Mês: novembro 2013

Fotos do1º Colóquio Internacional Panteísmo – Princípios Filosóficos

Justificando René Descartes, corrigindo iniquidades

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Régis Alain Barbier  

René Descartes reinaugurou o diálogo que permitiu reiniciar a terapia do sujeito destinado a se enxergar como totalidade.

A Igreja imperial, para quem pensar com autonomia é potencialmente pecaminoso e expressar prazer sexual era sinal de bruxaria, dominava no Medievo mediante a mitologia judaico-cristã. Ainda majoritário, esse fundamento mítico elitista se projeta no intelecto como disfunção epistemológica e, no âmbito laico, se generaliza em paradigma científico por contágio pedagógico e metodológico, mas a dicotomia inaugural, naturalmente desafiada pelas crianças, filósofos e poetas criativos, decorre do sistema metafísico subjacente instituído em enraizamentos históricos abraâmicos, masdeístas e greco-romanos que não pertencem a René Descartes (1596-1650).

Evocando “substâncias” fundamentais como ordenamento metafísico do estado de ser, polos decorrentes ou complementários, a meditação cartesiana, como uma pedra filosofal, fomenta um exame preciso do “ato de ser” no mundo que patenteia o fundamento nuclear e alavanca teórica dualista da disfunção civilizatória; dessa forma instigado, um pensador hipotético e desimpedido, situado fora da jurisdição inquisitorial e isento, poderá intuir as implicações presumíveis.

Como demonstrada por Baruch de Spinoza (1632 – 1677), o parecer sub rosa da meditação cartesiana, permite intuir uma perspectiva metafísica de natureza panteística que enunciada e explicitada desbanca a teologia dualista criadora desse deus afastado representado por elites, episteme e mitologia inaugural por onde, nas inúmeras frestas paradigmáticas decorrentes e coligadas, se fragmenta e destrói a nossa civilização.

Quem não intenciona blindar a Igreja e preservar o embasamento metafísico da tradição ainda dominante, reconhece que o filósofo que deteve a irracionalidade do Medievo com a argúcia necessária para não subir um destino similar ao de Giordano Bruno (1548 – 1600), é um dos nossos mais dignos, honrados e magníficos terapeutas.

DA FORMULAÇÃO TEOLÓGICA DA CONSCIÊNCIA

Consequências Políticas

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Régis Alain Barbier, Aldeia, 03 novembro de 2013

O modo pedagógico catequista típico das sociedades superestratificadas não permite o desabrochar pleno da razão, nos termos e compassos justos, desafiando a realização filosófica do estado-de-ser; a aceitação de coisas improváveis e desonrosas, menosprezadoras, como fundamento da natureza e experiências  existenciais deságua  em irracionalidades, desesperos e malquereres.

 ESTRUTURA METAFÍSICA DA IGNORÂNCIA REDENTORA E SALVACIONISTA

ENUNCIADO

Ao longo do processo evolutivo, ontológico, quiçá filogenético, o sujeito conscientizador se descobre isolado, um estado-de-ser limitado entre nascimento e morte; eventualmente, tal descoberta motiva um questionamento onde se procura o significado do processo existencial, com fortes matizes afetivas; inaugura-se a busca filosófica, a teleologia dos mortais. O começo da filosofia assenta nos compassos e umbrais que circundam a vida e a morte, no berço dos afeitos, nesse intervalo metafísico, para se tornar, secundariamente, argumento do intelecto racional. Frente aos desafios existenciais, o parecer teológico, suas categorias metafísicas e míticas, transita e é inicialmente evocado através de um parecer estético que assenta numa resposta afetiva “simpática” ou “antipática”. A elaboração dessas possíveis valorações surge na apreciação imediata e sensível da relação fenomênica que opera nas tensões entre as coisas da consciência e as coisas da existência, no intervalo entre as “res cogitans” e “res extensa” de Descartes e os atributos de Espinosa; a raiz mais profunda da filosofia, como a arte, nasce no coração do intelecto sensível.
Típica das sociedades superestratificadas (nota 1) , a cultura dominante determina um parecer fundamental estipulando uma resposta metafísica deslocada, dogmática e insensível, evocando arquétipos, mitos, ritos, tradições e “ortolocuções” (nota 2)  referentes; do ponto de vista da ciência filosófica esse parecer inaugural típico, ou “impressão batismal”, elabora-se como perspectiva metafísica porque explicita a afirmação de um significado que transcende a situação ontológica e singular, as possibilidades cognitivas razoáveis do estado-de-ser, numa elucubração teleológica, no caso um “teísmo redentor e sobrenaturalista”, uma forma de explicitação ou racionalização assentada em dogmas e interpretações ingênuas das coisas da imaginação; terreno instável onde se pretende justificar uma ética normativa combinante com uma temática fundadora societária e civilizacional.
Racionalizado e instrumentado em argumentos catequistas, encenado em ritos, o parecer metafísico, inicialmente enraizado em sentimentos e respostas estéticas sensíveis frente ao processo existencial, transforma-se em uma ferramenta  psicopedagógica ofuscante, um atalho em direção a uma forma teológica predefinida, construindo explicitações a priori e que poupam os viventes das inquietudes existencialistas mais intensas, contornando as dores e aporias da conscientização a favor de esperanças vãs  e fatuidades. Como a luta da borboleta ainda no casulo é fundamental ao desenvolvimento e robusteza das asas, a consciência poupada das cogitações profundas que acontecem à luz da razão natural, não se expande até as constelações que se devem visitar para apreciar a si mesmo, à  natureza e  aos  deuses.
A estrutura narrativa, locutória, perlocutória e ortolocutória do mito batismal, ou fundador, sua subjacente perspectiva metafísica, os arranjos urbanos e políticos diacrônicos e sincrônicos referentes e sintônicos a essa tradição doutrinária, arraigam e condicionam uma concepção inaugural e determinante de origem e identidade, perfazendo a personalidade do indivíduo e modulando as qualidades das suas contextualizações, potenciais e expectativas, assim como estipulando propósitos sistêmicos e finalidades para o processo existencial – normatizando-se dessa forma o sentido das buscas, realizações e problematizações, o leque e a natureza geral dos deveres e direitos, dos tabus, sofrimentos e prazeres. Através da perspectiva metafísica, suas expressividades arquetípicas, míticas, doutrinárias, linguísticas, elaborações gnosiológicas e psicopedagógicas decorrentes e referentes, explicita-se a “episteme fundamental”, ou inaugural, das expressividades societárias, necessariamente condicionadas  na “polis ” seus enquadramentos nacionais e civilizatórios.
As grandes epistemes cultuadas das civilizações possuem embasamento metafísico e teleológico e encontram corroborações nos paradigmas societários correlatos, primários e secundários: as formas políticas e comportamentais mais imediatas; as modulações da sensibilidade, dos humores e afetos; as formas reflexivas, científicas e cientificistas, de cunhos metodológicos e epistemológicos. Os ordenamentos  políticos, arquiteturais, societários, os direitos e deveres, valores fundamentais, as etiquetas, são diretamente condicionados em pareceres metafísicos e elaborações míticas. A explicitação mítica referente à origem, à  natureza e à  identidade do estado-de-ser, determina a estrutura operante do psiquismo e modula os potenciais do existente nos seus aspectos afetivos, posturas e posicionamentos gnosiológicos e epistemológicos, assim como os valores fundamentais, respeitos e desrespeitos, atribuídos a si mesmo e aos seus pares; a ética e a política. Em outros termos a arquitetura política, societária e urbanística da cidade é sintônica, proporcional e paralela à natureza psíquica, afetiva e gnosiológica do estado-de-ser, por sua vez condicionada através de uma perspectiva metafísica e narrativa mítica tributária de uma apreciação de valor – que seja escolhida de primeira mão ao abraçar os mistérios existenciais como se abraça um ser amado, ou cultuada nos ideais e decursos da tradição. A episteme e os paradigmas secundários que estacam as sociedades se revelam e denotam nas expressividades ortolocutórias da polis.
Na cultura dominante, hoje globalizada, de enraizamentos históricos masdeístas e abraâmicos (nota 3), o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (nota 4)  é o núcleo metafísico do mito e dogma da salvação redentora querendo explicitar o surgimento do Cosmos, de todos os seres, como criações objetivadas, teologicamente operadas por um sujeito transcendente, um “Théo” radicalmente separado e incluso numa realidade sobrenatural; nesse mistério, a entrada em existência dos indivíduos criados é considerada intencional sendo o objetivo e propósito  da existência postulado como uma redenção e retorno a uma situação espiritual ou essencial antes desafiada. Não receber, frontalmente e antes da idade dita da razão, a marca batismal e ritual do mito fundador num sacramento individual não impede de sofrer os efeitos gerais e ortolocutórios dos processos societários superestratificadores, usos e costumes onde o conteúdo e a forma do mito assentam como cultos tradicionais e instituidores. Aceitar o dogma da salvação teísta, visionar-se e imaginar-se hipoteticamente apriorístico ao cosmos, objetificado e metido num corpo por acidente ou necessidade redentora – como purgar impurezas originais – sem um reconhecimento imediato e sensato dessas justificativas esdrúxulas, conota um status quo existencial desprivado da sensatez necessária ao reconhecimento da sua verdadeira natureza, isto é, ignorante de si mesmo, destituído de intuição espiritual.
Cogitar-se, de acordo com a mitificação introjetada sem exames, como indivíduo pecaminoso, criado em contexto radicalmente provisório por um deus ignoto, afastado e incompreensível, equaciona um psiquismo profundamente dissociado e adulterado, onde o pensamento abstrato mais criativo, simbolizado como a esfera mítica de um divino criador, se estrutura como uma extrapolação psíquica hipotética que desintegra a identidade mais sensata evocando-se, de um lado, espíritos sobrenaturais e, do outro, corpos e inteligências subalternas como produtos ou mercadorias sacrificiais – nesse desequilíbrio e insanidade, prevalecem as formas e hábitos estruturantes da episteme geral do “sujeito neutral”, dissociado e lançado num mundo e natureza objetificados.

DO TEÍSMO REDENTOR AO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR 

PROPOSIÇÕES DERIVADAS

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO TEÍSMO REDENTOR
Desgosto, Desequilíbrio, Ignorância, Desgraça , Prepotência

Desgosto

Um parecer existencial eventual que desqualifica o valor da existência ao enfatizar sofrimentos muitas vezes societários, logo, criados e desnecessários, induz, por generalização simples um desgosto reativo frente à totalidade, desafiando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Desequilíbrio

A existência dada a ser passa a ser compreendida como uma esfera ilusória, facultativa e desnecessária, sendo o reino das hipóteses elevado a uma valência realística absoluta. Submetido a essa introjeção inaugural através de ritos batismais ou por contágio  geral, num processo de sintonização cognitiva ou memético, o intelecto se categoriza por dicotomia nos modos kantianos e a existência deixa de ser reconhecida como aventura cocriativa  e graciosa como atualmente compreendida  à luz dos ensinos da escola cognitiva dita de Santiago, para se tornar um determinismo assentado em princípios teleológicos apriorísticos e hipotéticos; incorporado os ritos da religiosidade salvatéria, o sujeito imagina ter sido lançado ao mundo por acidente, como forma ou objeto eventualmente criado, numa relação, de alguma forma, dispensável ou, potencialmente, desnecessária. Nessa ideia teológica  teísta,  redentora e salvacionista, as imagens literárias e pareceres racionalistas enraizados na escolástica superam em veracidade a experiência  e visão imediata do real. A retração do saber e inteligência sensível em hipóteses racionalistas encobre o acesso à via estética de consecução e realização mística, promove  a predominância do eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e induz a instauração de uma configuração existencial idealística onde existir, de evento primário de ordem necessário e de fato, passa a ser imaginado acidental e procedente de servidões e objetificações reveladas por especialistas, sejam profetas ou seus escribas sacerdotes, e escrituras tradicionais.
O equacionamento mítico dualista referente ao mito teísta da salvação redentora, a introjeção da perspectiva metafísica correspondente e configuração consequente do intelecto frente à barreira kantiana, instala e confirma no psiquismo a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica ignorante e fracionada típica da psicanálise  freudiana, que, agregada à superestratificação teológica do intelecto, estrutura um modo de ser humano irresponsável e subconsciente, onde se destaca  uma “elite” dotada do poder de transmitir esses ritos, mitos e orientações, imolando-se a criatividade dos indivíduos subalternos a um poder que bane e constrange, exigindo obediência e sacrifício, originando o sectarismo religioso e o partidarismo estatal apesar das evoluções laicalísticas.

Ignorância

A substituição da busca filosófica por um dogma suprime, por abortamento religioso, a busca do significado da existência como exercitamento individual e necessário ao justo amadurecimento do homo sapiente,  desfavorecendo o afloramento da sabedoria. A catequese teísta, oprimindo o exercício da apreciação pessoal e do bom senso, afirma um plano improvável, sobrenaturalista, hierarquizando-se o poder criador que se imagina reservado a uma esfera inalcançável ao indivíduo comum existindo no status dado pela natureza.
Nesse contexto repressor, o parecer estético fundamental da primeira inteligência (o intelecto sensível)  é  desconsiderado; não se reconhece o gosto pleno da existência, inibindo o justo desabrochar da sabedoria, desconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”, não se reconhece que a existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso e dotado de bom gosto existencial, de saber  inato, ou conato. A parca investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto pleno da existência reduz o conhecimento das relações inatas e pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – desfocando-se a exercitação dos gostos e sabores aos  redores de utilidades marginais, caprichos.

Desgraça

O desconhecimento dos potenciais fundamentais da inteligência sensível reduz o justo exercício da busca filosófica a uma composição lógica de caráter sistêmico, mas hipotética.  O que deveria ser um conhecimento imediato com teor estético e indubitável, passa a ser uma elucubração racional, de cunho idealístico, induzido por educação normativa. As visões e ideias dos profetas tendem  a substituir o que deveria ser produto natural da razão sensível; a elevação da norma e da visão alheia no horizonte  do saber próprio se acompanha de uma grave  atrofia da faculdade estética, impedindo a descoberta e experiência de que os pareceres filosóficos enraízam em pareceres estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos, que perdem a sua primazia como fonte de saberes a favor das elucubrações dos iluminados, aumentando a credulidade e minusvalia  referente à “luz natural da razão” e ao fundamento essencial da inteligência sensível.
Uma grave ignorância filosófica agregada a uma credulidade fideísta , somada a uma desprivação  de intuição reveladora, instala uma profunda minusvalia existencial e carência de confiança no bom senso e razão imediata, uma escassez de saber. A ignorância da via filosófica impede de reconhecer e cultuar o respeito ao não saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são induzidas a serem reconhecidas como realidades, instalando diversos graus de distorções perceptivas e de  entendimentos, fomentando potenciais  psicopatológicos com graves repercussões societárias. Ao introjetar o mito teísta da salvação redentora  que coloca além dos potenciais da inteligência natural a realização mística da unidade e do numinoso, perde-se o contato e o  sentimento unitário, o saber místico da unidade, o saber existencial de totalidade.

Prepotência

Por decorrência, o dogmatismo religioso teísta e salvacionista impede a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, se comunicar e inter-relacionar  em referência a assuntos cruciais e íntimos, ligados à busca de razões fundamentais e ao exercício das escolhas fundamentais e de  poder.

ESTRUTURA MITOLÓGICA DO PANTEÍSMO DIGNIFICADOR
Amor, Harmonia, Sabedoria, Graça, Prudência

Amor

Um parecer existencial feliz qualifica o valor da existência ao enfatizar o belo, o bom e o bem; induzindo por generalização simples um reconhecimento e bem-estar frente à totalidade do dado-a-ser, afirmando a natureza universal, “ecológica profunda” ou holística, do estado-de-ser.

Harmonia

Na cosmovisão panteísta a existência dada a ser passa a ser compreendida como necessária,  valência absoluta e realista; a natureza fenomênica cosmo-existencial supera em veracidade o reino das hipóteses idealistas. A contemplação da experiência e da natureza serve de fonte inspiradora insubstituível. Num processo de sintonização cognitiva ou memética, o intelecto se categoriza autopoieticamente, a existência é  reconhecida como uma aventura cocriativa e graciosa. Perfeitamente integrado, o sujeito imagina ser cosmos, numa relação, de alguma forma, indispensável. O exercício do saber e inteligência sensível nas apreciações imediatas da realidade possibilita o acesso à via estética de consecução e realização mística, promovendo a predominância do eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, induzindo a uma configuração qualificada, sensível e razoável, onde existir consciente revela ser um evento primário de ordem, necessário e de fatos.
O equacionamento referente ao mito universal do eterno retorno é a forma inaugural da estruturação mítica monista; a introjeção da perspectiva metafísica correspondente, cosmo-existencial, instala e confirma a aporia embutida no mito, veiculando uma forma gnosiológica sapiente, que agrega à realização mística do intelecto um modo de ser humano maduro, onde se destaca  a tolerância, o respeito, a dialogicidade e a capacidade de encontrar em si mesmo os sentidos mais belos, profundos.

Sabedoria

O enaltecimento da via filosófica estimula o exercício existencial no sentido de favorecer o justo amadurecimento do homo sapiente,  o afloramento da sabedoria. A doutrina panteísta afirma um plano fenomênico, naturalista, onde o mito se revela nas próprias visões que superam as narrativas tradicionais e escrituras, consagrando a essência do fenômeno como realidade existindo no status quo dado pela natureza e acessível a todos os indivíduos dedicados. Nesse contexto libertário, o parecer estético fundamental da primeira inteligência passa a ser plenamente considerado; a intuição impera como forma diretiva e oriental, reconhece-se o gosto pleno da existência, estimulando o justo desabrochar da sabedoria, reconhece-se o momento eternamente criativo de “kairos”. A existência do processo evolutivo sugere um comparecimento existencial viável e lúcido, em crescente, aludindo à seleção de um elã vitorioso de saber inato, ou conato e dotado de bom gosto existencial. A investigação dos sentimentos profundos relativos ao gosto e saber pleno da existência amplia o conhecimento inato das relações pareadas entre a consciência e o mundo, locus existencial onde a consciência é do mundo e o mundo é para a consciência – a sabedoria impera.

Graça

O reconhecimento pleno dos potenciais fundamentais da inteligência sensível induz ao justo exercício da busca filosófica onde a intuição estética suporta uma visão unitária da realidade. O conhecimento imediato da realidade, com teor estético e indubitável, passa a ser a fonte que orienta em busca do saber. As visões e ideias atuais dos buscadores, produto natural da razão sensível elevam a inspiração própria aos horizontes do saber. Reconhece-se que a descoberta e  a  experiência dos pareceres filosóficos enraízam em pareceres  estéticos e sensíveis abertos a todos os indivíduos; aumentando a sabedoria referente à luz natural da razão que é o fundamento essencial da inteligência sensível. O conhecimento filosófico fortalece à intuição, instalando um profundo valor existencial, uma confiança no bom senso e razão imediata. O respeito à via filosófica permite reconhecer e cultuar os limites do saber e a fundamental necessidade de não extrapolar os potenciais do bom senso e da razão. Coisas hipotéticas e imagens ficcionais com valências simbólicas e representativas são reconhecidas como tais, sustentando uma magna lucidez e entendimento, fomentando potenciais esclarecedores, felizes e integradoras repercussões societárias.
Ao introjetar o mito panteísta do eterno  retorno e da celebração existencial coloca-se a realização mística da unidade e do numinoso ao alcanço dos potenciais da inteligência natural, sustentando o contato com o saber místico da unidade.

Prudência

O discurso panteísta e libertário promulga a afirmação da dialogicidade como modo preferencial de coabitar, comunicar-se e inter-relacionar-se em referência a assuntos cruciais, à busca de razões fundamentais, ao exercício das escolhas fundamentais e do poder.

REABILITANDO DESCARTES E DENUNCIANDO IMPOSTURAS

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René Descartes sabia o que fazia e o que dizer para não padecer o destino de Giordano Bruno; ele pensava no que dizia e não dizia tudo o que pensava, mas levava quem podia a pensar e dizer o que ele poderia ter dito em circunstâncias mais seguras e aprazíveis. De acordo com o cronista, escreveu a quem tinha plena confiança e mandou  lapidar na sua sepultura a frase do poeta Ovídio: “Bene vixit qui bene latuit” – Bem viveu quem bem se escondeu.

Na investigação dessa grande crise de valores fala-se muito em “paradigmas científicos inadequados”, evocando um erro dito “ocidental”, em referência  à cultura que produz cientistas. Certamente, o paradigma do sujeito dissociado e neutral predomina na formação dita “cultura ocidental” em função da atual locação do poder econômico e político, da sociocracia que se beneficia na sustentação dessa postura existencial onde os indivíduos se tratam mutuamente como recursos, como maior eficiência de acordo com o poder político e econômico que possuem. Mas a conotação “episteme mor da cultura ocidental” referente a esse modo epistemológico dicotômico de compreender, eixo onde se separam “sujeito” de “objeto”, não descreve o processo de dominação e os fatores antropológicos e metafísicos ultimamente responsáveis por esse status grave de crise e desacerto onde estamos mergulhados.
Um exame mais atento demonstra que as principais tendências epistêmicas apontando perspectivas antagônicas, holísticas ou sectárias, ocorrem em todos os azimutes, tanto no oriente quanto no ocidente, no hemisfério austral ou boreal. A humanidade experimenta seus destinos de forma variegada sem coligar formas culturais rígidas de acordo com longitudes e latitudes. Os filósofos da Jônia, os pré-socráticos, as formas mais antigas do taoísmo, diversas agremiações indígenas, o cacique de Seattle, poetas e ensaístas como John Burroughs, o naturalista transcendentalista Henry Thoreau, Goethe, William Black, figuras complexas como os místicos Francisco de Assis, Mestre Eckhart, filósofos e pensadores como Étienne de La Boétie, inúmeros outros exemplos, todos contribuem na construção dos grandes paradigmas. Os pré-socráticos são considerados filósofos basilares da cultura ocidental embora locados na Ásia Menor; a doutrina da Igreja Católica e Romana tem suas raízes mais profundas fincadas na atual Turquia, lugar onde foi pensada. O maniqueísmo pérsico que irrompe vindo do Oriente para desafiar a filosofia grega pré-socrática na invasão de Cirus II fundamenta, junto com o judaísmo abraâmico, a conceituação metafísica que ancora e ordena os paradigmas de uma cultura hoje globalizada: evidente, as locações geográficas onde enraízam as ideias, as geopolíticas, não apontam a origem da crise que não se coordena com latitudes ou longitudes, mas com intuições e decursos metafísicos que brotam no coração humano. Se não pode ser delimitada através do uso de GPS, tampouco a grande crise pode reduzir-se a um mero cientificismo, um problema epistemológico; trata-se de um abalo mais profundo, locado nas raízes da civilização.
Numa medida inversa, a crise é com frequência descrita como “carência de espiritualidade; materialismo excessivo”; tais descrições, imprecisas e periféricas, desfocam a realidade e escondem a natureza mais interior e humana dessa crise existencial. Autores renomados como F. Capra  em “A teia da vida”, Cultrix, 2006, não hesitam, erroneamente,  em  apontar R. Descartes como a chave do castelo da ilusão, junto com Newton! Eles seriam os vilões e criadores dos nossos problemas com seus modos experimentais de examinar a natureza como um mecanismo e de acordo com as regras da geometria e da matemática. F. Capra, ecoando outros autores e os adeptos da dita “teologia da libertação”, explicita que antes da alvorada da modernidade, clarinada por Descartes, o Cosmos era entendido como estrutura repleta  de “espírito”, que a visão do mundo era mais espiritualista, que precisamos  rever os nossos conceitos para reconhecer a relação da consciência, do mundo e do divino. Certamente, mas esse autor e outros muitos não percebem que não é, exatamente, precisamente, de “visão espiritual geral” que necessitamos para melhorar a nossa perspectiva existencial; religiões abundam aos milhares – mais de 50% da população se declara fiel às religiosidade abraâmicas e aproximadamente 20% a outras formas de cultos! Precisamos de mais lucidez e razão no campo da consciência, como justamente explicitado por Descartes, para compreender que é a “qualidade da espiritualidade”, ou do eixo de perspectiva metafísica que aceitamos como impressão batismal e descritor profundo da nossa natureza que define e determina a episteme bailar nas mensuras da qual somos fadados a conviver; que essa perceptiva é, necessariamente, de cunho teológico, espiritual – logo, vivemos impreterivelmente imersos em conceitos teológicos como peixes em água. O que precisa entender-se com mais clareza é que os paradigmas societários secundários, os epistemológicos vigentes inclusivos, são tributários de uma perspectiva metafísica antecedente e central que condiciona a forma de compreender-se e pensar-se; a episteme central é o modelo gnosiológico que explicita a nossa natureza, origem e destino existencial, as nossas buscas e devoções. Não há porque desviar a atenção do foco essencial: a epistemologia do sujeito neural não é o centro da crise como quer sugerir os dito “teólogos da libertação” e Fritjof Capra no seu livro “A teia da vida”, parecendo querer “blindar” ou poupar os teólogos e as tradições, o modus epistemológico é apenas um dos braços e paradigmas periféricos decorrentes de uma causa e perspectiva central que tampouco é uma “carência geral de espiritualidade”, ou religiosidade: como sabia Descartes, a crise refere a uma carência de justa e razoável perspectiva metafísica, carência inicialmente tributária de uma profunda ignorância de natureza eclesial, de desamor, sede de poder, ingratidão e escassez de virtude e harmonia. Tudo isso genialmente corrigido pelo mestre inspirador e direcionador de Bento de Espinosa, René Descartes, que com prudência e coragem reintroduziu o uso e acuidade da razão crítica necessária nos arcanos da filosofia, desta forma desmoronando a ignorância da igreja medieval e abalando a sua espiritualidade encastelada e hedionda levando o filósofo de Haia a afirmar deus como Natureza. Como explicita Descartes, é no centro da clivagem mais profunda, da meditação mais intensa, no mistério locado entre a natureza “cogitans” e “extensa” que vigora no centro do coração de cada humano qualificado e pensante, que reside o mistério que rege as substâncias ou os atributos fundadores: de acordo com suas escolhas e circunstâncias naturais e políticas, que se reformulam, a conexão mística que ajunta os atributos poderá ser compreendida como uma relação acidental e conflituosa, motivada  pelo erro, engano e ilusão, exigindo sacrifício e salvação, ou ser reconhecida como uma comunhão harmoniosa e alquímica repleta de mistérios profundos. Entender a relação entre a consciência e a matéria como eventual, acidental e facultativa, gera o modo dicotômico teísta, redentor, salvacionista e cientificista de ser que vivemos nesses tempos de indignidade, gera a crise dos que se enxergam como banidos, devendo obedecer aos que se iludem como veículos privilegiados, sejam sacerdotes ou cientistas da doutrina verdadeira; eis o foco da crise! A chave da cura – forjada por Descartes – e possuir um método que permite uma apreciação existencial fundamental e singular da relação cosmo-existenical no enraizamento mais profundo, metafísico, do estado-de-ser! Qual a sua relação com o divino em si, o divino do seu interior? A crise se cura reconhecendo-se legítimo portador do mistério, interface criativa e autopoiética, devendo aprender a pensar-se com dignidade, capaz de afirmar a virtude essencial, cuja primeira linha é amar a si mesmo e à vida, agradecer ao  destino, vendo no outro, com humildade e respeito, o lado complementário, igualmente valente e necessário de si mesmo. Compreende-se que o divino mistério reside entre as marcas do próprio coração, que não necessitamos de outra salvação além de salvar-se da ignorância dos que se imaginam apartados e neutrais; como pensar que ínfero e banido possa ser um fundamento psicopedagógico, ético e válido, de adequação e bondade? Esses novos modos e humores de se reconhecerem não são teístas redentores nem salvacionistas, são panteístas, alegres, virtuosos e celebrantes com certeza; o panteísmo é a forma espiritual dos que reconhecem que a liberdade e a honra não se esperam nem se pedem, se afirmam e conquistam: humanidade, sê o que bem quiser ser no mundo! Refina a tua mais justa razão: o xadrez metafísico foi revelado, a escolha é tua, faz a hora acontecer!

1) Os termos superestratificadores, superestratificação – a instalação hereditária da iniquidade – é muito bem definido em Rüstow Alexander; Freedom and domination; Princeton University Press; 1980 – Introduction. Referem-se a situações sociais hierárquicas e polarizadas típicas dos estados-nacionais; demonstradas entre grupos diferenciados quanto ao seu poder político, prestígio social e acervo econômico; originadas em procedimentos históricos de invasão e dominação, i.e., de posições vantajosas resultado de conquistas e subjugações ancestrais transformadas  em direitos adquiridos e hereditários. 

2) No caso da nossa sociedade, onde o senso comum indica imperar a injustiça, a guerra, a trapaça, onde os discursos políticos – desenhados nos “sigilos dos conclaves partidários”- não correspondem ao que se faz e realiza; onde reina a insatisfação, os problemas sociais, e onde a criminalidade abunda: é evidente que os discursos não acompanham as decorrências. Afinal se pudéssemos fazer o resumo das décadas mais recentes de discursos políticos e econômicos proferidos no planeta em todos os azimutes, é sensato imaginar que esse imenso “abstract” não informaria coisas concordantes com os fatos. Não, em hipótese alguma: o”grande abstract” diria tudo ao contrário – pregaria um forte aviso de paz, prosperidade, sinceridade, justiça igualdade, fraternidade, liberdade e amor – invocaria luz em nome de Deus! Seria a essência da melhor filosofia humanista junto com a maior pieguice! Ora, postulando – até prova contrária – não haver gênios malignos torcendo tudo ao avesso; tampouco ser a nossa ciência desastrada a ponto de jamais resultar em nada funcional; nem as nossas urnas e pleitos serem sistematicamente falsificados: resta supor que a sinceridade e simetria forçosamente pressupostas por Habermas não operam. Opera um Ato de Fala que denomino “ortolocutório” em que a verdade que subjaze aos atos de fala é a virtude que se cultiva no interior em si – abundância  feliz ou carência infeliz de Mythos, Logos e Ethos. 

3) As três principais religiões abraâmicas são, em ordem cronológica de fundação, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. No início do século XXI havia 3,8 bilhões de seguidores das três principais religiões abraâmicas e estima-se que 54% da população mundial se considere adepta a uma  dessas religiões, cerca  de 30%  de outras religiões e 16% é não religiosa.

4) As perspectivas metafísicas ditas transcendental e transcendente por culturistas como Reales e Paim não são diversas nem duas perspectivas metafísicas, mas apenas um eixo de perspectiva adequadamente denominado de “eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental”. Um outro eixo de perspectiva metafísica existe ao redor das muralhas da poderosa Roma que diria Virgílio, trata-se do “eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial” onde o vivente se associa ao cosmos a que pertence radicalmente.

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