, dessa forma; é a partir desses elementos e modos que, quiçá, o melhor se revela e desponta nos horizontes do dado-a-ser.

As revelações que surgem são imagens instituídas em arquétipos que se coadunam às perspectivas metafísicas; os recursos que acontecem expressam um panteão onde o dado-a-ser natural se consagra, lugar onde a imaginação e fantasia encontram pleno e respeitador acolhimento; por isso musas visitantes se revelam como filhas do poder divino e da memória própria. O panteão se apresenta de todas as formas necessárias, sempre considerando e integrando a natureza humana, suas dúvidas e frentes construtivas, com acolhimento, fundamento do amor. A natureza possui complexidade e inteligência suficiente e necessária para que seja assim, basta querer e visionar bem.Tudo isso com um prazer buscando se satisfazer com o que se oferece, sempre agradecido. O processo é como um parto; espera-se que não seja doloroso ao ponto de exigir dos criadores esses gritos desesperados de abandonos dos crucificados. As narrativas, as imagens que acontecem, são como sonhos, potenciais e formas culturais que se afirmam para se consagrar como lendas, mitos, quiçá estabelecer novos cultos e rituais, tudo de acordo com a compreensão de que a consciência é do mundo que é para a consciência, numa espiral cosmo-existencial incontornável, estruturante, criativa, dolorosa ou prazerosa.

Você ao ler essas linhas, seja coautor do seu culto e panteão, escolha as suas próprias revelações, você, ser humano, é a fonte viva e original de todas as escrituras! Lembre-se, nunca estará destituído de opções. Existem duas posições basilares na vida, a daqueles que tentam se elevar ao estatuto de realizadores do seus destinos e a daqueles que são vítimas e pedintes; mudar de estatuto existencial e ânimo é possível, exercitar escolhas, ou não, configura uma decisão. A vida é uma aventura, coisas inimagináveis e imprevisíveis podem acontecer, manifestamos fragmentos de que é possível expressar; muitos, presos em mitos, envolvidos em narrativas, scripts ou deveres programados pelas famílias e culturas onde nascem, transformam as suas vidas em rotina.

O que acontece é possibilitado pelas incompletudes e insatisfações do estado existencial atual que, ótimo, não geraria brechas e eventuais aventuras dissonantes. Algumas pessoas, principalmente com veio artístico e humor proativo, possuem um lado aventureiro, até certo ponto destemido, inconformista; esse lado que denomino hiperconsciente é arrojado, muitas vezes toma a rédeas da carruagem sem que se perceba; é quando, acomodado na vertente existencial conformada, no baluarte do cotidiano, experimenta-se um certo receio, ansiedade e confusão com o surgimento dos novos rumos e tendências. Portanto existe uma liderança e um rumo nessas demandas, algo podendo não ser evidente no início dos processos.

Certamente, operar dentro da tradição cultural e enquadramentos típicos é como nadar num lago em vez de num riacho; é seguro, mas é limitado, fechado, previsível; as águas se turvam e poluem lentamente, a truta caprichosa e alegre que podemos ser começa a fenecer. Por isso, os que no coração abrigam a vocação dos heróis, aliados hiperconscientes a serviço da vida e da sua alquimia, atiçados pelas brechas e falhas que rastejam nos planos mais íntimos das rotinas, começam a operar mudanças e coisas inesperadas; um jogo arriscado como adentrar nas matas e sair em mar aberto com poucos instrumentos, sem mapas, confiando nas intuições, na vitalidade e clareza do caminho. Dizer e pensar o que não foi dito, observar o que não foi visto, precipita acontecimentos exigindo diálogos e desnudamentos.

Ora, a própria vida, desafiante, trágica, talvez impulsionada pelas tensões e desconfortos que operam nos pensamentos, palavras, atitudes, imaginações, fantasias, de acordo com a liderança mais arrojada que existe em nós, toma vieses diversos dos esperados; ou então destituída de ânimo pioneiro e vigor se submete ao peso da tradição e da rotina. Num segundo plano não agimos isolados nas nossas decisões, porque estamos sempre em relação, absorvendo informações, estímulos e conhecimentos que atuam sem necessariamente refletirem-se com clareza na consciência cotidiana. Agimos, muitas vezes, em função de desejos e impulsos que não se assumem por falta de segurança, apegos, inclusive motivados e treinados para satisfazer as necessidades e demandas dos próximos e expectativas culturais! Coisas e sentimentos não ditos se revelam através de sugestões, intuições, fantasias, tiradas imprevistas pronunciadas pelos próximos, parentes ou amigos, impressionam o psiquismo de uma maneira ou de outra, brincando, interferindo nas decisões e nos atos, influindo nas instâncias mais criativas e arrojadas que vicejam em nós mesmos.

Certas virtudes e qualidades são certamente importantes nessas aventuras, como acreditar e ter confiança em si, pensar a vida como uma obra talvez difícil, mas produtiva e positiva, achar que a voz do coração, locada entre as vozes da razão e das emoções intempestivas, deve ser ouvida com maior atenção. E útil e facilita alimentar um ânimo entusiástico; confiar na sua relação com a vida, na sua estrela; chegam sinais e meios para que todos encontrem os seus destinos finais vencendo barreiras; uma vez superadas as dificuldades, revelam-se os novos horizontes; o que parece ser uma catástrofe pode ser a curva final antes da vitória.

Procurando talhar a vida em primeira mão, dotado de lucidez, confia-se que as elaborações vitais são incessantes, que é sempre cedo; construindo entendimentos e novas teologias, atiçando a cosmologia, elaborando os seus próprios conceitos de divino, opera-se  na estrutura da vida sem receio nem pavor. Devolve-se à cultura o que não faz sentido e não se aceita, criam-se novas crenças, normas e espaços psíquicos; sempre confiante no destino que não é egoísta ou mesquinho; o que é justo e bom para nós só poderá ser igualmente positivo para os nossos próximos e amigos, mesmo que no início não se apresente dessa forma. Só se pode elaborar uma obra sublime renegando os deuses das rotinas culturais, mas, justamente, honrando os deuses e deusas da vitalidade original e dos princípios verdadeiros.

Natureza e importância dos arquétipos para o panteísmo

Elucidações místicas, estruturais, funcionais e modais;
Orientações metafísicas dos arquétipos.

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Régis Alain Barbier

(…)

Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se! 

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.

(…)

Demogorgon – Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterônimo de Fernando Pessoa

Do estado-de-ser como símbolo cósmico

A justa consideração e reconhecimento dos arquétipos implica a superação das carências de focos e ilusões idealísticas da nossa cultura em que habitantes ilhados no âmbito das suas subjetividades refletem imagens e conceitos imaginando o mundo e os sujeitos probantes tributários de distinções radicais, absolutamente objetivas e separáveis; o que é improvável, hipotético e abusivo frente ao que se experiencia e possa ser compreendido, conhecido ou intuído.

 O primeiro ponto devendo compreender-se para melhor apreciar o conceito, apesar das hesitantes teorias ontológicas de Jung, é que o estado-de-ser  que somos como totalidade, indivíduos e coletividades, é simbólico por natureza; que um arquétipo é  uma expressão radical de um estado-de-ser simbólico. Um símbolo, por definição, agrega ou coliga um significado expresso com conceitos ou imagens a objetos ou formas que se percebem; um olho pode simbolizar a visão ou um dos atributos do divino, um disco pode simbolizar um prato ou um planeta. O estado-de-ser, como ser humano, é um símbolo porque  conjuga os atributos e os modos de todos os corpos e de todos os conceitos; a humanidade é, essencialmente, uma estrutura simbólica por agregar a totalidade do que é concreto e prático à totalidade do que é figurado e metafórico numa experiência vital, necessária  e inquebrantável, até provar em contrário.

Sendo a existência condição para acontecer alguma forma de saber ou ciência, a relação existencial “consciência-mundo”, “mente-matéria”, é absoluta e sincrônica a todos os potenciais de conhecimento e indagações, logo, infinda enquanto existir algo para ser evocado ou experienciado. Essa conjuntura – em Espinosa a correlação entre os atributos essenciais extens e cogitans – realiza a unidade paradoxal e fundamental, o núcleo ao redor da qual os arquétipos se ancoram e se desvelam na sua multiplicidade de modos, esferas, níveis ou holons (emprestando um dos vocábulos de A. Koestler).

Sendo a natureza do estado-de-ser definida nessa estruturação fenomênica radical (agregação de mundo e consciência onde a consciência é do mundo e o mundo da consciência), os arquétipos desvelam a perenidade e identidade original desse dado-a-ser, integrando na mesma trama as variedades modais e formais, as riquezas culturais, o universo dos mitos e das lendas. Mitos ou lendas oriundos de historicidades específicas e regionais possuem valências universais quando destacam as estruturações e funcionalidades  arquetípicas nas narrativas.

Os desvelamentos arquetípicos – místicos, estruturais, funcionais, existenciais e modais – se apresentam entre as margens hipotéticas e justapostas das relações unitárias e paradoxais que acontecem nos vários aspetos do estado-de-ser, lugar existencial onde essas composições binômicas se coligam e desdobram em harmonia sejam como as “res” ou atributos cogitans e extans dos modernos; o arco estendido entre as percepções e os significados; a interface entre o intelecto sensível e racional; a superposição dos eventos da intuição imediata e das visões da cultura e da tradição, entre outras. Bem compreendidos os fundamentos místicos, estruturais, funcionais e modais dos arquétipos, compreende-se a multiplicidade e complexidades das suas formas, nuances e apresentações.

Essa qualidade ambígua do estado-de-ser – ou duplicidade – se evidencia de alguma forma em todas as narrativas e expressividades arquetípicas nucleadas ao redor dos mitos fundamentais, quer  seja o mito da salvação ou do eterno retorno, como o de Sísifo, onde oposições diametrais,  mas integradas,   pontuam valências espelhadas na mesma esfera.

Na teologia panteísta transmutativista,  o arquétipo em si, apresenta-se como substância espiritual propriamente dita; trata-se do desvelamento formal da essência ou identidade profunda do estado-de-ser. Na teologia teísta e salvacionista,  o arquétipo representa e revela uma esfera espiritual imaginada sobrenatural, transcendente; trata-se de uma imagem que retrataria a coabitação acidental do espírito e do mundo.

Arquetipicidade  fundamental 

O arquétipo se revela formado na interseção de múltiplos pontos vetoriais, como um arco-íris na luz do sol e umidade do ar, na curvatura da terra e posição do observador. As justaposições de duplas paradoxais ou de pares que se identificam nas suas divergências recíprocas – mundo-consciência; percepção-significado; pensamento-sentimento; intuição-cultura; consciência-inconsciência, etc. – incidem em todos os declives e aspetos do estado-de-ser, nos diversos níveis e esferas existenciais, fornecendo a trama unitária e universal onde se revelam as coincidências da unicidade paradoxal, terreno criativo primordial de onde emergem a multiplicidade dos arquétipos.

Arquetípico místico: configuração universal que se apresenta e visibiliza na equidistância das reduções ou polarizações psíquicas e científicas da realidade fenomênica e onde se explicitam as relações curativas que se estabelecem entre o “sujeito indagativo” e o “objeto inerte” e demais duplas estruturais e funcionais, individuais e societárias, típicas do fenômeno existencial. Estabelece-se uma coordenada ponderada onde se resolvem os conflitos, medos e apegos, realizando-se ou demonstrando-se um terceiro ponto formando uma trindade, configurando-se a dimensão mística primordial do arquétipo – um ângulo como um terceiro ponto mais elevado, um olho que supera e supervisiona, os demais ângulos integrando a dupla paradoxal enlaçada num processo continuado, monístico.

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Arquétipo estrutural:  o “Rebis” alquímico, representação poética e imaginativa do estado-de-ser primal e paradoxal, é uma expressão criativa e potente da estrutura simbólica universal; uma configuração de primeira linha definível como arquétipo estrutural. Pares complementários integrando eixos funcionais como a Lua e o Sol, o Dia e a Noite, reportam, igualmente, a essa valência fundamental.

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Arquétipo funcional: a dinâmica cósmica, processo gerador de manifestações e expressões reciclando modos e formas em fases transmutativas contínuas e autopoiéticas, expressa, igualmente, uma configuração arquetípica fundamental, um arquétipo funcional, que se elucida através de símbolos como o Ouroboro e o Tao.

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Arquétipo existencial: a ambivalência do momento feito de eventos que se manifestam no ponto vetorial determinado na interseção dos eixos arquetípicos de primeira linha – eixo estrutural da polarização complementária e unidade paradoxal abraçado ao eixo funcional e primevo das transmutações – pode ser expressa como uma rosa com espinhos; a junção da beleza e da dinâmica dos modos e das formas em constantes processos de crescimentos e transformações, uma intersecção configurando o que se pode denominar de arquétipo existencial.

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Um arquétipo pode ser simples, minimalista, como as formas estruturais e funcionais, ou pode ser composto, como o arquétipo existencial  simbolizado pela rosa. Uma  figura arquetípica complexa agrega arquétipos diversos e de múltiplas valências.

Do intelecto sensível como orientador dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos

É a apreciação fundamental e intuitiva da existência como estruturação cósmica, coligada ao sentimento existencial correspondente – seja a empatia radical típica do panteísmo, ou, o antagonismo dramático fundador do teísmo salvacionista – que modula a aspiração metafísica primordial inclinando à formação de esferas filosóficas e arquetípicas de valências civilizatórias. Os arquétipos místicos, estruturais e funcionais existem independentemente do sentimento e autoestima fundadores, contudo em formas e expressividades  distintas e diversamente orientadas; a qualidade do sentimento existencial – simpatia ou antipatia – frente ao que é, ao dado-a-ser, é que determina a orientação dos vetores arquetípicos.

Do ponto de vista da expressividade artística, em todos os tipos e apresentações, os elementos formais dos arquétipos e a complexidade das suas referências e interseções no âmbito da existencialidade testemunham a orientação dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos de acordo com o sentimento fundador frente ao dado-a-ser; quer seja de simpatia, concordância, ou de antipatia, discordância.

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Do Tao e da cidade: oposto é oposto, não é complemento

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Régis Alain Barbier

Elucidando pontos de vista epistemológicos, gnosiológicos, epistemes, relações com arquétipos e mitos, até ao altar da essência e do mistério, fronteira do “nada sei” socrático, é exercitar uma máxima liberdade e criatividade; trata-se de uma nova hermenêutica e praxe teológica de natureza panteística.

Quando se critica alguma religiosidade – dando a César  o que é de César e a Deus o que é de Deus – devido a uma notória carência de agenda teopolítica é comum receber justificativas parecendo evocar uma ordem suprema, algo como um tabu que não se deve julgar. Sugerem-se esotéricas perfeições, leis celestiais que influenciariam os áridos percursos da política; um status quo divinal acima do entendimento humano onde o mal das ditaduras seria paradoxalmente coligado às virtudes que animam os oásis do bem! Sugere-se que, por mais truculentos que sejam eventos políticos teriam os seus fundamentos e potenciais ancorados nestes esquisitos ordenamentos numa adequação necessária e de acordo com o karma, o destino ou as leis do Tao. Até onde podem ir esses conformismos? Longe demais, lembrando a passividade de algumas instituições religiosa convivendo com os regimes políticos mais rústicos, quiçá vendo nessas monstruosidades históricas expressões paradoxais de alguma adequação esotérica.

Não se deixando ofuscar por considerações dúbias, denota-se que algo dificulta o surgimento de uma sociedade livre, ponderada e pacífica. Serão os longos e demorados percalços da história necessários, trilhas ondulantes de eventos fadados a acontecer? Ou, simplesmente, o ser humano ainda não é dono da sabedoria necessária a uma construção societária digna à luz de ponderações filosóficas mais sensatas.

Em escritos naturalistas, ou taoísticos, são comuns asserções como ‘oposto é complemento’. O postulado, de uma forma ou outra, parece verdadeiro em relação a tudo o que pertence às coisas da natureza, ao que se  observa com o olhar ou episteme naturalista; descreve a estrutura profunda da existência que se constrói rompendo a unidade em lados e elementos diversos, mas oriundos da mesma trama. Mesmo com compreensões incompletas reconhecem-se e aceitam-se esses fenômenos: o que cresce um dia decresce; a lua cheia míngua; a água evapora e desce em chuva; o vale é o avesso da montanha; a função de uma construção é condicionada aos vazios que não se formalizam.

Mas o que é verdade nesse mundo natural pode ser inexato quando reportando ao lugar onde o ser humano reina especificamente como autor e criador da cidade e não apenas como elemento passivo da trama universal ou observador dissociado. Na ordem citadina, partidos diversos que lutam por domínio político não se estruturam e complementam como polaridades ou oposições naturais alinhadas no mesmo compasso transacional, tampouco evolvem paradoxalmente na mesma direção!

No reino da política os partidos divergentes tentam delimitar e afirmar suas oposições e distanciamentos; a desordem não se mescla para complementar a ordem em busca de equilíbrio, por sua vez, a ordem não progride aceitando complementos desordeiros. A ordem se burila se afastando da desordem, marcando oposições e claras distinções. Quando os partidos se misturam eles se aviltam e se reformulam antes de configurar novas coligações. Portanto, nesses termos humanistas – no escopo da cidade e da República, as construções humanas nidificadas entre vales e montanhas, na beira dos rios e dos mares em processos de ocupações gerenciados à luz de diversas miradas – relações e ideologias políticas, acontece que opostos são opostos e não se complementam; exemplificam eixos diversos e conflituosos. Quando deixam de se opor mutuamente para se aliar em novas identidades se configuram em conjunto avessos ao que é outro, reposicionando o estatuto opositivo em novas estranhezas, conflitos e formas antagônicas.

Quando a criatura se reconhece e se cogita ela deixa de ser apenas um elemento em tensão na natureza, transcende a imersão simples que é ser estado primordial, pré-histórico, para abraçar um estado-de-ser autoral e lúcido apto a afirmar: ‘eu sou o arquiteto da cidade!’. Nesse despertar a natureza humana evolve num patamar acima dos períodos precursores, adquirindo uma dimensão metaforicamente transcendente. A humanidade, ao longo do Paleolítico, cada vez mais ciente de si e dos seus poderes fabris e decisórios, da sua especificidade criativa fundamental, estabelece uma praxe evolutiva capaz de contrariar os imperativos instintivos e naturais.

A ciência de si opera um novo domínio e responsabilidade, junto com a impossibilidade de ‘não agir’; não se posicionar é optar por não agir, que é agir. Não agir vivendo nas ruas e edificações citadinas, nas fileiras de algum Reich, seja Nazi ou não, outras ditaduras e matizes geopolíticos, é agir, é optar por nada opor ao que é mal. Não negar o mal, invocando hipotéticas complementariedades transcendentes é optar por acomodações muitas vezes convenientes e lucrativas. Console alguém pensar no nazismo, ou outras iniquidades, como complementos esotéricos apontando os germes de uma evolução oculta? A iniquidade jamais poderá ser a semente da virtude, ela é sua negação! O mal social não se relaciona em alguma paridade operante com o bem estar social, nem se alinha nas mesmas mensuras: o mal ético é a negação do bem; bem e mal não se convertem um no outro, tampouco se complementam; aqui não existe um eixo de pólos e opostos rumando em compassos produtivos numa mesma direção. A conjuntura que faz chover e movimenta o crescimento dos bambus não descreve as legitimidades dos atos políticos, seus decursos históricos e decisórios; o homem, ao longo do intervalo esticado entre a sua origem biofísica e a sua final desagregação é senhor nos seus reinados, paira como uma águia, acima dos determinismos da natureza mãe.

Na cidade, território humano suis generis, marcam-se escolhas que não se harmonizam por necessidade; um governo autoritário não é dialógico; acreditar no mito da salvação não combina com a crença no eterno retorno; uma sociedade participativa nas suas múltiplas funções, econômicas, pedagógicas e outras, não pode ser piramidal, ela não é elitista: neste contexto opostos são opostos e não se complementam positivamente. No ethos citadino os opostos não se complementam; são praxes divergentes que correspondem a compreensões antagônicas da natureza humana. Advogar no sentido de harmonizar em processos complementários opostos éticos como se fossem naturais é regredir a uma forma pré-sapiente, arcaica, destituída de hiperconsciência transcendente; ser humano, na sua dimensão específica, confere o poder de optar entre dois grandes caminhos, evolução ou retrocesso.

As criaturas são efêmeras, civilizações surgem e desaparecem; neste contexto transmutante é mais sensato valorizar atualidades simples e intangíveis como abraços fraternos, ‘namastês’; valores que correspondem a uma forma definida de saber, comportamentos e educação; a uma configuração política e econômica que não está a serviço de frações e plutocratas, mas exemplifica uma estrutura societária virtuosa e civítica.

Caso, competindo em busca do poder societário, alguém advogasse os beneméritos de uma sociedade elitizada, estaria alimentando frações e oposições que não se pacificariam em nenhuma forma de convívio. Existe um caminho evolutivo, estacado em conceitos e pareceres teóricos, que leva a mais sapiência eco-humanista e outro que degenera e faz retroceder. O ser humano deve escolher; a decisão não acontece ao sabor do vento e correnteza dos riachos. Como reconheciam, em todos os azimutes, muitos antigos pagãos e pajés, filósofos pré-socráticos até Sócrates inclusive, a harmonia existe atuante no coração e na consciência de cada um querendo se reconhecer como criatura universal, elevar-se dignamente à natureza possível para nós, ao grau de homo sapiens.

Sendo o que se é, estado-de-ser atual e presente, acontecendo nos processos e na trama das interações cosmológicas, os melhores e mais criativos ordenamentos societários só podem surgir em contextos eminentemente dialógicos onde os recém-nascidos, os infantes, todos os viventes, sejam reconhecidos como portadores legítimos do Logos e Ethos atinente ao que somos como humanos, criaturas contextualizadas numa relação eco-humanista.

A cidade legítima e verdadeira é o lugar onde a ética naturalmente decorre e flui do reconhecimento dos cidadãos como fonte potencial, inerente e autonômica de saberes; uma perfeição que se exemplifica através do cultivo de metáforas e simbologias que dignificam, de mitos que libertam e enobrecem a natureza humana levando-a ao reconhecimento do seu estado-de-ser infinito e essencial, manifestando a única dimensão teleológica justa e ponderada – a dignificação do estado-de-ser ou natureza humana como caminho e verdade.

Existem duas perfeições: uma perfeição sistêmica que opera nas conjunturas ligadas ao estado-de-ser como estrutura biofísica e dinâmica onde tudo acontece de acordo com as leis da natureza; uma perfeição ética que se realiza quando a vida social, pedagógica,  política e econômica, reporta justamente à humanidade dotada da capacidade de ser razoável e nutrir uma filosofia maximamente criativa. Essas perfeições somadas, natural e ética, avivam esse elã solar típico dos indivíduos saudáveis com pulsão existencial dirigida em busca de floração.

Condicionada em arquiteturas urbanas insensatas, vivendo em coordenadas políticas geradoras de desrespeitos instituídas em diferenciações germinadas em âmbitos de dominação, ignorância e violência, a humanidade não está exemplificando saber filosófico, não esta no caminho da perfeição ética; as disposições e instituições da cidade não são como deveriam e poderiam ser caso se honrasse com receptividade, educação e mitos adequados, o potencial sapiente do ser humano,

Não se deve entravar a compreensão que na esfera cultural tudo está de acordo com o que se conscientiza, pensa, sente, deseja e atua; logo, facilitar a realização dessa sabedoria implica rejeitar os empecilhos; é o dever dos que vislumbram essa cidade nas suas imaginações nutridas de razões e saberes adequados e de acordo com o justo reconhecimento de si e responsabilidade associada, operar dentro de coordenadas que ensinam a compreensão fundamental de que somos um só ser  veiculando forças decisórias à luz natural da razão.

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