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Fotos do1º Colóquio Internacional Panteísmo – Princípios Filosóficos

Justificando René Descartes, corrigindo iniquidades

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Régis Alain Barbier  

René Descartes reinaugurou o diálogo que permitiu reiniciar a terapia do sujeito destinado a se enxergar como totalidade.

A Igreja imperial, para quem pensar com autonomia é potencialmente pecaminoso e expressar prazer sexual era sinal de bruxaria, dominava no Medievo mediante a mitologia judaico-cristã. Ainda majoritário, esse fundamento mítico elitista se projeta no intelecto como disfunção epistemológica e, no âmbito laico, se generaliza em paradigma científico por contágio pedagógico e metodológico, mas a dicotomia inaugural, naturalmente desafiada pelas crianças, filósofos e poetas criativos, decorre do sistema metafísico subjacente instituído em enraizamentos históricos abraâmicos, masdeístas e greco-romanos que não pertencem a René Descartes (1596-1650).

Evocando “substâncias” fundamentais como ordenamento metafísico do estado de ser, polos decorrentes ou complementários, a meditação cartesiana, como uma pedra filosofal, fomenta um exame preciso do “ato de ser” no mundo que patenteia o fundamento nuclear e alavanca teórica dualista da disfunção civilizatória; dessa forma instigado, um pensador hipotético e desimpedido, situado fora da jurisdição inquisitorial e isento, poderá intuir as implicações presumíveis.

Como demonstrada por Baruch de Spinoza (1632 – 1677), o parecer sub rosa da meditação cartesiana, permite intuir uma perspectiva metafísica de natureza panteística que enunciada e explicitada desbanca a teologia dualista criadora desse deus afastado representado por elites, episteme e mitologia inaugural por onde, nas inúmeras frestas paradigmáticas decorrentes e coligadas, se fragmenta e destrói a nossa civilização.

Quem não intenciona blindar a Igreja e preservar o embasamento metafísico da tradição ainda dominante, reconhece que o filósofo que deteve a irracionalidade do Medievo com a argúcia necessária para não subir um destino similar ao de Giordano Bruno (1548 – 1600), é um dos nossos mais dignos, honrados e magníficos terapeutas.

DA FORMULAÇÃO TEOLÓGICA DA CONSCIÊNCIA

Consequências Políticas

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Régis Alain Barbier, Aldeia, 03 novembro de 2013

O modo pedagógico catequista típico das sociedades superestratificadas não permite o desabrochar pleno da razão, nos termos e compassos justos, desafiando a realização filosófica do estado-de-ser; a aceitação de coisas improváveis e desonrosas, menosprezadoras, como fundamento da natureza e experiências  existenciais deságua  em irracionalidades, desesperos e malquereres.

 ESTRUTURA METAFÍSICA DA IGNORÂNCIA REDENTORA E SALVACIONISTA

ENUNCIADO

Ao longo do processo evolutivo, ontológico, quiçá filogenético, o sujeito conscientizador se descobre isolado, um estado-de-ser limitado entre nascimento e morte; eventualmente, tal descoberta motiva um questionamento onde se procura o significado do processo existencial, com fortes matizes afetivas; inaugura-se a busca filosófica, a teleologia dos mortais. O começo da filosofia assenta nos compassos e umbrais que circundam a vida e a morte, no berço dos afeitos, nesse intervalo metafísico, para se tornar, secundariamente, argumento do intelecto racional. Frente aos desafios existenciais, o parecer teológico, suas categorias metafísicas e míticas, transita e é inicialmente evocado através de um parecer estético que assenta numa resposta afetiva “simpática” ou “antipática”. A elaboração dessas possíveis valorações surge na apreciação imediata e sensível da relação fenomênica que opera nas tensões entre as coisas da consciência e as coisas da existência, no intervalo entre as “res cogitans” e “res extensa” de Descartes e os atributos de Espinosa; a raiz mais profunda da filosofia, como a arte, nasce no coração do intelecto sensível.
Típica das sociedades superestratificadas (nota 1) , a cultura dominante determina um parecer fundamental estipulando uma resposta metafísica deslocada, dogmática e insensível, evocando arquétipos, mitos, ritos, tradições e “ortolocuções” (nota 2)  referentes; do ponto de vista da ciência filosófica esse parecer inaugural típico, ou “impressão batismal”, elabora-se como perspectiva metafísica porque explicita a afirmação de um significado que transcende a situação ontológica e singular, as possibilidades cognitivas razoáveis do estado-de-ser, numa elucubração teleológica, no caso um “teísmo redentor e sobrenaturalista”, uma forma de explicitação ou racionalização assentada em dogmas e interpretações ingênuas das coisas da imaginação; terreno instável onde se pretende justificar uma ética normativa combinante com uma temática fundadora societária e civilizacional.
Racionalizado e instrumentado em argumentos catequistas, encenado em ritos, o parecer metafísico, inicialmente enraizado em sentimentos e respostas estéticas sensíveis frente ao processo existencial, transforma-se em uma ferramenta  psicopedagógica ofuscante, um atalho em direção a uma forma teológica predefinida, construindo explicitações a priori e que poupam os viventes das inquietudes existencialistas mais intensas, contornando as dores e aporias da conscientização a favor de esperanças vãs  e fatuidades. Como a luta da borboleta ainda no casulo é fundamental ao desenvolvimento e robusteza das asas, a consciência poupada das cogitações profundas que acontecem à luz da razão natural, não se expande até as constelações que se devem visitar para apreciar a si mesmo, à  natureza e  aos  deuses.
A estrutura narrativa, locutória, perlocutória e ortolocutória do mito batismal, ou fundador, sua subjacente perspectiva metafísica, os arranjos urbanos e políticos diacrônicos e sincrônicos referentes e sintônicos a essa tradição doutrinária, arraigam e condicionam uma concepção inaugural e determinante de origem e identidade, perfazendo a personalidade do indivíduo e modulando as qualidades das suas contextualizações, potenciais e expectativas, assim como estipulando propósitos sistêmicos e finalidades para o processo existencial – normatizando-se dessa forma o sentido das buscas, realizações e problematizações, o leque e a natureza geral dos deveres e direitos, dos tabus, sofrimentos e prazeres. Através da perspectiva metafísica, suas expressividades arquetípicas, míticas, doutrinárias, linguísticas, elaborações gnosiológicas e psicopedagógicas decorrentes e referentes, explicita-se a “episteme fundamental”, ou inaugural, das expressividades societárias, necessariamente condicionadas  na “polis ” seus enquadramentos nacionais e civilizatórios.
As grandes epistemes cultuadas das civilizações possuem embasamento metafísico e teleológico e encontram corroborações nos paradigmas societários correlatos, primários e secundários: as formas políticas e comportamentais mais imediatas; as modulações da sensibilidade, dos humores e afetos; as formas reflexivas, científicas e cientificistas, de cunhos metodológicos e epistemológicos. Os ordenamentos  políticos, arquiteturais, societários, os direitos e deveres, valores fundamentais, as etiquetas, são diretamente condicionados em pareceres metafísicos e elaborações míticas. A explicitação mítica referente à origem, à  natureza e à  identidade do estado-de-ser, determina a estrutura operante do psiquismo e modula os potenciais do existente nos seus aspectos afetivos, posturas e posicionamentos gnosiológicos e epistemológicos, assim como os valores fundamentais, respeitos e desrespeitos, atribuídos a si mesmo e aos seus pares; a ética e a política. Em outros termos a arquitetura política, societária e urbanística da cidade é sintônica, proporcional e paralela à natureza psíquica, afetiva e gnosiológica do estado-de-ser, por sua vez condicionada através de uma perspectiva metafísica e narrativa mítica tributária de uma apreciação de valor – que seja escolhida de primeira mão ao abraçar os mistérios existenciais como se abraça um ser amado, ou cultuada nos ideais e decursos da tradição. A episteme e os paradigmas secundários que estacam as sociedades se revelam e denotam nas expressividades ortolocutórias da polis.
Na cultura dominante, hoje globalizada, de enraizamentos históricos masdeístas e abraâmicos (nota 3), o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (nota 4)  é o núcleo metafísico do mito e dogma da salvação redentora querendo explicitar o surgimento do Cosmos, de todos os seres, como criações objetivadas, teologicamente operadas por um sujeito transcendente, um “Théo” radicalmente separado e incluso numa realidade sobrenatural; nesse mistério, a entrada em existência dos indivíduos criados é considerada intencional sendo o objetivo e propósito  da existência postulado como uma redenção e retorno a uma situação espiritual ou essencial antes desafiada. Não receber, frontalmente e antes da idade dita da razão, a marca batismal e ritual do mito fundador num sacramento individual não impede de sofrer os efeitos gerais e ortolocutórios dos processos societários superestratificadores, usos e costumes onde o conteúdo e a forma do mito assentam como cultos tradicionais e instituidores. Aceitar o dogma da salvação teísta, visionar-se e imaginar-se hipoteticamente apriorístico ao cosmos, objetificado e metido num corpo por acidente ou necessidade redentora – como purgar impurezas originais – sem um reconhecimento imediato e sensato dessas justificativas esdrúxulas, conota um status quo existencial desprivado da sensatez necessária ao reconhecimento da sua verdadeira natureza, isto é, ignorante de si mesmo, destituído de intuição espiritual.
Cogitar-se, de acordo com a mitificação introjetada sem exames, como indivíduo pecaminoso, criado em contexto radicalmente provisório por um deus ignoto, afastado e incompreensível, equaciona um psiquismo profundamente dissociado e adulterado, onde o pensamento abstrato mais criativo, simbolizado como a esfera mítica de um divino criador, se estrutura como uma extrapolação psíquica hipotética que desintegra a identidade mais sensata evocando-se, de um lado, espíritos sobrenaturais e, do outro, corpos e inteligências subalternas como produtos ou mercadorias sacrificiais – nesse desequilíbrio e insanidade, prevalecem as formas e hábitos estruturantes da episteme geral do “sujeito neutral”, dissociado e lançado num mundo e natureza objetificados.

DO TEÍSMO REDENTOR AO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR 

PROPOSIÇÕES DERIVADAS

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO TEÍSMO REDENTOR
Desgosto, Desequilíbrio, Ignorância, Desgraça , Prepotência

Desgosto

Um parecer existencial eventual que desqualifica o valor da existência ao enfatizar sofrimentos muitas vezes societários, logo, criados e desnecessários, induz, por generalização simples um desgosto reativo frente à totalidade, desafiando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Desequilíbrio

A existência dada a ser passa a ser compreendida como uma esfera ilusória, facultativa e desnecessária, sendo o reino das hipóteses elevado a uma valência realística absoluta. Submetido a essa introjeção inaugural através de ritos batismais ou por contágio  geral, num processo de sintonização cognitiva ou memético, o intelecto se categoriza por dicotomia nos modos kantianos e a existência deixa de ser reconhecida como aventura cocriativa  e graciosa como atualmente compreendida  à luz dos ensinos da escola cognitiva dita de Santiago, para se tornar um determinismo assentado em princípios teleológicos apriorísticos e hipotéticos; incorporado os ritos da religiosidade salvatéria, o sujeito imagina ter sido lançado ao mundo por acidente, como forma ou objeto eventualmente criado, numa relação, de alguma forma, dispensável ou, potencialmente, desnecessária. Nessa ideia teológica  teísta,  redentora e salvacionista, as imagens literárias e pareceres racionalistas enraizados na escolástica superam em veracidade a experiência  e visão imediata do real. A retração do saber e inteligência sensível em hipóteses racionalistas encobre o acesso à via estética de consecução e realização mística, promove  a predominância do eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e induz a instauração de uma configuração existencial idealística onde existir, de evento primário de ordem necessário e de fato, passa a ser imaginado acidental e procedente de servidões e objetificações reveladas por especialistas, sejam profetas ou seus escribas sacerdotes, e escrituras tradicionais.
O equacionamento mítico dualista referente ao mito teísta da salvação redentora, a introjeção da perspectiva metafísica correspondente e configuração consequente do intelecto frente à barreira kantiana, instala e confirma no psiquismo a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica ignorante e fracionada típica da psicanálise  freudiana, que, agregada à superestratificação teológica do intelecto, estrutura um modo de ser humano irresponsável e subconsciente, onde se destaca  uma “elite” dotada do poder de transmitir esses ritos, mitos e orientações, imolando-se a criatividade dos indivíduos subalternos a um poder que bane e constrange, exigindo obediência e sacrifício, originando o sectarismo religioso e o partidarismo estatal apesar das evoluções laicalísticas.

Ignorância

A substituição da busca filosófica por um dogma suprime, por abortamento religioso, a busca do significado da existência como exercitamento individual e necessário ao justo amadurecimento do homo sapiente,  desfavorecendo o afloramento da sabedoria. A catequese teísta, oprimindo o exercício da apreciação pessoal e do bom senso, afirma um plano improvável, sobrenaturalista, hierarquizando-se o poder criador que se imagina reservado a uma esfera inalcançável ao indivíduo comum existindo no status dado pela natureza.
Nesse contexto repressor, o parecer estético fundamental da primeira inteligência (o intelecto sensível)  é  desconsiderado; não se reconhece o gosto pleno da existência, inibindo o justo desabrochar da sabedoria, desconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”, não se reconhece que a existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso e dotado de bom gosto existencial, de saber  inato, ou conato. A parca investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto pleno da existência reduz o conhecimento das relações inatas e pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – desfocando-se a exercitação dos gostos e sabores aos  redores de utilidades marginais, caprichos.

Desgraça

O desconhecimento dos potenciais fundamentais da inteligência sensível reduz o justo exercício da busca filosófica a uma composição lógica de caráter sistêmico, mas hipotética.  O que deveria ser um conhecimento imediato com teor estético e indubitável, passa a ser uma elucubração racional, de cunho idealístico, induzido por educação normativa. As visões e ideias dos profetas tendem  a substituir o que deveria ser produto natural da razão sensível; a elevação da norma e da visão alheia no horizonte  do saber próprio se acompanha de uma grave  atrofia da faculdade estética, impedindo a descoberta e experiência de que os pareceres filosóficos enraízam em pareceres estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos, que perdem a sua primazia como fonte de saberes a favor das elucubrações dos iluminados, aumentando a credulidade e minusvalia  referente à “luz natural da razão” e ao fundamento essencial da inteligência sensível.
Uma grave ignorância filosófica agregada a uma credulidade fideísta , somada a uma desprivação  de intuição reveladora, instala uma profunda minusvalia existencial e carência de confiança no bom senso e razão imediata, uma escassez de saber. A ignorância da via filosófica impede de reconhecer e cultuar o respeito ao não saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são induzidas a serem reconhecidas como realidades, instalando diversos graus de distorções perceptivas e de  entendimentos, fomentando potenciais  psicopatológicos com graves repercussões societárias. Ao introjetar o mito teísta da salvação redentora  que coloca além dos potenciais da inteligência natural a realização mística da unidade e do numinoso, perde-se o contato e o  sentimento unitário, o saber místico da unidade, o saber existencial de totalidade.

Prepotência

Por decorrência, o dogmatismo religioso teísta e salvacionista impede a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, se comunicar e inter-relacionar  em referência a assuntos cruciais e íntimos, ligados à busca de razões fundamentais e ao exercício das escolhas fundamentais e de  poder.

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR
Amor, Harmonia, Sabedoria, Graça, Prudência

Amor

Um parecer existencial feliz qualifica o valor da existência ao enfatizar o belo, o bom e o bem; induzindo por generalização simples um reconhecimento e bem-estar frente à totalidade do dado-a-ser, afirmando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Harmonia

Na cosmovisão panteísta a existência dada a ser passa a ser compreendida como necessária,  valência absoluta e realista; a natureza fenomênica cosmo-existencial supera em veracidade o reino das hipóteses idealistas. A contemplação da experiência e da natureza serve de fonte inspiradora insubstituível. Num processo de sintonização cognitiva ou memética, o intelecto se categoriza autopoieticamente, a existência é  reconhecida como uma aventura cocriativa e graciosa. Perfeitamente integrado, o sujeito imagina ser cosmos, numa relação, de alguma forma, indispensável. O exercício do saber e inteligência sensível nas apreciações imediatas da realidade possibilita o acesso à via estética de consecução e realização mística, promovendo a predominância do eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, induzindo a uma configuração qualificada, sensível e razoável, onde existir consciente revela ser um evento primário de ordem, necessário e de fatos.
O equacionamento referente ao mito universal do eterno retorno é a forma inaugural da estruturação mítica monista; a introjeção da perspectiva metafísica correspondente, cosmo-existencial, instala e confirma a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica sapiente, que agrega à realização mística do intelecto um modo de ser humano maduro, onde se destaca  a tolerância, o respeito, a dialogicidade e a capacidade de encontrar em si mesmo os sentidos mais belos, profundos.

Sabedoria

O enaltecimento da via filosófica estimula o exercício existencial no sentido de favorecer o justo amadurecimento do homo sapiente,  o afloramento da sabedoria. A doutrina panteísta afirma um plano fenomênico, naturalista, onde o mito se revela nas próprias visões que superam as narrativas tradicionais e escrituras, consagrando a essência do fenômeno como realidade existindo no status quo dado pela natureza e acessível a todos os indivíduos dedicados. Nesse contexto libertário, o parecer estético fundamental da primeira inteligência passa a ser plenamente considerado; a intuição impera como forma diretiva e oriental, reconhece-se o gosto pleno da existência, estimulando o justo desabrochar da sabedoria, reconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”. A existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso de saber inato, ou conato e dotado de bom gosto existencial. A investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto e saber pleno da existência amplia o conhecimento inato das relações pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – a sabedoria impera.

Graça

O reconhecimento pleno dos potenciais fundamentais da inteligência sensível induz ao justo exercício da busca filosófica onde a intuição estética suporta uma visão unitária da realidade. O conhecimento imediato da realidade, com teor estético e indubitável, passa a ser a fonte que orienta em busca do saber. As visões e ideias atuais dos buscadores, produto natural da razão sensível elevam a inspiração própria aos horizontes do saber. Reconhece-se que a descoberta e  a  experiência dos pareceres filosóficos enraízam em pareceres  estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos; aumentando a sabedoria referente à luz natural da razão que é o fundamento essencial da inteligência sensível. O conhecimento filosófico fortalece à intuição, instalando um profundo valor existencial, uma confiança no bom senso e razão imediata. O respeito à via filosófica permite reconhecer e cultuar os limites do saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são reconhecidas como tais, sustentando uma magna lucidez e entendimento, fomentando potenciais esclarecedores, felizes e integradoras repercussões societárias.
Ao introjetar o mito panteísta do eterno  retorno e da celebração existencial coloca-se a realização mística da unidade e do numinoso ao alcanço dos potenciais da inteligência natural, sustentando o contato com o saber místico da unidade.

Prudência

O discurso panteísta e libertário promulga a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, comunicar-se e inter-relacionar-se em referência a assuntos cruciais, à busca de razões fundamentais, ao exercício das escolhas fundamentais e do poder.

REABILITANDO DESCARTES E DENUNCIANDO IMPOSTURAS

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René Descartes sabia o que fazia e o que dizer para não padecer o destino de Giordano Bruno; ele pensava no que dizia e não dizia tudo o que pensava, mas levava quem podia a pensar e dizer o que ele poderia ter dito em circunstâncias mais seguras e aprazíveis. De acordo com o cronista, escreveu a quem tinha plena confiança e mandou  lapidar na sua sepultura a frase do poeta Ovídio: “Bene vixit qui bene latuit” – Bem viveu quem bem se escondeu.

Na investigação dessa grande crise de valores fala-se muito em “paradigmas científicos inadequados”, evocando um erro dito “ocidental”, em referência  à cultura que produz cientistas. Certamente, o paradigma do sujeito dissociado e neutral predomina na formação dita “cultura ocidental” em função da atual locação do poder econômico e político, da sociocracia que se beneficia na sustentação dessa postura existencial onde os indivíduos se tratam mutuamente como recursos, como maior eficiência de acordo com o poder político e econômico que possuem. Mas a conotação “episteme mor da cultura ocidental” referente a esse modo epistemológico dicotômico de compreender, eixo onde se separam “sujeito” de “objeto”, não descreve o processo de dominação e os fatores antropológicos e metafísicos ultimamente responsáveis por esse status grave de crise e desacerto onde estamos mergulhados.
Um exame mais atento demonstra que as principais tendências epistêmicas apontando perspectivas antagônicas, holísticas ou sectárias, ocorrem em todos os azimutes, tanto no oriente quanto no ocidente, no hemisfério austral ou boreal. A humanidade experimenta seus destinos de forma variegada sem coligar formas culturais rígidas de acordo com longitudes e latitudes. Os filósofos da Jônia, os pré-socráticos, as formas mais antigas do taoísmo, diversas agremiações indígenas, o cacique de Seattle, poetas e ensaístas como John Burroughs, o naturalista transcendentalista Henry Thoreau, Goethe, William Black, figuras complexas como os místicos Francisco de Assis, Mestre Eckhart, filósofos e pensadores como Étienne de La Boétie, inúmeros outros exemplos, todos contribuem na construção dos grandes paradigmas. Os pré-socráticos são considerados filósofos basilares da cultura ocidental embora locados na Ásia Menor; a doutrina da Igreja Católica e Romana tem suas raízes mais profundas fincadas na atual Turquia, lugar onde foi pensada. O maniqueísmo pérsico que irrompe vindo do Oriente para desafiar a filosofia grega pré-socrática na invasão de Cirus II fundamenta, junto com o judaísmo abraâmico, a conceituação metafísica que ancora e ordena os paradigmas de uma cultura hoje globalizada: evidente, as locações geográficas onde enraízam as ideias, as geopolíticas, não apontam a origem da crise que não se coordena com latitudes ou longitudes, mas com intuições e decursos metafísicos que brotam no coração humano. Se não pode ser delimitada através do uso de GPS, tampouco a grande crise pode reduzir-se a um mero cientificismo, um problema epistemológico; trata-se de um abalo mais profundo, locado nas raízes da civilização.
Numa medida inversa, a crise é com frequência descrita como “carência de espiritualidade; materialismo excessivo”; tais descrições, imprecisas e periféricas, desfocam a realidade e escondem a natureza mais interior e humana dessa crise existencial. Autores renomados como F. Capra  em “A teia da vida”, Cultrix, 2006, não hesitam, erroneamente,  em  apontar R. Descartes como a chave do castelo da ilusão, junto com Newton! Eles seriam os vilões e criadores dos nossos problemas com seus modos experimentais de examinar a natureza como um mecanismo e de acordo com as regras da geometria e da matemática. F. Capra, ecoando outros autores e os adeptos da dita “teologia da libertação”, explicita que antes da alvorada da modernidade, clarinada por Descartes, o Cosmos era entendido como estrutura repleta  de “espírito”, que a visão do mundo era mais espiritualista, que precisamos  rever os nossos conceitos para reconhecer a relação da consciência, do mundo e do divino. Certamente, mas esse autor e outros muitos não percebem que não é, exatamente, precisamente, de “visão espiritual geral” que necessitamos para melhorar a nossa perspectiva existencial; religiões abundam aos milhares – mais de 50% da população se declara fiel às religiosidade abraâmicas e aproximadamente 20% a outras formas de cultos! Precisamos de mais lucidez e razão no campo da consciência, como justamente explicitado por Descartes, para compreender que é a “qualidade da espiritualidade”, ou do eixo de perspectiva metafísica que aceitamos como impressão batismal e descritor profundo da nossa natureza que define e determina a episteme bailar nas mensuras da qual somos fadados a conviver; que essa perceptiva é, necessariamente, de cunho teológico, espiritual – logo, vivemos impreterivelmente imersos em conceitos teológicos como peixes em água. O que precisa entender-se com mais clareza é que os paradigmas societários secundários, os epistemológicos vigentes inclusivos, são tributários de uma perspectiva metafísica antecedente e central que condiciona a forma de compreender-se e pensar-se; a episteme central é o modelo gnosiológico que explicita a nossa natureza, origem e destino existencial, as nossas buscas e devoções. Não há porque desviar a atenção do foco essencial: a epistemologia do sujeito neural não é o centro da crise como quer sugerir os dito “teólogos da libertação” e Fritjof Capra no seu livro “A teia da vida”, parecendo querer “blindar” ou poupar os teólogos e as tradições, o modus epistemológico é apenas um dos braços e paradigmas periféricos decorrentes de uma causa e perspectiva central que tampouco é uma “carência geral de espiritualidade”, ou religiosidade: como sabia Descartes, a crise refere a uma carência de justa e razoável perspectiva metafísica, carência inicialmente tributária de uma profunda ignorância de natureza eclesial, de desamor, sede de poder, ingratidão e escassez de virtude e harmonia. Tudo isso genialmente corrigido pelo mestre inspirador e direcionador de Bento de Espinosa, René Descartes, que com prudência e coragem reintroduziu o uso e acuidade da razão crítica necessária nos arcanos da filosofia, desta forma desmoronando a ignorância da igreja medieval e abalando a sua espiritualidade encastelada e hedionda levando o filósofo de Haia a afirmar deus como Natureza. Como explicita Descartes, é no centro da clivagem mais profunda, da meditação mais intensa, no mistério locado entre a natureza “cogitans” e “extensa” que vigora no centro do coração de cada humano qualificado e pensante, que reside o mistério que rege as substâncias ou os atributos fundadores: de acordo com suas escolhas e circunstâncias naturais e políticas, que se reformulam, a conexão mística que ajunta os atributos poderá ser compreendida como uma relação acidental e conflituosa, motivada  pelo erro, engano e ilusão, exigindo sacrifício e salvação, ou ser reconhecida como uma comunhão harmoniosa e alquímica repleta de mistérios profundos. Entender a relação entre a consciência e a matéria como eventual, acidental e facultativa, gera o modo dicotômico teísta, redentor, salvacionista e cientificista de ser que vivemos nesses tempos de indignidade, gera a crise dos que se enxergam como banidos, devendo obedecer aos que se iludem como veículos privilegiados, sejam sacerdotes ou cientistas da doutrina verdadeira; eis o foco da crise! A chave da cura – forjada por Descartes – e possuir um método que permite uma apreciação existencial fundamental e singular da relação cosmo-existenical no enraizamento mais profundo, metafísico, do estado-de-ser! Qual a sua relação com o divino em si, o divino do seu interior? A crise se cura reconhecendo-se legítimo portador do mistério, interface criativa e autopoiética, devendo aprender a pensar-se com dignidade, capaz de afirmar a virtude essencial, cuja primeira linha é amar a si mesmo e à vida, agradecer ao  destino, vendo no outro, com humildade e respeito, o lado complementário, igualmente valente e necessário de si mesmo. Compreende-se que o divino mistério reside entre as marcas do próprio coração, que não necessitamos de outra salvação além de salvar-se da ignorância dos que se imaginam apartados e neutrais; como pensar que ínfero e banido possa ser um fundamento psicopedagógico, ético e válido, de adequação e bondade? Esses novos modos e humores de se reconhecerem não são teístas redentores nem salvacionistas, são panteístas, alegres, virtuosos e celebrantes com certeza; o panteísmo é a forma espiritual dos que reconhecem que a liberdade e a honra não se esperam nem se pedem, se afirmam e conquistam: humanidade, sê o que bem quiser ser no mundo! Refina a tua mais justa razão: o xadrez metafísico foi revelado, a escolha é tua, faz a hora acontecer!

1) Os termos superestratificadores, superestratificação – a instalação hereditária da iniquidade – é muito bem definido em Rüstow Alexander; Freedom and domination; Princeton University Press; 1980 – Introduction. Referem-se a situações sociais hierárquicas e polarizadas típicas dos estados-nacionais; demonstradas entre grupos diferenciados quanto ao seu poder político, prestígio social e acervo econômico; originadas em procedimentos históricos de invasão e dominação, i.e., de posições vantajosas resultado de conquistas e subjugações ancestrais transformadas  em direitos adquiridos e hereditários. 

2) No caso da nossa sociedade, onde o senso comum indica imperar a injustiça, a guerra, a trapaça, onde os discursos políticos – desenhados nos “sigilos dos conclaves partidários”- não correspondem ao que se faz e realiza; onde reina a insatisfação, os problemas sociais, e onde a criminalidade abunda: é evidente que os discursos não acompanham as decorrências. Afinal se pudéssemos fazer o resumo das décadas mais recentes de discursos políticos e econômicos proferidos no planeta em todos os azimutes, é sensato imaginar que esse imenso “abstract” não informaria coisas concordantes com os fatos. Não, em hipótese alguma: o”grande abstract” diria tudo ao contrário – pregaria um forte aviso de paz, prosperidade, sinceridade, justiça igualdade, fraternidade, liberdade e amor – invocaria luz em nome de Deus! Seria a essência da melhor filosofia humanista junto com a maior pieguice! Ora, postulando – até prova contrária – não haver gênios malignos torcendo tudo ao avesso; tampouco ser a nossa ciência desastrada a ponto de jamais resultar em nada funcional; nem as nossas urnas e pleitos serem sistematicamente falsificados: resta supor que a sinceridade e simetria forçosamente pressupostas por Habermas não operam. Opera um Ato de Fala que denomino “ortolocutório” em que a verdade que subjaze aos atos de fala é a virtude que se cultiva no interior em si – abundância  feliz ou carência infeliz de Mythos, Logos e Ethos. 

3) As três principais religiões abraâmicas são, em ordem cronológica de fundação, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. No início do século XXI havia 3,8 bilhões de seguidores das três principais religiões abraâmicas e estima-se que 54% da população mundial se considere adepta a uma  dessas religiões, cerca  de 30%  de outras religiões e 16% é não religiosa.

4) As perspectivas metafísicas ditas transcendental e transcendente por culturistas como Reales e Paim não são diversas nem duas perspectivas metafísicas, mas apenas um eixo de perspectiva adequadamente denominado de “eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental”. Um outro eixo de perspectiva metafísica existe ao redor das muralhas da poderosa Roma que diria Virgílio, trata-se do “eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial” onde o vivente se associa ao cosmos a que pertence radicalmente.

Everson Teixeira (JC News) entrevista filósofo e médico francês Régis Alain Barbier

ARTIGOS-IUP

No debate desta sexta-feira (13), Everson Teixeira recebeu o filósofo e médico francês Régis Alain Barbier, diretor e fundador do Instituto Universo Panteísta.
Entenda o panteísmo, as ideias de criação do universo, e saiba mais sobre as religiões que adotam a filosofia panteísta:

Da prática teológica panteísta

Pan

Régis Alain Barbier 

Na perspectiva panteísta compreende-se que inspirador, ou numinoso (do latino Numen: deus ou divino) nos termos de Rudolf Otto (1869-1937), é a relação impreterível da consciência e da natureza, dado-a-ser radical, alfa e ômega. Apesar de ser desconsiderada no processo civilizatório hoje dominante, essa relação onde se afirmam mutualmente a relação da consciência e do mundo como fundamento cosmo-existencial, é um fenômeno sincrônico e imutável, uma realidade absoluta, o ordenamento primal de todos os sentidos e propósitos.

A realização desse “rebis” a sabor do exercício continuado de abstrações líricas, estéticas e racionais revela os antagonismos como pontos diametrais e integrados de uma mesma e idêntica natureza; como os lados aparentes de uma Fita de Möbius, as duas substâncias ou os dois atributos de Descartes e Espinosa, o extensivo domínio do metrificável e o cogitativo domínio do apreciável, respectivamente, demonstram-se coligados em um fenômeno unitário onde a dualidade colapsa num paradoxo que paralisa as discriminações da inteligibilidade, configurando-se um insight espantoso e ataráxico, levando o probante a um silêncio reverente e uma plena compreensão desse ambíguo e socrático “nada sei”, marcando o que se pode denominar de iluminação ou despertar filosófico.

Essa realização, como um afeto, afirma-se através do exercício prudente da inteligência razoável e sensível; atenuando-se a ponto de alienar-se nos afazeres societários onde delimitações hipotéticas, evocando teorizações com valores de historicidades, extrapolam-se em distorções cognitivas, mas eventualmente, em momentos intensivos de busca, exacerbando-se frente aos decursos existenciais, revelando-se a pungência mística dos momentos e dos arquétipos estruturais, origem e identidade eternal do real.

O negrume místico da ambiguidade cosmo-existencial resguarda um não-saber impenetrável, o mistério inquietante do estado-de-ser que, embora insondável, não gera sinais alheios aos limites e potenciais da consciência; nada acontece fora da esfericidade e espiral cosmo-existencialista  aniquilando quaisquer pretensões salvatérias arbitradas em teleologias reveladas! Como uma dimensão supratemporal incluindo tudo o é, foi e será, o mistério unitário alvorece nesse despertar filosófico que se equaciona em fronteiras perenais, radicalmente transcendentes, mas sem separações ou exclusividades radicais.

Trata-se do redespertar de uma perspectiva metafísica pouco explicitada, raramente compartilhada, banida na civilização e tradição vigente, com desdobramentos gnosiológicos e psíquicos, consequências sociológicas, antropológicas e culturais, geradoras de praxes diversamente produtivas das que resultam dos ordenamentos batismais que vigoram junto às perspectivas associadas, políticas, científicas, cosmológicas, teleológicas ou escatológicas.

Iniciado na perspectiva cosmo-existencial, lugar onde a consciência entranhada com a existência configura um evento absoluto, uma malha impreterível dialogando desde sempre, reconhece-se que o campo da atuação científica onde o agente se imagina isolado, imutável e instalado dissociado num domínio paralelo, afirma e reforça narrativas e ideologias que ofuscam a realidade existencial mais acurada e profunda, autopoiética, radicalmente sincrônica e criativa do estado-de-ser, autor das suas visões e métodos, responsável pelos ordenamentos societários e políticos.

O mito do sujeito independente e neutral permite a construção de praxes e discursos relativísticos, capazes de explicitar funções, afirmar projetos e empreendimentos, gerar produtos que atendam aspectos objetivos e instrumentais da realidade desconsiderando importantes relações; mas torna-se evidente que o abuso e deslocamento da episteme científica, o cientificismo que transborda a metodologia fabril da ciência na pretensão de compreender a estrutura do real, desvirtua o estado-de-ser e aprofunda a dicotomia aparente e ilusória entre as coisas do sujeito e do objeto; ofusca a realidade da unidade paradoxal: essa ciência moderna que advoga a neutralidade e independência do sujeito não serve para filosofar em termos cosmo-existencialistas, carece de veracidade imediata, reporta a um credo e ato de fé instituído em mitos batismais e apriorismos teológicos e sacerdotais de tradições regionais.

Na visão cientificista, fisicalista, onde a consciência se entende como epifenômeno tardio do processo evolutivo, misticamente dissociado do real, o sujeito, como elaborador de razão e pensamentos neutrais, coordena melhor com a cosmologia teísta e salvacionista onde um deus imaginado separado cria o universo e seus espíritos bons ou descaídos em função de vontades e descontroles inerentes, apriorismos e projetos ignotos. Compreende-se que o paradigma metodológico da atividade científica ofusca, desconsidera e entra em dissintonia com a realização mística do panteísmo, lugar existencial onde o sujeito e o objeto acoplam-se e fundem-se em unidade inseparável.

Que sejam a teoria do Big-Bang, que atende os determinismos físico-químicos e as epistemologias racionalistas, ou, a teologia venerada pela tradição, narrando a criação em sete dias para a melhor satisfação das demandas de espíritos originalmente maculados, as cosmologias e metáforas científicas e teístas são similares nas suas capacidades de desvirtuar a natureza do estado-de-ser e deslocar a perene atualidade do mistério existencial e dos seus potenciais em desvios que deturpam a radicalidade e fecundidade do momento em hipóteses destituídas de substâncias. As cosmovisões cientificistas e teístas se ajuntam e complementam para promover uma tétrica objetificação e desintegração do estado-de-ser, da sua natureza e responsabilidade frente a um destino truncado e domado em vontades, tempos e determinismos alheios e constringentes, onde a vida supõe-se reduzida a algo acidental, contingente.

O panteísta aceita a utilidade relativa das idealidades científicas, mas renega o valor universal da metodologia científica que se deturpa em cientificismo, positivismo e teologia teísta; o filósofo para quem divino é a natureza concentra-se no seu próprio ponto de vista e apreciação onde se evidencia que a consciência coabita o mundo, absolutamente: a origem e identidade do estado-de-ser,  como atualidade perene, aporta e se realiza nesse presente momento, no poderoso e cambiante domínio de kairós. Portanto, existe uma cosmologia e ciência panteísta: trata-se de uma esfera criativa cujo centro é a atualidade com as sombras do presente-futuro e presente-passado, onde, até um ponto a ser conhecido e infinitamente comprovado, a realidade demonstra ser uma construção fusional de consciência e de formas, que dentro de potenciais a investigar, entrelaçam-se criativamente, de alguma maneira, plasmando a manifestação.

No teísmo, um “ser”, potencialmente puro ou purificável, imagina-se lançado ao mundo, advindo de um lugar ideal, de acordo com necessidades e destinos geralmente desonrosos, teleologias reveladas a outros, para cumprir deveres previamente delimitados e processos de libertação; no panteísmo, o estado-de-ser é dado, assenta na sua essência que com a melhor lucidez e sobriedade se revela em encontros místicos e arquetípicos que elevam o existente ao estatuto de coautor, em parte, responsável e modulador da sua experiência; as elaborações criativas que se estabelecem e se afirmam delineando desejos e aspirações em forma de diálogos, narrativas e pedidos, acontecem de modos diversos nas duas perspectivas, elaborando-se duas modalidades fundamentais de cultos e ritos, panteístas e teístas. São notórias as formas, ritos e cultos do teísmo, não merecendo maiores descrições nesse artigo dedicado ao panteísmo.

Não existe uma tradição escrita capaz de superar a atitude necessariamente vanguardista e proativa de estado-de-ser assentado no centro perenal, no tabernáculo da sua natureza. Os desejos, aspirações e possíveis necessidades do estado-de-ser modulam-se e monitorizam-se no escopo da própria sensibilidade e consciência, no arco intelectivo que ronda o mistério que é central por abranger o estado-de-ser nas suas magnas profundezas e perspectivas. Quando concentrado em ocupações profundas, o panteísta não busca uma salvação como a que se descreve no teísmo, mas anseia pelas virtudes que sustentam as demandas existenciais  com honra e adequação.

Percebendo a existência como um fato inquestionável, último, o filósofo panteísta busca fazer da experiência algo pleno, significando ao máximo e positivamente o processo vital; a sua intenção primeira é fortalecer a sua capacidade de aceitar e responder dignamente ao ato existencial, honrando a sua autonomia e escolhas. Não existe uma luta nesse processo, mas um diálogo em busca de aberturas criativas e maior espaço e domínio na afirmação de um credo de paz, serenidade e amor, no entendimento de que a natureza bem considerada e trabalhada proporciona um adequado, vibrante e feliz suporte existencial, um campo de liberdade, bom humor e harmonia.

Nas suas buscas o panteísta não abomina ou renega a atualidade nas suas estruturas e funções; entende-se que um melhor porvir só possa decorrer do presente; a oração e diálogo que se estabelecem com o sublime e seus potenciais é um processo criativo que se elabora buscando maior plenitude e felicidade a serem usufruídas no estado atual, ou nas efluências e decorrências; o que existe o é pela necessidade, dessa forma; é a partir desses elementos e modos que, quiçá, o melhor se revela e desponta nos horizontes do dado-a-ser.

As revelações que surgem são imagens instituídas em arquétipos que se coadunam às perspectivas metafísicas; os recursos que acontecem expressam um panteão onde o dado-a-ser natural se consagra, lugar onde a imaginação e fantasia encontram pleno e respeitador acolhimento; por isso musas visitantes se revelam como filhas do poder divino e da memória própria. O panteão se apresenta de todas as formas necessárias, sempre considerando e integrando a natureza humana, suas dúvidas e frentes construtivas, com acolhimento, fundamento do amor. A natureza possui complexidade e inteligência suficiente e necessária para que seja assim, basta querer e visionar bem.Tudo isso com um prazer buscando se satisfazer com o que se oferece, sempre agradecido. O processo é como um parto; espera-se que não seja doloroso ao ponto de exigir dos criadores esses gritos desesperados de abandonos dos crucificados. As narrativas, as imagens que acontecem, são como sonhos, potenciais e formas culturais que se afirmam para se consagrar como lendas, mitos, quiçá estabelecer novos cultos e rituais, tudo de acordo com a compreensão de que a consciência é do mundo que é para a consciência, numa espiral cosmo-existencial incontornável, estruturante, criativa, dolorosa ou prazerosa.

Você ao ler essas linhas, seja coautor do seu culto e panteão, escolha as suas próprias revelações, você, ser humano, é a fonte viva e original de todas as escrituras! Lembre-se, nunca estará destituído de opções. Existem duas posições basilares na vida, a daqueles que tentam se elevar ao estatuto de realizadores do seus destinos e a daqueles que são vítimas e pedintes; mudar de estatuto existencial e ânimo é possível, exercitar escolhas, ou não, configura uma decisão. A vida é uma aventura, coisas inimagináveis e imprevisíveis podem acontecer, manifestamos fragmentos de que é possível expressar; muitos, presos em mitos, envolvidos em narrativas, scripts ou deveres programados pelas famílias e culturas onde nascem, transformam as suas vidas em rotina.

O que acontece é possibilitado pelas incompletudes e insatisfações do estado existencial atual que, ótimo, não geraria brechas e eventuais aventuras dissonantes. Algumas pessoas, principalmente com veio artístico e humor proativo, possuem um lado aventureiro, até certo ponto destemido, inconformista; esse lado que denomino hiperconsciente é arrojado, muitas vezes toma a rédeas da carruagem sem que se perceba; é quando, acomodado na vertente existencial conformada, no baluarte do cotidiano, experimenta-se um certo receio, ansiedade e confusão com o surgimento dos novos rumos e tendências. Portanto existe uma liderança e um rumo nessas demandas, algo podendo não ser evidente no início dos processos.

Certamente, operar dentro da tradição cultural e enquadramentos típicos é como nadar num lago em vez de num riacho; é seguro, mas é limitado, fechado, previsível; as águas se turvam e poluem lentamente, a truta caprichosa e alegre que podemos ser começa a fenecer. Por isso, os que no coração abrigam a vocação dos heróis, aliados hiperconscientes a serviço da vida e da sua alquimia, atiçados pelas brechas e falhas que rastejam nos planos mais íntimos das rotinas, começam a operar mudanças e coisas inesperadas; um jogo arriscado como adentrar nas matas e sair em mar aberto com poucos instrumentos, sem mapas, confiando nas intuições, na vitalidade e clareza do caminho. Dizer e pensar o que não foi dito, observar o que não foi visto, precipita acontecimentos exigindo diálogos e desnudamentos.

Ora, a própria vida, desafiante, trágica, talvez impulsionada pelas tensões e desconfortos que operam nos pensamentos, palavras, atitudes, imaginações, fantasias, de acordo com a liderança mais arrojada que existe em nós, toma vieses diversos dos esperados; ou então destituída de ânimo pioneiro e vigor se submete ao peso da tradição e da rotina. Num segundo plano não agimos isolados nas nossas decisões, porque estamos sempre em relação, absorvendo informações, estímulos e conhecimentos que atuam sem necessariamente refletirem-se com clareza na consciência cotidiana. Agimos, muitas vezes, em função de desejos e impulsos que não se assumem por falta de segurança, apegos, inclusive motivados e treinados para satisfazer as necessidades e demandas dos próximos e expectativas culturais! Coisas e sentimentos não ditos se revelam através de sugestões, intuições, fantasias, tiradas imprevistas pronunciadas pelos próximos, parentes ou amigos, impressionam o psiquismo de uma maneira ou de outra, brincando, interferindo nas decisões e nos atos, influindo nas instâncias mais criativas e arrojadas que vicejam em nós mesmos.

Certas virtudes e qualidades são certamente importantes nessas aventuras, como acreditar e ter confiança em si, pensar a vida como uma obra talvez difícil, mas produtiva e positiva, achar que a voz do coração, locada entre as vozes da razão e das emoções intempestivas, deve ser ouvida com maior atenção. E útil e facilita alimentar um ânimo entusiástico; confiar na sua relação com a vida, na sua estrela; chegam sinais e meios para que todos encontrem os seus destinos finais vencendo barreiras; uma vez superadas as dificuldades, revelam-se os novos horizontes; o que parece ser uma catástrofe pode ser a curva final antes da vitória.

Procurando talhar a vida em primeira mão, dotado de lucidez, confia-se que as elaborações vitais são incessantes, que é sempre cedo; construindo entendimentos e novas teologias, atiçando a cosmologia, elaborando os seus próprios conceitos de divino, opera-se  na estrutura da vida sem receio nem pavor. Devolve-se à cultura o que não faz sentido e não se aceita, criam-se novas crenças, normas e espaços psíquicos; sempre confiante no destino que não é egoísta ou mesquinho; o que é justo e bom para nós só poderá ser igualmente positivo para os nossos próximos e amigos, mesmo que no início não se apresente dessa forma. Só se pode elaborar uma obra sublime renegando os deuses das rotinas culturais, mas, justamente, honrando os deuses e deusas da vitalidade original e dos princípios verdadeiros.

Natureza e importância dos arquétipos para o panteísmo

Elucidações místicas, estruturais, funcionais e modais;
Orientações metafísicas dos arquétipos.

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Régis Alain Barbier

(…)

Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se! 

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.

(…)

Demogorgon – Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterônimo de Fernando Pessoa

Do estado-de-ser como símbolo cósmico

A justa consideração e reconhecimento dos arquétipos implica a superação das carências de focos e ilusões idealísticas da nossa cultura em que habitantes ilhados no âmbito das suas subjetividades refletem imagens e conceitos imaginando o mundo e os sujeitos probantes tributários de distinções radicais, absolutamente objetivas e separáveis; o que é improvável, hipotético e abusivo frente ao que se experiencia e possa ser compreendido, conhecido ou intuído.

 O primeiro ponto devendo compreender-se para melhor apreciar o conceito, apesar das hesitantes teorias ontológicas de Jung, é que o estado-de-ser  que somos como totalidade, indivíduos e coletividades, é simbólico por natureza; que um arquétipo é  uma expressão radical de um estado-de-ser simbólico. Um símbolo, por definição, agrega ou coliga um significado expresso com conceitos ou imagens a objetos ou formas que se percebem; um olho pode simbolizar a visão ou um dos atributos do divino, um disco pode simbolizar um prato ou um planeta. O estado-de-ser, como ser humano, é um símbolo porque  conjuga os atributos e os modos de todos os corpos e de todos os conceitos; a humanidade é, essencialmente, uma estrutura simbólica por agregar a totalidade do que é concreto e prático à totalidade do que é figurado e metafórico numa experiência vital, necessária  e inquebrantável, até provar em contrário.

Sendo a existência condição para acontecer alguma forma de saber ou ciência, a relação existencial “consciência-mundo”, “mente-matéria”, é absoluta e sincrônica a todos os potenciais de conhecimento e indagações, logo, infinda enquanto existir algo para ser evocado ou experienciado. Essa conjuntura – em Espinosa a correlação entre os atributos essenciais extens e cogitans – realiza a unidade paradoxal e fundamental, o núcleo ao redor da qual os arquétipos se ancoram e se desvelam na sua multiplicidade de modos, esferas, níveis ou holons (emprestando um dos vocábulos de A. Koestler).

Sendo a natureza do estado-de-ser definida nessa estruturação fenomênica radical (agregação de mundo e consciência onde a consciência é do mundo e o mundo da consciência), os arquétipos desvelam a perenidade e identidade original desse dado-a-ser, integrando na mesma trama as variedades modais e formais, as riquezas culturais, o universo dos mitos e das lendas. Mitos ou lendas oriundos de historicidades específicas e regionais possuem valências universais quando destacam as estruturações e funcionalidades  arquetípicas nas narrativas.

Os desvelamentos arquetípicos – místicos, estruturais, funcionais, existenciais e modais – se apresentam entre as margens hipotéticas e justapostas das relações unitárias e paradoxais que acontecem nos vários aspetos do estado-de-ser, lugar existencial onde essas composições binômicas se coligam e desdobram em harmonia sejam como as “res” ou atributos cogitans e extans dos modernos; o arco estendido entre as percepções e os significados; a interface entre o intelecto sensível e racional; a superposição dos eventos da intuição imediata e das visões da cultura e da tradição, entre outras. Bem compreendidos os fundamentos místicos, estruturais, funcionais e modais dos arquétipos, compreende-se a multiplicidade e complexidades das suas formas, nuances e apresentações.

Essa qualidade ambígua do estado-de-ser – ou duplicidade – se evidencia de alguma forma em todas as narrativas e expressividades arquetípicas nucleadas ao redor dos mitos fundamentais, quer  seja o mito da salvação ou do eterno retorno, como o de Sísifo, onde oposições diametrais,  mas integradas,   pontuam valências espelhadas na mesma esfera.

Na teologia panteísta transmutativista,  o arquétipo em si, apresenta-se como substância espiritual propriamente dita; trata-se do desvelamento formal da essência ou identidade profunda do estado-de-ser. Na teologia teísta e salvacionista,  o arquétipo representa e revela uma esfera espiritual imaginada sobrenatural, transcendente; trata-se de uma imagem que retrataria a coabitação acidental do espírito e do mundo.

Arquetipicidade  fundamental 

O arquétipo se revela formado na interseção de múltiplos pontos vetoriais, como um arco-íris na luz do sol e umidade do ar, na curvatura da terra e posição do observador. As justaposições de duplas paradoxais ou de pares que se identificam nas suas divergências recíprocas – mundo-consciência; percepção-significado; pensamento-sentimento; intuição-cultura; consciência-inconsciência, etc. – incidem em todos os declives e aspetos do estado-de-ser, nos diversos níveis e esferas existenciais, fornecendo a trama unitária e universal onde se revelam as coincidências da unicidade paradoxal, terreno criativo primordial de onde emergem a multiplicidade dos arquétipos.

Arquetípico místico: configuração universal que se apresenta e visibiliza na equidistância das reduções ou polarizações psíquicas e científicas da realidade fenomênica e onde se explicitam as relações curativas que se estabelecem entre o “sujeito indagativo” e o “objeto inerte” e demais duplas estruturais e funcionais, individuais e societárias, típicas do fenômeno existencial. Estabelece-se uma coordenada ponderada onde se resolvem os conflitos, medos e apegos, realizando-se ou demonstrando-se um terceiro ponto formando uma trindade, configurando-se a dimensão mística primordial do arquétipo – um ângulo como um terceiro ponto mais elevado, um olho que supera e supervisiona, os demais ângulos integrando a dupla paradoxal enlaçada num processo continuado, monístico.

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Arquétipo estrutural:  o “Rebis” alquímico, representação poética e imaginativa do estado-de-ser primal e paradoxal, é uma expressão criativa e potente da estrutura simbólica universal; uma configuração de primeira linha definível como arquétipo estrutural. Pares complementários integrando eixos funcionais como a Lua e o Sol, o Dia e a Noite, reportam, igualmente, a essa valência fundamental.

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Arquétipo funcional: a dinâmica cósmica, processo gerador de manifestações e expressões reciclando modos e formas em fases transmutativas contínuas e autopoiéticas, expressa, igualmente, uma configuração arquetípica fundamental, um arquétipo funcional, que se elucida através de símbolos como o Ouroboro e o Tao.

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Arquétipo existencial: a ambivalência do momento feito de eventos que se manifestam no ponto vetorial determinado na interseção dos eixos arquetípicos de primeira linha – eixo estrutural da polarização complementária e unidade paradoxal abraçado ao eixo funcional e primevo das transmutações – pode ser expressa como uma rosa com espinhos; a junção da beleza e da dinâmica dos modos e das formas em constantes processos de crescimentos e transformações, uma intersecção configurando o que se pode denominar de arquétipo existencial.

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Um arquétipo pode ser simples, minimalista, como as formas estruturais e funcionais, ou pode ser composto, como o arquétipo existencial  simbolizado pela rosa. Uma  figura arquetípica complexa agrega arquétipos diversos e de múltiplas valências.

Do intelecto sensível como orientador dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos

É a apreciação fundamental e intuitiva da existência como estruturação cósmica, coligada ao sentimento existencial correspondente – seja a empatia radical típica do panteísmo, ou, o antagonismo dramático fundador do teísmo salvacionista – que modula a aspiração metafísica primordial inclinando à formação de esferas filosóficas e arquetípicas de valências civilizatórias. Os arquétipos místicos, estruturais e funcionais existem independentemente do sentimento e autoestima fundadores, contudo em formas e expressividades  distintas e diversamente orientadas; a qualidade do sentimento existencial – simpatia ou antipatia – frente ao que é, ao dado-a-ser, é que determina a orientação dos vetores arquetípicos.

Do ponto de vista da expressividade artística, em todos os tipos e apresentações, os elementos formais dos arquétipos e a complexidade das suas referências e interseções no âmbito da existencialidade testemunham a orientação dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos de acordo com o sentimento fundador frente ao dado-a-ser; quer seja de simpatia, concordância, ou de antipatia, discordância.

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Do Tao e da cidade: oposto é oposto, não é complemento

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Régis Alain Barbier

Elucidando pontos de vista epistemológicos, gnosiológicos, epistemes, relações com arquétipos e mitos, até ao altar da essência e do mistério, fronteira do “nada sei” socrático, é exercitar uma máxima liberdade e criatividade; trata-se de uma nova hermenêutica e praxe teológica de natureza panteística.

Quando se critica alguma religiosidade – dando a César  o que é de César e a Deus o que é de Deus – devido a uma notória carência de agenda teopolítica é comum receber justificativas parecendo evocar uma ordem suprema, algo como um tabu que não se deve julgar. Sugerem-se esotéricas perfeições, leis celestiais que influenciariam os áridos percursos da política; um status quo divinal acima do entendimento humano onde o mal das ditaduras seria paradoxalmente coligado às virtudes que animam os oásis do bem! Sugere-se que, por mais truculentos que sejam eventos políticos teriam os seus fundamentos e potenciais ancorados nestes esquisitos ordenamentos numa adequação necessária e de acordo com o karma, o destino ou as leis do Tao. Até onde podem ir esses conformismos? Longe demais, lembrando a passividade de algumas instituições religiosa convivendo com os regimes políticos mais rústicos, quiçá vendo nessas monstruosidades históricas expressões paradoxais de alguma adequação esotérica.

Não se deixando ofuscar por considerações dúbias, denota-se que algo dificulta o surgimento de uma sociedade livre, ponderada e pacífica. Serão os longos e demorados percalços da história necessários, trilhas ondulantes de eventos fadados a acontecer? Ou, simplesmente, o ser humano ainda não é dono da sabedoria necessária a uma construção societária digna à luz de ponderações filosóficas mais sensatas.

Em escritos naturalistas, ou taoísticos, são comuns asserções como ‘oposto é complemento’. O postulado, de uma forma ou outra, parece verdadeiro em relação a tudo o que pertence às coisas da natureza, ao que se  observa com o olhar ou episteme naturalista; descreve a estrutura profunda da existência que se constrói rompendo a unidade em lados e elementos diversos, mas oriundos da mesma trama. Mesmo com compreensões incompletas reconhecem-se e aceitam-se esses fenômenos: o que cresce um dia decresce; a lua cheia míngua; a água evapora e desce em chuva; o vale é o avesso da montanha; a função de uma construção é condicionada aos vazios que não se formalizam.

Mas o que é verdade nesse mundo natural pode ser inexato quando reportando ao lugar onde o ser humano reina especificamente como autor e criador da cidade e não apenas como elemento passivo da trama universal ou observador dissociado. Na ordem citadina, partidos diversos que lutam por domínio político não se estruturam e complementam como polaridades ou oposições naturais alinhadas no mesmo compasso transacional, tampouco evolvem paradoxalmente na mesma direção!

No reino da política os partidos divergentes tentam delimitar e afirmar suas oposições e distanciamentos; a desordem não se mescla para complementar a ordem em busca de equilíbrio, por sua vez, a ordem não progride aceitando complementos desordeiros. A ordem se burila se afastando da desordem, marcando oposições e claras distinções. Quando os partidos se misturam eles se aviltam e se reformulam antes de configurar novas coligações. Portanto, nesses termos humanistas – no escopo da cidade e da República, as construções humanas nidificadas entre vales e montanhas, na beira dos rios e dos mares em processos de ocupações gerenciados à luz de diversas miradas – relações e ideologias políticas, acontece que opostos são opostos e não se complementam; exemplificam eixos diversos e conflituosos. Quando deixam de se opor mutuamente para se aliar em novas identidades se configuram em conjunto avessos ao que é outro, reposicionando o estatuto opositivo em novas estranhezas, conflitos e formas antagônicas.

Quando a criatura se reconhece e se cogita ela deixa de ser apenas um elemento em tensão na natureza, transcende a imersão simples que é ser estado primordial, pré-histórico, para abraçar um estado-de-ser autoral e lúcido apto a afirmar: ‘eu sou o arquiteto da cidade!’. Nesse despertar a natureza humana evolve num patamar acima dos períodos precursores, adquirindo uma dimensão metaforicamente transcendente. A humanidade, ao longo do Paleolítico, cada vez mais ciente de si e dos seus poderes fabris e decisórios, da sua especificidade criativa fundamental, estabelece uma praxe evolutiva capaz de contrariar os imperativos instintivos e naturais.

A ciência de si opera um novo domínio e responsabilidade, junto com a impossibilidade de ‘não agir’; não se posicionar é optar por não agir, que é agir. Não agir vivendo nas ruas e edificações citadinas, nas fileiras de algum Reich, seja Nazi ou não, outras ditaduras e matizes geopolíticos, é agir, é optar por nada opor ao que é mal. Não negar o mal, invocando hipotéticas complementariedades transcendentes é optar por acomodações muitas vezes convenientes e lucrativas. Console alguém pensar no nazismo, ou outras iniquidades, como complementos esotéricos apontando os germes de uma evolução oculta? A iniquidade jamais poderá ser a semente da virtude, ela é sua negação! O mal social não se relaciona em alguma paridade operante com o bem estar social, nem se alinha nas mesmas mensuras: o mal ético é a negação do bem; bem e mal não se convertem um no outro, tampouco se complementam; aqui não existe um eixo de pólos e opostos rumando em compassos produtivos numa mesma direção. A conjuntura que faz chover e movimenta o crescimento dos bambus não descreve as legitimidades dos atos políticos, seus decursos históricos e decisórios; o homem, ao longo do intervalo esticado entre a sua origem biofísica e a sua final desagregação é senhor nos seus reinados, paira como uma águia, acima dos determinismos da natureza mãe.

Na cidade, território humano suis generis, marcam-se escolhas que não se harmonizam por necessidade; um governo autoritário não é dialógico; acreditar no mito da salvação não combina com a crença no eterno retorno; uma sociedade participativa nas suas múltiplas funções, econômicas, pedagógicas e outras, não pode ser piramidal, ela não é elitista: neste contexto opostos são opostos e não se complementam positivamente. No ethos citadino os opostos não se complementam; são praxes divergentes que correspondem a compreensões antagônicas da natureza humana. Advogar no sentido de harmonizar em processos complementários opostos éticos como se fossem naturais é regredir a uma forma pré-sapiente, arcaica, destituída de hiperconsciência transcendente; ser humano, na sua dimensão específica, confere o poder de optar entre dois grandes caminhos, evolução ou retrocesso.

As criaturas são efêmeras, civilizações surgem e desaparecem; neste contexto transmutante é mais sensato valorizar atualidades simples e intangíveis como abraços fraternos, ‘namastês’; valores que correspondem a uma forma definida de saber, comportamentos e educação; a uma configuração política e econômica que não está a serviço de frações e plutocratas, mas exemplifica uma estrutura societária virtuosa e civítica.

Caso, competindo em busca do poder societário, alguém advogasse os beneméritos de uma sociedade elitizada, estaria alimentando frações e oposições que não se pacificariam em nenhuma forma de convívio. Existe um caminho evolutivo, estacado em conceitos e pareceres teóricos, que leva a mais sapiência eco-humanista e outro que degenera e faz retroceder. O ser humano deve escolher; a decisão não acontece ao sabor do vento e correnteza dos riachos. Como reconheciam, em todos os azimutes, muitos antigos pagãos e pajés, filósofos pré-socráticos até Sócrates inclusive, a harmonia existe atuante no coração e na consciência de cada um querendo se reconhecer como criatura universal, elevar-se dignamente à natureza possível para nós, ao grau de homo sapiens.

Sendo o que se é, estado-de-ser atual e presente, acontecendo nos processos e na trama das interações cosmológicas, os melhores e mais criativos ordenamentos societários só podem surgir em contextos eminentemente dialógicos onde os recém-nascidos, os infantes, todos os viventes, sejam reconhecidos como portadores legítimos do Logos e Ethos atinente ao que somos como humanos, criaturas contextualizadas numa relação eco-humanista.

A cidade legítima e verdadeira é o lugar onde a ética naturalmente decorre e flui do reconhecimento dos cidadãos como fonte potencial, inerente e autonômica de saberes; uma perfeição que se exemplifica através do cultivo de metáforas e simbologias que dignificam, de mitos que libertam e enobrecem a natureza humana levando-a ao reconhecimento do seu estado-de-ser infinito e essencial, manifestando a única dimensão teleológica justa e ponderada – a dignificação do estado-de-ser ou natureza humana como caminho e verdade.

Existem duas perfeições: uma perfeição sistêmica que opera nas conjunturas ligadas ao estado-de-ser como estrutura biofísica e dinâmica onde tudo acontece de acordo com as leis da natureza; uma perfeição ética que se realiza quando a vida social, pedagógica,  política e econômica, reporta justamente à humanidade dotada da capacidade de ser razoável e nutrir uma filosofia maximamente criativa. Essas perfeições somadas, natural e ética, avivam esse elã solar típico dos indivíduos saudáveis com pulsão existencial dirigida em busca de floração.

Condicionada em arquiteturas urbanas insensatas, vivendo em coordenadas políticas geradoras de desrespeitos instituídas em diferenciações germinadas em âmbitos de dominação, ignorância e violência, a humanidade não está exemplificando saber filosófico, não esta no caminho da perfeição ética; as disposições e instituições da cidade não são como deveriam e poderiam ser caso se honrasse com receptividade, educação e mitos adequados, o potencial sapiente do ser humano,

Não se deve entravar a compreensão que na esfera cultural tudo está de acordo com o que se conscientiza, pensa, sente, deseja e atua; logo, facilitar a realização dessa sabedoria implica rejeitar os empecilhos; é o dever dos que vislumbram essa cidade nas suas imaginações nutridas de razões e saberes adequados e de acordo com o justo reconhecimento de si e responsabilidade associada, operar dentro de coordenadas que ensinam a compreensão fundamental de que somos um só ser  veiculando forças decisórias à luz natural da razão.

Da harmonia como categoria metafísica primordial ~ Harmony as primordial metaphysical category

pequens  passarinhos

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômio consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas desmoronam; o espaço-tempo passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes, construídos dos signos da natureza e dos significados dos observadores. Essa é a perspectiva cosmo-existencial onde a consciência e o mundo se entrelaçam com reciprocidade unitária; a consciência é do mundo que é da consciência, estruturando uma intenção radical e transpessoal. O Ethos, a moradia fundamental da humanidade, é um “rebis” alquímico, junção opositiva e complementária dos dois atributos ou substâncias da filosofia moderna; saber explicitado por Descartes-Espinosa, mas reconhecido por xamãs desde a alvorada do homo sapiente.

Nessa esfera cosmo-existencialista, o verbo “ser” opera e rege sem tempo passado nem futuro a não ser nas hipóteses das academias, cúrias, histórias e culturas; o único tempo desse verbo é o presente; ele também possui um modo típico que é o real, mais um complemento integrado, um estado, ou uma intenção necessária. Trata-se de um acontecimento onde se declina e se flexiona a existência num enlace radical onde ser e estado, como consciência e natureza, se conjugam impreterivelmente; ser é um estado presente e real, naturando. Genuínos, poetas, artistas e filósofos, antes de serem sujeitos enquadrados em culturas, reconhecem e vivem o mistério cosmo-existencial como categoria filosófica prima mais apriorística e essencial, trazendo a noção de completude e de unidade, evidenciando a participação sincrética e necessária do indivíduo e do mundo. A esfera cosmo-existencial assim experienciada é plena e completa, conjugando o indivíduo à totalidade. A essência, ancorada no ponto de junção desse mistério unitário, fecunda a totalidade do ser e seus estados num grande e supremo magnificat onde se compõe a vida num gerúndio infinito, declamando e cantando união; revelando-se que “todas as coisas estão cheias de deuses!” – Tales de Mileto.

Essa apreciação justa do paradoxo unitário, a consciência de ser cosmos, bem reconhecida e aceita, explicita uma comunhão existencial radical que evoca um sentimento de união e consagra o reconhecimento do Belo; uma realização sincrônica a um Ethos convivial, harmonioso e estético. Honrar essa união nas circunstâncias onde se vive permite inscrever felicidade na experiência vital; um bem-estar circunstanciado que resulta da capacidade de se pôr em sintonia com o real, celebrar no momento e estado atual as dimensões essenciais, além dos processos, fluxos e oscilações; um sentimento profundo onde enraízam os potenciais infinitos do amor. Essa consagração e celebração conjunta do Belo e do Ethos afirmam a estrutura cosmo-existencial, fenomênica e harmônica.

Mais basilar de que as metrificações do espaço-tempo e demais delimitações discriminadoras do pensamento, a harmonia pertence à estrutura psicofísica integrando o fenômeno como categoria cosmo-existencial prima. Como magno fundamento categórico, a harmonia traz as noções de completude e inteireza, ou plenitude, presentes por necessidade, brilhando na apreciação estética mais intensa e nos mistérios do espanto filosófico; mesmo intuída ao avesso, como um vazio, a plenitude, pungente e soberana, se manifesta no céu estrelejado, na beleza das flores, nos vibratos do violino, na intensidade dos olhares e abraços quando acontecem, preenchendo todos os espaços e lugares, integrando as flores do campo aos céus.

Habitar em culturas insanas, afundadas na dicotomia kantiana onde se nega a patente comunhão essencial do estado-de-ser, agremiações sociocratas regidas por humanos que desconhecem o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, significa viver em baldios descuidados, sofrer em manifestações políticas e teológicas espúrias que mascaram a unidade, fundamento verdadeiro da  existência e do amor. Habitar nesses contextos culturais despedaçados, mas querendo sustentar níveis de vitalidade suficiente, demanda a aproximação dos lugares onde se vive com intensidade, comunicando e recebendo sinais de harmonia; as criaturas que transmitem esses sentimentos e saberes, afirmam a verdade do estado-de-ser intuídas pelas musas, vivem nos arredores do grande portal que separa o mundo panteísta e suas sincronias harmoniosas do reino dos banimentos, das dissintonias, introversões e extrapolações teocráticas.

Mesmo vivendo em dimensões socioculturais e teopolíticas imperiais onde se renega a realidade unitária, ainda é possível sentir o estado-de-ser na sua completude, abraçar-se com a existência, conhecer o belo e o real. Sentimentos pacificados, permeados de momentos extasiantes, eternamente aguardam os que transgridam as impressões batismais anatemáticas e as maldições da ortodoxia para se reconhecerem harmoniosamente integrados ao divino que é a nossa mesma natureza. O encontro supremo com a essência sustenta a integração do estado-de-ser e manifesta a natureza extasiante do Ethos onde originamos e onde somos destinados a viver como um único povo; os que sabem comungar esse valor lembrando a fonte, uma fração sempre crescente dos existentes, já estão construindo a nova cidade.

Harmony as primordial metaphysical category

By: Régis Alain Barbier

To whom acknowledges the consciousness-cosmos binomial as an absolute phenomenon, declaiming in a radical monism the paradoxical unity of the substances and philosophic attributes, the Kantian categories collapse; space-time comes to be a wide momentum in which past and future are present, built by nature´s signs and the observers´ meanings. This is the cosmos-existential perspective where consciousness and the world interlace themselves with unitary reciprocity; consciousness belongs to the world that in turn belongs to consciousness, structuring a radical and transpersonal intent. Ethos, humanity´s fundamental dwelling, is an alchemical ‘rebis’, opposite and complementary junction of the two attributes or substances of modern philosophy; a knowledge explained by Descartes-Spinoza, but recognized by ‘xamãs’ since the homo sapiens’ daybreak.

On this cosmos-existentialistic sphere, the verb ‘to be’ works without past time nor future except in the academies´, curia´s, histories´ and cultural´ hypoteses; the only time of this verb is the present; it also possesses a typical mode which is the real one, an additional integrated complement, a state, or a needed intent.  It is a happening where existence declines and inflects in a radical union where being and state, as consciousness and nature, unfailing inflecting themselves; being is a present and real naturating time. Genuines, poets, artists and philosophers, prior to becoming subjects fitting into cultures, acknowledge and live the cosmos-existential mystery as more aprioristic and essential prime philosophical category, bringing the completeness and  oneness notion, evidencing the individual´s and the world´s syncretic and necessary participation.  The cosmos-existential sphere thus experienced is entire and complete, uniting the individual to the entirety. Essence, firmly secured to this unitary mystery junction point, fosters the entirety of the being and its states into a great and supreme ‘magnificat’ where life is composed in an endless gerund, declaiming and singing union; revealing that “everything is full of gods” – Tales from Miletus.

This just appreciation of the unitary paradox, the consciousness of being cosmos, well recognized and accepted, explains a radical existential communion evoking a union feeling and consecrating the acknowledgement of the Beautiful; a synchronic realization to a convivial, harmonious and aesthetic Ethos. To honor this union on the circumstances where one lives, allows to inscribe happiness in the vital experience; a detailed well-being resulting from the capacity of putting itself tuned with the real, celebrating at the present moment and state the essential dimensions, besides the processes, flows and oscillations; a deep feeling where love´s endless potentials are rooted. This Beautifulness´ and Ethos´ joint consecration and celebration affirm the cosmos-existential, phenomenal and harmonic structure.

More fundamental than the space-time metrifications and other thought discriminating delimitations, harmony belongs to the psychophysical structure integrating the phenomenon as prime cosmos-existential category. As great categorical principle, harmony owns the completeness and entirety, or plenitude, present because of need, shining on the most intense aesthetic appreciation and on the philosophic astonishment mysteries; even when reversely uttered, as an emptiness, plenitude, pungent and sovereign, manifests itself on a starry sky, on the flowers´ beauty, on the violin´s vibratos, on the embraces and eyes expressions when they occur, filling every space and place, integrating the field flowers to the skies.

To inhabit in insane cultures, submerged into the Kantian dichotomy where the evident state-of-being essential communion is denied, sociocratic associations ruled by humans who ignore the cosmos-existential metaphysical perspective, mean to live in neglectful barren plots of land, to suffer with political manifestations and spurious theologies that disguise the oneness, truthful foundation of existence and love. To inhabit in these shattered cultural contexts, but willing to support sufficient vitality levels, requires to come close to the places where one can intensively live, communicating and receiving harmony signs; the creatures who transmit these feelings and knowledge, affirm the state-of-being truthfulness uttered by the muses, and live around the large portal separating the pantheistic world and its harmonious synchronies from the reign of the banishments, dis-syntonies, introversions and theoretical extrapolations.

Even living in socio-cultural dimensions and imperial theo-politics where the unitary reality is denied, it´s still possible to completely feel the state-of-being, embrace the existence, know the beautiful and the real. Peaceful feelings, permeated of ravishing moments eternally awaiting those who infringe the anathematic baptismal impressions and the ortodoxy´s curses to harmoniously acknowledge themselves integrated to the divine which is our nature itself. The supreme encounter with the essence sustains the state-of-being integration and manifests Ethos´ ravishing nature where we originate from and where we are meant to live as a single people; those who know how to communicate this value remembering the source, an always increasing fraction of the existing beings, are already building a new city.

José Maria Tavares de Andrade – Terapia panteísta ou religião da Natureza


José Maria Tavares de Andrade
José Maria Tavares de Andrade nasceu em Nazaré da Mata (PE) em 16.07.1942 . Estudou no Seminário de Olinda e tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi jornalista (Revista Cruzeiro e Veja) e pesquisador da cultura popular junto a Mauro Motta (Fundação Joaquim Nabuco), Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna (DEC-UFPE). Desenvolveu o projeto Música Popular Religiosa que está na origem do Movimento de renovação litúrgica na Comunidade Eclesial de Base em Ponte dos Carvalhos – Cabo (PE) e do Movimento Armorial.Bolsista da Universidade Católica de Louvaina (Bélgica) entre 1970-73 obteve os títulos de Mestrado em Sociologia e em Linguistica. Fez doutorado em Antropologia com Roger Bastide (Sorbonne – Paris III, 1967) e Pós-Doutorado em Epistemologia da Complexidade com Edgar Morin EHESS, 1989.Ensinou na Universidade Estadual de Londrina (PR) entre os anos 1973-78 e em seguida na UFPB até sua aposentadoria em 1994. Atuou na Extensão Universitária junto ao pioneiro Centro de Defesa e Direitos Humanos, fundado por Don José Maria Pires. Criou a Disciplina Antropologia da Saúde/Doença e o Grupo Interdisciplinar de Plantas Medicinais ensinado e pesquisando no Mestrado em Ciências Sociais da UFPB.Deste 1994 é pesquisador do Institut de recherche interdisciplinaire sur les sciences et la technologie – Université de Strasbourg – França, sendo responsável pelo Seminário de Etnomedicina.Publicou entre outros: “Magie, ethnomédecine et religiosité au Brésil”, L’Harmattan, Paris, 2013 e “Terapia panteísta Religião da natureza”, Massangana, Recife, 2010.
Terapia panteísta ou religião da Natureza
O movimento panteísta (1922-1964) foi estudado em Recife, enquanto fenômeno mágico-religioso extraordinário, enigmático e eclético, mais que sincrético. Ele é polêmico quanto às suas origens e seus impactos na cultura popular, segundo interpretações diversas que foram dadas pela impressa escrita ou por pesquisadores da época. Trata-se de preservar elementos da pesquisa, feita com a colaboração do músico José Generino de Luna, sobre Música Popular Religiosa (DEC-UFPE, 1067-70). Enquanto alguns movimentos religiosos, ou movimentos sociais em geral, destinam-se a entregarem uma tendência global, de unificação ou padronização cultural, o Panteísmo ao contrário, recuou para um “paradigma perdido” – termo utilizado por Roberto Motta, ao escrever o prefácio do livro.
 

Metafísica: psicogeografia e teopolítica ao redor das muralhas românicas

bring back the throne

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômino consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas caem e revolucionam! Desmorona o espaço-tempo que passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes feitos de signos da natureza e significados dos observadores; tudo é esférico, consequente e decorrente; assim sendo, é possível, na mesma narrativa e poucos parágrafos, pincelar e agregar, em significados plenos, eventos distantes e seculares;  evocar o “nada sei” de Sócrates, as vitórias e derrotas dos césares, falar do divino como um todo, tantra e salvação, da modernidade e das utopias, abraços e esperanças dos poetas: tudo se conjuga, faz sentido e se explicita na trama evolutiva.

A poderosa Roma, agregando pedaços de territórios, riquezas e culturas das terras e povos conquistados, lentamente, se agigantou e, como tudo que cresce, se desagregou. No século IV, o Imperador Constantino, senhor da metade do Império, encomendou aos sacerdotes em desacordos uma única visão, tentando atrelar a aventura imperial decadente a um mito forte e consensual, procurando manter o curso da carruagem teopolítica. O império chegou ao fim nas ondas iradas e vingativas dos visigodos, mas ainda não caiu o papado que continua laureando os novos césares, dando coroas aos vassalos dos plutocratas, como antes dava aos invasores germanos, mantendo a sua pompa palaciana.  Hoje a igreja imperial continua regendo das ruínas dos césares, onde sacerdotes mansos vestidos de branco e escarlate assentam em tronos de outrora, infundindo a doutrina imperial talhada para bem servir os poderosos, abençoando as massas banidas do céu, ajoelhadas e vencidas nos percalços da história e dos mitos, esperando com fé uma vida plena além dos umbrais da morte.

Mas como todos os povos de antes da conquista e de sempre, ao longo da totalidade dos séculos, Incas, Tupis, Guaranis, Ianomâmis, Carajás, Jurunas e tantos outros, celtas, gaulês, jônicos e outras mil tribos de pagãos do além-mar e das quatro direções; somos todos da terra, temos origem caipira e indígena; os humanos atuais e toda a linha dos mamíferos  antecedentes não nascem em repolhos, ninhos de cegonhas ou pias batismais, tampouco em frascos de laboratórios: nascemos em úteros de mulheres, somos frutos originais e produtos do sistema solar, resultantes de muitas miscigenações e repiques, de uniões e atrações bioquímicas, biofísicas e amores carnais; todos enredados numa incomensurável e única teia de eventos. Entranhada nos decursos progressivos da lucidez e autonomia cosmo-existencial, a natureza, continuado e universal processo de individuação, manifesta um fragmento da imensidão no momento em que nasce humana.

Essa cosmologia feita humana não merece e não deve receber o grave e estranho anátema, a impressão batismal enunciada pelos sacerdotes do Império: afirmando os nascidos como banidos da esfera celestial; concebendo os corpos e o Ethos como veículos facultativos da vida; indivíduos não originais dessa terra e florestas, almas e espíritos zumbis provindo de um radical além-mundo, do sobrenatural das hipóteses! Tal anátema abala e destrói o bom senso, recolhe a inteligência natural do estado-de-ser e embrutece o Homo sapiens. Espantado, o psiquismo sensível e indígena, significativo e real, que deveria acompanhar e reger a vida como um gênio inato, desconecta do estado-de-ser gerando um sentimento intenso de perdição, mergulha num nimbo ignaro e carente onde parece destituído de rumos e paradeiros, algo acidental, pronto a submeter-se a vaporosas psicanálises e rigorosas catequeses.

Desenvolver-se como se deve, de acordo com a natureza, exige um saber cuja lucidez e fonte não se acham nas cúrias e academias sustentadas e sustentadoras do sistema que desonra a luz natural da razão. O o amadurecimento e a ressurgência do homo sapiente exige uma compreensão e reconhecimento radical, negações firmes e escolhas decisórias, transculturais e metafísicas. A humanidade é adequadamente civilizável, mas apenas em culturas amáveis, livres e igualitárias, fazendo jus à natureza original e unitária do estado-de-ser: o homo sapiente necessita e merece uma educação ponderada, transmissora de mitos que honram e enobrecem a natureza intuída na esfericidade cosmo-existencial, assentada no seu Ethos refletindo o Logos à luz da razão natural. A espúria piramidografia e triangulação educacional, psicanalítica-terapêutica degenera a criatura humana e sustenta um sistema escalar de representantes e representados, Superego, ego e Id  que não são capazes de promover um mundo dialógico e não permitem que se revelem arranjos circulares, esféricos e horizontais dignos de uma grande fraternidade onde possam conviver todas as criaturas em harmonia; o tríptico da prepotência e superestratificação sustenta e confirma a vigência de impérios culturais, econômicos e políticos truculentos e insanos.

Iludida por mitos e impressões batismais que renegam as evidências unitárias a favor de hipóteses escapistas afirmadas com arrogância, desprivada da sua visão nativa e capacidade de sentir a congruência e a totalidade, a criatura é induzida a imaginar uma ruptura substancial entre a sua percepção (mundo transcendental do sujeito) e o dado-a-ser que naturalmente se percebe, rompendo dessa forma a unidade fenomênica do processo existencial; uma ruptura que permite iludir a absurda existência de uma “coisa-em-si” que jamais se conhece, domínio da esfera transcendente, arranjo hipotético e reservado das coisas do além, palanque do deus teísta sobrenatural e mitologia associada. O eixo de perspectiva metafísica que sustenta a vigência da edificação românica pode ser adequadamente definido como transcendente-transcendental. Uma equação metafísica ilusória e dualista que transforma o dado-a-ser denotado à luz da razão natural em nulidades e representações artificiosas de algo cuja realidade não pode ser comprovada a não ser deixando de reconhecer o que se é para acreditar nas perspectivas advogadas, ou seja,  um esquema cogitado e ensimesmado no interior  de muralhas para melhor servir os interesses de um domínio cuja intenção profunda renega a filosofia e prudência a favor das constrições do divinizado status quo imperial.

Teria existido na antiguidade, orla externa ao círculo das muralhas de Roma, uma perspectiva metafísica hoje dificilmente imaginada nas obnubiladas ontologias e representações da atualidade românica?

Do lado externo das muralhas, lugares descritos pelos primeiros historiadores que viviam no começo da nossa era calendário, no mundo dos pré-socráticos, de Tales de Miletos e Heráclito, dos Taoistas amantes e conhecedores das coisas naturais, incubava uma visão profunda e diversa, um dragão apto a ser descrito em termos compreensíveis aos românicos. Essa perspectiva metafísica existia pressuposta e evidente, por isso dispensando descrições, mas hoje precisando serem ditas e afirmadas. No mundo antigo, o processo existencial metafisicamente contrastado com o românico, a perspectiva central em torno da qual se dialogava, negociando ideias e pontos de vista, era um eixo de perspectiva metafísica denominável cosmo-existencial. Lugar em que a estrutura e inteligência da natureza se interpenetram e realizam  a humanidade, junção existencial fenomênica onde se vive a forma unitária da consciência e do mundo, do ser e do seu estado; lugar onde a cosmo-existência se consagra numa fresta mística que existe entre a estrutura do mundo e da consciência; monismo onde se reconhece que, em quaisquer pontos da história e do porvir, cosmos e existência não se dissociam jamais, a não ser em pasmas e reflexões hipotéticas! No humanismo antigo, a medida de todas as coisas tendia a se equacionar e naturar na lucidez desse cosmo-existencialismo; a apreciação sensível, qualitativa e filosófica desse fenômeno é determinante na configuração de uma estrutura societária mais sábia, onde se possam orientar bons destinos, éticas e praxes.

Uma vez desenhados e reconhecidos, os dois eixos de perspectivas metafísicas – da coisa-em-si de lá e de cá – denota-se com clareza o que diferencia o mundo antigo, com grau de sapiência eclodido e amadurecido, do mundo românico imperial: de um lado a ordem societária é mantido e regida à custa de decreto de decisões elitistas; do outro, tende-se administrar as coisas da cidade em diálogos e debates que acontecem ao redor de círculos dialógicos e conselhos de anciãos e sábios. A visão do divino e sagrado dos antigos e pagãos, dos que margeiam as muralhas, tende ser dialógica, central; se o divino, belo e sagrado, os deuses e deusas, vivem entre nós, podem ser contatados e serem conhecidos por todos, não existe ninguém com espaço reservado. Na perspectiva natural, a consciência esclarece o cosmos que se conscientiza numa iluminação absoluta; uma realidade inabalável até provar em contrário, um fundamento essencial, monístico, paradoxal talvez, que só se renega toscamente, recorrendo a hipóteses imprudentes evocando sobrenaturalismos milagreiros e orfismos radicais, reinos de eurídices que jamais se contemplam; ou dito em prosa seca e franca, hipóteses e imaginações que não passam no crivo do bom senso. Algo tão perfeito, perene e fatal, universalmente reconhecido como a junção paradoxal dos atributos de Espinosa e das “res” de Descartes numa forma unitária, algo alquímico quando a consciência e o mundo se entendem como Tao, só pode gerar paz nos momentos civíticos e citadinos da existência, expressar oitavas de harmonias claras.

O sistema civilizatório que se elaborou e amadureceu no seio da evolução política imperialista, universalizou-se ao redor do mito abraâmico  que na esfera geopolítica do Império Romano melhor sintonizou e magnificou esse impulso dominador e imperioso junto com essa noção teocrática que, juntos, geram esse absolutismo intolerante e messiânico, na órbita do qual se entranham o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, que advogam esse orfismo radical e sobrenaturalista onde se ancora o hierarquismo imperial cuja legitimidade e bom senso desmoronam ao afirmar o eixo mais antigo de perspectiva  metafísica aqui apontado e denominado cosmo-existencial.

Essa aspiração ou utopia filosófica e científica de harmonia universal e panteística, visão ancorada ao que é justo e sensato nas pautas e rimas de um processo evolutivo imaginado bem sucedido, não pode ser apenas o sonho reservado de alguns pensadores, elaboração reativa e neurótica frente ao padrão românico, lugar em que o impera o eixo de perspectiva metafísico teísta piramidal e hierarquista. Previnem-se apressadas impressões alienistas deixando claro que como um movimento oscilante, em gangorra, a expressão progressiva de adequação evolutiva de uma espécie vicejando em busca do seu loci verdadeiro e ponderado não se observa plenamente nas durações curtas das nossas vidas e das histórias que se contam.

Os dois pareceres, o eixo de perspectiva transcendente-transcendental, piramidal, representativo, fiduciário, opositivo, retraído e escapista frente à apreciação  mais gozosa e extática da vida, versus o eixo de perceptiva cosmo-existencial, aberto a formas filosóficas e teológicas extáticas, celebrando a trama universal, dialógica, circular, esférica, lastrada em coisas telúricas; ambas as tendências e humores, ou modos de existir, coexistem como as máscaras da Commedia dell’arte, entranhados e alternantes, concomitantes, esboçados nos dois lados dos conflitos, mesmo quando rigorosos e dramáticos como se articulam na história como a invasão românica da santa terra das tartarugas, todas as batalhas, até mesmo na grande batalha mítica de Kurukshetra que findava rigorosamente ao pôr-do-sol, pois à noite havia confraternizações entre os soldados de ambos os lados.

Existe no cristianismo, no sufismo, no cristianismo esotérico, em certos aspetos pitagóricos da tradição hebraica, movimentos e aberturas em busca do sublime que tendem a ponderar, desmascarar ou negar o  radicalismo do eixo dualístico onde as tradições e praxes históricas atrelam delimitando a trama existencial em divisões rigorosas; essas buscas tênues e desordenadas de unidade amorosa e aproximações ponderam e amenizam a natureza fortemente antitética das veracidades em confronto. Ademais das expressividades monistas e exemplares dos pré-socráticos jônicos, taoistas, algumas formas de zen, tradições xamânicas onde se usam plantas de poderes como sacramentos onde se ajuntam as coisas da consciência e do mundo em enlaces unitários, nos momentos onde tribos se reúnem em confederações pacíficas circulando o bastão da fala ou cachimbo da paz, existem igualmente, no mundo dito pagão, longe das influências românicas, pelejanças, rituais e bruxarias onde se lançam feitiços contra forças estranhas, consideradas malígnas, embora não sobrenaturais, evocando fortes dualismos.

Sintonias e dissintonias, simpatia e antipatia, harmonias e desarmonias, unidade e dualidade  acontecem na textura do mundo, onde as perfeições sistêmicas da natureza cósmica convivem com as expressões afetivas e éticas dos humanos, gerando episódios e momentos exóticos e atípicos, onde os eixos antagônicos de perspectiva metafísica se entranham de maneira complexa, mas no ritmo aparentemente insano dos eventos, momentos se organizam balanceados, deixando aparecer e revelando com clareza a direção dessas polarizações onde se confrontam as dimensões da insensatez e da credulidade com as dimensões da justa razão e ponderação, equacionando eventos dramáticos resultando  em mudanças intensas de paradigmas e epistemes. Nesses processos, compreende-se que um destino próspero e feliz exige que os sonhadores idealísticos imaginando viver em espaços etéreos desprovidos de matéria, de acordo com visões arcaicas onde se confundem metáforas com a realidade tangível, devem se render à realidade que a medida das coisas que acontecem entre o sol e a terra ajunta em união às coisas do mundo e da consciência sensível e racional em formações civíticas onde se valem a totalidade das partes e níveis existenciais, círculos dialógicos, participações plenas e igualitárias com todos os que vivem irmanados no mesmo arco cósmico de existência.

No fluxo desses eventos vitais, uma civilização regida através de eixo de perspectiva como-existencial, ou panteísta, desponta como um advento imprescindível, uma  realidade necessária, para que possamos acontecer em harmonia, extraindo do Ethos e Logos a ética universal que deve ser atrelada ao bom mito do eterno retorno e da esfericidade onde se reconhece que vivemos em realidades políticas de acordo com que achamos ser: infernos, imaginando-se  banidos; paraísos, imaginando-se no lugar adequado celebrando um panteão de lucidez onde a consciência e a imaginação se ilustram em narrativas onde se apreciam o belo e divino, povoando o mundo de deuses e deusas em harmonia com o dado-a-ser, absoluto detentor do grande mistério existencial que é como é, sem que jamais se possa saber por quê.

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