Mês: abril 2013

Do Difuso e do Focado, do Sol e do Farol


Sol e farol

Régis Alain Barbier, Aldeia, 10 de outubro de 2012

O místico entende-se como uma produção da natureza; uma realização cósmica, como o leito de um rio, o recorte de uma costa rochosa, um estalagmite – essas colunas de calcário que se erigem no solo de uma gruta em função do longo gotejamentos das águas, das reações químicas entre os elementos contidos nos minerais, na água, no ar; do efeito da temperatura dos ambientes e das forças essenciais – como a gravidade, o magnetismo, as reações atômicas e moleculares. Advinha-se a sagacidade dos anciãos evocando os elementos como terra, água, ar e fogo. É fácil imaginar cada pingo d’água como uma molécula primordial; um conjunto de gotas formando uma célula; as formações esculturais da rocha, órgãos: a realização dessa totalidade, um estado-de-ser que evolui e se eleva até tocar o teto formando um pilar estalagmítico – um místico estatelado e espantado tocando o céu com a consciência própria.

O místico compreende não ser diverso da natureza que o contém, que a natureza se expande em formações sempre mais amplas, num contínuo universal homogêneo: ele sabe. Ele conhece porque experimentou, ao longo da sua história, que a evolução progressiva da consciência, de celular a orgânica, pertence a esse sistema como o perfume e a beleza das flores integram e coroam o âmbito e a complexidade das relações. Tudo é um que se dissolve em fronteiras infinitas em todos os azimutes. Om shanti, shanti, shanti om.

O distraído, diversamente, por carência de perspectivas profundas, não enxerga como um sol, na envergadura da totalidade dos raios, mas entrevê as coisas em frestas estreitas de consciência e visão: não conecta, não integra, e passa a ver como flashes de instantâneos. Ele vê aqui uma pedra, lá um coelho, em cima um sabiá e além, um céu radicalmente diverso do plano horizontal. Ele não reconhece, como as águias, que o azul e branco do mar é azul e branco do céu. Ingênuo, ele passeia no mundo, no mar e no céu, como se fosse um farol isolado numa pedra rochosa: olha isso, vê aquilo! Devem ter universos muito estranhos e diversos de mim além desses negrumes distantes! Ele não se compreende, tampouco se reconhece como um místico.

Farol acusa Esclarecido de ‘antropocêntrico’! Rindo, o místico responde que seria mas acertado acusá-lo de abóbada antropocircunferencial! Que de fato ele, Farol, é o ‘antropocêntrico’ que gira focando em torno de si para ver pouco, fala com as próprias visões como se fosse alienígenas, confundindo coisas com representações, achando-se caído de outro astral, ou assentado nos arquibancos da arena universal, como um prefeito em seu gabinete! – “Pois se sou focado e rochoso, tu és difuso, totalmente calcário, meu caro!”. E assim continuam se alfinetando, rindo um do outro.

Tenho denominado essa perspectiva incompleta, focal e dicotômica, de eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e a perspectiva unitária e difusa de eixo perspectiva metafísica cosmo-existencial. O primeiro caso reporta aos aprofundamentos filosóficos típicos do kantismo onde o pensador, iniciado nessa postura de ‘ente separado do todo’, conecta a luz da consciência com as coisas se questionando: mas e além da minha luz, existirá uma ‘coisa-em-si’ misteriosa, radicalmente inacessível, outra? Ele responde:

– “Pressuponho que sim, caso contrário tudo estaria no aro da minha consciência, tudo seria ‘maya’, ilusório. Não pode ser, existe, sim, uma coisa-em-si. Aliás, uma suposição cujo fundamento encontra-se corroborado na tradição e na visão comum. O mundo foi criado por um deus que não é do mundo, tão misterioso para nós quanto essa ‘coisa-em-si’ que existe fora do alcance funcional e necessário da percepção. O mundo se descobre, avançando passo a passo, revelando novidades insuspeitadas, descortinando outros espaços, não se-trata de construções radicais. A existência não pode ser algo como uma ‘categoria aberta do sujeito’, a natureza e seus princípios não pode servir de base para a formação de uma ética naturalmente decorrente: a inteligência obriga a reconhecer, imperativamente, a necessidade de obedecer a uma norma criada, pressupondo a necessidade do amor, de acordo com a lei divina e revelada”.

No caso da perspectiva cosmo-existencial, reporta aos entendimentos de diversos poetas e místicos; em filosofia, notadamente, Espinosa, os pré-socráticos e, possivelmente, Sócrates reportado por Platão, quando, em 246 dc, o ateniense afirma:

“O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade”.

Na perspectiva cosmo-existencial não há dicotomia rigorosa entre o que é do âmbito da consciência e do mundo: estabelecessem-se relações fenomênicas, como atributos unidos, chave e fechadura. A consciência é necessariamente de alguém, e algo, para se apresentar no plano existencial, aflora na consciência de uma forma ou de outra. O posicionamento é fronteiriço: a totalidade dos existentes fronteiram relações complexas e determinantes na realização do processo criativo. Imagina-se uma membrana molecular formando-se em algum meio, eventualmente, dobrando sobre si, criando um espaço interior: não faz pleno sentido postular uma ‘radical distinção entre o lado de fora e o de dentro’, não há dois espaços do ponto de vista original, ontológico: trata-se de uma unidade recondicionada pela forma configurada. A estrutura membranosa evocada estabelece distinções, relações e destinos, tanto quanto os demais seres criados, sem por isso originar lugares estranhos, radicalmente diversos: os dois lados não configuram entidades opositivas e divergentes, a não ser nas interpretações e normas de modelos e narrativas. O justo entendimento desconstrói questionamentos relativos ao solipsismo e à ideia do mundo ilusória, maya, como se referissem a realidades absolutas, ontológicas; são apenas modelos ou modos de compreender, sendo o modo cosmo-existencial mais extenso, sóbrio e profundo – no momento, integrando melhor o que se sabe, logo mais verdadeiro. Nessa postura, o pensador entende-se integrado a tudo quanto existe e possa vir-a-ser, estabelecendo relações, descortinando aspectos do fluxo desse fenômeno radical.

Trata-se de um fundamento metafísico corroborado na tradição e visão panteísta, onde o cosmos entende-se como fenômeno autopoiético. O ‘deus criador’ é o próprio Cosmos, incluindo todos os seres em enlaces misteriosos, universo cujo potencial em nada desmerece os valores atribuídos ao deus sobrenatural dos teístas salvacionistas que consideram a vida uma purgação, um introito para um mundo incriado de ‘energia pura’, sem matéria alguma. A visão panteísta, apesar da modernidade do termo, reporta-se a muitas formas antigas de reverenciar a natureza. O mundo se descobre como o infante descobre os próprios potenciais, o bebê o corpo, o homem sábio entende a terra como uma mãe e o sol como um pai. A mim parece que a existência é categoria aberta do sujeito que sempre existira, de uma forma ou de outra. Para bem se dirigir e orientar nas coisas da vida, entender que somos uno dispensa a necessidade imperativa de normas elaboradas em escrituras: a verdade grita no presente, na imaginação e historicidade que transmuta sem deixar de se afirmar, até mesmo quando observo um céu de estrelas que brilham num passado presente, lembrando imagens e ideias cujo surgimento não sei locar no tempo – memória ancestral.

Credo Panteísta

 

Creio que a Natureza, harmoniosa e bela, cósmica,
É a infinita totalidade, criadora absoluta;
Creio que a Natureza é a verdadeira Deusa adorada
Pelas criaturas da terra desde o começo dos tempos;
Creio que todas as criaturas vivem  no seio da força
Virgem, original e vital da Santa Mãe Natureza.

Creio que a Natureza, na sua essência, não é gerada,
Que é a mãe de todos os séculos, de todas as deusas
E deuses cultuados por todas as nações,  luz da luz,
Da totalidade das coisas criadas visíveis e invisíveis,
Dos céus, das estrelas às partículas menores;
Dos planetas e das luas, de todos os mundos.

Creio que todas as criaturas manam desses céus
E horizontes infindos,  simbolicamente, descidas
Dos céus, encarnando o ânimo vital e  supremo
Da santa e bela mãe natureza; creio que a Deusa
Não existe sem suas crias, que ela se faz criatura de si
Em cada um dos que nascem, que cada um dos seres criados
Compõe um dos pontos da trama infinita, pontos de encontro
E despertar dela mesma em nós e dela em todos nós.

Creio que, junto a nós e em nós, a grande mãe
Existe, eternamente, numa sublime esfericidade
Em que os diâmetros verticais e horizontais,
Como os madeiros de uma cruz de braços iguais
Inscritos no círculo central de uma imensa espiral,
Simbolizam o processo constante de transmutação
Do mesmo e único corpo, da ancestralidade às formas
Atuais e por vir, assim como a polaridade das expressões
Opositivas e complementárias, dia, e noite, sol e lua,
Compondo em harmonia a realização presente,
Bela como uma flora encantadora e misteriosa.

Creio que cada vez que pessoas sábias e vanguardeiras,
Artistas, buscadores, se redescobrem como expressões puras
Da Natureza no mundo da manifestação, regenera
A vida na força da eternidade, dissolvendo a ignorância,
Marcando saúde e salvação nas dimensões mais nobres
Do estado-de-ser que reafirma sua eternidade.

Creio na substância própria da vida que se manifesta,
Nas montanhas nas florestas, nas campinas e nos rios,
Lagos e mares, afirmando processos constantes
E gloriosos de renascimentos e dissoluções;
Creio no culto panteísta, santo, universal e sábio,
Admiro a abóbada estrelejada da igreja natural,
Reconheço o santo tabernáculo dos mistérios
Presente e aberto no coração dos que
Se amam e amam a Natureza e todos os seres.

Creio na intuição e gênio que vive em todos nós,
Sopre e fonte de vida que procede da santa mãe natureza
E assenta nas criaturas configurando um único estado-de-ser,
Que fala aos que despertaram para o que são,
Guiando-os em busca de uma vida sempre mais amorosa e bela;
Creio na pureza nascida e presente nas criaturas,
No centro do que sinto jorrar uma fonte rica e preciosa
Que derrama sabedorias oriundo de minha pura intimidade,
Permito que a fonte guie as águas vitais em qualquer espaço,
Aprofunde em qualquer caminho ansiando ser preenchido.

Creio na vida sempre nova do estado-de-ser transmutante,
Que todos juntos, despertos na nossa lucidez natural avivamos
Nos equinócios, em específico nas primaveras;
Creio que seremos capaz de reinstalar nesse planeta azul
O grande panteão em que somos todos filhos do sol e da terra,
Crias diletas da grande e bela mãe Natureza.

Nos Mistérios dos Equinócios – Credo Panteísta


naturalismo

Régis Alain Barbier, Aldeia,  2013

A festa da Páscoa, como hoje decantada nesse potpourri da cultura global, ainda traz as fartas simbologias cultuadas pelos antigos povos e pagãos do mundo; para entender o seu profundo significado é necessário voltar a um tempo anterior: dos gregos e jônios ancestrais, das culturas que existiam além das muralhas da poderosa Roma, como as da América original, a Santa Terra das Tartarugas.

Vitalidade, saúde e renovação festiva

Centrado na lucidez natural que bem convém a um homo sapiens sui generis, fiz uma rápida revisão da palavra pascoa, denominação da festa associada ao equinócio da primavera no hemisfério norte, evocando fertilidade, renascimento, renovação, alegria e entusiasmo! Isto é o significado marcante desta comemoração, inclusive para nós que habitamos as terras delimitadas ao redor da marca geográfica dita ‘Paralelo 8 S’ onde a estação do ano é outono.

Aqui, leitores, neste nordeste brasileiro, o inverno anunciado não congela a vida: ao contrário, traz esperanças de chuvas similares às precipitações típicas das primaveras nortistas! Nessa época do ano, águas celestiais e arco-íris revitalizam os nossos campos depois das insolações fortes do verão: são as chuvas do milho, essenciais e vitais! Por isso, os nossos outonos, igualmente às primaveras nortistas, trazem esses mesmos sentimentos e virtudes – o que lá é só primaveril, aqui, país tropical de grande fartura e beleza, é também outonal! As orquídeas já floriram, os talos dos galhos antes podados renasceram e as ninhadas de sabiás, e outros anjos, esperam as mães de boca aberta, encantados pela vida.

demeter  img_isisA festa da Páscoa, como hoje decantada na cultura globalizada, ainda traz as fartas simbologias cultuadas pelos antigos povos e pagãos do mundo, que, nesta época do ano, homenageavam Ceres para os romanos; para os gregos, Deméter e Perséfone, sua filha liberada das profundezas da terra; Isis para os egípcios: deusas a quem se ofereciam sementes, flores, animais e ovos. Enquanto na imagética dos antigos germanos, Ostera, Ostara ou Esther, a Deusa da Primavera, segura um ovo em sua mão observando uma lebre, símbolo da fertilidade, pulando em redor de seus pés, na sua ânsia consumidora, os habitantes desse mercado global oferecem ovos e coelhinhos coloridos feito de ‘xocoalt’ – bebida e alimento euforizante e regenerador muito prezado pelos astecas, olmecas, maias e outras culturas da mesoamérica.

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Hator, venerada igualmente pela realeza e população, era uma deusa importante do Egito Antigo, representada como uma vaca divina, com chifres sobre sua cabeça, entre os quais está um disco solar: personificava os princípios primaveris do amor, beleza, música, fertilidade, maternidade e alegria.

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Os antigos viam a realidade como consistindo de camadas múltiplas, nas quais as divindades se misturavam por diversos motivos, revelando atributos e mitos às vezes divergentes, mas que no entanto eram vistos como complementares.

Cultos similares ainda acontecem na índia, onde a figura suave e ambígua de Krishna e das Gopis desnudas centralizam a regência divinal e coroamento extático. Em todos esses símbolos, com enraizamentos agrários, pré-dinásticos e elaborações dinásticas e sincréticas ao sabor das superestratificações culturais: o culto à natureza, prosperidade e fertilidade são evidentes.

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As deusas de diversas formas, mostradas em várias culturas por artistas e visionários criadores ou tradutores de mitos, são todas representações da Mãe Terra, Pachamama, a Deusa Natureza. Dentro das obras que não foram destruídas ao longo das inúmeras colisões culturais, aprecio uma escultura de Niccolò Di Raffaello Dei Pericoli (atualmente no Musée National du Château de Fontainebleau), onde a Deusa Natureza é representada com fartos atributos.

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As sementes, ovos de pássaros e tartarugas, animais e flores que as deusas recebem de oferendas, as crianças que carregam, simbolizam a nova vida, a saúde, a fertilidade erótica e viva da Natureza. Imagino que seja igualmente o significado desse quadro mítico descrito na Torá, capítulos segundo e terceiro do Gênesis, em que, na esfera divinal, lugares dos deuses e deusas, a serpente, símbolo de regeneração e imortalidade, a árvore, a fruta e a mulher se encontram num momento extasiante gerador de saber e criatividade.

Adão e eva

A associação da serpente – símbolo de regeneração e imortalidade – nesse quadro mítico e iniciador, adequa com perfeição, evocando a vitalidade, o erotismo, a saúde e fertilidade poética da força primaveril! Na mitologia grega, Higéia, ou Salus para os romanos, representada segurando uma taça na mão esquerda, onde alimenta a serpente, que segura com a mão direita, ocasionalmente citada como irmã de Eros, esposa ou filha de Esculápio, é a Deusa da saúde, da regeneração, da limpeza e sanidade, da continuidade da vida e da imortalidade.

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Portanto a primavera, é, para nós viventes felizes destas áreas abençoadas, os dois equinócios, são momentos oportunos para invocar o poder de cura da Deusa Natureza, quiçá ver surgir no nosso imaginário algumas das suas inúmeras representações, estimulando o ânimo poético:

“- Que a capacidade regeneradora da Natureza ative as nossas energias vitais; que possamos evocar nessas meditações as forças naturais, o sol, o ar, a terra, a água; que nestes dias possamos admirar as flores, compartilhar ervas e plantas medicinais para aumentar a nossa conexão com a Natureza, prevenindo o mais possível a necessidade, muitas vezes exagerada, das terapias remediadoras”.

Em busca da santa virgem

Apesar de todas as revoluções culturais, as verdades arquetípicas, as coisas da Natureza e dos humores, não se pode refrear e esconder: para entender o profundo significado da pascoa é necessário voltar a um tempo anterior à revolução cultural imposta pelo imperador Constantino Magno (Flavius Valerius Constantinus; 272-337), retornar ao tempo dos antigos gregos e jônios, das culturas que existiam além das muralhas da poderosa Roma, ao mundo da América original, da Terra das Tartarugas.

Na sua totalidade histórica, o Cristianismo, as suas históricas, santas e pecadoras elaborações, originaram-se e desenvolveram-se dentro do quadro teológico, político e cultural do Império Romano – no decurso do século IV, a igreja começou a ser tolerada pelo Império, para alcançar depois de muitas perseguições e tramoias, o estatuto de religião oficial do Estado. Nesse processo, o imperador Constantino determinou a realização do Concílio de Niceia (325), em busca de pacificar as manifestações e lutas religiosas que enfraqueciam o império que dirigia. Instituídos os ordenamentos fundamentais da igreja, o imperador mandou educar seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a essa religião, dando-lhe presença institucional e o braço do estado imperial. É nesse Concílio inaugural que estabeleceu-se que a Páscoa seria festejada no domingo seguinte ao plenilúnio, após o equinócio da primavera.

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Até hoje, o Credo fundador, dito ‘Niceno-Constantinopolitano’ ou ‘Símbolo Niceno-Constantinopolitano’, normatiza a crença central das igrejas cristãs basilares: Católica Romana, Ortodoxa Ocidental, Nestoriana, Ortodoxa Oriental, Anglicana e diversas denominações protestantes. Nesse credo da igreja imperial, venera-se  um deus poderoso, oculto, de vontade incompreensível à luz da razão, representado por escolhidos, prediletos e tradutores, criador sobrenatural de todas as coisas no objetivo de salvar os homens descaídos e pecadores, e cujo filho “encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem; por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os vivos e os mortos”.

Contrariando esse mito que degrada e relativiza a Natureza e as criaturas que neste mundo surgem e habitam, desonra a inteligência e intuição da humanidade, faz da vida no planeta terra uma circunstância acidental e ínfera, prega um ‘pecado original’, uma ‘impureza’ como fonte motivadora da criação, os pagãos e panteístas de todos os tempos e azimutes respondem afirmando um Credo bem mais antigo, universal e original, o Credo dos que horam a si mesmo, e, à luz da razão natural, admiram a Mãe Natureza, os habitantes desse orbe cujo coração amoroso, extático, desperto e sem vícios escondidos, liberto, já pulsa fora das muralhas da Roma hoje arruinada.

CREDO PANTEÍSTA

Creio que a Natureza, harmoniosa e bela, cósmica,
É a infinita totalidade, criadora absoluta;
Creio que a Natureza é a verdadeira Deusa adorada
Pelas criaturas da terra desde o começo dos tempos;
Creio que todas as criaturas vivem  no seio da força
Virgem, original e vital da Santa Mãe Natureza.

Creio que a Natureza, na sua essência, não é gerada,
Que é a mãe de todos os séculos, de todas as deusas
E deuses cultuados por todas as nações,  luz da luz,
Da totalidade das coisas criadas visíveis e invisíveis,
Dos céus, das estrelas às partículas menores;
Dos planetas e das luas, de todos os mundos.

Creio que todas as criaturas manam desses céus
E horizontes infindos,  simbolicamente, descidas
Dos céus, encarnando o ânimo vital e  supremo
Da santa e bela mãe natureza; creio que a Deusa
Não existe sem suas crias, que ela se faz criatura de si
Em cada um dos que nascem, que cada um dos seres criados
Compõe um dos pontos da trama infinita, pontos de encontro
E despertar dela mesma em nós e dela em todos nós.

Creio que, junto a nós e em nós, a grande mãe
Existe, eternamente, numa sublime esfericidade
Em que os diâmetros verticais e horizontais,
Como os madeiros de uma cruz de braços iguais
Inscritos no círculo central de uma imensa espiral,
Simbolizam o processo constante de transmutação
Do mesmo e único corpo, da ancestralidade às formas
Atuais e por vir, assim como a polaridade das expressões
Opositivas e complementárias, dia, e noite, sol e lua,
Compondo em harmonia a realização presente,
Bela como uma flora encantadora e misteriosa.

Creio que cada vez que pessoas sábias e vanguardeiras,
Artistas, buscadores, se redescobrem como expressões puras
Da Natureza no mundo da manifestação, regenera
A vida na força da eternidade, dissolvendo a ignorância,
Marcando saúde e salvação nas dimensões mais nobres
Do estado-de-ser que reafirma sua eternidade.

Creio na substância própria da vida que se manifesta,
Nas montanhas nas florestas, nas campinas e nos rios,
Lagos e mares, afirmando processos constantes
E gloriosos de renascimentos e dissoluções;
Creio no culto panteísta, santo, universal e sábio,
Admiro a abóbada estrelejada da igreja natural,
Reconheço o santo tabernáculo dos mistérios
Presente e aberto no coração dos que
Se amam e amam a Natureza e todos os seres.

Creio na intuição e gênio que vive em todos nós,
Sopre e fonte de vida que procede da santa mãe natureza
E assenta nas criaturas configurando um único estado-de-ser,
Que fala aos que despertaram para o que são,
Guiando-os em busca de uma vida sempre mais amorosa e bela;
Creio na pureza nascida e presente nas criaturas,
No centro do que sinto jorrar uma fonte rica e preciosa
Que derrama sabedorias oriundo de minha pura intimidade,
Permito que a fonte guie as águas vitais em qualquer espaço,
Aprofunde em qualquer caminho ansiando ser preenchido.

Creio na vida sempre nova do estado-de-ser transmutante,
Que todos juntos, despertos na nossa lucidez natural avivamos
Nos equinócios, em específico nas primaveras;
Creio que seremos capaz de reinstalar nesse planeta azul
O grande panteão em que somos todos filhos do sol e da terra,
Crias diletas da grande e bela mãe Natureza.

A lebre de Esther pode ser vista na Lua cheia e, portanto, é naturalmente associada à Lua e às deusas lunares da fertilidade. Não se surpreendam, se nestes dias, os seus cantos e hinos de louvores exaltem sentimentos de glória que espargem em festas como arco-íris, danças, ritos, sussurros e visões primaveris. Perséfone liberada já alegrou o coração de Deméter e derrama nas nossas terras o maná dos céus, trazendo a força e a luz que necessitam.

Panteísmo, uma Definição. Régis Alain Barbier (05)

Uma nova perspectiva metafísica gera um novo sistema filosófico, e, em sincronia, exige a correspondente elaboração de novas teologias e políticas em conjunto denominadas ‘coordenadas metafísicas secundárias’.

Da Ideia de Deus – você conhece, ignora ou acredita? ~ The idea of God: Do you understand It, know about It, ignore It, or just believe in It?

REBIS

With english translation below the text in Portuguese

Regis Alain Barbier

A qualidade da consciência frente a si mesmo, ao mundo e à sociedade, é a virtude essencial que rege a existência e determina o lugar em que se vive: inferno ou paraíso.     

Das coordenadas do divino

É necessário esclarecer os termos e conceitos fundamentais e universais, ajustar seus significados considerando as tradições em que foram intuídos e divulgados, os contextos em que são habitualmente evocados; aceitá-los, reformulá-los ou rejeitá-los permite garantir a clareza das narrativas e discursos que se elaboram. Nesse processo, a intensidade dos debates é proporcional ao significado existencial e universalidade dos conceitos em pauta; apreciações fundamentais são aquelas que valorizam e situam os existentes nos lugares em que existem.

Debates onde se indagam se o panteísmo (pan-teísmo) seria, ou não, um mono-teísmo, poli-teísmo ou a-teísmo exemplificam algumas das dificuldades cognitivas acontecendo quando termos e conceitos referentes a diversas perspectivas, historicidades e culturas, se confrontam ofuscando discernimentos mais filosóficos. Nas exemplificações acima citadas, as problematizações resultam de intuições e ideias imperfeitas relativas aos possíveis significados do termo ‘deus’, ou ‘divindade’.

É fundamental reconhecer que o entendimento do termo ‘deus’ não se explicita a contento apenas em critérios culturais. O entendimento do conceito só é adequado e possível quando equacionado nos três pontos onde se coordena: a) o indivíduo, sentimentos íntimos, apreciações estéticas, abstrações e ideias; b) a natureza e coordenadas vitais; c) a cultura, tradições e normas correlatas. Denota-se que os aportes culturais não são fundamentais, mas coroam os dados oriundos da intuição e da relação imediatos com a natureza – ampliando-se a compreensão do termo natureza à luz da meditação filosófica, como Cosmos: relação unitária e fenomênica entre o indivíduo e o mundo.  

Deus: é a virtude, a qualidade e a ideia da consciência atuante e fenomênica frente a si mesmo e aos contextos existenciais de ordem natural e cultural.

As mensuras gnosiológicas nucleadas ao redor dessa equação e virtude existencial tridimensional que justifica o termo deus (ou divino),  se esclarecem, ou ofuscam, através das praxes religiosas.

Religião: sistema doutrinário estabelecido segundo uma concepção de divindade e da sua relação com o existente, motivando práticas e atividades denominadas religiosas.

Na apreensão do conceito ‘divino’, contradições entre o que informam os aportes da cultura e tradição, em relação ao que significam o sentimento, a razão e a natureza, induzem discórdias e incredulidades, empobrecendo a lucidez humana, estimulando desinteresses ateísticos.

Sob o ponto de vista da ontogenia, o indivíduo tende a acreditar e confirmar os valores religiosos instituídos nos ritos que predominam; assim sendo, a ideologia tende a estabelecer a virtude do existente frente a si mesmo e o mundo, gerando ações e reações determinantes do ponto de vista existencial, induzindo destinos, ordenamentos culturais e societários, problematizações subsequentes. A escassez de acuidade filosófica, o gregarismo citadino, a credulidade e a ignávia favorecem a predominância histórica de estruturas teológicas normativas e prescrições culturais.

Impressões batismais: valores existenciais fundamentais e debates relativos, dúvidas e expressões de fé que correspondem aos entendimentos e práticas como se delimitam nas doutrinas religiosas nativas.

Justamente apreciar os conceitos ‘divino’, ‘deus’, exige uma cuidadosa revisão e superação das impressões batismais: examinar e criticar os termos e conceitos universais é um empreendimento essencial ao esclarecimento das narrativas e discursos.

Teologias políticas e identidade batismal

A formação e manutenção das classes sociais, reservas de poder e sujeições, atributos econômicos correspondentes, funções e posições, títulos e etiquetas, delimitações das legalidades e ilegalidades, terapias, são decursos que espelham a ideologia cultural, necessariamente, inscrita em configurações míticas e ordenamentos teológicos. Para a maioria, a virtude e valor fundamental do existente corresponde à sua identidade batismal.

Identidade batismal: evoca uma relação de adesão frente ao conceito cultuado e dominante de deus no formato civilizatório nativo.

Uma vez estruturada a virtude, qualidade e ideia de deus através de uma narrativa mítica instituída em ritos, de acordo com um messias mítico, um profeta, um herói fundador ou imperador divinizado, os desdobramentos societários acontecem subsequentes às configurações psicofísicas e perspectivas originais e identificadoras do ponto de vista histórico e cultural. Não é necessário ser historiador para notificar e compreender que a ‘ideia de deus’, as teologias (‘verticais’ ou ‘horizontais’, radicalmente transcendentes ou não), as formas e apreciações religiosas primárias, subjazem aos decursos geopolíticos.

Nas circunstâncias existenciais, históricas e vigentes no ocidente, sustentam-se e conservam-se as estruturações políticas decorrentes dos enquadramentos societários arcaicos e primários da igreja imperial e romana, porque os ordenamentos políticos dependem da virtude original, regente e fundamental acreditada ou reconhecida pelas massas: a qualidade da consciência atuante de si como existente, em termos de virtude e ideias, frente a si mesmo e ao que é ‘outro’, a cidade e o mundo. O mundo ocidental e antigas colônias continuam existindo de acordo com os ritos ditos universais (katholikós), instituídos e consolidados ao longo da formação do império romano: assim sendo, nestes lugares, continua-se cogitando e atuando no âmbito das ‘muralhas da poderosa Roma’, sujeitos ao credo da igreja imperial onde se venera um deus poderoso e oculto, de vontade incompreensível à luz da razão, representado por escolhidos, prediletos e tradutores, criador sobrenatural de todas as coisas no objetivo de salvar os homens descaídos e pecadores.  Apenas uma mudança de religiosidade e de culto permitiria uma mudança evolutiva do ponto de vista civilizatório. A ideia de deus não exige ser impérvia e insensata à luz da razão natural como fazem crer os que se beneficiam da ignorância.

Nas estruturas societárias dominantes nas fronteiras psicofísicas históricas e atuais da igreja imperial, as formas religiosas típicas e dominantes caracterizam-se por serem dualistas do ponto de vista metafísico, manifestando-se como cultos e expressividades religiosas monoteístas, exclusivistas, sobrenaturalistas, salvacionistas, elitistas, catequistas e messiânicas.

Monoteísmo: um único deus; uma virtude que não é exclusiva da teologia romana e muçulmana, Akinato, o faraó, adorava Aton, o disco solar, como deus único. Nesta forma romana de monoteísmo, ‘único’ evoca uma unidade e uma exclusividade. Unidade onde se entende deus como um só; exclusivo por não pertencer ao reino das nossas origens materiais, às coisas ligadas à sensorialidade, inclusive sexual, e, à matéria substancializada como a vivemos e conhecemos no mundo em que existimos.

Sobrenaturalismo: deus não se entende como integrando totalmente o Cosmos feito de matéria-energia, ele é imaginado transcendente, supernatural. O que não é o caso no monoteísmo egípcio de Akinato, outros povos e igrejas sincréticas onde se entende deus como sendo o sol, e, eventualmente, o mundo supralunar, das estrelas, logo pertencente à esfera natural, que poderá ser imaginada destituída de substância material ‘inferior ou densa’, como a conhecemos no plano em que existimos e cogitamos.

Salvacionismo: postula-se que a nossa origem e destino não é permanecer transmutando consciência e matéria-energia no âmbito do Cosmos, como podemos experimentar existindo, mas sim reascender ou retornar a um plano original sobrenaturalista, ao que se imagina pertencer, embora banidos por determinação divina, de acordo com as narrativas míticas.

Elitismo: o ser humano não pode, naturalmente,  conhecer a sua verdadeira origem e destino, advindo essa noticia de uma revelação especial dada a um representante dileto do orbe celestial, ou um eleito, que se configura como profeta instituidor de cultos e culturas igualmente elitistas, onde se destacam autoridades representativas cuja função é transmitir os ordenamentos e prescrições éticas, religiosas e políticas necessárias à reintegração dos seres ou salvação.

Messianismo: a ignorância presumida do vivente em relação à sua situação espiritual exige uma catequese, a obra exige uma revelação, ou seja, um contato imediato e reservado entre o plano superior e o plano inferior, exigindo a vinda de um messias, acontecida ou esperada.

Na evolução do processo civilizatório, o laicismo, quando acontece, reformula posicionamentos importantes do ponto de vista do exercício do poder político imediato, mas não reformula, necessariamente, a estruturação psicofísica de base, ou ‘identidade batismal’ das nações, mantendo-se inalterados os posicionamentos societários estruturadores: isso, porque essas coordenadas societárias fundadoras são instituídas no cultivo da virtude e qualidade consciencial profunda dos indivíduos frente a si mesmo e ao que é da cidade e do mundo, na consciência profunda e ideia ou reconhecimento de quem são (quem sou eu?). A resposta permanece imutável por transcender as alternâncias de poder e depender das impressões e identidades batismais, dos ritos, cultos religiosos e afiliações profundas que perduram, não se originando das laudas constitucionais.

Laicismo: substituição das classes sacerdotais por laicos no exercício do poder político, sem uma reformação radical das estruturações ‘teopolíticas’.      

Sendo o ser humano uma estrutura simbólica, agregação unitária de atributos subjetivos (cogitans) e objetivos (extens), questionamentos psicofísicos e metafísicos, evocando ideias e valores instituídos em religiosidades influentes, são inerentes, caracterizam a humanidade e estruturam as sociedades em que atualmente vivemos, em todos os azimutes, logo, uma estrutura societária laica, onde predomina o ateísmo (a-teísmo) não é isenta de fundamentações e enquadramentos teopolíticos – só é possível afirmar se ‘a-teísta’ existindo numa civilização teísta, reagindo negativamente às disposições cognitivas gerais.

Ateísmo – posicionamentos reativo acontecendo em culturas estruturadas em ordenamentos teopolíticos tributáveis de uma ideia de deus e identidade batismal irracional; no ‘a-teísmo’, nega-se a existência de um ser divino, supremo e sobrenatural, afirmando a inconsistência das doutrinas religiosas correspondentes a esse conceito ‘a-razoável’ de deus, por extensão, negando-se, incongruentemente, a possibilidade e utilidade de uma ideia positiva e sensata referente a essa virtude metafísica da consciência indutora da própria reação a-teísta.      

O ateísmo, tipicamente instituído como ordenamento político em nações ditas ‘comunistas’, é como qualquer outra forma de teísmo, um evento com decursos históricos e teleológicos onde se tende a divinizar a estrutura ou partido político dominante e seus fundadores: heróis históricos, partidos situados e movimentos políticos ocupam os espaços cognitivos profundos, ou psicofísicos, dos deuses, profetas, reis e imperadores, sem que se revoguem os cobiçados ordenamentos hierárquicos antes enraizados em mitos e elaborações teológicas – em todo caso, continua-se desconsiderando o Cosmos, o Ethos, Logos e Mythos, visionados pelos sábios, deixando a humanidade em situação aquém da harmonia filosófica universal requerida para a sua plena realização. Não se ampliam as disposições cognitivas e conscienciais reagindo negativamente a uma estruturação política: a evolução dos ordenamentos teopolíticos primários, fundadores necessários das nações, apenas acontece à luz de um saber maior relativo à ideia de deus enraizada na disposição metafísica da consciência frente ao que é outro.

Uma reformação das estruturações imperiais latentes e perdurantes no laicismo  (monoteísmo como presidencialismo; exclusivismo como sinecurismo; sobrenaturalismo como cientificismo; salvacionismo como futurismo; elitismo como estratificações classista; catecismo e messianismo como partidarismo e populismo) implicaria outras disposições psíquicas e ‘teopolíticas’, como esboçadas na Jônia Antiga, na Atenas de Sócrates, em lugares fora do âmbito da jurisprudência romana, na Europa antiga e outros continentes, em outras abordagens científicas, ‘não-euclidianas’ – o entendimento e reconhecimento filosófico dessa relação numinosa, em si e frente ao que é outro, permite o advento de outros cultos  referentes a texturas psicofísicas mais integrativas, sem cortes drásticos entre o que se considera do sujeito e do objeto.

Denominam-se essas estruturas de ‘panteísticas’, conceito ilustrando um entendimento de deus como totalidade, igualmente, a soma de todos os existentes e a integração da totalidade como Natureza, no sentido mais amplo, revelando uma ordem, uma trama que é cósmica. O termo explicita igualmente a virtude consciencial profunda dos que se reconhecem como panteístas, o valor fundamental que se admite e reconhece frente a si mesmo é de unidade no sentido mais integrativo possível. Percebe-se uma união inelutável entre o corpo e a consciência, a consciência e o mundo, o sentimento e as ideias: a intuição é igualmente abstrata  e sensível, não há dicotomia radical e substancial entre as diversas formas e manifestação do estado-de-ser. O que é ‘um’ no panteísmo é a perspectiva metafísica, que é monista. Não há duas entidades igualmente poderosas e separadas, ou uma entidade ‘espiritual’ destinada a reabsorver as entidades ‘materiais’ ou a matéria. Não se articula um jogo de oposição rigorosa no entendimento sistêmico, não há dicotomia na estrutura profunda. Esse ‘todo divino’ é real, composto de atributos cognitivos e extensivos, como uma moeda, um único evento formado de uma face cara e da outra coroa. Trata-se de um fenômeno, ou estrutura radicalmente simbólica: os signos, ideias e sentimentos, que se conscientizam na ‘função sujeito’, junto, com os significados que se revelam e manifestam na ‘função objeto’, configuram uma unidade. Nesta unidade, a consciência é do mundo e o mundo é da consciência: a consciência é, por necessidade, consciência de algo, e ‘algo’, para ser, necessita de consciência; tudo existe na intencionalidade da consciência, essa relação fenomênica é absoluta e essencialmente misteriosa, divina.

As formas religiosas que se estabelecem ao redor dessa percepção de união e fusão do indivíduo com o todo, alcançável pelo voo da intuição à luz natural da razão, incluem a operação harmoniosa e conjunto dos intelectos abstratos e sensíveis e do centro emocional, caracterizam-se por serem monistas do ponto de vista metafísico, manifestando-se como cultos e expressividades religiosas panteístas, naturalistas, côngruas e esplendorosas, razoáveis e qualificadas, filosóficas e vitoriosas. Um sentimento indígena e natural de integração e adequação, um significado profundo e sentido imediato de plenitude e união, de paz e serenidade, permeia o integrante de tais comunidades.

Panteísmo: o sentido de divino integra a totalidade das coisas naturais, tudo é  um único deus, uma virtude que não exclui nenhuma expressão cósmica, incluindo o mundo terrestre, os planetas, as estrelas, a totalidade das coisas que se conhece e desconhece do acordo com o credo panteísta. Neste caso,  ‘pan’ evoca uma unidade que inclui, sem nada separar de substancial: um só Cosmos em que existimos e a que pertencemos identificados e enraizados nos processos atuais e originais de transmutações.

Naturalismo: é a virtude unitária e fenomênica naturalmente associada ao termo divino, se entende como integrando totalmente o Cosmos feito de matéria energia continuadamente transmutante, possivelmente sem início e sem fim.

Congruidade esplendorosa: a nossa origem e destino é transmutar consciência e matéria-energia infinita no âmbito de um Cosmos ilimitado, experimentando a existência no plano da nossa origem e identidade, lugar em que podemos nos reconhecer como igualmente infinito e perenemente integrados à luz da intuição natural vibrante, enfaticamente nos momentos de êxtase que acontecem com frequência e abundância, até mesmo admirando um lírio ou outra flor à beira do caminho.

Razoáveis e qualificadas: até mesmo educado numa cultura ingrata, o ser humano pode apreciar o seu destino, a sua verdadeira natureza e origem na luminosidade das manhãs, uma consagração onde se revela o esplendor da sua própria natalidade, manando da viva liberdade da força cósmica, portador legítimo da grandeza e beleza da natureza terráquea e igualmente celestial, uma realização onde cada um se configura como profeta instituidor dos seus próprios cultos, participante autoral da sua visão, apresentando gravado em si mesmo os ordenamentos e decursos éticos essenciais dos que pertencem ao Cosmos que é o corpo e a mente do divino, o Logos dos antigos, associado ao ethos, gerador de mitos que honram e bem convém a natureza e estado-de-ser.

Filosóficas e vitoriosas por necessidades estruturais: os potenciais de razoabilidade e saber que caracterizam a natureza humana, a consciência de ser um processo transmutante igualmente e paradoxalmente efêmero e imortal, exige do sábio a construção de doutrinas e significados que honram e significam venturosamente o dado-a-ser, caracterizando-se essas elaborações como realizações espirituais por excelência – em que ser espiritual significa valorizar positivamente a experiência existencial, de modo a poder viver vidas plenas e gratificantes em todos os momentos.

Estamos, vagorosamente, realizando um estado-de-ser humano propriamente dito, espiritual, em que o apogeu será instituir na terra uma morada em que a harmonia que se reconhece visitando os bosques e apreciando a natureza, igualmente, possa reinar nas cidades, onde todos serão respeitados e batizados sabiamente, reconhecidos como filhos do sol e da terra, príncipes e princesas do Cosmos, dignos do mais profundo respeito assim como todos os animais e criaturas. Lugar digno, onde a política será plenamente participativa, a educação dialógica, a economia livre, a moeda real; um lugar onde os vanguardeiros, filósofos, provedores, sábios, visionários e artistas, os mais felizes, serão ouvidos com atenção e considerados cuidadosamente a cada tomada de decisão, uma cidade horizontal, ocupando os espaços, respeitando a natureza reconhecida santa e sagrada.

 Divino como integração plena à totalidade  

 Quando digo ‘namastê’, ‘saúdo o divino em você’, não estou afirmando que: a) você é um deus, ou deusa, delimitado na forma que você configura, b) tampouco que você é uma manifestação, ou representação simbólica ou arquetípica de um deus ou deusa: eu estou simplesmente reconhecendo e afirmando que você pertence ao Todo, logo, que é divino por integrar plenamente e em todos os sentidos, na atualidade do momento, de imediato, a Natureza que é divina.

No panteísmo, estar ‘desperto’, esclarecido e iluminado é saber ampliar e irradiar a luz da consciência natural no sentido de preencher o Cosmos. O movimento de expansão da consciência, que no início mal diferencia o próprio pé de um chocalho pendurado no berço, é progressivo e continuado até, eventualmente, se não travado e enredado em conceitos proibitivos, resultar num coroamento místico onde o estado-de-ser se reconhece como realidade universal e sempiterna, sem começo e sem fim, ser universal, eterno avatar, santa trindade, Ethos, Logos e Mythos.

O movimento psíquico em busca desse ‘saber nada saber’, por saber-se absoluto, sem razão de ser ou serventia, gracioso, é, igualmente, abstrato, estético e afetivo: a abstração revela a geometria que conecta os pontos, coisas, criaturas e eventos particulares ao todo; a estética, aprecia o desdobramento das relações evidenciando beleza e harmonia; o afeto vibra numa crescente empatia amorosa. Esse movimento tripartido do psiquismo exulta em êxtase místico que culmina fertilizando a inteligência, despertando o indivíduo para a sua universalidade. Quer sejam espontâneas ou planejadas, as vias sacramentais que operam levando a essa lucidez variam, frutos de buscas e experiências: um passeio na floresta, uma circunstância, uma relação, um rito, uma poção, os decursos da vida.

Uma discussão versando sobre ‘politeísmo’ e ‘monoteísmo’, de diversas formas, simbólicas ou idealísticas, realísticas, etc., num debate estruturado como: 1) ‘x’ e ‘y’ são deuses reais (realismo); ou 2) ‘x’ e ‘y’ são representações de deuses – sejam coligados a um deus ou deusa ‘de raiz’, como ocorre em algumas mitologias, por sua vez integrados em um panteão, comandado ou, igualmente, representante de um ‘divino absoluto e omnimodo’ de natureza arquetípica (idealismo) implica a vigência – seja, do ponto de vista histórico, um primitivismo ou uma superestratificação residual do psiquismo – de uma dissociação latente, dicotomias evocadas na estrutura dos debates: categorias sectárias que não existem a não ser como distorções resultantes das impressões batismais que integram a morfologia civilizacional onde o estado-de-ser medita nos arredores ou no arco de influência de uma postura psíquica historicamente decantada em que se imagina ou se configura um ‘espírito’, ou uma ‘consciência’ posta num ‘corpo’, ou na ‘matéria’.

 Efetivamente, na cosmovisão panteísta, tudo se relaciona, a origem é a trama da totalidade onde tudo se conecta, interagindo, nascendo, vivendo e morrendo, transmutando no presente: unidade e diversidade atuais e presentes, desde sempre – o panteão é simbólico, uma abstração, igualmente imaginativa e sensível, esteticamente bela, psicofísica!

 O panteísta poderá ser considerado ateu, junto com todos os pagãos que disputam querendo se afirmar como deuses ou deusas reais, ou arquetípicos, frente aos fiéis desse monoteísmo exclusivista, como acima descrito. Certamente, muitos dos que se afirmam e caracterizam ‘ateus’ para bem se distanciar e diferenciar do monoteísmo imperial, das dissidências protestantes e sincretismos coloniais, não se sentindo como ocorrências acidentais num mundo sem sentido, enquadrados em estruturas estatais e laicas resíduos de antigas configurações teopolíticas, no fundo, poderiam se reconhecer panteístas – basta saber apreciar a essencialidade espantosa e fenomênica do estado-de-ser.

 Duas estrelas e dois destinos – quem é você?  

 Qual é a sua virtude consciencial e disposição psíquica profunda ? Qual valor fundamental que você afirma e identifica, em consciência, frente a si mesmo e ao que é outro, na sua relação com a cultura, suas formas de religiosidade e negações? A pergunta é radical, concerne à sua relação consigo mesmo e com a totalidade como existente existindo: reporta à cultura em que se nasce e ao que faz dela; à natureza como estado-de-ser circunstanciado no mundo e Cosmos. Por isso, perguntar: “Qual a sua virtude consciencial profunda, qual o valor ou consciência que cultiva frente a si mesmo e ao que é outro?”, é idêntico a: “Qual a sua identidade e origem?”. Só há duas respostas efetivas, construídas em ideias, sentimentos, apreciações estéticas e formas de abstrações, expressas em duas metáforas com enraizamentos mais urbi ou orbi. As duas formas são adequadamente rotuladas de monismo ou dualismo do ponto de vista metafísico.

 1 – Forma metafísica dualista: a) expressão teológica arcaica: sou um espirito-e-alma deportado na matéria para purgar pecados, banido da esfera divinal por inadequação original, esperando ser salvo e adentrar o mundo verdadeiro que não é natural, mas sobrenatural, de acordo com as revelações dos guias espirituais; b) elaboração teleológica pós-moderna: sou cidadão-de-estado, desprovido de intuição e vontade, alienado e sub-rogado aos comandantes dos partidos, vivo nas fronteiras dos meus deveres, acompanhando as normas e opiniões ditadas pelos eleitos.

2- Forma metafísica monista: a) expressão teológica universal: sou um estado-de-ser natural, essencial, dotado de corpo e consciência universal, integrado ao Cosmos, praticando as virtudes cardeais dos filósofos, conformado e feliz por ser natureza eternamente transmutante; b) elaboração naturalista: sou cidadão do mundo, partilhante de uma cidadania dialógica, vivo nas fronteiras da ética universal que se revela à luz da razão natural.

A forma dualista reflete uma carência profunda de autonomia, aponta uma desintegração consigo mesmo e a totalidade, um isolamento; um desgosto e desapreço existencial enfatiza o que incomoda, o feio, o indigno, o que humilha, desacredita e rebaixa. A perspectiva teleológica dualista, dissociada da harmonia natural, fertiliza uma cultura normativa e sectária, desprovida de intuição, instituída em imposições que desonram e rompem o estado-de-ser natural em urbanidades hipócritas, fomentado uma consciência egoica. Na sua forma teológica clássica, o sujeito se encontra trancado em configurações alienantes onde se imagina viver acidentalmente, metido em corpos indignos e fontes de pecados. Nestas circunstâncias desagregadas, o belo que se exalta é, muitas vezes, restrito às artes ditas clássicas ou oficiais, sejam obras exibidas em mausoléus, penduradas em museus e vaticanos, referentes a um sublime de metrificações reservadas, evocando líderes e deuses apartados e distantes; evidencia-se uma desarmonia que bradeja em contrastes que se expressam nas arquiteturas das cidades onde coabitam ilhas urbanas justapostas a áreas seletas de poder e imponências. Tal perspectiva aponta um modo separatista de geometrizar as formas que se delimitam, considerando as suas fronteiras, volumes, massas e gravitações. Predominam sentimentos de minusvalia e baixa autoestima essencial, desconfiança, insegurança e conflitos; uma libido recalcada, que regurgita nos limites de uma sexualidade, tendente a degenerar em sublimações produtivas,  sadomasoquismo e pornografia.

A forma monista reflete um humor atuante e elevado, forte vitalidade e saúde, uma autoestima entusiástica, aponta uma integração empática, bem humorada e amável consigo mesmo e a totalidade; um modo de geometrizar as formas que se delimitam considerando igualmente as suas relações com o que não são, uma apreciação estética que enfatiza o belo que se denota igualmente na harmonia dos contrastes e dos semitons, um sentimento de bem-estar alegre, aberto a uma inspiração extasiante, configurando uma libido que transcende os limites estritos da sexualidade para ampliar e resplandecer em todos os azimutes, fertilizando uma cultura que revela a sensatez da totalidade, universaliza a consciência, enraíza e naturaliza a ética num bem estar essencial, evoca metáforas e significados míticos que dignificam o estado-de-ser além das configurações subjetivas.

Afinal: quem é você? Inevitáveis questionamentos metafísicos, apreciações existenciais profundas, valores batismais e teleologias fundamentais, determinam as vocações, dedicações e deveres dos indivíduos, isolados ou organizados em igrejas, partidos ou seitas, por decurso, os movimentos internacionais e missões dessas instituições, quiçá das nações quando determinadas igrejas, partidos ou seitas as dominam e influenciam. Você é detentor de saber de acordo com o que lhe foi dito, ou, de acordo com o que você mesmo conota, denota, afirma, em primeiro lugar, no seu sentimento, apreciações estéticas, abstrações e ideias – es onimodo, você dispõe e decide!

The idea of God

Do you understand It, know about It, ignore It, or just believe in It?

Régis Alain Barbier

The quality of consciousness, confronted to itself, the world and the society, is the essential virtue which governs existence and determines the place where one lives: hell or heaven.

The Divine´s Coordinates

It is necessary that the fundamental and universal terms and concepts should be clarified, their meanings adjusted, taking into consideration the traditions in which they were intuitively perceived and announced, the contexts in which they are usually invoked. Accepting, reformulating or rejecting them allows one to ensure clearness of the worked out narratives and discourses. In this process, the intensity of the debates is proportional to the existential meaning and universality of the listed concepts; fundamental evaluations are those which appraise and situate the beings in the places they exist.

Debates inquiring whether pantheism (pan-theism) would or wouldn´t be a mono-theism, poly-theism or a-theism exemplify some of the cognitive difficulties taking  place when terms and concepts referring to diverse perspectives, historical facts and cultures come into conflict, thus obscuring the most philosophical insights. In the examples above, the problems result from imperfect intuitions and ideas, relating to the possible meanings of the term “god” or “divinity”.

It becomes fundamental to recognize that the understanding of the term “god” isn´t satisfactorily explained merely through cultural criteria. The understanding of the concept is only adequate and possible when equated in the three points where it is coordinated: a) the individual, intimate feelings, aesthetic appreciations, abstractions and ideas; b) nature, and vital coordinates; expression of the Logos; (c) culture, traditions and correlate rules. It is pointed out that the cultural baggage is not fundamental, but it perfects the data coming from intuition and the immediate relationship with nature – widening the understanding of the term nature, as Cosmos, at the light of the philosophical meditation; unitary and phenomenological relationship between the individual and the world.

God: is the virtue, the quality and the idea of an acting and phenomenal consciousness before itself and the natural and cultural existential contexts.

Gnosiological measures clustered around this tridimensional existential equation and virtue that justifies the term god (or divine) are elucidated or obscured through religious usages.

Religion: a doctrinal system established, according to a conception of divinity and its relationship with what exists, and which motivates practices and activities so-called religious.

When understanding the “divine” concept, contradictions between what´s advised by the culture and tradition baggage, in relation to what feeling, reason and nature mean, discord and incredulity come to be induced, impoverishing human brightness, and encouraging an atheistic loss of interest.

From the ontogenesis´ point of view, the individual tends to believe in and confirm the religious values established on the predominating rites; being this the case, ideology tends to set up the virtue of the living being before itself and the world, developing conclusive actions and reactions from the existential standpoint, instigating destinies, cultural and social ordainments and subsequent issues. The lack of philosophical sharpness, the urban gregarious life, credulity and idleness favor the historic predominance of normative theological structures and cultural prescriptions.

Baptismal impressions: basic existential values and relating debates, doubts and expressions of faith, corresponding to understandings and practices as delimited in native religious doctrines.

In order to rightfully appreciate the concepts “divine” and “god”, it may require a careful revision and overcoming of the baptismal impressions. To examine and criticize the universal terms and concepts is an essential task to clarify narratives and discourses. 

Political theologies and baptismal identity

The formation and maintenance of the social classes, reserves of power and subjections, corresponding economic attributes, functions and positions, titles and labels, delimitations of legalities and illegalities, therapies, are processes which reflect the cultural ideology which is necessarily inscribed into mythical configurations and theological ordainments. To the majority, the fundamental virtue and value of the existing being corresponds to their baptismal identity.

Baptismal identity: it evokes an adhesion relationship before god´s worshipped and domineering concept in the native civilizing format.

Once the virtue, quality and idea of god has been structured, through as rites and established mythical narrative, in accordance with a mythical messiah, a prophet, a founder hero or a divinized emperor, the social unfolding takes place immediately after the psychophysical configurations and original and identifying perspectives from the historical and cultural standpoint. It is not necessary to be a historian to perceive and understand that the ‘idea of god’, the theologies (‘vertical’ or ‘horizontal’, radically transcendent or not), the early religious forms and appreciations, are subjacent to the geo-political processes.

On the western´s effective existential and historical circumstances, political structures resulting from the imperial and Roman archaic social framing are sustained and preserved, because the political ordainments depend on the original, ruling and fundamental virtue accredited or acknowledged: that is, the qualitative acting consciousness of itself as an existing being, in terms of virtue, quality and ideas, before itself and what is ‘another’, the city and the world. The western world and its old colonies continue to exist, according to the so called universal rites (katholikós), established and consolidated throughout the formation of the Roman Empire; being this the case, in these places, people continue to think and act within the ‘walls of the powerful Rome’, subject to the imperial church creed, where a powerful and concealed god is worshipped; a god who owns an incomprehensible will at the light of reason, represented by the chosen and favorite ones, and translators, imagined as super-natural creator of all things, aiming to save the decayed and sinful men. Only a religiosity and cult change would allow an evolutionary change from a civilizing point of view. The idea of god does not require being impervious and unreasonable at the light of natural reason, as made believed by those who take advantage of ignorance.

In the dominant social structures within the psycho-physical, historical and present boundaries of the imperial church, the typical, dominant religious forms are characterized as dualistic from the metaphysical standpoint, manifesting themselves as monotheistic, exclusivist, super-naturalistic, salvationist, elitist, catechist and messianic religious cults and expressivenesses.

Monotheism: one single god, a virtue which is not exclusive of the Roman and Moslem theology: ‘Akinato’, the pharaoh, worshipped Aton, the solar disc, as the unique god. In this Roman form of monotheism, “unique” evokes unity and exclusivity where one understands god as unique; exclusive because he does not belong to the kingdom of our material origins, to the sensorial linked things, including the sexual ones, and to the substantial matter, as we live and know them in the world we exist.

Supernaturalism: god is not understood as fully integrating the Cosmos made of matter-energy; He is imagined as transcendent, supernatural. What´s not the case in ‘Akinato´s Egyptian monotheism, other peoples and syncretic churches where god is understood as being the sun and, eventually, the stars´ supra-lunar world, immediately belonging to the natural sphere, which might be imagined deprived of ‘inferior or dense’ material substance, as we know in the world we exist and think.

Salvationism: it is claimed that our origin and destiny isn´t to continue transmuting consciousness and matter-energy in the extent of the Cosmos, as we can experience just by existing, but to re-ascend or return to an original super-naturalist plane to which one believes to belong to, though banished by a divine decision, according to mythical reports.

Elitism: the human being can´t, naturally, get to know his/her true origin and destiny, this news coming from a special revelation uttered to a celestial orb´s beloved representative, or an elected individual, who is considered a prophet founder of equally elitist cults and cultures, where representative authorities outstand, whose function is to spread the ethical, religious and political ordainments and prescriptions required to the beings´ reintegration or salvation.

Messianism: the living being´s presumed ignorance in relation to his/her spiritual situation demands a catechesis; the work requires a revelation, i.e., an immediate and reserved contact between the upper and the lower planes, demanding the coming of a happened or expected messiah.

During the development of the civilizing process, laicism, when it happens, reformulates important positioning from the immediate political power exercise standpoint, but does not necessarily reformulate the basic psycho-physical structuring, of the nations´ ‘baptismal identity’, the structuring social positioning being kept unchanged: This is so, because these founding social coordinates are established during the early education of the individuals´ conscious virtue, structuring the deepest existential quality before him/herself and what confront to the city and the world, in the deep awareness and idea or acknowledgement of who they are (who am I?). The answer remains unchanged for it transcends the power interchanges and depends on baptismal impressions and identities, on rites, religious cults and enduring deep affiliations, not originating from the constitutional pages.

Laicism: substitution of the sacerdotal classes for laics in the exercise of political power, without a radical reform of the ‘theo-political’ structures.

As the human being is a symbolic structure, a unitary aggregation of subjective (cogitans) and objective (extens) attributes, psycho-physical and metaphysical questionings, evoking ideas and values established on influencing religious consciousnesses, are inherent, characterize mankind and structures the societies in which we presently live, in every azimuth, thus, a laic social structure where atheism (a-theism) predominates isn´t free from theo-political foundations and framings – it is only possible to one profess himself an ‘a-theist’, when existing in a theist civilization,  negatively reacting to the general cognitive dispositions.

Atheism –  reactive positioning taking place in cultures structured on theo-political ordainments resulting from an irrational idea of god and baptismal identity;  On ‘a-theism’, one denies the existence of a supreme and supernatural divine being,  affirming the inconsistency of religious doctrines, which correspond to this ‘un-reasonable’ concept of god, and by extension, denying, in an incongruent way, the possibility and utility of a positive and sensible idea, regarding this metaphysical virtue of the consciousness, inducer of the ‘a-theist’ reaction itself.

Atheism, typically established as a political ordainment in the so-called ‘communist’ nations, is just like any other form of theism, an event with historical and teleological processes, where one tends to divinize the domineering structure or political party and their founders: historical heroes, established parties and political movements occupy the gods´, prophets´, kings´, and emperors´ deep cognitive or psychophysical spaces, without revoking the covetable hierarchic ordainments early rooted into theological  myths and elaborations – in any case, one continues neglecting Cosmos, Ethos, Logos e Mythos, dreamed of by the learned ones, leaving humanity in a situation below the universal philosophic harmony required to its full realization. Cognitive and conscientious dispositions can´t be enlarged just by negatively opposing to a political structuring: the evolution of the primary theo-political ordainments, the nations´ needful founders, takes place only at the light of a greater knowledge relating to the idea of god rooted into the conscience´s metaphysical disposition before what´s the other.

A reform of the laicism´s latent and enduring imperial structures (monotheism as presidentialism; exclusivism as sinecurism; supernaturalism as scientificism; salvationism as futurism; elitism as class stratification; catechism and messianism as partisanship and populism) would imply other psychic and “theo-political” dispositions,  as outlined in Ancient Ionia, in Socrates’ Athens, in places out of the range of Rome´s  jurisprudence, in ancient Europe and in other continents, in other scientific “non-Euclidian” approaches – The philosophical understanding and acknowledgement of this numinous relationship, whether in itself or in relation to what is another, allows the advent of other cults relating to more integrative psycho-physical textures, without drastic separation between what is considered belonging to the subject and to the object.

These structures are named ‘pantheist’, a concept that illustrates an understanding of god as an entirety, equally, the sum of all existing things and the integration of this entirety as Nature, in the broadest sense, revealing an order, a cosmic plot. The term equally makes explicit the deep conscious virtue of those who acknowledge themselves as pantheistic, the fundamental value which is admitted and recognized before itself is of oneness on the most integrative sense possible. One can come to know an unavoidable union between the body and the consciousness, the consciousness and the world, the feeling and the ideas: intuition is equally abstract and sensitive and there is no radical and substantial dichotomy between the various forms and manifestation of the state-of-being. What is ‘one’ in pantheism is the metaphysical perspective, which is monist. There are no two equally powerful and separate entities, or a ‘spiritual’ entity meant to reabsorb the ‘material’ entities or matter. A rigorous opposition game isn´t debated, on the systemic understanding of the term, there´s no dichotomy in the deep structure. This ‘all divine’ is real, formed of cognitive and extensive attributes, like a coin, a single event formed of a head and a tail. It deals with a phenomenon or radically symbolic structure: the signs, ideas and feelings which reveal and manifest themselves on the ‘object function’, configuring a unity.  In this unity, consciousness belongs to the world and the world belongs to consciousness: Consciousness is, by needfulness, the consciousness of something, and ‘something’ – in order to being – needs consciousness; everything exists in the intentionality of consciousness, this phenomenological relationship is absolute and essentially mysterious, divine.

The religious forms which are established around this perception of union and fusion of the individual with the entirety, reachable by the flight of intuition at the natural light of reason, include the harmonious operation and set of abstract and sensible intellects, and of the emotional center, characterize themselves as monistic from the metaphysical standpoint, expressing themselves as pantheistic, naturalistic, congruistic and splendorous, reasonable and qualified, philosophical and victorious religious cults and expressions.  A native and natural feeling of integration and adequacy, a profound meaning and an immediate sense of plenitude and union, of peace and serenity, permeate he/she who integrates such communities.

Pantheism: the sense of the divine integrates the entirety of the natural things, everything is a unique god, a virtue that does not exclude any cosmic expression, including the terrestrial world, planets, stars, all things that are known or unknown according to the pantheistic creed. In this case, ‘pan’ evokes a unity that – without separating anything from the substantial – includes: a single Cosmos where we exist and to which we belong, identified and rooted in the current and original transmuting processes.

Naturalism: is the unitary and phenomenal virtue that naturally associated with the term divine is understood as fully integrating the Cosmos made of continuously transmuting matter-energy, possibly without beginning nor end.

Splendorous congruence: our origin and destiny is to transmute endless consciousness and matter-energy in the extent of an unlimited Cosmos, experiencing existence in the plane of our origin and identity, place where we can acknowledge ourselves as equally endless and perennially integrated to the light of the vibrant natural intuition, most emphatically in moments of ecstasy which frequently and abundantly happen, even when admiring a lily or another flower on the roadside.

Reasonable and qualified: even when educated in an ungrateful culture, the human being can appreciate his/her destiny, his/her true nature and origin, in the brightness of the mornings, a consecration where the splendor of his/her own nativity is revealed, emanating from the cosmic force live freedom, legitimate bearer of the terrestrial nature and equally celestial grandeur and beauty, a realization where one configures him/herself as being a prophet who establishes his/her own cults, authorial participant of  his/her own vision, showing recorded in him/herself the essential ethical ordainments  and courses of those who belong to the Cosmos which is the divine´s body and mind,   the ancients´ Logos, associated with ‘ethos’, generator of myths which honor and are suitable to nature and to the state-of-being.

Philosophical and victorious due to structural needfulness: the reasonability and knowledge potentials which characterize the human nature, the awareness of being a transmuting process, equally and paradoxically ephemeral and immortal, demands from the learned individual the elaboration of doctrines and meanings which fortunately honor and mean the given-to-be, being these elaborations characterized as spiritual realizations par excellence – when being spiritual means to positively value the existential experience, in a way to being able to live full and gratifying lives in every moment.

We are, slowly, putting into effect a spiritual human state-of-being, appropriately saying, when the apogee shall be to create on earth a living where the acknowledged harmony visiting the forests and equally appreciating nature, may reign in the cities, where everyone will be respected and wisely baptized, recognized as the sun´s and earth´s sons/daughters, the Cosmos´ princes and princesses, worthy of being granted with the deepest respect as might happen with every animal and creature. A worthy place, where politics will be fully participative, education will be dialogic, the economy free, the currency real; a place where the pioneers, philosophers, providers, scientists, visionaries and artists, the happiest ones, will be respectfully heard and carefully taken into consideration whenever happening at every decision taking – a horizontal city, occupying the spaces, respecting the nature which is acknowledged as holy and sacred.

Divine as full integration to the entirety

When I say ‘namastê’, ‘I greet the divine on you’, I´m not affirming that: a) you are a god, or goddess, delineated in the shape appearing to us; b) nor that you are a manifestation, either symbolic or archetypical representation of a god or goddess: I am just acknowledging and affirming that you belong to the entirety, therefore, that you are divine because you fully integrate, in every sense, presently and immediately, the divine Nature.

In pantheism, to be ‘awake’, illustrious, enlightened is to know how to expand and irradiate the light of natural consciousness aiming to filling the Cosmos. The consciousness expansion movement, that at the beginning hardly differentiate the foot itself from a rattle hanging from the cradle, is progressive and continuous until, eventually, if not restrained and entangled in prohibitive concepts, it results in a mystical crowning moment where the state-of-being acknowledges itself as a universal and everlasting reality, without beginning nor end, a universal being, an eternal avatar, a holy trinity, Ehos, Logos and Mythos.

The psyche´s movement searching for this ‘knowing that one knows nothing’, for one acknowledges him/herself as absolute, without any reason of being or usefulness, gracious, is, equally abstract, aesthetic and affective: Abstraction reveals the geometry that connects the particular points, things, creatures and events to the entirety; aesthetics appreciates the unfolding of the relationships evidencing beauty and harmony; affection throbs in growing affectionate empathy. This psyche´s tripartite movement rejoices itself into a mystical ecstasy that ends up by fertilizing the intelligence, awaking the individual to his/her universality. Whether spontaneous or planned, the sacramental ways which operate leading to this lucidity vary, as a result of searches and experiences: a walk in the woods, a circumstance, a relationship, a rite, a deep place, all courses of life.

Any discussion about ‘polytheism’ and ‘monotheism’ of several ways, either symbolic or idealistic, realistic, etc., in a structured debate as: 1) ‘x’ and ‘y’ are real gods (realism); or 2) ‘x’ and ‘y’ are representations of gods – either linked to a ‘fundamental’ god or goddess, as happening in some mythologies, in turn integrated in a pantheon, governed by, or equally, representative of an ‘absolute and omnimodus divine’ of  archetypal nature (idealism) implies the validity – whether from a historical view point, a primitivism or a residual super-stratification of psychism – of a latent dissociation,  dichotomies evoked in the structure of the debates: Sectarian categories that do not exist, except as distortions resulting from baptismal impressions integrating the  civilizational morphology where the state-of-being meditates around or in the influence arc of a historically praised psychic gesture where a ‘spirit’ or a ‘consciousness’ inserted into a ‘body’ or ‘matter’ is imagined or configured.

Effectively, in the pantheistic conception of the world, everything is interrelated, the origin is the woof of the entirety where everything connects, interacting, being born, living and dying, transmuting in the actual time: present unity and diversity, forever existing – the pantheon is symbolic, an abstraction, equally imaginative and sensitive, aesthetically beautiful, psycho-physical.

The pantheistic might be considered an atheist, along with all the pagans who contend willing to affirm themselves as real or archetypical gods or goddesses, before the followers of this exclusivist monotheism, as described above. Certainly, many of those who assert and characterize themselves as atheists” in order to well keep away from  and distinguish themselves from the imperialistic monotheism, from colonial protestant dissidences and religious syncretism, not feeling themselves as accidental happenings in a senseless world, framed in state and laic structures, residues of ancient theo-political configurations, who, intrinsically could acknowledge themselves as pantheistic – being enough to appreciate the amazing and phenomenal essentiality of the state-of-being.

Two stars and two destinies – who are you?

Which is your deep consciousness virtue and psychical disposition? Which fundamental value do you consciously affirm and identify before yourself and to what´s another, in your relationship with culture, its religiosity forms and denials? The question is radical; it concerns to your relationship with yourself and with the entirety as existent existing: it reports to the culture where one is born and what he/she does with it; to nature as a state-of-being situated in the world and Cosmos. And, we ask: ‘Which is your deep conscious virtue, what value or consciousness do you cultivate before yourself and to what´s another?’  It´s the same as asking: “What´s your identity and origin?” There are only two effective answers, built upon ideas, feelings, aesthetic appreciations and abstraction forms, expressed in two metaphors with more ‘urbi’ or ‘orbi’ establishment.  The two forms can properly be labeled as monism or dualism from a metaphysical standpoint.

1. Dualistic metaphysical form: a) an archaic theological expression: I am a spirit-and-soul deported into matter to expiate my sins, banished from the divine sphere due to an original inadequacy, hoping to be saved and to enter into the real world which is not natural, but supernatural, according to the spiritual guides´ revelations; b) a post-modern theological elaboration: I am a citizen-of-the-state, deprived of intuition and will, alienated and subordinated to the party leaders, living on the boundaries of my duties, following the rules and opinions dictated by the chosen ones.

2. Monist metaphysical form:  a) a universal theological expression: I am a natural and essential state-of-being, granted with a body and a universal consciousness, integrated to the Cosmos, practicing the philosophers´ cardinal virtues, resigned and happy for I am an everlasting transmuting nature; b) a naturalistic elaboration: I am a citizen of the world, sharing a dialogic citizenship, living on the boundaries of the universal ethos which reveals itself at the light of natural reason.

The dualistic shape reflects a deep needfulness of autonomy, pointing to a disintegration with itself and with the entirety, an isolation; an existential depreciation and sorrow emphasizes what is disturbing, what´s ugly, what´s unworthy, what lets you down, defames and depreciates. The dualist theological perspective, divorced from natural harmony, enriches a normative and sectarian culture, deprived of intuition, established on impositions that dishonor and break the natural state-of-being into hypocritical urban settlements, encouraging an egoistic consciousness. In its classical theological form, the subject finds him/herself imprisoned in alienating configurations, imagining him/herself living just by accident, meddling in unworthy bodies, sources of sins. In these disaggregated broken circumstances, the exulting beautiful is often restricted to the so called classical or official arts, those exhibited in mausoleums, hanged in museums and Vaticans, referring to a reserved metrifications sublime, evoking separated and distant leaders and gods; A disharmony that shouts in contrasts that are expressed in the architecture of cities where urban islands cohabit with power and imposingness selected areas, is evidenced. Such a perspective indicates a separatist way of geometrizing shapes that delimit themselves, considering their frontiers, volumes, masses and gravitations. The feelings that predominate are those of under-worthiness and essential low self-esteem, mistrust, insecurity and conflicts; a repressed libido overflowing the limits of sexuality, tending to degenerate into productive sublimations, sadomasochism and pornography.

The monistic idea reflects an active and elevated mood, strong vitality and health, an enthusiastic self-esteem, pointing to an empathic integration, good-humored and kind with itself and the entirety; a way of geometrizing the shapes delimiting themselves equally taking into account its relationships with what aren´t; an aesthetic appreciation that stresses out the beautiful equally observed in the harmony of contrasts and semi-tones, a feeling of joyful well-being, open to a delightful inspiration, configuring a  libido which transcends the strict limits of sexuality to become enlarged and shine in every azimuth, fertilizing a culture revealing the entirety judiciousness, universalizing  consciousness, rooting and naturalizing ethics in an essential well-being, evoking  metaphors and mythical meanings which dignify the state-of-being beyond the  subjective configurations.

At last, who are you? Inevitable metaphysical questionings, deep existential appreciations, baptismal values and fundamental theologies determine the vocations, dedications and duties of the individuals, isolated or organized in churches, parties or sects, and consequently, the international movements and missions of these institutions, and perhaps of the nations when certain churches, parties or sects dominate and influence them. You are the bearer of knowledge either according to what you have been told, or according to what you yourself primarily think, denote, affirm in your feeling, aesthetic appreciations, abstractions and ideas – ‘es omnimodo’ (you are an ominimodus), you dispose and decide!

Translated by Stephen Cviic 

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