Mês: setembro 2013

Everson Teixeira (JC News) entrevista filósofo e médico francês Régis Alain Barbier

ARTIGOS-IUP

No debate desta sexta-feira (13), Everson Teixeira recebeu o filósofo e médico francês Régis Alain Barbier, diretor e fundador do Instituto Universo Panteísta.

Entenda o panteísmo, as ideias de criação do universo, e saiba mais sobre as religiões que adotam a filosofia panteísta:

Da prática teológica panteísta

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Régis Alain Barbier 

Na perspectiva panteísta compreende-se que inspirador, ou numinoso (do latino Numen: deus ou divino) nos termos de Rudolf Otto (1869-1937), é a relação impreterível da consciência e da natureza, dado-a-ser radical, alfa e ômega. Apesar de ser desconsiderada no processo civilizatório hoje dominante, essa relação onde se afirmam mutualmente a relação da consciência e do mundo como fundamento cosmo-existencial, é um fenômeno sincrônico e imutável, uma realidade absoluta, o ordenamento primal de todos os sentidos e propósitos.

A realização desse “rebis” a sabor do exercício continuado de abstrações líricas, estéticas e racionais revela os antagonismos como pontos diametrais e integrados de uma mesma e idêntica natureza; como os lados aparentes de uma Fita de Möbius, as duas substâncias ou os dois atributos de Descartes e Espinosa, o extensivo domínio do metrificável e o cogitativo domínio do apreciável, respectivamente, demonstram-se coligados em um fenômeno unitário onde a dualidade colapsa num paradoxo que paralisa as discriminações da inteligibilidade, configurando-se um insight espantoso e ataráxico, levando o probante a um silêncio reverente e uma plena compreensão desse ambíguo e socrático “nada sei”, marcando o que se pode denominar de iluminação ou despertar filosófico.

Essa realização, como um afeto, afirma-se através do exercício prudente da inteligência razoável e sensível; atenuando-se a ponto de alienar-se nos afazeres societários onde delimitações hipotéticas, evocando teorizações com valores de historicidades, extrapolam-se em distorções cognitivas, mas eventualmente, em momentos intensivos de busca, exacerbando-se frente aos decursos existenciais, revelando-se a pungência mística dos momentos e dos arquétipos estruturais, origem e identidade eternal do real.

O negrume místico da ambiguidade cosmo-existencial resguarda um não-saber impenetrável, o mistério inquietante do estado-de-ser que, embora insondável, não gera sinais alheios aos limites e potenciais da consciência; nada acontece fora da esfericidade e espiral cosmo-existencialista  aniquilando quaisquer pretensões salvatérias arbitradas em teleologias reveladas! Como uma dimensão supratemporal incluindo tudo o é, foi e será, o mistério unitário alvorece nesse despertar filosófico que se equaciona em fronteiras perenais, radicalmente transcendentes, mas sem separações ou exclusividades radicais.

Trata-se do redespertar de uma perspectiva metafísica pouco explicitada, raramente compartilhada, banida na civilização e tradição vigente, com desdobramentos gnosiológicos e psíquicos, consequências sociológicas, antropológicas e culturais, geradoras de praxes diversamente produtivas das que resultam dos ordenamentos batismais que vigoram junto às perspectivas associadas, políticas, científicas, cosmológicas, teleológicas ou escatológicas.

Iniciado na perspectiva cosmo-existencial, lugar onde a consciência entranhada com a existência configura um evento absoluto, uma malha impreterível dialogando desde sempre, reconhece-se que o campo da atuação científica onde o agente se imagina isolado, imutável e instalado dissociado num domínio paralelo, afirma e reforça narrativas e ideologias que ofuscam a realidade existencial mais acurada e profunda, autopoiética, radicalmente sincrônica e criativa do estado-de-ser, autor das suas visões e métodos, responsável pelos ordenamentos societários e políticos.

O mito do sujeito independente e neutral permite a construção de praxes e discursos relativísticos, capazes de explicitar funções, afirmar projetos e empreendimentos, gerar produtos que atendam aspectos objetivos e instrumentais da realidade desconsiderando importantes relações; mas torna-se evidente que o abuso e deslocamento da episteme científica, o cientificismo que transborda a metodologia fabril da ciência na pretensão de compreender a estrutura do real, desvirtua o estado-de-ser e aprofunda a dicotomia aparente e ilusória entre as coisas do sujeito e do objeto; ofusca a realidade da unidade paradoxal: essa ciência moderna que advoga a neutralidade e independência do sujeito não serve para filosofar em termos cosmo-existencialistas, carece de veracidade imediata, reporta a um credo e ato de fé instituído em mitos batismais e apriorismos teológicos e sacerdotais de tradições regionais.

Na visão cientificista, fisicalista, onde a consciência se entende como epifenômeno tardio do processo evolutivo, misticamente dissociado do real, o sujeito, como elaborador de razão e pensamentos neutrais, coordena melhor com a cosmologia teísta e salvacionista onde um deus imaginado separado cria o universo e seus espíritos bons ou descaídos em função de vontades e descontroles inerentes, apriorismos e projetos ignotos. Compreende-se que o paradigma metodológico da atividade científica ofusca, desconsidera e entra em dissintonia com a realização mística do panteísmo, lugar existencial onde o sujeito e o objeto acoplam-se e fundem-se em unidade inseparável.

Que sejam a teoria do Big-Bang, que atende os determinismos físico-químicos e as epistemologias racionalistas, ou, a teologia venerada pela tradição, narrando a criação em sete dias para a melhor satisfação das demandas de espíritos originalmente maculados, as cosmologias e metáforas científicas e teístas são similares nas suas capacidades de desvirtuar a natureza do estado-de-ser e deslocar a perene atualidade do mistério existencial e dos seus potenciais em desvios que deturpam a radicalidade e fecundidade do momento em hipóteses destituídas de substâncias. As cosmovisões cientificistas e teístas se ajuntam e complementam para promover uma tétrica objetificação e desintegração do estado-de-ser, da sua natureza e responsabilidade frente a um destino truncado e domado em vontades, tempos e determinismos alheios e constringentes, onde a vida supõe-se reduzida a algo acidental, contingente.

O panteísta aceita a utilidade relativa das idealidades científicas, mas renega o valor universal da metodologia científica que se deturpa em cientificismo, positivismo e teologia teísta; o filósofo para quem divino é a natureza concentra-se no seu próprio ponto de vista e apreciação onde se evidencia que a consciência coabita o mundo, absolutamente: a origem e identidade do estado-de-ser,  como atualidade perene, aporta e se realiza nesse presente momento, no poderoso e cambiante domínio de kairós. Portanto, existe uma cosmologia e ciência panteísta: trata-se de uma esfera criativa cujo centro é a atualidade com as sombras do presente-futuro e presente-passado, onde, até um ponto a ser conhecido e infinitamente comprovado, a realidade demonstra ser uma construção fusional de consciência e de formas, que dentro de potenciais a investigar, entrelaçam-se criativamente, de alguma maneira, plasmando a manifestação.

No teísmo, um “ser”, potencialmente puro ou purificável, imagina-se lançado ao mundo, advindo de um lugar ideal, de acordo com necessidades e destinos geralmente desonrosos, teleologias reveladas a outros, para cumprir deveres previamente delimitados e processos de libertação; no panteísmo, o estado-de-ser é dado, assenta na sua essência que com a melhor lucidez e sobriedade se revela em encontros místicos e arquetípicos que elevam o existente ao estatuto de coautor, em parte, responsável e modulador da sua experiência; as elaborações criativas que se estabelecem e se afirmam delineando desejos e aspirações em forma de diálogos, narrativas e pedidos, acontecem de modos diversos nas duas perspectivas, elaborando-se duas modalidades fundamentais de cultos e ritos, panteístas e teístas. São notórias as formas, ritos e cultos do teísmo, não merecendo maiores descrições nesse artigo dedicado ao panteísmo.

Não existe uma tradição escrita capaz de superar a atitude necessariamente vanguardista e proativa de estado-de-ser assentado no centro perenal, no tabernáculo da sua natureza. Os desejos, aspirações e possíveis necessidades do estado-de-ser modulam-se e monitorizam-se no escopo da própria sensibilidade e consciência, no arco intelectivo que ronda o mistério que é central por abranger o estado-de-ser nas suas magnas profundezas e perspectivas. Quando concentrado em ocupações profundas, o panteísta não busca uma salvação como a que se descreve no teísmo, mas anseia pelas virtudes que sustentam as demandas existenciais  com honra e adequação.

Percebendo a existência como um fato inquestionável, último, o filósofo panteísta busca fazer da experiência algo pleno, significando ao máximo e positivamente o processo vital; a sua intenção primeira é fortalecer a sua capacidade de aceitar e responder dignamente ao ato existencial, honrando a sua autonomia e escolhas. Não existe uma luta nesse processo, mas um diálogo em busca de aberturas criativas e maior espaço e domínio na afirmação de um credo de paz, serenidade e amor, no entendimento de que a natureza bem considerada e trabalhada proporciona um adequado, vibrante e feliz suporte existencial, um campo de liberdade, bom humor e harmonia.

Nas suas buscas o panteísta não abomina ou renega a atualidade nas suas estruturas e funções; entende-se que um melhor porvir só possa decorrer do presente; a oração e diálogo que se estabelecem com o sublime e seus potenciais é um processo criativo que se elabora buscando maior plenitude e felicidade a serem usufruídas no estado atual, ou nas efluências e decorrências; o que existe o é pela necessidade, dessa forma; é a partir desses elementos e modos que, quiçá, o melhor se revela e desponta nos horizontes do dado-a-ser.

As revelações que surgem são imagens instituídas em arquétipos que se coadunam às perspectivas metafísicas; os recursos que acontecem expressam um panteão onde o dado-a-ser natural se consagra, lugar onde a imaginação e fantasia encontram pleno e respeitador acolhimento; por isso musas visitantes se revelam como filhas do poder divino e da memória própria. O panteão se apresenta de todas as formas necessárias, sempre considerando e integrando a natureza humana, suas dúvidas e frentes construtivas, com acolhimento, fundamento do amor. A natureza possui complexidade e inteligência suficiente e necessária para que seja assim, basta querer e visionar bem.Tudo isso com um prazer buscando se satisfazer com o que se oferece, sempre agradecido. O processo é como um parto; espera-se que não seja doloroso ao ponto de exigir dos criadores esses gritos desesperados de abandonos dos crucificados. As narrativas, as imagens que acontecem, são como sonhos, potenciais e formas culturais que se afirmam para se consagrar como lendas, mitos, quiçá estabelecer novos cultos e rituais, tudo de acordo com a compreensão de que a consciência é do mundo que é para a consciência, numa espiral cosmo-existencial incontornável, estruturante, criativa, dolorosa ou prazerosa.

Você ao ler essas linhas, seja coautor do seu culto e panteão, escolha as suas próprias revelações, você, ser humano, é a fonte viva e original de todas as escrituras! Lembre-se, nunca estará destituído de opções. Existem duas posições basilares na vida, a daqueles que tentam se elevar ao estatuto de realizadores do seus destinos e a daqueles que são vítimas e pedintes; mudar de estatuto existencial e ânimo é possível, exercitar escolhas, ou não, configura uma decisão. A vida é uma aventura, coisas inimagináveis e imprevisíveis podem acontecer, manifestamos fragmentos de que é possível expressar; muitos, presos em mitos, envolvidos em narrativas, scripts ou deveres programados pelas famílias e culturas onde nascem, transformam as suas vidas em rotina.

O que acontece é possibilitado pelas incompletudes e insatisfações do estado existencial atual que, ótimo, não geraria brechas e eventuais aventuras dissonantes. Algumas pessoas, principalmente com veio artístico e humor proativo, possuem um lado aventureiro, até certo ponto destemido, inconformista; esse lado que denomino hiperconsciente é arrojado, muitas vezes toma a rédeas da carruagem sem que se perceba; é quando, acomodado na vertente existencial conformada, no baluarte do cotidiano, experimenta-se um certo receio, ansiedade e confusão com o surgimento dos novos rumos e tendências. Portanto existe uma liderança e um rumo nessas demandas, algo podendo não ser evidente no início dos processos.

Certamente, operar dentro da tradição cultural e enquadramentos típicos é como nadar num lago em vez de num riacho; é seguro, mas é limitado, fechado, previsível; as águas se turvam e poluem lentamente, a truta caprichosa e alegre que podemos ser começa a fenecer. Por isso, os que no coração abrigam a vocação dos heróis, aliados hiperconscientes a serviço da vida e da sua alquimia, atiçados pelas brechas e falhas que rastejam nos planos mais íntimos das rotinas, começam a operar mudanças e coisas inesperadas; um jogo arriscado como adentrar nas matas e sair em mar aberto com poucos instrumentos, sem mapas, confiando nas intuições, na vitalidade e clareza do caminho. Dizer e pensar o que não foi dito, observar o que não foi visto, precipita acontecimentos exigindo diálogos e desnudamentos.

Ora, a própria vida, desafiante, trágica, talvez impulsionada pelas tensões e desconfortos que operam nos pensamentos, palavras, atitudes, imaginações, fantasias, de acordo com a liderança mais arrojada que existe em nós, toma vieses diversos dos esperados; ou então destituída de ânimo pioneiro e vigor se submete ao peso da tradição e da rotina. Num segundo plano não agimos isolados nas nossas decisões, porque estamos sempre em relação, absorvendo informações, estímulos e conhecimentos que atuam sem necessariamente refletirem-se com clareza na consciência cotidiana. Agimos, muitas vezes, em função de desejos e impulsos que não se assumem por falta de segurança, apegos, inclusive motivados e treinados para satisfazer as necessidades e demandas dos próximos e expectativas culturais! Coisas e sentimentos não ditos se revelam através de sugestões, intuições, fantasias, tiradas imprevistas pronunciadas pelos próximos, parentes ou amigos, impressionam o psiquismo de uma maneira ou de outra, brincando, interferindo nas decisões e nos atos, influindo nas instâncias mais criativas e arrojadas que vicejam em nós mesmos.

Certas virtudes e qualidades são certamente importantes nessas aventuras, como acreditar e ter confiança em si, pensar a vida como uma obra talvez difícil, mas produtiva e positiva, achar que a voz do coração, locada entre as vozes da razão e das emoções intempestivas, deve ser ouvida com maior atenção. E útil e facilita alimentar um ânimo entusiástico; confiar na sua relação com a vida, na sua estrela; chegam sinais e meios para que todos encontrem os seus destinos finais vencendo barreiras; uma vez superadas as dificuldades, revelam-se os novos horizontes; o que parece ser uma catástrofe pode ser a curva final antes da vitória.

Procurando talhar a vida em primeira mão, dotado de lucidez, confia-se que as elaborações vitais são incessantes, que é sempre cedo; construindo entendimentos e novas teologias, atiçando a cosmologia, elaborando os seus próprios conceitos de divino, opera-se  na estrutura da vida sem receio nem pavor. Devolve-se à cultura o que não faz sentido e não se aceita, criam-se novas crenças, normas e espaços psíquicos; sempre confiante no destino que não é egoísta ou mesquinho; o que é justo e bom para nós só poderá ser igualmente positivo para os nossos próximos e amigos, mesmo que no início não se apresente dessa forma. Só se pode elaborar uma obra sublime renegando os deuses das rotinas culturais, mas, justamente, honrando os deuses e deusas da vitalidade original e dos princípios verdadeiros.

Natureza e importância dos arquétipos para o panteísmo

Elucidações místicas, estruturais, funcionais e modais;
Orientações metafísicas dos arquétipos.

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Régis Alain Barbier

(…)

Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se! 

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.

(…)

Demogorgon – Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterônimo de Fernando Pessoa

Do estado-de-ser como símbolo cósmico

A justa consideração e reconhecimento dos arquétipos implica a superação das carências de focos e ilusões idealísticas da nossa cultura em que habitantes ilhados no âmbito das suas subjetividades refletem imagens e conceitos imaginando o mundo e os sujeitos probantes tributários de distinções radicais, absolutamente objetivas e separáveis; o que é improvável, hipotético e abusivo frente ao que se experiencia e possa ser compreendido, conhecido ou intuído.

 O primeiro ponto devendo compreender-se para melhor apreciar o conceito, apesar das hesitantes teorias ontológicas de Jung, é que o estado-de-ser  que somos como totalidade, indivíduos e coletividades, é simbólico por natureza; que um arquétipo é  uma expressão radical de um estado-de-ser simbólico. Um símbolo, por definição, agrega ou coliga um significado expresso com conceitos ou imagens a objetos ou formas que se percebem; um olho pode simbolizar a visão ou um dos atributos do divino, um disco pode simbolizar um prato ou um planeta. O estado-de-ser, como ser humano, é um símbolo porque  conjuga os atributos e os modos de todos os corpos e de todos os conceitos; a humanidade é, essencialmente, uma estrutura simbólica por agregar a totalidade do que é concreto e prático à totalidade do que é figurado e metafórico numa experiência vital, necessária  e inquebrantável, até provar em contrário.

Sendo a existência condição para acontecer alguma forma de saber ou ciência, a relação existencial “consciência-mundo”, “mente-matéria”, é absoluta e sincrônica a todos os potenciais de conhecimento e indagações, logo, infinda enquanto existir algo para ser evocado ou experienciado. Essa conjuntura – em Espinosa a correlação entre os atributos essenciais extens e cogitans – realiza a unidade paradoxal e fundamental, o núcleo ao redor da qual os arquétipos se ancoram e se desvelam na sua multiplicidade de modos, esferas, níveis ou holons (emprestando um dos vocábulos de A. Koestler).

Sendo a natureza do estado-de-ser definida nessa estruturação fenomênica radical (agregação de mundo e consciência onde a consciência é do mundo e o mundo da consciência), os arquétipos desvelam a perenidade e identidade original desse dado-a-ser, integrando na mesma trama as variedades modais e formais, as riquezas culturais, o universo dos mitos e das lendas. Mitos ou lendas oriundos de historicidades específicas e regionais possuem valências universais quando destacam as estruturações e funcionalidades  arquetípicas nas narrativas.

Os desvelamentos arquetípicos – místicos, estruturais, funcionais, existenciais e modais – se apresentam entre as margens hipotéticas e justapostas das relações unitárias e paradoxais que acontecem nos vários aspetos do estado-de-ser, lugar existencial onde essas composições binômicas se coligam e desdobram em harmonia sejam como as “res” ou atributos cogitans e extans dos modernos; o arco estendido entre as percepções e os significados; a interface entre o intelecto sensível e racional; a superposição dos eventos da intuição imediata e das visões da cultura e da tradição, entre outras. Bem compreendidos os fundamentos místicos, estruturais, funcionais e modais dos arquétipos, compreende-se a multiplicidade e complexidades das suas formas, nuances e apresentações.

Essa qualidade ambígua do estado-de-ser – ou duplicidade – se evidencia de alguma forma em todas as narrativas e expressividades arquetípicas nucleadas ao redor dos mitos fundamentais, quer  seja o mito da salvação ou do eterno retorno, como o de Sísifo, onde oposições diametrais,  mas integradas,   pontuam valências espelhadas na mesma esfera.

Na teologia panteísta transmutativista,  o arquétipo em si, apresenta-se como substância espiritual propriamente dita; trata-se do desvelamento formal da essência ou identidade profunda do estado-de-ser. Na teologia teísta e salvacionista,  o arquétipo representa e revela uma esfera espiritual imaginada sobrenatural, transcendente; trata-se de uma imagem que retrataria a coabitação acidental do espírito e do mundo.

Arquetipicidade  fundamental 

O arquétipo se revela formado na interseção de múltiplos pontos vetoriais, como um arco-íris na luz do sol e umidade do ar, na curvatura da terra e posição do observador. As justaposições de duplas paradoxais ou de pares que se identificam nas suas divergências recíprocas – mundo-consciência; percepção-significado; pensamento-sentimento; intuição-cultura; consciência-inconsciência, etc. – incidem em todos os declives e aspetos do estado-de-ser, nos diversos níveis e esferas existenciais, fornecendo a trama unitária e universal onde se revelam as coincidências da unicidade paradoxal, terreno criativo primordial de onde emergem a multiplicidade dos arquétipos.

Arquetípico místico: configuração universal que se apresenta e visibiliza na equidistância das reduções ou polarizações psíquicas e científicas da realidade fenomênica e onde se explicitam as relações curativas que se estabelecem entre o “sujeito indagativo” e o “objeto inerte” e demais duplas estruturais e funcionais, individuais e societárias, típicas do fenômeno existencial. Estabelece-se uma coordenada ponderada onde se resolvem os conflitos, medos e apegos, realizando-se ou demonstrando-se um terceiro ponto formando uma trindade, configurando-se a dimensão mística primordial do arquétipo – um ângulo como um terceiro ponto mais elevado, um olho que supera e supervisiona, os demais ângulos integrando a dupla paradoxal enlaçada num processo continuado, monístico.

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Arquétipo estrutural:  o “Rebis” alquímico, representação poética e imaginativa do estado-de-ser primal e paradoxal, é uma expressão criativa e potente da estrutura simbólica universal; uma configuração de primeira linha definível como arquétipo estrutural. Pares complementários integrando eixos funcionais como a Lua e o Sol, o Dia e a Noite, reportam, igualmente, a essa valência fundamental.

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Arquétipo funcional: a dinâmica cósmica, processo gerador de manifestações e expressões reciclando modos e formas em fases transmutativas contínuas e autopoiéticas, expressa, igualmente, uma configuração arquetípica fundamental, um arquétipo funcional, que se elucida através de símbolos como o Ouroboro e o Tao.

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Arquétipo existencial: a ambivalência do momento feito de eventos que se manifestam no ponto vetorial determinado na interseção dos eixos arquetípicos de primeira linha – eixo estrutural da polarização complementária e unidade paradoxal abraçado ao eixo funcional e primevo das transmutações – pode ser expressa como uma rosa com espinhos; a junção da beleza e da dinâmica dos modos e das formas em constantes processos de crescimentos e transformações, uma intersecção configurando o que se pode denominar de arquétipo existencial.

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Um arquétipo pode ser simples, minimalista, como as formas estruturais e funcionais, ou pode ser composto, como o arquétipo existencial  simbolizado pela rosa. Uma  figura arquetípica complexa agrega arquétipos diversos e de múltiplas valências.

Do intelecto sensível como orientador dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos

É a apreciação fundamental e intuitiva da existência como estruturação cósmica, coligada ao sentimento existencial correspondente – seja a empatia radical típica do panteísmo, ou, o antagonismo dramático fundador do teísmo salvacionista – que modula a aspiração metafísica primordial inclinando à formação de esferas filosóficas e arquetípicas de valências civilizatórias. Os arquétipos místicos, estruturais e funcionais existem independentemente do sentimento e autoestima fundadores, contudo em formas e expressividades  distintas e diversamente orientadas; a qualidade do sentimento existencial – simpatia ou antipatia – frente ao que é, ao dado-a-ser, é que determina a orientação dos vetores arquetípicos.

Do ponto de vista da expressividade artística, em todos os tipos e apresentações, os elementos formais dos arquétipos e a complexidade das suas referências e interseções no âmbito da existencialidade testemunham a orientação dos vetores metafísicos e eixos arquetípicos de acordo com o sentimento fundador frente ao dado-a-ser; quer seja de simpatia, concordância, ou de antipatia, discordância.

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