Mês: agosto 2016

A BALANÇA DO JUÍZO: financiar igrejas, mesquitas, sinagogas, ou escolas de filosofia?

Régis Alain Barbier

amulheta

Honrando os nossos potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva.

A humanidade é dotada de intelecto sensível e racional, caraterística definidora. Respeitar a natureza humana é antes de tudo honrar esses talentos. Trair a razão é trair a humanidade. Mas o que demonstra o intelecto racional e sensível no que se refere à nossa identidade?

Que somos natureza ajuntando na nossa anatomia e fisiologia os vetores da evolução fisioquímica e biológica dos estados antecessores que, em conjunto, se conectam à totalidade da trama cósmica. Essa identicidade universal é o fundamento de todas as afinidades e harmonias. Não sendo demasiadamente rústico para se deixar prender a padrões culturais que cerceiam a liberdade e capacidade de escolher, é natural do ser humano exercitar a sua imaginação criativa até ampliar a inteligência em níveis sempre mais abrangentes de consciência, até a realização do ‘grande espírito’.

O significado do termo ‘grande espírito’ não se inteira nem capacita delimitado em logicismos, tampouco reportando a narrativas surreais creditadas como fatos, não é objeto nem fábula. Entende-se que a intuição teológica não reporta a disputas hipotéticas e exorbitantes referentes à existência objetiva ou não de entidades divinas ou espíritos entendidos como substâncias. Nos alcances e focos terminativos do intelecto, lugar onde a consciência intersecta com seus objetos, o que se refere à teologia e seus conceitos não se explicita por intermédio de perspectivas fideístas ou positivistas, mas metafísicas. As rixas inconcludentes onde se opõem as diversas formas de teísmos, ateísmos e cientificismo, passam ao largo do saber por acontecer, como ação e reação, na gravitação da perspectiva dualista historicamente encampada, prevalecente e não radicalmente desafiada. O que é divino só pode assentar em virtudes que não se conhecem por intermédio de sacerdotes, ritos e histórias tradicionais, mas sim pelo exercício criativo e sábio do intelecto razoável e sensível.

Quando não barrada ou insultada nas catequeses, envenenada em preconceitos, coagida a se renegar e decair crendo no absurdo, a inteligência, como um pássaro pedindo ar, exige satisfação, isto é liberdade. Em algum momento, em uma das portas da percepção, a harmonia tilinta ao celebrar concórdia e selar comunhão entre as coisas e o cogito, um encontro fecundo acontece catalisando uma reação inteligente e extática em que a totalidade do universo se reintegra no arco do saber pleno.

Apenas na jubilosa admiração dessas reconhecenças pode resplandecer a glória que extasia e agigante o espírito. Como é falso e triste afirmar ser a paixão um sentimento, gosto ou amor intenso que ofusca a razão! É precisamente a lucidez e intensidade culminativas do intelecto racional e sensível que permitem reconhecer com inteligência e gosto a unidade complementar da infinita diversidade, condição fundamental para a ressonância da harmonia, o surgimento da satisfação e quietude. É através desses encontros extáticos que a razão qualificada se justifica e se reinstala no arco dos seus limites, no cume do saber. Quando se reconhecem e cultivam esses potenciais, floresce o grande espírito onde, naturalmente, assente uma forma teológica monista, panteística, indutora de harmonia, plenitude e paz. Uma convicção positiva confirma a identidade e qualidade igualmente universal de todos os seres e eu. Apenas desta forma pode imperar o respeito e a lucidez, virtudes necessárias à instalação de uma sociedade livre, fraterna, igualitária e de governança apropriada, ou civítica. Estamos tratando das implicações da justa reconhecença da nossa natureza universal, ou da sua negação, nas dimensões societárias, efeitos esses bem reais e eficazes no sentido de projetar bonanças ou tragédias ao longo da nossa história. Neste texto, o que reporte a assuntos teológicos se explicita e se ilustra em evidências imediatas, apontam-se condutas e comportamentos, dedicações, devoções e suas decorrências nas relações e realizações humanas.

É da natureza do intelecto afunilar as suas buscas em dois eixos de perspectivas metafísicas, apontando duas possíveis relações entre os atributos conscienciais e objetivos (cogitans e extans). Uma perspectiva concebe esses atributos desintegrados, sendo a consciência entendida como algo sobrenatural e independente dos seus objetos, a outra enlaça esses dois atributos numa unidade, a consciência é consciência ‘de’ por necessidade; nas suas elaborações culturais um desses conceitos se cristaliza em metáforas e narrativas adquirindo contexturas, estabilizando e regulando condutas e práticas filosóficas ou doutrinas religiosas aptas a serem transmitidas e representadas.

São nessas definições e decorrências societárias, sejam apreciadas nas evidências e nas mensuras da inteligência satisfeita e alada, ou nas pautas dos ordenamentos que superestratificam a luz natural da razão a favor de sobrenaturais notícias registradas por predestinadas, que se determinam o surgimento das civilizações, o destino das sociedades e nações.

Em sociedades organizadas e de maior densidade populacionais, as manifestações espirituais tendem a adquirir envergaduras que se reafirmam encenadas em cerimônias e tradições implicando simbologias específicas e construtos que, na propagação dos ritos e na dependência das perspectivas fundadoras, podem evolver até catedráticas e faustuosas realizações; na religiosidade dualista os cultos e as missas, eventualmente, comovem os fiéis como comoviam e motivavam as tragédias da antiga civilização. A perspectiva metafísica cosmo-existencialista, monista, se afirma no despertar da inteligência livre e curiosa ao realizar que a infinidade das criaturas e a diversidade dos contextos perfazem um grande corpo universal sendo igualmente saberes integrando um grande e único espírito; ao inverso, a teologia dualista avilta a inteligência e deixa os convertidos perdidos e destituído de sentidos, alienados, achando-se coisas desgarradas e desunidas.

Dias antes da publicação deste artigo, o Papa Francisco afirmou que não estaríamos experienciando conflitos religiosos, mas embates econômicos – uma opinião ingênua, a realidade não é tão simplesmente delimitável. A natureza dos grandes conflitos é teopolíticas; as estruturas e doutrinas religiosas estão coligadas a espaços geopolíticos e culturais nos quais se compartilham identidades e interesses resultantes. Além dos  embates históricos e contumazes (envolvendo países soberanos ou territórios) que as diversas tradições teístas, culturalmente implicadas, tentam abrandar, perdura um embate mais profundo e genérico. Estamos testemunhando o encontro de tensões arcaicas em que operam dois fundamentos: pelejas clânicas que se ensoberbecem em afiliações e ideologias de caráter religioso, em oposição a providências que intencionam aumentar a lucidez, harmonia e liberdade filosófica.

Manipulações monetárias, imposições e demais regulagens sociocráticas (exercitadas nos cenários e nas arquiteturas culturais do velho regime apesar da capa democrática) abençoadas por doutrinas teológicas que advogam uma incompetência humana essencial e impossível de ser sanada com motivação própria, mas com inspirações sobrenaturais transmitidas por representantes do divino, não configuram espaços socioculturais propícios a transformações. A máquina societária, gigantesca sociedade anônima de capital fiduciário dirigida por meios sociocráticos, combina e afina com a estrutura teológica dualista; nos doutrinamentos das igrejas, os homens comuns também são vistos como incapazes de guiar a si mesmo, precisando de pregações proferidas por especialistas em contato privilegiados com o ‘grande poder’. Cultiva-se a ideia que as condições para uma vida satisfatória são de difícil alcance, que estar bem nesse mundo é excepcional, que a paz existe além-túmulo.

Negar os ditames da razão que apontam ser a existência como se manifesta o tabernáculo universal da nossa identidade para extrapolar postulando uma causa prima sobrenatural e dogmatizar a existência de seres superiores conhecedores de coisas que o homem comum não pode alcançar, mas acreditar sem compreender, destrói a humanidade e aniquila os seus potenciais e dons além de reforçar a rusticidade típica dos primórdios com pseudojustificativas esotéricas para impor e exaltar sacrifícios na esperança de recompensas póstumas.

Induzidos e treinados para não cogitar nem analisar os conceitos fundamentais referentes às origens, identidade e natureza, mas para obedecer e crer cegamente nas doutrinas, alienados, os jovens derivam sem perspectivas existenciais próprias e profundas, constrangidos a restringir o foco dos seus cuidados a coisas menores – o que ter, o que fazer? Uma doutrina que remove as virtudes que enraízem no exercício do cuidado resultando da justa compreensão da identidade e natureza própria deixe a humanidade sem rumo e sem sentido. Os apelos à misericórdia, fé, caridade e esperança não reparam a perda do essencial. Os benéficos auferidos pelos manobristas do desmando são efêmeros e ilusórios. Sem reconhecer e praticar as virtudes que demandam o bioma para manter a sua coesão e saúde, a humanidade por inteira é destinada a um fracasso estrondoso e destruição radical.

A Compreensão de que não somos algo desconecto e estranho ao mundo, mas a união impreterível de um corpo e espírito universal, compele ao exercício do cuidado. Cuidar é a essência de todas as virtudes, é a virtude. Como a seiva que alimenta as árvores das raízes às flores, o sangue que nutre a totalidade dos tecidos, a virtude é a substância da vida boa e saudável. Apenas uma sociedade virtuosa pode existir na plenitude dos seus potenciais.

O que, essencialmente, faz desaparecer a virtude dos convívios deixando a sociedade humana profundamente carente e doente? É a crença de sermos adventícios num mundo facultativo, vivendo culposamente num meio hostil e punitivo com o desígnio final de se salvar dessas impropriedades para habitar um lugar póstumo onde se supõe residir a virtude. Enxergar-se como criaturas inadequadas, deslocadas e banidas num ambiente alheio, remove a virtude do âmbito existencial, fenece os potenciais da cooperação, da conectividade e dos convívios gratificantes passando a imperar a improbidade.

Considerando o habitat estável e propício, é a qualidade cultural que passa a ser o fator mais categórico na determinação do destino de uma população. Quais os preceitos culturais que mais decisivamente determinam essa ventura?

A consideração é um desses preceitos essenciais. Como os habitantes se consideram entre si? A igualdade fundamental dos indivíduos frente às diretrizes da providencia (origem e destino final, necessidades, susceptibilidades e fragilidades semelhantes) gera equidade e fraternidade? Ou eles se consideram de modo diferenciado em função de eventualidades e circunstâncias históricas, derivações efêmeras comparados à igualdade e fraternidade antrópica que repousa no arco do tempo?

Como se identificam? Consideram-se partes integrantes da natureza, produções universais, junto com as demais entidades que coexistem e compartilham o bioma em relações de interdependências? Reconhecem a sua natureza conjunta, especificamente humana, como um dos elos de uma imensa linha evolutiva entranhada na trama universal considerada como espaço criador e sagrado? Ou então se imaginam distintos, oriundos de outras esferas? Estabelecem entre si relações diferenciadas em funções de mitificações, colocando-se como enviados para cumprir missões esotéricas explicitados por demiurgos?

Como se relacionam na hora de resolver conflitos? A população se discrimina e se desconsidera em função da cor da pele, de eventuais ocupações territoriais ou afiliações políticas e religiosas? Nos mesmos grupos étnicos, a população se desconheça em função de possas, laços familiares, gêneros e idades, outros critérios similares?

Apenas honrando os nossos dons e potenciais específicos em busca da manifestação plena da inteligência sensível e racional, poderemos temperar com coragem, justiça e prudência a natureza bruta oriunda da linha evolutiva; esperar dois milênios com fé a caridade de uma força oculta para poder evoluir comprove não resolver problemas, tampouco implementar nossos deveres.

Aceitar a inexplicabilidade da existência e reconhecê-la fundamental ancora o ato de existir nos parâmetros da criatividade universal; a noção de identidade se afirme na mesma sintonia, assentando-se paradigmático o reconhecimento e saber que o conjunto dos seres criados conforma o cosmos.

Tal assentimento respeita plenamente os potenciais da razão e honra, sem exorbitância, a nossa natureza e seus limites. Resulta dessa lucidez filosófica consequências fundamentais. A identificação universal do grande e variegado conjunto dos seres criados, de todos os reinos e todas as espécies, estabelece a base da igualdade e da fraternidade. Sucedendo a existência no presente, é na atualidade, mas enraizada na eternidade, que acontece a grande trama geradora de vida; uma realização que induz a um respeito profundo, firmando-se a responsabilidade de zelar pela natureza que é nossa. A unidade dos existentes frente às grandezas, forças e substâncias que os determinam induz a uma forma de governança dialógica e igualitária, civítica.

Portanto, estamos vivendo embates titânicos. São as perspectivas metafísicas, indutoras de formas teológicas, que como a mítica balança do juízo final, determinam o destino da sociedade humana. Apenas a perspectiva filosófica que reconhece a nossa justa natureza e identidade como um grande corpo e espírito universal será capaz de induzir a prática do cuidado que, como um rio, permite a circulação da virtude que enaltece e engrandeça a vida, honrando a existência. A perspectiva fideísta que rejeita essa identidade, faz pouco da natureza destrói a comunidade, sacrifica e castiga a vida na esperança absurda de poder encontrar na morte a unidade e a paz antes renegadas.

É o entendimento é a pratica sensível do que é divino, a teologia, que essencialmente determina a evolução e destino da sociedade humana: sejam, iniquidades, guerras e destruições em massa na perduração e predomínio da perspectiva teísta e suas religiosidades coligadas, apesar de toda a fé, caridade e esperança, ou, o reencontro da perspectiva panteísta, o advento de uma sociedade de respeito, próspera, feliz, justa, corajosa, prudente e temperada. Leitor, você também decide, templos ou escolas de filosofia?

Da civítica como apreciação estética da vida

drac-de-la-xina2

Da civítica como apreciação estética da vida

Por Diogo Filipe Santos Moura
*A meu amigo Gabriel Kafure

Depois de muito fortuita e longamente termos discutido e bem definido a metafísica que rege a busca panteísta pela plena bem-aventurança, chega o momento de nós, panteístas, assumirmos a tarefa de adentrar num campo não menos desafiador do que a compreensão das poderosas visões que se anunciam a cada um de nós em nossas meditações: o desafiador campo de possibilidade de uma ética-estética de vida panteísta derivada da postura civítica. Durante essa década de encontros, palestras, seminários, cafés filosóficos, etc, muito conhecidos e bem explanados foram os termos e o eixo metafísico que rege a filosofia panteísta, liberdade filosófica que nos permite, agora, perspectivar uma ética panteísta que tem na civítica seu provisório  acontecimento.
Dois pilares foram firmados em nossa irmandade ao longo das discussões panteístas em geral, e também a partir dos escritos de Régis Barbier, que nos proporcionarão a base para o caminho misterioso e mágico da autorrealização: o primeiro pilar se erigiu a partir da possibilidade de um recomeço de pensamento e postura de vida a partir da decisão firme de encarar a visão panteísta de que pertencemos e somos a natureza em todos os seus aspectos, um micro e macrocosmo interdependente, conectado a infinitas redes que se perdem na infinidade do tempo. O outro pilar é o que sustenta a possibilidade de uma constante remodelagem de si a partir da liberdade dessa visão de existência, o que Regis Barbier apontou muito bem como sendo uma autopoíesis. A partir dessas bases de sustentação de sentido gostaria de propor pensarmos como força para essa autopoíesis o conceito de homeostase. Esse termo permite a conotação existencial de caráter natural, panteísta, e que será a saúde, o vigor e o entusiasmo que suportará a postura pós-civítica, a postura definitivamente estética de fruição da natureza em sua multiplicidade infinita de aspectos a cada momento do tempo instantâneo, seu aspecto esférico abrigador de todas os sentidos ou, a condição de fruição do belo.
O famoso livro Ética a Nicômaco do grande filósofo grego Aristóteles (séc. V A.C) propõe como finalidade de uma ética a busca por um equilíbrio perfeito [doutrina do justo meio (mesotés)], do qual emanaria uma postura magnânima (megalopsikós) que seria não o resultado, mas a própria eudaimonía, termo grego que comumente é traduzido por felicidade, autorrealização. O que proponho aqui é que se retome o pensamento teleológico acerca de uma ética para que se fundamente a busca panteísta pela autorrealização que uma civítica proporcionaria aos praticantes e meditadores panteístas centrados no foco eco-humanista, e que esta postura civítica é o estado de equilíbrio que pode vir a efetivar uma ética estética de pleno usufruto das capacidades realizadoras que cada ser possui.
Proponho que a partir de agora passemos a pensar a civítica como a postura que conduzirá ao equilíbrio dinâmico do estado-de-ser por meio de abertura à criatividade do cuidar de si, que estará acompanhada de uma homeostase. Esse equilíbrio, ligado à forma como cada um o busca e o constrói, deverá redundar num estado estético nascido da autocriação, levando à plenitude de experimentar cada pedaço da existência de forma vigorosa, sábia e bela por si mesmo.
Tratar da possibilidade de uma ética que sustente efetivamente um estado-de-ser belo e vigoroso já foi objeto de trabalho de filósofos tão gloriosos como Aristóteles, Schelling e Baruch Espinosa, o que deve nos ofertar a luz que nos guie nesse caminho obscuro e difícil. O recente debate e esclarecimento do termo civítica cunhado por Régis Barbier para definir os rumos de uma política eco-humanística- panteísta é muito pertinente na medida em que aprofunda e abrange o uso do termo, o que me permite cunhar tal termo composto acima. Pelo que se nos apresenta, no momento, a possibilidade de assumirmos tal ética nos está à vista, sim.
Ora, a partir da metafísica sabemos que tudo aponta para tal possibilidade que nos é oferecida por meio do cultivo de ações geradas e alimentadas por pensamentos e valores ponderados, senso de justiça aliados à força do amor pelo existir. Gostaria de retomar a discussão de um termo, como bem definiu Regís Barbier, e por sua definição – a partir da possibilidade desse eixo de congruência entre ser e estar com as mais profundas e efetivas forças da natureza – pode estar contida no  conceito de autopoiésis.
Numa referência e homenagem ao grande filósofo grego Aristóteles gostaria de propor pensarmos a autopoiesis em sua profunda relação com a homeostase visando reproduzir a doutrina do equilíbrio (mesotés), num movimento de homeostase autopoiética como via para o equilíbrio e harmonia entre ser e natureza por nós almejado (Télos). Vislumbrar a tarefa de pensar a ética panteísta a partir da civítica é a admissão de que tal reflexão pertence tanto às nossas relações intimistas como públicas. O que é e como se dá a possibilidade de apreensão da relação harmônica preestabelecida entre homem e natureza, entre estado-de-ser e ser (Natureza) que a filosofia panteísta oferece? O termo Homeostase autopoiética pode ser definido como uma vigorosa saúde criada a partir de si mesma (poiesis) que emana de um ser em congruência com seu ambiente e, logo, com a natureza.
Uma especial ênfase nesse termo serve para nos apontar o pensamento de que uma saúde bem estabelecida emana do foro intimista do estado de ser para o social e vice-versa, estabelecendo a dialética harmônica entre ser-si e ser-com-o-mundo, que forma uma unidade copertencente de uma postura coerente de força, fluidez, verdade e beleza diante do mundo que se assume como a vida plena. Em outras palavras, poderíamos falar de um vigor belo de existir, que emanaria de um equilíbrio saudável de si, inevitavelmente tornaria o ambiente ao redor da mesma forma, de forma que tal equilíbrio saudável reproduzido em escala social necessariamente deve levar ao estado de convivência civítica. Chegando-se ao pleno exercício da civítica poderemos pressupor o estado estético de autorrealização como busca panteísta pelo conhece-te a ti mesmo e ao cosmos.
O que está em jogo aqui é a difícil compreensão de um muito conhecido, complexo movimento perpetrado pelas forças cósmicas: a copertença de homem e Natureza, ou Deus e Natureza numa unidade de liberdade ética-estética. A estética deve emanar da Civítica e da Civítica deve emanar reciprocamente uma estética, um movimento de unidade que não pode ser pensado jamais sob a ótica do procedimentalismo, característico das propostas éticas modernas positivistas e judaico-cristãs. Chamo de procedimentalismo ético o esquema puramente racional que determina que alguns tipos de ações levarão a tais e tais resultados, ou ainda que de tal procedimento deverá brotar tal resultado. Isso é um inequívoca ilusão, só permitida ao pensamento binário da razão da metafísica calculadora, não à unidade do monismo panteísta relativístico. A dificuldade que aparentemente pode brotar durante a busca de se entender esse descentramento racionalizador do sujeito psicológico, deslocar a noção de “eu”, “mim”, se deve à formação societária que sofremos em nossa desnaturação social, uma desorientação que não permite pensarmos fora de esquematismos logísticos que visam um objetivo imediato, fardo do dia-a-dia na luta pela sobrevivência. Para podermos bem compreender como se dá a unidade ética estética do panteísmo podemos contar que ela acontece, dentre muitas, de duas formas que gostaria de destacar: pelo hábito, impulsionado por um coração sincero e por um “estalo” do espírito, um “salto mortal” do espírito, uma virada repentina que descortina a verdade (Göethe)! Um movimento está ligado ao outro também, indissociavelmente. O salto acontece e gera a busca, e a busca impulsiona até o momento repentino do salto.
Pensar autopoiesis e a homeostase como via possível para um ethos estético autorrealizador passa também pela tarefa de se pensar um modelo social onde se superam e se descentralizam as representações partidárias das melhores decisões a serem tomadas para o bom funcionamento do público, algo que tem causado um profundo mal-estar na civilizações herdeiras de modelos de superestratificação. Como nos sugere Barbier “as relações sociais aconteceriam em consonância com esse sistema solidário e harmonioso de princípios operantes, ou ethos. Ethos[êthos,ous].”
Retomando a definição grega original da palavra ήθος (éthos), ela nos vem à luz como lugar do abrigar humanos. Um abrigo é um lugar que necessariamente deve possuir um piso e um teto. Esse piso e o teto humanos podem ser justamente propostos como as balizas para a sustentabilidade da rede humana, que deveria inverter os valores e se tornar muito mais cooperativa do que competitiva. O que já nos mostra os organismos cooperativos, muito mais estáveis e duradouros do que os competitivos, é que esse tipo de relação de cooperação faz parte de uma forma de vida mais prática. Como baliza para a convivência harmoniosa gostaria de propor como o eixo cognitivo o que Regis Barbier tem tratando até aqui e que parecem compor o eixo ético de nossa doutrina: as quatro virtudes cardeais. Retomar o argumento da quaternidade, o de um eixo ético como baliza para um ethos panteísta é a missão e a sagrada busca dos viajantes ermos do cosmo misterioso. O equilíbrio homeostático referido nesse texto passa pela compreensão panteísta da copertença entre Civítica e estética, que será a mesma de homem e Deus, ou seja, a Natureza. Compreender os modos de ser do homem e, consequentemente, da Natureza, do ser si mesmo, poderá se apresentar como o caminho da liberdade para a ética panteísta civítica. O ethos esteticus panteísta surgido de uma postura civítica, entendido como piso e teto humanos de um abrigo cooperativo e copertencente se faz necessário diante das grandezas e mistérios abissais da natureza muito respeitados, amados e buscados pelos livres panteístas que amam beber da fonte que eternamente desce daquele monte, ainda que seja de noite.
Com o entusiasmo de retomarmos essa busca, tomemos como gloriosos guias os que vieram antes de nós, pois a quaternidade do ser, ou seja, da natureza, a terra, o céu, a vida e a morte, esse piso e teto do verdadeiro panteísta, sua casa, é almejado como essa ética-estética que já estava muito bem representada como ética cosmológica para os filósofos originários da antiga Grécia na gloriosa visão grega do éter, o palco dos astros, e pelas forças ctônicas, o ventre de gaia de onde é gerada a força criadora autopoiética da physis; Essas forças estavam também nos deuses olímpicos de divina beleza, força e sabedoria e também nos homens, criaturas criadoras sempre em face da abissal finitude, buscando a imortalidade – prerrogativa divina – por meio dos grandes atos e grandes pensamentos. Esse ser destinado à beleza, que de tantas possibilidades abertas a ele escolhe a de sempre se transmutar em serpente e águia como o fez o Zaratustra de Nietzsche, que entre todas as tentações do deserto escolheu a liberdade de viver belamente, esse viver que sente a potência ctônica das profundezas da terra e se enroscarem com Igdrasil, a serpente do mundo.  Como um rio que corre pro mar, esse homem, uma vez achado nas profundezas perdidas de si mesmo, aquela criança que tinha vigor alegre, uma vez redescoberta escolhe ondular ao ritmo da dança cósmica de Shiva e também de quetzacoalt, a serpente emplumada de penas coloridas como cauda de pavão, pois a fusão de todas as cores é a unidade do branco, a unidade multicor do coração dos Brancos cavaleiros trovadores de Provença e sua heráldica poética cavalheiresca, branco da paz, branco da clareza.
Uma força deve surgir do espírito do panteísta para que ele busque compreender a misteriosa relação de pertença das forças cósmicas antagônicas que regem do micro ao macrocosmo. Para que haja todas as cores, é necessária a não-cor, remetendo à copertença de ser e nada que equilibra o universo num compasso de dança tão bela que vai além de quaisquer palavras e, por isso, foram tão formidáveis os taoístas chineses que desenharam o yin-yang, o compasso cósmico de ser e não-ser, ser, entre criação e destruição, entre vida e morte, entre céu e terra. Dos mesmos chineses taoístas vem a nós a lembrança do poderoso dragão Yuan-shi tian-zong, que na lenda emerge das profundezas  da terra e sobe aos céus para resguardar os tesouros da alma, pois o sabem as potências ctônicas do infinito fechado da terra e o sabe também do infinito aberto do céu, onde brilham habitam as estrelas com seus incansáveis fulgores.

Desenvolvido por: Midia12