images-10

Régis Alain Barbier

Elucidando pontos de vista epistemológicos, gnosiológicos, epistemes, relações com arquétipos e mitos, até ao altar da essência e do mistério, fronteira do “nada sei” socrático, é exercitar uma máxima liberdade e criatividade; trata-se de uma nova hermenêutica e praxe teológica de natureza panteística.

Quando se critica alguma religiosidade – dando a César  o que é de César e a Deus o que é de Deus – devido a uma notória carência de agenda teopolítica é comum receber justificativas parecendo evocar uma ordem suprema, algo como um tabu que não se deve julgar. Sugerem-se esotéricas perfeições, leis celestiais que influenciariam os áridos percursos da política; um status quo divinal acima do entendimento humano onde o mal das ditaduras seria paradoxalmente coligado às virtudes que animam os oásis do bem! Sugere-se que, por mais truculentos que sejam eventos políticos teriam os seus fundamentos e potenciais ancorados nestes esquisitos ordenamentos numa adequação necessária e de acordo com o karma, o destino ou as leis do Tao. Até onde podem ir esses conformismos? Longe demais, lembrando a passividade de algumas instituições religiosa convivendo com os regimes políticos mais rústicos, quiçá vendo nessas monstruosidades históricas expressões paradoxais de alguma adequação esotérica.

Não se deixando ofuscar por considerações dúbias, denota-se que algo dificulta o surgimento de uma sociedade livre, ponderada e pacífica. Serão os longos e demorados percalços da história necessários, trilhas ondulantes de eventos fadados a acontecer? Ou, simplesmente, o ser humano ainda não é dono da sabedoria necessária a uma construção societária digna à luz de ponderações filosóficas mais sensatas.

Em escritos naturalistas, ou taoísticos, são comuns asserções como ‘oposto é complemento’. O postulado, de uma forma ou outra, parece verdadeiro em relação a tudo o que pertence às coisas da natureza, ao que se  observa com o olhar ou episteme naturalista; descreve a estrutura profunda da existência que se constrói rompendo a unidade em lados e elementos diversos, mas oriundos da mesma trama. Mesmo com compreensões incompletas reconhecem-se e aceitam-se esses fenômenos: o que cresce um dia decresce; a lua cheia míngua; a água evapora e desce em chuva; o vale é o avesso da montanha; a função de uma construção é condicionada aos vazios que não se formalizam.

Mas o que é verdade nesse mundo natural pode ser inexato quando reportando ao lugar onde o ser humano reina especificamente como autor e criador da cidade e não apenas como elemento passivo da trama universal ou observador dissociado. Na ordem citadina, partidos diversos que lutam por domínio político não se estruturam e complementam como polaridades ou oposições naturais alinhadas no mesmo compasso transacional, tampouco evolvem paradoxalmente na mesma direção!

No reino da política os partidos divergentes tentam delimitar e afirmar suas oposições e distanciamentos; a desordem não se mescla para complementar a ordem em busca de equilíbrio, por sua vez, a ordem não progride aceitando complementos desordeiros. A ordem se burila se afastando da desordem, marcando oposições e claras distinções. Quando os partidos se misturam eles se aviltam e se reformulam antes de configurar novas coligações. Portanto, nesses termos humanistas – no escopo da cidade e da República, as construções humanas nidificadas entre vales e montanhas, na beira dos rios e dos mares em processos de ocupações gerenciados à luz de diversas miradas – relações e ideologias políticas, acontece que opostos são opostos e não se complementam; exemplificam eixos diversos e conflituosos. Quando deixam de se opor mutuamente para se aliar em novas identidades se configuram em conjunto avessos ao que é outro, reposicionando o estatuto opositivo em novas estranhezas, conflitos e formas antagônicas.

Quando a criatura se reconhece e se cogita ela deixa de ser apenas um elemento em tensão na natureza, transcende a imersão simples que é ser estado primordial, pré-histórico, para abraçar um estado-de-ser autoral e lúcido apto a afirmar: ‘eu sou o arquiteto da cidade!’. Nesse despertar a natureza humana evolve num patamar acima dos períodos precursores, adquirindo uma dimensão metaforicamente transcendente. A humanidade, ao longo do Paleolítico, cada vez mais ciente de si e dos seus poderes fabris e decisórios, da sua especificidade criativa fundamental, estabelece uma praxe evolutiva capaz de contrariar os imperativos instintivos e naturais.

A ciência de si opera um novo domínio e responsabilidade, junto com a impossibilidade de ‘não agir’; não se posicionar é optar por não agir, que é agir. Não agir vivendo nas ruas e edificações citadinas, nas fileiras de algum Reich, seja Nazi ou não, outras ditaduras e matizes geopolíticos, é agir, é optar por nada opor ao que é mal. Não negar o mal, invocando hipotéticas complementariedades transcendentes é optar por acomodações muitas vezes convenientes e lucrativas. Console alguém pensar no nazismo, ou outras iniquidades, como complementos esotéricos apontando os germes de uma evolução oculta? A iniquidade jamais poderá ser a semente da virtude, ela é sua negação! O mal social não se relaciona em alguma paridade operante com o bem estar social, nem se alinha nas mesmas mensuras: o mal ético é a negação do bem; bem e mal não se convertem um no outro, tampouco se complementam; aqui não existe um eixo de pólos e opostos rumando em compassos produtivos numa mesma direção. A conjuntura que faz chover e movimenta o crescimento dos bambus não descreve as legitimidades dos atos políticos, seus decursos históricos e decisórios; o homem, ao longo do intervalo esticado entre a sua origem biofísica e a sua final desagregação é senhor nos seus reinados, paira como uma águia, acima dos determinismos da natureza mãe.

Na cidade, território humano suis generis, marcam-se escolhas que não se harmonizam por necessidade; um governo autoritário não é dialógico; acreditar no mito da salvação não combina com a crença no eterno retorno; uma sociedade participativa nas suas múltiplas funções, econômicas, pedagógicas e outras, não pode ser piramidal, ela não é elitista: neste contexto opostos são opostos e não se complementam positivamente. No ethos citadino os opostos não se complementam; são praxes divergentes que correspondem a compreensões antagônicas da natureza humana. Advogar no sentido de harmonizar em processos complementários opostos éticos como se fossem naturais é regredir a uma forma pré-sapiente, arcaica, destituída de hiperconsciência transcendente; ser humano, na sua dimensão específica, confere o poder de optar entre dois grandes caminhos, evolução ou retrocesso.

As criaturas são efêmeras, civilizações surgem e desaparecem; neste contexto transmutante é mais sensato valorizar atualidades simples e intangíveis como abraços fraternos, ‘namastês’; valores que correspondem a uma forma definida de saber, comportamentos e educação; a uma configuração política e econômica que não está a serviço de frações e plutocratas, mas exemplifica uma estrutura societária virtuosa e civítica.

Caso, competindo em busca do poder societário, alguém advogasse os beneméritos de uma sociedade elitizada, estaria alimentando frações e oposições que não se pacificariam em nenhuma forma de convívio. Existe um caminho evolutivo, estacado em conceitos e pareceres teóricos, que leva a mais sapiência eco-humanista e outro que degenera e faz retroceder. O ser humano deve escolher; a decisão não acontece ao sabor do vento e correnteza dos riachos. Como reconheciam, em todos os azimutes, muitos antigos pagãos e pajés, filósofos pré-socráticos até Sócrates inclusive, a harmonia existe atuante no coração e na consciência de cada um querendo se reconhecer como criatura universal, elevar-se dignamente à natureza possível para nós, ao grau de homo sapiens.

Sendo o que se é, estado-de-ser atual e presente, acontecendo nos processos e na trama das interações cosmológicas, os melhores e mais criativos ordenamentos societários só podem surgir em contextos eminentemente dialógicos onde os recém-nascidos, os infantes, todos os viventes, sejam reconhecidos como portadores legítimos do Logos e Ethos atinente ao que somos como humanos, criaturas contextualizadas numa relação eco-humanista.

A cidade legítima e verdadeira é o lugar onde a ética naturalmente decorre e flui do reconhecimento dos cidadãos como fonte potencial, inerente e autonômica de saberes; uma perfeição que se exemplifica através do cultivo de metáforas e simbologias que dignificam, de mitos que libertam e enobrecem a natureza humana levando-a ao reconhecimento do seu estado-de-ser infinito e essencial, manifestando a única dimensão teleológica justa e ponderada – a dignificação do estado-de-ser ou natureza humana como caminho e verdade.

Existem duas perfeições: uma perfeição sistêmica que opera nas conjunturas ligadas ao estado-de-ser como estrutura biofísica e dinâmica onde tudo acontece de acordo com as leis da natureza; uma perfeição ética que se realiza quando a vida social, pedagógica,  política e econômica, reporta justamente à humanidade dotada da capacidade de ser razoável e nutrir uma filosofia maximamente criativa. Essas perfeições somadas, natural e ética, avivam esse elã solar típico dos indivíduos saudáveis com pulsão existencial dirigida em busca de floração.

Condicionada em arquiteturas urbanas insensatas, vivendo em coordenadas políticas geradoras de desrespeitos instituídas em diferenciações germinadas em âmbitos de dominação, ignorância e violência, a humanidade não está exemplificando saber filosófico, não esta no caminho da perfeição ética; as disposições e instituições da cidade não são como deveriam e poderiam ser caso se honrasse com receptividade, educação e mitos adequados, o potencial sapiente do ser humano,

Não se deve entravar a compreensão que na esfera cultural tudo está de acordo com o que se conscientiza, pensa, sente, deseja e atua; logo, facilitar a realização dessa sabedoria implica rejeitar os empecilhos; é o dever dos que vislumbram essa cidade nas suas imaginações nutridas de razões e saberes adequados e de acordo com o justo reconhecimento de si e responsabilidade associada, operar dentro de coordenadas que ensinam a compreensão fundamental de que somos um só ser  veiculando forças decisórias à luz natural da razão.