Mês: fevereiro 2013

A Lúcida textura do real ~ The Lucid Texture of what is real

Régis Alain Barbier

La-Chevre-De-Monsieur-Seguin

With english translation below the text in Portuguese

Qual o lugar de onde se pode enxergar tudo quanto existe; imaginar e pensar sobre tudo: não será a consciência humana que é a lucidez do mundo? Nada se revela fora desse ‘lugar consciencioso’ onde se pode sentir e cogitar o Cosmos, fantasiar o que não existe, até mesmo acreditar na realidade do impossível. Viste, imaginaste, pensaste algo ‘fora de si’?

Para mim, até mesmo o que aparece em condições especiais, num entardecer, quando os pássaros, árvores e flores aquietam para contemplar as estrelas, ou, quando sonho, não sei bem se acordado ou dormindo, imagino ter sido ‘visitado por um ‘ser’ trazendo uma nova ideia, uma revelação: tudo isso aparece no arco desse lugar onde, desde o berço, conscientizo tudo aquilo a que posso ter acesso, conhecer ou ouvir dizer.

Nos primórdios da minha vida, professores sisudos segurando réguas, outros, como no teatro, vestidos de preto ou colorido, lutavam para me convencer, e aos alunos espantados, que existia um ‘além-mundo’, mas que não poderíamos conhecê-lo por nós mesmos, tampouco sendo o que éramos!

Seria um ‘além’ muito mais real, tétrico ou maravilhoso, apenas acessível por merecimento, de acordo com o grau de pureza das pessoas. Tampouco esses educadores conheciam esse lugar, igualmente incapazes de acessá-lo sendo o que eram; mas haviam adquirido a certeza da sua realidade – “tão fundamental ao destino dos viventes”, diziam – porque a notícia explicativa da sua existência estaria contada numa coletânea de livros antigos, escritos por pessoas que, nesse passado remoto, teriam tido o privilégio de conhecer sujeitos extraordinários vindos de lá.

Fui informado que já era uma graça imensa conhecer essa boa nova, mas que teria acesso a esse lugar sobrenatural apenas depois da minha morte, depois de deixar de ser o que até então pensava ser, sendo, efetivamente, uma alma e espírito oriundos desse lugar além, mas acidentalmente incorporado em mim; isto é, no meu corpo. Que o meu destino post-mortem era esse lugar onde seria julgado e enviado para um paraíso ou um inferno; assegurando uma vaga no paraíso sendo obediente e bom, acreditando nessa boa notícia e cultivando a fé.

Um lugar que não poderia conhecer por mim mesmo, sendo o que sou, como nasci, mas apenas depois de morto, por intervenção extraordinária e agraciamento, sendo a vida, que levava e pensava saber e conhecer, uma bolha provisória de sentimentos e conhecimentos ilusórios.

O que devia fazer para garantir um bom lugar nesse misterioso destino? Ser obediente, bom, acreditando nessa boa notícia e cultivando a fé. Ser bom, praticar a bondade: certamente uma disciplina muito boa, que já praticava naturalmente com as flores e os animais, que adorava regar e alimentar, o que me deixava feliz, sendo isso muito bom para mim. Claro, quando ultrajado por algum colega de classe, eu podia não ser tão bondoso, uma vez ou outra.

O que mais me espantou é que eles atestavam que tudo isso existia, sem de fato conhecer esses lugares, mas tendo lido a respeito em um livro escrito por pessoas há muito falecidas e que teriam conhecidos esses visitantes ou porta-vozes do além… Neste contexto nebuloso, assentava o enredo da história que eles contavam dessa forma tão pomposa, e eu via na imaginação esses lugares cheios de monstros ou anjos como nas pinturas; coisas que não imaginava antes de ter sido educado por eles.

Mas, nos recreios, sendo criança imaginativa, eu via, igualmente, magos dotados do poder de descobrir tesouros nas florestas e nas ilhas. Eu mesmo já havia encontrado uma cabrinha de chumbo no jardim. Foi quando lia um livro bem bonito, ilustrado, onde um mago ensinava a seus alunos a arte da magia: “Sou mago, tenho o poder de descobrir tesouros e coisas perdidas com essa vareta encontrada na mata e naturalmente desprendida de uma árvore velha”. Assim procedi, aplicando o ensino sem nem usar vareta, só com a mão estendida, andando no jardim, o meu dedo indicador vibrou e desceu até o chão onde cravei e achei a cabrinha, um brinquedo bem antigo e bonito.

Tudo isso estava ao alcance da luz da minha própria consciência onde até então havia tido espaço suficiente para tudo, até mesmo para esses professores e suas histórias – que para eles não eram histórias, mas lugares reais, embora descritos por outras pessoas que não mais viviam e não se podia acessar sendo o que éramos da forma em que existíamos. Virtuoso e inteligente era igualmente acreditar nisso e obedecer ao preceitos morais – uns até falavam mal do sexo, das serpentes, maçãs e mulheres – para poder acessar esse lugar final, depois de não mais ser o que se é, isto é, morto, sendo espírito ou alma.

O problema é que não conseguia diferenciar bem as ideias e imagens que produzia com facilidade, por mim mesmo, de maneira similar ou diversas das mostradas nos afrescos e telas dos mestres pintores, com o pensamento de que esse lugar existiria, fora do mundo das ideias e das imagens, como realidade das almas e espíritos, a que de fato, originalmente, pertencia sem saber antes de ter sido informado. Procurei saber a causa de tamanha complexidade. Foi quando me informaram sobre o pecado original; notícia que me deixou muito perplexo e triste; perdi a graça, a certeza das minhas ideias, deixei por um tempo de brincar com as minhas visões. Deixei de ser mágico. Comecei a ter pesadelos, ficar irritado e mal-humorado.

Certo dia, abstraído em meus pensamentos, procurava com grande aplicação, diferenciar as ideias e imagens – as ‘teorias’, como dizia um professor de matemática – desse ‘mundo além’ como informado nos livros da tradição, da possível realidade da narrativa, que incluía a parte que falava do pecado original, que eu era uma alma, ‘espírito’ de alguma forma impuro, ‘banido’ e lançado nesse mundo da matéria e do sensório, como haviam dito. Mesmo concentrado ao máximo, não consegui me aproximar de um ponto de encontro ou contato em que pudesse diferenciar esse mundo das ideias – das “imagens pictóricas e literárias”, como explicaria mais na frente aos meus alunos – de um mundo postulado como realidade sobrenatural, como eu diferenciava o mundo dos meus pensamentos e fantasias da textura do mundo real onde viviam as flores e os animais que gostava de observar.

Foi quando tropecei num gato rondando os meus pés. O animal gemeu e me irritei, quase querendo acertar um chute no bichano que era preto e só possuía um olho, parecendo um monstro e quase motivando a minha queda.

De súbito, despertei dos meus ensimesmamentos! Entendi que tudo isso não passava de teorias, cantos de sereias cegamente reproduzidos por prelados e educadores, encantos que não correspondiam a uma verdade que se pudesse de alguma forma comprovar. Entendi que o sentimento, como eu me sentia mergulhado nesta adversidade onde tinha adentrado escutando histórias, devia ser o critério para escolher acreditar, para interagir, como no caso da vareta mágica: brincar, ou não, o jogo da veracidade com essas narrativas descabidas, trazendo assuntos referentes a espíritos e mortos?

Percebi de repente que, para mim, existe apenas esse mundo, esse vasto Cosmos indo das margaridas até às estrelas, do meu coração, feliz ou triste, até esse entusiasmo que me fazia encontrar cabritos montanheses e altivos no quintal de uma casa bem modesta na margem da colina. Eu era essa pessoa plena, como o gato era gato, funcionava bem de acordo com a ordem da natureza! Livre desse pensamento duvidoso e assombrado imaginando ser autor de um ‘pecado original’, oriundo de um mundo impossível aos vivos, pertencente a uma história onde eu não era digno e sim vilão, a ponto de ficar perturbado e menos bom do que eu era antes de aderir a nesse horrendo pacote escolástico, corri atrás do gato que era da vizinha, meu conhecido.

Menos rancoroso e rígido de que muitos batizados, aceitou logo as minhas desculpas e perdoou, recebendo os meus carinhos; ficamos amigos de novo e compreendi que não tinha nem espírito nem alma! Simplesmente, sou como a natureza pode ser, existindo, e, sendo assim real, sensível e consciente de mim. Na luz dourada do pôr do Sol, banhado dos raios da luz do céu, aprendi que a minha consciência é a consciência do Cosmos, que ele e eu somos dois amigos que se enxergam e se contemplam sem sombra alguma, de uma forma ou de outra, sempre novos, e eu sabendo ser um feliz e bom mago.

Tempo depois, aprendi que pensando e sentindo dessa forma poderia muito bem ser batizado panteísta! E você? É uma alma e espírito encarnado vindo do mundo das histórias, que são sempre pensamentos e imagens, onde és um banido? Ou talvez mais profeta querendo trazer a ‘boa nova’? Ou então é um mágico pensando o que bem quer, do jeito que lhe agrada e agracia?

Prometi a mim mesmo duas coisas: rejeitar com vigor narrativas estranhas, ideias vergonhosas, destiladas em escrituras arcaicas e embrulhadas em retórica de pedestal, invocando espíritos e mortos que não intuo nem sinto, ousando alvitrar que não sou digno, mas vilão nativo e batizado, iludido e acidental, ignorante radical, destituído de visões válidas e coração sensato!

Sempre guarnecer e conquistar uma posição clara e imediata, bem fundamentada, em que posso pensar direito e sentir a felicidade de naturalmente reconhecer e abrilhantar a alegria no rosto e nos olhos dos que vivem, saber contemplar a estrela solar luzindo em cada flor, escutar a flauta celestial da brisa tocando o bambuzal e a glória no cantar dos pássaros: honrar, acima de tudo, o mundo campestre e verdadeiro, porque vivo da minha própria natividade, lugar evidente em que posso confiar na minha intuição, seguir os sentimentos e pensamentos felizes que abrolham por si só quando a alegria e o amor alvorecem ao encontrar as magníficas criaturas que aqui existem para se ver e tocar.

The lucid texture of what is real

images

Which is the place from where one can see all that exists? To imagine and think about everything: is it not the human conscience which is the lucidity of the world? Nothing is revealed outside of this ‘conscientious place’ where one can feel and think about the Cosmos, fantasize about what does not exist, and even believe the reality of the impossible. Have you ever seen, imagined, thought ‘outside of yourself’?

For me, even what in special conditions appears, in the onset of the evening when the birds, trees and flowers become quiet to contemplate the stars, or when I dream – not even knowing if I am awake or sleeping – I imagine having been ‘visited by a being’ bringing a new idea, a revelation: all of this appears in the arch of this place where, since the time of the cradle, I become conscious of all that which I can have access to, can know, or can hear said.

In the early stages of my formation, serious teachers clinching rulers, and others, seeming part of the theatre, dressed in black or in colors, strove to convince me and other startled students that ‘a world beyond’ existed, but that we could not know it for ourselves, especially because of being the way we  were!

It would be a ‘beyond’ that was much more real, sadder or marvelous, only accessible by merit and in proportion to the degree of pureness in people.  Nor did these educators know this place, equally incapable of having access to it for the way they were; but they had acquired a certainty about its reality – “so fundamental for the destiny of those alive”, they said – because the explanation of its existence was told in a collection of ancient books, written by people who, in that remote past, would have had the privilege of knowing extraordinary subjects who had come from there.

I was informed that it was already a divine benefit to know this great news, but that I would have access to this supernatural place only after my death, after ceasing to be what until that time I thought I was. In this case my being was a soul and spirit coming from this beyond place, but accidentally incorporated in nature  – that’s to say, found in my body. My post mortem destiny was this place where I would be judged and sent to paradise or hell. Rest assured, if I were to be obedient and good there would be a place for me in paradise, all the while believing in this good news and cultivating faith.

It would be about a place which could not be known by me myself, being what I am, how I was born. It could only be found after death, by extraordinary intervention and grace, being life which leads one to know and discover inside a provisional balloon of feelings and illusory knowledge.

What should I do to guarantee a good place inside this mysterious destiny? To be obedient, good, believing in such great news, and cultivating my faith. To be good and practice kindness: sure to be a very good discipline, already put into practice with flowers and animals – I used to adore watering and feeding them. It made me happy and this was fantastic. Clearly, from time to time, when I was disrespected by some classmate it was impossible to be kind.

What really surprised me was that they swore that all of that existed, without really knowing those places; but they had read a book written by people long dead and who had known those visitors or messengers from the Beyond… In this foggy context the plot of history was put into place so pompously, and I saw in my imagination those places full of monsters and angels just like in paintings, things that I hadn’t imagined before being educated by those people.

All the same, in my play time, being an imaginative child, I also saw magicians endowed with the power to find treasures in forests and on islands. I myself had already found a little lead goat in the garden. It was when I was reading a really beautiful book, illustrated with a magician who taught his students the art of magic: “I am a magician and I have the power to discover treasures and lost things with this wand found in the wood which naturally fell from a very old tree”. And so I proceeded, applying this teaching without even using the wand – just with my hand stuck out, walking in the garden, my index finger gave out a vibe and descended to the ground where I dug and found a small goat. It was a beautiful old toy.

All of this was in the reach of my own conscience where until that moment I had had sufficient space for everything, even for those teachers and their stories – which for them were not stories, but real places, nonetheless described by other people who no longer lived and that one had no access to, and that was how we had to exist. It was also virtuous and intelligent to believe in this and to obey the moral determinations – some of them went so far as to speak badly of sex, serpents, apples and women – in order to have access to this final place, after no longer being what being is, that is to say, dead. To be merely a spirit or a soul.

The problem was that I could not imagine a valid distinction to differentiate  the ideas and images that I easily produced by myself, in a way that was similar to, or varying from, but along the lines of the frescos and canvasses of master painters, with the images coming with the thought that that place could really exist, outside of the world of ideas and images, as a reality of souls and spirits which, originally, belonged without knowing before having been informed. I sought to know the cause of such complexity. That was when they informed me about the original sin. This news left me perplexed and sad. I lost the grace of it all, the certainty of my ideas. I stopped playing with my visions for a little while. I was no longer a magician. I started to have nightmares, becoming irritable and ill humored.

There was a day when, abstracted in my thoughts, I sought, in a truly applied way, to differentiate the ideas and the images – the ‘theories’, as said by a mathematics teacher – of this far afield ‘beyond’ which the traditional books informed us about, of the narrative’s possible reality, which included the part that spoke about  the original sin, that I was a soul, a ‘spirit’ in some way ‘banished’ by impurity and thrown into this material and sensory world in the way that had been said. Even concentrating to the maximum, I could not get closer to a meeting point or contact in which I could be able to differentiate this world of ideas – from the “pictorial and literary images”, as I would be explaining to my own students later down the track – of a world supposed to be a supernatural reality, as I differentiated the world of my thoughts and fantasies from the texture of the real world where the flowers and animals which I liked to observe lived.

It was when I tripped on a cat going around my feet. The animal moaned and I became irritated, almost wanting to kick the beast which was black and had only one eye, seeming to be a monster and almost causing my fall.

Unexpectedly  I awoke from my broodings! I understood that all of this did not even amount to theories – those sirens’ songs blindly reproduced by priests and educators, enchantments which did not correspond to a truth which could prove something. I understood that feeling – I myself immersed in this adversity brought on by listening to stories – should be the criterion to choose to believe, to interact, as in the case of the magic wand: to play or not to play the game of veracity with those unfinished stories which brought with them assumptions referring to spirits and dead people?

Suddenly I understood that, for me, just this world exists, this vast Cosmos which goes from the daisies margarida  flowers up to the stars, from my heart, happy or sad, to this enthusiasm which led me to find noble mountain goats in the backyard of a humble house set into the side of a hill. I was that full person, just as the cat was the cat, functioning in accordance with the order of nature! Free of that doubtful and shadowy thought which had me imagining myself as the author of the ‘original sin’, which originated in a world which was impossible for living people; belonging to a story where I was not dignified but a villain, to the point of becoming perturbed and worse than I was before adhering to that horrendous scholastic package, I ran after the cat which was the neighbor’s cat, the one I knew.

Less grudging and rigid than many of those who have been baptized, he immediately accepted my apologies and pardoned me, receiving my affection; we became friends again and I understood that I had neither a spirit nor a soul! I am simply as nature can be, existing and, being real in this way, sensitive and conscious of me. In the golden light of the sunset, bathed in the rays of light from the sky, I learnt that my conscience is the conscience of the Cosmos, and that he and I are two friends who see and contemplate each other without any shadows, in one way or the other, forever young, and I myself knowing how to be a happy and good magician.

Sometime later, I learnt that thinking and feeling in this way could easily be baptized with the name pantheist! And you? Are you an incarnated soul and spirit coming from the world of stories, which are always thoughts and images, and where you are banished? Or maybe you are more of a prophet wishing to bring ‘good tidings’? Or are you a magician thinking about what he really wants, in the way that pleases him and that he finds graceful?

I have promised myself two things: to rigorously reject strange narratives, shaming ideas distilled in archaic writing and wrapped in the rhetoric of a pedestal, invoking spirits and dead people who I can neither perceive nor feel, daring to propose that I am not dignified, but a naturally baptized villain, confused and accidental, a radical ignoramus bereft of valid visions and a feeling heart!

To always strengthen and conquer a clear and immediate position, well founded, where I can think straight and feel the happiness of naturally recognizing and putting a shine on the faces and into the eyes of those who are alive, and to know how to contemplate the solar star giving light in every flower, to listen to the celestial flute of the breeze playing in the bamboo patch and the glory of birds singing: to honor, above all, the rural and true world, because I live from my own nativity. In this evident place I can confide in my intuition, follow the feelings and happy thoughts which flourish by themselves when happiness and love awaken to find the magnificent creatures which exist here to be seen and touched.

Translated by Peter Malcolm Keays

Vídeo Convite 1º Colóquio Internacional: Panteísmo, Princípios Filosóficos.

Atividades durante o período de 09 a 13 de fevereiro – 2013

Alquimia soberana ~ Sovereign Alchemy

Lotus

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Desde o início da existência que se vive e comprova, a consciência interage com o mundo. Até onde é possível conhecer, a consciência e o mundo se pertencem mutuamente, como princípios irredutíveis; a consciência só pode ser a consciência do mundo, e o mundo só pode ser o mundo da consciência: existindo, mundo e consciência configuram uma unidade.

Não posso conhecer e experimentar ‘consciência-sujeito’ e ‘mundo-objeto’ como eventos isolados, independentes ou radicalmente separados, é o que cada um pode comprovar à luz da razão natural. Mundo e consciência configuram a junção unitária e absoluta de princípios fundamentais: algo mais prudente poderia se afirmar sobre a existência? O que é mais claro e preciso é mais puro.

Quando nasce um infante, o surgimento existencial se renova, consciência e mundo se revelam ordenando um estado-de-ser progressivo, configurando cosmos a partir do caos: assim é para mim, até provar em contrário, é para você? Provavelmente é assim para todos que nasceram e virão a nascer, isso, porque todos existem da mesma forma essencial.

Postular uma consciência dissociada e neutra, como se cogita no materialismo científico, ou um espirito encarnado em visita acidental no mundo material, resulta ser, igualmente, opinativo e insensato, porque não é o que se observa e comprova em momento algum da existência que experimentamos. Afirmar ser a consciência um epifenômeno radical, surgindo num determinado momento da evolução fisioquímica da matéria-energia é igualmente insensato: o cientista que assim postula existe antes da teoria que advoga.

Afirmar uma dessas três ocorrências imaginárias: 1) a possibilidade de uma consciência dissociada e neutra; 2) a consciência como epifenômeno radical, e 3) existir uma coisa pura, ‘em si’, ou consciência desencarnada: explicita uma perspectiva metafísica justamente dita ‘dualista’.

Radicalizar a perspectiva dualista, de uma forma ou de outra, afirmando existir: a) apenas o mundo da matéria-energia, sendo a consciência um epifenômeno tardio, ou,  b) apenas o mundo espiritual, sendo o mundo material uma ilusão, configuram reduções extremas, polarizações do mesmo dualismo; confusamente, denominadas de ‘monismo materialista’ e ‘monismo espiritualista’; definições polarizadas não caracterizam duas formas de ‘monismos’, uma contradição em termo!      Como cara e coroa são as faces necessárias de uma única moeda, como as fases diurna e noturna são fases de um único dia, a consciência e o mundo são os lados necessários da existência. Entender a existência como interação necessária de princípios complementários – a): consciência, mente, sujeito, e  b): mundo, corpo, objeto – afirma uma perspectiva metafísica unitária e paradoxal, ou monista propriamente dita, a fusão como mistério.

Afirmar o infundado e imaginário só poderá levar a uma experiência existencial ilusória e desassossegada, irracional, contraintuitiva, exigindo uma constante negação do saber inato, da praxe e das evidências sensíveis; como bem se comprovam, as elaborações societárias dos que imaginam e pensam dessa forma esquisita só poderão levar a um retumbante desastre existencial.

A agregação perene da consciência e da existência configura uma praxe evidente e sensível, por isso, uma afirmação prudente, ou razoável, levando a uma experiência existencial sábia e potencialmente serena.

Sovereign Alchemy

Translation by Roberto Lamenha                                                                                                     

Since the very beginning of existence one lives and proves, the conscience interacts with the world. Until it´s possible to one come to know.  The conscience and the world mutually belong to each other, as irreducible principles; conscience can only be the conscience of the world, and the world can only be the world of conscience: existing, world and conscience configure a unity.

I can´t know and experiment ‘conscience-subject’ and ‘world-object’ as isolated events, independent or radically separated, it is what each one can evidence at the light of  natural reason. World and conscience configure the unitarian and absolute junction of fundamental principles: could anything more prudent be asserted about conscience? What is more clear and more precise is more pure.

When an infant is born, the existential emerging is renewed, conscience and world reveal themselves, commanding a progressive state-of-being, configuring cosmos from chaos: So it is for me, until proven to the contrary, is it for you? It is probably so for all those who have been born and will come to be born, therefore, because everyone exist in the same essential form.

To postulate a dissociated and neutral conscience, as thought over on the scientific materialism, or an incarnated spirit accidentally visiting the material world, results to be, equally, opinionative and unreasonable, because it’s not what one can see and evidence at any moment of the undergone existence. To assert being the conscience a radical epiphenomenon, emerging on a certain moment of the matter-energy physiochemical evolution, is equally unreasonable: the scientist thus claiming exists prior to the theory he/she advocates.

To assert one of these three imaginary occurrences: 1) the possibility of a dissociated and neutral conscience; 2) conscience as a radical epiphenomenon, and 3) the existence of a pure thing in ‘itself’, or an out-of-the-body conscience: makes explicit a metaphysical perspective one could just call ‘dualist’.

To radicalize a dualist perspective, affirming to exist, in one way or the other: a) only the matter-energy’s world, being the conscience a late epiphenomenon, or, b) only the spiritual world, being the material world an illusion, configure extreme reductions, polarizations of the same dualism; equivocally, so-called ‘materialist monism’ and ‘spiritualist monism’; polarized definitions do not characterize two forms of ‘monism’, a contradiction, within limits! As head and tail are the necessary faces of a single coin, conscience and world are the necessary sides of existence. To understand existence as necessary interaction of complementary principles – a): conscience, mind, subject, and b): world, body, object – a fusion as mystery, properly said, is asserted by a unitarian and paradoxical metaphysical or monist perspective.

To assert the groundless and imaginary can only lead to an illusive and unquiet irrational, counter-intuitive existential experience, requiring a constant disavowal of the innate knowledge, of the praxis and of the sensible evidences; as extremely well evidenced, the society derived elaborations of those who thus oddly imagine and think, can only lead to a resounding existential disaster.

The perennial aggregation of conscience and existence configures an evident and sensible praxis, and for this reason, a prudent, or reasonable, statement, leading to a wise and potentially serene existential experience.

Um cosmos, dois reinados ~ One cosmos, two kingdoms

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With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier

Existia uma página branca como um lençol. O demiurgo, nada enxergando, traçou um horizonte com lápis-lazúli, passando a existir dois gênios, imperial e real.

Dogo, o gênio imperial anunciou: – “Esse lado de cima, superior, sou eu, aquilo é o de baixo”; mas, Dialo, o gênio real logo respondeu: “Só vejo a unidade no meu coração intuitivo: a igualdade do branco em mim e tu também”.

O ar vibrou e, de acordo com o verbo original de cada um, dois reinados se condensaram das brancuras: o Grande Império de Dogo I de Cima e o Universo de Dialo II de Um.

No reino de Dogo I de Cima contava-se que a branca paz celestial havia sido rompida pela desobediência dos debaixo, que, por isso, escureceram, e, do lado de lá foram lançados nessa grande e sagrada batalha de limpar a sujeira para recuperar a perdida brancura. Na perspectiva universal de Dialo II de Um, era dito que, na alvorada da grande Água Mãe, delineou-se um horizonte azul-dourado para que uma margem pudesse conversar com a outra, criando pontes, lugares de paz, namoros e suaves melodias.

Da sua perspectiva imperial, Dogo I delineava o seu império guerreando, afirmando vitórias em fundações derrocadas: o primeiro mundo, terra dos superiores e vitoriosos, assentava nas evanescentes costelas dos vencidos. A desobediência era o sustentáculo mais profundo desse mundo superior cuja imperiosidade tendia a se desfazer na proximidade da paz, cuja brancura azulada e dourada, cor do céu, derretia as faraônicas distinções afundando as pirâmides em direção ao núcleo quente da esfera azul. Paz, cuja traição e ruptura reafirmava o império, que era de guerra. Nas infindas, heroicas e torturantes derrocadas e conquistas, a água-mãe lentamente se recolhia no centro da terra, e as fontes de fogo e fumaça se elevavam, desertificando cada vez mais o Império de Dogo, transformando tudo em areia.

Da sua metafísica dialogal, Dialo II de Um, delineava o seu reinado universal com flautas e poesia, cantos de amor que afirmavam risos em fronteiras ilusórias: o outro era sempre a parte de si que faltava e quando encontrada se espantava, sonhava-se então com flores que eram corações de pássaros cantadores. Despertava-se já repousado, ora de um lado, ora do outro da árvore universal, recomeçando-se logo a cantar e conversar comendo saborosas frutas. O encanto e bom humor natural era o veio verdadeiro desse mundo unitário; paz azulada e dourada, cor do céu, afirmava a união do universo transmutando as diferenças na força do sol que alimentava os motores da terra jorrando água e arco-íris, colorindo campinas de flores onde pássaros aninhavam alegrando sempre mais o reinado de Dialo II de Um – o império das quatro direções como bem se observam marcados no céu e recantos da terra.

Minha gente que aqui nasceu, os que seguem os passos e perspectivas de Dogo ou os caminhos de Dialo sabem que das suas visões, sentimentos e palavras surgirão as trilhas que conduzem aos reinados que bem quiserem: os de fogo, fumaça e areia seca, a terra dos superiores fundadas em derrocadas, ou o reinado juvenil, fonte eternal dos risos e encantos musicais. Tudo estará sempre escrito nas suas perspectivas que hoje se acusam de ‘metafísicas’ e insignificantes, buscando-se nas ontologias a repetição da gênese dominante, mas profundamente derrocada.

Que assim seja avisado e pregado em praças públicas e de armas, de todos os reinos. Ademais, não lhes é dado desconhecer a lei.

 

One cosmos, two kingdoms

Translation by Roberto Lamenha

 

There was a blank page like a blanket. The demiurge, seeing nothing, draw a horizon with lapis lazuli, and two geniuses, imperial and real, started to exist.

Dogo, the imperial genius announced: – “This top side, superior, is me, that is the bottom side”; but, Dialo, the real genius, immediately responded: “I only see the unit in my heart”.

The air blew, and according to each one´s original verb, two kingdoms condensed from the whiteness: The Great Empire of Dogo I the Top, and the Universe of Dialo II of  One.

In the kingdom of Dogo I the Top, was said that the white celestial peace had been broken by the disobedience of those from the bottom who, therefore, darkened and were thrown into this great and sacred battle of cleaning the dirtiness to recover the lost whiteness. In the universal perspective of Dialo II of One, one said that, in the dawn of the Great Mother Water, a golden-bluish horizon was delineated so that one bank could talk to the other, creating bridges, places of peace, romantic attachments and sweet melodies.

From his imperial perspective, Dogo I could sketch out his empire making war, confirming victories in overthrown foundations: the first world, land of superiors and winners, settled on the evanescent ribs of the losers. Disobedience was the deepest support of this superior world, the imperiousness of which tended to disappear in the proximity of peace, the bluish and golden whiteness of which, the color of the sky, melted away the pharaonic distinctions, submerging the pyramids towards the hot nucleus of the blue sphere.  Peace, whose treason and rupture was of war, as reassured by the empire. In the endless, heroic and tormenting defeats and victories, the mother-water slowly retreated into the center of the earth, and sources of fire and smoke rose, causing, more and more, Dogo´s empire to become a desert, turning everything into sand.

From his dialogic metaphysics, Dialo II of One, outlined his universal kingdom with flutes, poetry and love songs, affirming laughter into illusive frontiers: the other always was in itself the missing part and when found it startled, then dreaming of flowers which were hearts of singing birds.  It awoke already reposed, now on one side, now on the other side of the universal tree, soon restarting to sing and talk, degusting tasty fruits. The natural enchantment and good humor were the true vein of this unitarian world; bluish and golden peace, color of the sky, affirmed the universe union, converting the differences in the sun´s strength feeding the earth´s engines pouring water and rainbow, coloring prairies with flowers where birds building their nests more and more made happy Dialo II of One´s kingdom – the four directions empire as well observed marked on earth´s sky and recesses.

My folks who were born here, those who follow Dogo´s steps and perspectives or Dialo´s ways, know that from their visions, feelings and words will emerge the trails leading to kingdoms whatever desired: those of fire, smoke and dry sand, the land of the superiors founded over defeats, or the juvenile kingdom, eternal source of laughter and musical enchantment. Everything will always be written on their perspectives that accuse themselves of ‘metaphysic’ and meaningless, searching themselves on the ontologies, the repetition of the domineering genesis, but deeply destroyed.

That this be advised and published in every public and arms square of all kingdoms. Therefore, they are not supposed to ignore the law.

Panteísmo, Uma definição. Régis Alain Barbier (03)

Nous sommes la lumière du monde

Nous sommes la lumière du monde, une vérité bien reconnue par de nombreux païens et indigènes et, certainement, par tous les enfants chaque fois qu’ils ravissent à la reconnaissance de la magnificence suprême d’une simple fleur, comme le petit Jésus des poètes, celui que ne peut qu’exister que comme un sentiment dans nos cœurs éclaircis à la juste lumière de la philosophie.

L’athée nie l’autoritarisme des théologiens et conjointement le mythe de la chute et du bannissement lié à un péché originel exigeant une rédemption conformément aux dogmes des prophètes et des envoyés. Ce que ce n’est pas difficile pour quelqu’un  suffisamment congruent et équanime.

Les agnostiques nient ces mêmes devoirs mais ne se prononcent pas sur l’existence, ou la non-existence, d’une énergie ou force divine réellement transcendante.

En ce qui concerne les panthéistes, ils récupèrent la pleine conscience d’eux-mêmes et s’emparent de la lucidité antique, autrefois interdite par les théologiens et les métaphysiciens dualistes, pour éprouver, sans intermédiation, la splendide conscience unitaire de la coexistence dans le monde. Les véritables panthéistes, de la tradition des payaien, des pré-socratics et de nombreux indigènes, modernament redite et recommencé par Spinoza en therme phylosphiques, reconnaissent par expérience propre, que l’existence peut seulement se produire dans la conscience, que rien n’existe en dehors de l’arc de la conscience à qui nous appartenons et qui nous appartient ! Nous sommes la lumière du monde, une vérité bien reconnue par de nombreux païens et indigènes et, certainement, par tous les enfants chaque fois qu’ils ravissent à la reconnaissance de la magnificence suprême d’une simple fleur, comme le petit Jésus des poètes, celui que ne peut qu’exis ter que comme un noble sentiment dans nos cœurs éclaircis à la juste lumière de la philosophie.

Régis Alain Barbier

Nos somos a luz do mundo

O ateísta renega o autoritarismo dos teólogos junto com o mito da queda e do banimento ligado à um pecado original exigindo uma redenção de acordo com os ditados de seletos profetas e enviados. O que não é difícil para alguém suficientemente  congruente e equânime. Os agnósticos renegam esses mesmos deveres mas não opinam sobre a existência, ou não existência, de alguma energia ou força divinal realmente transcendente.

Quanto aos panteístas eles recuperam a plena consciência, apoderando-se da lucidez antiga banida pelos teólogos e metafísicos teístas e dualistas, para conhecer, sem intermediação alguma, a esplêndida coexistência unitária da consciência e do mundo.

Os verdadeiros panteístas, da tradição dos pagãos  dos pré-socráticos e de numerosos indígenas, modernamente recomeçada por Spinoza em termos filosóficos, reconhecem que nada existe fora do arco da consciência à quem pertencemos e que nos pertence! Somos a luz do mundo, uma verdade reconhecida por numerosos pagãos e indígenas e, certamente, todas as crianças sempre que se deleitam ao reconhecer a magnificência suprema de uma simples flor, como o pequeno Jesus dos poetas, que apenas pode existir como um sentimento nobre nos nossos corações esclarecidos à justa luz da filosofia.

            A Criança Eterna acompanha-me sempre.

 

            A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
            O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

 

          São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas…
            (…)
              Ele dorme dentro da minha alma

     

              E às vezes acorda de noite

     

              E brinca com os meus sonhos.

     

              Vira uns de pernas para o ar,

     

              Põe uns em cima dos outros

     

              E bate palmas sozinho

     

              Sorrindo para o meu sono.

    O Poema do Menino Jesus Alberto Caeiro

     We are the light of the world

    Atheists deny the authoritarianism of theologians along with the myth of the fall and ban linked to that ‘original sin’ requiring redemption, according to the sayings of the prophets and chosen – a rather easy understanding for someone consistent and fair.

    Agnostics reject those same duties, but not opine about the existence, or non-existence, of some divine force or energy really transcendent.

    As for pantheists, they recover full awareness, seizing the antic lucidity once banned by theologians and dualistic metaphysicians, to experience without intermediation a splendid unitary consciousness and coexistence in the world.
    Real pantheism, from the tradition of pagans, pre-Socratics and numerous indigenes, modernly reinitiated by Spinoza in philosophical terms, recognize from experience that existence can only happen in consciousness, that nothing exists outside of the arc of consciousness from we belong together with totality! We are the light of the world, a truth well recognized by many pagans and indigenous and, certainly, by all children whenever they delight to the recognition of the supreme magnificence of a simple flower, like the baby Jesus of the poets, who can only exit as a lovely feeling in ours hearts illuminated in the fair light of philosophy.

    Quando o poeta surgiu inteiramente amadurecido

    Quando o poeta surgiu inteiramente amadurecido

    Pronunciou-se a satisfeita Natureza (o globo impassível e redondo,

    com todos os seus espetáculos do dia e da noite), dizendo:

    Ele é meu;

    Mas também falou a alma do homem, orgulhosa, ciumenta e
    Desarmonizada:

    Não, ele é exclusivamente meu;

     

    Então o poeta inteiramente amadurecido colocou-se entre ambas, e
    levou-as pelas mãos;

    E hoje e sempre assim ele se encontra, misturando-as, fundindo-as,
    segurando-as pelas mãos, firmemente,

    Mãos que ele jamais largará até ser capaz de reconciliá-las,
    E de fundi-las, inteira e alegremente.

    Walt Whitman

    A Nova Jônia ~ The New Ionia

    Unknown

    With english translation below the text in Portuguese

    … uma novela filosófica.

    Decompor o enigmático esplendor da vida a um simples mecanismo produtivo coagido por especialistas, cientistas racionalistas e sacerdotes, configura um projeto ficcional e insensível, arbitrado por retóricos e mentores,  políticos e financistas – o genus latinum.

    Régis Alain Barbier

    1 – Capítulo primeiro

    Das muralhas da poderosa Roma

    Ambos, o teísmo sobrenaturalista e o dualismo metodológico do cientificismo postulam a existência de uma ‘consciência-ser’ separada do mundo ou sobreposta. Como rodas acopladas de uma antiga biga, a perspectiva objetificante do materialismo cientificista, em conjunto com as visões típicas da teologia, concorrem percursos paralelos e complementários ao desagregar e instrumentar a circunstância vital em plataforma de experimentos e provas para produzir escassez e superávit, queda e salvação.

    Decompor o enigmático esplendor da vida a um simples mecanismo produtivo coagido por especialistas, cientistas racionalistas e sacerdotes, configura um projeto ficcional e insensível, arbitrado por retóricos e mentores,  políticos e financistas – o genus latinum.

    É imediatamente compreensível, até mesmo para uma criança, que a existência é um processo, que existir, em todas as suas formas, é significativo e real apenas no arco teórico e prático da consciência inteligente e sensível de existir. A existência é real e ativa apenas quando consciente. Até mesmo dizer, “é razoável postular a existência de objetos destituídos de consciência” é uma afirmação composta de conceitos e ideias apenas formuláveis e compreensíveis por seres conscientes. Não há mundo possível fora do âmbito da consciência: supor o contrário requer consciência. A consciência como correspondência necessária do mundo caracteriza a existência. A consciência não é divorciável da realidade: trata-se de uma união alquímica essencial apreciada em culturas externas à nossa civilização, como na Jônia antiga, um saber antigo, mas atual em alguns ambientes pagãos e indígenas, em esferas terapêuticas e vanguardistas da nossa sociedade.

    É evidente, dito por poetas, filósofos de primeira linha, atestado por artistas, entusiastas e amantes, quase todas as crianças: o estado-de-ser é fenômeno unitário, cósmico – reunião firme do Mythos, Logos e Ethos – por evidência simples!

    Congênere ao rompimento paradigmático e degradação da consciência operada nas metáforas primordiais do teísmo, miticamente ilustrada como um ‘banimento’, a descontinuidade sujeito-objeto, típica do materialismo cientificista, originada do mesmo genus cultural, acompanha teorizando uma ‘consciência-ser’, igualmente substancial e independente, considerada produtora de relações objetivas e cientificáveis, logo, postulando um espírito científico observador absoluto e neutral.

    Intermediar uma disjunção parcial relativa aos planos macroscópicos; mas, conjugada a uma fusão ou associação acontecendo em planos mais nucleares e sutis, subatômicos, nulifica o famigerado conceito de ‘neutralidade cientifica’, abala a coerência e exatidão da ciência como instrumento de veracidade, obrigando a uma revisão radical da epistemologia, gnosiologia, métodos e políticas que regem os decursos científicos, incluindo as orientações diretoras e formulação de projetos.

    No caso de uma ampliação cultural e reintegração majoritária do antigo saber relativo à união consciência-mundo, como se imaginaria delimitar e reger interações capazes de atuar fortemente sobre fenômenos existenciais fundamentais e referentes a esse magma unitário feito de sujeito e objeto, de consciência e mundo? Como se administraria os direitos existenciais de modo a garantir o comprimento e respeito a deveres decisórios fundamentados em um evidente, espontâneo e universal status compartilhado entre todos os viventes? Como lidar com manobras e intervenções intencionadas a denegrir e talar a luminosa e liberadora evidência relacionada a esse monismo verdadeiro, entendido como inevitável união e correspondência luminosa da consciência e do mundo?

    No reconhecimento dessa relação unitária, cada indivíduo resulta, de alguma forma, responsável pelas consequências das suas visões, atitudes e paradigmas exercidos no arco das suas praxes. No caso de uma plena floração e respeito geral a essa unidade paradoxal, como administrar direitos e deveres existenciais, naturalmente divididos por todos os existentes, em relação à realização de projetos, esforços públicos de produções e financiamentos? Como garantir a acessos, escrupulosos e justos, a possíveis benefícios? Como repartir e determinar as responsabilidades, senão as autorias, relacionadas a possíveis efeitos colaterais resultantes de buscas e produções inadequadas?

    Evidente, uma vez amplamente reconhecida como patente a união monística do fenômeno consciência-mundo, esclarecida e exposta à imprópria e falaciosa dicotomia sujeito-objeto, os procedimentos democráticos apenas relativos à eleição de representantes escolhidos e lançados por partidos, na sua origem minoritários, mas, economicamente, poderosos e organizados, certamente, não serão suficientes, tampouco adequados, para garantir uma boa e legítima liderança dos serviços públicos.

    Seria grosseiramente irresponsável e inadmissível dar posse a representantes partidários eleitos graças a manobras retóricas, marketing político e campanhas financiadas com recursos privados, originalmente indicados por minorias poderosas e tradicionais, para atuar com força decisória na aprovação e execução de projetos públicos selecionados em estruturações administrativas muito reservadas, mas compelindo os comportamentos de uma multidão de indivíduos vivendo num determinado espaço físico-ideológico – ou nações.

    Políticas públicas seriam reformuladas para tornarem-se radicalmente participativas, implicando uma revisão ampla do conceito de democracia, que deixaria de ser apenas aparente, de aparato ou representativa: o que implicaria o retorno a uma prática dialógica esclarecida em todos os setores, transformando profundamente os paradigmas econômicos e modelos culturais: a economia fiduciária deixaria de ser um monopólio egocêntrico e de ser fiduciária, seria o fim do idealismo racionalista e monetarista, o retorno a modelos políticos e monetários de alguma forma lastrados, populares, autonômicos, acessivos e simples.

    Previsto um realinhamento das atitudes e exercício político como consequência imediata de tão profundas e epistêmicas mudanças e conhecimento, é de se supor que, nesse estágio de evolução ética, as midiatizações e disputas referentes a conceitos que tentam elucidar e explicitar a unificada relação consciência-mundo, tenderão a ser abafadas e obstruídas.

    …/ a seguir

    The New Ionia

    … a philosophical novel.

    Decomposing the enigmatic splendor of life into a single productive mechanism coerced by specialists, rationalistic scientists and priests, configures a fictional and senseless project, arbitrated by rhetoricians and mentors, politicians and financiers – the ‘genus latinum’. 

    Translation by Roberto Lamenha

    1 – Chapter one

    The walls of the powerful Rome

    Both, the super-naturalistic theism and the methodological dualism of scientism postulate the existence of a ‘conscience-being’ separated from the world or juxtaposed to it. Like coupled wheels of an ancient chariot, the objectifying perspective of the scientificist materialism, together with the typical visions of theology, run through parallel and complementary courses by disaggregating and instrumenting the vital circumstance into a platform of experiments and evidences to produce scarcity and surplus, fall and salvation.

    Decomposing the enigmatic splendor of life into a single productive mechanism coerced by specialists, rationalistic scientists and priests, configures a fictional and senseless project, arbitrated by rhetoricians and mentors, politicians and financiers – the ‘genus latinum’.

    It is immediately comprehensible, even to a child, that existence is a process, that existing, in every aspect, is meaningful and real only in the theoretical and practical arc of the intelligent and sensible conscience of existing. The existence is real and active only when conscious. Even when one says, “it is reasonable to claim the existence of objects lacking conscience” it is an assertion formed of concepts and ideas formulated and comprehensible only by conscious beings.  There´s no possible world outside the extent of conscience: supposing to the contrary requires conscience. Conscience as the necessary correspondence of the world characterizes existence. Conscience is not to be divorced from reality: it is an essential alchemical union appreciated in cultures outside our civilization, as in ancient Jonia, an ancient knowledge, but present in some pagan and native environments, in therapeutic and avant-gardist spheres of our society.

    It is evident, said by poets, first level philosophers, attested by artists, enthusiasts and lovers, almost every child: the state of being is a unique cosmic phenomenon – a strong reunion of the Mythos, Logos and Ethos – by simple evidence!

     Congener to paradigmatic disruption and degradation, the conscience operated in the theism primordial metaphors, mythically illustrated as a ‘banishment’, the subject-object discontinuity, typical of the scientificist materialism, originated from the same cultural genus, follows theorizing a ‘conciousness-being’, equally substantial and independent, considered as producer of objective and scientific relations, then, assuming an absolute and neutral observing scientific spirit.

    To intermediate a relative partial separation to the macroscopic planes; but united to a fusion or association occurring at more nuclear and subtle subatomic planes, nullifies the famous concept of ‘scientific neutrality’, affects science coherence and exactness as instrument of truthfulness, forcing a radical review of the epistemology, gnosiology, methods and policies governing the scientific courses, including the ruling guidance and projects designing.

    In the case of a cultural increase and majoritarian re-integration of the ancient knowledge relative to the conscience-world union, how would one imagine delimiting and governing interactions capable of strongly acting upon fundamental existential phenomena and referring to this unique magma made of subject and object, of conscience and world?  How would one manage the existential rights in a way to guarantee the compliance with and respect to decisive duties based on an evident, spontaneous and universal status shared by all living beings? How would one deal with intentional maneuvers and interventions that slander and destroy the luminous and discharging evidence related to this true monism, understood as inevitable union and luminous correspondence of the conscience and the world?

    In recognition of this unique relationship, each individual results, in a certain way, responsible for the consequences of his/her visions, attitudes and paradigms practiced in the arc of his/her usages. In the case of full blooming and general respect to this paradoxical oneness, how would one manage existential rights and duties, naturally shared by all living beings, in relation to the accomplishment of projects, producing  and financing public efforts. How could one guarantee accesses, scrupulous and just, to possible benefits?  How would one share and determine the responsibilities, or the authorship itself, related to possible side effects resulting from inadequate searches and productions?

    Evidently, once largely acknowledged as evident, the monistic union of the conscience-world phenomenon, explained and exposed to the improper and deceitful ‘subject-object’ dichotomy, the democratic procedures only relative to the election of representatives chosen and indicated by political parties, minor in their origin, but, economically powerful and organized, certainly, will not be sufficient, neither adequate, to guarantee a good and legitimate leadership of the public services.

    It would be rudely irresponsible and unacceptable to install in office  party representatives elect thanks to rhetoric maneuvers, political marketing and campaigns financed by private funds, originally indicated by powerful and traditional minorities, to act with decisive strength in the approval and accomplishment of public projects selected in deeply reserved administrative structures, but compelling the behaviors of a cluster of individuals living  in a certain physical-ideological space – or nations.

     Public policies would be reformulated to become radically participative, requiring a broad review of the democracy concept, which would quit being only apparent in terms of display or representative: what would imply returning to a clarified dialogic practice in every sector, deeply transforming the economical paradigms and cultural models: the fiduciary economy would no longer be an egocentric monopoly  and fiduciary, it would be the end of the rationalist and monetarist idealism, the return to political and monetary models in some way ballasted, popular, autonomic, accessible and simple.

    As an alignment of the attitudes and political exercise is foreseen as an immediate consequence of so deep and epistemic changes and knowledge, it is supposed that, at this stage of ethical evolution, mediatizations and disputes regarding concepts that try to elucidate and explain the unified conscience-world relationship, will tend to be choked and obstructed.

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