Mês: julho 2013

Da harmonia como categoria metafísica primordial ~ Harmony as primordial metaphysical category

pequens  passarinhos

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômio consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas desmoronam; o espaço-tempo passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes, construídos dos signos da natureza e dos significados dos observadores. Essa é a perspectiva cosmo-existencial onde a consciência e o mundo se entrelaçam com reciprocidade unitária; a consciência é do mundo que é da consciência, estruturando uma intenção radical e transpessoal. O Ethos, a moradia fundamental da humanidade, é um “rebis” alquímico, junção opositiva e complementária dos dois atributos ou substâncias da filosofia moderna; saber explicitado por Descartes-Espinosa, mas reconhecido por xamãs desde a alvorada do homo sapiente.

Nessa esfera cosmo-existencialista, o verbo “ser” opera e rege sem tempo passado nem futuro a não ser nas hipóteses das academias, cúrias, histórias e culturas; o único tempo desse verbo é o presente; ele também possui um modo típico que é o real, mais um complemento integrado, um estado, ou uma intenção necessária. Trata-se de um acontecimento onde se declina e se flexiona a existência num enlace radical onde ser e estado, como consciência e natureza, se conjugam impreterivelmente; ser é um estado presente e real, naturando. Genuínos, poetas, artistas e filósofos, antes de serem sujeitos enquadrados em culturas, reconhecem e vivem o mistério cosmo-existencial como categoria filosófica prima mais apriorística e essencial, trazendo a noção de completude e de unidade, evidenciando a participação sincrética e necessária do indivíduo e do mundo. A esfera cosmo-existencial assim experienciada é plena e completa, conjugando o indivíduo à totalidade. A essência, ancorada no ponto de junção desse mistério unitário, fecunda a totalidade do ser e seus estados num grande e supremo magnificat onde se compõe a vida num gerúndio infinito, declamando e cantando união; revelando-se que “todas as coisas estão cheias de deuses!” – Tales de Mileto.

Essa apreciação justa do paradoxo unitário, a consciência de ser cosmos, bem reconhecida e aceita, explicita uma comunhão existencial radical que evoca um sentimento de união e consagra o reconhecimento do Belo; uma realização sincrônica a um Ethos convivial, harmonioso e estético. Honrar essa união nas circunstâncias onde se vive permite inscrever felicidade na experiência vital; um bem-estar circunstanciado que resulta da capacidade de se pôr em sintonia com o real, celebrar no momento e estado atual as dimensões essenciais, além dos processos, fluxos e oscilações; um sentimento profundo onde enraízam os potenciais infinitos do amor. Essa consagração e celebração conjunta do Belo e do Ethos afirmam a estrutura cosmo-existencial, fenomênica e harmônica.

Mais basilar de que as metrificações do espaço-tempo e demais delimitações discriminadoras do pensamento, a harmonia pertence à estrutura psicofísica integrando o fenômeno como categoria cosmo-existencial prima. Como magno fundamento categórico, a harmonia traz as noções de completude e inteireza, ou plenitude, presentes por necessidade, brilhando na apreciação estética mais intensa e nos mistérios do espanto filosófico; mesmo intuída ao avesso, como um vazio, a plenitude, pungente e soberana, se manifesta no céu estrelejado, na beleza das flores, nos vibratos do violino, na intensidade dos olhares e abraços quando acontecem, preenchendo todos os espaços e lugares, integrando as flores do campo aos céus.

Habitar em culturas insanas, afundadas na dicotomia kantiana onde se nega a patente comunhão essencial do estado-de-ser, agremiações sociocratas regidas por humanos que desconhecem o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial, significa viver em baldios descuidados, sofrer em manifestações políticas e teológicas espúrias que mascaram a unidade, fundamento verdadeiro da  existência e do amor. Habitar nesses contextos culturais despedaçados, mas querendo sustentar níveis de vitalidade suficiente, demanda a aproximação dos lugares onde se vive com intensidade, comunicando e recebendo sinais de harmonia; as criaturas que transmitem esses sentimentos e saberes, afirmam a verdade do estado-de-ser intuídas pelas musas, vivem nos arredores do grande portal que separa o mundo panteísta e suas sincronias harmoniosas do reino dos banimentos, das dissintonias, introversões e extrapolações teocráticas.

Mesmo vivendo em dimensões socioculturais e teopolíticas imperiais onde se renega a realidade unitária, ainda é possível sentir o estado-de-ser na sua completude, abraçar-se com a existência, conhecer o belo e o real. Sentimentos pacificados, permeados de momentos extasiantes, eternamente aguardam os que transgridam as impressões batismais anatemáticas e as maldições da ortodoxia para se reconhecerem harmoniosamente integrados ao divino que é a nossa mesma natureza. O encontro supremo com a essência sustenta a integração do estado-de-ser e manifesta a natureza extasiante do Ethos onde originamos e onde somos destinados a viver como um único povo; os que sabem comungar esse valor lembrando a fonte, uma fração sempre crescente dos existentes, já estão construindo a nova cidade.

Harmony as primordial metaphysical category

By: Régis Alain Barbier

To whom acknowledges the consciousness-cosmos binomial as an absolute phenomenon, declaiming in a radical monism the paradoxical unity of the substances and philosophic attributes, the Kantian categories collapse; space-time comes to be a wide momentum in which past and future are present, built by nature´s signs and the observers´ meanings. This is the cosmos-existential perspective where consciousness and the world interlace themselves with unitary reciprocity; consciousness belongs to the world that in turn belongs to consciousness, structuring a radical and transpersonal intent. Ethos, humanity´s fundamental dwelling, is an alchemical ‘rebis’, opposite and complementary junction of the two attributes or substances of modern philosophy; a knowledge explained by Descartes-Spinoza, but recognized by ‘xamãs’ since the homo sapiens’ daybreak.

On this cosmos-existentialistic sphere, the verb ‘to be’ works without past time nor future except in the academies´, curia´s, histories´ and cultural´ hypoteses; the only time of this verb is the present; it also possesses a typical mode which is the real one, an additional integrated complement, a state, or a needed intent.  It is a happening where existence declines and inflects in a radical union where being and state, as consciousness and nature, unfailing inflecting themselves; being is a present and real naturating time. Genuines, poets, artists and philosophers, prior to becoming subjects fitting into cultures, acknowledge and live the cosmos-existential mystery as more aprioristic and essential prime philosophical category, bringing the completeness and  oneness notion, evidencing the individual´s and the world´s syncretic and necessary participation.  The cosmos-existential sphere thus experienced is entire and complete, uniting the individual to the entirety. Essence, firmly secured to this unitary mystery junction point, fosters the entirety of the being and its states into a great and supreme ‘magnificat’ where life is composed in an endless gerund, declaiming and singing union; revealing that “everything is full of gods” – Tales from Miletus.

This just appreciation of the unitary paradox, the consciousness of being cosmos, well recognized and accepted, explains a radical existential communion evoking a union feeling and consecrating the acknowledgement of the Beautiful; a synchronic realization to a convivial, harmonious and aesthetic Ethos. To honor this union on the circumstances where one lives, allows to inscribe happiness in the vital experience; a detailed well-being resulting from the capacity of putting itself tuned with the real, celebrating at the present moment and state the essential dimensions, besides the processes, flows and oscillations; a deep feeling where love´s endless potentials are rooted. This Beautifulness´ and Ethos´ joint consecration and celebration affirm the cosmos-existential, phenomenal and harmonic structure.

More fundamental than the space-time metrifications and other thought discriminating delimitations, harmony belongs to the psychophysical structure integrating the phenomenon as prime cosmos-existential category. As great categorical principle, harmony owns the completeness and entirety, or plenitude, present because of need, shining on the most intense aesthetic appreciation and on the philosophic astonishment mysteries; even when reversely uttered, as an emptiness, plenitude, pungent and sovereign, manifests itself on a starry sky, on the flowers´ beauty, on the violin´s vibratos, on the embraces and eyes expressions when they occur, filling every space and place, integrating the field flowers to the skies.

To inhabit in insane cultures, submerged into the Kantian dichotomy where the evident state-of-being essential communion is denied, sociocratic associations ruled by humans who ignore the cosmos-existential metaphysical perspective, mean to live in neglectful barren plots of land, to suffer with political manifestations and spurious theologies that disguise the oneness, truthful foundation of existence and love. To inhabit in these shattered cultural contexts, but willing to support sufficient vitality levels, requires to come close to the places where one can intensively live, communicating and receiving harmony signs; the creatures who transmit these feelings and knowledge, affirm the state-of-being truthfulness uttered by the muses, and live around the large portal separating the pantheistic world and its harmonious synchronies from the reign of the banishments, dis-syntonies, introversions and theoretical extrapolations.

Even living in socio-cultural dimensions and imperial theo-politics where the unitary reality is denied, it´s still possible to completely feel the state-of-being, embrace the existence, know the beautiful and the real. Peaceful feelings, permeated of ravishing moments eternally awaiting those who infringe the anathematic baptismal impressions and the ortodoxy´s curses to harmoniously acknowledge themselves integrated to the divine which is our nature itself. The supreme encounter with the essence sustains the state-of-being integration and manifests Ethos´ ravishing nature where we originate from and where we are meant to live as a single people; those who know how to communicate this value remembering the source, an always increasing fraction of the existing beings, are already building a new city.

José Maria Tavares de Andrade – Terapia panteísta ou religião da Natureza


José Maria Tavares de Andrade

José Maria Tavares de Andrade nasceu em Nazaré da Mata (PE) em 16.07.1942 . Estudou no Seminário de Olinda e tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi jornalista (Revista Cruzeiro e Veja) e pesquisador da cultura popular junto a Mauro Motta (Fundação Joaquim Nabuco), Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna (DEC-UFPE). Desenvolveu o projeto Música Popular Religiosa que está na origem do Movimento de renovação litúrgica na Comunidade Eclesial de Base em Ponte dos Carvalhos – Cabo (PE) e do Movimento Armorial.Bolsista da Universidade Católica de Louvaina (Bélgica) entre 1970-73 obteve os títulos de Mestrado em Sociologia e em Linguistica. Fez doutorado em Antropologia com Roger Bastide (Sorbonne – Paris III, 1967) e Pós-Doutorado em Epistemologia da Complexidade com Edgar Morin EHESS, 1989.Ensinou na Universidade Estadual de Londrina (PR) entre os anos 1973-78 e em seguida na UFPB até sua aposentadoria em 1994. Atuou na Extensão Universitária junto ao pioneiro Centro de Defesa e Direitos Humanos, fundado por Don José Maria Pires. Criou a Disciplina Antropologia da Saúde/Doença e o Grupo Interdisciplinar de Plantas Medicinais ensinado e pesquisando no Mestrado em Ciências Sociais da UFPB.Deste 1994 é pesquisador do Institut de recherche interdisciplinaire sur les sciences et la technologie – Université de Strasbourg – França, sendo responsável pelo Seminário de Etnomedicina.Publicou entre outros: “Magie, ethnomédecine et religiosité au Brésil”, L’Harmattan, Paris, 2013 e “Terapia panteísta Religião da natureza”, Massangana, Recife, 2010.

Terapia panteísta ou religião da Natureza

O movimento panteísta (1922-1964) foi estudado em Recife, enquanto fenômeno mágico-religioso extraordinário, enigmático e eclético, mais que sincrético. Ele é polêmico quanto às suas origens e seus impactos na cultura popular, segundo interpretações diversas que foram dadas pela impressa escrita ou por pesquisadores da época. Trata-se de preservar elementos da pesquisa, feita com a colaboração do músico José Generino de Luna, sobre Música Popular Religiosa (DEC-UFPE, 1067-70). Enquanto alguns movimentos religiosos, ou movimentos sociais em geral, destinam-se a entregarem uma tendência global, de unificação ou padronização cultural, o Panteísmo ao contrário, recuou para um “paradigma perdido” – termo utilizado por Roberto Motta, ao escrever o prefácio do livro.

 

Metafísica: psicogeografia e teopolítica ao redor das muralhas românicas

bring back the throne

Régis Alain Barbier

Para quem reconhece o binômino consciência-cosmos como fenômeno absoluto, declamando num monismo radical a unidade paradoxal das substâncias e dos atributos filosóficos, as categorias kantianas caem e revolucionam! Desmorona o espaço-tempo que passa a ser um amplo momentum no qual  passados e futuros são presentes feitos de signos da natureza e significados dos observadores; tudo é esférico, consequente e decorrente; assim sendo, é possível, na mesma narrativa e poucos parágrafos, pincelar e agregar, em significados plenos, eventos distantes e seculares;  evocar o “nada sei” de Sócrates, as vitórias e derrotas dos césares, falar do divino como um todo, tantra e salvação, da modernidade e das utopias, abraços e esperanças dos poetas: tudo se conjuga, faz sentido e se explicita na trama evolutiva.

A poderosa Roma, agregando pedaços de territórios, riquezas e culturas das terras e povos conquistados, lentamente, se agigantou e, como tudo que cresce, se desagregou. No século IV, o Imperador Constantino, senhor da metade do Império, encomendou aos sacerdotes em desacordos uma única visão, tentando atrelar a aventura imperial decadente a um mito forte e consensual, procurando manter o curso da carruagem teopolítica. O império chegou ao fim nas ondas iradas e vingativas dos visigodos, mas ainda não caiu o papado que continua laureando os novos césares, dando coroas aos vassalos dos plutocratas, como antes dava aos invasores germanos, mantendo a sua pompa palaciana.  Hoje a igreja imperial continua regendo das ruínas dos césares, onde sacerdotes mansos vestidos de branco e escarlate assentam em tronos de outrora, infundindo a doutrina imperial talhada para bem servir os poderosos, abençoando as massas banidas do céu, ajoelhadas e vencidas nos percalços da história e dos mitos, esperando com fé uma vida plena além dos umbrais da morte.

Mas como todos os povos de antes da conquista e de sempre, ao longo da totalidade dos séculos, Incas, Tupis, Guaranis, Ianomâmis, Carajás, Jurunas e tantos outros, celtas, gaulês, jônicos e outras mil tribos de pagãos do além-mar e das quatro direções; somos todos da terra, temos origem caipira e indígena; os humanos atuais e toda a linha dos mamíferos  antecedentes não nascem em repolhos, ninhos de cegonhas ou pias batismais, tampouco em frascos de laboratórios: nascemos em úteros de mulheres, somos frutos originais e produtos do sistema solar, resultantes de muitas miscigenações e repiques, de uniões e atrações bioquímicas, biofísicas e amores carnais; todos enredados numa incomensurável e única teia de eventos. Entranhada nos decursos progressivos da lucidez e autonomia cosmo-existencial, a natureza, continuado e universal processo de individuação, manifesta um fragmento da imensidão no momento em que nasce humana.

Essa cosmologia feita humana não merece e não deve receber o grave e estranho anátema, a impressão batismal enunciada pelos sacerdotes do Império: afirmando os nascidos como banidos da esfera celestial; concebendo os corpos e o Ethos como veículos facultativos da vida; indivíduos não originais dessa terra e florestas, almas e espíritos zumbis provindo de um radical além-mundo, do sobrenatural das hipóteses! Tal anátema abala e destrói o bom senso, recolhe a inteligência natural do estado-de-ser e embrutece o Homo sapiens. Espantado, o psiquismo sensível e indígena, significativo e real, que deveria acompanhar e reger a vida como um gênio inato, desconecta do estado-de-ser gerando um sentimento intenso de perdição, mergulha num nimbo ignaro e carente onde parece destituído de rumos e paradeiros, algo acidental, pronto a submeter-se a vaporosas psicanálises e rigorosas catequeses.

Desenvolver-se como se deve, de acordo com a natureza, exige um saber cuja lucidez e fonte não se acham nas cúrias e academias sustentadas e sustentadoras do sistema que desonra a luz natural da razão. O o amadurecimento e a ressurgência do homo sapiente exige uma compreensão e reconhecimento radical, negações firmes e escolhas decisórias, transculturais e metafísicas. A humanidade é adequadamente civilizável, mas apenas em culturas amáveis, livres e igualitárias, fazendo jus à natureza original e unitária do estado-de-ser: o homo sapiente necessita e merece uma educação ponderada, transmissora de mitos que honram e enobrecem a natureza intuída na esfericidade cosmo-existencial, assentada no seu Ethos refletindo o Logos à luz da razão natural. A espúria piramidografia e triangulação educacional, psicanalítica-terapêutica degenera a criatura humana e sustenta um sistema escalar de representantes e representados, Superego, ego e Id  que não são capazes de promover um mundo dialógico e não permitem que se revelem arranjos circulares, esféricos e horizontais dignos de uma grande fraternidade onde possam conviver todas as criaturas em harmonia; o tríptico da prepotência e superestratificação sustenta e confirma a vigência de impérios culturais, econômicos e políticos truculentos e insanos.

Iludida por mitos e impressões batismais que renegam as evidências unitárias a favor de hipóteses escapistas afirmadas com arrogância, desprivada da sua visão nativa e capacidade de sentir a congruência e a totalidade, a criatura é induzida a imaginar uma ruptura substancial entre a sua percepção (mundo transcendental do sujeito) e o dado-a-ser que naturalmente se percebe, rompendo dessa forma a unidade fenomênica do processo existencial; uma ruptura que permite iludir a absurda existência de uma “coisa-em-si” que jamais se conhece, domínio da esfera transcendente, arranjo hipotético e reservado das coisas do além, palanque do deus teísta sobrenatural e mitologia associada. O eixo de perspectiva metafísica que sustenta a vigência da edificação românica pode ser adequadamente definido como transcendente-transcendental. Uma equação metafísica ilusória e dualista que transforma o dado-a-ser denotado à luz da razão natural em nulidades e representações artificiosas de algo cuja realidade não pode ser comprovada a não ser deixando de reconhecer o que se é para acreditar nas perspectivas advogadas, ou seja,  um esquema cogitado e ensimesmado no interior  de muralhas para melhor servir os interesses de um domínio cuja intenção profunda renega a filosofia e prudência a favor das constrições do divinizado status quo imperial.

Teria existido na antiguidade, orla externa ao círculo das muralhas de Roma, uma perspectiva metafísica hoje dificilmente imaginada nas obnubiladas ontologias e representações da atualidade românica?

Do lado externo das muralhas, lugares descritos pelos primeiros historiadores que viviam no começo da nossa era calendário, no mundo dos pré-socráticos, de Tales de Miletos e Heráclito, dos Taoistas amantes e conhecedores das coisas naturais, incubava uma visão profunda e diversa, um dragão apto a ser descrito em termos compreensíveis aos românicos. Essa perspectiva metafísica existia pressuposta e evidente, por isso dispensando descrições, mas hoje precisando serem ditas e afirmadas. No mundo antigo, o processo existencial metafisicamente contrastado com o românico, a perspectiva central em torno da qual se dialogava, negociando ideias e pontos de vista, era um eixo de perspectiva metafísica denominável cosmo-existencial. Lugar em que a estrutura e inteligência da natureza se interpenetram e realizam  a humanidade, junção existencial fenomênica onde se vive a forma unitária da consciência e do mundo, do ser e do seu estado; lugar onde a cosmo-existência se consagra numa fresta mística que existe entre a estrutura do mundo e da consciência; monismo onde se reconhece que, em quaisquer pontos da história e do porvir, cosmos e existência não se dissociam jamais, a não ser em pasmas e reflexões hipotéticas! No humanismo antigo, a medida de todas as coisas tendia a se equacionar e naturar na lucidez desse cosmo-existencialismo; a apreciação sensível, qualitativa e filosófica desse fenômeno é determinante na configuração de uma estrutura societária mais sábia, onde se possam orientar bons destinos, éticas e praxes.

Uma vez desenhados e reconhecidos, os dois eixos de perspectivas metafísicas – da coisa-em-si de lá e de cá – denota-se com clareza o que diferencia o mundo antigo, com grau de sapiência eclodido e amadurecido, do mundo românico imperial: de um lado a ordem societária é mantido e regida à custa de decreto de decisões elitistas; do outro, tende-se administrar as coisas da cidade em diálogos e debates que acontecem ao redor de círculos dialógicos e conselhos de anciãos e sábios. A visão do divino e sagrado dos antigos e pagãos, dos que margeiam as muralhas, tende ser dialógica, central; se o divino, belo e sagrado, os deuses e deusas, vivem entre nós, podem ser contatados e serem conhecidos por todos, não existe ninguém com espaço reservado. Na perspectiva natural, a consciência esclarece o cosmos que se conscientiza numa iluminação absoluta; uma realidade inabalável até provar em contrário, um fundamento essencial, monístico, paradoxal talvez, que só se renega toscamente, recorrendo a hipóteses imprudentes evocando sobrenaturalismos milagreiros e orfismos radicais, reinos de eurídices que jamais se contemplam; ou dito em prosa seca e franca, hipóteses e imaginações que não passam no crivo do bom senso. Algo tão perfeito, perene e fatal, universalmente reconhecido como a junção paradoxal dos atributos de Espinosa e das “res” de Descartes numa forma unitária, algo alquímico quando a consciência e o mundo se entendem como Tao, só pode gerar paz nos momentos civíticos e citadinos da existência, expressar oitavas de harmonias claras.

O sistema civilizatório que se elaborou e amadureceu no seio da evolução política imperialista, universalizou-se ao redor do mito abraâmico  que na esfera geopolítica do Império Romano melhor sintonizou e magnificou esse impulso dominador e imperioso junto com essa noção teocrática que, juntos, geram esse absolutismo intolerante e messiânico, na órbita do qual se entranham o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, que advogam esse orfismo radical e sobrenaturalista onde se ancora o hierarquismo imperial cuja legitimidade e bom senso desmoronam ao afirmar o eixo mais antigo de perspectiva  metafísica aqui apontado e denominado cosmo-existencial.

Essa aspiração ou utopia filosófica e científica de harmonia universal e panteística, visão ancorada ao que é justo e sensato nas pautas e rimas de um processo evolutivo imaginado bem sucedido, não pode ser apenas o sonho reservado de alguns pensadores, elaboração reativa e neurótica frente ao padrão românico, lugar em que o impera o eixo de perspectiva metafísico teísta piramidal e hierarquista. Previnem-se apressadas impressões alienistas deixando claro que como um movimento oscilante, em gangorra, a expressão progressiva de adequação evolutiva de uma espécie vicejando em busca do seu loci verdadeiro e ponderado não se observa plenamente nas durações curtas das nossas vidas e das histórias que se contam.

Os dois pareceres, o eixo de perspectiva transcendente-transcendental, piramidal, representativo, fiduciário, opositivo, retraído e escapista frente à apreciação  mais gozosa e extática da vida, versus o eixo de perceptiva cosmo-existencial, aberto a formas filosóficas e teológicas extáticas, celebrando a trama universal, dialógica, circular, esférica, lastrada em coisas telúricas; ambas as tendências e humores, ou modos de existir, coexistem como as máscaras da Commedia dell’arte, entranhados e alternantes, concomitantes, esboçados nos dois lados dos conflitos, mesmo quando rigorosos e dramáticos como se articulam na história como a invasão românica da santa terra das tartarugas, todas as batalhas, até mesmo na grande batalha mítica de Kurukshetra que findava rigorosamente ao pôr-do-sol, pois à noite havia confraternizações entre os soldados de ambos os lados.

Existe no cristianismo, no sufismo, no cristianismo esotérico, em certos aspetos pitagóricos da tradição hebraica, movimentos e aberturas em busca do sublime que tendem a ponderar, desmascarar ou negar o  radicalismo do eixo dualístico onde as tradições e praxes históricas atrelam delimitando a trama existencial em divisões rigorosas; essas buscas tênues e desordenadas de unidade amorosa e aproximações ponderam e amenizam a natureza fortemente antitética das veracidades em confronto. Ademais das expressividades monistas e exemplares dos pré-socráticos jônicos, taoistas, algumas formas de zen, tradições xamânicas onde se usam plantas de poderes como sacramentos onde se ajuntam as coisas da consciência e do mundo em enlaces unitários, nos momentos onde tribos se reúnem em confederações pacíficas circulando o bastão da fala ou cachimbo da paz, existem igualmente, no mundo dito pagão, longe das influências românicas, pelejanças, rituais e bruxarias onde se lançam feitiços contra forças estranhas, consideradas malígnas, embora não sobrenaturais, evocando fortes dualismos.

Sintonias e dissintonias, simpatia e antipatia, harmonias e desarmonias, unidade e dualidade  acontecem na textura do mundo, onde as perfeições sistêmicas da natureza cósmica convivem com as expressões afetivas e éticas dos humanos, gerando episódios e momentos exóticos e atípicos, onde os eixos antagônicos de perspectiva metafísica se entranham de maneira complexa, mas no ritmo aparentemente insano dos eventos, momentos se organizam balanceados, deixando aparecer e revelando com clareza a direção dessas polarizações onde se confrontam as dimensões da insensatez e da credulidade com as dimensões da justa razão e ponderação, equacionando eventos dramáticos resultando  em mudanças intensas de paradigmas e epistemes. Nesses processos, compreende-se que um destino próspero e feliz exige que os sonhadores idealísticos imaginando viver em espaços etéreos desprovidos de matéria, de acordo com visões arcaicas onde se confundem metáforas com a realidade tangível, devem se render à realidade que a medida das coisas que acontecem entre o sol e a terra ajunta em união às coisas do mundo e da consciência sensível e racional em formações civíticas onde se valem a totalidade das partes e níveis existenciais, círculos dialógicos, participações plenas e igualitárias com todos os que vivem irmanados no mesmo arco cósmico de existência.

No fluxo desses eventos vitais, uma civilização regida através de eixo de perspectiva como-existencial, ou panteísta, desponta como um advento imprescindível, uma  realidade necessária, para que possamos acontecer em harmonia, extraindo do Ethos e Logos a ética universal que deve ser atrelada ao bom mito do eterno retorno e da esfericidade onde se reconhece que vivemos em realidades políticas de acordo com que achamos ser: infernos, imaginando-se  banidos; paraísos, imaginando-se no lugar adequado celebrando um panteão de lucidez onde a consciência e a imaginação se ilustram em narrativas onde se apreciam o belo e divino, povoando o mundo de deuses e deusas em harmonia com o dado-a-ser, absoluto detentor do grande mistério existencial que é como é, sem que jamais se possa saber por quê.

Habitar no mundo, éticas e percursos afetivos ~ To inhabit in the world, affective ethics and courses

mascaras

Régis Alain Barbier

A estrutura e inteligência da natureza se interpenetram em junção fenomênica, trata-se da forma unitária da consciência e do mundo, do ser e do seu estado, do estado-de-ser; o cosmos se consagra numa fresta mística que existe entre a estrutura do mundo e da consciência; em quaisquer pontos da história e do porvir, cosmos e existência não se dissociam jamais a não ser em reflexões hipotéticas! A medida de todas as coisas se equaciona na lucidez desse cosmo-existencialismo, realidade que integra em harmonia gerundial, naturando, o Logos e o Ethos; a apreciação sensível, qualitativa e filosófica, sábia, desse fenômeno é determinante na configuração dos eixos de perspectiva metafísica que orientam os nossos destinos, éticas e praxes.

Renegar a insuperável e evidente integração fenomenológica cosmo-existencial, almejar superar o real em reflexões tuteladas em cogitações insensíveis e ideais de academias e cúrias obriga a imaginar uma ruptura radical, um fundamente dualístico que afunila numa forma teleológica em que se supõe uma junção acidental, ou de alguma forma opositiva, infeliz, da consciência e do mundo, evocando-se uma “consciência pura caída na matéria”, assim sendo, um Ethos sobrenatural, atolado no mundo material e atrelado a um Logos visitante celestial, alado, como revelado nas escrituras! A natureza, como natureza, antes divina e soberana no mundo dito pagão, regida pelo sol e a lua, pelos ciclos do dia e da noite, passa a ser servente e objeto dos iluminados do além  mundo!

Mas aceitar com gosto e espanto criativo e curioso essa agregação fenomenológica da existência e da consciência como uma unidade paradoxal onde o mistério se guarda e celebra com amor no coração de cada uma das criaturas leva a vislumbrar uma junção perenal sem cogitos teleológicos infundados; um monismo integrado e paradoxal, supralógico, onde existir em consciência se revela como facticidade absoluta.

Uma vez que se compreende que o pensador enfronhado em reflexões escapistas não é a medida de todas as coisas, a não ser no castelo enclausurado das suas próprias ciências e ideias; que o pensamento silogístico não toca a natureza,  mas as interpretações; que a medida de tudo quanto existe é melhor ponderada através da psique natural para quem pensar é sentir; arte cognitiva onde se conhece e sabe o essencial de imediato apreciando e saboreando os valores burilados pela natureza; reconhecido que a meditação e contemplação, à luz da razão natural, levam a uma apreensão mais verdadeira das justas correlações e evolução do estado-de-ser: denota-se nesses confrontos, tensões e descobertas, que enraízam em dois caminhos ou fundamentos, duas formas de habitar a existência.

O dualismo facciona e rompe o estado-de-ser, cria e desloca um hipotético “Ser” sem estado algum em ideais sobrenaturalistas, ventila sentidos finalistas e terminativos, condicionando o adepto a procurar o grande sentido nas catequeses e impressões batismais impostas pela cultura, ou, sendo mais curioso, debater outras formas, mas sempre ouvindo os prelados e iniciados como se fossem indígenas do além. Nesse caso a ética passa a ser como uma arquitetura barroca tendendo deslocar o sitio existencial, horizontal e natural, considerado acidental, infeliz, em direção ao azul do céu, um reino do além, estimulando a projetar futuros, cultuar caminhos de sacrifícios, abnegações e penitências. Normatizada como acontece na cultura dominante, a ideia implica que ser monge ou evangelista é a opção mais fiel, justa e congruente; doutrina onde a prática mais digna e santa, obra de herói, será muitas vezes imaginada como jejuar, de alguma forma sacrificar-se, esperando a morte chegar junto com a salvação. Vivendo em castelos, envolto em sede e ouro, pregando do alto dos balcões de antigos impérios e de senhores destronados, ou ajoelhados cabisbaixos, contritos por existir nessa carne pecadora, assombrados com medo de castigos, os catequizados, eleitos, adeptos e fiéis, não têm humor nem tempo para ver, sentir, apreciar e admirar a beleza e o Belo, as flores do campo.

Longe dessas elucubrações estranhas, idealistas, quiçá escapistas, fora das muralhas da poderosa Roma, a vida se consagra diversamente: a natureza, depois do grande vazio, permanece no seu lugar régio, as suas formas e formosuras se apresentam como fonte primária de ensinos, o mistério nela contida é depositado no coração de cada uma das criaturas; nessa terra não dominada ou liberta, o Ethos, a arquitetura da natureza, permanece central e real; o Logos, a perspicácia do dado-a-ser, admirável aberto ao sensório; a estética é a grande fonte de glória e a apreciação do Belo é o sacramento mais certeiro, o coração do saber. Cada uma das criaturas representa uma mandala de força e consciência universal, em si uma totalidade singular, um elo necessário da trama unitária. Cada nascido festeja em si mesmo união, amor e o saber cósmico; a morada apropriada é justamente o lugar onde se nasce, vive e morre, a identidade eternal do momento e origem absoluta: vive-se no divino, numa atmosfera panteística e alegre, configurando outra forma de ética, onde se escutam e consideram os que vivem, admirando a natureza, festejando o momento ciente do fluxo e das leis naturais.

Cada um vive a sua ética de acordo com uma apreciação de valor prístina e fundamental, mais ou menos cogitada; impressão pertencente ao próprio grupo cultural ou revisitada, singular. Como tudo num mundo polar, dois sentimentos ou valorizações imperam, determinando dois pareceres; uma resposta ou relação basicamente antipática e dessintônica, infeliz, frente ao dado-a-ser, imaginando frações, fronteiras rigorosas entre si mesmo e o que é outro, com a simbologia e os mitos que correspondem, buscando-se negociações, acordos, um outro mundo no orfismo radical ou até mesmo um além sobrenaturalista no teísmo; seja uma resposta simpática e feliz, evocando afinidades, resultando numa impressiva e abaladora harmonia e empatia, imaginando-se uma união, ocasionalmente exigindo paciência para ser denotada, mas sempre querendo chegar mais perto do dado-a-ser. Em todo caso, somos o caminho, a verdade e a vida  – a verdade com processo conectando o sentimento, a palavra e os gestos; a veracidade no domínio da cidade, onde tende a ser dado para se ver  (verdade) aquele que se sente e aprecia com força e convicção. Nessa via humana no âmbito da cidade, da política, acontece o que as circunstâncias naturais sistêmicas, cósmicas ou universais, permitem, agregado ao que as circunstâncias humanas, escolhas sensíveis e cultos onde enraízam a ética, autorizam.

Qual o melhor sentimento, sentido, mito e caminho a seguir? A que Mito atrelar o Logos e o Ethos que somos capazes de reconhecer e administrar? À esperança hipotética de um dia morrer para viver em cristal, ou ao reconhecimento e plena aceitação da vida, comemorando, sentindo, orando e agindo com toda a força do estado-de-ser; afinal, se existem paraísos ou infernos significativos e dialógicos no além, eles terão  de sintonizar de alguma forma com o aqui e agora.

Porvir, existindo um além;
Seguirá decorrente do criado:
Inferno querendo o paraíso;
Paraíso nada querendo além.

To inhabit in the world, affective ethics and courses

By: Régis Alain Barbier

Nature´s structure and intelligence are interpreted in a phenomenal junction, it´s the consciousness´ and the world´s unitarian form, of the being and of its state, of the state-of-being; cosmos consecrates itself in a mystic breach that exists between the structure of the world and that of the consciousness; in any point of history and of the time to come, cosmos and existence never dissociate from one another except in hypothetical reflections! The measure of all things is equated in the brightness of this cosmos-existentialism, reality where Logos and Ethos are integrated, in gerundial harmony, with naturalism; the sensible, qualitative and philosophic, wise appreciation of this phenomenon is determinant in configuring the metaphysical perspective axes orienting our destinies, ethics and practices.

To deny the insuperable and evident cosmos-existential phenomenological integration, longing to overcome the real in reflections tutored in insensible and ideal cogitations of academies and Curias, forces one to imagine a radical rupture, a dualistic foundation that narrows itself in a theological form where an accidental junction is supposed to exist, or in any opposable, unhappy form, of the consciousness and of the world, evoking a “pure consciousness fallen into the matter”, thus being, a super-natural Ethos, stuck in the material world and stick to a celestial, winged, visiting Logos, as revealed in the scriptures! Nature, as nature, early divine and sovereign in the world said pagan, ruled by the sun and moon, by the day´s and night´s cycles, becomes servant and object of the illuminated from beyond the world!

But accepting with creative and curious pleasure and astonishment this existence´s and consciousness´ phenomenological aggregation as a paradoxical unit where mystery is protected and celebrated with love in the heart of each creature allows one to shimmer a perennial connection without unfounded theological cogitations; an integrated and paradoxical, supra-logical monism, where existing in consciousness reveals itself as an absolute facticity.

Since one understands that the thinker acquainted with escapist thoughts isn´t the measure of everything, except in the cloistered castle of his own sciences and ideas; that the syllogistic thought doesn´t touch nature, but the interpretations; that the measure of everything existing is better weighted through the natural psyche to who to think is to feel and exist; cognitive art where one immediately knows and understands the essential, appreciating and savoring the nature engraved values; acknowledged that meditation and contemplation, at the light of the natural reasoning, lead to a more truthful understanding of the just correlations and evolution of the state-of-being: tensions and discoveries are denoted in these confrontations, which root into two paths or foundations, two ways of inhabiting consciousness.

Dualism divides and breaks the state-of-being, creates and displaces the hypothetical “Being” without any state in super-naturalistic ideas, imagines finalist and terminative meanings, conditioning the follower to look for the great meaning in the culture imposed catecheses and baptismal impressions, or, being more curious, debates other forms, but always listening to the prelates and initiates, as if they were natives from the other world. In this case, ethics comes to be a baroque architecture tending to displace the horizontal and natural, accidentally considered, unhappy, existential site, in the direction of heaven´s blue, a reign from the other world, inciting to project futures ways, worship sacrifice, self-denials and self-punishments. Normalized as happening in the domineering culture, the idea implies that being a monk or an evangelist is the most faithful, just and congruent option; a doctrine where the most worthy and saint practice, a hero´s work, will many times be imagined as to fast, to immolate somehow, waiting death to come together with salvation. Dressed with silk and gold, preaching from the top of balconies of ancient empires, uncrowned or downcast humiliated masters, sorrowful to exist in the sinful flesh, astonished, fearing punishments, catechized, adept and faithful, live in castles without mood to see, feel, appreciate and admire the flowers in the field, the beauty and the Beautiful.

Far from these strange, idealistic, perhaps escapist lucubration, outside the walls of the powerful Rome, life is diversely consecrated: nature, after the great emptiness, remains in its royal place, its forms and beautifulness present themselves as primary source of teaching, the mystery it contains is deposited in the heart of each one of the creatures; in this not dominated or free earth, Ethos, nature´s architecture, remains central and real; Logos, the perspicacity of the given-to-be, wonderfully open to the ‘sensorium’; aesthetics is glory´s great source and the appreciation of the Beautiful is the most convenient sacrament, knowledge´s heart. Each one of the creatures represents a ‘mandala’ and universal consciousness, a singular totality in itself, a necessary link of the Unitarian woof. Each born being celebrates in itself union, love and the cosmic wisdom; the appropriate residence is just the place where one is born, lives and dies, the moment´s eternal identity and absolute origin: one lives in the divine, in a pantheistic and happy atmosphere, configuring another form of ethics, where the living beings are listened and considered, admiring nature, celebrating the moment aware of the natural flows and laws.

Each one lives its ethics in accordance with an appreciation of pristine and fundamental value, more or less taken into consideration; impression belonging to its own cultural or revisited, singular group. As everything in a polar world, two feelings or valorizations reign, determining two opinions; a basically antipathetic dissyntonic, unhappy answer or relationship, before the given-to-be, imagining fractions, rigorous frontiers between itself and what´s another, with the symbology and the corresponding myths, in search of negotiations, agreements, another world in the radical orphism or even a super-naturalist other world in the theism; be it a captivating and happy answer, evoking relationships, resulting in an impressive and touching harmony and empathy, imagining itself a union, occasionally requiring patience to be denoted, but always willing to get closer to the given-to-be. In every case, we are the way, the truth and life – the truth with a process connecting the feeling, the word and gestures; veracity in the city´s domain, where it tends to be given to be seen (truth) that we strongly feels and appreciates about ourselves with strength and certitude. In this human way in the city´s, and politics´ range, it happens what the natural systemic, cosmic or universal circumstances allow, aggregated to what the human circumstances, sensible choices and cults where ethics is rooted, allow.

Which is the best feeling, sense, myth and way to be followed?  To which Myth, Logos and Ethos, that we are able to recognize and manage, should be linked? The hypothetical hope of dying one day to live in crystal, or the acknowledgement and full acceptance of life, celebrating, feeling, praying and acting with the full strength of the state-of-being; after all, should meaningful and dialogic paradises or hells exist in the other world, they´ll have, some way, to tune with the here and now.

 

Time to come, another world existing;
Will follow, resulting from what has been created:
Hell wishing the paradise;
Paradise wishing nothing beyond. 

Paletras: Os pilares do Panteísmo

Os pilares que fundamentam a religiosidade panteista foram explicitados no auditório da Livraria Cultura, ao lado do Shopping Paço Alfândega (Recife/PE). Na foto, o palestrante, médico e filósofo francês Régis Alain Barbier, sentado ao lado do professor de Filosofia da UFPE Thiago Aquino. A palestra, bastante inclusiva, foi marcada pelo bom humor e pelos hábeis oradores. O Instituto Universo Panteísta agradece a participação de todos e espera que não tarde a acontecer outro espirituoso reencontro!

PALESTRAII

Entrevista: Lama Jigme Lhawang e Régis Alain Barbier Tema:A visão panteísta e budista do sagrado!

1016314_567077386667292_45904298_n
[soundcloud url=”http://api.soundcloud.com/tracks/100178529″ params=”” width=” 100%” height=”166″ iframe=”true” /]

A visão panteísta e budista do sagrado!
Lama Jigme Lhawang e Régis Alain Barbier
Programa Realidades. 99,9 Mhz Rádio Universitária FM.
07/07/2013

Perfeição sistêmica e Perfeição Ética ~ Systemic Perfection and Ethical Perfection

mão de barro

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier  

Deus não é algo separado e acima da realidade; pensando em deuses e deusas somos deuses e deusas enquanto pensamos. Por isso usamos essa palavra para exemplificar coisas sublimes, virtudes, modo de ser, atitudes,  relação com mitos e arquétipos, encontros com o desconhecido, o absoluto, lugar que se pode visitar rendendo a razão lógica ao altar da essência e do mistério.

Quando se critica as religiosidades em relação a sua notória ausência de agenda teopolítica, “dando a César  o que é de César e a Deus o que é de Deus”, é frequente receber respostas evocando uma esotérica perfeição transcendente, parecendo querer afirmar uma ordem suprema que a razão desconhece. Quando se critica as religiões confrontando seus discursos e o que se pratica, como no caso do catolicismo, onde um papa regiamente assentado nas ruínas ainda valentes e ricas do Império Romano, prega humildade e simplicidade, mas guardando-se de exemplificar os votos de pobreza de um São Francisco; de certos desdobramentos do budismo, onde desde o início se pregam equanimidade e ponderação, mas vicejando durante séculos em arquiteturas societárias teocráticas motivadoras de sangrentos conflitos; outros fundamentalismos enraizados na perda do contato com o que pode ser denominado virtuoso e divino a favor de formas de idolatrias onde se deificam escrituras, objetos e pessoas, é frequente  darem essas mesmas respostas evasivas e justificadoras, tentando evocar uma ignota perfeição; um status quo divinal, perene, perfeito e transcendente, acima do entendimento humano,  do bem e do mal.

Sugere-se que todo estaria como deve ser , de acordo com a vontade de Deus, do karma, do destino, da natureza profunda; que as exterioridades, inclusive políticas, por mais truculentas que sejam, estariam  fundamentadas numa absoluta e adequada facticidade, tudo de acordo com a natureza e esquisitos e poderosos ordenamentos do criador.  Até onde pode ir esse conformismo irracional? Possivelmente longe demais quando lembrando a passividade das igrejas frente aos ditadores, exemplarmente do papa Pio XII frente ao nazismo.

Não se deixando ofuscar em imobilismos teóricos, denota-se que, nas expressividades culturais e políticas contidas na trama da natureza, algo impede o surgimento de uma sociedade ponderada, livre, amorosa e pacífica; será porque algum deus soberano quer que seja dessa forma? Que os percalços da história sejam necessários, desenhando uma trilha de eventos fadados a acontecer? Ou, simplesmente, porque o ser humano ainda não é senhor das virtudes necessárias à explicitação e demonstração de um grau suficiente de lucidez e sabedoria, de acordo com o que poderia ser,  se quisesse, à luz de ponderações filosóficas mais exatas e verdadeiras?

Tanto a deturpação e degeneração da sabedoria original  deslocada em revelações excepcionais trazidas por seres especiais quanto as posturas régias e pomposas dos líderes das tradições religiosas, ostentações em que a nobreza espiritual se transforma em ouro, as virtudes em pedras preciosas e que atraem a uma coorte súditos dedicados e féis que se ajoelham e prosternam explicitando uma devoção focados em personagens históricos, exemplificam abusos e incongruências em que símbolos e representações destronam o sagrado universal nessas deturpações e pompas. Iniquidades que, eventualmente,  se amplificam e amadurecem em fundamentalismos onde líderes religiosos se transformam em presidente de estados, em teocratas vivendo em fortalezas ou castelos, sábios em salvadores, ou objeto de sacrifícios, profetas em guerreiros cruéis.

Os que sabem que o divino, naturalmente encontrável por cada um na fenda mística fenomenológico-existencial inserida entre a consciência do mundo e o mundo da consciência, assenta em quem reconhece essa qualidade em si mesmo tanto quanto no dado-a-ser natural; que uma face do divino pertence ao observador e a outra à natureza e seus processos ultimamente ignotos de originação, possuem o dever de não se deixar idolatrar e não idolatrar, não se deixar tratar excepcionalmente e não tratar ninguém excepcionalmente, não iludindo a si mesmo nem a ninguém, nem sustentando ilusões e lendas históricas, ainda mais quando os seus potenciais para atrair violências e desentendimentos, repetidamente se comprovam.

Como reconheciam, em todos os azimutes, os antigos pagãos e pajés, os filósofos pré-socráticos até Sócrates inclusive, o divino existe atuante no coração e na consciência de cada um querendo se reconhecer como criatura universal, elevar-se dignamente à natureza possível para nós: o grau de homo-sapiente. Sendo o que se é, um estado-de-ser atual e presente, acontecendo desde sempre nos processos e na trama das interações cosmológicas, sem começo e fins delineáveis; os melhores ordenamentos societários e ideias mais criativas só podem surgir em contextos eminentemente dialógicos, onde os recém-nascidos, os infantes, todos os viventes, sejam reconhecidos e batizados, desde do começo, como portadores legítimos do Logos e veículos naturais do Ethos que atinente ao que somos como humanos, criaturas contextualizadas numa relação eco-humanista; lugares onde a ética deveria naturalmente decorrer e fluir desse reconhecimento, onde o conhecedor deveria ser reconhecido como fonte potencial e inerente de saber, através do cultivo de metáforas e simbologias que dignificam, de mitos que enobreçam a natureza e natureza humana. Onde estão os grandes ritos e consagrações capazes de nos curar das religiões mesquinhas que no começo das suas conversas nos denigrem junto com toda a natureza, oferecendo contadas e desonrosas caridades que não nos honram nem justificam.

Não seria melhor honrar a natureza mais nobremente, com magna veracidade, explicitar com clareza o potencial cocriador do estado-de-ser? Mostrar que entre viver mitos impostos por domínios culturais e convenções, melhor e mais sensato seria examinar os mitos fundantes possíveis e adequados às circunstâncias existenciais? Não seria acertado e sensato reconhecer o que é evidente: que a estrutura e configuração psíquica do estado-de-ser afunila em dois sentimentos opostos que sedimentam dois eixos de perspectivas metafísicas, configurando dois grandes mitos: o mito do eterno retorno e o mito salvacionista?

É evidente que os sofrimentos societários gerados nos decursos de processos culturais inadequados, com recursos espirituais aquém dos que existiam no tempo de Tales de Mileto, ultrapassam em intensidades e crueldades as dores naturais, hoje mitigadas pelas artes médicas. As dores e os piores sofrimentos que a humanidade suporta são causados pelos próprios humanos, pelos que se desconhecem, pensando ser menos ou mais de que são, instituidores de políticas opressivas e ditatoriais; perturbações que assentam em duas fontes: num primitivismo instintivo e residual, que pode ser burilado, e no desconhecimento ou desprezo dos potenciais humanos, coautores possíveis dos seus próprios destinos.

Nesses mitos que apontam seres enviados e especiais, diletos e tradicionais portadores de saberes transcendentes, veículos singulares e exclusivos da verdade salvatéria, onde, de uma forma ou de outra, com uma variedade de narrativas e nuances, se imagina uma humanidade pecadora, sofredora, essencialmente inadequada em seu meio, potencializam-se e demonstram-se dois graves retrocessos: um bruto primitivismo pedagógico e político, junto com uma profunda ignorância e falta de sensibilidade para justamente apreciar o belo. A ideia mais justa, o projeto mais necessário, a conduta mais prudente se revelam naturalmente quando os que dialogam no círculo dos debates se reconhecem como de fato são; compreendem que o dado-a-ser implica uma inteligência e uma arquitetura, um Logos e Ethos, logo, uma ética, porque a medida de todas as coisas não está na vontade aleatória, nos desejos e incapacidades dos que pensam e refletem, mas na fusão essencial e paradoxal da consciência e existência, fundamento contido em cada um e em todos igualmente, por serem o que são, realização cosmo-existencial diacrônica e sincrônica, assentada no infinito e ilimitado, portadora de unidade e identicidade como marca essencial; realidade absoluta cuja justa consciência se revela na arte da meditação e contemplação, sentimentos e simbologias atinentes, que amadurecem em metáforas, alegorias e conceitos dignificantes quando elaborados no cultivo prudente da filosofia. Nessa unidade, harmonia e universalidade reconhecidas, como poderiam existir seres diletos, essencialmente diversos dos outros, ligados a uma essência pura , sendo os demais banidos, afastados? Como pode uma mensagem autoral afirmando essas disfunção e dualidade pretender curá-la?

Uma assembleia carente de saber não pode apresentar uma configuração política digna, apenas ansiar pela saciedade dessas carências existenciais fundamentais que não se pacificam a não ser reconhecendo a si mesmo e ao outro com adequação profunda, veracidade e respeito, à luz de uma filosofia desimpedida e livre de formatos culturais abusivos. Quando o ser humano exemplifica um comportamento inferior ao que deveria caso conseguisse se elevar à altura do que é, expressando as especificidades a que faz jus, incluindo o poder de se esclarecer através do exercício da sabedoria, até se responsabilizar pelo seu destino de cocriador e afirmar-se humano, plenamente humano, merecedor dessa especificidade, ele se revelaria em construção continuada, com o dever de fazer o possível para auxiliar a si mesmo e ao outro a realizar essa grandeza e unicidade.

As possíveis perfeições que se podem evocar em condições de penúria de saber, paupérrimos  métodos pedagógicas e políticos, ditaduras instituídas em relações errôneas e primitivas, carentes de lucidez e virtude, como se cultivam entre os que integram a atual vida societária, são perfeições de categoria sistêmicas, cósmicas, que se manifestam por necessidade em quaisquer realidades, inclusive nos desdobramentos etológicas de quaisquer espécies, onde: as coisas acontecem perfeitamente de acordo com as circunstâncias, de qualidades variáveis, naturais e culturais que as relacionam e arquitetam.

Nas realizações culturais e políticas que ocorrem sem direcionamento filosófico, tudo acontece de acordo com as capacidades pródigas ou incapacidades carentes em construir e instalar um lugar digno e justamente correspondente ao locus a que faz jus o homo sapiente; uma situação denegrida, onde um grupo martiriza um outro,  onde dominantes manifestam uma brutalidade e avareza indigna de um saber possível, quiçá evidente, não representa a via de chegada adequada ao destino que se visiona e imagina como deve ser, de acordo com o que se é, sendo o que naturalmente se é: homo sapiente razoável.

Portanto, está claro, existem duas perfeições: primeira, uma perfeição sistêmica operando nas conjunturas de forças ligadas ao estado-de-ser como estrutura biofísica e dinâmica, onde se adequam a vida e os recursos como se manifestam nesse sistema solar, onde tudo acontece de acordo com as leis da natureza, conjunturas somadas a esse elã solar típico dos indivíduos saudáveis com pulsão existencial dirigida em busca da floração, de acordo com o grau de lucidez permitido nas orientações e carências que operam no âmbito da cidade e cultura; segunda, uma perfeição ética que se realiza quando o que acontece na vida social, a pedagogia, a política, reportam justamente à humanidade, maximizando seus potenciais de acordo com a especificidade dada pela natureza: a capacidade de ser razoável e acolher uma autodisciplina, ou autopoiética filosófica.

É evidente, quando condicionado em arquiteturas urbanas insensatas, vivendo em coordenadas políticas geradoras de desrespeitos, instituídas em diferenciações germinadas e cultuadas em âmbitos de dominação e violência, a humanidade não está no caminho da perfeição ética, nem exemplificando perfeição filosófica algumas, as coisas não são como deveriam e poderiam ser caso se respeitasse o potencial sapiente do ser humano, através de mitos, receptividade e educação adequadas.

Se, como dizem monges e fiéis, não se deve entravar de forma alguma à realização da compreensão de que na vertente cultural do arco cosmo-existencial, tudo está de acordo com o que se conscientiza, pensa, sente, deseja e atua, facilitando a realização  dessa sabedoria; logo, as situações nas quais se vive em lugares dissintônicos em relação ao destino mais adequados e positivos ao estado-de-ser humano, os empecilhos bloqueando a realização desse saber e vontade devem ser rejeitados. Existem estruturas societárias mais adequadas ao que deve ser e, efetivamente, é o homo sapiente, um ser razoável; não se manifestando essas estruturas por conta da submissão abusiva da esfera societária ao primitivismo e à ignorância; sendo o dever dos que vislumbram essas cidades nas suas imaginações nutridas de razões e saberes adequados, operar dentro de coordenadas que facilitam a instalação da paz e do respeito, ensinando a compreensão fundamental, que somos um só ser.

Se líderes religiosos, desafiados, afirmam, como se fossem filósofos e naturalistas, sábios panteístas, a universalidade da consciência sensível e aberta a esse sentimento numinoso, que todos podem acessar, eventualmente, desfrutar de uma paz profunda e da lucidez correspondente, imergir em eventuais elãs extáticos, aportar na ataraxia dos sábios, simplesmente, querendo conhecer de acordo com as mais justas ponderações; mas, ao mesmo tempo, pronunciando esses discursos genéricos e universalistas instituídos em lugares de elevado destaque, como se fossem autoridades políticas, recebendo honras e saudações excepcionais, como enviados e profetas em missão, efetivamente, ocupando espaços de antigos príncipes ausentes há muito tempo, algo deve estar impróprio.

Se líderes religiosos ostentam destaques dignos de reis e conquistadores de terras e impérios, evocando incorporar e representar personagens históricos por eles mesmos divinizados, integrantes de etnias e pertencentes a nações que se elevam nas proporções das deificações dos seus diletos filhos apresentados como encarnações ou representações específicas e especiosas do divino; mas por outro lado, evocando, quando possa convir, um deus impessoal, natural, cósmico, sintonizável por ato de vontade e lucidez, por inteligência simples, tentando justificar essas espetaculares individualizações como formas pedagógicas intermediárias, meios para educar e orientar os mais ingênuos e carentes de autonomia e inteligência abstrata, ainda necessitando de líderes históricos e culturais para se orientarem, algo deve estar incôngruo.

Afinal, ô iluminados, onde estariam locadas essas carências? Nas circunstâncias externas, afastada desse centro de saber monástico? No momento histórico, como um clima cultural? No alunato ou discipulado ignaro, incapaz de apreciar a real natureza das coisas sem toscas representações e imagens? Entranhadas em esoterismos cujas complexidades nulificariam a eficiência dos discursos que locam o divino na relação que cada vivente pode confirmar em si mesmo por existir consciente? Como poderia essa alegada universalidade apaziguante, sustentáculo da bem-aventurança, só poder ser transmitida através de recursos pedagógicos sintônicos com autoritarismos inscientes, geradores primários de discórdias políticas, conflitos e fundamentalismos consequentes e potencialmente perigosos? Seria então o essencial disfuncional, a bem-aventurança idêntica à desgraça?

Ou essas carências estariam locadas no corpo docente e nas formas pedagógicas atinente a esse diálogo entre fiéis e reverenciados? Essas carências são entranhadas em vícios e dependências que se alimentam da ignorância dos fiéis que se desobrigam das suas responsabilidades; fiéis cujo destino verdadeiro é viver de acordo com os mitos que imaginam, aceitam e reconhecem, ou, recusando esse estatuto criador, deixando a outros a incumbência de escolher.

Systemic Perfection and Ethical Perfection 

Régis Alain Barbier  

Translation by Stephen Cviic

God is not something separated from and above reality: thinking about gods and goddesses, we are gods and goddesses while we think. That is why we use this word to exemplify sublime things, virtues, ways of being, attitudes… relationships with myths and archetypes, meetings with the unknown, the absolute – a place which one can visit by surrendering logical reason on the altar of essence and mystery.

When one criticises religiosities over their notorious lack of a theo-political agenda, “giving to Caesar that which is Caesar’s and to God that which is God’s”, one often receives responses that invoke a transcendental esoteric perfection, apparently wanting to affirm a supreme order that reason is not familiar with. This kind of response is often an answer to the kind of criticism that compares religious discourses with what these religions actually practice, as in the case of Catholicism, where a Pope royally seated on the still brave and rich ruins of the Roman Empire preaches humility and simplicity, while protecting himself from having to exemplify the vows of poverty of Saint Francis; or in the case of Buddhism, where since the beginning they have preached equanimity and consideration, but have flourished for centuries in theocratic social structures that lead to bloody conflicts; or in the case of other kinds of fundamentalism rooted in the loss of contact with what can be called the virtuous and divine, in favour of forms of idolatry where scriptures, objects and people are deified. In these cases one frequently still receives the same evasive and justificatory responses, which try to invoke an unknown perfection, a divine status quo, perennial, perfect and transcendent, above human understanding, and above good and evil.

It is suggested that everything is as it should be, in accordance with the will of God, with karma, with destiny, with deep nature; that the externals, including the political ones, however brutal they are, are somehow based on an absolute and appropriate “facticity”, everything in accordance with nature and with strange and powerful structures ordained by the creator. How far can one go with this irrational acceptance? Possibly too far when one remembers the passivity of the churches when faced with dictators, a classic example being Pope Pius XII in relation to Nazism.

If one does not allow oneself to be blinded by theoretical immobilism, it is evident that, in the cultural and political expressions contained in nature, something prevents a considered, free, loving and peaceful society from arising – is it because some sovereign god wants it to be this way? Are the pitfalls of history necessary, mapping out a path of events fated to happen? Or is it simply that the human being is not master of the virtues necessary to achieve a sufficient degree of lucidity and wisdom to match what he could be, if he wanted, in the light of more precise and truthful philosophical considerations?

Here are two examples of abuses and inconsistencies where symbols and representations dethrone what is universal and sacred with corruption and pomp. One example is the corruption and degeneration of original wisdom, which is diverted into exceptional revelations brought by special beings. Others include the regal and pompous positions of the leaders of religious traditions, displays where spiritual nobility is transformed into gold, virtues into precious stones, and which attract dedicated and faithful subjects to a court where they kneel and prostrate themselves, showing a devotion that is focused on historical people. These iniquities sometimes grow and mature into fundamentalisms where religious leaders become presidents of states or theocrats living in forts or castles, and where wise men become saviours or the objects of sacrifices, and where prophets become cruel warriors.

Those who know that the divine – naturally findable by everyone in the mystical gap between consciousness of the world and the world of consciousness – can take root in anyone who recognises this quality in themselves just as much as in the natural human being; and who know that one face of the divine belongs to the observer and the other one to nature and its ultimately unknowable processes of origination, have a duty neither to allow themselves to be idolised nor to idolise, not to allow themselves to be treated exceptionally nor to treat anyone else exceptionally, not to delude themselves nor anyone else, nor to give credence to historical illusions and legends, especially when their potential to attract violence and misunderstandings has been repeatedly proven.

As was recognised by all ancient pagans and medicine men all over the world, and by the pre-Socratic philosophers up until Socrates himself, the divine exists and acts in the heart and in the consciousness of everyone who wants to acknowledge himself as a universal creature, and to raise himself worthily to the nature that is possible for us: the level of homo-sapiente or “wise man”. Being what one is, a current, present state-of-being, who has been there since the beginning in the processes of cosmological interactions, without a definable beginning and end – the best social structures and the most creative ideas can only arise in contexts that are eminently dialogic. Here, the new-born, children, all living beings, are acknowledged and baptised, from the beginning, as legitimate bearers of the Logos and natural vehicles of the Ethos that relates to what we are as humans, creatures that find their context in an eco-humanist relationship, where the knower needs to be recognised as a potential and inherent source of knowledge, through the fostering of metaphors and symbols which dignify the myths that ennoble nature and human nature. Where are the great rituals capable of curing us of those mean religions that right from the beginning of their discourses denigrate us along with the whole of nature by offering dishonourable charity that does not honor us?

Would it not be better to honor nature more nobly, with greater truthfulness, and make clearly manifest the state-of-being’s potential as a co-creator? To show that rather than living out myths imposed by cultural hierarchies and conventions, it would be better and more sensible to examine possible and suitable founding myths for our existential circumstances? Would it not be right and sensible to acknowledge what is evident: that the psyche’s structure and settings channel themselves into two opposing feelings that are the basis of two metaphysical axes of perspective, forming two great myths: the myth of eternal return and the myth of salvation?

In these myths which highlight sent or special beings, the preferred and traditional bearers of transcendental knowledge, singular and exclusive vehicles of the salvationist truth where, in one way or another, with a variety of narratives and nuances, humanity is imagined as sinful, suffering, essentially inadequate in its own milieu – here, two serious retrograde ideas manifest themselves: a brutal pedagogical and political primitivism, together with a profound ignorance and lack of sensitivity to justly appreciate the beautiful. The best idea, the most necessary project, the most prudent conduct, show themselves naturally when those who engage in dialogue in the debating circle recognise themselves for what they actually are, when they understand that the human being implies an intelligence and an architecture, a Logos and Ethos, and therefore an ethic. The measure of all things is not in random will, in the desires and inabilities of those who think and reflect, but in the essential and paradoxical fusion of consciousness and existence, a foundation contained in each person and in everyone egually, because they are what they are: a diachronic and synchronic cosmo-existential realisation, rooted in the infinite and the unlimited, the bearer of unity and identity as an essential feature. It is an absolute reality whose true consciousness is revealed in the art of meditation and contemplation, linked feelings and symbols which flower into worthy metaphors, allegories and concepts when they are created alongside a prudent study of philosophy. In this acknowledged unity, harmony and universality, how could there exist specially beloved beings, essentially different from others, linked to a pure essence, with the rest being banished and sent away? How can a message that affirms this dysfunction and duality aim to cure it?

An assembly lacking in wisdom cannot achieve a worthy political structure; it can merely yearn to satisfy those fundamental existential needs that are not soothed unless one acknowledges oneself and the other with suitable depth, truthfulness and respect, in the light of a philosophy that is unhindered and free from abusive cultural structures. When a human being displays behaviour that is beneath what he should display if he were able to raise himself to the level of what he actually is, expressing what is specific and legitimate according to his nature, including the power to enlighten himself through the exercise of wisdom, until he takes responsibility for his destiny as co-creator and affirms himself as fully human, worthy of this specificity, he reveals himself to be under continuing construction, with the obligation to do all that is possible to help himself and others to achieve this greatness and unicity.

The possible perfections that can be invoked in conditions of scarcity of knowledge, bankrupt pedagogical and political methods built into wrong and primitive relationships, lacking in lucidity and virtue, such as those which are encouraged among those who make up the current life of society, are systemic, cosmic perfections, which manifest themselves by necessity in all situations, including in the ethological processes of any species, where things happen in perfect accord with the natural and cultural circumstances which relate and govern them. In cultural and political achievements which happen without any philosophical guidance, everything happens according to one’s remarkable abilities or grievous inabilities to build and set up a place that is worthy of and corresponds to the place to which homo sapiens is suited; a degenerate situation, where one group massacres another, where dominant people show a brutality and greed that is unworthy of their possible or even evident knowledge. This does not represent the correct path to the destiny that one envisions and imagines according to what one is, being naturally what one is: a reasonable human being.

Therefore, it is clear, there exist two perfections: first, a systemic perfection that operates within the remit of the forces linked to the state-of-being as a bio-physical and dynamic structure, where life and resources adapt themselves to conditions that are manifested in this solar system where everything happens in accordance with the laws of nature. To this are added the circumstances and attitudes typical of healthy individuals with an existential spirit who seek to blossom, according to the degree of lucidity permitted by the guidelines and failings that hold sway in the ambit of the city and of culture. And secondly, an ethical perfection that is realized when what happens in the life of society, pedagogy, politics, justly reflects humanity, maximizing its potentials in accordance with the specificity given by nature: the ability to be reasonable and to welcome self-discipline or philosophical autopoesis.

It is evident that when it is conditioned by senseless urban architecture, living in political settings that generate disrespect and are built on differentiations hatched and nurtured in circumstances of domination and violence, humanity is not on the road to perfection, nor is it exemplifying any kind of philosophical or ethical perfection; things are not as they should or could be if the wise potential of the human being was being respected, through myths, and suitable receptivity and education.

If, as monks and religious people say, one should not in any way obstruct the enlightened understanding that, on the cultural side of the cosmo-existential arc, everything is in accordance with what one is aware of, thinks, feels, desires and the way one acts, making it possible to achieve this knowledge; therefore, one should reject situations where people live in places that are in disharmony with the state-of-being’s most suitable and positive destinies, and the obstacles that stand in the way of achieving this knowledge and will. There exist more appropriate social structures for what homo sapiens should be and – indeed – is, a reasonable being. But these structures are not seen because of the abusive submissiveness which the social sphere displays towards primitivism and ignorance. The duty of those who glimpse such cities in their imaginations nourished with suitable reason and knowledge is to operate within coordinates that make peace and respect possible, teaching the basic understanding that we are one sole being.

If religious leaders, when challenged, affirm – as if they were philosophers and naturalists, pantheist wise men – the universality of the consciousness that is sensitive and open to this numinous sentiment, which everyone can access, enjoying a corresponding profound peace and lucidity, immersing themselves in ecstatic enthusiasms, finding themselves in harmony with the imperturbability of the wise men, simply wanting to achieve the worthiest kind of knowledge – but at the same time, when they make these generic and universalist speeches  from positions of high acclaim, as if they were political authorities, receiving exceptional honors and tributes, like prophets on a mission, in fact, occupying the spaces of long-dead princes, something must be wrong.

Something is wrong if religious leaders show off ornaments worthy of kings and conquerors of lands and empires, suggesting that they represent historical personalities idolized by them themselves, belonging to races and nations that elevate themselves on the deified scale of their preferred children presented as incarnations or special representatives of the divine; but at the same time they invoke, when possible, an impersonal, natural, cosmic god, to whom it is possible to tune in through an act of will or lucidity, through simple intelligence, trying to justify these spectacular individualizations as intermediate pedagogical forms, means to educate and guide those who are most naïve and lacking in autonomy and abstract intelligence, still needing historical and cultural leaders to be guided by.

In the end, o enlightened ones, where does the source of these needs lie? In external circumstances, removed from this center of monastic wisdom? In the historical moment, like a cultural climate? In ignorant discipleship, incapable of appreciating the real nature of things without crude representations and images? Involved in esoteric ideas whose complexities nullify the efficacy of those discourses which locate the divine in the relationship which each living-being can confirm in themselves simply by existing as a conscious being? How can this supposedly peace-bringing universality only be transmitted through pedagogical resources in harmony with authoritarianism methods, the primary generators of discord, policies, conflicts and fundamentalisms that have consequences and are potentially dangerous? Can the essential, then, be dysfunctional, blessedness the same as misfortune?

Or are these needs located in the corpus of teachers and in the pedagogical forms which relate to this dialogue between faithful people and those who are reverenced? Do they live in vices and dependencies which feed on the ignorance of those religious people who relieve themselves of their responsibilities, people whose true destiny is to live in accord with myths that they imagine, accept and recognize, or – refusing this creative nature, leave to others the burden of choosing.

Who are you? What is your primeval feeling?

 

 

 

Do mito de Eros e Psiquê ~ Eros´and Psyche´s Myth

Ciências do panteão ou religiosidade panteísta 

eros_e_psique

Régis Alain Barbier 

Saber harmonizar Psiquê e Eros, criar um prazer elevado e sublime, é prática espiritual digna de semideuses e imortais.

O mito de Eros e Psiquê, como todas as coisas que se referem aos deuses que habitam espaços estendidos entre lugares surreais e pensamentos, é certamente sutil, por isso mal compreendido. A beleza de Psiquê é de perspectivas mais profundas e duradouras que a das formas, não pode ser descrita em palavras, diversamente da beleza das irmãs. Tampouco pode ser descrita a majestade dessa criatura, seu jeito gracioso de ser: as palavras, os reflexos, não mostram o essencial. A cidade dedicava a ela uma indescritível adoração; era cultuada como uma deusa, ou quiçá como imagem sagrada de altar; um símbolo rompido, com uma parte desconexa e distante; um fundamento que o olhar comum não alcançava.

A beleza de Psiquê era louvada, todos a admiravam, mas não a queriam,  como não se quer habitar em aposentos de cristais; encantava os abstratos e utópicos, os visionários, alguns artistas talvez, mas não empolgava os homens de praxes, ela era bela como se não fosse. Será que a perfeição dela existia escondida além das formas medíocres por todos aclamadas? A beleza das irmãs era evidente, eram muito desejadas, empolgavam reis e príncipes; mas, conhecendo a textura do mito, sabe-se que, de alguma forma, elas alcançavam o mundo secreto de Psiquê com se dela fossem sombras; em que poderia ser a irmã Psiquê radicalmente diversa?

O pai enviou um mensageiro para perguntar ao oráculo do Templo de Apolo como proceder com essa filha cuja graça todos reconheciam, mas que não empolgava reis ou príncipes. O oráculo respondeu: “Vista-a de preto e leve-a à noite ao topo de mais alta montanha; o par dela não é desse mundo, é um deus poderoso”. Assim foi feito e Psiquê ficou isolada no alto, suspensa entre os mundos, numa montanha embrumada onde se acredita que os humanos e os deuses se encontram nos sonhos e revelações da noite. Suave, uma brisa transportou-a pelos ares celestiais até um lindo vale; num bosque de belas flores e fontes, descortinou-se um Palácio precioso sem guardas, de portas abertas, com recintos ornados de mosaicos representando as criaturas da natureza, da flora e da fauna. Psiquê adentrou esse lugar encantado e deslumbrada escutou uma voz: “Toda essa riqueza é tua… Eu sou a tua voz, as tuas criadas interiores, basta tu pedires”: dormir, restaurar-te, repousar ou banhar? O que queres,  minha ama?”.

O mistério aprofundou, e a noite chegou aproximando do destino pelo oráculo anunciado: conhecer um enamorado advindo do oculto; o medo crescia,  mas as vozes consolavam. Das camadas do estranho e escuro, dos não lugares, ele veio, deitou-se ao seu lado e deu-lhe o prazer que ela permitia; assim acontecia e antes da alvorada ele partia; ela ficava solitária durante o dia, ele voltava à noite; acalmada a ansiedade, aumentava a confiança, sempre mais. O além dos picos montanhosos instalava-se como lugar habitável; Psiquê encontrava felicidade profunda e real; mas os parentes, sem notícias ou acessos a esses eventos e mistérios divinais, lamuriavam-se mais de que nunca.

Evidente, Eros-Psiquê e sua família vivem de um lado e outro de algo que não é dois, mas um só, por isso existem nesses encontros plenos de incompletudes, momentos que não se descrevem e acontecem tanto nos toques e chegadas quanto nos vazios e ausências; hoje de um lado, amanhã do outro, sempre a metade das coisas que colapsam entre a lembrança e o acordar, sinalizando uma realidade além do que se possa descrever, tanto em termos de beleza quanto dos mistérios; um jeito estranho de ser e viver entre o real e a imagem, onde o que é existe de uma forma que não se pode compreender; mas, querendo, bem se sabe e reconhece.

Nessa mesma noite, o divino e misterioso amante de Psiquê alertou: “Cuidado, uma trama pode colocar-te em perigo; romper nosso mundo. Tuas irmãs imaginam que não vives, por isso, virão até às margens desse nosso lugar para pensar e gritar clamando por ti. Não responde, não dês escuta, meu amor, para não trazeres sofrimentos e derrotas, romper o mistério que nos unem”. Emotiva, ouvindo as vozes lamurientas dos parentes, sem atender o chamado, Psiquê, filha insólita, começou a duvidar: estaria limitada, vivendo numa prisão, ou esse lugar seria verdadeiro e sublime, obra do tempo que mais significa? Foi dormir em crise aguda, existencial, como hoje se diria.

Eros a repreendeu: “Como podes duvidar da minha orientação e lucidez, não sentes e não vês o prazer sublime que se forma tecido nas malhas do nosso secreto e transgressivo amor?”. Compassivo, cedeu, permitiu que Psiquê recebesse as irmãs; aconselhou a ofertar a elas todos os valores que pudessem levar, mas que nunca tentasse defini-lo e ver-lhe o rosto, que não se deixasse confundir sobre a sua identidade erótica. Invejosas, as irmãs confabularam uma maneira de interferir no destino celestial. Pela terceira vez, Eros alertou: “Toma cuidado com as tuas irmãs e ideias perversas, por inveja preparam um grande mal. Não lhes dês escuta, não interajas com elas”. Sentindo a incerteza e desorientação de Psiquê, o deus Eros rogou: – “Eu te imploro! Tem piedade de nós e dos frutos secretos do nosso amor”.

Confusa e sem rumo, Psiquê sucumbe a essas tramoias discriminadoras e de razões mesquinhas incitando a identificar e delimitar essa vida elevada, separar os lugares inspirados em que se divagam coisas divinas das coisas práticas e físicas; que degolasse esse amante sem rosto real! Dúbia, imperita, brandindo a espada criticamente afiada pelas irmãs sovinas, Psiquê tropeçou no arco sagrado e picou-se com uma das flechas de Eros; de imediato, o efeito da divina seta a despertou e curou-a de todas as dúvidas, confirmando e repondo nas dimensões mais preciosas do real o grande amor e a paz que antes já nutriam.

Sabe-se que Eros, como todos os deuses que compactuam com os humanos, antes de ser uma criatura, é um grande arco de fogo e luz, onde, entre os extremos do possível, se tenciona o amor verdadeiro; um dos lados do arco acontece suspenso em coisas que não se veem mas, se sentem, o outro, como o bastão plantado em Cusco, finca nos lugares mais intensos e naturais aos humanos; a seta da ponta dourada é o segredo que unifica os vetores existenciais, elevando os humanos ao todo, ao estatuto de semideuses.

Nesses movimentos inquietos e imperitos, um jato de óleo quente da lâmpada flamejante aspergiu, e Eros acordou confuso e desacreditado: “Por ti, Psiquê, superei os ditados e mandos desse poder vaidoso do reino dos mortais onde se regem haveres e posses, para construir e sustentar esse amor mais secreto e sublime. Duvidaste desse destino e, imprudente, abriste as fronteiras entre os mundos!”.

Decepcionado, Eros deixou Psiquê profundamente arrependida, querendo reafirmar no seu abandono e solidão uma consciência corrigida, mais lúcida e uma mais intensa vontade amorosa.  Justamente concentrada, desperta, inspirada e fortalecia pela dor da separação, caminhou firme na direção do seu mais justo, certeiro e intenso destino,  procurando Vênus, mãe poderosa de Eros, criatura das fronteiras entre a terra e o mar, capaz de andar por igual no mar e na areia, nos lugares das conchas e das espumas, rogando para que a auxiliasse a reconquistar o filho habitante do azul. Irada, enciumada pela beleza diversa mais profunda e divina da moça, Vênus quis castigá-la – para outros, apenas preparar e fortalecer essa  criatura ainda muito humana a penetrar os mistérios dos que, igualmente, habitem o céu e a terra.

Primeiro, ordenou que, em algum lugar do celeiro, separasse diversos tipos de grãos grosseiramente misturados, terminando a tarefa antes do fim do dia. Um trabalho justo e preciso de formigas que ensinava a diferenciar as coisas efêmeras, que se semeiam, colhem e consumem, das coisas que perduram, revelando as dimensões e qualidades mais fundamentais do viver.

Numa segunda prova, igualmente árdua, Vênus, a rainha dos portais, moradora dos lugares em que o mar beija areia e a areia, o mar, exigiu que margeasse e atravessasse o grande rio selvagem, e, na outra margem, encontrasse os carneiros mais valentes e montanheses, com lã de fios de ouro e sol, trazendo flocos dessa lã dourada antes do cair do dia. A fluidez dos juncos do rio aconselharam prudência, aguardar a hora mais propícia, nada operar antes do meio-dia; as coisas acontecem a contento, no tempo maduro e adequado. E assim Psiquê trouxe os fios de ouro e sol junto com o destemor e a prudência da busca e da colheita, que somados aos ordenamentos certeiros, justos e precisos das coisas do celeiro já apontavam na direção das virtudes da juba perfumada e soberana do amor.

Mas Vênus demandou mais ainda: traga uma água sutil, destilada no meio da correnteza montanhosa, desse riacho valente que desce do ponto mais alto das cordilheiras e mergulha até às profundezas mais ocultas do mundo! Apesar das dúvidas atiçando a desistência, Psiquê, corajosa, confirmou o seu avanço expressando espantosa entrega e destemor; foi quando, atenta e observadora, a águia dos céus foi colher para ela esse humor aquoso bem do meio das correntezas.

Pela quarta vez, Vênus exigiu: “Agora desce com essa caixa preciosa até à morada dos mortos, pede à rainha da passagem entre a vida e a morte para lhe dar um pouco dos seus mistérios, uma medida para durar um dia”. Da Torre mais alta da cidade onde Psiquê se concentrou decidindo se iria ou não tentar cumprir essa tarefa terminativa ou mergulhar no vazio, uma voz aconselhou: “Não te mata, vai com firmeza, levas os recursos necessários e não pares; caminha absoluta em busca dessa fonte das profundezas sem desviar-se da rota e da intenção original para atender caridades contadas, coisas de pedintes, fraquezas e gravetos; mas atenção, Psiquê, não é tudo: seja temperada e humilde, não queira sentar em tronos, comer banquetes de reis: contenta-te satisfeita com as causas mais singelas e simples; recebe o que te foi pedido e volta sem delongas!”. Psiquê já se levantava em busca das suas escolhas, mas a Torre voltou a falar sugerindo: “Não olhes para o conteúdo da caixa… Não olhes!”.

Bem sucedida, carregando consigo os mistérios da gruta da morte, voltando em direção ao plano dos humanos, movida por uma curiosidade intensa, vontade atuante e liberta até um ponto transgressivo, autonomia radical e criativa típica dos chefes a quem se obedecem, Psiquê abriu a caixa dos mistérios esperando se apoderar de algo capaz de resgatar as atenções do amante; mas, inadvertida, inalou o conteúdo vaporoso do estojo e caiu pálida, tragicamente desfalecida. Enquanto isso, Eros, saudoso, curado das queimaduras, desobedecendo aos ordenamentos da mãe distraída numa festa, já estava procurando a amada; encontrando-a desfalecida na senda estreita que conecta os mundos, picou-a com a flecha da vitalidade, virtude e harmonia original, pedindo para que se levantasse e mostrasse o seu talento, equilíbrio e valor.

A consciência e as vibrações criadoras da deusa natureza, grande rainha mais bela e perene de que as flores e criaturas que nascem e fenecem, abençoou a jovem transformada pela busca acontecida nas fronteiras das possibilidades e a acolheu no reino dos semideuses e dos imortais para quem envelhecer e gastar corpos não significa morrer, mas perdurar renascendo como fênix – o dia da morte sendo um só, mas os da vida totalidade, do sem começo ao sem fim de ciclos opositores e transmutativos. Unidos, Eros e Psiquê, existem em lugares que ninguém delimita, afirmando um real mais completo de que um ideal ou qualquer reinado, um mistério e plenitude que não se entregam, essência que não se nega nem se diz, patamar de verdade talhado além do perto e aquém do longe, do real e do ilusório.

Eros e Psiquê, cuidando bem de uma cria chamada Prazer, vivem secretamente no mundo dos mortais e dos imortais, igualmente. Orientados nas pontuações da Rosa dos Ventos, pela luz do Grande Cruzeiro cardeal, coroados de virtudes e vontades destemidas e desafiantes, plenos de vitalidade renovada, encontram o Belo e o prazer em todas as formas e mais além, nas dimensões perdurantes e circunvoluções mais extensas e profundas, conhecendo as esferas infinitas. Eros e Psiquê cultivam e inteiram o prazer, reconstruindo tudo sem jamais pôr um termo, por amor ao belo, ao saber, das perspectivas mais singelas e cotidianas aos mais ocultos e profundos mistérios.

É a trama da vida, acontece expandida do possível ao impossível, como deve ser quando os mitos configuram a textura profunda do real, acima do tempo, do poder e não poder. Eros e Psiquê jamais serão realmente desvendados, vivem e acontecem numa dimensão que existe e não passa, bela e secreta, inconclusa, reservada, ponto de junção e evolução que se busca, se perde e reencontra sempre, mas não se arrazoa. Mas isso, leitor, tu já sabias, de acordo com as ponderações, descritíveis ou não, dos teus próprios talentos e aspirações.

 

Eros´and Psyche´s Myth

Pantheon´s Science or Pantheistic Religiosity

To know how to harmonize Psyche and Eros, creating a high and sublime pleasure, is a spiritual practice worth of demigods and immortal beings.

Eros´ and Psyche´s myth, as everything referring to the gods inhabiting spaces extended among surrealistic places and thoughts, is certainly subtle, thus not well understood. Psyche´s beauty owns deeper and more enduring perspectives than those of the forms, and can´t be described with words, unlike the sisters´ beauty. Neither can´t be described the majesty of this creature, its graceful way of being: the words, the reflexes, do not show the essential. The city used to dedicate to it an extraordinary veneration; it was worshipped as a goddess, or perhaps as an altar sacred image; a dilacerated symbol, with a disconnected and distant part; a foundation the common look couldn´t reach.

Psyche´s beauty was worshipped, everyone admired it, but didn´t want it, as one doesn´t want to inhabit in crystal dwellings; it used to enchant the abstracts and utopians, the visionaries, maybe some artists, but didn´t overwhelm the customary men, it was beautiful as if it weren´t. Will it be possible that its perfection existed hidden beyond the mediocre forms acclaimed by everyone? The sisters´ beauty was evident, they were extremely desired, they thrilled kings and princes; but, knowing the myth´s texture, one understands that, somehow, they could reach Psyche´s secret world as if they were its shadows; how could the daughter Psyche be radically different?

The father sent a Messenger to the Oracle of Apollo´s Temple in order to ask how to behave with this daughter whose gracefulness was acknowledged by everyone, but who wasn’t able to thrill kings or princes. The oracle answered: “Put on her a black garment and take her to the top of the highest mountain; her peer doesn´t belong to this world, he´s a powerful god”. As stated it was done and Psyche stayed isolate on the top, hanging among the worlds, in a misty mountain where one believes the humans and gods meet in the night´s dreams and revelations. Gently, a breeze transported her through the heavenly winds till a beautiful valley; in a forest of pretty flowers and fountains, a precious unguarded Palace was seen from afar, with its doors wide open, and mosaic adorned premises representing nature´s, flora´s and fauna´s creatures. Psyche entered into this enchanted place, and dazzled a voice was listened: “All this richness is yours…I´m your voice, your inner servants, you may order”: to sleep, restore or bathe yourself? What do you want, mistress ?”.

The mystery deepened, and the night arrived coming close to the destiny announced by the Oracle: to know the enamored coming from the occult; fear grew up, but the voices comforted. From the layers of the strange and dark, from nowhere, he came, laid aside her and gave her the pleasure she allowed; so it happened and before dawn he left; she was left alone during the day, he returned at night; with the anxiety eased, trust increased, more and more. The other world beyond the mountain peaks was installed as a habitable place; Psyche encountered the deep and real happiness; but her relatives, without receiving any news or having access to these events and divine mysteries, used to whine more than ever.

Evidently, Eros-Psyche and her family live in one side and the other of something that isn´t two, but just one, and this is why they exist in these encounters full of incompleteness, moments that aren´t described and that happen both on the touches and arrivals and on the emptiness and absences; today in one side, tomorrow in the other, always half of the things that collapse between remembrance and awaking, signalizing a reality beyond what can be described, both in terms of beautifulness and of the mysteries; a strange way of being and living between the real and the image, where what it is exists in a way that can´t be understood, but, when willing, one can know and acknowledge well.

At this very night, Psyche´s divine and mysterious lover warned: “Take care, a plot can put you in risk; to break our world. Your daughters imagine you don´t live, thus, they´ll come to the borders of this our place to think and shout crying out for you. Don’t answer, don´t lend them an ear, dear, not to bring suffering and defeats, to break the mystery that binds us”. Emotive, listening to the relatives´ whimpering voices, without answering the call, Psyche, remarkable daughter, started to doubt: would she be limited, living  in a prison, or would this place be truthful and sublime, work of the time that means everything? She went to bed under existential, acute crises, as one would say today.

Eros answered: “How can you doubt about my guidance and brightness, don´t you feel and see the sublime pleasure that is shaped in the meshes of our secret and transgressive love?” Compassionately, he yielded, and allowed Psyche to receive her daughters; he advised her to give them all values they were able to carry, but never willing to define him and see his face, never allowing them to become mixed up about his erotic identity. Envy, they discussed about a way to interfere in the heavenly destiny.  For the third time, Eros alerted: “Take care with your daughters and their wicked ideas, for enviously they plot a great evil. Don´t listen to them, don´t interact with them”. Feeling Psyche´s uncertainty and bewilderment, Eros god pleaded: – I implore you! For mercy´s sake! For us, and for the secret fruits of our Love”.

Confused and adrift, Psyche surrendered to these discriminating and stingy reasoned chicanes, inciting to identify and delimit this elevated life, separating the inspired places where divine things are deviated from practical and physical things; to behead this lover without a real face! Hesitant, unskilled, brandishing the sword critically sharpened by his miser daughters, Psyche stumbled in the sacred arch and pricked himself with one of Ero´s arrows; immediately, the effect of the divine arrow awakened her and cured her from all doubts, confirming and replacing on the real´s most precious dimensions the great love and the peace long cherished by them.

It´s known that Eros, alike all gods that collude with the humans, before being a creature, is a huge fire and light arc, where, between the extremes of the possible, the true love is intended; one of the arc´s sides remains suspended in things that one can´t  see, but feel, the other, as the stick planted in Cuzco, settle in the most intense and natural places to the humans; the arrow with a golden point is the secret that unifies the existential vectors, rising the humans to the entirety, to the demigods´ statutes.

On these unquiet and unskilled movements, a hot oil gush from the flaming lamp sprinkled, and Eros awakened bewildered and discredited: “For you, Psyche, I have overcome the sayings and orders of this conceited power from the mortals´ reign where wealth and properties (riches) are ruled, to build and sustain this more secret and sublime love. You have doubted and, imprudently, opened the frontiers between the worlds!”.

Disappointed, Eros left Psyche deeply regretful, willing to reaffirm in her abandonment and solitude a more lucid, amended consciousness, and a more intense affectionate will.   Rightfully concentrated, awakened, inspired and strengthened by the separation pain, she firmly walked towards her more just, correct and intense destiny, looking for Venus, Eros powerful mother, creature from the frontiers between the earth and the sea, capable of equally walking over the water and on the sand, on the shells´ and froths´ places, imploring someone to help her reconquer the blue inhabiting son. Angry, jealous because of the girl´s deeper and divine diverse beauty, Venus wanted to punish her – to others, only prepare and strengthen this still very human creature to enter into the mysteries of those who, equally, inhabit heaven and earth.

First of all, she ordered that, in some place of the barn, she separated several types of grains coarsely mixed up, finishing the task before the end of the day. An ants´ fair and precise work that could teach one to differentiate the ephemeral things, which can be sowed, harvested and consumed, from those that last forever, revealing the most fundamental dimensions and qualities of living.

In a second equally difficult test, Venus, the portals´ queen, dweller of the places where the sea kisses the sand and the sand, the sea, required her to border and cross the big wild river, and, on the other margin, meet the most valiant and mountain sheep, whose wool threads were of gold and sun, bringing flakes of this golden wool before sun set. The fluidity of the river rushes advised judiciousness, in order to wait for the most appropriate hour, and do nothing before midday; things happen in a satisfactory way, within mature and adequate time. So, Psyche brought the golden and sunny threads together with the fearlessness and prudence of the search and harvest, which added to the reasonable, just and precise ordainments of the things from the barn that were already pointing in the direction of the virtues of love´s odorous and sovereign mane.

But Venus demanded much more: bringing a delicate water, distilled in the middle of the mountain current, from this valiant creek that descends from the highest point of the cordillera and dives till the world´s most hidden deepness! Despite all doubts instigating the desistance, Psyche, courageously, confirmed the advance expressing astonishing surrender and fearlessness; it was when attentive and watchful, the heavens´ eagle went to collect for her this aqueous fluid from the middle of the currents.

For the fourth time, Venus demanded: “Now go down with this precious box until the deads´ residence, ask the life and death passage queen to give you a little bit of her mysteries, an amount enough for a day”. From the city´s highest tower where Psyche concentrated herself deciding whether or not she would try to comply with this terminative task or to plunge into the emptiness, a voice advised: “Don´t kill yourself, go firmly, take with you the necessary resources and don´t stop; walk absolute in search of this source of the deepness without missing the way and the original intent to attend counted charities, beggars affairs, weaknesses and small sticks; but attention, Psyche, this is not all: be moderate and humble, don´t want to seat in thrones, eat kings´ banquets: be content and satisfied with the most plain and simple causes; receive what you have been asked for and return immediately”. Psyche was already rising in search of her choices, but the Tower insisted to talk, suggesting: “Don’t look into the content of the box…Don´t look!”.

Successful, carrying with her the death cave´s mysteries, returning towards the humans´ plane, moved by an intense curiosity, acting will and free till a transgressive point, radical and creative autonomy typical of the chiefs who are used to be obeyed, Psyche opened the mysteries box waiting to catch hold of something liable to ransom her lover´s attention; but, carelessly, inhaled the case´s vaporous content and fell down pale, tragically faint. Whereas, Eros, yearning, cured from the burns, disobeying his mother´s orders inattentive in a party, was already looking for his lover; finding her faint in the narrow path that connects the worlds, picked her with the vitality Arrow, original virtue and harmony, asking her to rise and show her talent, equilibrium and value.

Nature´s goddess consciousness and creative vibrations, the great queen more beautiful and perennial than the flowers and creatures that are born and die out, blessed the girl transformed by the search that took place in the frontiers of the possibilities and received her in the demigods´ and immortals´ reign to whom to grow old and wear out bodies doesn´t mean to die, but last forever being born again like Phoenix – the death day being only one, but those of life the entirety, from the beginless to the endless of opposing and transmutative cycles. United, Eros and Psyche, exist in places nobody can delimit, affirming a more complete real than an ideal or any other reign, a mystery and plenitude that don´t surrender, essence that isn´t denied or asserted, platform of truth carved beyond the near and beneath the far, the real and the illusive.

Eros and Psyche, taking good care of a daughter named Pleasure, equally live secretly in the world of the mortals and immortals. Oriented in the points of the mariner´s compass card, by the light of the Great Cardinal Cross, crowned with fearless and challenging virtues and wills, full of renewed vitality, encounter the Beautiful and the pleasure in every form and beyond, in the enduring dimensions and most extensive and deepest circumvolutions, knowing the endless spheres. Eros and Psyche cultivate and complete the pleasure, rebuilding everything without ever putting an end, for Love to the beautiful, to the knowledge, from the most simple and daily perspectives to the most hidden and profound mysteries.

This is life´s plot, that happens expanded from the possible to the impossible, as it might be when the myths configure the deep texture of the real, above time, power and no power. Eros and Psyche will never really be unveiled, they live and take place in a dimension that exists and doesn´t go by, beautiful and secret, incomplete, reserved, junction and evolution point which is searched, gets lost and is always reencountered, but that´s not reasoned. But this, dear reader, you already knew, according to the ponderings, describable or not, of your own talents and yearnings.

 

 

 

 

 

 

Desenvolvido por: Midia12