Mês: março 2013

Exercícios Panteístas – Pedagogia Dialética ~ Pantheist Exercises – Dialetic Pedagogy

Dialética-02

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

O contexto

Ocasionalmente, conhecedores da perspectiva metafísica panteística que advogo, amigos e conhecidos enviam alguns textos que aprecio de acordo com a minha disponibilidade. Na elaboração desses pareceres, notifico, com certa frequência, que esses diálogos explicitam conceitos e revelam circunstâncias dignas de serem conhecidas por mais pessoas além dos meus interlocutores imediatos.

Recebi três curtos conselhos de natureza espiritualista, emitidos por membros atuantes de uma denominada Organização Brahma Kumaris (OBK) presente em diversos países, inclusive no Brasil.

No portal internet da organização leia-se que:

“…no início, a Organização se chamava ‘Om Mandali’ e era composta por poucos homens, mulheres e crianças que viviam em Hyderabad – Sindh – Paquistão… Um ano depois do estabelecimento de ‘Om Mandali’, a Organização foi transferida de Hyderabad para Karachi. Por quatorze anos, até dois anos depois da separação entre a Índia e o Paquistão, o grupo fundador estava composto por cerca de 400 pessoas que viviam como uma comunidade autossuficiente e devotavam seu tempo para o estudo espiritual, meditação e autotransformação (…). Em 1950, essa comunidade mudou-se para Monte Abu (…) situado no alto das Montanhas do Aravali, no Rajastão… Após poucos anos utilizando um prédio alugado, a comunidade mudou-se para o local em que até hoje permanece como a Sede Mundial da Organização”.

“O fundador da organização se chamava-se Lekhraj Kripilani e nasceu num lar humilde, em 1876, filho de um professor primário do vilarejo onde vivia. Lekhraj foi educado de acordo com as disciplinas da tradição hindu. Não seguiu a carreira de seu pai, como professor; mas decidiu tornar-se um mercador de jóias (…). Mesmo sendo um homem de negócios e um homem de família, pai de cinco filhos, Dada Lekhraj sempre manteve uma posição muito respeitável junto à comunidade local e tornou-se conhecido por sua filantropia. Em 1936, aos 60 anos (…) Dada Lekhraj entrou na fase mais ativa e fascinante de sua vida, quando tornou-se conhecido como Brahma Baba (…). Brahma Baba faleceu em 1969, aos 93 anos de idade. A Torre da Paz, localizada no Campus de Madhuban, é um tributo ao espírito infalível desse ser humano extraordinário que atingiu a grandeza ao aceitar o desafio das verdades profundas da vida”.

Afirma-se que: “talvez poucas organizações tenham experimentado tamanha expansão nas décadas que a sucederam, como ocorreu com a Organização Brahma Kumaris…”.

“A OBK é uma organização não-governamental (ONG) com status consultivo geral junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e status consultivo junto ao UNICEF. Também está afiliada ao Departamento de Informação Pública da ONU. A Brahma Kumaris apóia as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU através de um amplo conjunto de programas que promovem a educação; igualdade de gênero e fortalecimento das mulheres; saúde mental, física, espiritual e bem-estar; e sustentabilidade ambiental. A competência especial na área de valores humanos e sociais permite-lhe trazer uma abordagem particularmente ética e espiritual a questões mundiais. Por essa capacidade, a BK trabalha regularmente com comitês de ONGs e assembléias, agências especializadas e missões governamentais; também participa ativamente através de declarações escritas ou faladas em conferências e reuniões da ONU. A BK empenha-se a promover a consciência e destacar as grandes aspirações do propósito e princípios da ONU. Através disso, a organização inicia projetos internacionais para prover às pessoas de todo o mundo uma oportunidade para participarem de atividades de interesses sociais e humanitários. Através de sua rede internacional de centros, a BK organiza atividades especiais, seminários, workshops, diálogos, conferências e exibições que proporcionam espaços para as pessoas expressarem suas opiniões sobre questões críticas que impactam suas vidas diárias e assegurar que suas mensagens sejam endereçadas à ONU”.

Dois conselhos dos adeptos e seguidores da organização 

Shiv Ratri – “Leveza vem quando você é flexível. Então procure se ajustar rapidamente e isso o ajudará a ficar leve. Apenas faça o que a situação pede e tenha um pouco de tolerância aqui e ali. Use todo o poder necessário para manter-se leve. Diga o mínimo e, ainda assim, diga tudo que precisa ser dito. Quando pensamos muito, perdemos clareza, perdemos energia e ficamos pesados. Pensamentos em excesso são uma carga. Aplique um ponto final no que aconteceu, siga em frente e não se deixe bloquear por nada.”

Mohini Panjabi – “A harmonia que podemos alcançar com nosso mundo exterior depende da harmonia interior, medida pelo estado de preenchimento, contentamento e união da mente, intelecto e memórias. A ausência de pensamentos inúteis indica integridade do eu, economia de energia e alinhamento da mente com a verdade. Da mesma forma, quanto mais conseguirmos combinar nossa mente com a dos outros – ver o ponto de vista deles, respeitar suas crenças e entender suas naturezas – mais harmonia estaremos semeando nas relações humanas. A harmonia exterior da vida espiritual é o espaço onde todos nós podemos existir com felicidade, sem queixas ou controle.”

Kiran Coyote – “A pessoa com maturidade terá a habilidade de conservar e não desperdiçar poder espiritual. Ela permanecerá introvertida, estocando energia. Maturidade traz a percepção de que, seja qual for a cena que esteja surgindo no drama da vida, ela é a correta para o seu crescimento e autorrealização. Maturidade traz completo desapego da atmosfera negativa, vibrações, palavras ou atividades dos outros. Uma alma madura se adaptará confortavelmente em todas as situações e em todos os relacionamentos. Maturidade é realeza e autodisciplina.”

Exame filosófico e panteístico desses três conselhos da OBK  

Da leveza Não consigo imaginar que pensar ‘muito’ ou ‘pouco’ faz de alguma forma imediata ‘perder’ ou ‘ganhar’ clareza: algumas vezes pensa-se muito sem se chegar a uma clareza, outras vezes pensa-se pouco sem chegar tampouco a coisa alguma. O ‘volume’ do pensamento dedicado a um assunto não me parece ter muito a ver com a ‘clareza’. O que pode ser considerado ‘muito’ e ‘pesado’ para uns, poderá ser pouco e leve para outros: músicos, pintores, outros artistas, treinam ou trabalham o dia todo, a vida inteira. Para os pensadores e filósofos pensar é leve, agradável e natural. O segundo ponto parece-me claro sem pensar muito: fazer o que a situação pede pode não ser bom nem desejável… Imagine um ditador pedindo para prender e eliminar indivíduos por serem desta ou daquela etnia, nacionalidade ou afiliação religiosa! Há inúmeros casos em que não se deve fazer o que a ‘situação’ pede, tampouco permanecer omisso, mesmo que isso possa não ser bom para a sua saúde ou sobrevida! “Ser leve e se manter leve”: em que sentido? Confortável? Livre? Para ser livre e leve, às  vezes, é necessário ‘carregar cruzes’ como dizem certos espiritualistas, possivelmente fundamentados em outros embasamentos ou tradições.

Da harmonia – Não vejo uma relação clara entre ‘ausência de pensamentos inúteis’ e ‘a integridade do eu’ com essa necessidade de ‘combinar a nossa mente com a dos outros’. Respeitar as crenças, entender os pontos de vista dos outros e suas naturezas pode obrigar a confrontar um monte de pensamentos inúteis! Por outro lado, como filósofos e panteístas, somos parte desses outros que, possivelmente, ‘pensam muito’: entender esses pensadores não demandaria pensar um pouco mais? Ou, talvez, os que ‘pensam muito’ não necessitam ser entendidos? Só haveria garantia de bem ‘combinar a nossa mente com a dos outros sem introjetar pensamentos inúteis’ se todos fossem desprovidos de pensamentos inúteis e alinhados com a verdade, o que não parece ser o caso. Penso, sem ter que cogitar muito e em acordo com os princípios fundamentais da cibernética, que há sempre algum ‘controle’, que, nas coisas humanas, é a ordem do pensamento que predomina, essa ordem midiatizada, predominante, necessária, controla o processo quando a busca da harmonia pede para não pensar muito e combinar as nossas mentes com a dos outros. Vivemos uma mundo feliz e espiritualizado então? O status quo representa o ideal em termos de espiritualidade?

Da maturidade – Não creio ser o poder espiritual, algo como um objeto que pode ser conservado, não desperdiçado, estocado. Permanecer introvertido não é bom; tampouco extrovertido: acontece um fluxo, uma troca ponderada. Não penso que quaisquer cena que surja no drama da vida seja correta e útil para o crescimento e autorrealização dos indivíduos, em si, e por si: às vezes, esses dramas são úteis apenas quando rejeitados e condenados com veemência! Não penso, em hipótese alguma, que  ‘uma alma madura se adaptará, confortavelmente, em todas as situações e em todos os relacionamentos’: uma alma ‘madura’ poderá não se adaptar ao sistema dos talibãs, dos comunistas de Stalin, da china, outras ditaturas militares. Uma pergunta: os sócrates, sênecas, hipatias e milhares de outros da mesma força e grandeza eram ‘almas maduras’ ou não?

Cogitando um pouco mais

Será que, para esses adeptos, importar-se com o que acontece no mundo não vale a pena porque tudo não passa de ilusões frentes às quais não se deve reagir, apenas focar a mente na serenidade do ‘nirvana’? Talvez, os partidários dessa espiritualidade imaginam que dialogar, discordar, criticar, emitir pareceres opostos, adentrar processos dialéticos, sejam procedimentos agressivos e pecaminosos, empecilhos à vida espiritual? Será a satisfeita e confortável serenidade dos que se adaptam sem se envolver em debates, acompanhando sempre a situação, pregando caridades e advogando ‘merecimentos’, um preambulo necessário da ‘salvação’? É evidente que conselhos de adeptos, mesmo se dirigentes, podem não representar, exatamente, a visão filosófica de uma instituição, mas, misturar coisas sensatas como ‘realeza é autodisciplina’ com opiniões equívocas como ‘uma alma madura se adaptará em todas as situações e em todos os relacionamentos’ não é suficiente para fazer um grande sentido. O que poderá, talvez, ser denotado pensando-se muito ou pouco – de acordo com os pensadores.

Pantheist Exercises –  Dialetic Pedagogy

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

The context

Occasionally, those who are knowledgeable of the pantheist metaphysical perspective, that I advocate, friends and acquainted send their texts which I appreciate according to my availability. When emitting these opinions, I frequently notify, that these dialogs explicit concepts and reveal circumstances worth of being known by many more people over and above those immediate interlocutors of mine.

I have received three short spiritualist advices, uttered by active members of a so called Brahma Kumaris Organization (BKO) present in several countries, including Brazil.

In the organization´s internet site, one can read:

“…in the beginning, the Organization was called “Om Mandali” and consisted of few men, women and children living in Hyderabad – Sindh – Pakistan…One year after the ‘Om Mandali’ was established, the organization was transferred from Hyderabad to Karachi. During fourteen years, until two years after its moving from India to Pakistan, the founding group consisted of about 400 people who used to live as a self sufficient community devoting their time to the spiritual study, meditation and auto-transformation (…). In 1950, this community moved to Abu Mountain (…) located at the top of the Aravali´s Mountains, in Rajahstan… After few years installed in a rented building, the community moved to the place it is located till today as the Organization´s World Seat”.

“The founder of the organization was called Lekhraj Kripilani; born in a humble home in 1876, he was the son of an elementary school teacher from the village where he lived. Lekhraj was educated according to the Hindu´s tradition disciplines. He did not follow his father´s career, as a teacher; but decided to become a jewels merchant (…). Even being a business man and a family man, father of five children, Dada Lekhraj always maintained himself in a respectful position before the local community and became known for his philanthropy. In 1936, the 60 year old (…) Dada Lekhraj entered into the most active and fascinating phase of his life, when became known as Brahma Baba (…). Brahma Baba died in 1969, at the age of 93. The Peace Tower, located at the Madhuban Campus, is a tribute to the unfailing spirit of this extraordinary human being, who reached grandeur when accepted the challenges of life´s deep truthfulnesses”.        

One can assert that: “maybe few organizations have experienced such expansion during the decades succeeding it, as occurred with the Brahma Kumaris Organization …”.

“BKO is a Non-Governmental Organization (NGO) with a general consulting status at the United Nations Economical and Social Counsel and consulting status at UNICEF. It is also affiliated to the United Nations´ Public Information Department. Brahma Kumaris supports the United Nations Millennium´s Development Goals through a broad set of education; gender equality and the women´s strengthening; mental, physical, spiritual health and well-being; and environmental sustainability promoting programs. The special competence at the human and social values area allow it to bring a particularly ethic and spiritual approach to the world´s issues. Because of this capability, BK regularly works with NGO´s and assemblies´ committees, special agencies and governmental missions; it also actively participates through written and oral statements on the United Nations´ conferences and meetings. BK strives to promote conscience and distinguish the great yearnings of the United Nations´ purpose and principles. Through this, the organization starts a number of international projects to provide the world´s human beings with an opportunity to participate of social and humanitarian interest activities. Through its international centers network, BK organizes special activities, seminars, workshops, dialogs, conferences and exhibitions which promote spaces to the people express their opinions on critical issues impacting their daily lives and assure that their messages be addressed to the Unites Nations”.

Three advices from the organization´s adepts and followers  

Shiv Ratri – “Lightness comes when you are flexible. Then try to quickly adjust yourself and this will help you to be light.  Only do exactly what the situation requires and have a little bit of tolerance here and there. Use all power necessary to keep you light. Say the minimum and, even though, say everything that needs to be said. When we think too much, we lose clearness, lose energy and remain heavy. Excessive thoughts become a burden. Just put a full stop on what has happened, go straight ahead and don´t become blocked by anything”.

Mohini Panjabi – “The harmony we can reach with our outer world depends on the inner harmony, measured by the state of accomplishment, satisfaction and union of mind, understanding and memories. The absence of useless thoughts indicates integrity of the I, energy economy and alignment of the mind with truth. Similarly, the more we succeed in combining our mind with that of the others – seeing their points of view, respecting their beliefs and understanding their natures – the more harmony will be sowed on the human relationships. Spiritual life outer harmony is the space where every one of us can exist full of happiness, free of complaints or controls.”

Kiran Coyote – “The mature person will have the ability of preserving and not wasting spiritual power. He/she will remain introverted, saving energy. Maturity brings the perception that, it is correct to your growing and self-realization process. Maturity brings complete disaffection with the others´ negative atmosphere, vibrations, words or activities. A mature soul shall comfortably adapt itself to every situation and to every relationship. Maturity is royalty and self-discipline.”

Philosophycal and Pantheist examination of these three BKO advices.   

The clearness – I can´t imagine that thinking ‘too much’ or ‘too little’ causes in an immediate way to ‘lose’ or to ‘gain’ clearness: sometimes one thinks too much without reaching clearness, other times one thinks little without neither reaching anything. The ‘volume’ of thinking devoted to a subject does not appear to me to have much to do with ‘clearness’. What can be considered ‘too much’ and ‘heavy’ to some ones, might be little and light to others. Musicians, painters, other artists work for the whole day, the entire life. To the thinkers and philosophers to think is light, pleasant and natural. The second point seems clear to me without thinking too much: to do what the situation requires might not be good nor desirable…Imagine a dictator ordering to seize and eliminate individuals belonging to this or that ethnic group, nationality or religious affiliation! There are innumerous cases when one should not do what the ‘situation’ asks, neither remain negligent, even if this is not good for his health or outliving! “To be light and keep yourself light”: On what sense? Comfortably? Free? To be free and light, is sometimes necessary ‘to bear afflictions’ as some spiritualists use to say, possibly based upon other rationales or traditions.

The harmony – I do not see a clear relationship between ‘absence of useless thoughts’ and ‘the integrity of the I’ with this need of ‘combining our mind with that of the others’. Respecting the beliefs, understanding the others´ view points and their natures may force confronting a bunch of useless thoughts! On the other hand, as philosophers and pantheists, we are part of these others who, possibly, ‘think too much’: to understand these thinkers wouldn´t be required thinking a bit more? Or, maybe, those who ‘think too much’ do not need to be understood? There would only be a guarantee of well ‘combining our mind with that of the others without incorporating useless thoughts’ if everyone were deprived of useless thoughts and aligned with truth, what does not seem to be the case. I think, without having to think over too much and in accordance with the cybernetics´ basic principles, that there´s always some ‘control’, that, on the human things, it is the thinking order that predominates, this media controlled, predominant, necessary order, controlling the process when the harmony search asks not to think too much and combine our mind with that of the others. We live in a happy and spiritualized world, then? Does the status quo represent the ideal in terms of spirituality?

 The maturity – I do not believe the spiritual power being something like an object which can be preserved, wasted, stocked. Remaining introverted isn´t good; nor extrovert: a flow takes place, a weighted exchange. I do not think that any scene appearing in life´s drama is correct and useful to the individuals´ growth and self-realization, in itself, and by itself: some times, these dramas are useful only when vehemently rejected and condemned! I don´t think, on no account, that ‘a mature soul will, comfortably, adapt itself, in every situation and in every relationship’: a ‘mature’ soul might not adapt itself to the Talibans´, to the Stalin´s communists, to the China´s, and to other military dictatorships´ systems. One question: were the Socrates, Senecas, Hipatias and thousand others of the same strength and grandeur ‘mature souls’ or not?

Thinking over a little bit more  

Will it be possible that, for these adepts, to care about what happens in the world isn´t worthwhile because all is nothing but illusions before which one should not react, only focusing the mind on ‘nirvana´s’ serenity? Maybe, those who adhere to this spirituality imagine that dialoguing, disagreeing, criticizing, uttering opposite opinions, entering into dialectic processes, are aggressive and sinful procedures, hindrances to the spiritual life? Will the satisfied and comfortable serenity of those who adapt themselves without getting involved in debates, always following the situation, proclaiming charities and advocating ‘merits’, a ‘salvation´s’ necessary preamble? It is evident that advices from adepts, even if directors, may not exactly represent an institution´s philosophical view, but, mix judicious things as ‘royalty is self-discipline’ with doubtful opinions such as ‘a mature soul shall adapt itself to every situation and to every relationship’ isn´t enough  to make a great sense. What might, maybe, be pointed out thinking too much or too little – according to the philosophers.    

A Doutrina Panteísta ~ Pantheist Doctrine

Flor_de_Cerejeira

With english translation below the text in Portuguese

Ser panteísta é ser vanguardista do estado-de-ser, construtor das suas configurações culturais, venerar com consciência a sua universalidade, experimentar a vida considerando a sua intuição, sentir-se responsável pelas suas escolhas, atos e consequências.

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Espiritualidade como dignificação do estado-de-ser natural

O panteísta reconhece a existência como uma grande experiência mística e científica, fonte imediata de saber assentada num fenômeno inelutável em que a consciência é do mundo e o mundo é da consciência num enlace mítico e pedagógico que proporciona a oportunidade do autoconhecimento. Percebendo-se como artista ou artesão existencial e experimentando a vida contando com os seus próprios sonhos e intuição para se orientar com as respostas que surgem do seu interior, o panteísta se sente responsável pelos seus atos e consequências, partilhante do processo vital, construtor das suas configurações culturais.

Facilitada por uma cultura inteligente e de qualidade, a experiência existencial, agregação criativa e essencial de configurações cósmicas, tende a acontecer positiva e satisfatoriamente, quiçá, ocasionalmente, extasiante. A Natureza (o deus dos panteístas), fonte da vida e espaço legítimo de todas as criaturas é, por default, próspera e abundante – em condições naturais e culturais dignas e sapientes, o qualificador padrão da experiência existencial impele a exclamar: ‘providencial!’. Para um indivíduo vivendo num âmbito cultural propício e ameno, numa sociedade aberta e criativa, adequadamente orientado e com saúde suficiente, trilhando cursos edificantes e instituídos nos insights dos filósofos: o que acontece tende a ser reconhecido como oportuno.

Afirmando as antigas virtudes cardeais, proativo, procurando seguir os caminhos da coragem, prudência, temperança e justiça, o panteísta tende a não se queixar, mas a agradecer a oportunidade de experienciar um pouco das infindas configurações da matéria-energia nas coincidências do dia-a-dia, nas situações que se presenteiam e encaixam na efemeridade em que se manifesta os potenciais fundamentais da cosmo-existência num processo surpreendente.

Neste contexto, espiritual, é ser capaz de gerar significados que dignificam e honram esse processo vital em busca de autonomia e expressividades criativas, ensejando fazer da vida que se tem uma experiência plena, contribuindo para a criação de uma sociedade inteligente e virtuosa, sem se conformar com a mediocridade e passividade dos que não se reconhecem como criadores dos seus destinos.

Enquanto a vasta maioria, seguindo receitas e pautas cognitivas reduzidas, ainda carece de autonomia para relativizar postulados e dogmas cujos significados não se enquadram na experiência própria, o panteísta se reconhece líder das suas experiências cujos enraizamentos prolongam em processos que não se delimitam, em que a morte é um processo de transformação que consagra a vida: a saudade e admiração dos amigos auxiliam a disseminações das virtudes antes expressas e compartilhadas.

Dos significados profundos

Mas a manifestação existencial, cujas intensidades encantam, passa célere: para cada vivente, a experiência de tempo se avoluma e se expande continuadamente, diminuindo o tamanho relativo de cada um dos dias no somatório dos anos e décadas; as horas e os dias pesam cada vez menos frente à totalidade da experiência, como areia que se ajunta e em que cada pá é fração cada vez menor frente à totalidade do montículo. O horizonte do tempo, que se expendia da atualidade em direção aos projetos, passa a se ampliar em outra dimensão. Não me refiro às memorias antigas que animam aqueles cuja vitalidade para imaginar o futuro feneceu: trata-se da abertura de uma dimensão acontecendo na fresta do presente e até então reservada aos momentos mais intensos, quando o sentido exultava ao encontro das correspondências entre as intenções mais recônditas e significativas e as circunstâncias manifestas para se ver e tocar, conjugando os mistérios existenciais como abraços celebrando uma forte amizade. Nessas transformações e amadurecimentos, os eventos de maior sentido, antes grandes viagens, realizações e aventuras, passam a se revelar como expressões de reconhecimento e admiração aos olhos dos que vivem próximos, agregando ao que não se alcança mais na extensão das dimensões físicas os aportes mais fundamentais da amizade e da sabedoria – e tudo continua irradiando significados ainda mais intensos, porque o sentido passa a ser a sua própria essência.

As dimensões vitais se introvertem e deslizam num campo ordenado de substancialidades profundas. A imaginação se transforma e se apodera da totalidade do vivido fazendo da soma das experiências e dos sentimentos uma nova ordem, mais abrangente, onde se revelam valores intensos e alargados em horizontes esféricos – o tecido de uma realidade mais universal se revela, alvorecendo lentamente. Nesses mistérios, a vida como um todo, a existência e a presença vicejantes ao longo de décadas, demonstra uma realidade pungente e extensa, uma esfera infinita que colapsa todos os tempos e situações num momento amplo e radiante, num único cenário e sentido. Nessa nova visão radiante e esférica, revela-se uma obra sem retoque, ou um desleixo lastimável, na dependência do exercício da sua criatividade e liderança. Tendo sido a sua vida bem pensada, em profundidade, examinada e vivida com responsabilidade e proveito verdadeiro, o cenário será grandioso, justo e perfeito, lugar onde o estado-de-ser se transvasará nas coisas fundamentais, no essencial feito das abstrações e esteticidades que se vivificam na reabsorção existencial das realidades provisórias no núcleo da criatividade sem fim, igualmente transcendente e transcendental, sem dicotomias ou separações, pleno como os dois lados do mesmo fenômeno, as duas faces da mesma membrana, agregação da existência ao cosmos infinito.

Das causas e razões fundamentais

O que faz a qualidade da vivência florir sublime e bela, autoral? Reconheço duas causas e razões fundamentais que se denotam meditando: o corpo humano é tecido universal; a consciência é cósmica, criativa.

Ao nascer brotamos de um tronco imortal, do corpo universal. Os átomos primordiais compondo as nossas células foram fundidos no começo de tudo, enraízam no sem fim, lugar que a ciência objetiva jamais alcançará: presente, a matéria-energia, desde o começo, estrutura os nossos corpos. Trazemos em nós a força da ancestralidade, o selo da legitimidade cósmica, do nosso juízo íntimo jorra um conhecimento próprio e apreciável, na taça do coração, como um vinho bem provado, cujo perfume e sabor é o ‘bouquet’ de si que realiza no silêncio, ao fechar os olhos, exalando vindo dessa totalidade que em nós se manifesta. A legitimidade do estado sempre atual de ser se constitui numa duração em que se harmoniza o sucedimento contínuo das interações universais, das mais primordiais às mais atuais e complexas: um todo variegado resultante da dinâmica da matéria-energia, irradiando uma sempiterna unicidade cuja realidade e presença marcam o intelecto aguçado e o coração intuitivo em atividade e inteligência sincrônicas: é a razão qualificada dos filósofos, o estado-de-ser como verdade atuante e imediata, naturalmente efetiva. Somos a expressão infinita do momento, estado-de-ser e centro concentrado de totalidade: importante é compreender que nosso corpo enraíza nas dimensões cósmicas, possivelmente sem começo e sem fim.

A consciência que carregamos como dimensão totalizadora de saber é, igualmente, resultante de somatórios infinitos – as forças físicas que dinamizam as coisas mais simples e atômicas se prolongam nos movimentos dos unicelulares até as expressões mais complexas que exigem ordenamentos sistêmicos, evoluindo num processo continuado, até a aquisição de uma atuação mais voluntária e consciente que permita acompanhar e comandar os gestos, refletir as implicações e resultados das ações. Unidos, a lucidez, os sentimentos e pensamentos, a complexidade do corpo, sistema nervoso e massa muscular, permitem nos orientar nas diversas posturas e direções, atuar de imediato, participar do fluxo e da ordem universal. Não se discriminam ou delimitam as conexões entre essa vontade que comanda ‘levanta’ e os músculos que se contraem e obedecem, tampouco se revelam os links e conexões entre as ideias e comandos ordenando ‘andar’ e as sensações de peso, leveza ou equilíbrio do corpo. As ideias, os gestos somados às sensações correspondentes, são fenômenos ideomotores ou psicofísicos que não se esquadrinham em apreciações lógicas, reunidos numa integração e totalidade funcional que não se pode romper ou fracionar.

Das nebulosas originais evocadas nas cogitações científicas mais extremas até as projeções futuristas, a agregação inelutável da matéria e energia, do sentimento e da consciência, conjugam essa unidade funcional, apontando a plena integração universal, sem descontinuidade alguma: o momento real é o grande vetor onde tudo o que existe parece transmutar desde sempre, sem que se saiba o porquê, gratuitamente: o momento em que vivemos, o agora, é o lugar efetivo e original onde se comprova que a consciência é a consciência do mundo e o mundo é o mundo da consciência.

Da intelligentsia panteísta

Como separar e dicotomizar esses eventos e fenômenos? Por que enredar possíveis desconfortos relativos a circunstâncias ingratas, muitas vezes agenciadas por falta de exame filosófico e qualidades culturais, frente à harmonia providente que a vida exige para acontecer e se sustentar, em narrativas que idealizam a consciência como um espírito volitando separado, fora da natureza, metido por acidente nas coisas da matéria-energia, como um castigo, purgando penas? Como romper em categorias separadas – ‘espírito’, ‘alma’ e ‘matéria’ – as  ideias, sensações e os corpos fundidos na atuações de ordenamentos intransitivos: nascer, viver, sentar, levantar, atuar e falar? Qual é a motivação que faz imaginar uma ruptura na totalidade unitária que incandesce na inteligência e perlocuta na espessura do mundo e momento onde acontecemos? Qual a intenção que estimula a evocação de orbes divergentes e a idealização de ‘astrais’ radicalmente separados, antitéticos?

  • Certamente, sofrimentos importantes, cuja intensidade cresce ainda mais quando acontecem antes da formação e amadurecimento filosófico do estado-de-ser, explicam e justificam as esperanças que intencionam dissociar a consciência do mundo que se experiencia em busca de outras comunhões: inclusive, é o que se realiza, de alguma forma, na alteração dos estados de consciência e níveis de vigília gerenciados nos fluxos hormonais que acontecem entre o hipotálamo e a neuroipófise.
  • Certamente, a vastidão do evento existencial permite tecer inúmeras hipóteses relativas aos porquês dos começos, teleologias e imaginações que jamais se alcançam;
  • Mas acreditar narrativas e opiniões que evocam divisões radicais – que não se reconhecem a não ser em alguns estados de consciência alterados e induzidos por circunstâncias extremas e embasamentos metafísicos dualistas – como destinos teleológicos necessários e categóricos, ordenados a priori, é querer confundir situações excepcionais como testemunhas e índices definitórios e seguros de elaborações doutrinárias e dogmáticas!
  • Momentos difíceis, isoladamente, não expressam as correspondências frutíferas e o contexto existencial de prosperidade necessário ao acontecimento e vigência da vida,
  • Momentos difíceis não justificam eclipsar a glória de viver em suposições e teleologias depressivas que impregnam a totalidade da existência soberana e suas vias de transformações em mitificações degradantes que influem negativamente denegrindo a totalidade dos atos e dos sentidos.
  • Reconhecendo a ordem fundamental que condiz com as intuições da inteligência serena é que se pode ampliar a congruência e integridade, confirmar a legitimidade, esteticidade e historicidade do estado-de-ser alumiando uma lucidez e virtude nativa onde se evidencia que os elementos contrastantes são intrínsecos à vida em si, essenciais como as batidas do coração!

As veracidades do belo, do bom e do bem são reais e fundamentais, evidentes e palpáveis, na proporção do vigor e da saúde física e moral do estado-de-ser, não necessitam serem deportados e imaginados como essências de alguma forma exógenas, vindas de um além hipotético, idealizando desvalorizações embasadas em circunstâncias naturais ultimamente excepcionais e enquadramentos culturais muitas vezes relapsos, pouco examinados, acontecendo na vigência do desrespeito às regras da higiene, dietética e bons preceitos médicos e filosóficos.

A veracidade da boa virtude unitária embasa patenteada na existência fundamental dos processos vitais testemunhados à luz da razão que apreende a dinâmica universal, descrita, ou simbolizada como um impulso expressando um processo termodinâmico recorrente, evolutivo nas nossas dimensões, envolvendo destruição e formação, operando em todos os níveis delimitáveis da criação, compassando a existencialidade e organizando a estrutura onde se edificam os sentimentos e valores, regem as conscientizações. Um originário comum sela a união comunitária do estado-de-ser, reunindo, observadores e observados, sujeitos e objetos, num emparelhamento fundamental patenteando reconhecimento, empatia, sintonia e identidade. Essas três conjugações, esteticidade, legitimidade e historicidade, devidamente reconhecidas e locadas, imprimem uma perspectiva filosófica sábia e imanente, fonte inspiradora da harmonia e identidade, consagrando o alcance cognitivo do indivíduo capaz de intuição e sutileza de sentimentos: trata-se da razão profunda, espontânea, revestida de bom senso: a luz da razão natural.

Para bem constituir e se afirmar uma vida sensata não se deve desnaturar a si mesmo, acreditando em narrativas que demandam descartar as evidências da inteligência, os potenciais do exame filosófico profundo em favor da ignorância, passividade e conformação, como acontece nos decursos redutores dos racionalismos dogmáticos e sectários – ilusões recuperáveis através da educação socrática, maiêutica, freiriana, aguçada pela meditação e contemplação.

Evidencia-se que:

  • A filosofia panteísta, essencialmente libertária, não critica os que escolhem e necessitam idealizar circunstâncias existenciais que transcendem as expressividades atuais ou reais em elaborações mais felizes apenas imagináveis em outras dimensões ou paraísos sobrenaturais;
  • A filosofia panteísta, essencialmente tolerante, não critica os que desafiam o bom senso e a razão própria, racionalizando seus anseios construindo narrativas exorbitantes e retóricas falaciosas de autoconvencimento;
  • Contudo: a filosofia panteísta reage fortemente aos que querem justificar os seus anseios sobrenaturalistas divulgando e pregando narrativas imprudentes que desqualificam e denigrem a experiência existencial declarado o estado-de-ser natural, real e atual, como uma expressão ínfera decorrente a posteriori de uma alegada inadequação essencial resultante de um suposto pecado original ou desobediência fundamental.
  • A filosofia panteísta reage aos que querem fortalecer seus anseios exorbitantes e desnaturados de transcendência, crenças denegridoras e sobrenaturalistas, institucionalizando procedimentos de convencimentos usando canais de comunicação pública ou conjunturas de escolarização autoritárias, carentes de debates dialógicos, na intenção de converter os que naturalmente não reconhecem as mesmas perspectivas metafísicas nem compartilham o mesmo imaginário.
  • A filosofia panteísta advoga a necessidade pedagógica, imperativa e vital, de apresentar ao educando, em medidas e patamares igualitários e debates dialógicos e esclarecidos,  as diversas configurações religiosas e sistemas de crenças, explicitando as perspectivas metafísicas subjacentes, e, como default categórico, estimulando um profundo respeito a um tríptico natural: 1) à natureza em geral; 2) à natureza humana especificamente; 3) ao bom-senso que é a luz natural da razão – virtude sui generis da natureza humana.

Pantheist Doctrine

 To be a pantheist is to be a pioneer of the state-of-being, to create one’s own cultural settings, to consciously venerate one’s universality, to experience life taking one’s intuition into account, to feel responsible for one’s choices, acts and their consequences.

Spirituality as a dignification of the natural state-of-being

The pantheist recognizes existence as a great mystical and scientific experience, an immediate source of knowledge based on an ineluctable phenomenon in which consciousness is of the world, and the world is of consciousness, a mythical and instructive union which brings the opportunity for self-knowledge. The pantheist sees himself as an existential artist or craftsman, and experiences life by relying on his own dreams and intuition as guides, with the answers that arise from his innermost being. He feels responsible for his actions and their consequences, sharing in the vital process, and creating his own cultural settings.

Facilitated by intelligent and high-quality culture, existential experience – an essential and creative union of cosmic compounds – tends to happen positively and satisfactorily, and perhaps occasionally in an ecstatic way. Nature (the god of the pantheists), source of life and legitimate space for all creatures, is by its very nature flourishing and abundant. In worthy and wise natural and cultural conditions, existential experience impels one to exclaim: “Providential!” For an individual living in a propitious and congenial cultural environment and with sufficient health, following paths that are edifying and imbued with the insights of the philosophers, what happens tends to be recognized as positive.

The pantheist affirms the ancient cardinal virtues, is pro-active, and tries to follow the paths of courage, prudence, temperance and justice. He or she tends not to complain, but to give thanks for the opportunity to experience a small number of the infinite configurations of matter-energy in the coincidences of daily life, in situations which present themselves and fit into the transitory flow where the fundamental potentials of cosmos-existence manifest themselves in a surprising process.

In this context, to be spiritual is to be capable of generating meanings that dignify and honor this vital process in search of autonomy and creative expressions, leading one to make a full experience of life, and contributing to the creation of an intelligent and virtuous society, without settling for the mediocrity and passivity of those who do not recognize themselves as creators of their own destinies.

While the vast majority, following inferior precepts and cognitive patterns, still lack the autonomy to relativize premises and dogmas whose meanings do not fit with personal experience, the pantheist acknowledges himself as a leader of his own experiences, whose rootedness is extended in processes that have no limit, and in which death is a process of transformation which sanctifies life; the longing and admiration of one’s friends helps to disseminate the virtues which have previously been expressed and shared.

Of deep meanings

But the existential manifestation, with its enchanting intensity, passes quickly: for every living being, the experience of time mounts up and continuously expands, reducing the relative size of each of the days in the total sum of the years and the decades; the hours and the days weigh less and less in the face of the totality of experience, like a mounting pile of sand in which each shovel-full is a smaller and smaller fraction of the whole pile. The time horizon, which used to expand from the present moment towards our projects, begins to extend in another dimension. I’m not talking about old memories that stimulate people whose ability to imagine the future has vanished; we are talking about the opening of a dimension which is happening in the window of the present and has until now been reserved for the most intense moments, when the senses exulted at the correspondences between our most hidden and significant intentions, and the circumstances which presented themselves to be seen and touched, joining up the existential mysteries like embraces celebrating a strong friendship. In these transformations and maturings, the events of greatest significance, which were before great voyages, achievements and adventures, come to be simply expressions of recognition and admiration in the eyes of those who are closest to us, adding to what one can no longer achieve in the physical realm the most fundamental gifts of friendship and wisdom. And everything radiates meanings that are more and more intense, because wisdom, the most essential gift, shines out of friendly hearts.

The liveliest dimensions of ourselves turn inwards and slip into an ordered field of deep substance. The imagination is transformed and takes hold of everything that has been lived, making out of the sum of experiences and feelings a new, more all-encompassing order, where intense and extended values reveal themselves on spherical horizons; the tissue of a more universal reality is revealed, slowly dawning. In these mysteries, life as a whole, a flourishing life and presence through the decades, shows itself to be a poignant and extensive reality, an infinite sphere which collapses all times and situations into a wide and radiant moment, a unique scene and sense. In this new radiant and spherical vision, there is revealed either a work of art that needs no finishing touches, or a regrettable case of neglect, depending on the exercise of your creativity and leadership. If your life has been well thought-out, deep, examined and lived with responsibility and if you have truly made the most of things, the scene will be grand, just and perfect, a place where the state-of-being will overflow into the fundamental things, sublimating into one essence the abstractions and aesthetics which come to life in the existential reabsorption of provisional realities in the nucleus of endless creativity, equally transcending and transcendent, without dichotomies and separations, full like two sides of the same phenomenon, two faces of the same membrane, an aggregation of existence with the infinite cosmos.

Of causes and fundamental reasons

What makes the quality of experience flower sublime, beautiful and authorial? I acknowledge two basic causes and reasons which manifest themselves through meditation: the human body is a universal tissue; consciousness is cosmic, creative.

When we are born, we emerge from an immortal trunk, with a universal body. The primordial atoms composing our cells were cast into the beginning of everything; they take root in that which has no end, a place which objective science will never reach – present from the beginning, matter-energy structures our bodies. We carry within us the force of our ancestry, the stamp of cosmic legitimacy; from our inner consciousness gushes out a noticeable and special kind of knowledge, in the cup of our heart, like a well-tasted wine whose smell and taste is the “bouquet” of oneself that one absorbs in silence, when one closes one’s eyes, exhaling a substance that comes from that totality that manifests itself in us. The legitimacy of the always current state of being takes place in a moment in which the continual happening of universal interactions harmonize with each other, from the most primordial ones to the most current and complex ones: a variegated whole which results from the dynamic of matter-energy, radiating out an eternal unicity whose reality and presence are a characteristic of the sharpened intellect and heart intuitive in synchronized activity and intelligence. This is the qualified reason of the philosophers, the state-of-being as an active and immediate truth, naturally effective. We are the infinite expression of the moment, state-of-being and concentrated center of the whole; it’s important to understand that our body takes root in the cosmic dimensions, possibly without beginning and without end.

The consciousness that we carry as a totalizing dimension of knowledge is, equally, the result of infinite summations – from the physical forces that propel the simplest and most minute things that are extended in the movements of single-celled creatures, to the acquisition of more voluntary and conscious action which allows us to follow and take control of our gestures, and to reflect on the implications and results of our actions. Together, our lucidity, our feelings, the complexity of our bodies, our nervous system and our muscular mass, allow us to take part in the universal flow and order. One cannot discriminate or delimit the connections between the will that says “rise”, and the muscles that contract and obey, nor does one perceive the links and connections between the ideas and commands that say “walk”, and the body’s feelings of weight, lightness or balance. Ideas, gestures added to the corresponding feelings, are ideomotor or psycho-physical phenomena that cannot be scrutinized in logical terms; they are united in a functional integration and wholeness which cannot be broken or split into pieces.

From the nebulous original things evoked by the most extreme scientific reasoning to futuristic projections, the ineluctable aggregation of matter-energy, feelings and consciousness, make up this functional unity, pointing to full universal integration without any discontinuity: the real moment is the great vector where everything that exists seems always to have been transmuting, without one knowing why, freely – the moment in which we live, the now, is the effective and original place where one confirms that consciousness is the consciousness of the world and the world is the world of consciousness.

Of pantheist intelligence

How can one separate and dichotomize these events and phenomena? Why should one get entangled in possible discomfort from ungrateful circumstances, very often brought about by a lack of philosophical reflection and cultural qualities, when faced with the providential harmony that life demands in order to happen and sustain itself, in narratives that idealize consciousness as a spirit flying separately, outside nature, stuck by accident in things of matter-energy, as a punishment, paying for sins? How can one break “spirit”, “soul” and “matter” into separate categories – the very ideas, sensations and bodies that are deeply embedded in intransitive actions: being born, living, sitting, rising, acting and speaking? What is the motivation that makes us imagine a rupture in the unitary wholeness that glows in our intelligence and speaks to us through the thickness of the world and the moment in which we are? What kind of intention encourages the evocation of divergent globes and the idealization of sacred realms that are radically separate and anti-ethical?

Certainly, significant episodes of suffering, whose intensity grows even more when they happen before the formation and philosophical maturing of the state-of-being, explain and justify the attempts to disassociate consciousness from the experienced world in search of other kinds of communion: this also includes what takes place, in a way, in alterations in states of consciousness and levels of alertness generated by hormonal flows that take place between the hypothalamus and the neurohypophysis. Undoubtedly, the vastness of the existential event allows one to weave innumerable hypotheses relating to the whys and wherefores of beginnings, teleologies and imaginations that are never resolved; but to believe in narratives and opinions which evoke radical divisions – not recognized unless one is in some states of consciousness altered or induced by extreme circumstances and dualistic metaphysical narratives – as necessary and categorical teleological destinies, ordered a priori, is to wish to misunderstand exceptional situations and see them as witnesses and definitive indices of doctrinaire and dogmatic schemes!

  • Difficult moments, on their own, do not express the fruitful correspondences and the existential context necessary for life to happen and hold sway;
  • Difficult moments do not justify eclipsing the glory of living in depressive suppositions and teleologies which imbue the whole of sovereign existence and its paths of transformation with degrading myths that have a negative influence, denigrating the wholeness of acts and the senses.
  • It is by recognizing the fundamental order which matches the intuitions of serene intelligence that one can broaden congruence and integrity, confirm the legitimacy, aestheticism and historicity of the state-of-being, illuminating a native lucidity and virtue where it is made evident that the contrasting elements are intrinsic to life itself, as essential as the beating of our heart.
  • The truths of the beautiful and the good are real and fundamental, evident and palpable, in proportion to the vigor and physical and moral health of the state-of-being; they don’t need to be deported and imagined as in any way exogenous essences, coming from some hypothetical “beyond”, by adopting devalued ideals, founded on truly exceptional natural circumstances and often regressive, little-examined cultural concepts, which take place under the influence of a lack of respect for the rules of hygiene, diet and good medical and philosophical precepts.

The veracity of the good, unitary virtue turns out to be evident in the fundamental existence of vital processes witnessed in the light of the reason that apprehends the universal dynamic, described or symbolized as an impulse that expresses a recurring thermodynamic process, which is evolutionary in our dimensions, involving destruction and formation, operating on all the delimitable levels of creation, taking in existentiality and organizing the structure where feelings and values are built, and where the process of awareness rules. A common origin seals the communitarian union of the state-of-being, bringing together observers and the observed, subjects and objects in a fundamental pairing, revealing recognition, empathy, harmony and identity. These three formations – aestheticism, legitimacy and historicity suitably acknowledged and placed – impress on us a wise and immanent philosophical perspective, an inspiring source of harmony and identity, sanctifying the cognitive reach of the individual capable of intuition and subtlety of feelings: we are talking about deep, spontaneous reason that is invested with good sense: the light of natural reason.

To achieve and affirm a sensible life, one should not go against one’s own nature, believing in narratives that demand that we discard the evidence of intelligence, or the potential offered by deep philosophical examination, in favor of ignorance, passivity and conformity, as happens in reductive processes of dogmatic and sectarian rationalizations – our ideals can be recovered through Socratic, Maieutic, Freirian education, sharpened by meditation and contemplation.

It is the case that:

  • Pantheist philosophy, which is essentially libertarian, doesn’t criticize those who choose and need to idealize existential circumstances which transcend their current or real life, their expressivity, in happier schemes that are only imaginable in other dimensions or supernatural paradises.
  • Pantheist philosophy, which is essentially tolerant, doesn’t criticize those who defy good sense and their own reason, by rationalizing their anxieties by constructing extravagant narratives and fallacious rhetoric in order to convince themselves;
  • However, pantheist philosophy does react strongly against those who wish to justify their supernatural anxieties by promoting and preaching imprudent narratives which deny and denigrate the existential experience which declares the state-of-being to be natural, real and current, by seeing him as an inferior expression that grows a posteriori out of a supposed essential inadequacy resulting from an alleged original sin or fundamental disobedience.
  • Pantheist philosophy reacts against those who wish to strengthen their unnatural and extravagant anxieties of transcendence, their denigrating and supernaturalist beliefs, by institutionalizing processes of persuasion using public channels of communication or authoritarian educational structures which lack dialogic debate, with the intention of converting those who do not naturally acknowledge the same metaphysical perspectives nor share the same worldview.
  • Pantheist philosophy argues for the imperative and vital pedagogical need to use show the person being educated, through equal means on a level playing-field and through dialogic and enlightened debates, the various religious and belief systems, explaining the underlying metaphysical perspectives, and as a categorical default, encouraging a profound respect for a natural trio: 1). Nature in general; 2). human nature specifically; 3). the good sense which is the natural light of reason – an essential virtue of human nature.

 Translated by Stephen Cviic 

Exercício Metafísico Panteísta ~ Pantheist Metaphysic Exercise

arcanjo gabriel

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Uma cultura, para ser justa, digna e demonstrar na prática o que muitas vezes prega em teorias e afixa em documentos constitucionais e fundadores, deverá instituir uma pedagogia à altura das suas aspirações. De acordo com o melhor conhecimento, até hoje disponível, essa pedagogia necessitaria ser sóbria e repleta de bom senso; diferenciar o mítico, hipotético e interpretativo, o opinativo, a doxa, do real e sensato. Isto é embasar todo o ensino em critérios filosóficos, apresentando sempre os argumentos e os contra-argumentos, esclarecendo os pontos fortes e fracos dos discursos, deixando aos alunos o direito de escolher seus caminhos cognitivos, impregnando as psiques de um sentido construído e firme, algo resultante de uma gradual e lúcida tomada de consciência. Quando, nesse laboratório escolar de aprendizagem, algum projeto de ação for escolhido, as estratégias de consecuções seriam estudadas, examinadas buscando na experiência e no sentido crítico os melhores caminhos. Deverá se ensinar a começar tudo com sensatez, a monitorizar o andamento dos projetos cuidadosamente, utilizando os diversos pontos de observação conhecidos, possíveis, imaginários, com a máxima criatividade. Aliás, treinar a criatividade em todos os sentidos deveria ser a  preocupação essencial de um bom ensino.

Como o que mais pesa no destino psíquico de um indivíduo, no seu tônus emocional e posturas fundamentais é, indubitavelmente, a forma como ele é considerado e recebido na cultura, formalmente e essencialmente, como ele imagina a sua presença e função no ambiente e mundo onde vive: nada mais natural de que examinar cuidadosamente esse ponto. Uma autoestima depressiva é construída embasada em desrespeitos que se somatizam, ampliados até abafar a alegria e capacidade de amar. É muito fácil solicitar: “sejam amorosos, respeitadores, alegres e confiantes”, mais difícil enxergar onde se enraízam tais virtudes para que possam crescer espontaneamente – ninguém se torna amoroso e respeitador de si e dos demais num piscar de olhos, mudando a tintura dos cabelos. Querer é uma longa viagem que começa com inteligência e criatividade suficientes para distinguir os bons caminhos em perspectivas amplas: é o que deve ser ensinado a priori.

Nessa escola, os estudantes seriam, desde cedo, convidados a examinar diversas narrativas culturais originais, míticas, à luz do espírito científico, filosófico, na famosa posição de ‘observador’, sujeito dissociado do seu ‘objeto’, utilizando o método ipsis litteris: um instrumento para testar, experimentar e examinar os usos e costumes sem se envolver nas diversas narrativas, reconhecer suas decorrências lógicas – até provar em contrário – de acordo com as melhores teorias psicológicas e pedagógicas. O que poderia existir de mais fundamental nesse mundo globalizado e mutante de que apoderar-se plenamente do imaginário? Auxiliar o aluno a sentir os sentimentos evocados pelas diversas narrativas ditas fundadoras de culturas e cultos? Graças a esses jogos virtuais de civilização, os probantes e alunos seriam colocados na situação imaginária de ‘nascer’ em diversos lugares e âmbitos culturais vindo da hipótese metodológica neutral – poderiam escolher  momentos e lugares de diversas tradições, de acordo com a sua vontade.

Os alunos aprenderiam a testar, como se fossem vestimentas culturais, as principais narrativas fundadoras de cultos, seus critérios comportamentais, discursando sobre o sentido da existência e posição do sujeito nos ritos de cada lugar. Não seria necessário começar seguindo uma determinada ordem evolutiva: testando primeiro os ritos desaparecidos, recolhidos em buscas arqueológicas e depois os mais antigos. Entrar-se-ia nesse ‘carrossel existencial’ de diversas maneiras, por sorteio, escolhendo alguma ordem aleatória ou autodesenhada. Interessante seria que o próprio aluno e visitante virtual, fundamentado nas suas escolhas e experiências, discutisse com os seus companheiros de viagem os diversos sentimentos, ideias, estratégias de funcionamentos, posturas frente aos outros e ao ecossistema, evocando esses mitos, cultos, obediências e decursos culturais; que fossem discutidas as relações desse mitos e ritos com outras doutrinas, políticas, pedagogias e teorias.

Caso o aluno fosse nativo de um lugar e cultura de forte e rígida tradição, correspondente a um rito e mito fundador bem definido, poderia ser indagado a respeito de querer ou não experimentar dissociar-se das impressões batismais originais para testar outras plataformas culturais, veracidades e cultos, de acordo com outros povos e nações. Recusar seria possível:  nada nessa escola seria obrigatório! Claro, esse aluno não receberia o ‘Grau Om’ – Grau Real e Arquetípico Universal da Ordem Metafísica – o grau dos grandes conselheiros e maior significado existencial, receberia o grau relativo às ontologias enquadradas na ordem da sua cultura nativa.

Exemplificando: no imaginário, dessa posição crítica denominada nos nossos cursos ‘posição alom’ (de alfa e ômega), típica do observador científico, o aluno poderia ser batizado idealizando ser superior a todos, absoluto, escolhido pelo oculto para dirigir os demais em diversas direções: obter o controle do mundo, instituir uma ordem definida, uma estrutura societária classista. Em outro experimento, poderia ser recebido e batizado imaginando ser ‘escolhido’ por diversas razões, como ser do gênero F ou M, da cor de pele N, B, P, A ou outra, da nacionalidade de A a Z, ou o que bem quisesse supor, até mesmo optar por uma escolha sincrônica com a situação existencial correspondente à sua realidade: uma vez desenhado o enquadramento, poderia escolher imaginar e pensar entrar numa cultura onde essa forma fosse considerada suprema, de valor máximo, ou, o inverso, que fosse taxada de desprezível, sentir as consequências dessas várias disposições, cultos e visões metafísicas.

Numa vertente mais prospectiva e generosa, o aluno poderia escolher conhecer outros ritos, como os que decretam ser o nascido uma realização do cosmos, um ser universal dotado de conectividade com toda a natureza, de uma vasta ancestralidade, oriundo do infinito e das origens misteriosas que a ciência ainda desconhece! Seria dito filho do Sol, da Terra, junto com todos os demais seres, os minerais, a flora e a fauna. Revestidos desses atributos existenciais, desse eixo metafisico, entraria em um mundo onde seria recebido dessa forma por outros seres de igual para igual.

Bom seria se algumas igrejas instituídas, antes de batizar e promover campanhas de conversão, quiçá, messianismos truculentos, oferecessem igualmente cursos mostrando as diversas opções filosóficas disponíveis, deixando as pessoas escolherem os seus caminhos. Isso seria demonstrar respeito e relacionamento digno, igualitário. Mas por enquanto, ainda, por mais bem intencionados que sejam os diversos líderes e religiosos, as igrejas gostam de condenar os que consideram heréticos, mas não gostam de ser trazidas na arena da vida e dos diálogos sinceros e francos, descer dos encastelamentos e pedestais para enfrentar críticas.

Chegará o momento por a natureza ser justa e esférica; dizer, pensar e fazer tem consequências – mesmos distantes, se manifestam. Nesse caminho, todos aprendem e se aperfeiçoam. Quanto mais liberdade de opções para o bem pensar iniciático, mais ricos e plenos os resultados. No momento, para nós nessa escola panteísta, o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial tem sido eleito mais sensato e promissor, quando se busca uma vida boa na vida que se tem: viva, digna, feliz, fecunda e sensata.

Pantheist Metaphysic Exercise

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

A culture, to be fair, worthy and demonstrate in practice what many times is proclaimed on theories and affixed on constitutional and founding documents, ought to establish a higher pedagogy to cope with its yearnings. According to the best knowledge, so far available, this pedagogy would need to be serious and filled up with good sense; to differentiate the mythic, hypothetical and interpretative, the opinionative, the ‘doxa’, from the real and judicious. This is to base the entire teaching upon philosophic criteria, always presenting the arguments and counter arguments, clarifying the weak points of the discourses, leaving to the students the right to choose their cognitive ways, filling their psyches with a built and firm sense, something resulting from a gradual and lucid awareness. When, at this scholar apprenticeship laboratory, some action project is chosen, the achievements strategies would be analyzed, examined, searching on the experience and on the critical sense the best courses. It should be taught how to judiciously commence everything, how to carefully monitor the ongoing of the projects making use, on the most creative way, of the several known, possible, imaginary observation points. Besides, to train the creativity in every sense should be the essential concern of a good teaching.

As what weighs more on an individual´s psychic destiny, on his emotional tonus and fundamental postures is, undoubtedly, the way how he is considered and received in the culture, formally and essentially, how he imagines his or her presence and function in the environment and world where he is living: nothing more natural than to carefully examine this point. A depressive self esteem is built based on disrespects that are amplified until choking one´s happiness and loving capacity. It is extremely easy to ask: ‘be loving, respectful, cheerful and confident’, but it is difficult to see where such virtues are rooted in order to spontaneously grow – no one becomes loving and respectful of him and of those others in a twinkle of the eye, changing the color of the hairs. Wishing virtuousness is a long trip starting with sufficient intelligence and creativity to distinguish the good ways on extensive perspectives: this is what a priori should be taught.

At this school, the students, early, would be invited to examine several original, mythic cultural narrations, at the light of the scientific, philosophic spirit, on the ‘observer´s’ famous position, subject dissociated from its ‘object’, making use of the method ‘ipsis  litteris’: an instrument to test, experience and examine the uses and costumes without getting involved on the several narratives, recognizing its logic consequences – till it´s proven to the contrary – in accordance with the best psychological and pedagogical theories. What could be of most fundamental in this globalized and mutant world than fully seize the imaginary?  Help the student how to feel the sentiments evoked by the several narrations said to be founders of cultures and cults? Thanks to these virtual games of civilization, the students would be placed in the imaginary situation of ‘being born’ in several cultural places and spheres from the neutral methodological hypothesis – could choose moments and places of several traditions, according to their will.

The students would learn how to test, as if they were cultural vestments, the main founding narrations of cults, their environmental criteria, discoursing on the meaning of the subject´s existence and situation in the rites of each place. It wouldn´t be necessary to start following a certain evolutionary order: first testing the disappeared rites, those gathered in archeological searches and then the older ones. One would enter into this ‘existential carrousel’ through different ways, by choosing some random or self-designed order. It would be interesting if this student virtual visitor, based on his choices and experiences, could discuss with fellow travelers the several feelings, ideas, functioning strategies and postures before the others and the ecosystem, evoking these rites, cults, obedience and cultural trends; and that the relationships amongst these myths and rites were discussed and matched with other doctrines, policies, pedagogies and theories.

Should the student be native from a strong and rigid tradition place, corresponding to a well defined founding rite and myth, he could be asked if he would or wouldn´t wish to try to undergo dissociation from the original baptismal impressions to test other cultural platforms, truthfulnesses and cults, according to other people and nations. To refuse would be possible: nothing at this school would be mandatory! Certainly, this student wouldn´t be granted with the ‘Om Degree’ – the Metaphysic Archetypical Order- the great counselor degree and greatest existential meaning, he would receive the degree relative to the ontologies fitting in the order of hi native culture.

Exemplifying: in the imaginary, of this critical position named in our courses as ‘alom position’ (from alpha to omega), typical of the scientific observer, the student could be baptized, imagining being superior to everyone, absolute, chosen by the concealed to guide the others in several directions: to gain the control of the world, establishing a defined order, a classist societarian structure. In another experiment, he could be received and baptized, imagining being ‘chosen’ for several reasons, by being from gender F or M, by the color of the skin: B, W, Y or other, by nationality from A thru Z, or by what he could suppose, even opting for a synchronic choice with the existential situation corresponding to his reality: once the fitting is designed, he could choose how to imagine and think being introduced into a culture where this condition were considered supreme, of the highest value or, inversely, being estimated as worthless, feeling the consequences of these several metaphysical dispositions, cults and visions.

On a more forward-looking and generous point of view, the student could choose to know other rites, as those decreeing being the new born a realization from the cosmos, a universal being endowed of connectivity with the entire nature, from a huge and very old epoch, originating from the infinite and from the mysterious origins still unknown to science! He would be considered son of the Sun, of the Earth, together with all other beings; mineral, flora and fauna. Covered with these existential attributes, with this metaphysical axis, he would enter into a world where he would be equally received this way by other beings.

It would be good if some established churches, prior to baptizing and promoting conversion campaigns, perhaps, truculent messianisms, could equally offer courses showing the several philosophic options available, letting the people choose their ways. This would be to demonstrate respect and worthy and equalitarian relationship. But, for the mean time, yet, for the most well intentioned the several leaders and religious persons might be, the churches appreciate to condemn those considered heretic, but do not like to be brought to life´s arena and to sincere and open-hearted dialogs, to descend from castles and pedestals to face criticisms.

The moment will come, because nature is just and spherical; when to say, thinking and doing have their consequences – even if at a distance, they manifest themselves. On this way, everyone learns and improves him/herself. The more liberty of opinions to the initiative well thinking, the richer and the more complete are the results. Presently, at this pantheist school, the cosmos-existential metaphysical perspective axis has been elected as more judicious and promising, when one seeks a good life in the life being lived: alive, worthy, cheerful, prolific and sensible.

 

 

 

 

 

 

 

Ser Panteísta é Ser Agora – Na idade que bem se quer

multiflorafernandopolis, natureza abstrata 18

Atento, observando a natureza, num átimo, enxergo decálogos e princípios.

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Ser panteísta não é coisa para se perder ou se distrair nos capítulos das histórias dos outros; é segredo para se guardar no coração. ‘Deus é natureza’, a definição clássica de panteísmo, é precisa, porém basilar, prosaica. Assim como um santo visionário poderá descrever a sua experiência do divino de mil e uma maneiras, no estilo das mil e uma igrejas, um panteísta, igualmente, poderá faze-lo, sendo o templo vasto como a natureza, o globo-um colorido, verde e azul e a abóbada da catedral, o céu do dia e da noite. Trata-se de uma relação imediata com o todo, sem sacerdotice alguma. Para o panteísta o templo é a natureza e o ar do tempo o sacramento.

Não é que a ‘causalidade’, o inato que a nós correlaciona e refere em termos de corpo, forma, gênero e humor, igualmente, arquitetado em nosso entorno,  incluído nas circunstâncias e nas redes das histórias e das geografias, em mil lugares e direções, não esteja. de alguma forma, determinando o que fazemos e laboramos. Ter nascido em Paris, Texas ou France; em Recife, Brasil, ou Cuzco, Peru, existe como algo dado e já posto na mesa dos trabalhos, sim, claro! Mas, para nós, as formas não se analisam estruturadas e calculadas para significar um mais ou menos, sejam benções ou fatalidades resultantes de processos ajuizadores e distribuidores de ‘merecimentos’, em modelos judiciários que só podem ser reduções, antropocentrismos, ‘projeções bancárias’, como diria o pedagogo Paulo Freire – um entendimento a posteriori! É que para nós, fiéis dessa Igreja Pan, a geografia, história e cultura, seja dessa ou daquela cidade, neste tempo ou noutro, vem depois do impacto fundador. A base existencial, batismal, do panteísta, é natureza, antes de ser história ou cultura.

Antes disso, primeiro, há sempre a atuante e central força e impacto da vida que explode dos mistérios e do ignoto, incessante. Entendemos isso, como o toque do coração batendo o ritmo. O fundamento em termos ontológicos, o sacramento em termos metafísicos: é um fenômeno psicofísico que suplanta na sua originalidade o que se pode pensar e ajuizar a respeito do fenômeno viver, existir! Antes de pensar-se a respeito, existe-se essencialmente, de graça e sem razão conhecível, esse mistério central confrontado a cada passo no jardim, onde se olha uma rosa, que é uma rosa, simplesmente, é espantoso. A surpresa inexaurível frente ao improvável da vida é referência do ânimo panteísta.

Essa marca nativa é nossa! É a saga dos poetas! Como não sentir? Antes de ser contador de histórias, o panteísta é um poeta, aquele que desfoca o olho e entreabre a boca num sorriso apenas esbouçado, antes de se expressar: é autor das suas falas e pensamentos cujas origens não se sub-rogam a nenhuma história, por mais tradicional que seja. Panteísta é algo selvagem que não suporta cabresto. Mas não é ‘selvagem’ por que referente às histórias indígenas e de pessoas que viveram antes e nas margens da cultura dos consumidores globais, devorando o planeta como gafanhotos enlouquecidos: isso seria algo recontado por um civilizado a respeito dos ‘selvagens’ e indígenas. Os salmos panteísticos são matérias primas que se burilam na boca de quem fala. As referências culturais são anedóticas.

As histórias que se fazem, lembram, reportam e narram, assentam num terreno de força viva que as acolhe e fertiliza desde o começo. Esse terreno de força plena é o ânimo do poeta, que não sendo destemperado e condicionado por história alguma, não se rende, não se inverte, é sempre autoral, de improviso. Mas o que diz então esse poeta, esse Ser Panteísta? Ele chama o que se vê, o que aparece, o que vem, evoca o mais singelo de tudo, aquele que o outro confere e já sabe sendo o que é, vivendo o que vive. Ele brinda um vinho que igualmente existe na taça do outro e que por isso faz sentido e tem sabor imediato. Tudo é claro porque evidente e sentido com gosto e sabor.

Possivelmente, recebemos o dado-a-ser que natura em torno de nós e dentro, reunindo os corpos em um sistema orgânico universal, numa trama, com a singeleza de crianças, sempre acordados nesse processo, recebendo a vida e suas formas de chofre, como existem, transmutantes desde o começo: acolhendo sem julgar, comparar ou se deixar impressionar por valores contados e pesados em termos de haveres, conjugados nos acordos do ter e nos posterioris da memória e contabilidade.

Para começar, sentimos, talvez como crentes destituídos de pudores, ter sido engendrados por amor, bem na massa, na essência, verdade perene, fato inelutável, transitivo em quaisquer circunstâncias! Sabemos nascer, de certa forma sem parar ainda, em glória, marca e fundamento do real por onde tudo brota, até mesmo o ‘surreal’ se houver – quem sabe? É o ponto original que não se consegue esquecer, como um sorriso ou o brilho de um olhar! Lógico, os sofistas poderão afirmar tratar-se de mera ‘opinião’, poética talvez, mas sem praticidade – nascer eternal!? Pouco importa o que pensam! Não se trata de algo que colocamos no mercado e no campo das dúvidas, é uma marca panteística sentir esse nascer que se renova glorioso, evanescendo e colapsando todos os dias – lembrando, esquecendo, aprimorando tudo o que se pode pensar. Integrantes dessa igreja estamos em lua de mel com a vida, sentados no centro do destino, sentindo as rédeas nas mãos, a carruagem em ordem e a viagem sempre no começo, a voz exclamando como um aboio: êi, oh, avante!

Não somos messiânicos, por isso pouco importa se alguém imagina ser desprovido dessa marca naturalista e ter sido criado por acidente, ou até mesmo sentir esse nascer como algo sombrio: desde as profundezas, ter sido lançado nas escuridões esfincterianas como uma ventosidade! Que seja! Opinião! Talvez, opinião mesmo, insensata! Silenciosamente, além dessas catequeses medonhas que querem fazer as crianças acreditar ser concretudes ínferas, nós, senhoras e senhores, temos certeza que deve existir algum grau de ‘apoesia’, uma pitada de ingratidão, de cegueira até, uma forma de embotamento nesses julgamentos!

Afinal, até um raio de luz percutindo uma gota de orvalho pousada numa flor, uma pedrinha de cor pastel realçada no toque da umidade da manhã, pode ser o início de uma maravilhosa aventura estética, um levantar do ânimo num voo belíssimo, um gesto, sendo feliz, ampliando, fermentando até desenhar esse Belo e explodir num riso e abraço alquímico como um jorro criativo: uma expressão, um modo gratuito de existir que pode fazer uma diferença essencial, logo nos primórdios, levando esse ‘fluxo vital e psicofísico’ a rolar nas campinas, numa correnteza que deságua das montanhas até uma praia bela e muito digna, que, talvez, não se revelaria não fosse esse ‘saber ver’ amante e nativo, encantador e glorioso.

Mas por que esse gozo embutido na visão, essa felicidade do olho e do toque? Será um gênero, um traço, uma espécie de ser, um tipo de ancestralidade, a floração de uma semeadura de algum tipo mais raro, mas libidinosa? Algo nascido vindo de alhures, herança viva dos maias, dos incas, dos indígenas, do antes-mítico? No mito que crio, misturando tudo, talvez sejamos anjos alados com Isis, visitando terras, corrigindo mil e um reinados? Olá, olé fantasia! Fantasia que ri e que dança! Não, não e não! São histórias! O real é bem mais simples, mas, não menos Belo! Somos resultados da junção unitária de duas coisas primárias e acolhidas numa forma única que gesta e fermenta, somos vinho, néctar – como logo aprendemos, de alguma forma, reconhecendo essa praxe universal como a grande coordenada original dos demais princípios: alquimia!

Sabemos, porque vemos o copo receber a água; sentimos o garfo entrar na boca e nos alimentando! Vemos o pássaro entrar no ninho, pondo ovos de onde nascem novos pássaros que logo voarão, entoando cantos belíssimos! Testemunhamos a chuva do regador cair na terra se abrindo em flores! Até coisas mais difícil de se ver: o casco de um cavalo bater nos seixos dos caminhos saltando faíscas! Vimos flores virar frutas, sementes transformar-se em flores frutificando as mesmas frutas! Por isso, conhecedores desses grandes mistérios e maravilhas, sabemos desde sempre que vida é força, fogo e luz, é canto vivo e Belo: ah! Oh! é o nosso grito, a nossa chamada primordial: o início de tudo o que é, para sempre e sempre início de tudo.

Por isso é impossível romper esse núcleo onde tudo colapsa esférico e redondo no momento que é, onde se nasce a toda hora, onde se concentra e agrega toda a vida que martela a força e a luz original, a toda hora. Será que somos débeis? Sujeitos incapazes de transcender nas curvas das sofistarias, das somas e das divisões, das aritméticas e gramáticas, esse limbo indefinido, essa massa psicofísica nuclear, essas fronteiras equívocas onde as coisas já são, mas ainda sem definições, inacabadas, em criação, naturando ainda, eternamente vindo-a-ser? Será que somos como crianças ainda grudadas perto da fonte, reinando nos braços da grande mãe, imaginando estar no centro do mundo, coordenando o cosmos? Malucos validando os ditos de certos filósofos, insanos que imaginam o cosmos como um volume, uma bolha infinita de margens diáfanas e inalcançáveis cujo centro esteja, justamente, no nosso próprio coração, motor batendo o ritmo da vida desde sempre.

Como entronado dessa forma – sendo ingênuos, que seja – e nessa posição entender as coisas de fora? Como se tivéssemos postos sapatos de couro, saídos do que é primo, sensível e original, para entrar numa ideia matemática e posição gramatical, lugar sem toque, ideal, e, fascinado nessas beiradas hipotéticas, exorbitando, mirando as coisas como fora de nós e separadas das nossas consciências que abrigam o mundo, alinhadas como soldadinhos, focando e distorcendo o espaço e o tempo, até não ver mais a curva da esfera mostrando que tudo se une e reúne: imaginando tudo separado por estar imaginando ser separado, efetivamente, narcotizado em ideias, mitificando a praxe de engavetar pedregulhos como a arte das artes, a maior de todas?

Como enxergar sem glória, deixando de ver nas gotas de orvalho e nas lágrimas das despedidas, o brilho do arco-íris, para retraído nas gramáticas e calculadoras, da beirada da arena sempiterna da vida, ver ali uma idade de ferro, lá uma de bronze, prata ou ouro, imaginar estar transitando por lugares tracejados a partir de coordenadas hipotéticas e sem sabor, descortinadas nas escolas laicas e esotéricas, bem depois de ter nascido? A vida é o nascer perene dessa fonte de tudo quanto há, até mesmo dos delírios dos que temem desertar da sua pátria, o lugar nativo de tudo, o presente em torno do qual gravita todas as hipóteses, de onde irradia todos os raios, de onde se pode, à vontade, como se quer, ser agora mesmo, ferro, bronze, prata ou ouro, maia, inca, indígena, condor, águia e cabra montanhesa, o que for!

Como deixar de ser original, o que de fato se é nesse sempiterno atual, para ficar encostado e posto nas beiradas, do lado de fora, rodando em torno do pote e da fonte, levado nas lendas dos que não vivem com medo de se reconhecer como coisas fenomenais, transmutando e forjando vida com sopro, sangue, corpo e fogo, no vasto cadinho central, imenso e sem tempo.

Aqui, nesse templo, não se enfumaça o que é em algo que ‘vai ser’ de acordo com lendas que só se contam sentados de fora, perdidos em ideias e hipóteses onde só se é o que determinam os postulados dos que vivem antes ou depois, dormindo a contratempo: tempo valente e bravo que estamos cavalgando neste momento, traçando aventuras nas quais somos aqueles que determinam a idade em que se vive, sabendo que não existe idade a não ser a que bem se quer, ama e deseja. Isto, leitores, é um pouco do que é ser panteísta.

 

 

 

 

Isis Alada, A Deusa Natureza

isis Alada

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

Se existisse um deus surreal, um ser criador personificado, seria uma Deusa como Pachamama, Deméter ou Isis Alada; embaixo de cada asa uma princesa, uma branca e outra preta, o dia e a noite, alfa e ômega: as polaridades reunidas numa única envergadura e voo. Afinal, todos nascem de mães, lugares onde acontecem as fertilizações, nidificações, gestações e parturições: in totum, as obras da mãe-natureza, original e arquetípica! É que tudo o que se sabe do mundo se revela através de pessoas que nasceram de mulheres, em primeiro lugar, nós mesmos. Um existencialismo presencial e necessário que fez mais de um filósofo sugerir: “conhece-te a ti mesmo…” – outros, sondando os mistérios, eternas hipóteses, indagaram em vão: “existiria uma ‘consciência pura’, sem formas?”. Claro, na ordem biológica, um dos enlaces fundamentais da causação, a figura materna, formal, não fecunda sozinha: mas a natureza de todas as criaturas, a natureza-mãe, nasce de si, abrange o alfa e o ômega. Portanto, de alguma forma, somos essa estrutura metafísica criadora e alada: trata-se da cosmovisão e do sentimento de muitos nascidos, seres humanos pequeninos experienciando o Cosmos por um segundo e para sempre.

O estado-de-ser integra o ‘um’ e o ‘dois’, abriga todas as polarizações e potências, certamente: mas os saberes que podemos desenvolver dependem de como adentramos a existência para naturar nessas dimensões detectáveis por GPS: quem poderá negar que existem ambientes mais eudemonísticos e férteis de que outros onde ‘pausar no concreto’, vindo desses voos metafísicos que se vislumbram nas visões e ideias? As diferenças, do ponto de vista das coisas da cultura, dos aspectos societários, estão estruturadas em eventos: como se é recebido e abraçado na comunidade familiar, as condições da parturição, a educação, como se é considerado ao longo da aprendizagem, laica e religiosa. Esse leque de ‘receptividades’ permite significar e configurar induções referenciais: a identidade profunda dos indivíduos, a autoestima existencial, os valores e edificações ideológicas, as problematizações, dependem do significado sistêmico atribuído a esse movimento oriundo do plano mais universal até equacionar num lugar especifico, com endereço e nome próprios.

É fácil imaginar que, na significação desse processo, a mãe, a parturiente e nutridora, a mulher, poderá ser de soberana importância: de acordo com seus carinhos, ou descuidos, sua genitura será sadia, ou não – o que não é verdadeiro. A mãe formal é, certamente, importante, mas não ‘apenas’, talvez não ‘mais’; a mulher existe junto com os demais partilhantes da cultura, inscrita na ordem societária: até o momento, ordenamentos instituídos em fenômenos debatidos e ideologicamente burilados por pensadores, na sua maioria filósofos e teólogos da tradição. Logo, como as mulheres se dedicam às suas crianças não dependem apenas delas, mas das inscrições societárias da família e dos gêneros, de acordo com os usos e costumes que vigoram, nas metrificações e enquadramentos psicossociais nos quais estamos imersos como peixes enfrentando correntezas.

Na lista dos eventos que interferem nas ideias e visões que alimentamos sobre nós, o que mais rigorosamente poderia determinar a autoestima, valores e os embasamentos das edificações ideológicas, de que essas impressões que recebemos ao nascer? O que mais poderia influir os nossos potenciais de que a recepção que nos é reservada, consagrada por uma autoridade sacerdotal, num rito fundador onde é afirmado o que somos? O que mais determina a nossa autoestima e identidade central é o que se afirma a respeito da nossa relação com o processo criador e existencial como um todo. São os sentimentos e sentidos afirmados nos ritos batismais e as imagens evocadas pela catequese inicial que induzem a se reconhecer de alguma forma, positiva ou negativa, mitificando a relação fundamental consciência-existência: aqui está o selo que determina os esquemas, os grandes ‘papeis’, posições e funções que estruturam a cultura!

De fato, somos o que acreditamos ser e vivemos de acordo: acreditando-nos banidos do céu, autores de pecados originais, metidos em corpos facultativos para purgar pecados, enredados num mundo que não é nosso, gerará as incongruências que vêm se comprovando há séculos; sentindo-nos integrados, em harmonia com o todo, pertencentes ao ecossistema e ao Cosmos em perfeitas relações e como processos perdurantes, veiculando inteligência e intuição universal, facilitará a obtenção de outros efeitos e resultados, quiçá instituindo uma nova-era, descortinado novos rumos que já estão aqui e foram trilhados por muitos que se salvaram e encontraram a terra sem mal, o eldorado original.

Eu decido a qualidade da minha relação cosmo-existencial, o que sou; eu consagro, por direito universal, a metafísica que me une ao todo e me batizo criatura do Sol e da Terra, ser do universo, luz natural da razão, vivificação sempiterna dos elementos e alquimia universal. Assim, em poucas linhas, leitores, faço mais um giro em torno do Sol dos potenciais! Experimentem alguns batismos, comparem, testem, ousem imaginar, a liberdade começa ai!

Vídeo-convite com Régis Barbier

No Mundo Original – Regis Alain Barbier

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A Humanidade em Perigo – Entre o Direito e a Shariah ~ Humanity at stake – Between Right and Shariah

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O ser humano só pode ser humano de direito afirmando
com clareza a liberdade e a autonomia da sua vontade.

Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

 Estado de direito ou de perdição

Haveria uma carência de visão cujas consequências seriam gravíssimas, transformando a ciência do direito e da justiça num casuísmo relativista, gerenciando, na melhor das hipóteses, um estado de perdição, evitando assim maiores prejuízos, conservando iniquidades na pior delas?

Em inúmeros ensaios dedicados ao direito, discutem-se, amiúde, conceitos filosóficos como ‘autonomia da vontade’ e ‘liberdade formal’, contrastando esses temas ao dito ‘paradigma da pós-modernidade’ onde se redefinirá o valor do sujeito na realidade societária: “após a II Guerra Mundial e com a consolidação da sociedade de consumo, de massa, percebeu se que esse homem pleno, totalmente livre, com vontade autônoma, uniforme e universal é fictício, ideal, porém irreal” – comunicação pessoal: Dr. Francisco Ortencio de Carvalho, Promotor de Justiça. Esse ‘homem universal, pleno (…)’, que era entendido como real e reconhecido formal, revelou-se irreal e ideal. A humanidade parece ter basculada de uma posição defendendo potenciais de autonomia, em algum grau, manifestos e reconhecidos, reais e formais, para um estatuto de vulnerabilidade e insuficiência inerente da vontade, necessitando tutela.

 Nessas poucas linhas evoca-se um drama existencial milenar, um conflito de identidade perdurante desde os primórdios da filosofia, os contemporâneos de Sócrates. Clarificando o alcance do debate, a narrativa reporta a uma visão e entendimento de um indivíduo antes imaginado pleno, hoje considerado fictício: recoloca-se em causa a qualidade filosófica, autonômica e autocrítica do ser humano frente às suas decisões, o que antes era considerado real é hoje declarado fictício. Seja: a) o ser humano é um sujeito vulnerável, uma criança que nunca cresce e cuja realidade é ser destituído de autonomia, necessitando continuamente de orientadores, guias e árbitros; ou, b) o sujeito humano é potencialmente autocrítico, autor de uma vontade liberta, guardião de direitos e deveres – em alguns casos, denotando duvidar dessa autonomia, questionando sua ‘realidade’ ou ‘ficção’.

Existindo as dúvidas e considerações, com força suficiente para motivar debates e atitudes, reconhecimentos e avocações, juízos e lideranças tendentes para um lado ou outro, não se poderá negar potenciais de autonomias. Poderá supor-se que o ser humano, genericamente ou em determinadas circunstâncias, tenderá a esquecer que ele é um sujeito potencialmente titular de uma vontade autonômica, assim sendo, uma vontade integrada à liberdade de respeitar e atualizar essa potência na direção da sua realização plena, ou não; que, não exercitado, esse potencial se degradará, transformando a possível humanidade autonômica e responsável numa ficção.

É igualmente provável, condizente com o entendimento comum e dialética da narrativa, que todos, sendo humanos, possuem esse potencial em algum grau de amadurecimento; os mais predispostos e inclinados à autonomia, por talento e mimese, reforçariam a prevalência dessa boa virtude no âmbito da coletividade, confirmando esse potencial de acordo com as suas escolhas e orientações. Não se demonstrando essa autonomia e liberdade nas expressividades sociais espontâneas ou não sendo, significamente, evocada nas estruturas normativas em vigor, supõe-se que o ser humano comum, de massa, apenas esteja reconhecendo o significado vulgar da palavra ‘sujeito’ – de sujeição, avassalamento – não possuindo lucidez suficiente para reconhecer que ele é senhor de si, potencialmente titular da sua própria vontade e autonomia, de alguma forma, exercitando ou não essa liberdade, escolhendo e decidindo a sua realidade operativa – rechaço idealístico ou resoluta ficção.

O sujeito típico, saudável, é um estado-de-ser que responde pelos seus atos, naturalmente dotado de uma inteligência ampla o suficiente para, nas circunstâncias onde existe, poder, se quiser, instituir-se responsável pelos valores e direções por onde escolher andar. Assim sendo, de acordo com esse potencial, as vicissitudes societárias e circunstanciais operam nas pautas das virtudes e veracidades que se querem, ou não, exercitar. Isso significa que o estatuto humano é um estado-de-ser que se decide em consciência, de acordo com os potenciais, em alguns graus,  dados pela natureza, burilados e educados, ou desconsiderados e desrespeitados. Frente ao exercício da autonomia da vontade e liberdade, ao que tudo indica, o sujeito é quem decide o que quer ser; o que não implica uma ausência de dever: o sujeito, ser humano verdadeiro, deve ser o que ele é – só poderá bem ser e viver de acordo com a sua natureza fundamental, dada-a-ser.

Do estado de direito ao direito de estado

O sujeito típico, humano propriamente dito, inteligente o suficiente, responde pelos seus atos nas circunstâncias onde existe, instituindo-se responsável pelos seus valores e direções. Existira quem, declarando-se Juízo de Direito, ousasse doutrinar embasado na negação dessa virtude natural do estado-de-ser, responsável e potencialmente aberto a essa autonomia plena da vontade? Quem poderia ser um  juiz e defensor, instituído como justo representante de um Estado de Direito, assentado no pedestal e cenário ritual de alguma corte, evocando um ‘intrínseco, universal e irresponsável, instinto humano de dominação, exigindo tutela? Quem seria ele, simultaneamente, renegando universalmente os potenciais de liberdade, autonomia da vontade do estado-de-ser e apresentando-se titular de uma instituição dedicada ao exercício da justiça? O veículo místico de um espírito institucional puro, vivificado em escrituras reveladas? Não sendo um farsante, uma representação fraudulenta, esse juízo só poderá ser considerado com seriedade, declarando-se contraexemplo excepcional da sua doutrina, digno representante de uma nobreza veiculando maior potencial evolutivo, estirpe das elites ou, como opção, afirmar-se, de alguma forma, sobrenatural, escolhido por força maior para julgar e liderar.

Mas, liderar e ajuizar que tipo de estado? Um ‘estado de direito’ cuja virtude fundadora se nega, impossível! Ou, como  assalariado, defensor de um arcaico ‘direito de estado’ conquistado por dominação instintiva? Não se declarando integrante de uma elite, ou um escolhido descido do plano divinal, mas denotando a sua humanidade antes mesmo de ser capacitado ao exercício da justiça, um juízo de direito sensato não poderá jamais renegar a possibilidade da humanidade atualizar a liberdade e os potenciais de autonomia evocados pelo sábios e amplamente divulgados nos renascimentos históricos e períodos de iluminismos.

Passados os momentos mais exacerbados da fé, onde no seu apogeu histórico, mediévico, evocava-se uma humanidade sem virtude original, exigindo tutela por necessidade atávica, catequese milenar que jamais comprovou eficiência alguma no estabelecimento de um estado de direito digno de nota, nem mesmo no âmbito reservado das igrejas dominantes, notoriamente incongruentes e corruptas, o bom juízo terá de lembrar e defender, com constância incansável, a necessidade de atualizar esse potencial de autonomia da vontade e liberdade, exemplificado e evocado por filósofos, para poder exemplificar e exercitar a sua função como bem deve – ou, negando tais potenciais, desconsiderando a visão dos filósofos, terá que aceitar não ser juízo de direto efetivo, mas mero árbitro, circunstancial e acidental, vigário de um status quo instituído por força de dominação, entranhado em carência de direito.

De estado-de-ser original, fonte nativa de uma lucidez ampla e naturalmente talentosa, apta a abrir até os brilhos da virtude onde se reconhece e decodifica a essencialidade autopoiética e responsável do ato de existir, a humanidade é posta numa situação ingrata, destituída de aquiescência e sinais de reconhecimento, desqualificada, positivamente desacreditada dos seus potenciais, destituída de essência-sujeito, ‘frágil e vulnerável’! A flor da natureza que desponta a sua lucidez e liberdade na humanidade não encontra o acolhimento cognitivo e visionário adequado que deveria ser afirmado sem equívocos pelos que se habilitam no lugar de educar e julgar e cujo dever é defender e altear a autoestima do estado-de-ser: evidente, um respeito profundo a si mesmo como natureza humana, um reconhecimento de si como humano, é a fonte da virtude e do direito, fundamento necessário, autopoiético, onde se cultiva a realidade de uma vontade liberta e autonômica.

Autoderrotada, descaída do plano universal por não se reconhecer nas vozes, suas vozes, refletidas na mídia onde a cultura se compactua, desqualificada nos púlpitos e tribunas onde, justamente, deveria ser enaltecida, a humanidade basculha de uma posição potencial de autonomia, amplamente reconhecida e louvada na cultura clássica, para um estatuto de vulnerabilidade e insuficiência da vontade, necessitando tutela radical.

Quando uma nau de vasta proporção, navega sem rumo definido, comandada por piratas de todas as matizes e denominações, enfrentando uma histórica situação de desordem, a inquietude dos navegantes beirando o motim, não haverá justiça, mas um legalismo circunstanciado e acidental; o direito não será legítimo, mas adaptado e grosseiramente ‘decodificado’ para negociar entendimentos e relações suficientes para manter os consuetos e desordenados poderes resultantes de uma exacerbada instintividade parcamente orientável. É quando a ‘lei’, carente de valores ontológicos, aviltada, tentará justificar-se desdobrando numa multiplicidade de direitos menores, para diversos consumidores, advogando ser a ‘autonomia da vontade e liberdade’ ideologia fictícia, artimanha irrealista a serviço de mandantes que não se denominam com clareza, logo, uma legislação alinhada e conformada a uma doutrina degradante que descreve e admite a realidade societária como palco incontornável de ilegalidades instituídas em instintos atávicos de dominação, não apenas considerados inerentes da natureza humana, mas indomáveis – uma perdição.

Contradições evolutivas e impeditivas

As contradições menores, consuetas, dialéticas, que acontecem nos decursos e calor dos projetos, nos progressos e desenlaces dos eventos, podem ser sanadas a contento, à luz de diálogos judiciosos, contudo, apenas se não existir dúvidas fundamentais e contradições basilares, referentes ao reconhecimento da identidade e dos potenciais relativos ao estado-de-ser e dever ser, de acordo como a sua natureza. Enfrentando contradições fundamentais relativas à identificação dos potenciais e virtudes do estado-de-ser, sem ethos fundamental onde instituir dever e direitos, a legalidade não reina. Nessa intrincada trama societária, resultando de uma patética imaturidade que só pode ser evolutiva, dois identificadores diversos e opositores se manifestam.

Um identificador, historicamente típico da ordem teológica, aponta a natureza humana como descaída, um parecer alinhado à logicidade dos juízos que evocam esse “intrínseco instinto de dominação”, carência inata de virtude, para instituir direitos especiais decodificados para atender os vulneráveis, incapazes de orientar-se autonomicamente, necessitando mestres, sejam humanos ou sobre-humanos. Existir juízos prepostos como orientadores capazes de julgar e reparar esses méritos, implica a possibilidade de superar essa suposta atávica incapacidade, caracterizando-se humanos excepcionais, identificados como integrantes de uma elite atribuída de uma nobreza especial, seja por educação primorosa ou determinismos ontológicos. O segundo identificador, de natureza filosófica, exemplifica e recomenda exaltar uma identidade que pleiteia a potencial naturalidade da autonomia da vontade e da liberdade do sujeito. Estamos confrontando a vigência de conceitos contraditórios em diversos níveis de competência.

Num determinado âmbito, existindo alguma contradição funcional e periférica, fortuita, explicitada em aplicações e fatos corriqueiros, deliberando-se crimes com ou sem responsabilidade penal, haverá fundamentos suficientes para uma aplicação judiciosa do direito, com ou sem apelações. Contudo, sendo a contradição central, locada nos fundamentos teóricos do direito, como explicitado acima, onde se nega a liberdade e a autonomia da vontade como especificidade humana a favor de uma ‘dominação natural dos instintos’, não existirá mais debate e diálogo judicial – não existindo os potenciais onde assentar os deveres e as responsabilidades. O exercício deliberativo da justiça transmutará num fundamentalismo legalista e inquisitivo, que sendo aplicado por humanos, naturalmente humanos, logo, tanto quanto os réus, essencialmente instintivos, o exercício do direito denegrirá num simulacro arbitrando a favor da estrutura dominante e mandantes instalados. Não existirá mais a excelência judicial, propriamente dita, mas a aplicação tradicional de normas castigadoras de inspiração profética, ou meras demonstrações de poder consagrando os mandatos vitoriosos, simulacros de justiça de cartas marcadas.

A história demonstrou fartamente as consequências que resultam da aplicação de identificações infra-humanas, reduzindo o estado-de-ser a um estatuto instintivo e brutal, selvagismos; ou idealizando um ‘ser puro’, emanando virtudes por elitismo ou escolhas sobrenaturais, despotismos, caminhos de guerra e terrores’: destinos de brutos.

Entre injustiça sub rosa e justiça balsâmica

Portanto é típico desse direito pós-moderno, propagar e evocar essa ideia turva da ‘vulnerabilidade inelutável do sujeito’, fragilidade efetivamente circunstanciada, decorrente de iniquidades e desorientações históricas e tradicionais que não se denunciam.

Embora a fragilidade ética do sujeito seja considerada universal, genérica, o estatuto de queixoso é limitado às pessoas ditas ‘físicas’, aquelas que expressam essa ‘inerente vulnerabilidade’ como predisposição a serem constrangidas nas engrenagens intricadas do mercado, não encontrando meios de se munir dos atributos e respaldos societários típicos das ‘pessoas jurídicas’ que se beneficiam de subsídios e protecções contratuais que veiculam alguns dos meios de constrangimentos típicos dos Estados e empresas mistas ou estatais que surgem nos rastros do Leviatã hobbesiano. Oferecer essa condição e foro especial de tutela protetora apenas às ‘pessoas físicas’, aos ‘consumidores’, mais fracamente locados no enredo societário, é a condição necessária que garante e possibilita o exercício judicial dessa compensação, que funciona como um paliativo aliviador, justificador de uma justiça que não pretende desvendar a estrutura normativa e enquadramentos societários onde se erigem e instituem essas necessidades de direitos especiais.

Se, efetivamente, fosse ampliado esse direito intencionado a defender todos os fragilizados, a totalidade dos que vivem abaixo dessa visão, mito e metafísica que afirma o ser humano como essencialmente vulnerável, haveria de se denunciar todas as estruturas onde operam essas ações, reações e defesas, onde se constrange para não ser constrangido ou destruído. O processo seria infindo, obrigando a desmarcar a iniquidade em todos os seus raios e curvas: caracterizaria estarmos todos globalizados, vivendo numa estrutura aparentando ser de mercado, mas sendo uma sociedade de capital fiduciário, monopólio monetário administrado através da tecnologia sociocrática, imensa burocracia cuja fonte central seria revelada como mero constrangimento da liberdade e autonomia da vontade, exercitado através de uma catequese e doutrina inaugural, de um culto: justamente, o mesmo onde se institui e afirma a necessidade de amparar os vulneráveis e constrangidos. Um exercício cuja amplidão obrigaria a mudar de visão, de episteme civilizacional, de cultura, voltar a exaltar a autonomia do sujeito, sua liberdade e igualdade perante a existência, desinstalando os que vivem estruturados numa ordem proveitosa, dando tutela aos que necessitam.

Deveres fundamentais, de direito

Estabelecer uma forma de justiça circunstanciada para atender um ‘sujeito vulnerável e fragilizado’, vicejando em circunstâncias adversas é certamente louvável, mas escamotear e manter sub rosa a iniquidade das circunstâncias societárias fragilizadoras nos dois sentidos do termo: a) vulnerabilidade, predisposição em ser constrangido e enganado por falta de prudência e b) vício, tendência a comportar-se como uma máquina constrangedora, instintiva e dominadora: é elevar o acidental a estatuto caraterístico e essencial do sujeito, implicando uma grave inversão e deturpação.

A elevação de um momento de tensão evolutiva, embates em que predominam expressividades societárias infelizes, a um processo refletindo uma suposta ‘natureza inata avessa à virtude e lucidez’, inclinada ao exercício do constrangimento, recoloca em causa a natureza humana, o conceito de homo sapiens e as virtudes filosóficas fundamentais onde a lucidez, autonomia da vontade e autocrítica são entendidas inerentes ao estado-de-ser humano enquanto existente, inclusas na substância do estado-de-ser.O quadro é grave, advoga antes de tudo, embasado numa escolha e visão denegrida do estado-de-ser humano que é típico da visão teológica: é o embotamento da lucidez filosófica onde se enraíza a liberdade e autonomia da vontade, frente a um instinto animalesco, incitando os viventes a lutar para dominarem uns aos outros. Judiciar direitos especiais instituídos numa doutrina advogando uma vulnerabilidade ética entendida necessária e universal, igual a elevar o atual estado de dominação societária, em fase final de globalização, instituído numa forma e estruturação ideológica dominadora, histórica e acidental, como legítima e flamejante expressividade da verdadeira natureza humana.

Mesmo enfrentando momentos e embates evolutivos enfadonhos – como as graves deturpações econômicas globais instituídas nos rastros das duas guerras mundiais – e convivendo em âmbitos muito aquém dos permitidos pelos potenciais explicitados e exemplificados pelos filósofos e sábios de todos os tempos, lembrados e esquecidos, é dever dos que se colocam no lugar de administrar a justiça, apesar dos riscos, dedicar-se por igual, a três sagradas e fundamentais necessidades: 1) ajuizar os entendimentos e relações mais justas possíveis nos âmbitos e circunstâncias que permitam as ordens societárias equacionadas nos embates históricos e culturais; 2) afirmar sempre, como dever sagrado frente ao que é humano, os potenciais de liberdade e autonomia da vontade do ser humano, de si mesmo como sujeito; 3) apontar e denunciar todas as tramas societárias atuais, históricas ou tradicionais, em todos os campos, políticos, pedagógicos, teológicos, econômicos e cíveis – que sejam instituídos ou pretendidos como projetos – cujas teleologias orientam em direção a uma diminuição da abertura e crescimento desses potenciais de liberdade e autonomia.

Fazer menos é alinhar-se aos fundamentalistas, é romper as distinções entre religião e direito, pregando algum tipo de xariá, em busca de um além destituído de corpo, ou reunir-se aos que pregam ser a realidade da cultura humana brotação inferior, inelutável e imediata de instintos de dominação, aventura acidental, orçada sem rumo, conotando-se ser a visão de Atenas, a  cidade radicalmente dialógica e autônoma, mera utopia ficcional.

Direito e justiça, como tais, decorrem do pensamento libertário dos sábios e antigos filósofos, quer sejam gregos ou outros indígenas e gentílicos; esperança de justiça só vinga com firmeza, advogando a favor da liberdade e autonomia da vontade: advogar menos, em todo caso, afirma ignorância e vício, desqualifica a lisura, integridade e inteligência do interlocutório; isso porque o direito se fundamenta no respeito e no reconhecimento do bem possível, que é a própria virtude, a afirmação legítima onde opera o potencial, de acordo com a sua natureza.

 

Humanity at stake – Between Right and Shariah

                             The human being can only rightfully be human when clearly affirming the freedom and autonomy of its will

By: Régis Alain Barbier, Aldeia, 2013

 State of right or of perdition

Would there be a lack of vision whose consequences would be extremely serious, transforming the right and justice science into a relativistic casuistry, managing, on the best hypothesis, a state of perdition, thus avoiding greater prejudices, preserving iniquities on the worst of them?

In a number of essays dedicated to law, philosophical concepts such as ‘autonomy of will’ and ‘formal freedom’ are often discussed, contrasting these themes with the so called ‘post-modernity paradigm’ where the value of the subject in the social reality is redefined: “after World War II and with the consolidation of the mass’ consumer society, one could perceive that this full man, entirely free, with autonomous will, uniform and universal is fictitious, ideal, but unreal” – personal communication: Dr. Francisco Ortencio de Carvalho, Attorney. This ‘universal man’, entire and plentiful (…)’, who used to be understood as real and formally acknowledged, revealed himself as unreal and ideal. Humanity seems to have flipped from a position defending autonomy potentials, manifest and recognized, real and formal, to a inherent vulnerability of the will an innate insufficiency requiring custody.

In these few lines a millenary existential drama is evoked, an enduring identity conflict ongoing since the primordial days of philosophy, Socrates´ contemporaries. Clarifying the debate´s reach, the narration reports to a view and understanding of an individual early imagined as potentially plentiful, but today considered fictitious: what before was considered real today is asserted as fictitious; human being´s philosophical, autonomic will, responsibility and auto-critique quality are challenged, somewhat denied. That is: a) human being is a vulnerable subject, a child that never grows up and whose reality is being deprived of autonomy, continuously requiring advisors, guidance and arbitrators; against the considered fictitious reason: b) human being is potentially auto-critique, author of a free will, guardian of rights and duties – in some cases, demonstrating to doubt about this autonomy, questioning its ‘reality’ or ‘fiction’.

Taking into account and considerations that these doubts exist with sufficient strength to motivate debates and attitudes, acknowledgements and appeals, judgements and leaderships tending to one side or the other, one can´t deny autonomy potentials. One can suppose that the human being, in general or in some political circumstances, will tend to forget that he/she´s a subject potentially owner of an autonomic will, being so, a will integrated to the freedom of respecting and bringing up to date this power towards its full realization, or not; that, if not exercised, this potential will degrade itself, transforming into a fiction the possible autonomic and responsible humanity.

It´s equally likely, in harmony with the narration´s common understanding and dialectics, that everyone, being human, owns this potential at a certain maturing degree; those most predisposed and well-inclined ones, due to talent or mimesis, would reinforce the prevalence of this autonomic virtue at the social community environment, confirming this potential in accordance with choices and good advices. Should this autonomy and freedom not be demonstrated on the spontaneous social expressivenesses, nor being them meaningfully evoked on the normative rules in force, one can suppose that the common human being, belonging to the mass, is only acknowledging the vulgar meaning of the word ‘subject’ – of subjection, vassalage, – deprived of sufficient brightness to acknowledge that he´s potentially owner of his own will and autonomy, in a certain way, practicing or not this freedom, choosing and deciding his operative reality – idealistic repulsion or resolute fiction.

The healthy, typical subject, is a state-of-being responding for its acts, naturally endowed with a sufficiently wide intelligence to, on the circumstance where it lives, be able to, at its free will, establish itself responsible for the values and guidance where it chooses to walk through. In this case, according to this potential, the circumstantial ups and downs of the society operate on the truths and veracities one wants to exercise or not. This means that the human statute is a state-of-being which is consciously decided upon, in accordance with the potentials, to certain degrees, given by nature, improved and educated, or unconsidered and disrespected. Before the will and freedom autonomy exercise, as supposedly indicated, the subject is who decides what he wants to be; what doesn´t imply a lack of duty: the subject, true human being must be what he is – and might only be and live well according to his given-to-be basic nature.          

From the right state to the state of right

The typical subject, human as appropriately said, sufficiently intelligent, responds for its acts on the circumstances where it lives, establishing itself responsible for its values and guidance. Would there be someone representing an enacting an entity pronouncing itself as the Judge of Right, able to boldly dare to teach based on the negation of this state-of-being natural virtue, responsible and potentially open to this will full autonomy?  Who could be a judge and defender, established as a just representative of a State of Right, seated on the pedestal and ritual scenario of some court, evoking an ‘intrinsic, universal and irresponsible human domination instinct, demanding custody’?  Who would be him, simultaneously, universally denying the freedom potentials, autonomy of the state-of-being´s will and presenting itself as the lucid holder of an institution dedicated to the justice exercise? The mystic vehicle of a pure institutional spirit, vivified on revealed scriptures? Not being a ‘farceur’ a deceitful representation, this good sense can only be seriously taken into consideration when manifesting itself an exceptional counter-example of its doctrine, a rare and exceptional worthy representative of a special nobility diffusing a greater evolutionary potential, illustrating and elitist origin or, optionally, a somehow supernatural human being, chosen by a greater force to righty judge and guide.

But, guide and judge what kind of state? A ‘state of right’ the founding virtue of which is denied; impossible! Or, as a wage earner, defending an archaic ‘right-of-state’ conquered through instinctive domination? Not declaring itself integrating an elite, or a chosen descending from the divine plane, but showing its humanity even prior to being able to practice justice, a judicious right good sense can never deny the possibility of the humanity actualize freedom and the autonomy potentials as evoked by the learned ones and largely publicized on the historical renascence and illuminism times.

Leaving behind faith´s most aggravating moments when on its historical, medieval apogee a humanity without original virtue used to be evoked, demanding custody by atavistic need, millenary catechesis that never evidenced any efficiency to establish a worthy of praise state of right, not even at the domineering churches reserved range notoriously incongruent and corrupt, the good sense, as exemplified and evoked by philosophers, will have to be remember and defended with tireless faithfulness in order to exemplify and exercise its function as duly due – or, denying such potentials, disregarding the philosophers view, will have to accept not being an effective sense of right, but mere, circumstantial and accidental arbitrator, vicar of a status quo established by domination force, deeply rooted into a lack of right.

From the original state-of-being, native source of a huge and talented lucidity, apt to open even to the most virtuosic brightness where autopoietic creative qualities, essentiality inerrant and responsible for modeling the act of existing and producing political contexts, are acknowledged and decoded, humanity is placed in an ungrateful situation, deprived of acquiescence and acknowledgement signs, disqualified, positively discredited on its potentials, declared inherently ‘fragile and vulnerable’! The nature flower that can blows its brightness and freedom in humanity doesn´t meet the adequate cognitive and visionary reception which should be affirmed without blunders by those who are qualified instead of educating and judging and whose duty is to defend and raise the state-of-being self-value an esteem: evident, a rightful acknowledgement of itself, a deep respect to itself as human nature, is the source of all virtue and right, necessary foundation, core of this autopoietic qualities where the reality of a free, autonomic and creative will is rooted.

Self-defeated, fallen from the universal plane for not recognizing itself on the voices, its voices, reflected on the media where culture is condoned, disqualified in the pulpits and tribunes where, precisely, it should be praised, humanity sweeps from an autonomy potential position, largely acknowledged and praised in the classical culture, to a vulnerability statute and will insufficiency, requiring radical custody.

When an oversized vessel, sails without a defined route, captained by pirates of all tones and denominations, facing a historical disorder situation, the crew uneasiness bordering mutiny, there will be no justice, but a circumstantial and accidental legalism; the right won´t be lawful, but adapted and roughly ‘decoded’ to negotiate sufficient understandings and relationships to maintain the customary and disordered powers resulting from aggravated and disoriented instincts. It´s when the ‘law’, deprived of ontological values, humiliated, at the service of a corporate reality, commanders not clearly denominated, will try to justify itself unfolding a diversity of minor rights to several consumers, advocating to be the ‘will and freedom autonomy’ fictitious ideology, unrealistic artifice; then, a legislation aligned and adapted to a degrading doctrine describing and admitting ruthless dominations established in atavistic instincts as a stage impossible do be surpassed, considered inherent to human nature, untamable – a perdition.

 Evolutionary and Impeditive Contradictions

The minor, customary and dialectic contradictions, which usually take place on the course and warmth of the events, progress and outcomes, can satisfactorily be cured, at the light of judicious dialogs, however, should no fundamental doubts and basic contradictions exist regarding the identity acknowledgement and potentials relating to the state-of-being and ought to be, in accordance with its nature. In a certain environment, when some functional and peripheral, random contradiction exist, made explicit in trivial applications and facts, deliberating crimes with or without penal responsibility, there will be sufficient foundations to a judicious application of the right, with or without appeals; but facing fundamental contradictions, relating to the state-of-being´s potentials and virtues, without fundamental ethos where to establish duty and rights, legality does not reign.

In this intricate modern corporate plot, resulting from a pathetic immaturity that can only be evolutionary, two diverse and opposing identifiers are manifested. An identifier, historically typical of the theological order, indicates human nature as decayed, an opinion aligned to the reasoning of the wits evoking this ‘intrinsic domination instinct’ innate lack of virtue, to establish specially decoded rights to attend those vulnerable ones, incapable of automatically orienting themselves, requiring instructors, being either human or superhuman. The existing of preferred wits as advisors capable of judging and repairing these merits, implies the possibility of overcoming this supposed atavistic incapacity, being considered exceptional human beings, identified as integrating an elite endowed with special nobility, be it due to excellent education or ontological determinisms. The second identifier, of philosophic nature, exemplifies and recommends praising an identity demanding the potential simplicity of the subject´s will and freedom autonomy. We are confronting the legality of contradictory concepts at several levels of competence.

Therefore, being the central contradiction located on the right´s theoretical foundations, as made explicit above, where freedom and the will´s autonomy is denied as human specificity in favor of a ‘natural domination of the instincts’, there will be no more judicial debate or dialog; not existing then the potentials where duties and responsibilities should be laid upon. The justice deliberative exercise will transmute in a legalist and inquisitive fundamentalism, which when applied by human beings, naturally human, then, in so far as the defendants, essentially instinctive, the exercise of the right will slander in a simulacrum arbitrating in favor of the domineering structure and installed order providers. There will be no more judicial excellence, as appropriately said, but the traditional application of prophetic inspiration punishing rules, or mere demonstrations of power consecrating the victorious mandates, marked cards justice simulacra.

History has largely demonstrated the consequences resulting from the application of infra-human identifications, reducing the state-of-being to an instinctive and brutal statute, savageries; or imagining a ‘pure being’, emanating virtues through elitism or supernatural choices, despotisms, ways of war and terror: destinies of the brutes.

Between sub rosa injustice and balsamic justice

Therefore, it is typical of this post modern right, to scatter and evoke this turbid idea of the ‘subject´s inevitable vulnerability’, effectively circumstanced fragility, resulting from iniquities and historical and traditional bewilderments which do not denounce themselves.

Though the subject´s ethical fragility being considered universal, generic, the consumer protection law(s)’s statute is limited to those so-called ‘natural person’, those expressing this ‘inherent vulnerability’ as predisposition to be constrained in the market´s intricate gears, not finding ways to provide themselves with the corporate attributes and supports typical of the ‘legal entity’ who benefit from subsidies and contractual protection conveying some constraint means typical of the States and mixed capital and state companies emerging from the hobbesian Levianthan tracks. To offer this special condition and forum of protecting custody to the ‘natural persons’, to the ‘consumers’, most weakly located in the corporate plot, is the necessary condition warranting and making possible the judicial exercise of this compensation, working as a soothing palliative, justifying a justice that does not intend to unveil the normative structure and corporate framings where these special rights needs are built and established.

If, effectively, this right, intending to defend every fragile beings were enlarged to all the entirety of those living below or tangled in this vision, myth and metaphysics affirming the human being as essentially vulnerable, all structures where one constrains others not to be constrained or destroyed, where these actions, reactions e defenses operate would have to be inspected and blamed. The process would be endless, forcing to cancel the iniquity in all its rays and curves: it would characterize and show us as globalized beings, living in a structure seeming and feigning to be a free market, but being a monetary monopoly, a fiduciary capital society, managed by corporate technology and huge bureaucracy the central source of which would be revealed as a mere instinct of domination constraining freedom and will autonomy, exercised through a catechesis and foundational doctrine, a cult: exactly the same elitism where the need of supporting the vulnerable and constrained is established and affirmed. An exercise the amplitude of which would force to change the view, the civilizing epistemology, the culture, returning to praise the subject´s autonomy, its freedom and equality before existence, removing those who live structured in a profitable order, providing custody to those who need it.

Fundamental, rightful duties

To establish a type of circumstanced justice to attend a ‘vulnerable and weakened subject’, thriving in adverse circumstances is certainly praise-worthy, but to pilfer and to maintain sub rosa the iniquity of the weakening corporate circumstances on both senses of the term: a) vulnerability, pre-disposition to being constrained and cheated due to lack of prudence and b) vice, tendency to behave as a constraining, instinctive and domineering machine: is to raise the accidental to the subject´s characteristic and essential statute, implying a serious inversion and disfigurement.

The raising of an evolutionary tension moment, clashes when unhappy corporate  expressivenesses predominate, to a process reflecting a supposed innate, frail and vulnerable nature contrary to virtue and brightness, tilted and aimed to exercise constraint and domination, dishonor and obliterate the human nature, the homo sapiens´ concept and the fundamental philosophical virtues where the brightness, the will autonomy and self-criticism are understood as inherent to the human state-of-being.  This somber picture is based on the typical view of dualistic theology evocating a human state-of-being slandered and without choice: it´s the blunting of the philosophical brightness where the freedom and the will´s autonomy are rooted, before an animal instinct, inciting the living beings to fight in order to ones rule the others. To arbiter special rights established in a doctrine advocating an ethical vulnerability understood as necessary and universal, is equal to raise the present and accidental state of corporate domineering ideological structuring at his final stage of globalization, as the legitimate and flaming expressiveness of the true human nature.

Even facing tiresome evolutionary moments and clashes – as the serious global economic disfigurements established after the two world wars – and living in environments way down below those allowed by the potentials explained and exemplified by the philosophers and learned ones of all times, remembered and forgotten, it is the duty of those who put themselves in the place of administering justice, despite all risks, equally dedicate themselves to three sacred and fundamental needs: 1) arbitrate the more righteously possible in all contexts and circumstances permitted in political systems envisaged in historical and cultural swordplay; 2) as sacred duty before what´s human, always assert the freedom potentials and the human being autonomy as subject; 3) indicate and denounce all present, historical or traditional partisan or corporate plots and teleology’s oriented to reduce freedom and autonomy potentials in every political, pedagogic, theological, economic and civil fields – either established or claimed as projects.

To do less is to align with the fundamentalists, is to break the distinctions between religion and right, preaching some kind of ‘xaria law’, searching for an after world deprived of body, it is to join those who assert being the human culture an inferior and unavoidable sprouting of domination instincts; an accidental adventure without direction, connoting being the Athenian’s dialogic and autonomous city, mere fictional utopia.

Right and justice, as such, derive from the learned ones´ and ancient philosophers´ libertarian thought, be them either Greek or other native and gentile; justice hope is attained only with firmness, advocating in favor of the will´s freedom and autonomy: to advocate less, in any case, is to affirm ignorance and vice, and disqualify the interlocutory sincerity, integrity and intelligence; this is why the right is based on the respect and on the acknowledgement of goodness in humanity, which is virtue itself, legitimate assertion where the potential operates, according to its nature.

 

 

 

Da piedade do sujeito na investigação científica ~The Subject´s Piety on Scientific Investigation

 Dialogando com Antonio Ereditato e Etienne Klein

ideias_Platão

Régis Alain Barbier

A ‘separação radical do sujeito-científico frente ao objeto’ deve ser considerado numa posição espiritual, a partir de onde, diretamente, se atrai ou extrai as ideias, seja do plano platônico ou divinal.   

Pesquisar a estrutura da matéria-energia em níveis de detalhamentos que não permitem delimitações sensoriais imediatas, ou secundárias de primeira ordem, mas, fundamentadas no estudo de sinais indiretos de enésimos graus, obriga a recorrer a sondagens e experimentos produtores de dados engendrados por intermédio de aparelhagens complexas. A esfera de investigação subatômica e cosmológica demanda a elaboração de sofisticados instrumentários teoréticos e físicos para coletar e transcrever evidências cada vez mais indiretas, expressas em sinais fisioquímicos, exigindo decodificações laboriosas, categorizações lógicas, estatísticas e semânticas específicas,  em busca de resultados esperançosamente objetivos.

Problematizar buscas para testar dados e significados hipotéticos por intermédio dessas tecnologias psicofísicas criativas, embora, postulando, como critério epistemológico apriorístico e fundamental, “uma evidente e clara dicotomia do sujeito (consciência observadora) do objeto de estudo (das coisas supostas existir)”, na esperança de distinguir e bem delimitar fenômenos subatômicos ou cosmológicos, parece um tanto azarado. Asseverar que a ordinária dicotomia sujeito-objeto, de comprovação imediata e evidente ao escovar os dentes, passar troco, perdura em todo os lugares, por mais extraordinários que sejam, exige uma convicção sujeita a desmoronamentos espetaculares, similar ao que exigiu rever a ideia de que ‘se uma pena de ave cai mais lentamente de que uma bola de chumbo no nosso quintal’, deve, igualmente, ser assim na lua!

Como certificar a legitimidade e bom-senso de elevar uma certeza, resultante de uma praxe corriqueira, que se confirma vestindo e tirando sapatos, à categoria de postulado epistemológico universal,  pretendendo fazer ciência clara e precisa em esferas que não sejam categorizáveis nas magnitudes convencionais, por evocar totalidades e dimensões estruturais absolutas, cósmicas? A disfunção metodológica resultante em querer desbravar um território ‘x’, subatômico e cosmológico, com um posicionamento e postulado epistemológico pragmático utilizado a miúdo num território ‘y’, em circunstâncias, ordem de grandeza e categorias gerais que não correlacionam com ‘x’, poderá desafiar a fecundidade específica dessas buscas subatômicas e cosmológicas – embora não, necessariamente, as produtividades colaterais e indiretas resultantes dos esforços tecnológicos empreendidos na aleatoriedade dos empreendimentos.

Longe de ser evidente, como se pretende, o postulado mor desse cientificismo exacerbado onde o sujeito investigador declara a si mesmo ‘radicalmente separado da matéria-energia em estudo’, em quaisquer circunstâncias, inclusive, empreendendo pesquisas, querendo abraçar totalidades universais, de subatômicas a cosmológicas, é improvável, previsivelmente disfuncional em situações em que os dados especulados se elaboram e notificam por intermédio de engenharias e processos decodificadores muitissimamente indiretos e complexos. Afinal, ou o sujeito é separado dessa totalidade, ou integrado; no caso do cientificismo é declarado separado, distinto do plano cósmico: qual seria o estatuto dessa distinção? Nesse xadrez muito apertado, no desconhecimento da equação regimentando a distinção, postulados dogmáticos, matemáticos e teleológicos, terão de regular as dúvidas e indistinções!

Na prática, os diversos níveis de complexidades, incertezas epistêmicas, metodológicas e técnicas, possibilitam inúmeras falhas, como conectividades inadequadas de instrumentos e outras insuspeitadas, o que, certamente, interfere nos resultados, suas interpretações, cogitações subsequentes e arroubos teoréticos motivando novos projetos: uma demonstração provisional da carência de neutralidade dos sujeitos, desafiando a firmeza dos postulados: poderá o sujeito investigador de neutrino ser neutro? Seria, esse sujeito pesquisador, quantitativamente distinto do plano cósmico, mas não da corporeidade? Nesse caso, os átomos do cérebro teriam uma realidade diversa dos átomos do mundo, garantindo a separação – poderia o ser humano ser um alienígena, embora feito dos mesmos elementos?

Seria, esse sujeito misterioso, distinto do plano cósmico ‘epifenomenicamente’, como afirmado na teoria da evolução? Neste caso, aceitando um certo continuísmo causal, o cientificista deverá ser capaz de bem diferenciar e isolar o ponto de surgimento-separação acontecido no plano diacrônico da evolução, desse ‘epifenomenismo sincrônico’ da atualidade, estabelecendo bem o intervalo entre esse epifenômeno consciencial e a realidade, antes de postular uma distinção suficiente, ou radical, operando extremos subatômicos e cosmológicos onde as distinções são suteis e tradicionalmente incertas.

Ou seria o sujeito, necessariamente ou provisionalmente, algo como um ‘atributo contíguo’, logo descontínuo, em relação ao plano cósmico, independentemente da teleologia subjacente, seja spinozista ou outra, relativa a essa situação? Mas, nesse caso, teria de se delimitar bem essa contiguidade, principalmente nas pesquisas subatômicas apertadas, evocando antimatéria; como arquitetar essa descontinuidade intrínseca, isolá-la das possíveis descontinuidades subatômicas? Nesse caso, o cientificismo seria, antes de tudo, uma forma indiscutível de ‘teísmo horizontal’, apriorístico, um posicionamento, certamente, condicionante e comprometendo a epistemologia e gnosiologia referente a uma investigação científica das origens no plano subatômico e cosmológico: existir expressando atributos necessários, extens e cogitans, permite uma investigação neutral? Ou então, examinando melhor, não existiria uma distinção-separação substancial entre o sujeito e o real; mas, uma capacidade radical de reflexionar a realidade na consciência do sujeito. O que implicaria a necessidade de bem diferenciar esses reflexos do real – senão equacionar o que seria a ‘imaterialidade da consciência’ – implicando uma outra reflexão, transcendente em relação à primeira, replicando a mesma dificuldade ao infinito.

Ou o sujeito não seria realmente ‘separado’, mas isolado na sua subjetividade ‘transcendental’? Logo, não estando numa posição privilegiada para estudar esse mundo-além dos entrançamentos subjetivos – sejam ‘supralunar’ ou ‘coisa-em-si’. Um sujeito transcendental, separado e isolado em si, pode estudar, sem ‘sujeições’, com neutralidade, os ordenamentos específicos da ‘coisa-em-si’?

Um modelo epistêmico duvidoso, senão absurdo, expressando o efeito ideológico constrangedor de uma apreensão metafísica dualista na eleição, orientação científica, direção política e implementação orçamentária das pesquisas. Um cerne civilizatório onde se deslocam, além-cosmos, os significados e motivos da existência, imaginando-se uma dicotomia radical do ‘estado-de-ser’, ou ‘dado-a-ser’ em: espírito absoluto, ou inteligência apriorística radical, o reino do ‘Ser’  (o paradigma fundador da ideia de sujeito), sobreposto a uma estrutura material degradável e mutante (o objeto paradigmático dos estudos científicos), exemplifica uma apreensão fundadora metafísica dualista, vinculada às suas origens históricas, com consequências ideológicas abarcando todas as manifestações existenciais, como convém às epistemes: usos-costumes e teologias sectárias, relacionados posicionamentos cognitivos, estilos pedagógicos e políticos, sistemas de patrocínios, formas econômicas fiduciárias: todos, fatores influindo as escolhas e orientações das pesquisas, métodos investigatórios, decorrentes esperanças produtivas ansiando transformar a matéria-energia, suporte necessário da existência, numa estrutura dominada por sujeitos dissociados e neutrais, de alguma forma  transcendentes. Espíritos, semideuses advindo do além-mundo?

Esforços que poderiam ser melhores gerenciados e concretizados procurando enquadrar as elaborações dos projetos e das buscas em: 1) formas epistêmicas e teleológicas filosoficamente mais ecumênicas, em todo caso melhor assentadas; 2) modelos mais participativos, incluindo o público pagando impostos; 3) subvenções mais realistas, aventuras que não fossem inflacionárias, propulsadas através de monopólios fiduciários carentes de lastros, trusts congregando estadistas, banqueiros e cientificistas empreendedores: inveterados idealistas sedentos de grandiosidades. Mas, nesse caso, é provável que não se apostaria investir na ‘delimitação objetiva dos neutrinos’ (ultimamente, eventos psicofísicos, frutos metafísicos da relação matéria-energia versus a presumida realidade-neutral do sujeito), mas sim, em pesquisas visando a instalação política e realização mais efetiva e democrática dessa elevada aspiração que advoga a excelência autonômica dos sujeitos que, no momento, não passa de retórica falaciosa e decoração de frontispícios nas atuais, mas extemporâneas repúblicas ainda modelando o desenho teorético de Platão.

“Provisionalmente” o posicionamento científico associado à episteme do “sujeito dissociado” correlaciona melhor ao teísmo, em parte, graça ao preparo ideológico – histórico, tradicional e corriqueiro fideísmo – das nossas fileiras de pesquisadores e Recursos-Humanos: a “separação radical do sujeito-científico frente ao objeto” deve ser considerada numa posição espiritual, a partir de onde, diretamente, se atrai ou extrai as ideias, seja do plano platônico ou divinal.

Regis Alain Barbier, Aldeia, 2013

 

The Subject´s Piety on Scientific Investigation

Dialoging with Antonio Ereditato and Etienne Klein

 

The ‘radical separation of the scientific-subject before the object’ ought to be taken into consideration as a spiritual position, from where the ideas are directly attracted or extracted, either from the platonic or divine plane.

To research the matter-energy structure in details not allowing immediate sensorial delimitations, but based on the study of indirect signs of umpteenth degrees, forces one to go through data producing investigations and experiments caused by means of complex devices. The subatomic and cosmologic investigation sphere demands the production of sophisticated theoretical and physic instruments to collect and transcribe more and more indirect evidences, expressed in physiochemical signs, requiring laborious decoding, logic categorizations and specific semantics in search of hopefully objective outcomes.

To endeavor researches to test hypothetical data and meanings through these creative psychophysical technologies, though, requiring, as aprioristic and fundamental epistemological criterion, “an evident and clear subject´s dichotomy (observing consciousness) of the object under study (of the things that supposedly exist)”, hoping to distinguish and well delimit subatomic or cosmologic phenomena, seems to be rather unfortunate. To assure that the ordinary subject-object dichotomy, immediately and evidently evidenced when brushing the teeth, giving change, endures everywhere, the most extraordinary might be those places, requires a certainty subject to collapse, similar to the one that required to review the idea that ‘if a bird´s feather falls more slowly than a lead ball in our yard’, it must, be equally so on the moon!

How can one certify the legitimacy and good-sense of raising a certainty, resulting from a current practice, which is confirmed putting on and taking off shoes, to the category of universal epistemological postulate, intending to make clear and precise science in spheres not included in the conventional magnitudes categories, because they evoke entireties and absolute, cosmic structural dimensions?  The methodological dysfunction resulting from the will to explore a subatomic and cosmologic ‘x’ territory, with a pragmatic epistemological positioning postulate frequently used in an ‘y’ territory, in general circumstances, order of grandeur and categories which do not correlate with ‘x’, might challenge the productivity of these subatomic  and cosmologic searches – although, not necessarily, the collateral and indirect productivities resulting from the technological efforts carried out in the enterprises contingency.

Far from being evident, as one might intend, the great postulate of this overemphasized scientism, where the investigating subject states himself ‘radically separated from the energy-matter under study’, in any circumstance, inclusive, performing researches, willing to embrace universal totalities, from subatomic to cosmologic, it´s unlikely, foreseeingly dysfunctional in situations where the speculated data are worked out and notified through engineering and extremely indirect and complex decoding processes. At last, either the subject is separated from this totality, or integrated to it; in the scientism case it´s declared separated, distinct from the cosmic plane: which would be the statute of this distinction?  In this very tight position, in the non-acquaintance of the equation regulating the distinction, dogmatic, mathematical and theological postulates will have to regulate the doubts and indistinctions!

In practice, the several levels of complexities, epistemic, methodological and technical uncertainties, make possible the occurrence of several failures, such as inadequate connectivity of instruments and other unsuspected ones, that, certainly, interfere in the results, their interpretations, subsequent cogitations and theoretical ravishments motivating new projects: a provisional demonstration of lack of the subjects´ neutrality, challenging the postulates firmness: might the investigating subject from neutrino become neutral? Would, this theoretic researcher subject, be quantitatively distinct from the cosmic plane, but not from the corporeity? In this case, the brain´s atoms would have a reality diverse from the atoms of the world, guaranteeing the separation – could the human being be an alien, though made of the same elements?

Would this mysterious subject be  ‘epiphenomenically’ distinct from the cosmic plane, as stated in the evolution theory? In this case, accepting a certain causal ‘continuism’, the scientiphicist ought to be able to well differentiate and isolate the emerging-separation point that took place in the evolution diachronic plane, from this present ‘synchronic epiphenomenism’, well establishing the interval between this conscientious epiphenomenon and reality, before requiring a sufficient or radical distinction operating subatomic and cosmologic extremes where the distinctions are subtle and traditionally uncertain.

Or would the subject, necessarily or provisionally, be something as a ‘contiguous attribute’, soon discontinuous, in relation to the cosmic plane, independently from the subjacent teleology, be it Spinozist or any other, relative to this distinction?  But, in this case, one would have to well delimit this contiguity, chiefly in the tight subatomic researches, evoking antimatter; how to conceive this intrinsic discontinuity, isolated from the possible subatomic discontinuities?  In this case, the scientificism would, first of all, be an unquestionable form of aprioristic ‘horizontal theism’, a positioning, certainly conditioning and jeopardizing the epistemology and gnosiology referring to a scientific investigation of the origins in the subatomic and cosmologic plane: to exist expressing necessary attributes ‘extens’ and ‘cogitans’, allows a neutral investigation? Or then, better examining, there wouldn´t exist a substantial distinction-separation between the subject and the real; but, a radical capacity to mirror, to speculate about the reality in the subject´s consciousness. What would imply the need of well differentiate these reflexes from the real – but equate what would be the ‘consciousness’ immateriality’ – implying another meditation, transcendent in relation to the first one, replying the same difficulty ad infinitum.

Or wouldn´t the subject be really ‘separated’, but isolated in its transcendental subjectivity?  Then, not being in a privileged situation to study this world – beyond the subjective interlacing – be them ‘supralunar’ (beyond the moon) or ‘thing-in-itself’. Can a transcendental subject, separated and isolated in itself, neutrally study, without ‘subjections’, the specific ordainments of the thing-in-itself.”?

A questionable epistemic model, rather absurd, that expresses the constraining ideological effect of a dualistic metaphysical apprehension on the researches´ election, scientific orientation, political direction and budgetary implementation. A civilizing core where the existence meanings and motives are displaced, beyond-cosmos, when a radical dichotomy of the ‘state-of-being’ or ‘given-to-be’ is imagined on: absolute spirit, or radical aprioristic intelligence, the reign of ‘Being’ (the founding paradigm of the subject idea), juxtaposed to a degrading and mutant material structure (the paradigmatic object of the scientific studies), exemplifies a founding dualistic metaphysical apprehension, entailed to its historical origins, with ideological consequences comprising every existential manifestations, as suits to the episteme: uses, customs and sectarian theologies, related cognitive positioning, pedagogic and political styles, sponsoring systems, fiduciary economical ways: all of them, factors influencing the researches choices and orientations, investigating methods, current productive hopes earnestly desiring to transform the matter-energy, existence´s necessary support, into a structure ruled by dissociated and neutral subjects, somehow transcending. Spirits, demigods from the beyond-world?

Efforts that could be better managed and achieved seeking to fit the working out of projects and searches in: 1) philosophically more ecumenical epistemic and theological forms, in any case better established; 2) more participative models, including the tax payers; 3) more realistic subventions, not inflationary adventures, driven through fiduciary monopolies, trusts congregating statesmen, bankers and entre-preneuring scientists:  inveterate idealists thirsty for outward splendour. But, in this case, it´s likely that no one would bet in investing on the ‘neutrinos´ objective delimitation’ (lately, psychophysical events, metaphysical fruits of the matter-energy relationship versus the presumed subject´s neutral-reality), but yes, on researches aiming the political installation and more effective and democratic realization of this high yearning advocating the subjects´ autonomic excellence that, presently, is nothing but deceitful rhetoric and frontispieces; untimely republics still modeling Plato´s theoretical design.

The scientific position associated to the “dissociated subject’s” episteme is better correlated to theism, in part, thanks to the ideological preparation – historical, traditional and current fideism – of our researchers and Human-Resources ranks: the “radical separation of the scientific-subject before the object” ought to be taken into consideration as spiritual position, from where the ideas are directly attracted or extracted, either from the platonic or divine plane.

By: Regis Alain Barbier, Aldeia, 2013

 

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