Mês: junho 2013

PALESTRA: OS PILARES DO PANTEÍSMO

PALETRA-II

Religiosidade Natural: Panteísmo e Práxis Vital ~ Natural Religiosity: Pantheism and Vital Praxis

“Todas as coisas estão cheias de deuses” – Tales

647TURNER-NONET 33

Thiago André Moura de Aquino

– I –

Os momentos definidores de toda tradição religiosa são a mitologia de base ou perspectiva profunda, uma ética e uma ritualística. A vida religiosa, propriamente dita, é configurada, antes de tudo, pelo conjunto de concepções e convicções que afirma verdadeiramente, porque é através dessa perspectiva profunda que os rituais e a ética ganham substância e consistência. Esta centralidade pode ser verificada também no panteísmo, uma forma antiga e nova de religiosidade natural. Uma religião pode ser entendida ou concebida como natural caso não situe o sagrado em nenhuma esfera à parte ou secreta, oculta ou sobrenatural, caso dispense intermediações e revelações sobrenaturais. A religiosidade natural acontece pela experiência do sagrado na natureza e a partir dos recursos naturais presentes em todo ser humano, de modo espontâneo, aberto, experimental.

Se está certo o ditado que diz que “ações têm consequências”, é correto dizer das ideias e compreensões que elaboramos que elas também têm consequência s importantes para quem as abraça e carrega. É evidente que as convicções mais profundas têm influência direta na configuração da vida, especialmente aquelas relativas ao sagrado. Assumindo esse entendimento, podemos olhar para as religiões tentando entender como a vida se constitui a partir delas. É o que pretendo fazer neste texto com o panteísmo, investigando como essa religiosidade natural é traduzida em vida, como se torna existência concreta. O que forma a prática de vida, a práxis vital diária não é apenas a ação, mas também a postura e a atitude básica. Ao descrever essa concretização , acrescento um pequeno parágrafo ao importante capítulo de fenomenologia da vida religiosa dedicado ao panteísmo.

O principal pressuposto e ponto de partida natural da fenomenologia da existência é a conjunção essencial entre autocompreensão e existência. Entre o conceito e a vida , existe uma correlação dinâmica que se realiza num movimento circular que atravessa sem repouso duas direções. De um lado, o pensamento provém das experiências vitais, sendo a vida a fonte mais rica do pensar ; de outro, o pensamento clarifica e orienta o processo existencial de cada um. É com base nesta correlação entre pensamento e vida que coloco a questão: o que significa ser panteísta? Como vive, convive, existe um(a) panteísta? É importante ressaltar que a tematização desta forma de viver, aqui apresentada, não é prescritiva, não intenciona elaborar uma receita, nem instituir uma regra, mas descrever uma prática de vida experimentada concretamente e compartilhada numa comunidade. É a partir dessa experiência que falo, pois me encontro também no interior do círculo de sentido que existe entre o conceito e a vida, articulando significados e dialogando. Antes de descrever alguns elementos dessa práxis vital panteísta, apresento uma breve definição do cerne dessa forma de religiosidade.

– II –

O eixo nuclear do panteísmo é o encontro da natureza divina na divina natureza. Esta é a intuição fundamental: a natureza de Deus consiste na divindade da Natureza. Deus não está dentro do mundo, o mundo não está dentro de Deus, Deus é a própria Natureza. Em última instância , não há aqui uma relação entre dois polos que possa ser concebida como uma relação de continente e conteúdo; o sagrado e o universo são dois nomes para o mesmo fenômeno, são sinônimos unitários. O sagrado somente pode ser experimentado numa ambiência de manifestação, na qual suas características e qualidades mais específicas aparecem e transparecem. Percebo três elementos essenciais do sagrado que a natureza expressa com a devida clareza: i. caráter absoluto: não há sinais de que o universo, o conjunto de tudo quanto há, dependa de qualquer instância prévia ou anterior. A natureza é pura emergência e surgimento, um movimento que tem em si mesmo seu princípio de implementação, é por si. É absoluta, ou seja, é solta (solutus) de (ab) toda relação de dependência exterior; ii. potência, a ausência de exterioridade implica que a natureza é autossuficiente , tem poder para ser fonte e origem de si mesma e de todas as coisas naturais que nascem no fluxo de transformação e que perduram de acordo com sua capacidade; iii. eternidade, pois sendo absoluta e realizando uma potência de afirmação radical, a natureza não tem começo, nem fim, nem propósito exterior. Essas são, em síntese, as qualidades da natureza que o/a panteísta reconhece como expressões da sua sacralidade: absolutidade, potência infinita, eternidade. É a partir daqui que é configurada a experiência vital, a partir da beleza e grandeza da divina natureza.

– III –

Ao reconhecer o sagrado no universo, o/a panteísta reafirma a antiga divisa que diz “tudo é um”. Unidade e totalidade estão entrelaçadas, permitindo ao panteísta perceber e valorizar as conexões, ligações, relações e visualizar, até onde for possível, a composição do mundo. Em outras palavras, a/o panteísta nunca se dissocia de suas relações, não se separa das coisas e do contexto, não olha de fora, não se vê no isolamento. O panteísmo é a dissolução de qualquer tipo de solidão metafísica possível. A partir da experiência contínua da unidade, sabemos ser parte integrante do todo. Esta é a primeira concretização existencial do panteísmo, o sentimento de união com todas as coisas naturais.

A partir da constatação da unidade, o/a panteísta pode situar-se e encontrar-se mais fortemente com base nas coordenadas do espaço e do tempo. Do ponto de vista do espaço, o/a panteísta experimenta um sentimento de pertencimento, de pertencer à natureza. O estar-aí no mundo é vivido como um habitar o mundo, um encontrar no mundo uma casa, um habitat. Do ponto de vista do tempo, o/a panteísta encontra na vivência do agora o núcleo mais concreto da transformação e realização. O futuro não é ainda, o passado não é mais, apenas o presente se presentifica. Dessa maneira é atingida uma excelente orientação vital: sempre estive no mesmo lugar, aqui, sempre vivi o mesmo instante, agora. A proveniência e o destino não são transposições, nem deslocamentos, mas traduções de uma existência estável que somente encontra-se a si mesma no aqui e agora, no hic et nunc. Quem pensa assim resolve as velhas questões existenciais: quem sou? De onde vim? Para onde vou? A primeira delas é a mais simples, porque sou um ser vivo, ente natural, parte integrante da ordem natural. Sendo assim, não vim de nenhum lugar, pois sempre estive aqui, bem como não irei para nenhum lugar porque sempre estarei aqui. Esta é a segunda concretização existencial do panteísmo, a realização de uma vida profundamente encontrada consigo mesmo por encontrar-se a si mesma enquanto natural, nativa, universal.

Dessa forma bastante concreta de situar-se, decorre para o/a panteísta uma alteração da qualidade da práxis vital. É fácil perceber que somos parte da natureza com elementos que configuram o próprio processo natural. Ser parte integrante implica ser participante da dinâmica da natureza. Um dos fenômenos mais admiráveis da natureza é justamente o fato de que ela concede a tudo o que produz uma dignidade própria. Em toda coisa natural expressa-se um poder específico, correlativo a sua singularidade. Cada ente natural recebe seus dons, talentos, capacidades, em suma, sua potência própria. Uma potência de ser o que é e de existir de acordo com sua natureza particular. Isto vale também para nós, porque possuímos o poder de ser humano e estamos abertos a trilhar a via da autorrealização . Temos o direito e a capacidade de realizar nossa natureza humana de maneira afirmativa, positiva, criativa e bela. Exercitando a maestria de ser o que somos em consonância com o universo, correspondendo a essa plenitude primordial. A integração criativa é tal radical que se encaramos a natureza como um espetáculo, por causa de sua beleza e exuberância, temos que compreender que não somos meros contempladores, espectadores, somos parte do elenco desse espetáculo, somos atuantes. A natureza não é paisagem, pois o olho que vê e o que é visto são um só. Esta é a terceira concretização existencial do panteísmo, o aproveitamento consciente dos seus dons para o engrandecimento da vida cotidiana.

Dentre os talentos que possuímos, há um que se destaca, que é a inteligência. A inteligência não é, evidentemente, exclusiva do ser humano, pois ainda que a diferença de grau seja significativa, diversos seres vivos demonstram percepção e entendimento do ambiente. O diferencial do ser humano consiste em perceber a si mesmo como sapiente e sabedor das coisas e por ser capaz de traduzir sua autocompreensão pelo discurso. No ser humano , a inteligência é razão e linguagem simultaneamente. A razão é uma luz natural, um poder de pensar, conceituar, discriminar, avaliar e entender, que forma o eixo da autonomia e autorrealização . É inevitável que o/a panteísta honre esse dom da natureza e afirme a compreensão, unificada com a afetividade, como o centro da existência concreta, como núcleo do processo vital. Isto significa essencialmente que somos aprendizes natos, pois viver é apreender, exercitando a percepção e a intuição que nos permitem apreciar e valorizar a exuberância e beleza das coisas. Esta é a quarta concretização existencial do panteísmo, favorecer o poder de pensar, ativando a lucidez no seu existir, concretizando uma harmonia com a ordem universal, porque a inteligência humana não deve ser pensada em dissociação com a razão universal.

Ser panteísta é uma maneira possível de ser humano que mantém viva e intensa a conexão com a naturalidade que está em nós. Ser panteísta é celebrar a unidade com o todo, atingir a serenidade por saber qual seu lugar e qual seu instante, ser criativo ao configurar a existência através dos dons naturais que lhe são próprios, cultivando a sapiência, a compreensão e o entendimento. A partir daqui são desenvolvidos os contornos da prática ética de exercício das virtudes, as diferentes formas artísticas e cerimoniais de celebração e ritualística, assim como as regras de uma convivência franca, cooperativa e dialógica.

O/A panteísta é a natureza que se encontra consigo mesma e que se alegra.

 

 

Natural Religiosity: Pantheism and Vital Praxis 

“All things are full of gods” – Thales

                                                                                 

By: Thiago André Moura de Aquino

– I –

The defining moments of every religious tradition are the basic mythology or profound perspective, an ethics and a ritualistic. The religious life, as properly said, is configured, first of all, by the set of truly affirmed conceptions and convictions, because it´s through this profound perspective that the rituals and the ethics gain substance and consistency. This centrality can also be verified in the pantheism, an ancient and novel way of natural religiosity. A religion can be understood or conceived as natural should the sacred not be situated in any separate or secret, hidden or super-natural sphere, in case it dispenses supernatural intermediations and revelations. The natural religiosity takes place by the sacred experience in nature and from the natural resources present in every human being, in a spontaneous, open and experimental way.

If the saying “actions have consequences” is right, it is correct to say that the ideas and comprehensions we create also have important consequences to whom adopt and carry them. It´s evident that the deepest convictions have direct influence on life´s configuration, specially those relating to the sacred. By assuming this understanding, we are able to view the religions trying to understand how life is formed as of them. This is what I intend to do with pantheism in this text, investigating how this natural religiosity is translated into life, how it becomes a concrete existence. What forms life´s practice, the daily vital praxis isn´t only the action in itself, but also the posture and the basic attitude. When describing this accomplishment, I add a small paragraph to the important chapter on phenomenology of the religious life dedicated to pantheism.

The main presupposition and natural starting point of the phenomenology of existence is the essential conjunction between self-understanding and existence. Between the concept and life, there is a dynamic correlation that takes place in a circular movement that crosses over two directions without rest. On one side, the thought derives from vital experiences, being life the richest source of thinking; on the other, the thinking clarifies and orients each one´s existential process. It´s based on this correlation between thinking and life that I raise the question: what means to be pantheist? How does a pantheist live, cohabit, exist? It´s important to emphasize that this way of living, here indicated, isn´t prescriptible, does not require a prescription, nor establish a rule, but describe a life practice concretely experienced and shared into a community. It is from this kind of experience that I express myself, for I am exactly in the middle of the sense circle existing between the concept and life, articulating meanings and dialoging. Prior to describe some elements of this pantheist vital praxis, I present a brief definition of the core of this form of religiosity.

                                                                     

                                                                   – II –

The nuclear axis of pantheism is the encounter of the divine nature in the nature divine. This is the fundamental intuition: God´s nature consists in Nature´s divinity. God is not inside the world, the world isn´t inside God, God is Nature itself. Without further appeal, there isn´t here a relationship between two poles that can be conceived as a continent and content relationship; the sacred and the universe are two names for the same phenomenon, they are unitarian synonymous. The sacred can only be experienced in a manifestation environment, where its most specific features and qualities appear and become manifest. I notice three essential elements of the sacred that nature duly clearly expresses: (i). absolute character: there are no signs that the universe, the set of everything that exists, depends on any previous or former instance. Nature is pure emerging and appearing, a movement that has in itself its implementation principle, it´s itself. It´s absolute, that is, it´s free (solutus) from (ab) every external relationship dependence; (ii), power, the absence of outwardness implies that nature is self-sufficient, it has power to be source and origin of itself and of all natural things that come in the transformation flow and endure according to their own capacity; (iii), eternity, as it is absolute and performs a radical affirmation power, nature has no beginning nor end, and neither an external purpose. These are, in synthesis, nature´s qualities that the pantheist acknowledges as expressions of its sacralization: absoluteness, endless power, eternity. It is from this point that the vital experience is configured, from the beauty and grandeur of the divine nature.

– III –

When recognizing the sacred in the universe, the pantheist reasserts the ancient motto that says: “everything is one”. Oneness and entirety are interlaced, allowing the pantheist to perceive and appraise the connections, unions and visualize, until the possible is reached, the world´s composition. In other words, the pantheist never dissociates him/herself of his/her relationships, does not separate him/herself from the things that belong to the context, does look outward, does not see him/herself isolated. Pantheism is the dissolution of any kind of metaphysical solitude possible. As of the oneness´ continuous experience, we know we are an integrating part of the entirety. This is the first existential concretization of pantheism, the feeling of union with every natural things.

From the confirmation of the oneness, the pantheist can find and feel him/herself stronger based on the space and time coordinates. From the space stand point, the pantheist experiences a belonging feeling, that of belonging to nature. The being-there in the world is lived as living in the world, as finding a dwelling, a habitat, in the world. From the time stand point, the pantheist encounters in today´s experience the most concrete nucleus of transformation and realization. The future isn´t yet, the past isn´t anymore, only the present is considered present. This way an excellent vital orientation is reached: I have always been in the same place, here, I have always lived the same moment, now. Provenience and destiny are not transpositions, nor displacements, but translations of a stable existence that only finds itself here and now, at the ‘hic at nunc’. He/she who thinks this way solves the old existential subject matters: who am I? Where have I come from? Where am I bound to? The first of them is simpler, because I am a live being, a natural being, an integrating part of the natural order. Being this way, I have come from nowhere, for I have always been here, as I won´t go anywhere because I´ll always be here. This is the second existential concretization of pantheism, the realization of a life deeply encountered with itself even when it´s found in itself while natural, native, universal.

From this extremely concrete way of situating him/herself, to the pantheist a change in the quality of the vital praxis results. It´s easy to observe that we are part of the nature with elements configuring the natural process itself. Being an integrating part implies being a participant of nature´s dynamics. One of nature´s most admirable phenomena is exactly the fact that it grants to everything what produces a self dignity. In every natural thing a specific power is expressed, which is correlative to its singularity. Each natural being receives its gifts, talents, capacities, summing up, a self power. Power of being what we are and of existing in accordance with our individual nature. This is also valid to us, because we own the power of being human and we are open to follow the route of self-realization. We have the right and the capacity to performing our human nature in an affirmative, positive, creative and beautiful way. Exercising the mastery of being what we are in consonance with the universe, corresponding to this primordial plenitude. The creative integration is so radical that if we face nature as a show, because of its beauty and exuberance, we have to understand that we are not mere contemplators, spectators, we are part of the cast of this show, we act. Nature isn´t a scenario, for the eye that sees and that which is seen are only one. This is the third existential concretization of pantheism, the conscious utilization of its gifts to daily life´s enlargement.

Among the talents we own, one outstands, which is the intelligence. The intelligence, evidently, isn´t exclusive of the human being, for even when the difference of degree seems to be meaningful, several living beings evidence owning perception and understanding of the environment. The differential in the human being consists in the capacity to perceive him/herself as wise and aware of things and with the capacity to translate his/her self-understanding through the discourse. In the human being, the intelligence is reason and language simultaneously. Reason is a natural light, a power of thinking, concepting, discriminating and understanding, which form the axes of autonomy and self-realization. It´s inevitable the pantheist should honor this gift of nature and affirm the understanding, united with affectivity, as the center of the concrete existence, as nucleus of the vital process. This, essentially, means that we are innate learners, for living is learning, exercising the perception and intuition which allow us to appreciate and appraise the exuberance and beauty of the things. This is the pantheism fourth existential concretization, to favor the power of thinking, activating the lucidity in its existing, accomplishing a harmony with the universal order, because human intelligence should not be thought of dissociated from the universal reason.

Being a pantheist is a possible way of being human that keeps alive and intense the connection with the simplicity that exists in us. Being a pantheist is to celebrate the oneness with the entirety, reaching the serenity because we know our place and our moment, being creative when configuring existence through the natural gifts which belong to us, cultivating the wisdom, the comprehension and the understanding. From now on, the contours of the ethical practice in the exercise of the virtues, the different artistic and ceremonial ways of celebration and ritualistcs, as well as the rules of a franc, cooperative and dialogical acquaintanceship.

The pantheist is nature that comes together with him/herself and becomes happy.

 

 

Quem é você? Qual o seu sentimento primevo? ~ What it is to be a pantheist, scientificist, atheist or supernaturalist theist

O que é ser panteísta, cientificista, ateu e teísta sobrenaturalista?

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With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier  

O cientificismo, ou fisicalismo, é um estado de perturbação cognitivo crônico, típico dos que não entendem que o ser humano, digno da denominação, não é uma razão lógica, mas complexa. Ser humano é ser um símbolo vivo, fabricante de mitos e perspectivas profundas ou cósmicas. O estado-de-ser-humano ajunta em união impreterível a totalidade dos sentidos com a totalidade das formas; tudo o que ajunta em união, sentido e forma é símbolo: por isso o ser humano é simbólico. Ele não pode deixar de se identificar com uma narrativa simbólica, ou mito, que serve de enquadramento fundamental, ou batismal, a partir do qual a vida societária, cultural e histórica se desenha. A ordem da cidade, o prazer e sofrimento de viver em natureza e cultura, dependem do mito original, fincado na qualidade da relação entre o significante e o significado. Se eu mesmo, significante consciente, dou a mim mesmo, significado e valores pejorativos, depreciativos, estarei convertendo o meu mundo, potencialmente prazeroso, em um inferno, o meu símbolo poderá ser um homem crucificado, ou similar; se dou um valor apreciativo e nobre, abrirei as portas de um paraíso, de uma vida amorosa, e o meu símbolo poderá ser o de uma criança recém-nascida nos braços de uma mãe sublime, de uma natureza bela e criadora. Qual a sua apreciação senciente, fundamental e nativa de si mesmo, como modo de viver, existir e de estar no mundo? Qual a qualidade da sua consciência intuitiva frente ao seu estado nativo? Simpática, amorosa, unitária e sublime? Caso a sua resposta seja sim, você é, de alguma forma, um panteísta, consagrando a vida ao Belo, à natureza e ao cosmos que se honram e louvam com amor e prazer, nasceu no lugar mais digno, está em união divina consigo mesmo e seu mundo. Caso a sua resposta seja antipática, opositiva e negativa, sem graça, você terá dificuldade em se reconhecer panteísta, poderá ser cientificista, fiscalista, ou teísta salvacionista buscando no reino das coisas, do ter, do possuir, da morte, a glória de viver. Poderá, igualmente, ser ateu, negar ser símbolo, enxergando-se como um objeto cultural e histórico, acontecido aleatoriamente na formação das coisas. Quem é você? Qual o seu sentimento primevo?

What it is to be a pantheist, scientificist, atheist or supernaturalist theist.

Translation by Stephen Cviic

Régis Alain Barbier  

Scientism, or materialism, is a chronic state of cognitive disturbance, typical of those who do not understand that the human being worthy of the name is not a logical but a complex reason. To be human is to be a living symbol, a maker of profound or cosmic myths and perspectives. The human state-of-being brings together in essential union the totality of senses with the totality of forms; everything that he brings together in union, sense or form is a symbol: therefore being human is symbolic. He cannot fail to identify himself with a symbolic narrative, or myth, which serves as a basic or baptismal foundation from which social, cultural and historical life is shaped. The orderof the city, the pleasure or suffering of living in nature or culture, depend on the original myth, rooted in the quality or the relationship between the signifier and the signified. If I myself, a conscious signifier, give myself a pejorative or negative meaning or values, I will be converting my potentially pleasurable world into a hell, my symbol could be a crucified man, or such-like. If I give myself an appreciative and noble value, I will open the gates of heaven, of a loving life, and my symbol may be that of a new-born child in the arms of a sublime mother, of a beautiful and creative nature.  What is your basic, fundamental appreciation of yourself, what is your way of living, or existing and being in the world? What is the quality of your intuitive consciousnesss faced with your native state? Sympathetic, amorous, unitary and sublime?  If your answer is yes, you are – in some way – a pantheist, devoting your life to the Beautiful, to nature and the cosmos which are honored and praised with love and pleasure, you were born in the worthiest place, you are in divine union with yourself and your world. If your answer is antipathetic, oppositive and negative, without grace, you will have difficulty in acknowledging yourself as a pantheist, you may be a materialist, or a Salvationist theist searching for the glory of living in the kingdom of things, of having, of possessing, of death. You may, equally, be an atheist, denying that you are a symbol, seeing yourself as a cultural and historical object, happening randomly in the formation of things. Who are you? What is your primal feeling?

O que é ser humilde?

Simplicidade

Régis Alain Barbier  

Bem nascidos, viáveis, somos a arquitetura do Cosmos, sua congruência e harmonia; cientes de assim sermos, inteligência natural, em nós mora o poder de discernir o sensato do insensato, o abusivo do justo, o claro do opaco. Ser humilde exige afirmar o melhor que se sente e compreende de maneira clara e indubitável, até provar em contrário; que o pensador não é a medida de todas as coisas, que a medida é sentir dor e prazer, apreciar a união irrefutável e insuperável da consciência profunda e do mundo, configurando a vida. Ser humilde é entender que a medida do que é, foi e será, é paradoxal; junção necessária da consciência e do mundo, com reciprocidade; que somos um estado único de ser, supremo, melhor e mais belo de que todos os impérios e reinados.

Ser humilde é posicionar-se frente à vida de maneira plena; reconhecer que antes de ser o que se pode pensar, de acordo com o que é dito por fazedores de discursos alugados, somos natureza original e atual, dotados das capacidades que justamente atinam. Humilde é reconhecer as evidências, que somos criaturas universais de infinitos efeitos e causas, repetições de culturas e tradições que se podem criticar e mudar de acordo com a apreciação de si, boa ou má; inteligente é reconhecer a beleza e grandeza da natureza que determina a nossa maior virtude que é amar e saborear a vida.

Ser humilde é apreciar e aceitar o dado-a-ser, construir um discurso cristalino e indubitável pautado entre as linhas da harmonia; de um lado a consciência clara, pré-socrática e socrática, indígena, do outro, o encanto da natureza.

“Pois, nasci muito simples, um corpo de carne capaz de sentir e pensar; assim a natureza me fez, das suas entranhas universais e cósmicas, surgi como produto de primeira linha, original, sem veicular ideias fantasiosas sobre quem sou. Pois sabem que sou imortal, que não nasci, que sou esse processo que repico e repica em formas sempre renovadas, desde o início dos tempos. Que não vim de lugar algum e que não vou a lugar nenhum, sou atualidade absoluta, a minha origem é o presente, a minha identidade é o Ethos onde eternamente tudo se reforma nas durações justamente ponderadas. Eu sou Logos e Mitos, símbolo absoluto, modelo de todos os demais, porque ajunto numa só peça a totalidade dos significados com a forma universal”.

Ser caridoso é dizer para quem imagina ser o seu discurso a dimensão absoluta do real que não é bem assim: sagrados e misteriosos são cada um dos falantes, todos dignos da mesma escuta, com maior atenção e respeito quando refletem a unitária e universal atualidade de ser agora e presente.

Ser humilde é reconhecer que todos nós estamos no poder de assim pensar e dizer; que ninguém é superior a ninguém, que os que imaginam ser especiais são bem menos do que pensam; lúcido e caridoso é saudar a si mesmo e ao outro que nos visita exclamando “Namastê” – eu saúdo o todo e divino em você!

Dos delineamentos de uma boa terapia filosófica ~ Outlines of a good philosophical therapy

GREEN PEACE+

Régis Alain Barbier

O homem criador de discurso não é a medida de todas as coisas; a medida justa de todas as coisas assenta na junção fenomênica que enraíza entre a consciência que pensa e a natureza que estrutura os corpos, organizando a existência; considerar plenamente a realidade da natureza desrespeitada na cultura é imprescindível à reinstalação de justas medidas na prática existencial. A causa maior de sofrimento dos que vivem nessas cidades congestionadas e poluídas como tumores, perigosas como as florestas que circundavam os burgos dos séculos passados, não origina da natureza, mas da cultura; o homem sem ciência e saber, vendido e acomodado às estruturas do poder, é o pior inimigo do homem verdadeiro, do homo sapiens propriamente dito.

Sidarta, o Buda, educado do modo artificioso e fraudulento na casa de um pai chefe de clã, promotor de dores e desequilíbrios, de acordo com as circunstâncias ilusórias em que vivia, entendeu o sofrimento como um destino necessário e central e o trabalho do Buda foi reencontrar um modo natural e filosófico de viver nessas circunstâncias existenciais nocivas, fortemente deturpadas e desentendidas. Como outras religiões, destituído de enunciados teopolíticos claros e precisos, o budismo apresenta um modo pessoal de suportar e transcender o sofrimento cultural artificioso, desenhando um posicionamento virtuoso inspirado no taoísmo e na ioga, acrescido de coordenadas teleológicas compensadores. Partes dos ingredientes fundamentais do budismo e outras religiões mais tardias são potencialmente encontráveis nas tradições anteriores das culturas hindus e do Ganges, e, igualmente, presentes nas práticas dos estoicos e epicurianos, nesses casos, justamente depuradas das aspirações teleológicas que não condizem com a sobriedade filosófica e o respeito ao não saber.

Na filosofia, qua filosofia, pré-socrática até Sócrates inclusive, as virtudes intelectivas e físicas do homem natural e saudável, dotado dos dons que lhe são específicos, são louvadas e comprovadas suficientes para compreender o que se necessita para constituir um viver harmonioso, condizente com as exigências de respeito ao meio onde a vida acontece; o homem natural encontra as medidas que justificam e honram a vida na própria estrutura da existência como aparece dado-a-ser à luz da razão qualificada e do bom senso imediato, do sentimento estético apurado no leque mais amplo das abstrações geométricas, líricas, formais e míticas.

O estado-de-ser reúne a inteligência dos princípios e a estrutura do cosmos configurando um estado de lucidez formal como junção necessária e paradoxal das qualidades e das quantidades. Realizada progressivamente, a plena consciência de si coopta e unifica a totalidade da consciência possível no espaço-tempo, consagrando uma união latente onde a consciência revela ser a consciência do cosmos e onde o cosmos é cosmos para a consciência em que se manifesta, confirmando e estabelecendo uma relação unitária impreterível, com expressividades paradoxais, revelando-se um biônimo criativo e vital cuja essencialidade e abrangências escapam a mensuras que aspiram delimitações objetivas e históricas – à luz da razão natural, a história e a objetividade colapsam na identidade original do sujeito.

Existindo essa corrente vital reunindo recursos, intercâmbios e valores desde o início dos tempos, ampliando o leque das concentrações unitárias iniciais em variegados floreios de diversidades e harmonia, manifesta-se um estado-de-ser proativo e eventualmente ciente de si, uma boa manifestação existencial, igualmente dada-a-ser e fazer, trazendo em si as virtudes espontâneas e autopoiética da criatividade. Essa plena consciência e realização operada naturalmente no fluxo evolutivo acontece em ignições cada vez mais frequentes e numerosas, suportadas pela atuação dos princípios onde maiores cotas de lucidez dinamizam o sistema no sentido da sua realização mais plena e efetiva nas circunstâncias dadas. O advento de uma sociedade cosmo-sinérgica e responsável, maximamente dialógica e lúcida, é previsível por necessidade intrínseca da ordem evolutiva. É o dever dos homens de boa vontade participar desse processo provativamente, encurtando e facilitando as vias destinadas a reformular a ordem da cidade, tornando a política condizente à aspiração de harmonia e felicidade do homo-sapiente.

A história intelectiva desse lento processo de maturação não se encontra adequadamente explicitada nas pautas idealísticas da Academia, condicionadas à sombra dos seus mentores, regentes e plutocratas instalados e ordenados em perspectivas elitistas e hierarquizantes que negam o igualitarismo circunstancial e o sinergismo estrutural e sensível da ordem natural como repositório e embasamento necessário ao porvir feliz e magna realização da natureza humana. Por isso a história das ideias, o elenco dos modos de imaginar e pensar a vida, a história das ideias de acordo com as pautas da Academia, não fornece as balizas necessárias ao desenho de uma terapia significativa e eficaz, permitindo sentir e pensar o fenômeno humano nas suas circunstâncias plenas e naturais. Faltam os aportes fundamentais da estética, a história necessária e significante dos encontros do estado-de-ser com a sua verdadeira natureza prístina, falta inscrever nesses processos de busca e hermenêuticas a história da lucidez e das suas evoluções nas medidas dos encontros dinamizadores extasiantes da psique com Eros; falta reconhecer plenamente os aportes dos povos indígenas, introduzir nos cogitos a compreensão clara dos usos e costumes dos povos e culturas antes grosseiramente superestratificadas, os aportes da literatura, da poética, dos processos psicológicos de libertação, do romantismo e da arte em geral: todos elementos fundamentais devendo integrar os processos de transformações que hoje se concretizam em passos redobrados, de acordo com a emergência da crise existencial.

Para (re)viver um modo de ser feliz e natural, é necessário rememorar e maximizar o valor dos diálogos gravados nas curvas da memória e acontecidos entre a psique sensível e o intelecto racional, confirmar a rendição da razão lógica aos argumentos estéticos e paradoxais mais vitais e mulitssensórios. A chave de arco da existência, seus potenciais de felicidade ou infelicidade se delimitam de acordo com o que se pode apreciar a respeito da qualidade e valor da relação consciência-existência como assenta no psiquismo mais sensível e genuíno; em primeiro lugar, na capacidade de apreciar o Belo na harmonia das coisas e eventos imediatos, em segundo, através das impressões batismais que se recebem ao ouvir os mitos e contemplar os símbolos que rondam as igrejas e lugares de cultos, que, nessas sociedades padronizadas, são herdeiros das mesmas conveniências que arregimentam sacerdotes e acadêmicos em edificações irmãs.

É necessário explicitar com clareza que o ser humano é, igualmente, cósmico e mítico como esses semideuses do antigo panteão: a natureza humana é movida a mitos! Os que não se pronunciam sobre os potenciais de escolhas assentados nas perspectivas míticas talhadas nas fronteiras da ontologia e da metafísica endossam acriticamente os enquadramentos societários da estrutura instalada, não propondo aos seus alunos muito mais de que um relaxamento descomprometido, uma adaptação sublimada e relativística da vida aos determinismos do status quo.

A necessidade de reequilibrar e ponderar a situação histórica e cultural geradora de sofrimentos, seus fundamentalismos e consequências reativas, exige uma crítica da cultura e dos seus mitos: a eficácia e contundência dessa crítica é o sinal necessário que permite pautar o vigor evolutivo de uma proposta filosófica; apenas uma reestruturação metafísica monista e integrada dos sistemas filosóficos, ajuntando nas mesmas pautas as coisas de César e de Deus, ensinando e estimulando cada um dos nascidos a encontrar esses césares e deuses em si mesmos pode atestar a atualidade dialógica e novidade beneficente de uma proposta terapêutica.

Outlines of a good philosophical therapy

The man who creates discourses is not the measure of all things; the true measure of all things is rooted in the phenomenological junction between the consciousness that thinks and the nature that structures bodies, organizing existence. In order to re-establish the right coordinates in existential practice, it is essential to consider fully the reality of the nature that is disrespected by our culture. The main cause of the suffering of people who live in these cities that are crowded and polluted like tumours, dangerous as the forests that encircled the settlements of past centuries, does not originate in nature, but in culture: the man without science and knowledge, who has sold out to and compromised with the structures of power, is the worst enemy of the true man, of the real homo sapiens.

Siddharta, the Buddha was educated in an artificial and fraudulent way in the house of a father who was head of a clan and who promoted suffering and imbalances that matched the illusory circumstances in which he lived. So Siddharta understood suffering as a necessary and central destiny, and the Buddha’s work was to find once again a natural and philosophical way of living in these damaging existential circumstances, strongly falsified and misunderstood. Like other religions, when stripped of its clear and precise theo-political statements, Buddhism represents a personal way of bearing and transcending an artificial and culturally-rooted suffering, outlining a virtuous position inspired by Taoism and Yoga, with the addition of compensatory teleological ideas. Parts of the basic ingredients of Buddhism and other, later religions can potentially be found in the earlier traditions of Hindu cultures and those of the Ganges, and are equally present in the practices of the Stoics and the Epicureans – but in these philosophical approaches the therapies are suitably purified of all teleological aspirations which are not aligned with rational sobriety and respect for Socratic not-knowing.

In philosophy qua philosophy, in the pre-Socratic era up until Socrates himself, the intellectual and physical virtues of the natural and healthy man, endowed with gifts that are specific to him, are praised and regarded as sufficient to understand what is necessary for a harmonious life, one that meets the demands of respecting the environment where life happens. The natural man finds the means by which he can justify and honour life in the very structure of existence, as it appears to be in the light of qualified reason and of immediate good sense – the aesthetic sense that is refined in the broadest range of geometrical, lyrical, formal and mythical abstractions.

The state-of-being brings together the intelligence of principlesand the structure of the cosmos, and constitutes a state of formal lucidity as a necessary and paradoxical junction of qualities and quantities. Achieved gradually, full consciousness of oneself brings together the totality of the consciousness possible in space-time, establishing a latent union where consciousness is revealed as being the consciousness of the cosmos and where the cosmos is cosmos for the consciousness in which it manifests itself. This confirms an essential unitary relationship, with paradoxical expressions, and it reveals itself as a vital and creative organism whose essence and ramifications escape the measurements that objective and historical delineations attempt. In the light of natural reason, history and objectivity collapse into the original identity of the subject.

With the existence of this vital current that has been bringing together resources, exchanges and values since the beginning of time, broadening the range of initial unitary concentrations in variegated flowerings of diversity and harmony, a state-of-being manifests itself that is pro-active and sometimes self-aware, a good existential manifestation, equally given to being and doing, containing in itself the spontaneous and autopoietic virtues of creativity. This full consciousness, operating naturally in the evolutionary flux, sparks into life ever more frequently, supported by the action of principles whose greater degrees of lucidity make the system dynamic, in the sense of making it achieve its fullest and most effective potential in the given circumstances. The advent of a cosmo-synergical and responsible society, extremely lucid and dialogic, can be predicted through the intrinsic necessity of the evolutionary order. It is the duty of men of goodwill to take part in this process pro-actively, shortening and enabling the paths that are destined to reform the order of the city, bringing politics into line with homo-sapiens’ aspiration for harmony and happiness.

The intellectual history of this slow process of maturing is not made sufficiently clear in the idealistic schemes of Academia, which is conditioned by the shadows of its mentors, regents and plutocrats. Their thought-processes are rooted in elitist and hierarchical perspectives that deny the circumstantial egalitarianism and the structural and sensitive synergism of the natural order as a necessary repository and foundation for a happy future and the great realisation of human nature. That is why the history of ideas, the roll-call of ways of imagining and thinking about life, the history of ideas according to the schemes of Academia, does not provide the right guide-posts for the design of a significant and efficacious therapy, allowing the human phenomenon to feel and think in his full, natural circumstances. The fundamental contributions of aesthetics are lacking, as is the necessary, significant story of the state-of-being’s meetings with his true, pristine nature. These accounts omit the need to include the story of lucidity and its evolution through the dynamic, ecstatic meeting of the psyche with Eros in these processes of search and hermeneutics. They omit the need fully to acknowledge the contributions of the indigenous peoples, and to introduce into thought systems a clear understanding of the habits and customs of peoples and cultures previously grossly superstratified, and the contributions of literature, of poetry, of the psychological processes of liberation, of romanticism, and of art in general. All these fundamental elements should be part of the processes of transformation which are today manifesting themselves more intensely, along with the emergence of the existential crisis.

In order to recover a natural and happy way of living, it is necessary to recall and maximise the value of the dialogues – recorded in the memory – which took place between the sensitive psyche and the rational intellect, to confirm the surrender of logical reason to the most vital and multi-sensory aesthetic and paradoxical arguments. The key to the arc of existence, its potentials for happiness or unhappiness are bounded by the limits of what a person can appreciate of the quality and value of the consciousness-existence relationship as it takes root in the most sensitive and genuine psyche. In the first place, this lies in the ability to appreciate the Beautiful in the harmony of immediate things and events; in the second place, through the baptismal impressions that are received when we hear the myths and contemplate the symbols which surround churches and other places of worship, which – in these standardised societies – are inheritors of the same convenient arrangements which bring priests and academics together in sister institutions.

It is necessary to explain clearly what the human being is, as cosmic and mythic as those semi-gods of the ancient pantheon: human nature is moved by myths! Those who do not speak out about the potentials for choice rooted in the mythic perspectives carved out on the frontiers of ontology and metaphysics uncritically endorse the social foundations of the established structure, not proposing to their students much more than uncommitted relaxation, a sublimated and relativistic adaptation of life to the determinisms of the status quo.

The need to re-balance and consider the historical and cultural situation that has generated suffering, its fundamentalisms and reactive consequences, demands criticism of the culture and its myths. The efficacy and robustness of this criticism is the necessary signal that makes it possible to put the evolutionary vigour of a philosophical proposal on the agenda. Only a monist and integrated metaphysical restructuring of philosophical systems, bringing the things of Caesar and of God together on the same plane, teaching and stimulating every creature that is born to find these caesars and gods in themselves, can give evidence of the dialogic up-to-date-ness and the beneficial novelty of a therapeutic proposal.

 

 

 

Das nobres verdades, colcha de retalhos ~ The Noble Truths, a Patchwork

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Regis Alain Barbier

No experienciar da vida algumas coisas são dignas de consideração, certas opções são básicas, por exemplo, agir com prudência.

Capital é reconhecer a vida é como ela é, não como gostaríamos que fosse, ou pensamos que deveria ser; existimos de uma certa forma e não de outra, um ponto extensivamente enfatizado pelos pensadores estoicos. Igualmente capital é reconhecer, como Heráclito e os pensadores taoístas, que estamos dentro de um fluxo ou processo em constante reconstrução, portanto algo dado-a-ser e para-fazer; nesses termos, evidencia-se que a vida é complexa e abrangente o suficiente para, certamente, justificar qualquer apreciação de valor.

*      A vida é surpreendente e complexa, passível de infinitas apreciações, sejam elas positivas ou não;

*      A existência é um processo mutante, de certa forma único para cada um, ímpar, um dado-a-ser e fazer onde tudo se transforma e se reconstrói de modo continuado;

*      Optando por uma vida proativa, é possível através de buscas e decisões, expressões e ações, operar mudanças no processo existencial; por isso, é sensato achar a vida potencialmente feliz, boa;

*      Construir uma vida amável e feliz é possível, caminhos existem.

Optando por apoiar e dar suporte à experiência vital, melhor será achar bom viver, isso, porque bom é bom, ruim é ruim e que, no fim, só vale a pena viver achando bom.

É importante enfatizar e compreender que o processo existencial é o momento atual, lugar onde colapsa a nossa própria identidade e origem; antes de identificar-se com narrativas culturais, afirmações ou sinais elaborados por outras pessoas e impressões batismais, somos atualizações do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

*      A nossa origem e identidade afirmam-se como atualização do processo existencial feito de matéria-energia e consciência.

Reconhecer a existência como um fenômeno radical, acontecendo no arco criativo da natureza cósmica, entre o mundo e a consciência, permite operar modos existenciais mais construtivos e ricos, caminhando em busca da otimização da vida e da felicidade. Nesse processo, é sábio compreender e realizar que, apesar do fluxo e processo constante de transmutação, a realidade das formas perdura suficientemente constante para possibilitar experiências válidas, significativas e dignas. As árvores vivem décadas, assim como os humanos; a beleza da natureza, o relevo das costas, vales e montanhas, a constância geral dos climas permanecem e duram mais tempo de que o sucedimento de muitas gerações de criaturas da fauna e da flora. Além de preparados para as mutações precisamos estar preparados para a duração dos fenômenos, aproveitar bem as duas coisas de acordo com uma justa medida.

Nessas circunstâncias onde a vida pode manifestar-se com todos seus potenciais de beleza e prodigalidade, onde se equilibram duração e mutação de modo bastante adequado em relação à nossa longevidade, beneficiando-se de criatividade e saúde, de educação e virtudes morais, igualmente, de uma construção societária ecológica, humanista e dialógica, com tecnologias e saberes suficientes, é possível acolher  e construir a vida como  um processo agradável, ocasionalmente excelente. Diversos cadernos de antropologia apontam etnias vivendo felizes e bem sucedidas em condições naturais; o que não é de se surpreender: se a vida existe é porque  encontra meios e recursos para bem existir.

Até mesmo uma pessoa nascida sem planejamento, logo, não necessariamente bem recebida, poderá lembrar experiências naturais de intensidades magníficas, extasiantes até; fazer dessas recordações sinais apontando para essa possibilidade de felicidade, prodigalidade e plenitude. Se não estamos no momento no lugar de poder avaliar o processo existencial dessa forma mais feliz, não é porque não possa ser; não estamos conseguindo encontrar a maneira de evidenciar e provar esse sossego, beleza e grandeza nas configurações em que vivemos.

É notório que diversas religiões e filosofias partem de princípios aparentemente contrários aos que aqui se enunciam, como certas interpretações e ênfases do budismo onde se exaltam o sofrimento; mas, observando melhor, o enquadramento existencial onde tal parecer se justifica não pode ser considerado natural, mas induzido culturalmente: Sidarta foi criado num castelo ilusório, artificioso e falsificado. A vida pode tornar-se difícil, exponencialmente, motivando pareceres excepcionais, quando grosseiramente deturpada por intermédio de arranjos societários inferiores ao mais sábios e mais representativos da especificidade e dignidade típica do homo-sapiente quando vivendo em condições de liberdade, com acesso irrestrito ao conhecimento e aos recursos que a vida e os intercâmbios honestos e sinceros possibilitam.

As dificuldades e desencontros entre os desejos e a vontade; o corpo, os sentimentos e as ideias; as ofertas e as demandas, com reflexos incômodos que resultam em desarmonias, morar e trabalhar em lugares julgados inadequados, fazer o que deveria ser a atividade principal como um simples hobby e passatempo domingueiro, outros desvios, até mesmo demandas de sacrifícios, são, principalmente, instituídos em disfunções precoces e desrespeitos originados em processos impositivos resultantes de culturas artificiosas fundamentadas numa falsa percepção e compreensão da vida, da natureza e da existência.

Mesmo vivendo rupturas culturais tensionadas entre o que se imagina dever ser uma sociedade tribal natural e o que, intuitivamente, se sabe possível na vigência do respeito sábio ao outro e à natureza considerada igualmente importante ao mundo das ideias, ainda assim, habitando em contextos fracionados, em colchas de retalhos, podemos encontrar períodos de felicidade e um grau significativo de plenitude vivendo eventos e momentos integrativos em tempos e lugares distintos, como interrupção, mas assim mesmo apreciando a unidade subjacente. Persistindo na busca, escolhendo bem, desenfatizando as demandas culturais insensatas, entrando em contato com a própria intuição, respeitando cada vez mais o sentimento próprio, ordenando com prudência e harmonia as peças soltas do mosaico, poderemos viver uma grande vida pacífica e rica – tempo não falta.

 

The Noble Truths, a Patchwork

During life´s experiencing, a number of things are worth considering, certain options are basic, such as prudently acting, for instance.

Of special importance is to acknowledge life as it is, not as we would like it to be, or think how it should be; we exist in a certain way and not in another way, a point excessively stressed out by the stoic thinkers. Equally important is to recognize, as Heraclitus and the Taoistic philosophers, that we are within a constant rebuilding flow or process, therefore, something given-to-be and to-be-done; under these terms, it´s evidenced that life´s sufficiently complex and comprehensive to, certainly, justify any value appreciation.

*      Life is amazing and complex, subject to endless appreciations, either positive or not;

*      Existence is a mutant process, in a certain way unique to each one, an unpaired given-to-be and do where everything is continuously transformed and rebuilt.

*      When one chooses a proactive life, it´s possible, through searches and decisions, expressions and actions, to operate changes in the existential process; thus, it´s reasonable to think about life as potentially happy, good;

*      To build a lovable and happy life is possible, ways exist.

Choosing to support and give support to life, it will be much better to find out it´s good to live, because good is good, bad is bad, and that, at the end, it´s only worth living when you think it´s good.

It´s important to emphasize and understand that the existential process is the present moment, place where our own identity and origin collapse; prior to identify itself with cultural narrations, assertions or signs worked out by other people and baptismal impressions, we are an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

*      Our origin and identity affirm themselves as an up-dating of the existential process made of matter-energy and consciousness.

To acknowledge existence as a radical phenomenon, happening in the cosmic nature´s creative arc, between the world and consciousness, allows more constructive and richer existential ways to be operated, following in search of life´s and happiness´ optimization. In this process, it´s wise to understand that, despite the constant transmuting flow and process, the reality of the shapes endures sufficiently constant in order to make possible valid, meaningful and worthy experiences. The trees live for decades, such as the human beings; nature´s beauty, the coasts´, valleys´ and mountains´ reliefs, the climates´ general constancy remain and last more time than the succession of many generations of living beings, fauna and flora. Besides being ready to these changes we ought to be prepared to the phenomena´s endurance, to make good use of both things in accordance with a righteous measure.

On these circumstances where life may manifest itself with all its beauty and prodigality potentials, where duration and mutation counterbalance themselves in an extremely adequate manner in relation to our longevity, taking advantage of creativity and health, moral education and virtues, and equally of an ecologic, humanistic and dialogic social construction, with sufficient technologies and learning, it´s possible to welcome and build life as an occasionally excellent pleasant process. Several anthropology books indicate ethnic groups living happily and well-off, under natural conditions; what´s not surprising: if life exists it´s because it finds ways and resources to exist well.

Even to a person who was born without being planned, consequently, not necessarily affectionately welcome, it might be able to remind natural experiences of magnificent intensities, even ravishing; to transform these memories into signs pointing to this happiness prodigality and plenitude possibility. If we presently aren´t in the place of being able to evaluate the existential process this happier way, it´s not because it can´t be; we aren´t able to encounter the way to evidence and prove this peacefulness, beauty and grandeur in the configurations we live in.

It´s widely known that several religions and philosophies start from principles apparently contrary to those uttered here, as certain Buddhism´s interpretations where suffering is strongly emphasized; but, better observing, the existential framing where such opinion is justified can´t be considered natural, but culturally induced. Siddhartha was raised in an illusory and falsified castle.

Life can become difficult, exponentially, motivating exceptional opinions, when roughly distorted through lower social arrangements far away to the wisest and most representatives specificity and dignity typical of the ‘homo sapiens’ when living in freedom conditions, with unrestricted access to knowledge and resources that life and the honest and sincere interchanges make possible.

The difficulties and divergences between the wishes and the will; the body, feelings and ideas; offers and demands, with troublesome reflexes resulting into disharmonies, to live and work in places judged inadequate, to do what should be the main activity as a simple Sunday hobby and amusement, other deviations, even sacrifice demands, are, chiefly, established in precocious dysfunctions and disrespects originated in a fake perception and comprehension of life, nature and existence.

Even living cultural disruptions tensioned between what one imagines a natural tribal society should be, and, what is intuitively known to be possible living under wiser society’s circumstances where our equals and nature, both, would deserve the same respect, equally considered important as the world of ideas; even so, inhabiting disrupted contexts, as a patchwork, we can encounter happy moments and meaningful degrees of plenitude, living several integrative events in different frameworks, times and places, interruptedly, but even so, evocating and appreciating the underling unity. Persisting with the search, choosing well, not stressing out the unreasonable cultural demands, entering into contact with the intuition itself, respecting even more the self feeling, prudently and harmoniously ordaining the loose pieces of the mosaic, we will be able to live a great, peaceful and rich life – time we have enough.

 

O Budismo dos Himalaias ~ The Buddhism of the Himalayas

 Religiosidade celebrante ou salvatéria?

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Régis Alain Barbier

As diversas religiões são exercitadas para curar desencontros igualmente estruturados; falta de ajuste e sincronia entre os elementos fundamentais do estado-de-ser; o corpo não coincide com a ideia, o sentimento não afina com a beleza, a vida não é o que poderia ser, desfocada ao ponto de se perguntar, “estarei acordado ou dormindo; o que é realidade; de onde venho, onde estou, onde vou?”. O contexto do desencontro, seus fundamentos políticos, determinam o estilo do remédio religioso. Por isso, todas as religiões carregam em si algo de universal que perdura, mas não podem servir em totum o tempo todo e para todos e quaisquer momentos do espaço-tempo societário; os contextos mudam, as coisas se transformam.

Para que fosse universal, uma religião teria de ser a própria cura e não o remédio; teria de ser uma prática como um serviço cuidadoso, uma decoração bem posta, uma obra de arte, cujo sentido seria sublinhar a verdade, o real, o melhor do dado-a-ser e viver nas circunstâncias dadas; não seria mais uma religião, mas uma consagração. Para se ter ideia do que deveria ser uma religião universal, seria necessário estar livre, desatrelado de compromissos e determinismos étnicos, de alinhamentos históricos e tradicionais; coisas que correlatam a eventos peculiares, menos que universais. Teria de se reconhecer que não seria mais uma religião, mas uma filosofia – um culto ao que é de verdade, belo e pertinente, virtuoso e necessário nas circunstâncias dadas.

Para se ter essa ideia clara, teria de ser humilde, reconhecendo não ser a medida de todas as coisas assentadas nas ideias; teria de enxergar a natureza do estado-de-ser humano; algo bem mais fundamental de que pontos de vista vantajosos, narrativas, historicidades ou perspectivas batismais. Seria necessário reconhecer que a natureza do estado-de-ser humano é antes de tudo a natureza da natureza, portadora evidente de um Logos-inteligência e Ethos-arquitetura intrínsecos e cósmicos, abrangendo tudo o que pode ser pensado no arco da consciência que é do mundo, e do mundo que é da consciência, como dois lados de uma esfera infinita.

Para que essa atividade fosse explicitada e demonstrada como forma espiritualista  essencial, igualmente, uma celebração para quem a praticasse, teria de acontecer em um lugar original como uma civilização primordial, naturalmente enraizada e assentada no meio onde surgiu, ou se fosse o caso, uma civilização antes relativamente esquecida, re-imaginada graças a uma inteligência profunda, capaz de admirar a beleza e grandeza da natureza, a perene essencialidade do respeito e da justa conformação. Indubitável seria uma celebração, coroada de um núcleo de razão natural, de união, paz e amor, que é união bem sentida e apreciada. Antes de tudo um reconhecimento do ser sublime e uno que é a natureza como é; o momentum ideal não seria outro de que o real, não existiria dicotomia entre o intelecto que pensa e sente; esse lado da psique para quem pensar é sentir, para quem o saber pleno é possível porque idêntico a sentir tudo.

Onde tal prática celebrante existiria? Na casa de fantasmas que acreditam seus pensamentos como augures ou coisas sobrenaturais ficados na não existência da morte? Na casa dos que pensam estar pensando separados dos objetos em que pensam, que o pensamento possa ser estrutura independente, algo como um espírito destituído de carne? Certamente não. Esses fantasmas existem venerando os sacerdotes das suas religiões como se fossem seres vindo do além, enviados à natureza em visitas diplomáticas, ou vistos como um time escasso composto dos mesmos raros iluminados; existem, igualmente, esses para quem os sacerdotes são manipuladores de tecnologia e fabricantes de robôs; mas não sabem reconhecer esse plano natural onde ser religioso é celebrar o que é, onde pensar é igualmente sentir, onde rezar é agir, onde viver junto em meio ao dado-a-ser natural é ser salvo.

Essa espiritualidade celebrante só poderia advir e existir em lugares originais, destituídos de desvios, traumas e vícios. Onde existem hoje tais lugares? Existiam nas tribos antes das conquistas superestratificadoras, existem como lugares peculiares aos que se libertaram das suas impressões tradicionais e batismais, dos que morreram para o mundo das suas culturas nativas e similares e que renasceram em si mesmos, no arco do Logos e do Ethos da natureza, encontro onde o mito ou imagem inaugural revelada na fresta virtual da união da consciência e do mundo não é um dedo em riste acusando e banindo, uma pena grafando história, mas um abraço que une e recolhe. Os ditos primitivos, simplórios, as crianças, os poetas os banidos das escolas, cátedras e posições citadinas têm mais chance de compreender e viver essa forma plena de celebração de que quaisquer fiéis do ranking dos que buscam além ou em entrelinhas turvas um lugar para bem ser.

Esses cultos celebrantes correspondem às práticas que se configuraram na Jônia, antes de Sócrates, talvez na China do taoísmo natural e ancestral de Lao-Tsé, nas sociedades agrarias dos primórdios, seria algo como as práticas naturalistas, a arte da dança e do círculo dialógico como existia em certas tribos; seria de um panteísmo pleno e radical, mais talvez do que o de Espinosa, onde à essência não se atribuiria mais potenciais que os demonstrados e cuja primordialidade não fosse extemporânea, de alguma forma transbordante ao que é manifesto, mas o ponto central e mais interno da totalidade dos movimentos possíveis.

As demais formas religiosas de espiritualidade são remédios porque se originam em circunstâncias artificiosas afastadas da ordem e harmonia implícita e explícita resultante da coexistência da estrutura natural com a inteligência plena da criatura; uma ordem que naturalmente se revela a partir do momento onde surge o homo-sapiente que, quando individualmente desperto, se reconhece e se intui presente desde os primórdios, mesmo que não se mencionem, suprimidos das histórias oficiais.

O budismo, mais lúcido e realista que as formas cristãs estratificadas em igrejas de massa, traz elementos similares aos do panteísmo; advoga com clareza a inseparabilidade da consciência e do mundo, colocando nas buscas individuais o poder de ser pleno. Mas, por originar em lugares conquistados, ele é um remédio mais que uma celebração. A universalidade dessa religiosidade é mascarada por pontos de vista e desvios que não assentam nos primórdios da cultura natural e original, mas encontram-se nas culturas grosseiramente superestratificadas, única justificativa a essa grave ênfase no sofrimento.

Poderia algo como o budismo surgir numa tribo da Américas do Sul, no seio da etnia Guarani, como viviam antes da conquista? Não faltariam cultura e complexidade para isso; viver bem na floresta, discretamente, com sobriedade e sem nada destruir é prova inegável de elevada grandeza cultural. Faltariam a esse meio primitivo e original as dores e cicatrizes de conquistas rústicas, a escravidão, o domínio de uma elite grosseira vivendo em castelos cercados, com uma população excluída além das suas muralhas e sugada até a morte. Esse é o lugar em que existe um sofrimento fundamental e onde é possível e justificado tentar firmar um equilíbrio estóico, desapegando a mente das dores e dos prazeres simples da vida, sempre recaindo tendo de refazer tudo como passatempo; isso por duas razões: não há como sair da existência que gira em ciclos e onde a consciência é necessariamente vital e situada, experienciada; não há como permanecer na periferia da roda da vida sem cair no meio, é questão de tempo – por isso o Buda sempre retorna menino, precisando ser reconhecido e carente de educação.

O que gera a ‘roda do sofrimento’ são as condições subumanas de desrespeito inicial. Não há como sanar a estrutura que se quer remediar com recursos gnosiológicos exclusivos. O Pai de Sidarta, rei Suddhodana, líder do clã Shakya, era uma pessoa cruel, o filho poderia ter voltado ao palácio e ter dito: “Pai, como pode ser menos de que sapiente? Abre as portas desse castelo, divide o que acumulou com obras de guerras… Poderemos voltar a viver na sociedade original onde não existia sofrimentos fundamentais, merecendo tanto ênfase e empenho religiosos compensatórios e remediativos”.

Nas tribos, existe o processo existencial que se desdobra, o humor não é de dor, o parto ocorre simplesmente, o primeiro impacto não é o da grandeza artificiosa do interior decorado de um castelo e, nas margens, a resultante ignomínia; existe a visão imediada da beleza e grandeza da natureza e a afirmação inicial é “há gloria, há alegria, há êxtase”. Viver em sociedades conquistadas sem combater o desrespeito inicial, não apresentar uma teopolítica corretora claramente explicitada resulta na reprodução das iniquidades iniciais e, eventualmente,  os teólogos ocupam os espaços dos destronados. Por isso, mais universais de que as abordagens remediativas são as espiritualidades que celebram a grandiosidade do saber não saber dos filósofos.

Dalai Lama roda (1)

 

 

The Buddhism of the Himalayas

A praising or a salvationist religion?

The various religions are designed to focus on curing wants and needs that have the same basic components: a lack of adjustment and harmony between the basic elements of the state-of-being: the body does not match up to the idea, feelings are not in harmony with beauty; life is not what it could be, so lacking in focus that one asks: “Am I waking or sleeping; what is reality; where do I come from, where am I going?” The context of these wants and needs, their political foundations, determine the style of the religious remedy. Therefore, all religions carry within themselves something universal which lasts, but they cannot serve in totum the whole time for all and every moment of social space-time – contexts change, and things are transformed.

In order to be universal, a religion would have to be a real cure and not just a remedy; it would have to be a practice, a careful service, a well-placed decoration, a work of art, whose sense would be to underline the truth, the real, the best of the real-as-given. And it would have to live in the circumstances given – thus it would not be just another religion, just another sacrament. In order to have an idea of what a universal religion should be, it would be necessary to be free, liberated from ethnic commitments and determinisms, from historical and traditional alignments, things which relate to specific events, less than universal ones. It would have to be acknowledged as not just another religion, just another philosophy – a ritual which was true, beautiful and relevant, virtuous and necessary in the given circumstances.

In order to have this clear idea, it would have to be humble, recognising that it was not the measure of all things rooted in ideas; it would have to see the nature of the human state-of-being, something a lot more fundamental than serviceable points-of-view, narratives, historicisms or baptismal perspectives. It would be necessary to acknowledge that the nature of the human state-of-being is above all else the nature of nature, manifestly a bearer of a Logos-intelligence and an Ethos-architecture that are intrinsic and cosmic, taking in everything that can be thought in the arc of consciousness that is of the world, and in the world that is of consciousness, like two sides of an infinite sphere.

So that this activity could be made manifest and demonstrated as an essential spiritual form, and equally a celebration for whoever practised it, it would have to happen in a place that was as original as a primordial civilisation, naturally rooted in the environment where it arose, or perhaps in a previously relatively forgotten civilisation, re-imagined thanks to a profound intelligence, capable of admiring the beauty and grandeur of nature, the eternal essence of respect and of just acceptance.It would undoubtedly be a celebration, crowned with a core of natural reason, of union, peace and love, which is a well-felt and appreciated union. Above all a recognition of the sublime and unique being which is nature as it is, the ideal momentum would not be anything other than the real one, there would be no dichotomy between the intellect that thinks and feels – that side of the psyche for which to think is to feel, and for which full knowledge is possible because it is the same as feeling everything.

Where would such a celebratory practice exist? In the house of ghosts that believe in their thoughts as auguries or supernatural things that lie in the non-existence of death? In the house of those who think that they are thinking separately from the objects they think about, that thought can be structured independently, something like a spirit divested of flesh? Certainly not. These ghosts exist to venerate the priests of their religions as if they were beings that have come from the beyond, sent to nature on diplomatic visits, or a sparse team composed of the same rare enlightened beings. There also exist those whose priests are manipulators of technology and makers of robots, but they don’t know how to acknowledge the natural plane where to be religious is to celebrate what is, where to think is equally to feel, where to pray is to act, where to live together in the middle of the natural real-as-given is to be saved.

This celebratory spirituality could only come to be and to exist in original places, without diversions, traumas and vices. Where do such places exist today? They existed in the tribes before the superstratifying conquests, they exist as places peculiar to those who have liberated themselves from their traditional and baptismal impressions, of those who have died for the world of their native cultures and others such and who have been reborn in themselves, in the arc of the Logos and the Ethos of nature. This is a meeting where the original myth or image revealed in the virtual gap of the union of consciousness and the world is not a pointing finger accusing and banishing, a punishment spelling out history, but en embrace which unites and gathers in. Those who are called primitive, children, poets, those who have been banished from schools, professorships and urban positions have more chance of understanding and living this full form of celebration than any of the faithful who seek a place to be well in the beyond, or in clouded spaces between the lines.

These celebratory rituals correspond to the practices which came into being in Ionia, before Socrates, perhaps in the China of the natural and ancestral Taoism of Lao-Tse, in the agrarian societies of the primordial peoples. They would be something like naturalistic practices, the art of the dance and the dialogic circle as it existed in certain tribes; this would be a full and radical pantheism – more perhaps than that of Spinoza, where no more potential was ascribed to the essence than that which was demonstrated and whose primordial quality was not extemporaneous – it would in some ways overflow the boundaries of that which is manifest, but would be the central and most internal point of the totality of possible movements.

Other religious forms are remedies because they originate in artificial circumstances at one remove from the implicit and explicit order and harmony that result from the co-existence of the natural structure with the full intelligence of the creature – an order which reveals itself naturally from the very moment when homo sapiens arises who, when individually awakened, recognises and intuits that he has been present since primordial times, even if these are not mentioned or are excluded from official histories.

Buddhism, more lucid and realistic than the Christian forms stratified in mass churches, brings with it similar elements to pantheism: it argues clearly for the inseparability of consciousness and the world, giving individual searches the power of full being. But, because it originated in conquered places, it is a remedy rather than a celebration. The universality of this religiosity is masked by points of view and diversions which are not rooted in the primordial things of natural and original culture, but are located in grossly superstratified cultures, the only justification for this grave emphasis on suffering.

Could something like Buddhism arise in one of the tribes of South America, in the heart of the Guarani ethnicity, as they used to live before the conquest? The necessary culture and complexity for this would not be lacking: to live well in the forest, discreetly, with sobriety and without destroying anything is irrefutable proof of elevated culture greatness. This original and primitive milieu would not have the sufferings and scars of rural conquests, slavery, the domination of a boorish elite living in castles surrounded by an excluded population beyond their walls and exploited to death. This is the place where there is a basic suffering and where it is possible and justified to try to build a Stoic equilibrium, detaching the mind from the sufferings and simple pleasures of life, always falling back and having to rebuild everything again as a pastime. This is for two reasons: there is no way of getting out of existence, which goes in cycles and where consciousness is necessarily vital and located, experienced; there is no way of staying on the edge of the wheel without falling into the middle, it is only a question of time – that is why the Buddha always comes back as a boy, needing to be recognised and needing education.

What generates the “wheel of suffering” are the subhuman conditions of initial disrespect. There is no way of restoring to health the structure which one is trying to remedy with exclusionary gnoseological resources. Siddharta’s father, King Suddhodana, leader of the Shakya clan, was a cruel person; the son could have gone back to the palace and said: “Father, how can you be less than wise? Open the gates of this castle, divide what you have accumulated with warfare… We can go back to living in the original society where there were no fundamental sufferings deserving so much compensatory and remedial religious emphasis and commitment.”

In tribes, there exists an existential process which takes its course; the mood is not one of suffering; childbirth simply happens; the first impact is not that of the artificial grandeur of the decorated interior of a castle, with at the margins the resulting ignominy; there exists the immediate vision of nature’s beauty and grandeur, and the initial affirmation, which is: “there is glory, there is joy, there is ecstasy”. To live in conquered societies without fighting the initial disrespect, without presenting a clearly explained theo-political corrective, results in the reproduction of the initial iniquities, and eventually theologians occupy the spaces of those who have been dethroned. Thus, those spiritualities which celebrate the grandeur of the not-knowing knowledge of the philosophers are more universal than the remedial approaches.

 

 

 

A glória do Panteísmo ~ The glory of Pantheism

rosabelle

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Ser panteísta é apreciar a existência como fenômeno essencial; trabalhar para que assim seja.

A estruturação da realidade explicita um ordenamento onde se enlaçam, em junção unitária e misteriosa, as coisas do mundo, as sensações e consciência reflexiva, num sistema criativo e estruturações complexas, cosmo-existenciais, sem começo e sem fim detectável. A união dialógica entre o que nomeamos ‘consciência’ e ‘mundo’ parece inelutável à luz da sobriedade da razão; nesse fundamento, na fresta desse mistério, reside a essência do real, mistério perene e estrutural; o confronto com essa essência, além de quaisquer denominações e distinções, é a graça dos que vivem em busca de lucidez, a honra dos artistas e poetas.

Os indivíduos de todos os reinos e espécies surgem na espessura do cosmos; o infante nasce expressando processos de transformações continuados onde coexistem os contextos, pais, irmãos e onde se festejam os ancestrais. Tudo o que se conhece e experiencia do mundo comprova-se na vitalidade de indivíduos imanentes, oriundos da estrutura biofísica, nascidos entranhados na criatividade cosmo-existencial, em encontros conjuntivos em que o mundo e o sujeito se revelam, atualizando potenciais. O mundo com a sua arquitetura de paisagens, a flora e a fauna, revela ser um único corpo em que brotam indivíduos que extrapolam o perdurante momento original, imediato e consciente, em extensões criativas e imaginárias de passado e futuro subjetivos; um movimento em que a força vital adapta as estruturas desse corpo infindo e mutante, e a intuição filosófica reformula a cultura que se reencarna e renova. Tudo o que foi dito, pensado, imaginado, suposto, escrito, representado, foi expresso e afirmado por indivíduos nascidos das estruturas do cosmos em que tudo se cria e eternamente se reformula.

A capacidade distintiva da consciência nasce e evolve com o mundo, é o que existe de mais original e imediato, de mais admirável; permite reconhecer o que se é em fronteiras criativas onde se delineiam aquele que se individualiza e o que se faz outro. Existe-se como estado-de-ser ou consciência situada no mundo; existir só acontece na intersecção do mundo e da consciência, onde o mundo é da consciência e a consciência é do mundo, em crescente complexidade. Existir manifesta a intersecção do mundo e da consciência e não parece ter limites, começos ou fins, nem no sucedimento genealógico das criaturas, tampouco no fluxo da matéria-energia ou da imaginação; trata-se de um fenômeno unitário e transmutante de ordem cosmo-existencial. Nesse ordenamento continuado, de acordo com os pontos de vista, criatividade e recursos dos que pensam, aprecia-se o fluxo do pensamento que não finda, igualmente, a ordem da matéria-energia que se transmuta e se manifesta na infinita sequência das formas. Nas conjunções desses infinitos fluxos de sentimentos, pensamentos e de partículas, nos confins mais extremos dessa junção, ou no centro mais íntimo, onde se existe tocando, pensando e sentindo, surpreende e espanta essa interação , união criativa e paradoxal, do mundo e da consciência.

Viver bem, no lugar em que se existe, demanda aceitar e reconhecer a sua integração no contexto; existir à luz da razão natural é ser consciência integrada ao mundo e mundo integrado à consciência numa grande conjunção e reciprocidade estrutural e fundamental em que a existência se reconhece como agregação de corpos, sentimentos e pensamentos entremeados, uma trindade conjuntiva que perfaz o estado-de-ser. O estado-de-ser – a circunstância existencial ou dado-a-ser – afirma igualmente o Logos-inteligência e Ethos-arquitetura da natureza, é a pauta onde se delimita a medida de todas as coisas, das que existiam, existem e existirão; sendo o Myhtos que se cultua o regente da harmonia ou desarmonia que impera nas sociedades. Um bom mito deve afirmar essa natureza integrada do estado-de-ser, gerar uma cultura sincrônica e harmoniosa; um mito que renega as evidências naturais para relativizar sentidos existenciais em representações de anseios culturais, trai e deturpa a humanidade verdadeira cuja vocação é ser razoável de acordo com a sua natureza. Tentar viver no contexto desconsiderando as fundamentações e ontogenias mais evidentes, imediatas e originais, a favor de ensejos fantasiosos e recusas, é aventura destinada ao fracasso; é abandonar a ordem diretora da justa e sóbria conduta, o bom senso empírico, a favor de crenças, encenações culturais e dogmas. Até provar em contrário, comportar-se como se a consciência fosse dissociada da existência e do pensamento, das sensações das ideias, dos objetos dos sujeitos que são lados impreteríveis de um mesmo fenômeno vital, é insano: no plano da realidade cosmo-existencial não se permanece inteiro e lúcido almejando rupturas e louvando dicotomias.

Construções teológicas ou religiosas fundamentadas na hipótese de existir distinções radiais e rupturas objetivas nas fronteiras interativas e dialógicas entre os corpos, os sentimentos e os pensamentos, elucubrando a ideia de um pensamento e de uma consciência puros, de um espírito separado do mundo, ou sobrenatural, não reportam à realidade que se experiencia e comprova, mas a desejos e fantasias que não se conformam com o dado-a-ser. Os que acreditam em rupturas profundas e polarizações que não pertencem à experiência possível, mas ao reino do desejo, não realizam os objetos das suas fantasias, a não ser nas suas imaginações; anjos não descem, a não ser como boas ideias aladas, messias não vêm, a não ser como reconhecimentos construtivos.

Frente ao dado-a-ser, duas apreciações existenciais são possíveis: empatia ou antipatia. A resposta empática é natural e harmoniosa; somos o que somos, não há razão para contestar ou discordar; sendo continuada, a realidade carrega em si o mistério da essência, da vitalidade e dos potenciais nas suas expressões. A reação antipática pode resultar de motivos acidentais, de confrontos existenciais mais duro, gelados e secos; mas fugir do confronto com o real esperando um outro mundo além dos portais da vida manifesta, viver em função disso, renegando as evidências sensíveis e as glórias de ser natureza, apostando nas narrativas dessa ou daquela tradição, é viver em função do que outros supuseram, concordar com dogmas escapistas e renegar, em totum, a si mesmo e o real em todas as dimensões. Aceitar com simpatia, harmonia e sincronia o estado-de-ser é viver na atualidade e pôr-se no centro da vida como ela é; buscar um sentido vigoroso, entusiasta e glorioso para esse processo infindo e vital, cosmo-existencial, em que nascemos entranhados em imanência absoluta, é obra espiritual de máxima grandeza.

Usufruir da capacidade de se surpreender frente ao mistério que se revela em todos os encontros – admirando a beleza das flores, o brilho do orvalho, o sorriso dos amigos e dos que se amam, é fácil e natural como respirar fundo o ar da manhã. Ajuntar a visão do belo a imensos sentimentos e à capacidade de abstrair formas e pensamentos, em direções poéticas, revela geometrias visionárias que não cessam de florir, expandir e crescer como árvores que rebrotam das suas próprias flores. Sentir-se pleno e fecundo, confortável, vivendo nesse centro criativo e infinito que transmuta sem cessar, fiel depositário de mistérios cuja essência reside no intervalo onde se flexionam e recriam todas as formas e ideias, é natural como o gorjear dos pássaros ou o perfume das flores. Ser espiritual é vislumbrar e louvar esse processo de eterna glória, ajuntando a morte e a vida, a juventude e a maturidade num único círculo espiral que transforma o estado-de-ser na origem e identidade mais perfeita nas circunstâncias dadas.

O valor profundo atribuído à existência é o fundamento onde enraíza a criatividade humana; qualificação onde o que se pensa do mundo revela ser o que se pensa de si. Somos um evento cosmo-existencial de sublime grandeza que pode e deve ser celebrado como natividade cósmica! Nascemos aninhados e alimentados no seio da natureza, marcados e selados pelo amor dos pais e dos ancestrais. Sentir a beleza, o belo, consagra o reconhecimento pleno, agradecido e jubiloso da unidade e do amor que nos gera, da paz que nos nutre. O sofrimento só existe ao lado do prazer, não há sofrimento absoluto que invalide a grandeza e beleza imediata de ser como se é, mergulhado na vida e sua impreterível imanência.

Como demonstra a história dos povos e nações – para quem se der ao trabalho de examinar – achar-se nascido como fenômeno natural e expressão digna da essência universal, totalmente integrado, é melhor e mais produtivo de que achar-se banido e refutado, desprivado de intuição e dependente das escrituras, dos ditos, tradições e pareceres dos hermeneutas. Para os que visionam o ser humano sem as suas dimensões naturais e cósmicas, como mero agente subserviente de alguma cultura, com o pensamento modulado, tipificado e estruturado de acordo com os rumos da academia, incapaz de ver as coisas como são eternamente, na luz da consciência imediata, restam os consolos oferecidos pelas seitas, partidos e as glórias da cidade.

O conhecimento e sentido possíveis não se locam no passado ou futuro, mas no coração de quem sabe sentir o presente com empatia amorosa. Esse é o sentimento dos que vivem além das muralhas da poderosa Roma, dos indígenas, dos artistas e dos poetas, das crianças, dos que praticam a arte da filosofia, da sabedoria e da estética, das virtudes cardeais; de todos para quem amar não é apenas caridade, mas sim um talento real e efetivo com luz e paz suficientes para afirmar felicidade aqui e agora, na origem e identidade viva do estado-de-ser.

The glory of Pantheism                                                                                                 

To be a pantheist is to appreciate existence as an essential phenomenon.

The structuring of reality makes explicit an ordainment where, in a unitarian and mysterious junction, the things of the world, sensations and reflexive conscience entangle themselves in a creative system and complex structuring, as an existential-cosmos, without a detectable outset nor end. The dialogic union between what we name ‘conscience’ and ‘world’ seems ineluctable at the light of the reason´s sobriety; based on this ground, resides the essence of the real, perennial and structural mystery; the confrontation with this essence is the glory of those who live searching for brightness, the honor of artists and poets.

The individuals from every kingdom and species emerge in the denseness of the cosmos; the infant is born expressing continued transformation processes where the contexts coexist, fathers, brothers and where the ancestors are celebrated. Everything one knows and experiences from the world is evidenced in the vital force of immanent individuals, deriving from the biophysical structure, born firmly imbedded into the cosmos-existential creativity, in conjunctive encounters where the world and the subject are revealed, actualizing potentials. The world with its landscape architecture, the flora and fauna, reveals itself being the only body where individuals emerge extrapolating the enduring original, immediate and conscious moment, in creative and imaginary extensions, subjective past and future; a movement where the vital force adapt the structures of this endless and mutant body, and the philosophical intuition reformulates the culture that renews itself. All that has been said, thought, imagined, supposed, written, represented and asserted by individuals is born from the cosmos structures where everything is created and eternally reformulated.

The conscience distinctive capacity comes to light and evolves with the world, this is what exists of most original and immediate, of most admirable; it allows to acknowledge what one is in creative frontiers where he who individualizes himself and he who becomes another one are delineated. One exists as a state-of-being or conscience situated in the world; existing only takes place in the intersection of the world and of conscience, where the world belongs to conscience and conscience belongs to the world, in increasing complexity. Existing is manifested in the intersection of the world and  of conscience and does not seem to have limits, beginnings and ends, neither in the genealogical succession of the creatures, nor in the flow of the matter-energy or of imagination; It is a cosmos-existential unitarian and transmuting phenomenon. On this continued ordainment, according to the view points, creativity and resources of those who think, the endless thinking flow is appreciated, and, equally, the order of the matter-energy that transmutes and manifests itself in the endless sequence of forms.  On the conjunction of these endless flows of feelings, thoughts and particles, in the most extreme frontiers of this junction, or in the most intimate center, where one exists touching, thinking and feeling, this interaction, creative and paradoxical union of the world and of conscience, astonishes and frightens.

To live well, in the place where one exists, demands accepting and acknowledging its integration in the context; to exist at the light of the natural reason is to be conscience integrated to the world and the world integrated to conscience in a great conjunction and structural and fundamental reciprocity on which existence is acknowledge as an aggregation of intermingled bodies, feelings and thoughts, a conjunctive trinity that completes the state-of-being. The state-of-being – existential or given-to-be circumstance – equally confirms nature´s Logos-intelligence and Ethos-architecture, are the ruled lines delimiting all that has existed, exist and will exist; being Myhtos worshipped as the ruler of harmony or disharmony who reigns on the societies. A good myth must assert this state-of-being integrated nature, produce a synchronic and harmonious culture; a myth that disowns the natural evidences to cause existential feelings to become relative longing representations, betrays and warps the true humanity whose inclination is to be reasonable in accordance with its nature. Trying to live within the context, not taking into consideration the most evident, immediate and original  fundamentals and ontogenies, in favor of fantastic opportunities and refusals, is an adventure meant to fail; is to abandon the directing rule of the just and grave behavior, the empirical good-sense, in favor of beliefs, cultural shows and dogmas. Until it´s proven to the contrary, to behave as if the conscience were dissociated from the existence and thought, from the sensations of ideas, from the individuals´ objects who are the unsurpassable sides of a same vital phenomenon, is insane: on the plane of the cosmos-existential reality one can no longer remains entire and lucid, longing for ruptures and worshipping dichotomies.

Theological or religious constructions based on the hypotheses of radical distinctions and objective ruptures in the interactive and dialogic frontiers among the bodies, feelings and thoughts, meditating the idea of a pure thought and conscience, of a spirit separated from the world, or super-natural, do not report to the reality experienced and evidenced, but to desires and fantasies not complying with the given-to-be. Those who believe in deep ruptures and polarizations not belonging to the possible experience, but to the desire kingdom, to not accomplish the objects of their fantasies, except on their imagination; angels do not descend except as good winged ideas, Messiahs do not come, except as constructive acknowledgements.

Before the given-to-be, two existential appreciations are possible: empathy or antipathy. The empathic answer is natural and harmonious; we are what we are, there´s no reason to contest or disagree with this; being continuous, reality carries in itself the mystery of essence, of vitality and of the potentials in its expressions. The antipathetic reaction can result from accidental reasons, from harder, frozen and dry existential confrontations; but running away from confrontation with the real, expecting another world beyond the frontispieces of plain life, living as if depending on it, disown the sensible evidences and the glories of being nature, betting on the narrations of this or that tradition, is living depending on what others have supposed, agreeing with escapist dogmas and disowning, in totum, itself and the real in every dimension. Accepting the state-of-being with sympathy, harmony and synchrony is living the present and put yourself  in the center of life just like it is; searching for a vigorous, enthusiastic and glorious meaning to this endless and vital, cosmos-existential process where we were born, deeply rooted in absolute immanence, is a spiritual task of maximum grandeur.

To usufruct from the capacity of being taken by surprise before the mystery which is revealed in every encounter – admiring the beauty of the flowers, the shining of dew, the smile of friends and of those who love each other, is easy and natural as deeply breathing the morning breeze. To fit and join together the vision of the beautiful to huge feelings and to the capacity of abstracting forms and thoughts in poetic directions, reveals visionary geometries which do not stop blooming, expanding and growing such as trees sprouting again from their own flowers. To feel yourself full, conceptive and comfortable, living in this creative and endless, and continuously transmuting center, faithful depositary of mysteries the essence of which resides in the interval where every forms and ideas are inflected and recreated, is natural as the birds warbling or the flowers perfume. Being spiritual is to shimmer and worship this eternal glory process, gathering death and life, youth and maturity in a single spiral circle transforming the state-of-being in the most perfect origin and identity in the given circumstances.

The deep value inputted to existence is the basis where human creativeness takes roots; qualification where what one thinks of the world, reveals being what he thinks of himself. We are a cosmos-existential event of sublime grandeur that can and must be celebrated as cosmic nativity! We are born nestled and fed in the midst of nature, marked and sealed by the parents and ancestors love. Feeling the beauty, the beautiful, consecrates the full acknowledgement, thankful and exultant of the oneness and of the love generating us and of the peace feeding us. Suffering only exists aside of the pleasure, there´s no absolute suffering rendering invalid the immediate grandeur and beauty of being the way you are, immersed into life and its unfailing immanence.

As the history of peoples and nations demonstrates – to those who wish to examine –  feeling himself born as natural phenomenon and worthy expression of the universal essence, fully integrated, is preferable and more productive than feeling himself banished and rejected, deprived of intuition and depending on the hermeneutic scriptures, sayings, traditions and concepts. To those who imagine the human being without his natural and cosmic dimensions, as mere subservient agent of some culture, with the modulated, typified and structured way of thinking, according to the courses of the academy, unable of seeing things as they eternally are, at the light of the immediate conscience, the comforts offered by sects, parties and the city´s glories, remain.

Possible acknowledgement and sense are not located in the past or in the future, but in the heart of who knows how to feel the present with amorous sympathy. This is the feeling of those living beyond the walls of the powerful Rome, native, artists and poets, children, and of those practicing the art of philosophy, of the wisdom and ethics, and of the cardinal virtues; of those to whom loving is not only charity, but yes a real and effective talent with sufficient light and peace to affirm happiness here and now, in the origin and living identity of the state-of-being.

Tese e antítese; uma antiga lenda ~ Thesis and antithesis; an old legend

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Regis Alain Barbier

Reconhecer a Via Régia pode não ser fácil nesses lugares em que se elevam à categoria de professores simples fazedores de discursos, doxógrafos que deliram sem rumo porque mitificam os humanos como anjos caídos separados do Logos (inteligência) e do Ethos (arquitetura) da natureza, a humanidade como uma cria cultural imperando absoluta!

Da antiguidade até a modernidade, as denominações utilizadas para apontar os ordenamentos do psiquismo variaram de acordo com as escolas, era comum falar-se de intelecto sensível e intelecto racional; pouco importa os nomes que se usam, o essencial só é apreciado e valorizado passando pelo crivo do sentimento virtuoso. Quem conhece um pouco de si sabe que o psiquismo não é apenas composto pelos modos produtivos e rentáveis típicos da modernidade: calcular, normatizar e equacionar como valores magnos; a realização do saber e da felicidade reporta a outros talentos como o amor próprio e ao próximo, carinho e respeito; assim sendo, os modos mais intuitivos e sensíveis da cognição são vitais, essenciais, para garantir um bem-estar.

A razão, que se realiza em busca de ciência e exatidão, se nutre de reflexões matemáticas, gramática, lógica, postulados e dogmas, organizando-se em sistemas; a razão sensível, que se alimenta de impressões, intuições poéticas, narrativas e estímulos diversos, perfumes, cores, sons, toques e sabores, se realiza em busca de plenitude e felicidade. O psiquismo específico dos humanos é formado dessas justaposições funcionais fundamentais; de um lado o intelecto racional, instrumento reflexivo criador e operador de ciências, técnicas e padrões, por outro lado, uma natureza vital e experiencial, imediatamente significante e que não se padroniza, psiques várias e singulares, sejam de crianças, homens e mulheres, compósitos dessas categorias, mas todas aptas à felicidade. Logo, além das quantificações da razão, a intensidade, frequência, diversidade e qualidade das emoções são fundamentais para a realização da plenitude e harmonia  da psique.

As imagens-pensamentos, as intuições poéticas, os arquétipos e os mitos são os estímulos e narrativas que mais influem na determinação dos significados, valores, instituindo liberdades e aberturas, ou tabus, problematizações, barreiras, bloqueios e modos de existir diversos. Portanto, como se sentir e estar bem vivendo em sociedades que cultivam uma psique assombrada em mitos que desprezam a vida, destituem a existência da sua nobreza, reprimem o cultivo das emoções mais intensas e extáticas, desencorajam a apreciação imediata do momento, lugar real onde se pode viver e existir, restringem a criatividade prendendo o pensamento e a imaginação em noções pecaminosas, evocando ameaças? Como bem estar em lugares destituídos de criatividade onde se repetem gostos e sabores triviais, midiatizados, contabilizando lucros, perdas e dissabores, assistindo brutalidades, cultivando medos e ansiedades?

Nessa cultura, remanescente das truculências históricas acontecidas desde o primeiro século até o vigésimo, a psique encontra-se num estado geral similar ao das crianças da África, do Brasil, das antigas colônias do terceiro mundo como apresentadas nos cartazes e nas teses dos Teóricos da Libertação dos anos setenta: merecedora de caridades e esmolas, desnutrida senão morbidamente esquálida. Hoje a situação da psique está ainda pior, assemelha-se aos habitantes das cidades do primeiro mundo, depressivos, agitados, desfocados, bulímicos, ansiosos, apavorados e drogados.

Uma psique saudável deve ser alimentada de imagens e boas narrativas míticas, além das exatidões e das boas epistemes do intelecto racional. Encontrando bons alimentos e quem os compartilhem, a psique se integra à vida em comunhão feliz e gloriosa, a cognição flora, permitindo que se aprenda, antes de tudo e de imediato, o único significado cuja exatidão filosófica cura todos os conflitos e sana todas a dúvidas, fazendo da experiência um ato de virtude e amor.

Porque quem ama
Nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama,
Nem o que é amar
Amar é a eterna inocência…

Fernando Pessoa

O convidado, recém chegado a esse lugar junto com a sua companheira, contava uma estranha aventura:

“Antes da história registrada, todos viviam na terra sem mal. Nesse lugar, pouco se usava a razão para calcular, normatizar ou equacionar, a vida era simples, não faltava nada, sempre havia sido dessa forma. A psique que imperava nessa terra excelia na arte de sentir, escutar e sintonizar; amar e se extasiar era a única forma de orar. Tudo era ordenado e construído no sentido de facilitar o surgimento do gosto estético que elevava ao Belo; profusos eram os contextos e momentos onde os elementos, a abertura sensível, a força da inspiração, a graça, reuniam-se em um encontro cosmo-existencial pondo-se em boa ordem as conjunturas favoráveis à maior apreciação da beleza de amar mais e melhor; o Belo e o Amor conviviam diariamente, com forças especiais nos rituais da primavera“.

“Todos se amavam e operavam na renovação harmoniosa e atualização do amor que consagrava e celebrava a vida. O grande símbolo da vida bela e amorosa era a mulher que gera, cuida, alimenta, acolhe, encanta e compraz. Nas representações, festas e na intimidade das casas, cultuavam-se imagens de Deusas e Musas que confundiam-se  com as imagens das mulheres que viviam nos lares e arredores. A vida era comunitária; menos o que era de uso íntimo, tudo pertencia a todos, compartilhado”.

“A ideia ou representação da Deusa Mãe Natureza e das musas não tinha modo definido: é a beleza das formas construídas na diversidade, na sustância dos contextos, na harmonia da visão de quem fosse capaz de ver. A Estética, arte filosófica maior, era surpreendente, sem normas culturais, além das tradições e até mesmo do trabalho dos artistas conhecedores das musas, da Beleza e do Belo. Tudo era admirado, cultivado e posto no sentido de favorecer o surgimento e manutenção do amor: o romper do mar na areia sussurrando histórias de renovação, ciclos e recomeços; o passar das estações; seres como flores e conchas que serviram como adornos de colares; artes e objetos que resgatavam a beleza evocando presença do Belo; coisas mais simples, uma fruta que se tira da árvore, uma pedrinha rica como um universo infindo. Todos sabiam apontar os espaços do Belo no silêncio dos olhares, nos gestos e na linha dos horizontes distantes, em sorriso surpreso e ingênuo, de infante, apreendiam a ver entre as linhas os segredos e mistérios do cosmos; saber admirar a beleza e grandeza da natureza era a arte maior, estética e civítica, celebrada em danças e poesias”.

“Existiam as festas da primavera, cultos de renascimento e fertilidade muito refinados, musicais e dançantes; a partir de certa intensidade, a inteligência estética desabrochava totalmente adentrando lugares em que a sensação sublime de amar e de morrer se dissolvia e se perdia, para voltar trazendo ao amante iniciado o conhecimento e sabor da essência; compreendia-se tudo o que pode ser compreendido em qualquer época passada e futura. A união era tanta e real que todos se dissolviam uns nos outros e na natureza para ser totalidade e voltar à individuo, morrendo e renascendo do zênite ao centro do coração”.

O forasteiro permaneceu um tempo em silêncio e continuou:

“Nesse tempo, corria uma lenda antiga, mas com sabor de novidade; contava-se que na força do êxtase primaveril, no apogeu da oração, era possível, em circunstâncias especiais, adentrar ainda mais nos mistérios do amor e, lúcido, conhecer a fonte, nela se banhar por inteiro recebendo a eterna beleza, inteligência e força”.

Falando de si pela primeira vez, o recém chegado contou ter se sentido irresistivelmente atraído pela lenda, iniciando um processo de busca e descoberta.

“O enigma era grande, rondava mascarado em ditos mil, alguns afirmavam que haveria portas abrindo para esse Belo Maior, lugares mais secretos, tradicionais e venerados onde se organizavam romarias sigilosas, outros afirmavam que as portas seriam tão numerosas quanto as pessoas vivas, que não haveria porta alguma; o Belo Maior seria evidente, claro, mas poucos seriam, hoje, capazes de percebê-lo, por causa dessa saciedade e satisfação que não motivam a busca de uma mais plena atenção e esforço”.

“Encontrar ou atrair uma exímia sacerdotisa do amor, uma musa experiente, exigia talento, ânimo e muita sorte; precisava ser genuinamente criativo, independente, não ser tutelado por ninguém; cultivar e zelar com cuidado seus dons amorosos, inspirar-se em artistas, filósofos e místicos, explorar as glórias e ápices vanguardistas da arte, da descoberta e do conhecimento. Tudo isso transgredia um pouco as normas da cultura por exigir mais metrificações, uma seleção maior e armazenamento dos recursos que pareciam necessários em busca desse estado de ânimo definido, lugares e pessoas especiais. Existia a necessidade de se ter certeza de que a inteligência estética saberia equilibrar os processos, levar a esse Belo Maior nos clarões do luar, nas brechas dos sentimentos, toques e imensas sensações”.

“Certo dia de chuva e sol, avistei uma musa. Era a filha de uma família muito querida que vivia nas colinas ao pé de uma montanha alta e formosa onde se avistava um lago azul grande como um mar. O lugar parecia propício a uma grande transformação, denotava-se uma sensibilidade mais percutânea nesse ar mais puro carregando o perfume das plantas silvestres; avistada entre as fruteiras, a donzela era bela, com certeza uma musa de grande poder; o nome dela era Tese”.

“Tratava-se de favorecer um encontro, primeiro um sorriso furtivo, depois, mais atenção até francos risos, de repente, um olhar fatal; a verdade da musa é o amor, aspirando com intensidade entendê-la, aprender seus ensinos, pensando nela com carinho e respeito, recebe-se tudo de bom: asas na imaginação, ideias novas, o frescor do mar, da brisa dos vales e montanhas, reconhece-se seus rastros nos reflexos de luzes dos riachos, nas taças de cristal, na harmonia das estrelas e profundidade do céu, na beleza das flores, lírios e papoulas, no orvalho coroando a grama”.

“Com atenção, Tese ouviu e aceitou minhas aspirações; um namoro começou e um ritual foi marcado para acontecer num mês de maio, no dia da lua cheia. Chegado o dia, três auxiliares do templo me levaram até o altar escondido no tálamo das mulheres. Na força de certas poções e mistérios cujos segredos não deram e do ritmo da dança, entrei num estado extático muito prolongado, em crescendo, como uma escada formosa e sem fim, até um ponto de não retorno; uma porta se abriu, uma ponte desmoronou. Encontrei-me no topo glorioso da montanha do ser, num promontório elevado; de um lado, uma rocha dourada e impenetrável; nos demais, abismos misteriosos e insondáveis. Senti que devia confiar nas asas da leveza e na força da imaginação. O que deve ter acontecido…”

…dizia o convidado,

“…por que despertei caído numa vala seca e sem vida, num deserto mais árido de que os da África, deitado entre ossadas brancas e muito antigas; tudo era muito feio e sem viço, coberto de pó”.

“Mas sentia que a força estava em mim, que estava inteiro. Levantei; quando uma gota de suor caía da minha fronte, crescia uma haste de capim; por onde andava aparecia nas minhas pegadas uma sombra de umidade prenunciando o leito de um riacho; onde repousava surgia uma fonte; onde urinava nascia uma arvore; quando à noite ou à tarde dormia em busca de repouso, espontânea, uma alegre expansão fertilizava a terra surgindo miríades de flores. Em pouco dias, tudo reviveu. Cansado, de tanto amar a terra, desfaleci, quase sem vida. Sonhei que a deusa – que, de si, poderia criar tudo como bem quisesse – tirava um pedaço de mim de que foi feito um corpo para Tese. Eu e ela vivemos felizes por muitos anos, povoando o mundo de alegria, seres e sabores. Quando morremos, fomos habitar no céu: eu no Sol, ela na Lua, de onde iluminamos essa criação, observando sua evolução”.

“Constata-se que a experiência dessa secura e escassez modifica o humor dos viventes; as musas que conseguem nascer são reprimidas, transformadas em produtos, vendidas, compradas, empregadas. Como sofrem e se confundem as musas que vivem nessa terra ainda longe da fartura poética necessária a um bom redimensionamento eco-humanista! Encontram-se algumas, desapontadas, depressivas, carregando o fardo de não poder ofertar o que não se quer, não encontrar lugares onde plantar e cultivar o amor ao Belo”.

“A Beleza ainda não se acha com facilidade nesse mundo societário tensionado em busca de metas futuristas e hipotéticas. Os habitantes passam ao lado de tesouros de beleza sem enxergar; sonham, planeando encontros futuros com um divino mirabolante, a inteligência obnubilada, tropeçam enredados; confunde-se Beleza com objetos cobiçados, utilidades marginais, na tentativa de consolar a tristeza de viver apartado do Belo, fonte absoluta de sentido, harmonia e júbilo! O sentido de beleza tornou-se conjugado em critérios relativos; sentimento marcado de ajuizamentos oficiais, normas: belezarias estacadas em predomínios conservadores e sectários, salientando modos e objetos prediletos”.

“Como sofrem as guerreiras da nova Atena, do novo Tawantinsuyo; não conseguem mover os seus heróis na direção da vida viva e verdadeira, apesar dos seus choros, apelos, pedidos amorosos, continuam cumprindo metas produtivas, esquecendo  de fabricar o mel da vida que fenece, prolongando o inverno. A pior situação ocorre quando, anestesiadas, distraídas e tensas, multidões negam, recusam o que se apresenta como é, querendo um ‘depois’ mais perfeito como jamais se viu. Acham que o mar, os bosques, as campinas, os lugares onde vivem as musas, jardineiras da Beleza, não passam de glórias mortais; para eles, a bela natureza seria apenas utilidade marginal, instrumento para elevar as almas ao seu destino essencial: o reino total da grande coordenada indefinida e necessidade zero, nula”.

“Hoje, na alvorada desses novos tempos, eu e Tese descemos novamente para clarear a escuridão, ensinar nosso saber, reerguer os templos destruídos, preparando a renovação do ar para uma nova geração mais apta a ascender ao domínio da terra sem mal”.

Depois de um longo silêncio, o forasteiro tirou da sua bolsa um símbolo:

“Para marcares as coordenadas fundamentais desses mistérios, deixo essa nova cruz inscrita num círculo, encontrarás nela uma imagem da sua natureza essencial. No braço vertical, no polo inferior, podes imaginar uma serpente mítica aos teus pés, te acariciando; no polo vertical, nos teus cabelos transformados em árvores, existem flores e pássaros fazendo ninhos. Se olhares na direção sul, na tua mão esquerda fica o sol, na direita a lua; olhando o norte, o sol ficará na mão direita e a lua na esquerda. Trata-se da simbologia dos ciclos e dos polos, o nascer e o morrer, a manhã e a noite. Na tuas vestes, moram todos os seres da natureza, estás com os pés na água, primeiro os peixes, depois os que rastejam, mais em cima  os demais animais. No centro dessa cruz cósmica, uma rosa que abre no teu peito, a flor do momento e dessa idade: tu és a deusa natureza, cheia de força e poder, eu te reverencio”.

Cópia de image

Dito isso, o casal se despediu, e fiquei observando o medalhão, o símbolo da cruz que, diz ele, igualmente me espelhava. Trata-se do ressurgimento da inteligência original: uma inteligência sóbria, exata, evidente, com abertura luminosa ao sentir, ao silêncio, à espontaneidade, ao improviso e recolhimento reverente frente à ignorância essencial. Alvorece o inevitável, inegável: a aceitação serena, ponderada, sem extrapolações exaltadas, da unicidade dos fenômenos e a sua inefabilidade essencial. Trata-se de um movimento existencial e filosófico, fadado a ser fortemente antitético às vias pedagógico-educativas e dogmáticas, às catequeses oficiais de todas as igrejas e políticas coligadas dessa terra ainda seca e carente; ou talvez, em alguma medida, antitético e complementário, numa concepção compassiva, concedendo conjeturar com tolerância e equilíbrio. Existe, nesse novo e antigo eixo cultural buscando atualização, firmando seus impulsos decisórios, um caminho aberto à intuição sensível, de contato empático, mais do que uma via intelectual, algébrica ou abstrata. Um intento que parece apropriado: no esforço de reaproximar-me dos mistérios existenciais coligados à arte mitológica presencial, no sentido antigo, testemunho que a lógica devastadora começa a ceder lugar a um renunciamento do excesso de domínio e hierarquismo. É inegável, já desponta uma busca mais libertante, independente, natural, praticando e documentando uma conectividade palpável, como uma união mística ativa, pródiga, gloriosa e imediata.

A estética, via da Beleza em busca do Belo, encontra-se pelo cultivo da arte-filosófica e do estado-de-ser amoroso: é uma dança de ritmo e compasso definidos, mas de evolução e conteúdo espontâneos, em concordâncias não coordenáveis por antecipação. Buscar esse processo parece necessário quando os filhos e filhas da Santa Mãe Natureza erram em sertões, sedentos, fadigados em busca de paz e água, de um oásis de sentido imediato e lucidez.

Thesis and antithesis
An old legend

Translation by Stephen Cviic 

Recognizing the Royal Road may not be easy in those places where people idolize teachers who are simple speech-makers, collectors of ancient philosophers’ thoughts, and who get caught up in endless flights of fancy because they mythologize humans as fallen angels separated from the Logos (intelligence) and the Ethos (architecture) of nature. They see humanity as a cultural offspring that rules absolutely!

From antiquity to modernity, the terms used to denote the foundations of the psyche have varied according to the different schools: it used to be common to talk about the sensitive intellect and the rational intellect. The names that are used do not matter much; the essence is only appreciated and valued when it passes through the filter of virtuous feeling. Whoever knows a bit about himself knows that the psyche is not made up only of the productive and profitable modes that are typical of modernity, with calculating, regulating and equating as the main values. Achieving knowledge and happiness depends on other talents such as love of oneself and of one’s nearest and dearest, affection and respect. This being the case, the more intuitive and sensitive modes of cognition are vital, essential, to ensure well-being.

Reason, which fulfils itself in the search for science and exactitude, feeds on mathematical ideas, grammar, logic, theories and dogmas, organizing itself in systems; while the sensitive intellect, which feeds on impressions, poetic intuitions, diverse narratives and stimuli, scents, colors, sounds, touches and tastes, fulfils itself in a search for fullness and happiness. The particular psyche of humans is formed of these fundamental functional juxtapositions: on the one hand the rational intellect, a reflective instrument which creates and uses sciences, techniques and patterns; on the other hand, a vital and experiential nature – which is immediately significant and which cannot be put in a box – manifesting itself in various and singular psyches, whether of children, men or women, but all with a propensity for happiness. Therefore, as well as the quantifications of reason, the intensity, frequency, diversity and quality of the emotions are fundamental for the achievement of the psyche’s plenitude and harmony.

Thought-images, poetic intuitions, archetypes and myths are the stimuli and narratives which most influence our meanings and values, establishing freedoms and openness, or taboos, problems, barriers, blocks and various ways of being. Therefore, how can one feel well and be well living in societies which cultivate a psyche amazed by myths that look down on life, deprive existence of its nobility, repress the nurturing of the most intense and ecstatic emotions, discourage the immediate appreciation of the moment, the real place where one can live and exist, restrict creativity by trapping thought and imagination in notions of sin, invoking threats? How can one be well in places divested of creativity, where trivial, media-generated tastes are repeated over and over again, while people calculate profits, losses and sorrows, watch brutalities, and nurture fears and anxieties?

In this culture – a remnant of the historical cruelties which took place from the first century A.D. to the twentieth – the psyche finds itself in a general state similar to that of the children of Africa, of Brazil, of the old colonies of the Third World as portrayed in the posters and theses of the Liberation Theologians of the 1970s: deserving of charity and alms, malnourished if not morbidly squalid. Today the state of the psyche is even worse – it is like the inhabitants of First World cities: depressive, agitated, unfocused, bulimic, anxious, frightened and drugged.

A healthy psyche should feed on images and good mythical narratives, as well as the exactitudes and good epistemes of the rational intellect. By finding good material to feed on and people to share it with, the psyche integrates itself into the happy and glorious life in communion; cognition flourishes, allowing one to learn – immediately and before everything else – the only meaning whose philosophical exactitude heals all conflicts and calms all fears, making of experience an act of virtue and love.

Because whoever loves
Never knows what he loves
Nor knows why he loves,
Nor what it is to love
Loving is eternal innocence…

Fernando Pessoa

A guest, recently arrived at this place together with his female companion, told a story of a strange adventure:

“In the ancient culture, before recorded history, everyone lived in a land without evil. In this place, one did not use reason much to calculate, to regulate or to equate; life was simple, nothing was lacking, it had always been that way. The psyche that ruled in this land excelled in the art of feeling, listening and tuning in; loving and exulting were the only forms of prayer. Everything was ordered and built with the aim of facilitating the rise of the aesthetic taste which elevated the Beautiful; there were a profusion of contexts and moments where the elements, the sensitive opening, the force of inspiration, grace, came together in a cosmo-existential meeting that created the circumstances most favourable to a greater appreciation of the beauty of loving more and better. The Beautiful and Love lived side by side every day, with special strength in the rituals of spring.”

“Everyone loved everyone else and worked towards the harmonious renewal and bringing-up-to-date of the love which consecrated and celebrated life. The great symbol of the beautiful and loving life was the woman who generates, cares, feeds, welcomes, enchants and takes pleasure. In plays, feasts and in the intimacy of homes, images of Goddesses and Muses were worshipped; these became intertwined with images of the women who lived in people’s homes and in the surrounding area. Life was communitarian; apart from what was for intimate personal use, everything belonged to everyone, shared.”

 “The idea or representation of the Goddess Mother Nature and of the muses had no defined shape: it was the beauty of the forms built in diversity, in the substance of contexts, in the harmony of the vision of anyone able to see. Aesthetics, the greatest philosophical art, was surprising, without cultural norms, apart from the traditions and even the work of the artists who knew the muses and the Beautiful. Everything was admired, cultivated, and placed there with the aim of favoring the rise and maintenance of love: the breaking of the sea on the sand whispering stories of renewal, cycles and new beginnings; the passing of the seasons; beings likes flowers and shells which served as adornments for necklaces; arts and objects which rescued beauty by evoking the presence of the Beautiful; simpler things, a fruit which falls from a tree, a stone as rich as an infinite universe. Everyone knew how to point to the spaces of the Beautiful in the silence of their looks, their gestures and on the line of distant horizons, with a surprised and naïve smile, like that of a child; they learnt to see between the lines the secrets and mysteries of the cosmos. Knowing how to admire the beauty and grandeur of nature was the greatest art, aesthetic and civic, celebrated in dances and poems.”

“There existed spring festivals, very refined, musical, dancing ceremonies of renewal and fertility. Beyond a certain point of intensity, the aesthetic intelligence blossomed totally, entering places where the sublime sensation of loving and dying dissolved and was lost, to return bringing the initiated lover the knowledge and taste of the essence; everything that could be understood in any past or future epoch was understood. The union was such and so real that all people were dissolved into one other and into nature to become a totality and to return to the individual, dying and being reborn from the zenith to the center of the heart.”

The stranger remained in silence for a while and then continued:

 “At that time, there ran an old legend, but which had the flavor of something new: it was said that under the strength of the primal ecstasy, at the height of prayer, it was possible – in special circumstances – to go even further into the mysteries of love and, lucidly, get to know the source, to bathe in it wholly, receiving eternal beauty, intelligence and strength.”

Talking about himself for the first time, the new arrival recounted how he he had felt irresistibly attracted by the legend, beginning a process of search and discovery.

“It was a great enigma, it went around masked by a thousand sayings: some said that there would be gates opening on to this Greater Beauty – more secret, traditional and venerated places where secret pilgrimages were organized; others said that the gates would be as numerous as there were living beings, that there would be no gate; the Greater Beauty would be evident, of course, but few today would be capable of perceiving it, because of the satiety and satisfaction that take away the motivation for a search for a fuller attention and effort.”

“Finding or attracting a distinguished priest of love, an experienced muse, required talent, spirit and a lot of luck; one had to be genuinely creative, independent, not to be tutored by anyone; one had to cultivate and nurture one’s loving gifts carefully, take inspiration from artists, philosophers and mystics, explore the forward-looking glories and peaks of art, of discovery and of knowledge. All this went a bit beyond the norms of culture because it demanded more care, a greater selection and husbanding of resources that seemed necessary in the search for this particular state of spirit, special places and people. There was a need to be certain that the aesthetic intelligence would know how to balance the processes, take this Greater Beauty into the moonlit spaces, into the gaps in feelings, touches and immense sensations.”

“One day of rain and sunshine, I noticed a muse. She was the daughter of a much loved family that lived in the hills at the foot of a high and beautiful mountain from where one could see a blue lake as big as a sea. The place seemed fitting for a great transformation, one felt a sensibility that penetrated beneath the skin in this purer air that carried the perfume of forest plants. Glimpsed among the fruit-trees, the lady was beautiful, definitely a muse of great power; her name was Thesis.”

“She was trying to create the conditions for a meeting, first a furtive smile, then more dedication until we reached the stage of open laughter, and suddenly a look of destiny. The truth of the muse is love. If you try intensely to understand her, learn her teachings, if you think about her with affection and respect, you receive all that is good: wings of the imagination, new ideas, the freshness of the sea, of the breeze of the valleys and the mountains. You recognize its traces in the reflections of light in the streams, in crystal glasses, in the harmony of the stars and the depth of the sky, in the beauty of the flowers, the lilies and the poppies, in the dew that crowns the grass.”

“Thesis heard and accepted my longings attentively. A loving relationship began, and the ritual was due to take place in the month of May, on the day of a full moon. When the day arrived, three auxiliaries of the temple took me to the altar hidden in the women’s chamber. Under the strength of certain potions and mysteries whose secrets they did not reveal and under the rhythm of the dance, I went into a very prolonged ecstatic state, which grew, like a beautiful, endless ladder, to a point of no return; a door opened, a bridge collapsed. I found myself at the glorious top of the mountain of being, on an elevated promontory: on the one side, a golden and impenetrable rock; on the other sides, mysterious and bottomless chasms. I felt that I should trust in the wings of lightness and in the force of the imagination. Which must have happened…”

…said the guest

“… because when I awoke I had fallen into a dry and lifeless valley, into a desert more arid than those of Africa, lying among ancient, white bones; everything was very ugly and without vigor, covered in dust.”

“But I felt that the force was within me, that I was whole. I got up: whenever a drop of sweat fell from my forehead, there grew a stem of grass; wherever I walked there appeared in my footprints a shadow of dampness that foretold the bed of a stream; wherever I rested there sprang up a fountain; wherever I urinated a tree grew; when at night or in the evening I slept in search of repose, a spontaneous and joyful expansive feeling fertilized the earth, and a myriad flowers arose. In a few days, everything revived. Tired, with so much loving of the earth, I fainted, almost without life. I dreamt that the goddess – who, by herself, could create everything just as she wanted – was removing a piece of me from which a body was made for Thesis. She and I lived happily for many years, filling the world with joy, beings and flavors. When we died, we went to live in the sky: I in the sun, she in the moon, from where we illuminated that creation, observing how it evolved.”

“It is evident that the experience of this dryness and lack changes the mood of living beings; the muses who manage to be born are repressed, transformed into products, sold, bought, employed. How they suffer and are confused, these muses who live in this earth still far from the poetic plenitude necessary for an effective change in an eco-humanist direction! One finds a few of them, disappointed, depressive, bearing the weight of not being able to offer what is not wanted, not finding places where they can plant and cultivate the love of the Beautiful.”

“Beauty is still not easily found in this social world, tensed up in pursuit of futuristic and hypothetical goals. Its inhabitants pass by beautiful treasures without seeing them; they dream, planning future meetings with an amazing god, their intelligence obscured, entangled, they fall over. Beauty is confused with coveted objects, marginal utilities, in an attempt at consolation for the sadness of living apart from the Beautiful, the absolute source of sense, harmony and joy! The sense of beauty has become caught up in relative criteria; a feeling branded with official judgements and norms, beauties propped up in conservative and sectarian modes, with certain favored fashions and objects standing out.”

“How they suffer, the warriors of the new Athens, the new Tawantinsuyo; they cannot move their heroes in the direction of the true life. Despite their cries, appeals and loving requests, they continue to fulfil productive targets, forgetting to manufacture the honey of life that dies, prolonging the winter. The worst situation happens when, anaesthetized and tense, multitudes deny, refuse the thing that presents itself as it is, wanting an “afterwards” that is more perfect than has ever been seen. They think that the sea, the woods, the prairies, the places where the muses – the gardeners of the Beautiful – live, are no more than mortal glories. For them, natural beauty is only of marginal use, an instrument to lift souls towards their essential destiny: the kingdom of the suernaturalistic after-life, or nothingness.”

“Today, in the dawn of these new times, Thesis and I descended again to shed light on the darkness, to teach our knowledge, to rebuild the destroyed temples, preparing the renewal of the air for a new generation fitter to ascend to the realm of an earth without evil.”

After a long silence, the stranger took a symbol out of his bag:

“So that you can map out the basic coordinates of these mysteries, I leave you this new cross inscribed within a circle. Within it, you will find an image of its essential nature. On the vertical arm, at the bottom end, you can imagine a mythical serpent at your feet, stroking you; at the top end, in your hair that has been transformed into trees, there are flowers and birds making nests. If you look towards the south, in your left hand is the sun, in your right the moon; looking north, the sun will be in your right hand and the moon in your left. We are talking about the symbology of cycles and poles, being born and dying, morning and night. In your garments, all the beings of nature live; you have your feet in water, first the fish and then things that crawl, then the other animals above. At the center of this cosmic cross is a rose that opens in your breast, the flower of the moment and of this age. You are the goddess nature, full of strength and power, I pay homage to you.”

Having said this, the couple said farewell, and I carried on looking at the medallion, the symbol of the cross that he said was also my mirror-image. It represented the resurgence of the original intelligence: a sober, exact, manifest intelligence, with a luminous opening to feeling, to silence, to reverent spontaneity and withdrawal when faced with essential ignorance. The inevitable, the undeniable, is dawning: a serene, considered acceptance, without over-excited exaggerations, of the unicity of phenomena and their essential ineffability. It is an existential and philosophical movement, destined to be strongly opposed to pedagogical and dogmatic methods, to official catecheses and all the churches and policies linked together on this still dry and needy earth; or perhaps, in some way, opposite and complementary, in a wide-ranging conception, allowing one to make conjectures with tolerance and balance. There exists, on this new and old cultural axis that searches to renew itself and is firming up its decisive impulses, an open road to sensitive intuition, which consists of empathetic contact, rather than a way that is intellectual, algebraic or abstract. It is an aim that seems appropriate: in an effort to reapproach the existential mysteries linked to the mythological art that is present in the ancient sense, I bear witness that devastating logic is beginning to give way to a renunciation of domination and hierarchy. It cannot be denied that a new search is emerging that is freer, more independent and natural, which practises and documents a palpable connectivity, like an active, lavish, glorious and immediate mystical union.

One finds the aesthetic – the way of Beauty in search of the Beautiful – through the cultiviation of art-philosophy and the loving state-of-being. It is a dance with a defined rhythm and beat, but with a spontaneous content and development, in harmonies that cannot be set in advance. Searching for this process seems necessary when the sons and daughters of Holy Mother Nature wander in arid backlands, thirsty, exhausted in search of peace and water, an oasis of immediate sense and lucidity.

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