Mês: dezembro 2012

O Que Acontece Quando Morremos?

O Que Acontece Quando Morremos?
THICH NHAT HANH

Transcrição de uma palestra de Dharma dada por Thây em Hong Kong, em 15 de Maio de 2007 – Tradução: Samuel Cavalcante

Para responder ao que acontece conosco quando morremos, precisamos responder a uma outra questão: o que acontece quando estamos vivos? O que está acontecendo agora mesmo conosco? Em inglês costumamos dizer ‘nós somos’, mas é mais adequado dizer ‘nós nos tornamos’, porque as coisas estão sempre se tornando algo. Não somos a mesma pessoa em dois minutos consecutivos. Uma foto de quando você era bebê é diferente de você agora. De fato, você não é exatamente a mesma pessoa quando bebê e nem uma pessoa totalmente diferente. Em uma foto sua com cinco anos, você não é exatamente o mesmo e nem outra pessoa – a forma, os sentimentos e as formações mentais são diferentes.

No caminho do meio não existe nem a condição do que é o mesmo e nem a condição do que é diferente. Você pode pensar que ainda está vivo; mas, de fato, você tem morrido todos os dias, a cada minuto células morrem e nascem – e nem por isso realizamos funerais ou aniversários (risos). A morte é a principal condição para o nascimento. Sem morte, não há nascimento. Eles intersões* e acontecem a todo momento para o praticante experiente. Por exemplo, uma nuvem deve ter morrido muitas vezes, sob a forma de chuvas, rios, água. A nuvem deve querer cair rumo a si mesma na terra. A chuva é a continuação da nuvem. Praticando-se a meditação, nada fica escondido. Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.

Quando somos pais, morremos e renascemos como nossos filhos. “Vocês são minha continuação. Amo vocês”. O Buda nos disse como assegurar uma linda continuação – um pensamento solidário**, um pensamento belo. Perdão é nossa continuação. Se raiva, separação e ódio surgem, então conseguiremos assegurar uma bela continuação. Ao pronunciarmos uma palavra que é solidária**, boa e bela, assim também será nossa continuação.

Quando uma nuvem é poluída, a chuva é poluída. Assim, ao purificarmos nossos pensamentos, palavras e ações, criaremos uma bela continuação. Podemos ver os efeitos de nossa fala em nossas crianças. Meus discípulos são minha continuação – tanto os monásticos, quanto os leigos. Desejo transmitir a fala, a ação e o pensamento amáveis. Isto é chamado karma no budismo.

O meu corpo se desintegrará, mas meu karma irá continuar – karma significa ação. Meu karma já está no mundo. Minha continuação está em toda parte. Quando você observar um dos meus discípulos caminhando de maneira solidária**, saberá que ele é minha continuação. Não quero transmitir minhas emoções negativas, quero transformá-las antes de transmiti-las. A dissolução deste corpo não é o meu fim. Com certeza, eu continuarei após essa dissolução. Portanto não se preocupem com a minha morte, eu não morrerei.

Vamos meditar acerca do nascimento de uma nuvem. Ela tem uma certidão de nascimento? (Thay ri). Examine a noção de nascimento – a noção de que algo pode vir do nada, de ninguém, tornar-se alguém. É possível alguma coisa coisa vir do nada? Do ponto de vista da ciência, isto não é possível. A nuvem era água no oceano, nos lagos, rios e o calor do sol deu origem a ela – o momento de continuação da água. Por exemplo, nascimento – antes de você nascer você estava no ventre de sua mãe. O momento do nascimento é um momento de continuação. O momento da concepção é o começo? Metade de você provém do seu pai e metade da sua mãe, também isso faz parte do momento de continuação. Ao praticar a meditação, você poderá ver coisas como essas.

É impossível a nuvem morrer. Ela pode se tornar água, neve – ela não poderá se tornar nada. É impossível nós morrermos. A nossa fala, ação e pensamento irão continuar no futuro. A pessoa que morre ainda continua, se não vemos isso é por que não somos capazes de usar nossa meditação para ver. Ela continua em nós e em torno de nós. Todos os ancestrais estão vivos em nós. Nossos ancestrais estão em nossos cromossomos. Há um tempo, escrevi um livro chamado “Sem morte e nem medo” (No Death , No Fear publicado pela Parallax Press). Quando as condições são suficientes, eu me manifesto e quando não são, não. Não existe vir ou ir. Antes de algo se manifestar, costumamos dizer que era algo não existente. Mas antes de sua manifestação, você não podia chamá-lo de não-ser. Ser e não-ser são pares de opostos.

Meditar sobre a natureza da criação e do ser é a melhor maneira de entender Deus. O teólogo Paul König descreve Deus como sendo a “Base do Ser”. Quem então seria a base do não-Ser? Isto diminui Deus. No budismo, ambas as noçoes de ser e não-ser não podem descrever a realidade. De maneira similar, acima e abaixo, Europa e aqui. Nirvana é a ausência de todas as noções, nascimento e morte, ir e vir, mesmo e diferente. De acordo com o Budismo, ‘ser ou não-ser’ não é realmente uma questão. A meditação nos leva para além, para um lugar onde não há medo. Somos demasiado ocupados, assim nos tornamos vítimas da raiva e do medo. Se conseguirmos tocar nossa natureza sem nascimento/morte, saberemos que morrer é uma das condições para nos tornarmos reais.

Temos que aprender a morrer em cada momento, para estarmos verdadeiramento vivos. Este ensinamento do caminho do meio é o melhor do ensinamento do Buda. Muitos dos nossos ancestrais realizaram isso e não tinham medo da morte. Devemos ser capazes de relaxar nossas tensões. Nós somos o karma que produzimos no nosso dia a dia (…) Tenho um discípulo que quer construir uma estupa para guardar as minhas cinzas. Ele quer pôr uma placa com os dizeres ” Aqui jaz o meu amado professor”. Mas eu escreveria “Aqui não existe nada!” (muitos risos). Porque se você observar em profundidade existe uma continuação. Eu guardo o tempo que me resta principalmente para a minha prática. Quero gerar energia de amor, solidariedade e compreensão, para que assim eu continue de uma maneira bela.

Gostaria que vocês fizessem o mesmo. Usem o seu tempo de maneira sábia. A cada momento, produzam belos pensamentos, bondade amorosa, perdão. Digam coisas bonitas, inspirem, perdoem, ajam no sentido de proteger e ajudar. Sabemos que somos capazes de produzir um belo karma para uma boa continuação e para a felicidade de outras pessoas.

Quando chegar a hora da dissolução do corpo, você poderá soltá-lo facilmente. Não desejará se agarrar a ele – liberando tanto o corpo quanto a percepção. Lembre-se da imagem da nuvem no céu vendo sua continuação no arroz ou no sorvete. Você já pode ver sua continuação. A arte de viver é uma continuação. Para mim e para todos os seres.

* intersão – verbo (inter+ser) criado por Thây para definir uma existência interdependente.
** solidário = compassivo.

Aos que não foram forjados para viver amarrados

Aos que não foram forjados para viver amarrados em clausuras, tampouco enquadrados em histórias.  

 A CABRA DO SENHOR SÉGUIN
Ao Sr. Pierre Gringoire, poeta lírico em Paris.

LA CHEVRE DE M.SÉGUIN
À M. Pierre Gringoire, poète lyrique à Paris

Alphonse Daudet
- les Letres de mon Moulin

Tu serás sempre o mesmo, meu pobre Gringoire! Como! Oferecem-te um lugar de cronista em um bom jornal de Paris, e tu tens a petulância de recusar… Mas, olha-te, infortunado rapaz! Olha essa blusa esburacada, esses calções esfarrapados, essa face magra que apregoa a fome. Eis aí, portanto, aonde te conduziu a paixão das belas rimas! Eis o que te valeram dez anos de leais serviços nas páginas do senhor Apolo… Enfim, não tens vergonha?

Tu seras bien toujours le même, mon pauvre Gringoire ! Comment ! on t’offre une place de chroniqueur dans un bon journal de Paris, et tu as l’aplomb de refuser… Mais regarde-toi, malheureux garçon ! Regarde ce pourpoint troué, ces chausses en déroute, cette face maigre qui crie la faim. Voilà pourtant où t’a conduit la passion des belles rimes ! Voilà ce que t’ont valu dix ans de loyaux services dans les pages du sire Apollo… Est-ce que tu n’as pas honte, à la fin ?

Faze-te então cronista, imbecil! Faze-te cronista! Ganharás facilmente belos escudos, terás teu talher no Brébant e poderás exibir-te, nos dias de estréia, com uma pluma nova no barrete. Não? Não queres? Pretendes permanecer livre à tua maneira, até o fim… Pois bem, escuta um pouco a história da cabra do Sr. Séguin. Verás o que se ganha em querer viver livre.

Fais-toi donc chroniqueur, imbécile ! Fais-toi chroniqueur ! Tu gagneras de beaux écus à la rose, tu auras ton couvert chez Brébant, et tu pourras te montrer les jours de première avec une plume neuve à ta barrette… Non ? Tu ne veux pas ?… Tu prétends rester libre à ta guise jusqu’au bout… Eh bien, écoute un peu l’histoire de la chèvre de M. Séguin. Tu verras ce que l’on gagne à vouloir vivre libre.

O Sr. Séguin nunca tivera sorte com suas cabras; elas arrebentavam a corda, fugiam para a montanha, e lá no alto o lobo as comia. Nem os carinhos do dono, nem o medo do lobo, nada as retinha. Eram, parece, cabras independentes, querendo a qualquer preço a amplidão e a liberdade. O estimável Sr. Séguin, que nada compreendia do caráter dos seus animais, estava consternado e dizia:

—    É o fim. As cabras se aborrecem em minha casa. Não conservarei nenhuma delas.

M. Séguin n’avait jamais eu de bonheur avec ses chèvres. Il les perdait toutes de la même façon : un beau matin, elles cassaient leur corde, s’en allaient dans la montagne, et là-haut le loup les mangeait. Ni les caresses de leur maître, ni la peur du loup, rien ne les retenait. C’était, paraît-il, des chèvres indépendantes, voulant à tout prix le grand air et la liberté. Le brave M. Séguin, qui ne comprenait rien au caractère de ses bêtes, était consterné. Il disait :

– C’est fini ; les chèvres s’ennuient chez moi, je n’en garderai pas une.

Entretanto ele não se desencorajava, e depois de perder seis cabras do mesmo modo, comprou uma sétima; somente, desta vez, teve o cuidado de a prender enquanto muito nova, para que ela se habituasse melhor a permanecer em sua casa.

Cependant, il ne se découragea pas, et, après avoir perdu six chèvres de la même manière, il en acheta une septième ; seulement, cette fois, il eut soin de la prendre toute jeune, pour qu’elle s’habituat à demeurer chez lui.

Ah! Gringoire, como era bonita a cabrinha do Sr. Séguin! Como era linda, com seus olhos doces, sua barbicha de sub-oficial, seus cascos negros e luzentes, seus cornos zebrados e seus longos pelos brancos, que a cobriam como uma sobrepeliz! Era quase tão encantadora quanto o cabritinho de Esmeralda — lembras-te, Gringoire? E, ademais, dócil, carinhosa, deixando-se ordenhar sem se agitar, sem meter os pés no balde. Um amor de cabrinha…

Ah ! Gringoire, qu’elle était,jolie la petite chèvre de M. Séguin ! qu’elle était,jolie avec ses yeux doux, sa barbiche de sous-officier, ses sabots noirs et luisants, ses cornes zébrées et ses longs poils blancs qui lui faisaient une houppelande ! C’était presque aussi charmant que le cabri d’Esméralda, tu te rappelles, Gringoire ? – et puis, docile, caressante, se laissant traire sans bouger, sans mettre son pied dans l’écuelle. Un amour de petite chèvre…

O Sr. Séguin tinha atrás de casa um curral cercado de plantas espinhentas. Foi lá que ele pôs a nova pensionista. Ligou-a com uma canga de madeira ao mais belo sítio do prado, tendo o cuidado de lhe deixar bastante corda. De vez em quando ia ver se ela se encontrava bem. A cabra se achava muito feliz, e pastava a erva de tão boa vontade, que o Sr. Séguin estava encantado.

— Enfim — pensava o pobre homem — eis aí uma que não se aborrecerá em minha casa!

M. Séguin avait derrière sa maison un clos entouré d’aubépines. C’est là qu’il mit la nouvelle pensionnaire. Il l’attacha à un pieu, au plus bel endroit du pré, en ayant soin de lui laisser beaucoup de corde, et de temps en temps, il venait voir si elle était bien. La chèvre se trouvait très heureuse et broutait l’herbe de si bon coeur que M. Séguin était ravi.

– Enfin, pensait le pauvre homme, en voilà une qui ne s’ennuiera pas chez moi !

O Sr. Séguin se enganava; a cabra aborreceu-se. Um dia ela disse para si mesma, contemplando a montanha:

— Como se deve estar bem lá em cima! Que prazer saltar entre a vegetação, sem esta maldita corda que esfola o pescoço da gente!… É bom para o burro ou para o boi, pastar num cercado!… As cabras necessitam de largueza.

A partir desse momento a erva do cercado lhe pareceu insípida. Sobreveio-lhe o tédio. Emagreceu. O leite diminuiu. Dava dó vê-la arrastar a corda o dia inteiro, a cabeça voltada para o lado da montanha, a venta aberta, fazendo “mé”… tristemente.

M. Séguin se trompait, sa chèvre s’ennuya. Un jour, elle se dit en regardant la montagne :

– Comme on doit être bien là-haut ! Quel plaisir de gambader dans la bruyère, sans cette maudite longe qui vous écorche le cou !… C’est bon pour l’âne ou pour le boeuf de brouter dans un clos !… Les chèvres, il leur faut du large. .

À partir de ce moment, l’herbe du clos lui parut fade. l’ennui lui vint. Elle maigrit, son lait se fit rare. C’était pitié de la voir tirer tout le jour sur sa longe, la tête tournée du côté de la montagne, la narine ouverte, en faisant Mê. !… tristement.

O Sr. Séguin notou logo que a cabra tinha qualquer coisa, mas não sabia o que era. Uma manhã, quando acabava de a ordenhar, a cabra voltou-se e lhe disse no seu patoá:

— Escute, Sr. Séguin, eu enlangueço em sua casa, deixe-me ir à montanha.

—    Ah! Meu Deus!… Ela também! — gritou o sr. Séguin estupefato.

E com o susto deixou tombar o balde. Depois, sentando-se na relva ao lado de sua cabra:

— Como, Branquinha, queres deixar-me!

— Sim, Sr. Séguin.

M. Séguin s’apercevait bien que sa chèvre avait quelque chose, mais il ne savait pas ce que c’était… Un matin, comme il achevait de la traire, la chèvre se retourna et lui dit dans son patois :

– Écoutez, monsieur Séguin, je me languis chez vous, laissez-moi aller dans la montagne.

– Ah ! mon Dieu !… Elle aussi ! cria M. Séguin stupéfait, et du coup il laissa tomber son écuelle ; puis, s’asseyant dans l’herbe à côté de sa chèvre :

– Comment, Blanquette, tu veux me quitter !

Et Blanquette répondit :

– Oui, monsieur Séguin.

— É pasto que te falta aqui?

— Oh! não, Sr. Séguin.

— Talvez estejas amarrada a distância curta demais. Queres que te alongue a corda?

— Não vale a pena, Sr. Séguin.

— Então, que é que te falta? Que queres?

— Quero ir para a montanha, Sr. Séguin.

—    Mas, desgraçada, tu não sabes que há o lobo na montanha? Que farás quando ele vier?

– Oh ! non ! monsieur Séguin.

– Tu es peut-être attachée de trop court, veux-tu que j’allonge la corde ?

– Ce n’est pas la peine, monsieur Séguin.

– Alors, qu’est-ce qu’il te faut ? qu’est-ce que tu veux ?

– Je veux aller dans la montagne, monsieur Séguin.

– Mais, malheureuse, tu ne sais pas qu’il y a le loup dans la montagne… Que feras-tu quand il viendra ?…

— Dar-lhe-ei chifradas, Sr. Séguin.

— O lobo pouco se importa com teus chifres. Ele comeu cabritas muito mais chifrudas do que tu… Sabes da pobre velha Renaude, que estava aqui no ano passado, uma senhora cabra forte e malvada como um bode? Ela lutou com o lobo a noite inteira… depois, pela manhã, o lobo a comeu.

— Ai dela! Pobre Renaude!… Isso não importa, Sr. Séguin, deixe-me ir à montanha.

Divina Providência!… — disse o Sr. Séguin. — Que acontece às minhas cabras? Outra mais que o lobo vai comer… Pois bem, não… Eu te salvarei, a teu pesar, velhaca! E, porque receio que rompas a corda, vou fechar-te no estábulo, e ali ficarás sempre.

– Je lui donnerai des coups de cornes, monsieur Séguin.

– Le loup se moque bien de tes cornes. Il m’a mangé des biques autrement encornées que toi… Tu sais bien, la pauvre vieille Renaude qui était ici l’an dernier ? une maîtresse chèvre, forte et méchante comme un bouc. Elle s’est battue avec le loup toute la nuit… puis, le matin, le loup l’a mangée.

– Pécaïre ! Pauvre Renaude !… Ça ne fait rien, monsieur Séguin, laissez-moi aller dans la montagne.

– Bonté divine !… dit M. Séguin ; mais qu’est-ce qu’on leur fait donc à mes chèvres ? Encore une que le loup va me manger… Eh bien, non… je te sauverai malgré toi, coquine ! et de peur que tu ne rompes ta corde, je vais t’enfermer dans l’étable et tu y resteras toujours.

Em seguida o Sr. Séguin levou a cabra para um estábulo todo escuro, cuja porta fechou com duas voltas da chave. Infelizmente, esquecera-se da janela; e, mal virou as costas, a pequena se foi…
Tu ris, Gringoire? Santo Deus! Acredito; tu és do partido das cabras, e estás contra o bom Sr. Séguin… Vamos ver se rirás todo o tempo.

Là-dessus, M. Séguin emporta la chèvre dans une étable toute noire, dont il ferma la porte à double tour. Malheureusement, il avait oublié la fenêtre et à peine eut tourné, que la petite s’en alla…Tu ris, Gringoire ? Parbleu ! je crois bien ; tu es du parti des chèvres, toi, contre ce bon M. Séguin… Nous allons voir si tu riras tout à l’heure.

Quando a cabra branca chegou à montanha, foi um encantamento geral. Jamais os velhos pinheiros tinham visto nada assim tão lindo. Receberam-na como a uma pequena rainha. Os castanheiros se curvavam até o chão, para acariciá-la com a ponta de seus ramos. As giestas douradas se abriam à sua passagem e a cheiravam quanto podiam. A montanha inteira fez-lhe festa. Imagina, Gringoire, como nossa cabra era feliz!

Quand la chèvre blanche arriva dans la montagne, ce fut un ravissement général. Jamais les vieux sapins n’avaient rien vu d’aussi joli. On la reçut comme une petite reine. Les châtaigniers se baissaient jusqu’à terre pour la caresser du bout de leurs branches. Les genêts d’or s’ouvraient sur son passage, et sentaient bon tant qu’ils pouvaient. Toute la montagne lui fit fête.

Tu penses, Gringoire, si notre chèvre était heureuse !

Nada de corda, nada de canga… nada que a impedisse de pular, de pastar à sua maneira… E quanta erva havia lá! Até lhe ultrapassava os chifres, meu caro!… E que erva! Saborosa, fina, recortada, feita de mil plantas… Era muito diferente do capim do cercado. E as flores, então!… Grandes campânulas azuis, digitalis de púrpura, com longos cálices, toda uma floresta de flores selvagens, transbordando sucos capitosos.

Plus de corde, plus de pieu… rien qui l’empêchât de gambader, de brouter à sa guise… C’est là qu’il y en avait de l’herbe ! jusque par-dessus les cornes, mon cher !… Et quelle herbe ! Savoureuse, fine, dentelée, faite de mille plantes… C’était bien autre chose que le gazon du clos. Et les fleurs donc !… De grandes campanules bleues, des digitales de pourpre à longs calices, toute une forêt de fleurs sauvages débordant de sucs capiteux !…

A cabra branca, meio farta, espojava-se lá dentro com as pernas para o ar e rolava ao longo das encostas, de cambulhada com as folhas caídas e as castanhas. Em seguida saltava repentinamente e endireitava-se sobre as patas. Upa! Ei-la que partia, cabeça para a frente, através de cerrados e capoeiras, ora sobre um pico, ora no fundo de uma ravina, no alto, embaixo, por toda parte. Dir-se-ia haver dez cabras do Sr. Séguin na montanha.

É que a Branquinha não tinha medo de nada.

La chèvre blanche, à moitié soûle, se vautrait là-dedans les jambes en l’air et roulait le long des talus, pêle-mêle avec les feuilles tombées et les châtaignes… Puis, tout à coup elle se redressait d’un bond sur ses pattes. Hop ! la voilà partie, la tête en avant, à travers les maquis et les buissières, tantôt sur un pic, tantôt au fond d’un ravin, là haut, en bas, partout… On aurait dit qu’il y avait dix chèvres de M. Séguin dans la montagne.

C’est qu’elle n’avait peur de rien la Blanquette.

Ela franqueava de um salto grandes torrentes, que lhe atiravam à passagem poeira úmida de espuma. Então, toda gotejante, ia estender-se em alguma rocha plana e se fazia secar ao sol. Uma vez, avançando à beira de um planalto, com uma flor de citisa entre os dentes, vislumbrou lá embaixo, bem lá embaixo, na planície, a casa do Sr. Séguin com o cercado atrás. Isso a fez rir até as lágrimas.

— Como é pequeno! — disse ela. — Como pude permanecer lá dentro?

Elle franchissait d’un saut de grands torrents qui l’éclaboussaient au passage de poussière humide et d’écume.

Alors, toute ruisselante, elle allait s’étendre sur quelque roche plate et se faisait sécher par le soleil… Une fois, s’avançant au bord d’un plateau, une fleur de cytise aux dents, elle aperçut en bas, tout en bas dans la plaine, la maison de M. Séguin avec le clos derrière. Cela la fit rire aux larmes.

– Que c’est petit ! dit-elle ; comment ai-je pu tenir là dedans ?

Pobrezinha! Ao ver-se empoleirada tão alto, acreditava-se pelo menos tão grande quanto o mundo.
Em resumo, foi uma linda jornada para a cabra do Sr. Séguin. Pelo meio do dia, correndo à direita e à esquerda, ela caiu no meio de um bando de gamos que despedaçavam, para comer, uma vinha selvagem. Nossa pequena corredora, de roupa branca, causou sensação. Deram-lhe o melhor lugar na vinha, e todos esses senhores foram muito galantes… Parece mesmo — isto deve ficar entre nós, Gringoire — que um jovem gamo de pelagem negra teve a sorte de agradar a Branquinha. Os dois namorados se perderam entre o bosque, durante uma ou duas horas; e se quiseres saber o que disseram, vai perguntar às fontes tagarelas que correm invisíveis sob o musgo.

Pauvrette ! de se voir si haut perchée, elle se croyait au moins aussi grande que le monde… 
En somme, ce fut une bonne journée pour la chèvre de M. Séguin. Vers le milieu du jour, en courant de droite et de gauche, elle tomba dans une troupe de chamois en train de croquer une lambrusque à belles dents. Notre petite coureuse en robe blanche fit sensation. On lui donna la meilleure place à la lambrusque, et tous ces messieurs furent très galants… Il paraît même, – ceci doit rester entre nous, Gringoire, – qu’un jeune chamois à pelage noir, eut la bonne fortune de plaire à Blanquette. Les deux amoureux s’égarèrent parmi le bois une heure ou deux, et si tu veux savoir ce qu’ils se dirent, va le demander aux sources bavardes qui courent invisibles dans la mousse.

De repente o vento esfriou. A montanha se tornou violeta. Era a noite…

— Já! — disse a cabrinha, e se deteve muito espantada.

Embaixo, os campos estavam inundados de bruma. O cercado do Sr. Séguin desaparecia na penumbra, e da casinhola só se via o teto com um pouco de fumaça. Ela ouviu as campainhas de um rebanho que se recolhia, e sentiu a alma muito triste. Um corujão que voltava ao ninho a esfrolou com as asas, ao passar. Ela estremeceu… depois foi um brado na montanha:

—    Uuuuu! Uuuuu!

Tout à coup le vent fraîchit. La montagne devint violette ; c’était le soir.

– Déjà ! dit la petite chèvre ; et elle s’arrêta fort étonnée.

En bas, les champs étaient noyés de brume. Le clos de

M. Séguin disparaissait dans le brouillard, et de la maisonnette on ne voyait plus que le toit avec un peu de fumée. Elle écouta les clochettes d’un troupeau qu’on ramenait, et se sentit l’âme toute triste… Un gerfaut, qui rentrait, la frôla de ses ailes en passant. Elle tressaillit…

puis ce fut un hurlement dans la montagne :

– Hou ! hou 

Ela pensou no lobo; o dia inteiro a louca não tinha pensado nisso… No mesmo instante, uma trompa soou bem longe, no vale. Era esse bom Sr. Séguin, que tentava um último esforço.

— Uuuu! Uuuu! Uuuu! — fazia o lobo.

— Volta! Volta! — gritava a trompa.

Branquinha teve vontade de voltar, mas lembrando-se da canga, da corda, da cerca do curral, pensou que já agora não mais se podia afazer àquela vida, e que era melhor ficar.

A trompa não soou mais…

Elle pensa au loup ; de tout le jour la folle n’y avait pas pensé… Au même moment une trompe sonna bien loin dans la vallée. C’était ce bon M. Séguin qui tentait un dernier effort.

– Hou ! hou !… faisait le loup.

– Reviens ! reviens !… criait la trompe.

Blanquette eut envie de revenir ; mais en se rappelant le pieu, la corde, la haie du clos, elle pensa que maintenant elle ne pouvait plus se faire à cette vie, et qu’il valait mieux rester.

La trompe ne sonnait plus…

A cabra ouviu atrás de si um rumor de folhas. Voltou-se, e viu na sombra duas orelhas curtas, muito direitas, com dois olhos que reluziam… Era o lobo.

Enorme, imóvel, sentado sobre os quartos traseiros, estava ali, olhando para a cabrinha branca e saboreando-a por antecipação. Como sabia que a comeria, o lobo não se apressava; somente, quando ela se voltou, ele se pôs a rir maldosamente.

— Ah! Ah! A cabrinha do Sr. Séguin! — e passou a grossa língua vermelha sobre as beiçolas de cogumelo.

La chèvre entendit derrière elle un bruit de feuilles. Elle se retourna et vit dans l’ombre deux oreilles courtes, toutes droites, avec deux yeux qui reluisaient…

C’était le loup.

Énorme, immobile, assis sur son train de derrière, il était là regardant la petite chèvre blanche et la dégustant par avance. Comme il savait bien qu’il la mangerait, le loup ne se pressait pas ; seulement, quand elle se retourna, il se mit à rire méchamment.

– Ah ! ha ! la petite chèvre de M. Séguin ! et il passa sa grosse langue rouge sur ses babines d’amadou.

Branquinha sentiu-se perdida… Por instantes, lembrando-se da história da velha Renaude, que se tinha batido a noite toda para ser devorada pela manhã, disse para si mesma que talvez fosse melhor deixar-se comer imediatamente. Depois, tendo mudado de idéia, caiu em guarda, a cabeça baixa e o chifre para a frente, como corajosa cabra do Sr. Séguin que era. Não que tivesse esperança de matar o lobo — as cabras não matam o lobo — mas unicamente para ver se poderia resistir tanto tempo quanto a Renaude…

Então o monstro avançou, e os pequenos chifres começaram a dança.

Ah! a valente cabrinha, como lutava com todas as forças! Mais de dez vezes (eu não minto, Gringoire) ela forçou o lobo a recuar para retomar alento. Durante essas tréguas de um minuto, a gulosa colhia às pressas um brotinho da erva querida, depois retornava ao combate, com a boca cheia. Isso durou toda a noite. De quando em quando a cabra do Sr. Séguin olhava as estrelas dançarem no céu claro, e dizia consigo mesma:

— Oh! tomara que eu resista até a madrugada…

Alors le monstre s’avança, et les petites cornes entrèrent en danse.

Ah ! la brave chevrette, comme elle y allait de bon coeur ! Plus de dix fois, je ne mens pas, Gringoire, elle força le loup à reculer pour reprendre haleine. Pendant ces trêves d’une minute, la gourmande cueillait en hâte encore un brin de sa chère herbe ; puis elle retournait au combat, la bouche pleine… Cela dura toute la nuit. De temps en temps la chèvre de M. Séguin regardait les étoiles danser dans le ciel clair et elle se disait :

– Oh ! pourvu que je tienne jusqu’à l’aube…

Uma após outra, as estrelas se extinguiram. Branquinha redobrou as chifradas, o lobo as dentadas… Um pálido clarão apareceu no horizonte… O canto enrouquecido do galo subiu de uma fazenda.

— Enfim! — disse o pobre animal, que não esperava senão pelo dia para morrer.

E ela estendeu-se por terra em sua bela pelagem branca, toda malhada de sangue… Aí o lobo se atirou sobre a cabrinha e a devorou.

L’une après l’autre, les étoiles s’éteignirent. Blanquette redoubla de coups de cornes, le loup de coups de dents…

Une lueur pâle parut dans l’horizon… Le chant du coq enroué monta d’une métairie.

– Enfin ! dit la pauvre bête, qui n’attendait plus que le jour pour mourir ; et elle s’allongea par terre dans sa belle fourrure blanche toute tachée de sang…

Alors le loup se jeta sur la petite chèvre et la mangea.

Adeus, Gringoire!

A história que ouviste não é um conto de minha invenção. Se algum dia vieres à Provença, nossos caseiros te falarão freqüentemente da cabro de moussu Séguin, que se battègue touto la neui emé loup, e piei, lou loup la mangé — A cabra do Sr. Séguin, que se bateu toda a noite com o lobo, e depois, pela manhã, o lobo a devorou.

Ouves-me bem, Gringoire?

E piei, lou loup la mangé.

Adieu, Gringoire !

l’histoire que tu as entendue n’est pas un conte de mon invention. Si jamais tu viens en Provence, nos ménagers te parleront souvent de la cabro de moussu Séguin, que se battégue tonto la neui erré lou loup, e piei lou matin lou loup la mange.

Tu m’entends bien, Gringoire.

Alphonse Daudet


Metafísica, metafísica – Metaphysic, metaphysic

sombra

With english translation below the text in Portuguese

Régis Alain Barbier – Aldeia, dezembro de 12

Uma vez que um conceito fundamental como metafísica significa profundamente, ele molda as epistemes que nos dirigem e orientam, estrutura a nossa natureza frente aos universais e se generaliza, reafirma e automatiza, repicado em ritos, mitos, metáforas e configurações tradicionais, criando e sustentando as arquiteturas societárias e geopolíticas. Tal conceituação, existindo, não se deve descartar ou recolher num depósito: é instrumentação plena de feitiços. Mais ainda, quando o que se rege e gerencia através do uso do termo necessita ajustes intensos por ser calamitoso. Ideias e imagens longamente evocadas, adequadas ou não, repicam por si só, proliferam. Num primeiro momento, esse termo fundamental, pedra angular de uma época, deve ser enfrentado, trazido à luz, desconstruído e ressignificado: as chaves que fecham certas portas devem ser reutilizadas diversamente para reabri-las.

A metafísica, como uma dama convidada para dançar, desceu da sua tribuna artificiosa, voltou a se enlaçar com a força vital; hoje, significados antes esquecidos, novamente se revelam, libertando outros potenciais, trazendo novas luzes e compassos no centro das cidades, praças e corações. Metafísica é conceito verboso e substancial, o termo mais profícuo que existe para nós: projeção intuitiva, burilada a partir da estruturação precoce do pensamento debatido nos enquadramentos das antigas praças públicas adjacentes à primeira academia. Um conceito de tal porte surge para liderar categorias, criar dobras e ângulos fabulosos no real, justificar eixos e planos psicossociais, ofuscando clivagens que não se reconhecem apenas ‘analisando’. Portanto ‘metafísica’ reporta a algo tremendamente efetivo, espantoso, cardeal, que se problematiza ofuscando o termo e se complica querendo racionalizar o que não necessita.

No centro do acampamento, a fogueira; atrás de mim, o sol já se pondo, inclinando os raios e as sombras. Uma silhueta alonga: é a sombra do meu corpo margeando o fogo e indo além para se dissolver nas tufas agitadas do capim. Haveria sombreiros sem corpos e sem sol? Quem já viu sombras não enraizadas a corpos ou não dançando com as nuvens? Haveria terra e sol sem poeira cósmica condensada? O projeto cavernoso de Platão, antes de ser ordenado e reduzido a estratos hierarquicamente alinhados, atribuídos de valores, é Cosmos, vastidão infinda e única: a sombra caminha com a luz, como a planta do pé com o dorso, não há pé sem solo, não há planeta sem estrela solar, nada existe sem dois lados de valências pareadas. Uma luz de um lado, luzindo sozinha, do outra sombras enoveladas numa noite densa e radicalmente separada, uma terra acolá, e, em lugar ignoto, um sol solitário e afastado cujos raios não chegam; meteoros enviados estabelecendo relações? Não há pensamentos e ideias sem cabeças, não há sentidos sem corações sensíveis. Metafísica, como elucubração rondando o inexistente, dois mundos separados, não vigora; a separação não tem substância, só a conectividade é plena e valente, mas fortemente censurada. Existem crenças e ideações proveitosas alimentando ‘corolários metafísicos secundários’ que estacam e conservam um modelo psicossocial alienado, fracionado, sub-rogado no jugo da episteme representacional: os representantes do alto dirigindo os cegos de baixo. Não há ontologia sem semântica, semântica sem psicologismo, psicologismos sem política e teologia.

A divisão imaginária e rude do que é unitário, apontado como ordenação ‘metafísica’, ‘posicionamento metafísico’, é consagração absurda, tradição obedecida, mas abusiva, desvio metonímico e degradação do grande e poderoso termo. ‘Metafísica’ aponta uma estruturação bem mais sutil, poética e complexa, cujo enraizamento profundo acontece nas formas e morfologias intuitivas, pré-predicativas, onde se inspiram ideias que ativam e vivificam o reconhecimento dos vetores que equacionam consciência e existência, existência e Cosmos, em função de uma dupla correlação: uma de natureza variável e acidental ofertada pela cultura, consagrada em ritos e mitos; a outra, necessária ou dada-a-ser, natural. Metafísica não é crença na existência de dois mundos separados, natural e sobrenatural, não relata a dogma ou fé – a beleza e o perfume das rosas não são hipóteses. Metafísica é a forma como se consagra e conscientiza a correlação cosmo-existencial; o termo atende um eixo de problematização pré-conceituado em intuições precoces, pré-racionais, refletidas e regidas pela função racional do pensamento duplamente influenciada. A influência mais decisiva é cultural. É a forma repicada, cultivada e estruturada nas etiquetas, arquiteturas e mitos, que sinaliza e sentencia o peso e o valor do existente frente ao superlativo, à totalidade e ao poder: empatia, sincrônica e harmoniosa, graciosa; ou antipatia, rejeição e separação, desgraça: é a balança ajuizadora operando nos ritos batismais, no começo da vida e não no fim – é o juízo original.

O rito batismal operado nas catequeses e cultuado entrelaçado às disposições políticas da cidade, por sua vez inserida nas coisas da natureza, é a arquitetura – mais urbi ou orbi, na dependência da locação e posicionamento dos viventes – que condiciona as duas fontes influenciadoras em enlaces e vetorizações variáveis. Um rito estabelecendo e confirmando uma relação simpática entre a criatura e o cosmos, evocando uma natureza amena que inspira arroubos estéticos e sublimes aptos a transportar projeções abstratas em enlaces sinestésicos, só pode reunir e ajuntar as impressões e as ideias, desvendar a trama unitária e mística que explicita o divino. Nasce um poeta! Um artista! Aleluia! Um mito que rebaixa e não consagra poderá ser desafiado nas brechas visionárias ansiadas pelos curiosos: nos acenos das musas, nas aberturas do amor, nas belezas que circundam, nos ritos proibidos. Afirma-se um inconformista, um reformador, um filósofo. Quem aceita os anátemas sem duvidar, será fiel regular, sendo filósofo, terá o verbo corroído, ruminará o ‘ente’ e o ‘ser’ buscando no futuro o grande momento que não chega; procurará a essência, a glória e verdade do sentido nos contrastes e compassos curtos e artificiosos das histórias nacionais – ilusões sem domínio onde a fortuna revolta e inverte os destinos.

Portanto, está claro que a decantação metafísica trivial, a que domina imperando nas nações, não é obra original do pensamento filosófico, não resulta, essencialmente, de uma busca cognitiva. A ideia e morfologia metafísica resultam e enraízam em impressões nativas e batismais que envolvem a todos os que nascem, por nascerem em natureza e cultura: defensores e detratores, ilustres ou desconhecidos, por igual; os que por elas se encantam e se submetem e os que se rebelam. A estruturação metafísica do corpo e da ideia, do estado-de-ser, relata encantos e rebeliões primárias que vicejam em ritos, condicionados e introjetados, ou configurações secundárias, refeitas ao sabor de encontros repensados, raras vezes comtemplados: reconstruções cuidadosamente escolhidas. O pensamento segue atrelado às intuições iniciais, como uma carruagem puxada por dois cavalos, em acordo ou desacordo, sereno ou angustiado. Ocasionalmente, a inspiração e ideia tomam a dianteira e trilham uma relação consciente e cogitada com o divino, ainda assim, necessitando sinais, comunhões e revelações, como as flores necessitam de húmus e de chuva.

O bem-estar que se pode sentir, o bom pensamento, a virtude que se vive, a serenidade dependem dessa relação denominada metafísica – justamente ‘metafísica’conexão que se deve conhecer e moldar, querendo elevar-se ao grau de homo sapiente: a criatura cujo dever mais sublime é assenhorar-se dos mitos, equacionar seus dramas e aventuras. Considerar-se banido das esferas celestiais implicará viver o inferno a que corresponde; reconhecer-se integrado propende a uma boa vida, intencionada à apreciação do belo, permitindo conviver com as musas, polindo e zelando a memória – honrando Memosina, amante e esposa do divino. Trata-se de uma construção.

As perspectivas metafísicas não são redução ou projeções a-físicas, seja esse ‘transcendental’, mero subjetivismo, ou reflexão desprovida de coisa, ou esse ‘transcendente’, idealismo hipotético destituído de substância. O eixo de perspectiva transcendente-transcendental, tanto ao gosto dos culturalistas que enxergam o elísio nos destinos dos Estados e mandados dos imperadores, é manco, a-físico, quebra e nega o conceito por não ser metafísico – jamais configurou metafísica alguma. Não narra a relação alquímica do denso e do sutil, passa ao largo, confundindo normas e dogmas com princípios, contraposições lógicas com justaposições paradoxais. A perspectiva metafísica é unitária, trata de eixo de perspectiva cosmo-existencial que ajunta num rebis alquímico as duas ‘res’ ou atributos em unidade: o grande sym-bállein[1] jamais foi radicalmente rompido, nem configura a ruptura algo a ser considerado argumento positivo, relativo a algo. O Cosmos e nós, somos um sym-bolom reunido: a ‘res cogitans’ significa e cogita o próprio corpo. A comunhão reúne, a ruptura cria, mas a consciência atenta perdura e acha um meio de andar nas crestas, evitando os vales, no fim encontrando uma ilha ensolarada, uma nova Índia, onde bem se vive antes de se regenerar nas garras do vazio, honrando o novo.

É no exercício firme e sereno dessa comunhão central que se acha o terreno da boa lei que vem regendo em harmonia à luz da episteme participativa, estabelecendo uma nova era. No reconhecimento do outro como portador igual do divino, afirma-se um campo de respeito e entendimento onde as forças, recursos e a inteligência aberta podem resplandecer e florir trazendo soluções insuspeitas aos problemas que criamos ao exorbitar.


[1] Sym-bállein ou sym-bolon, símbolo num sentido completo, signo e reconhecimento de identidade no qual um objeto partido em dois, um disco, um anel, cujos dois hospedeiros potenciais conservam uma metade, que comparadas e justapostas serviam para que os portadores reconhecessem, através desse unicidade, as relações de hospitalidade e identidade antes contraídas.

Metaphysic, metaphysic

Régis Alain Barbier – Aldeia, December, 20 12

Once a fundamental concept as metaphysics has deep meaning, it shapes the ‘epistems’ that drive and guide us, structures our nature before the ‘universals’ and generalizes, reaffirms and automates, solemnly ringing in rites, myths, metaphors and traditional configurations, creating and sustaining society and the geopolitical architectures. Such conceptualization, if existing, should not be discarded nor recollected into a deposit: it is a political instrumentation full of witchcrafts. Long lasting evoked ideas and images, adequate or not, use to ring themselves, they proliferate. At a first moment, those fundamental terms, cornerstone of an era, shall be faced, brought to light, deconstructed and reframed; the keys closing certain doors shall be differently reused to reopen them.

Metaphysics, as a lady asked to dance, descended from its artful rostrum, returned to entwine with the vital force; today, early forgotten meanings, reveal themselves again, releasing other potentials, bringing new lights and compasses to the city centers, squares and hearts. Metaphysics is a wordy and substantial concept, the most profitable term existing to us: intuitive projection, chiseled from the early structuring of thought discussed in the frameworks of antique public squares adjacent to the first academy. A concept of such magnitude appears to lead categories, creates amazing plaits and angles in realty, justifies psychosocial axes and planes, overshadowing or delineating cleavages which are not acknowledged through a simple ‘analyzing’. Therefore, ‘metaphysics’ refers to something so tremendously virtuoso, effective and astonishing, that renders itself problematic, overshadowing the trends and getting itself into trouble, trying to rationalize what’s not needed.

In the center of the camp, is the fire; behind, the sun setting, inclining its rays and shadows. A silhouette stretches out: it´s the shadow of my body bordering the fire and going beyond to dissolve itself in the agitated tufted grass.  Would there be shades without bodies or sun? Who have already seen shadows not rooted to bodies or not dancing with the louds? Would there be the Earth and the sun without the condensed cosmic dust? Plato´s cavernous project, prior to being ordained and reduced to value attributed to hierarchically aligned stratums, is Cosmos, endless and unique vastness: the shadow moves with the light, as the sole of the foot with the instep, there´s no foot without sole, as there´s no planet without a solar star, nothing exists without two sides of paired valences. One light at one side, shining alone, on the other, wound up shadows in a radically separated and dense night, an earth far beyond, and, at an unknown place, a lonely and distant sun whose rays do not reach us; meteors dispatched establishing relationships? There aren´t thoughts nor ideas without heads, there aren´t feelings without sensitive hearts. Metaphysics, as close meditation hanging around the non-existent, two separate worlds, is not in force; the separation has no substance, only the connectivity is full and worthwhile, but heavily censored. There are profitable beliefs and conceptions feeding ‘secondary metaphysical consequences’, supporting and preserving an insane psychosocial model, fractional, subrogated under the submission of the representational episteme: heaven´s representatives guiding the blinds from down below. There´s no ontology without semantics, semantics without psychologism, psychologisms without politics and theology.

The imaginary and rude division of what is a unit, indicated as ‘metaphysical’ ordination, ‘metaphysical positioning’, is an absurd anointment, obeyed tradition, but abusive metonymic deviation and degradation of the greats and powerful primeval terms. ‘Metaphysics’ indicates a greater subtle, poetic and complex structuring, pointing the deepest rooting, what happens on intuitive and pre-predicative ways and morphologies, where ideas that activate and vivify the recognition of vectors that equate consciousness and existence, existence and Cosmos, are inspired due to a double correlation: one of variable and accidental nature offered by culture, anointed in rites and myths; and the other, necessary or given-to-be, natural. Metaphysics isn’t the belief on the existence of two, natural and supernatural, separated worlds, doesn´t report to dogma or faith – the roses´ beauty and aroma aren´t hypotheses. Metaphysics is the way how the cosmos-existential correlation is anointed and known; the term serves a pre-conceptualized questioning axis in pre-rational and early intuitions reflected and governed by the rational function of the doubly influenced thought. The most conclusive influence is cultural. It is the routinely way cultivated and structured in etiquettes, architectures and myths, signaling and sentencing the weight and price of what exist forward-facing the superlative, the wholeness and the power: empathy, synchronic and harmonious, graceful; or antipathy, rejection and separation, disgrace: it is the judging scale operating in baptismal rites, early in life, not at the end – it´s the original judgment.

The baptismal worshipped rite operated on the catecheses and intertwined to the city´s political dispositions, at its turn inserted in the nature´s things, is the architecture – more ‘urbi’ or ‘orbi’ (the city or the globe), depending on the location and positioning of the living beings – conditioning the two influencing sources in variable unions and vectors. A rite establishing and confirming a charming relationship between the creature and the cosmos, evoking an agreeable nature inspiring aesthetic and sublime ravishments capable of transporting abstract projections in ‘synesthesic’ unions, can only unite and gather impressions and ideas, unveil the mystic plot explicating the divine. A poet is born! An artist! Hallelujah! A myth that degrades and doesn’t anoint might be challenged on the visionary breaches yearned by those curious ones: in the muses´ hand waving, in the love´s candor, in the circulating beauties, in the prohibited rites. An adept of inconformism, a reformer, a philosopher is affirmed. He who accepts the anathemas without questioning will be a true believer; being a philosopher, he will have the verb corroded, ponder the ‘object’ and the ‘creature’ searching in the future the great moment that doesn´t come; he will look for the essence, the glory and truth of the meaning in the short and artful contrasts and compasses of the national histories – illusions without domain where fortune revolts and reverses the destinations.

Therefore, it´s evident that the trivial metaphysical decantation, that which domains and reigns in the nations, isn´t an original work of the philosophic thought, and doesn´t essentially result from a cognitive search. The metaphysical idea and morphology result enrooted in native and baptismal impressions, involving all who are born, for they are born in nature and culture: supporters and slanderers, distinguished or unknown, equally, those who are enchanted by them or surrendered to them, and those who rebel themselves. The body´s and idea´s metaphysical structuring, that of the state-of-being, reports primary enchanting and rebellions, thriving in rites, conditioned and incorporated; or secondary configurations, rebuilt at the mercy of rethought and encounters scarcely envisioned: carefully chosen rebuilding. The thinking continues linked to the initial intuitions, just like a coach pulled by two horses, undisturbed or distressed, under agreement or disagreement. Occasionally, inspiration and idea overrun and tread an imagined conscious relationship and with the sublime, and yet, requiring signs, communions and revelations, just as the flowers need humus and rain.

The well-being one might feel, the good thinking, the virtue one lives, the peacefulness, depend on this relationship called metaphysics – just ‘metaphysics’ – a connection one might know and mould, willing to rise to the ‘homo sapiens’ degree: the creature whose most divine duty is to conquer the myths, equate his/her dramas and adventures. To consider him/herself banished from the celestial spheres will imply living the corresponding hell; to acknowledge him/herself integrated tends to a good life, intended to appreciate the beautiful, allowing to live with the muses, polishing and overseeing the memory – honoring ‘Memosina’, the divine´s lover and consort. This is nothing but a construction.

 The metaphysical perspectives are not a-physical reduction or projections, being this ‘transcendental’ mere subjectivism, or reflection deprived of reason, or this ‘transcending’, hypothetic idealism deprived of substance. The transcending-transcendental perspective axis, at the taste of the culturists seeing the Elysium on the states destinies and emperors´ orders, is lame, ‘a-physical’, breaks and denies the fundamental concept for not being metaphysical – has never configured any metaphysics whatsoever. Does not narrate the dense and subtle alchemical relationship, does not care much about it, confusing rules and dogmas with principles, logic counter-positions with paradoxical juxtapositions. The metaphysical perspective is monistic deals with cosmos-existential perspective axes, compiling in an alchemical ‘rebis’ the two ‘res’ or attributes into a unit: the great sym-bállein[1]has never been radically broken, nor configures this rupture something to be taken into account as positive argument, pertinent to something. The Cosmos and us, are a united sym-bolom: the ‘res-cogitans’ means and considers the body itself. Communion unites, rupture creates, but the thoughtful conscience lasts forever, and finds a way to walk on the crests, avoiding the valleys, and at the end finding a sunny isle, a new land, where one uses to live well regenerating itself in the claws of emptiness, honoring the novel.

It is on the firm and serene exercise of this central communion that one can find the ground of the good law ruling in harmony at the light of the participative epistem, establishing a new era. When recognizing in the other as equal bearer of the divine, a field of respect and understanding is affirmed where the forces, resources and the open intelligence can shine and bloom bringing unsuspicious solutions to the problems we create cultivating exorbitant ghosts.


[1] Sym-bállein or sym-bolon, symbol in a full meaning, identity sign and acknowledgement in which an object split in two, a disc, a ring, whose two potential hosts preserve a half, that when compared and juxtaposed would make the bearers recognize, through this oneness, the hospitality and identity relationships early acquired. 

Paradoxo unitário

Intuição, Virtude e Decisão

tumblr_mmuf3fXFdS1qcnghko1_400

 Régis Alain Barbier – Aldeia, 2012

ÍNDICE

1    Introdução breve.

2    Namasté!

3    Da filosofia que aqui se explicita.

4    Das extrapolações da ciência filosófica.

5    Do discernimento justo e sagital.

6    Metafísica – saber paradoxal.

7    Da natureza cognitiva do não-saber.

8    Das coordenadas metafísicas secundárias.

8.1    Coordenada cosmo-existencial.
8.2    Coordenada transcendente-transcendental.

9    novo alvorecer.

Citar como: Barbier, R. A.; O PARADOXO UNITÁRIO – Intuição, Virtude e Decisão;  2012: artigo internet – www.essencialismo.org.br

“Pelas tardes azuis do Verão, irei pelas sendas, Guarnecidas pelo trigal, pisando a erva miúda: Sonhador, sentirei a frescura em meus pés. Deixarei o vento banhar minha cabeça nua. Não falarei mais, não pensarei mais: Mas um amor infinito me invadirá a alma. E irei longe, bem longe, como um boêmio, Pela natureza, – feliz como com uma mulher”. Sensação – Arthur Rimbaud – março 1870.

“De resto estou me sentindo muito bem por aqui (…). Cada árvore, cada moita é um ramo de flores, e a gente faria gosto em se transformar num besouro para esvoaçar nesse mar de perfumes e poder sugar todos os seus alimentos”. Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Johann Wolfgang von Goethe.

 

1        Introdução breve

 

Ser parte do processo existencial, dotado do poder de sentir, acertar ou errar, é inquietante; demanda um cuidado no intuito de viver bem e prevenir sofrimentos, quando necessário, curar; isto é, exige filosofia e terapia. A busca de uma visão e realização que possa honrar e justificar, senão explicitar, essa existência, exige uma praxe eficaz que não deveria prescrever-se estudando apenas os pensamentos e reflexões, como sujeito; ou apenas a objetividade, os objetos, é necessário focar a atenção no estudo mais central do processo existencial: a relação da consciência própria com o que existe[1].

Em toda e quaisquer circunstâncias, a virtude mais íntima atribuída a essa relação consciência-existência institui e delimita modos de conhecer e enquadramentos geradores de experiências e trajetórias existenciais. De acordo com os significados e valores escolhidos, essa relação da consciência com o dado-a-ser equaciona epistemes[2] na regência das quais se delimitam e regulam potenciais existenciais – fronteiras de oportunidades e desafios, margens de felicidade ou sofrimento.

 Uma vez singularizado, lançado na existência, o que mais profundamente pode determinar e orientar o destino? É a apreciação profunda, genérica, que se institui no interior e em si[3], na interface da relação consciência-existência, gravitação na qual se configuram e estabelecem os eixos conceituais relativos às grandes dicotomias: ‘sujeito-objeto’, ‘eu-outro’, ‘eu-cosmos’, ‘eu-divino’, todos, atributos elementares dessa relação  continente e central[4].

A natureza dessa relação consciência-existência é essencial: uma apreciação positiva e unitária, geradora de um processo íntimo de concórdia e serenidade, revelará um processo criador e dialógico, fenômenos opositivos e contrastantes, mas complementários, motivadores de disposições harmoniosas. À luz de um entendimento divergente, opositivo e dualista, imaginar-se-ão reações conflituosas, implicando rupturas incontornáveis, doutrinando-se alternativas esperançosas, até mesmo imaginando-se potenciais de reunificações em planos hipotéticos.

Do ponto de vista filosófico, a primeira atitude, vislumbrando uma natureza unitária e paradoxal frente ao processo existencial, se caracteriza como um monismo participativo e integrador; a segunda, perfaz um dualismo dogmático e sectário. Esse monismo instaurador de uma relação  consciência-existência combinante e serena se inscreve num eixo de perspectiva metafísica nos meus escritos denominado cosmo-existencial enquanto que o dualismo se inscreve no eixo de perspectiva metafisica transcendente-transcendental.

A mim mesmo indaguei: essa relação da consciência com a alteridade, a relação consciência-existência que testemunho e vivifico na primeira pessoa, exemplifica uma união fenomenal ou uma ruptura abissal? Qual a sua apreciação? Reunir ou separar? É nessa espagiria operada no mais profundo do estado-de-ser, que se fecham e abrem destinos. Onde está a pedra filosofal capaz de curar e reunir o desunido, reposicionar o eixo cosmo-existencial – pedra sobre a qual erigir uma nova vida e civilização?

2       Namasté!

Imersos na natureza e nas formas gerais da cultura, somos congêneres, existimos no mesmo contexto. A consciência imediata de ser o que somos, as faculdades da imaginação, o estudo dos sentimentos e pensamentos, atitudes e comportamentos, a interação da sensibilidade e inteligibilidade no propósito de compreender as relações com o que é outro, configuram, em conjunto, uma forma de cognição compartilhada.

Como chegar-se a uma resposta filosófica apenas analisando ‘coisas’ e a logicidade dos ‘conceitos’, descartando o resto? Virtuosos ou não, os sentimentos são, com toda evidência, aspetos que determinam as escolhas que se fazem ao enfrenar a existência. Somos uma conjunção de atributos físicos e cogitativos; logo, além de ser um processo de descoberta, a busca filosófica é, paralelamente, um exercício de encontros, processos dialógicos, escolhas e decisões – tudo o que perfaz a realidade existencial se apresenta para ser apreciado e considerado de diversas formas, com diversos métodos.

Uma filosofia é uma filosofia quando reporta frontalmente à experiência de existir; ela deve realizar-se em amplas perspectivas, começar das instâncias mais terminativas e profundas, fornecer um ponto de partida e orientação sólida, credível, para que se escolham condutas justas e sensatas. Sem uma apreciação intuitiva e estética que verte a consciência no campo universal, não se acha o ponto de mutação, o alfa e ômega que reporta o estado-de-ser ao que não tem limites.

Toda filosofia, mesmo complexa, elucubrando hipóteses, parece querer (re)estabelecer uma ponta, ou conexão, entre um sujeito angustiado e a intuição de uma realidade harmônica, do Belo que repousaria a busca em silêncio resoluto e sereno. Mas os usos e costumes da cultura que viceja – suas políticas destrutivas e hábitos sustentados em educação impositiva, ‘bancária’ nos termos de Paulo Freire –  obstruem o contato intuitivo com a essência unitária que não se descreve em termos lógicos, como se fosse objeto.

Uma filosofia condicionada em especificidades cognitivas reduzidas não desvenda valores universais; uma escola que repousa as suas razões numa corrente infinda de citações que desaguam em coisas tradicionais, mas aceitas sem exame, é doxa, reporta a opiniões. Não se pode conhecer o que é essencial a partir de perspectivas não examinadas, reportadas, latentes como tabus, ou cogitadas nos modos de um observador racional, mas inapto à justa consideração da intuição, valorização genuína da relação consciência-existência que vigora em primeiro lugar.

Uma filosofia lúcida, unindo o abstrato e o sensível, compartilhando inteligência, deve confrontar o estado-de-ser na arena existencial, não ofuscar a realidade evocando ‘testemunhas neutras’ almejando fazer do ‘mundo’ e do ‘sujeito’, eventualmente circunscritos entre parênteses, algo com uma entidade ou coisa que se pudesse testar e delimitar através de um instrumento quantitativo e lógico montado e instalado numa bancada de laboratório ou lançada em órbita.

Tampouco é suficiente ‘pôr entre parênteses’ processos racionais e dissociativos geradores de pareceres confusos, mas vulgarizados como heranças culturais: tais dubiedades e hipóteses não se superam por afastamento provisório, falsificação progressiva, ou negação simples; negadas, continuam servindo de contraponto referencial, comprometendo a clareza do discurso e da busca que passa a acontecer como uma escavação cega onde se tenta progredir rejeitando o que não é. Esse laboratório analítico não produz evidências que sanam a angústia existencial, tampouco o niilismo, que resultam do não reconhecimento e apreciação do que simplesmente se é – natureza-ciente.

A intenção que procura conhecer com naturalidade os mistérios da existência abrange o reconhecimento e domínio dos planos fundamentais; da justa percepção dessas relações e correspondências decorrem praxes sóbrias, instituídas em inteligibilidade e sensibilidade, onde abstrações evolvem em completudes totalizantes que satisfazem o intelecto e enlaçam o pensador em realizações numinosas[5] que alegram o coração; tudo convergindo em estruturas que envolvem o estado-de-ser em modos e atributos incontornáveis e de profunda harmonia.

Visionários, poetas, artistas e filósofos que se reconstruíram muitas vezes nessas buscas e reflexões, não se apegam a ideais dicotômicas que imaginam romper a relação consciência-existência que se é, evocando um sujeito instituído em ideias, fiador de um saber reservado, contrastando com  um eventual sujeito destituído de ‘razões puras’, incorporado a um mundo sensível e acidental. É possível reaprender a filosofar com sobriedade, como um indígena, um antigo mestre de saber, carregando coração e pensamento reunidos, como um farol, a essência vinda da origem e selada na união generativa e amorosa dos gametas. A filosofia fenomenológica de raiz, integrada e justamente compreendida, traz no seu bojo as ferramentas que configuram um justo e sóbrio entendimento, começando um discurso centrado, buscando a partir do ‘interior-em-si’, lugar e fundamento onde se encontra a essência que reside na comunhão justamente apreciada da consciência e da existência[6].

Nesse processo, surpreende e comove a convergência identificadora que se estabelece entre a totalidade da cognição e seus objetos, o mundo mensurável (esse ‘estado extensivo’) e o ser inteligente e sensível (esse ‘cogito filosofante’)’: ajuntam-se num sym-bállein[7], estado-de-ser integrado, celebrando a vida, espargindo e refletindo universais, como uma mandala; conjunção onde a essência é amor antes de ser razão – a união não se analisa, o Belo não se formula, se intuem.

Um mesmo fenômeno biológico, social e psicológico, arquiteta a corporeidade e a cognição, corpo-e-visão, com razão e sensibilidade. Em si mesmo se consagram a unicidade de classes e categorias paradoxais, sem por isso acuar o vivente em angústias existenciais e dilemas insolúveis. O estado-de-ser, singular e universal, é a estrutura fundadora, o que existe primeiro, contendo em unidade e justapondo em harmonia ser-estado e estado-ser em grau diversos de acuidade, presença e reflexão: essa interatividade, como apriorismo radical, é categoria existencial prima. Não existem objetos da ‘história natural’[8] fora do campo da consciência historiadora e categorizadora, igualmente natural, a não ser como hipótese. Acontece uma triangulação integrada, de dimensões universais: lugar originário a que se pertence como vivente (Ethos), evidenciando um saber e uma inteligência intuitiva e reflexiva que se demonstra por ser o que se é (Logos): lugar e saber associados e unidos como irmãos em comunhão conjuntiva (Mythos). A dualidade se transcende no surgimento desse rebis[9], feito de lugar existencial e consciência integrados. O a priori de toda ciência, fonte suprema das teorizações, telo e teologia, jorra da experiência imediata e autoral do estado-de-ser, quer seja mentor lúcido ou iludido.

O que devo escrever para expressar o que parece ter sido intuído pelos filósofos basilares até Sócrates, evocado pelos poetas, artistas e crianças de todos os tempos? O que devo dizer, até mesmo construindo um discurso contextualizado ao redor das ideologias vigentes, para apontar esse contato metafísico e poético, comovente, rompendo, como se fosse filó, as arquiteturas sofisticadas desse sujeito pensativo e recalcado, imaginando-se perdido, separado do mundo e do numinoso, necessitando guias, especialistas e normas para achar sentido e orientar o seu viver? Como exaltar um sentido sereno que aprecia a existência? Como assentar no coração as diástoles e sístoles desse mistério de aniquilação e reencontro universal?

Penso, até provar em contrário, ser muito adequado afirmar: a união existencial da consciência, do corpo, do mundo, é inabalável: a unidade paradoxal é o fundamento primal que sustenta a experiência, a totalidade da criação dada a conhecer. O reconhecimento dessa união primal desconstrói e desperta esse sujeito esquecido, estranhando a si mesmo, num imenso evento terminativo onde se revela a identidade original, substância e essência firmemente enlaçadas.

A paradoxal união da consciência e do cosmos desafia as reflexões hipotéticas em espanto e mutismo, nulifica os ‘telos’ fantasiosos que se substituem por sentimentos de fusão com os elementos: mar, sol, céu da noite ou do dia, percepções e abstrações sensíveis correspondentes: abrem-se janelas de luz, novas inteligibilidades e saberes, por onde se desdobram as frases poéticas e indígenas de uma nova vida e civilização. Uma (re)união que revela um ‘eu-sou’ imenso, galáctico como um uróboro[10], incluindo a totalidade da criação, o todo. Trata-se de uma razão filosófica sensível e qualificada, onde flui, em vias paralelas, ao lado dos saberes e das reflexões, uma praxe corajosa e prudente, que considera a situação existencial e rememora a historicidade em busca de despertar a grandeza e o talento da criança em apreciar o Belo.

A honra e o bom humor do estado-de-ser já despertado, igualmente indivíduo e totalidade, é fundamental na construção de um espaço filosófico-existencial que possa coordenar uma renovada ciência-de-si, crescendo do singular ao universal em busca do sublime.

3       Da filosofia que aqui se explicita

Notifica-se que a filosofia aqui explicitada não é um repertório conservador de razões matematizadas e formuladas, ou, apenas, um romantismo. Não é uma filosofia que se conforma aos acordos reduzidos de um modo intelectivo e dissociado de pensar, não é cientificismo, palavra repicada em uso, costumes, etiquetas e prevalências. Trata-se de uma filosofia profunda, ou ‘sistêmica’ num sentido que transcende o racionalismo metodológico: não se exclui nenhuma das funções psíquicas, integrando a totalidade da cognição nos processos investigativos. É filosofia existencial, ética e estética, sendo a referência fundamental o conhecimento do leitor, juízo final de valor; um intento passível de ser decodificado e compreendido por todos os humanos com sensibilidade e veio poético; filosofia construída para encontrar a melhor forma de significar e experienciar a vida, em si e em coletividade, descrevendo um posicionamento autonômico e renovado em busca de mais sabedoria – eutimia e eudemonismo.

Compreende-se que não se trata de uma busca dirigida a objetos culturais, como ciência, arte, economia, política, história da filosofia ou obras de autores definidos: não é filosofia que instrumentaliza objetificações, não é positivismo, investiga-se o existente como existente.

Expressa-se o fundamento e orientação dessa razão-qualificada, criando o conceito ‘eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial’ (ePMCE) para flanquear essa filosofia ao nível das esferas teleológicas que compelem o enquadramento civilizatório vigente, permitindo a superação da metafísica dualista e a sua trindade de ordenamentos teológicos, cientificistas-positivistas e políticos-midiáticos: palanques e púlpitos a partir de onde se molda, como um boneco de barro, e vulgariza o conceito mor da modernidade, esse ‘sujeito/objeto’, essa criatura coletivizada e massificada, ‘homens-de-quételet[11]’.

Utilizo a expressão ePMCE para expressar a natureza dessa razão qualificada e aberta, evitando o uso central de termos como ‘ontológico’ e ‘ôntico’, envolvidos nas nuanças conceituais consagradas no kantismo e heideggerianismo – termos enclausurados em véus reflexivos, afastados das definições pré-socráticas e aristotélicas primordiais onde um empirismo ponderado (uma forma gnosiológica indígena), conectava o ‘ser’ às suas dimensões cósmicas permitindo um outro exercício de filosofia.

Nega-se essa subjetividade kantiana[12] rigorosa, ponto de repique da filosofia racionalista-idealística, onde a busca dos princípios gerais acontece focada no paradigma apriorístico, ainda não suficientemente desafiado, de um ‘sujeito-objeto’ ensimesmado, possuidor de um ‘ser’ descrito, na melhor hipótese, como um ‘nós no mundo’, investigando um destino mediano envolto em negrume, esperançoso ou tenebroso, com uma mirada na história e outra nas ideologias, laicas e teológicas.

Nega-se, como pressuposto construído em evidências simples e intuições estéticas e vitais, a possibilidade de delimitar um sujeito separado da sua natureza, de decantar um subjectum do sujeito, contrariando a premissas fundamentais do pensar filosófico instituído – entre outras, as tentativas husserlianas e heideggerianas.

Ao predomínio escolarizado desses conceitos dicotômicos e adernados em teologismos ultimamente enraizados no masdeísmo, maniqueísmo e tomismo, respondo com os argumentos mais sóbrios e sensíveis do essencialismo[13] e da metafísica cosmo-existencial.

Dito em termos filosóficos: advoga-se a incompletude e o sectarismo fundador de uma filosofia da ipseidade, construindo uma abordagem universal ao redor do conceito de asseidade[14] como significado equivalente ao conceito contemporâneo de autopoiese[15], evocando uma interface onde intuição, virtude e sentimento, em união com a razão, estacam inegáveis ordenamentos existenciais.

O espanto comovente de sentir a natureza e o cosmos como portadores fundamentais da nossa mesma identidade é suficiente para justificar e apreciar a existência dada a ser: aqui, Sísifo é criança, encantado e feliz, descobrindo mundos em cada grão de poeira, ele rola a pedra em espirais infinitas, surpreendentes e sublimes.

Uma impressão metafísica infeliz, que desqualifica o estado-de-ser e resulta em vivências que desencontrem e empobreçam, não deve entravar a realização de uma apreciação filosófica consciente em busca de opções mais côngruas; uma transformação facilitada pela compreensão da considerável importância da ‘impressão metafísica batismal’: apresentação inicial e ritualizada de um ou outro juízo de valor relativo à relação consciência-existência[16]. Intuído e reconhecido outro potencial e opção de valorização, é possível estabelecer um diálogo e superar com responsabilidade as introjeções condicionadas e reproduzidas em usos, costumes e educações que reforçam a estraneidade do sujeito, do ‘Eu’.

Não parece difícil reconhecer que uma pedagogia talentosa deve revelar a realidade imediata da unicidade, com profundo respeito e virtude, fraternidade e liberdade, em todos os graus, poderes e responsabilidades. Um parâmetro útil e fiel para definir o que vem a ser uma boa vida, deve, por certo, explicitar com valor de verdade, uma justa, nobre e concordante relação do ‘ser’ com a (sua) ‘natureza’, o que implica  o cuidado de não ofuscar as buscas com preconceitos desavisados ou paradigmas latentes e apriorísticos, apanhados em educandários onde, reduzida, a razão mal sobrevive.

A filosofia aqui proposta, compartida entre inúmeros poetas e filósofos, todas as crianças, parte de um patamar atuante de autonomia e recordação onde a experiência de plenitude se inscreve como potencial natural e área de conhecimento imediato[17]; odisseia primordial, mãe de todo filosofar: um conhecimento sempre ressurgindo, transcende as distorções típicas e sofísticas das edificações psicossociais que cambaleiam. A vida vale como ela é: um momento estranhamente criativo cuja possível glória se acha compartilhando e cultivando, com bom-humor e respeito, a unidade que origina e vitaliza.

Nesse processo cognitivo dedicado à investigação dos arcanos impreteríveis do pensar filosófico, num tempo relativo à dedicação e ao vigor das buscas, o estudo e a contemplação afunilam em saberes incontornáveis, referenciais terminativos de todas as ‘ontologias e -logias’: saberes efetivos, focados na origem e identidade da relação consciência-existência, saberes metafísicos suportando escolhas e decisões responsáveis.

4       Das extrapolações da ciência filosófica

Antes de anuir com conjeturas ilhadas em equivocidades[18], mais sensato é tentar compreender a sua natureza própria, imediata, partindo de evidências mais integrativas: o existente, originado e identificado aos seus contextos, acontece e preexiste aos seus cogitos idealísticos! Os desvios metodológicos do idealismo e cientificismo, incluindo as afiliações batismais iniciais e institucionalizações subsequentes, condicionam uma postura artificiosa, ativa e prevalecente, mas oculta, em que filosofar acontece embutido numa representação alegórica; um lugar imaginário a partir de onde, seduzido, cooptado, o sujeito atua como se fosse ouvinte ou porta-voz representante de um verbum primordial.

Envolvido na alegoria, flutuando nas alturas incólumes da razão pura e reservada do ‘grande sujeito’, abaixo da arca verdadeira e enciclopédica, castelo de toda a ciência e filosofia, o adepto examina os pensamentos outros (alteridades), catalogados e indexados em escrituras e quadros negros, recuperados à luz dos preconceitos dominantes e mais citados; historiador, arqueólogo da consciência, supervisor mor e dileto das intenções alheias, entendidas ‘anedóticas’, ou, consideradas relevantes apenas quando biseladas de acordo com as ‘metodologias’ da tradição – condição necessária de visibilidade.

Uma reserva metodológica prepotente e absurda extrapolada à categoria de instrumental cognitivo basilar da busca filosófica: por desconsiderar os fundamentos frontais e paradoxais do acontecimento existencial, e, por escamotear as necessárias e primordiais impressões estéticas e éticas na construção da intuição filosófica cuja sensatez e vitalidade depende da virtude das apreciações e posicionamentos incorporados, escolhidos ou não. O cientificismo, essa postura operante e modernosa, alegoria laica correspondente ao dualismo teológico, não permite apreciar o estado-de-ser na sua justa esfera e tônus existencial.

O pressuposto tutelar amplamente difundido: “do ponto de vista da academia, não há filosofia melhor ou pior”[19], acusa esse  ‘cientificismo filosófico’, denotando e conotando: 1) que as elucubrações metodológicas pertencentes à ‘visão-compromisso’ dessa academia não permitem, ou autorizam, alcançar um saber e conhecimento ciente e virtuoso; 2) que essa neutralidade cientificista e filosofante acusa um ponto de vista condicionado que não consegue distinguir o melhor do pior; 3) que o ponto de vista dessa academia não é um belvedere suficiente para diferenciar o melhor do pior. Um posicionamento neutral, como uma bandeira içada a meio-mastro, evidenciando um intelecto ainda laçado nas adriças teológicas, assombrado, onde o melhor e o pior não se normatizam em concerto com a luz natural da razão, mas se ofuscam de acordo com a exigência dos dogmas; dogmas desacreditados como valores de verdade, embora, ainda não ‘de fato’, latentes como tradições batismais geradoras de estratificações institucionais fundadoras de rotinas proveitosas.

Afirmar não haver filosofia melhor ou pior, significa negar o valor da filosofia e afirmar-se suposto detentor de uma valia superior, de uma mirada in excelsis instituída em dogmas. Essa academia instituída no status quo civilizatório, com frequência instalada em pátios de igrejas desertados dos poetas e livres-pensadores, cultiva um cogito preposicionado, ancorado a enredos políticos que compartilham a mesma tradição e fundamento metafísico. Com efeito, não se pode examinar o processo existencial na alegoria de descritor autorizado, testemunha tutelada, porta-voz midiatizado, comprometido com uma proferição de neutralidade, lavando as mãos, a não ser parodiando a existência como se fosse um teatro ou um jogo cultural metrificado em regulamentos. Ao afirmar essa ‘neutralidade’, os adeptos do cientificismo e positivismo assumem um ponto de vista soberano, idealístico e ajuizador, regendo distinções a partir de critérios hipotéticos e contraintuitivos; fogem do ponto existencial e fenomênico que, com efeito, esclarece e neutraliza os desvios e abusos: não existem argumentos que suportem a estraneidade paradigmática do ‘eu’, medidas aptas a diferenciar figuras como ‘sujeito’ e ‘objeto’.

Retóricas e hábitos cognitivos reduzidos, descuidados, induzem a confundir hipóteses idealísticas, alegorias e metáforas, preferências e obediências fundadas em religiosidades supositivas, com posicionamentos metafísicos confrontados sem intermediações, depauperando a filosofia em equacionamentos lógico-gramaticais e apoéticos, fazendo a vida parecer um palanque de discórdias e equivocidades. A dissociação cognitiva do vivente do plano fenomênico impossibilita o reconhecimento frontal do paradoxo unitário que acontece antes das diversidades; mas, igualmente, desautoriza o existente, fomentando extrapolações sectárias indutoras de ideologias coletivistas, personalidades autoritárias e movimentos socioculturais conflituosos e destrutivos.

Não se pode instalar a paz no mundo supondo-se portador de critérios de verdades pautados em dogmas revelados ou tradicionais, a partir de uma alegoria gnosiológica condicionada e decorrente dos ritos e sectarismos fundadores. Lançar a razão em órbitas, condicioná-la em metrificações relativas a preconceitos, ou jogando dados, não traz veracidade, tampouco sabedoria. Confundir superestratificações[20] construídas em manobras artificiosas, instâncias de força e poder, com patamares de referência necessários e sensatos, poderá fornecer pontos de vista engenhosos, fortalecendo posicionamentos históricos proveitosos, políticos e culturais, contudo, relativos e correlatos ao artificialismo e dubiedade das suposições fundadoras, não fornecendo veracidades que justifiquem o processo existencial como acontece in natura.

Ninguém jamais poderá testemunhar o Cosmos a não ser como integrante típico e probante imediato, entranhado nos princípios e leis da natureza, pertencente ao espaço-tempo correspondente à experiência. Ser para ser exige pertencer (um ter e ser em união), estabelecendo-se a existência de coordenadas paradoxais irrefutáveis e universais, apesar de encobertas e sub-rogadas nessas alegorias, estilos pedagógicos e anuências sociopolíticas: existir é acontecer no momento universal, agregando em união o campo do ser e do ter, não querendo perder-se em desencontros, melhor é não confundir o real com representações prediletas e proveitosa, alegorias e máscaras tuteadas. Cultivar elitismos e circunscrever eleitores e alunos em classes, em nome de abstrações como ‘povo’ e ‘cidadãos’, ‘fiéis’ e ‘mercado’, instituindo perspectivas políticas e econômicas carentes de discernimento e virtude, estabelece graves rupturas, suficientemente comprovadas.

5       Do discernimento justo e sagital

É preciso retornar ao início, desembaraçar a mesa, reaprender a conhecer a partir da instância mais original do saber, instituída no fenômeno da diferenciação, onde um ato estruturador de distinções opera em campo unitário. Trata-se, igualmente, do começo da ciência-de-si e do princípio realizador, chave de todas as criações cientificáveis: nada existe sem distinção, quer seja na esfera do objeto ou do sujeito, ou na diferenciação entre um e outro. Uma teorética remoção radical das distinções retira a possibilidade de qualquer ontologia. Não se cogita um vácuo absoluto, infinito, sem distinção alguma: a imaginação do imaginador distingue-se do vácuo ou infinito imaginado, o vácuo absoluto não se distingue, a não ser como hipótese (a ‘não ser’), tal evento inexiste para o existente. Uma hipotética gênese primal, fundadora, irrupção metafísica primordial em busca de existencialidade, implica um processo de diferenciação: nada pode ser conformado à realidade e ao campo existencial, isto é existir sem a operação de distinções fundamentais, sejam, confrontadas com sobriedade, contempladas; ou então, demarcadas em mitos e dogmas.

No âmbito dessa filosofia fundamentada no eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE), a distinção-em-si, a interface ontológica e dialógica do estado-de-ser, é eleita como foco realizador, âmbito vivo e essência discernente e as setorizações (os atributos extensa e cogitans na mais ampla abrangência) como instâncias dialógicas. A partir desse eixo de perspectiva, compreende-se a capacidade de distinguir como necessidade existencial criativa e primária: o fenômeno propriamente dito – um feixe de lucidez inscrevendo demarcações fronteiriças a partir de onde dicotomias relativas se revelam e se coordenam, manifestando oportunidades de interações instituídas ao redor das inscrições primárias como linhas traçadas em pautas brancas.

Os atributos definidos por Espinosa a partir das res de Descartes configuram-se delimitados em referência a um processo coexistente, conato e centrado, rebis atuante em campo unitário. Trata-se de um posicionamento sensato, instituído  à luz da razão livre e natural, a partir de uma referência existencial testável no ato e foco da consciência que se experiencia e exemplifica: o ato discernente-em-si frente ao dado-a-ser, no coração do foco discernente/discernível; isto é, o ePMCE é aqui considerado natural e original, posicionamento mestre, autônomo, sóbrio e prudente, de todos os viventes – como um bastão de ouro plantado em vale fértil. Nesse caso a distinção-em-si é escolhida e eleita como foco inicial do acontecer existencial, âmbito vivo de discernimento, e as polarizações como eixos e instâncias dialógicas apenas reais na presença da consciência que diferencia e integra.

O projeto metafísico primário e generativo, relação operante da consciência de si com a consciência do que é o outro, reporta aos fundamentos intrínsecos e inevitáveis da existência, onde o Mythos pertence a Psyché tanto quanto o Logos – integrando-se em união a relação consciência-existência, Ethos. Tal evidência imediata, intuitiva e primal, é expressa nas tradições e artes de muitos povos: os símbolos referentes a esse fenômeno metafísico expressam-se em diversos mitos que ilustram essas separações e distinções como princípios fundadores exigindo posicionamento.

No Gênesis, os enquadramentos originais se expressam demarcando o espírito das águas – “o espírito divino se movia sobre a face das águas… Fez-se a separação entre a luz e as trevas… Deu-se forma ao vazio, criou-se a manhã e a tarde, o primeiro dia”. Na evocação mítica, o que vem primeiro estrutura distinções fundamentais: forma e vazio; manhã e tarde; espírito e água; luz e treva. Estar imerso em processos diferenciadores primários, inteligíveis e sensíveis, é vir à luz, experiência vivida por todos ao nascer: desperta-se luz e consciência do negrume da inconsciência, diferenciam-se as sensações proprioceptivas das sensações do clima, descobrem-se dias e noites, manhãs e tardes. De antinomias enlaçadas em negrume e lucidez, nasce o primeiro dia como uma estrela na noite.

Em outras mitologias, mais integrativas e dialógicas, o poder do mito, simbolizado como um bastão de ouro, busca um terreno receptivo e de concórdia, na Mitologia Andina estabelece-se um diálogo criador e gerador de harmonia entre ‘terra e sol’, ‘céu e lagos’, ‘montanha e vale’, ‘norte e sul’, ‘homem e mulher’ (o casal de irmãos Mama Occlo e Manco Capac): “no lugar onde o bastão de ouro penetrou a terra, em Cuzco, reconheceu-se o centro da civilização sagrada do sol… O irmão indo ao Norte e a irmã ao sul, reuniram todos no centro, na cidade, para bem viver em comunhão, homens cultivando e irrigando, mulheres semeando e colhendo”. Aprende-se a decodificar informações e denominar distinguindo sensorialmente os objetos, privilegiando contrastes opositivos ou harmonias complementárias.

Neste processo existencial: como reagir? O que sentir? Como intuir a natureza e o significado existencial dessas dicotomias criativas, igualmente, construtoras de saber e reveladoras de não-saber?

O processo suporta, ou afunila, dois entendimentos diferenciáveis como imediato-intuitivo, e reflexivo-interpretativo. Uma demanda de inteligibilidade, do ponto de vista da cultura instituída e eventual, fomentou a possibilidade de entender o fenômeno existencial de duas formas, determinando o surgimento de dois eixos de perspectivas metafísicas, no momento divergentes, ofuscados; mas, efetivamente, imbricados como dois madeiros de um cruzeiro inscrito num círculo.

Existindo o estado-de-ser entranhado em contextualizações criativas, naturais e culturais, [Ethos]: as linguagens e relações simbólicas, as configurações explicitadoras, intuitivas ou interpretativas, que se revelam nos ordenamentos locutórios e perlocutórios [Logos], assim como as artes, poética, ritos, cultos, arquiteturas e cantos [Mythos] operam em sincronia, em conjunto denotam a civilidade, a política e a gama de valores estabelecidos e vigentes. Essas relações, suas propriedades e características, correspondem, em tudo, aos significados dos termos descritores e conceitos definidores; precipuamente, as pedagogias e estruturas de saber e poder se vivenciam ao redor da apreciação fundadora e central da relação consciência-existência ou do modus metafísico que se reconhece: essa trindade essencial (Ethos, Logos, e Mythos) modula e instrumenta a apreensão metafísica que sustenta entendimentos, atos de fala, atitudes e realizações estruturantes do ponto de vista civilizatório[21].

6       Metafísica – saber paradoxal

Concentrar-se sem desvio no estudo dessa junção metafísica revela um estado-de-ser pleno, um rebis, como uma Fita de Möbius: uma estrutura paradoxal em que a consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram um símbolo que ajunta as dicotomias em um enlace cujo sentido terminativo é união.

Uma convergência, que por unir, relativiza as diferenciações e, na busca mais intensa, nulifica ou reabsorve o ato primeiro de consciência tributário da faculdade de discriminar; a união dissolve as distinções, repousam-se as luzes da razão no tálamo da natureza própria, uma junção radical onde inteira-se uma grandiosidade unitária e paradoxal que bem se reconhece, mas que ultrapassa os potenciais da compreensão: nada sei. Um ‘não-saber’ experiencial que volta a ser compreensível na disjunção ígnea que se extroverte afirmando o continuado paradoxo original ao redespertar a luz da razão que agora discrimina. Assim constitui-se a primeira grande certeza filosófica, com honor e justiça, dita ‘socrática’, enunciada desta forma: “sei que nada sei” – dita em termos teológicos: epifania, intenção radical da consciência no arco misterioso do incriado e do criado.

A revelação unitária agrega os anseios de saber da filosofia com os arroubos infindos da espiritualidade, pondo os termos conhecer e compreender a dialogar: deste modo, configura-se o núcleo fundador de uma filosofia instituída no eixo de perspectiva cosmo-existencial.

Evidencia-se que o termo ‘metafísica’ refere a uma impreterível relação do Cosmos e da esfera existencial, com uma apreensão centrada e resolutiva na relação da consciência com o que é ‘outro’, ordenando uma resposta, exigindo uma atitude. Num tempo só, um saber e não-saber testemunhando a impossibilidade de esclarecer a natureza, origem e limites da (auto)consciência como instância fundamental do próprio saber e existência;  a impossibilidade de descobrir e delimitar as fronteiras da (auto)consciência com a substancialidade, fundindo-se a dialética das intenções buscadoras e das praxes numa estrutura unitária e paradoxal. Um saber não-saber onde a realidade, percepção, sensibilidade e representação colapsam como nebulosas em coordenadas cosmológicas, com resultante universalização da apreensão cognitiva do estado-de-ser, humano e cósmico.

O estado-de-ser envolto em mistérios fascinantes perfaz todas as revelações e ciclos descritos pelos antigos, para retornar ao seu estatuto manifesto de homo sapiens sapiens gerador de poética e visões, odisseias, que congregam Ethos, Logos e Mythos num triângulo claro e sublime, ético, intelectivo e estético, fundindo os potenciais do Cosmos planetário aos do olimpo, reunidos como céu e terra – acontecimento e momento atual onde sempre se escuta tocar as trombetas e as conchas da vitória.

Um fundamento presencial, comparecimento nuclear, compartilhado por todos os existentes, idêntico e original, é a referência absoluta ao redor da qual acontecem todas as classes e categorias. Trata-se de uma referência que encontra expressividade exemplar na noção grega de momento (Kairos); uma apreciação tangível como uma mandala, instituída nas coordenadas da abstração e da estética sensíveis ao Belo; uma dimensão filosófica prima que coordena e flexiona todos os eventos e possibilidades, inclusive o conceito mais radical e sincrônico: ‘numinoso’, ou divino. Ninguém poderá apreciar o sublime que enraíza na união terminativa das res cogitans e extensa, imaginando-se ao lado, ou acima, reduzindo e deturpando a experiência sensível de Kairos numa ‘eternidade sobrenatural’, intangível e reservada. Apenas o momento criativo e absoluto, a partir de onde emanam sentidos, conceitos e especificidades variegadas e complementárias[22], permite o (re)conhecimento da harmonia e unicidade da consciência, da corporeidade e do mundo: a infinita primazia da justa noção de Cosmos que rompe as grandes dicotomias e enlaça as teleologias.

Tudo o que se pode conhecer refere, em todas as conjugações, à existência e a nós-mesmo como existentes, presentes e pertencentes. Trata-se da apreciação da plenitude do estado-de-ser, contexto e selo intuitivo de sabedoria, que, nas asas da apreciação estética e meditação profunda, eleva o existente a uma expressão infinda, paradoxal e jubilosa, nos arcanos do dado-a-ser. :  corcido de anuir com o real ou riado. Neste contexto, opinar sobre a existência, o mundo, a vida, em todos sentidos e destinos, pesos e graus, é opinar sobre si mesmo, em instância primeira e final: achar-se estranho, banido e indigno, necessitando de guias, só poderá levar a um retumbante fracasso existencial.

7       Da natureza cognitiva do não-saber

Em que se diferenciam: a predicação metafísica padrão, ou ortodoxia batismal transcendente-transcendental, equacionada entre as convicções do sujeito e os arcanos da suposição; do não-saber sábio, empírico-existencial, autêntico?

O não-saber sábio refere a um exame genuíno do fenômeno existencial, instituído no reconhecimento incontornável dos limites da razão (incerteza racional, ceticismo), acrescido do conhecimento terminativo, efetivo e empírico, maximamente depurado, referente aos longos alcances do saber intuitivo, onde se comprova a ambiguidade da dicotomia e a unidade paradoxal: busca resultando numa alquimia espagírica, um rebis misterioso, que revela a união do conhecedor e do conhecido, do visionário e da visão.

Trata-se de um encontro existencial em que os atributos, ou substâncias interdependentes, res cogitans e extensa, antinômicas e contrárias, reúnem-se num evento paradoxal, negativamente contido nos potenciais do saber: tabernáculo pleno e vazio de ser-e-não-ser, ponto de junção-disjunção, essência e mistério. Assim sendo, o não-saber cosmo-existencial institui-se por intuição e confrontações autorais, através de uma busca filosófica dedicada, corajosa, exemplificando o exercício magno das virtudes cardeais, resultando numa anuência lúcida e humilde frente ao dado-a-ser, no reconhecimento e aceitação do paradoxo e mistério existencial. É mais virtuoso cultivar um bom-senso justamente contextualizado de que cultuar insensatez, embora esperançosa. Sintetizando: conheço a unidade paradoxal da relação consciência-existência, logo, sei que nada sei,  caracterizando um não saber ciente ou sensato.

O dogma da ‘coisa-em-si’, fiador contemporâneo da ignorância mediévica, institui-se em três eventos: uma credulidade vulgar, fundamentada por mimese, aceita por imposição simples e ritualizada (acredito porque me foi dito e ensinado nos ritos da tradição); uma problematização de ordem racional, confrontada apenas pelos que pensam e meditam, as dúvidas da razão (incertezas relativas à natureza dos universais – alicerces da fé), acrescido de uma omissão das veracidades efetivas, autênticas ou experienciais; a desconsideração dos alcances filosóficos profundos da contemplação e saber intuitivo (não querer saber). Portanto, a ignorância e credulidade dogmático-teológica[23] estruturam-se por mimese, limitação e omissão, configurando um enredo falacioso de preconceitos e tabus; perplexidades que se divulgam e massificam por convencimento e imposição, sustentando infindas esperanças e predileções de natureza pragmática – causa efetiva e final: acredito na minha rica e proveitosa tradição batismal e não quero experimentar ou duvidar.

Logo, a diferença entre não-saber ciente e a credulidade teológica é abissal: um lado se caracteriza por sensatez e anuência, o outro por imprudência esperançosa e tripla rejeição; ser adepto da ortodoxia metafísica implica, a priori, imaginar-se afastado de três lugares, dois reais e um hipotético: o eixo cósmico – nas nossas dimensões, sol e planeta – não é reconhecido como berço original, potencialmente aconchegante, mas desterro indigno, destino dos gentilícios e indígenas; tampouco se reconhece na corporeidade uma estrutura incontornável; por fim, concebe-se um céu-telos factualmente ignoto, extrínseco e sobrenatural, antitético à vida, postulado como esfera cristalizada e imutável de perfeição apenas acessível na morte.

Ao apostolar aspirar um significado locado num além insensível, para sanar a sensação e ideia obsessiva de um “universo frio e sem sentido”[24], a perspectiva metafísica dualista, subjacente às ideologias catequistas, não se adéqua à experiência e ao imaginário vivaz das crianças, adolescentes venturosos, de artistas, pintores impressionistas, ou, ainda, de naturalistas encantados com o mar, os campos, as florestas e montanhas.

O cenário adequado, para quem escolhe descrever-se desse modo rompido (aceitando ser assim descrito), é, certamente, rebuscado, como uma clausura barroca, uma torre de marfim. Escolher ser dogmático e autoritário, ordenar atuações a partir de contextualizações culturalistas obsessivas e hipotéticas, implica três negações: negar a adequação da natureza humana frente aos universais, negar a excelência da luz natural da razão, negar a aptidão de suportar com lucidez as fronteiras entre saber e não-saber: isto é, renega, em bloco, a grandeza e perfeição cósmica, ao desconhecer ou desprezar a relevância ética do paradoxo, a lucidez do espanto frente à evidente comunhão dos opostos.

Recuar frente às completudes totalizantes, identificações universais e impressões numinosas, é negar e recusar a convergência paradoxal do estado-de-ser num símbolo inquebrantável onde a consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram uma unidade que ajunta e colapsa todas as dicotomias num enlace grandioso; é negar a evidência imediata do estado-de-ser unitário, para advogar uma hipotética to nas coisas materioas entificista e positivosa, desunião da substância e da essência, to nas coisas materioas entificista e positivosa, do existente e do Cosmos; é substituir um círculo cosmo-existencial e dialógico de amizade (symbolon) construído em torno de um ponto central de saber filosófico, conhecível como cheiro de terra molhada, por uma esfera teórica reservada e privilegiada, impositiva, evocando uma transcendência intangível; é destronar e banir a grandeza e beleza da diversidade e da interdependência, expressões criativas da teia que reúne o existente e o Cosmos; é trocar uma realidade surpreendente por uma esperança desvitalizada, infinitamente deslocada, conjuminada a um estado-opositivo, uma perdição instituidora de pusilanimidade e supremacias passageiras e vãs, sustentáculo de cruzadas, violências, aprisionamentos e desamores.

8       Das coordenadas metafísicas secundárias

Uma filosofia, quando universal (e para ser universal), deve permitir o claro reconhecimento das mitologias batismais generatrizes de movimentos civilizatórios que agremiam e estratificam nações em ordenamentos e coordenadas societárias metafísicas secundárias. A hermenêutica filosófica genuína permite a investigação e o reconhecimento das perspectivas metafísicas, subsequentes estruturações civilizatórias secundárias (como instâncias culturais e políticas, contemporâneas ou históricas), transformando a relação e ordenamento do estado-de-ser numa questão sensível, ética e estética, exigindo posicionamento.

As grandes opções e escolhas existenciais do estado-de-ser afunilam entre: 1) o posicionamento metafísico dualista, tributário de símbolos e mitos introjetados sem conhecimento – obediência batismal – e raramente discutidos, decorrentes carências de  explicitações; ou 2) o posicionamento metafísico monista, que reporta a intuições amplas e profundas, focado na meditação própria, paradigma experiencial que exige respeito à natureza e nega entregar lucidez e razão ao altar da ignorância, tampouco deposita fé em agraciamentos elitistas[25].

Neste ensaio, epiteto os dois eixos de perspectiva metafísica em exame, respetivamente, de ‘primal’ e ‘excêntrico’, acrescendo um qualificador comum, dito ‘generativo’, porque ambos são geradores de ordenamentos civilizatórios e coordenadas societárias metafísicas secundárias – instância da trigonometria societária. Precisamente, o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE), que explicita o posicionalmento genérico dito monista, é considerado ‘primal’, sendo o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (ePMTT), kantiano, explicitando o posicionalmente genérico dito dualista, considerado ‘excêntrico’ por não incluir o reconhecimento da união fenomênica na sua axiologia, ter sido instituído mais tardiamente, por superestratificação. A qualificação ‘generativa’ é comum por explicitar o potencial dos eixos como geradores de ordenamentos civilizatórios correspondentes às suas respetivas coordenadas societárias metafísicas secundárias.

8.1     Coordenada cosmo-existencial

A hermenêutica filosófica qualificada, exercitada com todos os valores da inteligência livremente reunidos em bom-senso, serve como instrumento geral, dialogando e marcando intenções a partir do finito existencial e do infinito cósmico, reafirmando um eixo existencial no qual se elabora um lugar em que vive o amor e a arte, uma civítica espiralando da terra aos céus[26]. O ePMCE, por descrever com realismo e sensatez o contexto fenomênico fundamental, amplamente intuído, natural, não necessita ser imposto por convencimento, bastando ser afirmado e lembrado. O projeto metafísico primal da experiência existencial explicita o que se intui, por isso, encoraja, quando necessário[27], a justa relocação da consciência frente à sua destinação cósmica. Um núcleo lúcido, como uma oca, possibilita a elaboração de uma trigonometria que coordena os arcos vitais do estado-de-ser: as coordenadas metafísicas secundárias típicas do ePMCE configuram uma trindade de eventos sociológicos, as psicogeografias naturais do Logos, do Ethos e do mito – respeito, convivialidade e criatividade. Trata-se da psicogeografia do bom convívio onde se consideram a natureza, os sentimentos e se honram as visões e os mitos mais virtuosos, cultivando uma terra fértil de sabedoria e coexistências harmoniosas.

  • Psicogeografia do Ethos: acontecimento integrando corpo-mundo e gênero-espécie instalados em nações, isto é: psicogeografia do lugareiro, aldeia hospitaleira onde a humanidade acontece alojada como pássaros justamente aninhados; marco sereno de saber e saúde,  como um bastão de ouro, ou caduceu, plantado em uma planície rodeada de montanhas e vales por onde rios serpenteiam.
  • Psicogeografia do Logos: sentimento e cognição[28], pilares da razão qualificada, tabernáculo do saber: uma rosa ou pinha que não para de florir, um anfiteatro interrogativo, uma mandala que flora e irradia saber na trama infinita que se vislumbra nas malhas vanguardeiras da imaginação própria e coletiva. Uma visão e uma trama que abrange às alturas, para repousar e imprimir a marca do Cosmos no contexto vital, glorificando a natureza, respeitando o outro, das cordilheiras aos himalaias: a mãe-terra, Pachamama e todas as suas criaturas.
  • § Psicogeografia Mítica: desenhando um templo, um panteão olímpico e vivo entre nós, onde se aprecia o entusiasmo dos poetas e artistas, dos  sábios e filósofos, visionários inventores, que expressam a esfuziante alegria das musas; realização onde se goza o prazer de ser natureza, onde se vive o céu das visões, habitando o templo universal das intuições; num voo planado nas alturas, encontra-se o portal mítico do saber e do não saber, onde se revela o estado-de-ser essencial, suspenso na infinitude dos seus potenciais, entre o tudo e o nada.

O humor, a retórica (agregado de poesia intuitiva e saber sensível), a fluidez das pontuações, permitem evocar múltiplos movimentos existenciais; decursos civíticos, compromissos pacíficos construídos à luz de uma hebegerocracia[29] somando o entusiasmo, a criatividade e a força dos jovens à sabedoria e razão qualificada dos anciãos, os dois pilares fundadores do bom governo. Uma estrutura civítica onde os serviços sociais básicos – a administração e cuidado das coisas públicas, o urbanismo, os sistemas monetários e de trocas – são praxes e dedicações voluntárias dos jovens, instruídos e orientados ao longo desse rosário incessante de diálogos e reuniões que acontecem nas praças e anfiteatros da cidade.

O posicionamento filosófico-existencial é, por necessidade, ‘psicointegrador’: por reconhecer a realidade incontornável do embasamento metafísico no mistério fenomênico que se conhece sem se explicitar; por firmar os pareceres finais no arco das apreensões intuitivas. Piscointegrador, mas, igualmente, ‘enteogênico’ por atender e suportar com virtudes numinosas o testemunho metafísico do desmoronamento da cognoscibilidade em incognoscibilidade nos confins do possível, na hora em que rompe a distinguibilidade e colapsam visões e visionários em unidade silenciosa e serena, como amantes reunidos na vida e na morte, no mistério do momento.

As virtudes cardeais, disposições basilares de veracidade, autonomia e responsabilidade, fundamentam as possíveis esperanças teológicas por permitir a irradiação dessa trigonometria comunitária instituidora de amizade e que guarnece a vitalidade e saúde de uma polis indígena, pré-colombiana, jônica, olímpica e universal. Uma civilização harmoniosa só pode resultar dessa triangulação ponderada (Logos, Ethos e Mythos) instituída como base da ação civítica: eis o justo assentamento, a intenção natural e fenomênica da consciência nas praxes cotidianas e arrebentos universais, marcando uma ação humana próspera e feliz.

8.2     Coordenada transcendente-transcendental

O ePMTT instituído numa apreensão fracionada das profundidades filosóficas, em todo caso aquém da natureza indígena, deve, para vigorar, ser introjetado por imposição batismal, educação e regime autoritário. Esse dualismo, aqui considerado ‘excêntrico’, mas ‘generativo’, reporta à uma historicidade sectária, instituidora de coordenadas societárias metafísicas secundárias afins – metodológicas, pedagógicas, culturais e políticas.

Tal eixo parece resultar de um intento malogrado de aproximação fenomênica, uma resistência receando a dissolução unitária onde se pode experimentar a certeza filosófica, socrática[30]; a concomitância da impermanência e desse rebis indeclinável, pontos terminativos de saber: dois aspetos integrados da unidade existencial, como reconhecido por filósofos de outras tradições e expresso na metáfora da ‘essência aquosa’ de Tales de Mileto e Heráclito (água, sempre presente e necessária, mas sempre fluida; rio continuado de travessias eternamente diversas), fluxo oriundo desse lugar imóvel e perdurante onde Parmênides de Eleia se descobre no centro uno da esfera absoluta[31].

No eixo dualista de perspectiva metafísica, cuja obsessão amedrontada se afirma numa ânsia messiânica, compreende-se o que é outro como domínio separado, e, a si mesmo como sujeito dubitativo, deslocado do seu ‘subjectum’ verdadeiro. Uma situação equívoca, resultante da não confrontação do mistério, geratriz de insuperáveis aporias, fortes polarizações e enredamentos apertados, onde: a fonte universal, geradora das distinções, se compreende como uma ‘coisa-em-si’ indistinguível, apartada radicalmente da esfera substancial e vital, mas postulada motor primo e categórico das distinções naturais; isto é, do mundo criado e das criaturas, embora, não por intermédio dos princípios naturais, domínio das causas criadas, mas de acordo com os postulados elencados nas hermenêuticas litúrgicas – in totum, uma proposição dogmática cuja causa substancial é acidental, sendo a causa efetiva o verbum litúrgico e a causa formal o advento epifenomenal de uma humanidade banida, sendo a coisa final uma agraciação como retorno ao reino da ‘coisa-em-si’.

O desentendimento labiríntico da apreensão terminativa, onde se agregam em união os atributos, é resultante e resultado de uma subcompreensão do símbolo reduzido aos seus valores semânticos (sinais de junção entre coisas e nomes no plano da reflexão), somado a um embotamento da sensibilidade estética a favor dos cálculos e abstrações idealísticas; verdades enlutadas, amordaçadas, tentando equilibrar significados que permitam a manutenção do status quo[32] e das concretudes provedoras do nosso pão de cada dia – frente às fragilidades das ideias, o proveito político, a consolidação do poder, parece ser o motor da perduração e domínio dessa tradição imperial e mediévica, a ‘causa substancial’.

Subjugado no ordenamento metafísico dualista não se reconhece que o símbolo, para poder reunir objetos e significados, gerar entendimentos efetivos, deve instituir-se numa lucidez continente e original, uma comunhão cosmo-existencial: união que reúne a criatura(ser) à criação(estado) num plano primordial sem o qual não se revela a possibilidade de entendimento dos significados evocados. A harmonização e cientificação que se realizam nas simbolizações não podem reportar a outros mundos: em termos pontuais, o juízo estético, amadurecido e clarificado na experiência numinosa, não pode simbolizar um divino ‘sobrenatural’, ele deve incluir, em enlaces contínuos, a totalidade dos termos relacionados ao arco intencionado do entendimento; isto é, anuir com a validade do processo simbólico[33].

Idealizar a existência de uma esfera criadora, separada dos gerenciamentos naturais, isto é, além dos potenciais cognitivos que operam distinções, logo, radicalmente ignota, mas postulada antecedente e apriorística, configura uma carência de razão e de fato como afirmaria Leibniz, uma penúria de sensatez. Trata-se da subsunção falaciosa de um não-saber radical, por uma hipótese insensata, necessariamente expressa com retórica elitista e impositiva. O positivismo[34] filosófico, ou cientificismo, supostamente dito ‘laico’[35], configura escola conservadora, em sinergia complementária às delimitações e privilégios instituidores históricos do dogma da ‘coisa em si’, dando suporte e vitalidade relativa a um ‘ente’ exorbitante, gerente das relações abusivas sujeito/objeto, a partir de uma trindade de coordenadas societárias metafísicas secundárias, resultantes incontornáveis dessas praxes elitistas.

O dualismo teológico e cientificismo, desvios de foco, comungantes como mão e luva, coordenam uma trina fantasmagórica, substanciada em retóricas, etiquetas, roupagens e arabescos sociopolíticos fundados em posicionamentos hipotéticos: 1) da ‘sujeição’: o campo fantástico sujeito alheado, ideando-se banido de um espaço imaginário; 2) da ‘objetificação’: o campo de busca das ‘ciências humanas’, onde  os indivíduos transmutam em objetos, recursos e experimentos de laboratórios; 3) da ‘especulação’: campo soberbo dos enviados e supervisores, de alguma forma, ligados à ‘coisa-em-si’, seja alegórica, mítica ou de gabinetes. Uma sociocracia que coordena e institui um ser tricéfalo, como o guardião mítico das profundezas, instâncias políticas e expressividades culturais residentes, alinhadas e em conformidade com o posicionamento metafísico reinante: as psicogeografias subjetivista, objetivista e teorética. Uma triangulação originando movimentos societários conflituosos, com frequência destrutivos, como nessas democracias onde os anseios das maiorias são legislados por especialistas e porta-vozes montados em haveres antes conquistados; burocracias, ditaduras e despotismos teocráticos que ainda vigoram.

  • A psicogeografia objetivista: coisa gravitando em determinismo e fatalismo, terreno seco e neutral da inteligência artificial, da robótica e das engenhocas, logística onde se desconsideram a intuição, a ética e atos de consciência virtuosos, porque imponderáveis: uma antítese e paródia insensata do Ethos, matriculando um ‘ente-objeto’ em estruturas lucrativas e coordenadas estatísticas.
  • A psicogeografia subjetivista: reino desse sujeito sem terra nem céu, perscrutando a si mesmo nos modos husserlianos, uma paródia e antítese egoica do Logos, evocando um ‘ente-sujeito’ enclausurado na cultura vigente, flutuando em brumas, escavando a si mesmo psicanaliticamente em busca de consolos e domínios ilusórios, procurando lastros e fundamentos nos reflexos do cogito.
  • A psicogeografia especulativa: operada por representantes ou observadores entronizados em privilégios; instituída em idealismos e teorias improváveis, desenhadas para consolar e guiar uma humanidade prostrada; as diversas formas de teologismos e esoterismos associado[36], a hermenêutica da ‘coisa-em-si’, paródia idealística do Mythos acenando futuros esperançosos.

Assim triangulada. a civilização padece doente e desunida, depressiva e sem foco. Nos embates em busca de acordos, a não ser excepcionalmente, os filósofos instituídos e instituidores aparentam assumir a posição confortável de não perceber que seus discursos volitam envolvidos nas esferas de influência das geografias que vitalizam e sustentam as manifestações políticas e possiblidades civilizatórias criticadas apenas negociando aberturas e lotes ínfimos de facilidades, em meio a um handicap central, jamais abordado ou raramente desafiado: a ideia elitista de um sujeito radicalmente transcendente, pilar dessa estrutura e edificação metafísica excêntrica e barroca em que vivem e professam.

Superar esses paradigmas constrangedores em busca de potenciais mais amenos, eco-humanistas, exige grande desapego, uma recolocação criativa do existente frente a si mesmo, à cultura e ao insondável divinal: um feitio  apenas exequível na coabitação de uma boa vontade fundamental, serena tolerância, de uma ousadia e resiliência filosófica transgressiva, somadas à realização intuitiva e destemida de uma nova visão.

9       novo alvorecer

Senão do ‘ponto de vista da academia’, mas da realidade existencial, existe uma filosofia mais sensata, um autoentendimento melhor ponderado, estruturado a partir de um eixo de perspectiva metafísica mais virtuoso.

Na natureza humana, a necessidade de agir não se institui como um anseio instintivo de nutrição e assimilação operando em situação de penúria, consolada na esperança de um além glorioso ou numa frenética e reativa acumulação de coisas.

A praxe de uma humanidade digna responde, antes de tudo, a um sentimento poético frente à existência, uma poiese que motiva, em direção a uma junção criativa com a natureza-mundo, instituindo coexistências e sentimentos harmoniosos, fundamentados num bom humor assentado na fonte unitária e genésica que faz reconhecer o Belo e abraçar o outro – nasce-se nidificado num útero fecundado pela união dos gametas e não extraídos de células depositadas em matrizes robóticas, proveta-mater de laboratório.

Uma experiência sensível e poética caracteriza o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial: trata-se da afirmação precisa e esclarecida da ‘luz natural da razão’ dessa forma equacionada. Uma intuição metafísica que gere uma visão plena não necessita instituir um divino imaginado distante e dogmático, tampouco uma norma forçando um simulacro de justiça e equidade – não há justiça assentada em privilégios e iniquidade. A visão da grandeza e da perfeição da natureza é instituída no cultivo das virtudes, que como as quatros direções, orientam o viajante tanto quanto o Cruzeiro do Sul brilhando no céu. Resulta dessa visão, símbolos e mitos consequentes, uma sociedade madura e sã.

Apenas uma perspectiva metafísica que saiba sustentar o exercício eficiente das virtudes cardeais em todos os recintos e ponderações da psique (apreciando e adequando os sentimentos e os pensamentos) é capaz de gerar uma apreensão abrindo em vida digna e pacífica. Essa aspiração em busca de uma praxe elevada à poesia nas correntezas  de um sentimento unitário e amoroso, aspira a uma visão totalizante onde flores azuis de centro branco e amarelo podem transmutar em céus ensolarados na intuição imaginativa das crianças, consagrando uma enteléquia gloriosa onde o fracionamento repartitivo do que exista se equaciona em uma generosidade natural que fomenta e alimenta as virtudes cardeais e sociais, temperando a realidade que se vive na direção das ponderações desejadas.

Este é o plano cognitivo essencial a partir de onde é possível desenhar um projeto vital ético e virtuoso: de uma boa filosofia resulta uma boa vida, naturalmente, decorrente da excelência e adequação fundadora. Não há oposição entre filosofia e sabedoria, âmbito gnosiológico e ético; entender o que é metafísico à luz da razão plena, valente de sentimentos, intuição, virtude e decisão, como deve ser a razão do homo sapiente sapiente, demonstra que o caráter relacional do ‘Eu’ não é de estraneidade, mas de união.

O ‘Eu’ não é estranho, mas nativo, natural, ‘terrâneo’, indígena, dilema de fácil resolução: a ‘estraneidade do Eu’, pedra fundamental da filosofia dita ‘ocidental’, é doxa instituída em credulidade e receio, sendo a união do estado-de-ser evidência espantosa e poética – uma configuração, ou Gestalt, mais virtuosa, inteligente e sensível.

Notas:


[1] Uma proposição filosófica contemporânea que reformula a relação com o que é outro, ou alteridade (de altérité: alteração, mudança): qualidades que se constituem nas relações existenciais onde os contrastes, distinções e afinidades caracterizam diversas intenções, potenciais e organizações. Na metafísica medieval o conceito de alteridade sugeria um eixo de relação, hoje excêntrico, contrastando o ‘Ser’ (original, espiritual, divino) versus o ‘alterado’, o ‘outro’ (o mundo como concretude material, natureza).

[2] O termo episteme não é, exatamente, usado como na filosofia grega, apontando um conhecimento verdadeiro, científico, em oposição à opinião infundada, nem, exatamente, no sentido ‘de paradigma central do saber’, como nova descoberta, destacado por Foucault (1926-1984): a utilização está em sintonia com essas definições, porém numa aplicação íntima, referente ao estado-de-ser, implicando a experiência existencial e uma realização filosófica: fundamentos epistêmicos refletindo e operando as virtudes que se experienciam como existentes: epistemes filósficas exitenciais, gnoseológicas.

[3] Uma expressão caracterizando um conceito filosófico existencialista rigoroso onde a relação com o mistério evocador da noção ‘divina’ se desdobra e institui no coração sensível do estado-de-ser, no ‘interior-em-si’. Um lugar concorrente, diverso do posicionamento kantiano onde a ‘coisa-em-si’, instituída no hipotético teológico da tradição e repassada em ritos, potencializa um conceito de divino apartado e representado, apenas acessível por agraciamento.

[4] Em relação ao conceito espinosiano, explicitado na Parte II de Ética; proposição VII: onde, no escólio primeiro dessa propositio, afirma-se: “(…) consequenter quod substancia cogitans et substantia extensa una eademque est substantia (…)”, i.e., (…) consequentemente, a substância pensante e a substância extensa são uma só e mesma substância (…): a apreciação profunda, genérica, que se institui no interior-em-si, remete à interface da relação consciência-existência que é a interiorização cosmo-existencial dessa “igualdade da ordem e da conexão das ideias e das coisas” apontado por Espinosa. Uma relação concentrada, imediata e sensível, na qual se configuram e estabelecem todos os eixos conceituais relativos às dicotomias mais elementares: sujeito-objeto, eu-outro, eu-cosmos, eu-divino, intelecto sensível e intelecto racional, esfera do desejo-vontade e esfera da representação, Eros e Logos, todos, em conjunto, integrando essa relação universal, continente e central, como atributos elementares. Na unidade conjuntiva dos atributos fundamentais de Espinosa, enraízam-se e explicitam-se esses atributos elementares.

[5] Numinoso: Segundo Rudolf Otto (1869-1927), teólogo e filósofo alemão, autor do termo, conhecido pela obra originalmente escrita em 1917, e, traduzida como “O Sagrado. Sobre o Irracional na Ideia do Divino e sua Relação com o Irracional. Lisboa: Edições 70”, numinoso, deriva de nume(n), como luminoso, vem de lume(n), referindo-se ao sentimento único vivido na experiência do sagrado, em que se fundem aspetos por ele descritos como fascinação, terror e aniquilamento. Por extensão o termo refere a um fenômeno experiencial, estético, assentado numa predisposição inerente ao estado-de-ser, razão qualificada burilada pela busca filosófica, sendo as suas características: um fascínio que, ao amadurecer, satisfaz e brinda o ânimo de sentimentos desaguando na experiência conotada como espanto místico, ou vivência da unidade, resultando num conhecimento e saber relativamente expresso por meio da filosofia, poesia, arte e ética , embasado num ethos fundamental, caracterizado por um profundo respeito à Natureza cósmica. Neste entendimento naturalista, o termo evoca um ‘encanto’ mais de que um êxtase, caraterística de que preconceitua essa realização como um transporto para fora de si e do mundo sensível.

[6] A partir da cosmovisão fenomênica desperta e integrada, a visão típica do idealismo racional – campo desfocado e impreciso desse ‘eu-sujeito’ advindo do além, perdido e posto nesse mundo’ – pode ser imaginada como um sonho lucido, ou pesadelo, algo onírico ou hipnótico que não reporta ao que existe, mas indutor potencial de comportamentos assombrados e desarmônicos, geradores de conflitos e distúrbios societários, graves embates e sofrimentos.

[7] Sym-bállein ou sym-bolon, símbolo num sentido completo, signo e reconhecimento de identidade no qual um objeto partido em dois, um disco, um anel, de que dois hospedeiros potenciais conservam uma metade, que comparadas e justapostas serviam para que os portadores reconhecessem, através desse unicidade, as relações de hospitalidade e identidade antes contraídas.

[8] Explicitações cientificistas, históricas e outras se desenvolvem na esfera existencial, viva e presente, dos observadores e cientistas (a facticidade do mundo e a facticidade do sujeito no mundo), mas seus predicados e valores explicitadores, diminuem à medida em que aumenta o volume e conteúdo do espaço-tempo, as lucidezes imaginadas e propostas pelo sujeito teorizador.

[9] O Cosmos manifesta ser um rebis fundamental (a soma de duas res (substâncias) opositivas e complementárias: re, bis: isto é re+re) –  reunindo os contrários e antinomias em uma imensa, sublime e versátil unidade: universo. Trata-se de uma evidência imediata, intuitiva, estética, definindo uma ética, configurando um Logos, um Ethos e um Mythos condizentes: os existentes vivem o ato de existir pertencendo radicalmente ao processo existencial, sentindo-o na primeira voz da conjugação.

[10] Símbolo de eternidade indiferenciada e retorno existencial, igualmente eternal, representado por uma serpente alada ou dragão que morde a própria cauda.

[11] Na publicação denominada “Sur l’homme et le developpement de ses facultés, essai d’une physique sociale” Adolphe Quetelet (1796-1874) apresentou sua concepção do homem-médio como somatório de medidas características agrupadas em curva de normalidade.

[12] Advogando: de um lado: 1: a existência do um sujeito racional e empírico (esfera transcendental, reino humano), e, do outro, como a priori categórico, 2: uma ‘coisa-em-si’ insondável (esfera transcendente, reino divinal).

[13] http://www.essencialismo.org.br/ – a apreensão metafísica da perspectiva cosmo-existencial.

[14] Nota: asseidade, entre os escolásticos, é o atributo divino que consiste em existir por si próprio, causa ou o princípio de sua própria existência, incriado, absolutamente autônomo; no pensamento de Duns Scotus (c1265-1308), hecceidade, ecceidade ou ainda ipseidade significa caráter particular, individual, único, de um ente, que o distingue de todos os outros (o termo ‘ipseidade’ foi reintroduzido no s.XX por Heidegger): ocasionalmente, uso o termo seidade (sem os demonstrativos) rompendo as antinomias destas definições: i.e., apontando na direção dos caráteres universais, autênticos e reais. Nota-se que o conceito biológico autopoiese passa, por definição, a ser um sinônimo do conceito escolástico asseidade, bastando substituir o termo ‘divino’ pelo termo ‘universo’, ou ‘natureza’: autopoiese: o atributo ‘universal’ que consiste em existir por si próprio, causa, ou princípio, de sua própria existência, incriado, absolutamente autônomo.

[15] Como apontado por Maturana e Varela, autores do livro “A árvore do Conhecimento: Editorial Psy II, 1995”: a evolução é uma deriva natural, produto da invariância da autopoiese e adaptação. Uma organização autopoiética [ou autopoiese] implica em uma rede de transformações dinâmicas produzindo a totalidade dos seus componentes. Projetando esses dados biológicos ao entendimento do caso humano: essa rede de transformações produz realidades, todos os estados existenciais; a natureza homo sapiens dotada de capacidade moduladora, no exercício do ato da discriminação: realizações existenciais, ao mesmo tempo, cumprindo determinismo e direcionando a evolução, em grau progressivo de intencionalidade na escala evolutiva; revelando-se uma incorporação de criatividade; auto-criatividade.

[16] Ritos batismais perduram, dificilmente desafiados: podem envolver o estado-de-ser (espontâneo naturar-naturando) de um véu que faz aparecer um ‘sujeito estranho lançado em lugar ingrato’, ou, um ‘enviado especial’ destinado a guiar os ingratos, ou, ainda mais raramente, com simplicidade e naturalidade, um sujeito-cósmico particularizado, jorrando da fonte como um fractal.

[17] Olhai para as aves do céu… Considerai como crescem os lírios do campo… (Sermão da da Montanha).

[18] Para ser mais um obreiro colaborando à construção de um sujeito objetivado, reduzido a uma figura teórica e abstrata, observador hipotético e ideal, isolado da vida e do mundo.

[19] “Não se trata, contudo de saber qual é a melhor filosofia a ser escolhida, para fins acadêmicos, não há filosofia melhor ou pior, talvez sim mais consequente ou menos consequente” – p. 14; Pelizzoli, M. L.; O eu e a diferença – Husserl e Heidegger; EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002.

[20] Superestratificação: situação social hierárquica e polarizada, típica dos estados nacionais; demonstrada entre grupos sociais diferenciados quanto ao seu poder político, prestígio e acervo econômico; situação originada em procedimentos históricos de invasão e dominação, i.e., de posições vantajosas, resultados de conquistas e subjugações ancestrais, transformadas em direitos adquiridos e hereditários; o termo é definido em Rustow Alexander; Freedom and domination; Princeton University Press; 1980.

[21] Do ponto de vista da significância das estruturas linguísticas e simbólicas que se delimitam no exame dessas perspectivas metafísicas (entrosando cosmovisões, coordenadas societárias, civilizatórias e biopsicossociais estruturantes) configura-se um verbum considerável, abrangendo um arco cuja ‘performance’ supera o que foi descrito, até o pensamento de Jürgen Habermas: um ato criador que, em outros ensaios, denomino ‘ato de fala ortolocutório’. (Barbier, RA; Manifesto Essencialista 03 – essencialisomo.org.br).

[22] Os atributos reunidos de Espinosa, res extensa e res cogitans, configuram uma matriz ou Gestalt que abarca os demais eixos dialógicos em todas as escalas: como sujeito e objeto, intelecto sensível e intelecto racional, esfera do desejo e vontade e esfera da realidade e representação, Eros e Logos, arché e physis, intuição e razão, absurdo e lógico, ser e ter, substância e essência.

[23] O louvor da inocência crédula epitomada na fraseologia de Tertuliano (160 – 230), ‘é certo porque impossível’, e, sintetizada como credo quia absurdum.

[24] A esperança sobrenaturalista (instituída na dificuldade estética de reconhecer o Belo e sublime vigente na natureza como água para peixes) é conotada em questionamentos insensatos e depressivos. O dilema é fundamentado nesse ‘conhecimento-desconhecimento’ inerente ao mistério da relação consciência-existência: uma aversão ao mistério e ao silencioso espanto metafísico, parece refugar o pensamento em agitações e questionamentos inúteis: “Deus existe? A vida tem sentido? O Universo tem uma face? A morte é minha irmã? A estas perguntas a alma religiosa só pode responder: não sei. Não sei, mas desejo ardentemente que assim seja, e me lanço inteiro, porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido (…)” Rubem, Alves. O que é religião? – Edições Loyola, São Paulo (2007).

[25] A expressão depositar fé em agraciamentos elitistas, lembra a famosa história da captura de Atahualpa. O Inca foi capturado e condenado à fogueira por heresia após jogar ao chão uma bíblia que lhe foi oferecido para que se convertesse. Em resposta, as forças de Pizarro, emboscadas, dizimaram milhares de indígenas. Em troca de um resgate, ofereceu-se uma promessa de liberdade ao Inca: um quarto cheio de ouro e dois de prata até a altura que a mão alcançasse. Os conquistadores receberam o resgate, mas não libertaram Atahualpa que foi estrangulado.

[26] Um movimento expresso num dos totens andinos onde a força vital é  representada como um puma, o amor e a arte como um casal de indígenas, compassando uma forma civítica de viver, espiralando num movimento societário, como um caduceu, cuja perfeição chega às alturas como uma águia ou condor.

[27] Sendo necessário e urgente na situação vigente, onde predomina a perspectiva TT por globalização, levando a um imenso e anunciado fracasso cultural e civilizacional.

[28] A essência, como significado vivo e fundamental, foi transformada em espirito (‘spirit’) pelos teístas sobrenaturalistas, e, o sentimento profundo, em alma: dessas forma, dissociando o indivíduo do seu lugareiro e frente vital, inaugurando uma forma psíquica rompida, um desmembramento de Psyché – uma perdição.

[29] Compósito de ‘hebe’ (jovem); ‘geron’ (ancião); e ‘karcia’ (força).

[30] Quando Sócrates, sob o efeito mortal da cicuta, solicita a Críton pagar, por ele, um galo ao Templo de Esculápio, “Críton, somos devedores de um galo a Asclépio; pois bem pagai a minha dívida, pensai nisso” , de acordo com os costumes da época, ele agradece uma cura ao deus da medicina. Um evento intrigante, discutido por Nietzsche, entre outros: o que ele estaria curando no momento final desse extraordinário e rigoroso encontro de valores? Entendo que Sócrates reconheceu-se curado ao vislumbrar a dinâmica criadora que enlaça e agrega: 1) a certeza do bom conhecimento (o âmbito visionário da estética, ética e filosofia), e, 2) a incerteza, o não-conhecimento (os limites impreteríveis de compreensibilidade que se produzem no imo terminativo da interface consciência-existência, sujeito-objeto, onde não se delimita o ponto de distinção, ou mutação, entre o que é ‘si mesmo’ e o que é ‘outro’). Um evento essencial que colapsa a totalidade dos confrontos e se comprova na meditação mais profunda: fenômeno paradoxal e espantoso, condenando e redimindo num mesmo enlaço; uma realidade exemplar, de razão e de fato, demonstrada, em todas as coordenadas, nesse momento socrático, privado, público e histórico, e, que é porque é, trama criadora, serena e perfeita cuja virtude repousa – quem sabe, glorificando os justos, condenando os ímpios.

[31] “Flutuando no ânimo descrito por Tales; inspirando o ar de Anaxímenes, Parmênides, régio, guiado pelas etéreas Virgens do Sol, se afasta do mundo em busca do “áperion” de Anaximandro. Já na redoma, meditando ‘physis’ (metafisicismos), ele se descobre, como uma estátua de mármore branco, no centro uno da esfera absoluta: os movimentos da vida acontecendo como reflexos, além da translucidez. Parmênides vapora o mundo sensorial num tecido uniforme e diáfano, com o qual constrói um balão; transforma-se no ar translúcido, e assentado no ponto central da insuflação cósmica, declara com autoridade e firmeza: “é preciso dizer e pensar o que é o ser: pois existe, sim, um ser absoluto e imutável. A seguir segue declamando o seu poema: “Jamais poderá existir força de constrangimento que faça ser aquilo que nada é!””. Excerto de um Ensaio publicado em: Filosofia, Ciência & Vida Especial – no 2; Editora Escala, SP; Barbier, Régis Alain; Portal da Existência, p.72.

[32] Status quo instituído na cinzas do imperialismo romano e da ignorância mediévica.

[33] Uma situação que lembra o paradoxo dito de Russell, que surge por violação do princípio do círculo vicioso. Embora desconsideradas  por pensadores positivistas, as duas res, extensa e cogitans, configuram uma unidade funcional e fenomênica, não deixando nenhum espaço sensato para uma relação efetiva entre uma demanda idealística e positivista de ‘dicto’ e de ‘re’ (entendendo-se re+re como uma agregação que desconsidera a sacralidade da unidade espinosiana e reduz a unidade Deus sive Natura a um materialismo e a consciência a um epifenômeno). Ao menos, em mim não existe dois seres com intelectos diversos, ou, um ser com dois intelectos, um subordinado ao outro. A razão que posso comprovar e una, inteira, não se degrada por comprometimento e subordinação a sistemas hipotéticos. A busca, ou conato, aproxima e cria, o significado reúne.

[34] Embora não tendo utilidade filosófica, o positivismo, como instância metodológica, artefato experimental restrito aos aspetos tecnológicos e produtivos do processo existencial, demonstra utilidade e possível adequação, de acordo com a moralidade  subjacente.

[35] O laicismo carcateriza uma impossibilidade teórica como a sobrevida de anencefálos: o divino, ordenamento magno do Belo e do numinoso, foco maduro e essencial de lucidez e saber, não pode ser evitado, a não ser degradando a humanidade – a evolução psíquica leva ao Belo. A fundamentação metafísica é terminativa: ordena os processos civilizatórios, quer sejam círculos dialógicos e participativos ou pirâmides faraônicas. Mesmo quando deslocado do seu justo lugar, que é o centro do círculo societário expressando uma civítica plena, regente de todas as artes, que realiza os sonhos de liberdade e fraternidade. A metafísica não pode ser erradicada, apenas reprimida ou sublimada num sentido pervertido, gerando supremacias partidárias.

[36] Há duas formas de esoterismo, o esoterismo filosófico, alquímico, ligado à ciência do rebis e o esoterismo sacerdotal, hipotético e mágico.

Teologia-Política – uma Súmula

Régis Alain Barbier – Aldeia, setembro de 2012

Que sejam honrados os filósofos e poetas que reconhecem a perfeição da relação cosmo-existencial, a grandeza e beleza do paradoxo unitário.

Da visão mais honrosa

Uma via filosófica deve permitir o claro e preciso reconhecimento dos possíveis eixos de perspectivas metafísicas, mitologias, ritos correlatos e decorrentes coordenadas metafísicas secundárias que configuram os ordenamentos psicossociais, socioculturais e sociopolíticos dos indivíduos. Desde o início, a filosofia profunda interpela o indivíduo ao enfocar o ambiente singular onde a reciprocidade consciência-existência comunga e dialoga: o ‘interior-em-si’.

A intuição filosófica consequente permite apreender a coexistência consciência-existência como uma juntura mística indutora de eixos de perspectiva metafísica e as coordenadas derivadas como princípios civilizacionais. Princípios ou eixos de perspectivas metafísicas, coordenadas psicossociais decorrentes configuram e norteiam o talento e valor dos indivíduos, suas organizações e ordenamentos políticos.

Nesse fundamento primeiro, instituído na apreensão profunda e original da juntura consciência-existência, estabelece-se um eixo de perspectiva metafísica que se generaliza e se transmite através dos mitos e ritos cultuados, correspondentes imersões e contágios culturais, para moldar as estruturações psíquicas e societárias, condicionar vivências, realizações e limitações – vias psicossociais e políticas de prazeres e sofrimentos.

A revisão filosófica dos sentimentos e visões, dos entendimentos e dos mitos que reportam ao estado-de-ser poderá modificar as intuições, perspectivas, ritos e decursos existenciais; impressões metafísicas batismais infelizes não entravam a realização de opções mais sublimes e côngruas, apreciações e escolhas filosóficas livres e conscientes que minimizam o sofrimento e maximizam o prazer e a glória de existir.

Das escolhas civilizatórias

As grandes escolhas existenciais afunilam entre: a) o posicionamento metafísico excêntrico, transcendente-transcendental, sectário e hierarquista, fonte de inquietudes e dúvidas; b) o posicionamento metafísico original, cosmo-existencial, criativo e combinante.

a) Posicionamento metafísico excêntrico, transcendente-transcendental: o dualismo teocrático e o cientificismo, políticas hierarquistas e privilegiantes, desvios de foco coligados e comungantes instituem e conformam fenômenos societários opositivos regidos por uma trina correspondente de coordenadas metafísicas secundárias; o subjetivismo, antítese egoica do Logos, o objetivismo, desnaturação insensata do Ethos e o dogmatismo, desvio idealístico e exorbitante do Mythos; o reino da ‘estraneidade do  Eu’ onde o indivíduo decai num ‘sujeito-objeto’ coletivizado e massificado, um pagador de penitências e promessas, joguete dos sociocratas e hierarcas, alienado dos educandários, paciente incurável das psicanálises.

b) Posicionamento metafísico original, cosmo-existencial: a razão filosófica qualificada define e afirma o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial através do qual se elaboram as coordenadas secundárias que permitem o livre exercício da virtude, da civítica e das artes. A intuição metafísica mais justa e prudente configura uma trindade de eventos onde se integram o corpo e a natureza, Ethos; o saber e a inteligência, Logos; revelando-se uma sublime inspiração, Mythos: criativa e paradoxal integração metafísica unitária supera, com benefício e glória, o sofrimento natural, instituindo o reconhecimento da justa e perfeita natividade universal do estado-de-ser, decorrentes adequações civíticas, valores e sensatezes científicas existenciais.

Existente universal antes de cidadão, cada indivíduo deve definir o seu valor frente a si mesmo e ao que é outro; explicitar a relação da sua própria consciência com a existência, delimitar o seu estatuto metafísico, escolher o seu destino: “Homo sapiens, querendo fazer jus ao que és, não poderás fugir da tua responsabilidade! Quem és tu? Autonomia ou servidão? Adequação ou inadequação, estado-de-ser justamente situado, ou pariá impuro e deslocado, mendigo desprivado de saber, méritos e valores?”.

O exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e aos potenciais do estado-de-ser. À luz de uma razão simples e desembaraçada, o encontro com o Belo é natural, não relata uma dialética culturalista, tampouco depende de fundamentos sectários e privilegiantes, é previsto na lucidez, bondade e valores que o vivente afirma: a justa apreciação do Belo implica uma realização estética, teológica e política.

O panteísmo de Eros

A natureza humana só pode assegurar a sua vitalidade e justificar a sua identidade valorizando e recordando o que é mais fundamental: a jubilosa união original e cósmica de todos os viventes. O estado-de-ser, justamente compreendido, expressão vital cosmo-existencial configurada humana, coordena um caminho de lucidez, uma praxe, que afirma um enlace concordante, unitário e essencial que antecede as ilusórias divisões ideológicas e superestratificação das nações em estados e áreas geopolíticas.

A coordenada consciência-existência configura um fenômeno metafísico portentoso que pode ser intuído e significado com razão qualificada e amor próprio, respeito a si mesmo e todos os viventes: é o assentamento magno da consciência e responsabilidade civítica, o fundamento justo e necessário de uma nova civilização.

A virtude fundamental atribuída à juntura consciência-existência manifesta um posicionamento existencial e civilizatório ou um eixo de perspectiva metafísica, instituidor de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia gloriosa e vida digna.

O tabernáculo da essência

A coexistência dos eventos simbolizados e simbolizantes, a reunião da consciência e existência num enlace criativo tende a manifestar e colapsar o que se discrimina e intenciona na esfera psicossocial; por isso, não reconhecer no outro o tabernáculo da essência, a juntura paradoxal, o âmbito sagrado onde consciência e existência igualmente comungam e revelam a sua ineludível reciprocidade, é pretender destituí-lo do seu peso e valor; mas, com certeza, agrava a si mesmo em igual proporção essas alegações soberbosas, por desprivar-se do acesso intuitivo à essência unitária e inteligência universal. Advogar um conhecimento existencial reservado em privilégios, cultivar essas crenças crava um abismo metafísico entre si e a realidade, cria um vale de ignorância e correspondente ilusão de estraneidade e separatismo maniqueísta. Não reconhecer a reciprocidade pervasiva e unitária do estado e do ser, supor existir enigmas e esoterismos apenas acessíveis em função de atributos ideológicos ou políticos, determinantes étnicas, cronológicas, ou outros casualidades exemplifica um sectarismo destinado ao fracasso.

A filosofia profunda, essencialista, focaliza o ‘interior-em-si’, ambiente onde consciência e existência comungam e revelam uma ineludível reciprocidade. Postula-se a união existencial da consciência, do corpo e do mundo numa totalidade paradoxal. Sendo a unicidade a indissociável juntura dos significantes e dos significados, é, igualmente, símbolo vivo e imediata conjuntura metafísica: o fenômeno existencial é a identidade do dado-a-ser, a relação consciência-existência, exemplificada por cada vivente  é o tabernáculo da essência, a arca imaginada perdida do saber.

Essa unidade é categoria existencial original, refere-se à configuração metafísica primordial que explicita a harmonia natural e encoraja a justa inserção do estado-de-ser frente à sua destinação cósmica. O reconhecimento desse estado-de-ser reestabelece o eixo de perspectiva metafísica primordial, modo de ser evidente e virtuoso em que o Cosmos mensurável e os seres sensíveis se ajuntam num estado-de-ser único, integrado e esférico, com resultantes potenciais de harmonia civítica e florescimento civilizatório. O justo reconhecimento do status quo existencial motiva o exercício atento e equânime da razão qualificada e coordena o vivente em direção a uma praxe digna e sentimentos poéticos que fazem reconhecer o Belo e permitem afirmar força, autoridade e mérito, peso e valor esplendoroso no campo existencial.

Se existe algum privilégio frente aos mistérios existenciais, só poderá ser a capacidade de reconhecer e aceitar a reciprocidade pervasiva e unitária do estado e do ser, em si mesmo, no outro, em todos os existentes reinos da natureza: reconhecer a adequação da natureza e  humanidade frente aos universais. O espanto filosófico, admirável influxo de inteligência, resulta da justa intuição dessa natureza-ser, revelando um momento criativo em que o estado-de-ser lúcido se propõe a celebrar e cultivar a harmonia genésica que origina e vitaliza. Ser virtuoso é prezar a relevância ética do mistério e a excelência da razão natural. O peso e valor do indivíduo se afirma no respeito ao outro, reconhecendo-o como tabernáculo original e idêntico da mesma e idêntica essência universal.

Da necessidade de um fundamento teológico

Reconhecer a unidade paradoxal e genérica do estado-de-ser, sua adequação e valor, configura uma gestalt integradora, apta a dinamizar e coordenar expressividades civíticas e socioculturais amenas como a idealizada pelos sábios e terapeutas de todos os tempos:  estruturações econômicas, políticas e pedagógicas, dialógicas e participativas, virtuosas, de acordo com as configurações míticas que correspondem.

Inversamente: desconhecer a unidade paradoxal e genérica do estado-de-ser, sua adequação e valor, em prol de uma preponderância estatal-imperial, vulgarizada por imposição ideológica e revolução cultural, configura uma gestalt imperativa, sectária e hierarquista, que dinamiza e coordena as expressividades políticas e socioculturais típicas da nossa era-calendário; estruturações econômicas, políticas e pedagógicas, sociocratas e corruptas, de acordo com as configurações míticas que correspondem.

Epistemes e paradigmas que exaltam a alegria e dignidade essencial e natural do estado-de-ser autorizam e liberam o advento de uma comunidade virtuosa. No reconhecimento do fundamento metafísico unitário do ser-estado, os sofrimentos naturais resultam minimizados em processos culturais harmoniosos e sóbrios onde se valoriza a dignidade de ser o que se é, o bem-estar ético dos indivíduos.

Inversamente: epistemes e paradigmas que exaltam o sofrimento e degradam a dignidade essencial e natural do estado-de-ser impossibilitam o advento de uma comunidade virtuosa. No desconhecimento do fundamento metafísico unitário do ser-estado, os sofrimentos naturais resultam acrescidos de páthos culturais exorbitantes onde se desvalorizam a dignidade de ser o que se é, o bem-estar ético, onerando o processo existencial de dimensões surreais e determinismos hipotéticos que exaltam o sacrifício.

Advogar a existência de uma consciência lúcida e natural, inseparável do estatuto existencial e sensível, evocar um acesso livre e singelo ao conhecimento fundamental, caracteriza um eixo universal e congruente de perspectiva metafísica, embora ainda pouco reconhecido. Mesmo formado em circunstâncias educativas imperfeitas, o estado-de-ser saudável sente-se agraciado na natureza, pensa-se integrado à existencialidade dada-a-ser, identificado à totalidade, digno vetor de saber, autêntico e meritório por estar vivo e pertencer à ordem universal, talentoso e poético, esteta, amante e admirador da grandeza e beleza da natureza.

Inversamente: advogar a existência de uma ‘consciência pura’, separável do estatuto existencial e sensível, evocando um acesso privilegiado e reservado ao conhecimento, caracteriza um eixo sectário e absurdo de perspectiva metafísica, embora popular e vulgarizado. Mesmo quando formado em circunstâncias educativas ingratas, condicionado de acordo com os interesses de estados e priorados conjuminados, levado a  se pensar estranho à existencialidade dada-a-ser, depauperado do essencial, sem identidade e sem rumo, surreal e banido, sem peso e sem valor, destinado a amar e tolerar a dor e o sacrifício, o indivíduo mais intuitivo e criativo, o esteta talentoso e poético que admira e percebe a grandeza e beleza da natureza, sente-se insultado e traído frente a tais disparates.

Justamente triangulado, a favor de um bom mito, assentado numa justa intuição metafísica,  de uma boa retórica que saiba louvar e exaltar o amor ao Belo, a civilização e estado-de-ser exultam nos ordenamentos de um digno parecer central; o reconhecimento de si como sujeito ciente, integrado ao corpo, ao mundo e à geometria universal, ou ordenamento cósmico entendido como plano divinal, uma criatura apta a se dirigir e guiar por si só, visionária, conhecedora inata da harmonia cósmica: a natividade do ‘Eu’ como pilar da edificação societária, correspondente comunitarismo participativo e virtuoso, agente-mor de uma justa orientação civilizatória. Tais entendimentos e valores são fadados a produzir a elaboração de narrativas e historicidades côngruas, resultantes processos psicossociais e civíticos concordantes e proativos. Provido da sua herança universal, o indivíduo é livre para criar modelos culturais prósperos e respeitosos.

Inversamente: assombrada numa ideia de si nefasta, enclausurada em retórica decadente, dogmática, enredada em subjetivismos destituídos de valores, objetificada como recurso produtivo, assim triangulada e domada, a civilização e estado-de-ser padecem nos ordenamentos de um prejuízo central raramente desafiado: a ideia de um sujeito alienado, estranho ao corpo, ao mundo e a um hipotético ‘plano divinal’, um pariá necessitado de ser guiado, encurralado e salvo por imaginados portadores de saberes transcendentes e privilegiados: a estraneidade e perdição do ‘Eu’ como pilar da edificação societária, correspondente elitismo espúrio e corrupto, agente mor da desorientação civilizatória. Tais desentendimentos e desvalorizações são fadados a condicionar a elaboração de narrativas e historicidades incôngruas, resultantes processos psicossociais e políticos discordantes, sectários e defensivos. Desprovido da sua herança universal, o indivíduo passa a ser refém de padronizações culturais e sectarismos.

Saber descrever a juntura unitária consciência-existência, compreender-se integrado ao tudo, ao corpo, ao mundo, reconhecer-se existindo justamente locado no plano divino-universal, orientado, apreciador do Belo que alimenta a glória de ser o que se é, leva à serenidade, à equidade e felicidade. A ponderação universal do horizonte metafísico estimula a floração do estado-de-ser, permite visionar metáforas integradoras e narrativas concordantes em prol da evolução biopsicossocial da natureza humana, das esferas mais instintivas e egoicas em direção aos decursos civíticos da razão qualificada.

Inversamente: não saber descrever a juntura unitária consciência-existência, compreender-se estranho a tudo, ao corpo, ao mundo, imaginar-se deslocado de algum plano divino-universal, sem rumo, necessitando orientação normativa, condena à angústia, à iniquidade e ao sofrimento. A polarização sectária do horizonte metafísico inibe a floração do estado-de-ser, impede visionar metáforas integradoras e narrativas concordantes em prol da evolução biopsicossocial da natureza humana, das esferas mais instintivas e egoicas em direção aos decursos civíticos da razão qualificada.

De interpretações positivas, constituída em mitos, seladas em ritos, usos, costumes, retóricas e etiquetas concordantes, mana uma cultura e um discurso dito e contado na primeira voz, onde todos reportam e produzem palavras libertadoras, pensadas com sinceridade, para si e para todos, resultam circunstâncias criativas que condizem com o que, lucidamente, se acredita ser e se cultua: um ser humano espirituoso, instituído de autoridade, méritos e valores, incluso na esfera criadora.

Inversamente: de interpretações opositivas, condicionadas em mitos, seladas em ritos, usos, costumes, retóricas e etiquetas excedentes, cultura sub-rogada onde poucos ousam falar por si, mas reportam e produzem discursos subservientes, feitos e pensados por outros ou para outros, resultam circunstâncias frustrantes que condizem com o que, obsessivamente,  se acredita ser e se cultua: um ser humano delegante, destituído de autoridade, méritos e valores, excluso da esfera criadora.

O sentido mais prudente e precioso dessa junção misteriosa, ser-estado, se institui e se explicita à luz da autoridade filosófica do estado-de-ser: no ‘interior-em-si’, selado e perene, ao abrigo das aparências, preconceitos, revoluções e imposições culturais.

O desconhecimento da relação unitária ser-estado, ignorância condicionada, ritualizada e escriturada em normas entranhadas em elucubrações ideológicas insensatas e vulgares, é a causa mais profunda das desarmonias e injustiças, todas decorrentes dessa falta de saber e respeito.

Na realidade clara e justa do contexto existencial, intuído como juntura unitária e paradoxal consciência-existência, indivisível e recíproca, o caráter relacional da natureza-ser, do ‘Eu’ explicita uma natividade intrínseca, um conato que nutre e alimenta julgamentos elogiosos, integrantes, civítica participativa, artes inspiradoras, que enobrecem  a natureza universal dos viventes. Desta humanidade vigorando na trama civilizacional mais condigna, todos incluídos e acolhidos na virtuosa e perfeita causalidade universal, poderão no exercício da retidão e amor, encontrar esse abrigo interior, vertente onde se reconhece a equanimidade dos destinos, a grandeza paradoxal e realeza da união cosmo-existencial que eleva e ilumina as crianças e os simples.

Na realidade deturpada e infeliz entendimento do contexto existencial, intuído como campo de provas, banimento e castigo, o caráter relacional do ‘Eu’ será sustentáculo das estraneidades multíplices – ideologias separatistas, políticas privilegiantes e outras hierarquizações prepotentes – deturpadoras da natureza universal dos viventes. Desta humanidade enredada  nos estorvos dessa civilização de pouca visão, decadente, talvez, apenas a horda dos refugiados, marginalizada dos aparatos e ordenamentos cívicos típicos dos estados, poderá, eventualmente, no exercício da superação e desapego, encontrar esse abrigo interior, vertente onde se reconhece a equanimidade dos destinos, a grandeza paradoxal e realeza da união cosmo-existencial que eleva e ilumina os simples e destrona os prepotentes.

Probidade teológico-política

Reconhecer o justo assentamento da essência no arco cosmo-existencial é fundamento teológico-político de harmonia e prosperidade. A justa intuição e reconhecimento do estado-de-ser essencial, reunião mística da consciência e da existência, Cosmos, subsequentes repercussões emotivas e significados configuram-se e condicionam-se em relação às impressões míticas cultuadas pelos probantes. Esse assentamento cosmo-existencial fundamental ou estado-de-ser, vias existenciais decorrentes, é passível de ser comprovado, em maior ou menor profundidade, por todos os humanos típicos, visionários e criativos: a juntura consciência-existência é sistêmica, recíproca, categórica e permanente; cósmica.

Recordando chega-se até aos primórdios verdadeiros, ao início do dia, ao momento no qual o mundo nasceu comigo. Evidências poéticas e categóricas nesse grande presente unitário onde ‘Eu’ existe integrado, sempre o mesmo e sempre diverso, universo.

Desenvolvido por: Midia12